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[Período Sengoku - Aokigahara / Ao amanhecer]

*Pov. Kikyou*

O grito de mais um aldeão rompeu o silêncio da enorme caverna congelada e eu fitei Naraku com visível irritação.

Ele havia feito daquele lugar seu novo esconderijo, aos pés do Monte Hakurei, não mais protegido pela barreira pura que a cercava outrora. A caverna era grande o suficiente para abrigar seu castelo e por isso eu compreendia a ideia do lugar.

O que eu não compreendia era o motivo dele permitir que os goblins permanecessem na caverna, devorando as crianças, idosos e doentes que eram abandonados para morrer na floresta próxima dali.

– Por quanto tempo teremos de ficar aqui, Naraku? – Perguntei, chamando a atenção do meio-youkai. Ele olhava para fora com um semblante divertido. Senti asco.

Por um instante, ele apenas me encarou, ponderando sobre algo, antes de se virar novamente para olhar o exterior pela varanda. O sorriso sombrio nunca deixando seus lábios.

– Ora, está com pressa, minha querida Kikyou? Não se preocupe. Em breve poderá vê-lo, e claro, ter sua alma completa.

– Até lá, o que espera que eu faça com você e aquele youkai serpente aqui? Você está longe de ser confiável, Naraku, mas acredite, ele é pior.

– Assim fere meus sentimentos, sacerdotisa. – Cínico, sua voz invadiu a sala. Era Orochi.

– Hunf.

Mais gritos. O youkai adentrou a sala, se sentando na varanda, suas costas rentes a uma pilastra. Naraku se serviu de saquê e ofereceu ao outro. Este recusou, sem olhar para o meio-youkai.

Observava os dois, enojada. Como podiam ficar aqui, calmamente, como se fosse uma manhã agradável entre entes queridos? Lá fora, outro humano era arrastado, e eu apertei minhas mãos em minha hakama.

– Sei que os gritos a incomodam, minha querida. Mas eles morreriam de fome de todo modo. Estas criaturas apenas estão antecipando o inevitável. Todos nós precisamos comer. Você mesma...não se alimenta da alma de jovens donzelas para sobreviver? – disse Naraku, sorrindo, com escárnio na voz, ao ver que eu me preparava para interferir.

Ignorei-o, deixando a sós com seu saquê e seu comparsa, ele se deliciava da bebida e o outro estava de olhos fechados, ouvindo os gritos dos inocentes. Eu não poderia mais ser omissa naquela questão, e à passos largos fui para o exterior do castelo, saltando pela varanda.

A flecha já no arco, mirada na direção que eu sabia que estava uma das criaturas verde e vil.

Mais um pedido de socorro e clemência pôde ser ouvido antes que eu soltasse a flecha purificadora. Porém, ela nunca atingira seu alvo, sendo rebatida pela espada maligna de Orochi. E com isso, eu ouvi o último urro do aldeão.

– Maldito! – Preparei outra flecha, com mais energia acumulada. E eu não pretendia ter outra flecha rebatida.

O youkai me alcançou rapidamente, antes que eu a pudesse lançar, agarrando meus braços e jogando longe meu arco e flecha. Os orbes do youkai me analisaram, com intenções assassinas.

– Se interromper os acontecimentos comuns desse local, nossa posição ficará comprometida. Não me provoque, miko. Só lhe permito viver por vontade de Naraku.

O encarei com a mesma intensidade mortal com a qual ele me olhava.

Os verdes da serpente se assemelhava a adagas, e eu sabia que ele era muito mais poderoso – e perigoso - que Naraku. Mas todo ser poderoso possui sua fraqueza, e eu descobriria a sua em algum momento.

Viver, ele disse. Sorri para o absurdo.

– Já estou morta. E não temo suas ameaças, daiyoukai. – Seu lábio se curvou em um sorriso, conforme soltava o aperto em meus membros, me libertando.

– Não significa que não possa morrer de outra forma ou que não existam coisas piores que a morte. – Sibilou, segurando-me pelo queixo e aproximando seu rosto do meu. – Nem que não possa sentir dor.

O youki que emanava de seu corpo dava choques intensos contra minha pele e eu reprimi um gemido. Apliquei energia pura em minhas mãos, na intenção de o purificar, mas uma voz nos fez virar na direção de quem nos interrompia.

– Prefiro que não a mate, Orochi. – Naraku disse, mirando o daiyoukai da varanda, e logo após, olhando para mim. – Eu não faria isso se fosse você, minha querida.

Um dos insetos de Naraku surgiu, e ficamos atentos olhando para ele enquanto se comunicava com seu dono. O meio-youkai parecia se divertir com algo, mais do que antes e, assim que ouviu tudo o que precisava, dispensou o inseto.

– Em breve partiremos. Estejam preparados. – Anunciou, com os olhos cor de rubi brilhando.

O youkai serpente se afastou, caminhando para longe, mantendo o sorriso vitorioso, e eu encarei o meio-youkai aranha que ainda me fitava de pé da varanda de seu castelo.

– Não pedi sua ajuda, Naraku.

Ele riu, achando graça, se virando para me dar as costas.

– Não a recusou, também.

Naraku sumiu pelos corredores, sendo acompanhado por meus olhos.

Minhas mãos ainda estavam concentradas com energia pura, fechadas em punho, porém tremiam. Eu tinha conhecimento de que meu poder não era suficiente para ir contra aquele demônio, mas não esperava temer o que ele era capaz de fazer.

Um filete de sangue escorreu quando mordi o lábio com força. Passei os dedos por ali, me perguntando como era capaz de sangrar, já que meu corpo era basicamente de barro, terra e ossos. A pergunta me fez lembrar da ameaça de Orochi. Seria ele realmente capaz de me matar de outra forma?

– Hum. Veremos do que é capaz. – Era aquele tipo de desafio que eu desejava.

Mais do que antes, precisava de ter minha alma por completo. Só assim poderia realmente enfrentar o daiyoukai serpente.

Com meu poder pleno.

Também não poderia esquecer de meus assuntos pendentes com Naraku. O maldito estava tranquilo demais com minha presença, e isso lhe traria sua derrota.

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[Terras do Oeste – Castelo]

[Pov. Autora]

A cauda da pequena raposa ia de um lado ao outro, à medida que seus pensamentos o deixavam mais ansioso. Shippou grunhiu, impaciente, esperando a exterminadora acordar para poder falar com ela.

Sango dormia no mesmo quarto que o pequeno, junto de Kirara. Miroku estava hospedado em outro quarto, e por isso, de manhã era o momento perfeito para ter uma conversa com aquela que cuidara de si, na ausência de Kagome.

Olhou para fora da varanda, o sol já se fazia presente e não estava mais tão silencioso quanto antes, pois o castelo já acordava. Ele podia ouvir os passos dos guardas pelos corredores e das criadas a cuidar de suas tarefas diárias.

Virou-se para a morena que ainda estava por baixo das cobertas, em sono profundo. Kirara estava próxima de sua dona, suas orelhas se moveram sob o olhar de Shippou, que se remexeu incomodado pela demora do despertar de Sango.

A gata youkai abriu os olhos devagar, encarando Shippou. Ele sorriu para ela, enquanto a mesma se espreguiçava no acolchoado, afofando com suas garras o travesseiro de sua dona e logo depois acariciando sua face com suas bochechas.

Shippou notou a mudança dos batimentos cardíacos da exterminadora e quase suspirou de alívio por ela ter acordado. Finalmente poderia colocar fim naquela agonia.

– Acordado faz muito tempo, Shippou? – a voz dela veio sonolenta, ainda de olhos fechados, ao mesmo tempo em que fazia carinho na gata youkai.

Engoliu seco. Teria de contar a ela.

– S-sim. Sango, tenho que te contar uma coisa... – procurou não gaguejar, mas o nervosismo era tanto que ele tropeçava nas palavras.

A morena se levantou alarmada, o olhando preocupada, como se procurasse algo de errado no pequeno corpo do menino.

Não achando nada que justificasse sua preocupação com a parte física dele, se sentou de frente, acima dos tornozelos e pousando as mãos no colo.

O olhar permanecia analisador, aguardando alguma fala da pequena raposa, que também estava sentado de frente para ela, no chão.

– É-é... sobre o Kohaku. – falou baixo, igual seu olhar. Os pequenos dedos com os nós brancos de tanto que ele apertava sobre o colo.

– Kohaku?! Você viu meu irmão, Shippou? Ele está aqui no castelo?! Ele está bem?! – a chuva de perguntas atordoou a pequena raposa, que se levantou surpreso.

– Não é isso! Ele tá bem! Eu acho...ele não está aqui no castelo, mas está por perto! E-eu vi...vi ele na floresta daqui...junto de Kagura.

– Kagura está por perto também?!

– Sim...temos que avisar a mamãe e... e o lorde Sesshoumaru, ele...

– Não!

O grito de Sango assustou a pequena raposa, que já estava de pé se virando em direção a porta.

– Se ele souber, tenho medo que machuque o Kohaku, Shippou. Sabe como ele é.

– É verdade. – O pequeno suspirou. – Pelo que eu ouvi, Kohaku já tinha sido encontrado por alguém aqui do castelo e quase morreu. O fragmento o salvou.

Sango ficou alguns segundos em silêncio, o maxilar tenso.

– Entendo.

Os dois ficaram quietos, pensativos, e antes que Shippou pudesse dizer algo, a exterminadora saía com seu Osso-Voador pela varanda, olhando para os lados.

– Kirara! Shippou, viu a Kirara?

O pequeno negou com a cabeça, olhando ao redor, notando que a gata youkai já deveria estar longe, pelo cheiro.

– Ela não teria ido atrás de Kohaku. Teria, Sango? – perguntou, pulando no ombro da maior.

– Eu realmente espero que não, Shippou.

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[Pov. Hayato]

Acordei com a luz do sol invadindo pelas frestas das portas da varanda. Sabia que estava sozinho antes mesmo de acordar por completo, a presença de Takeshi não estava em nenhum lugar por perto.

Então, ele fugiu. Heh.

Me apoiei em meus cotovelos, olhando para o lado vazio da cama. Nenhuma fêmea havia me satisfeito daquela forma, tampouco outro macho. O ancião tinha mesmo algo de especial. Lembrei dos gemidos roucos e de sua face sofrida pedindo por mais, as imagens passavam repetidamente por minha mente, eu o havia tido por toda a noite e mesmo assim meu pau já ansiava pelo corpo de Takeshi novamente.

E como sempre havia algo para estragar as coisas, um cheiro invadiu minhas narinas, me fazendo olhar na direção da porta. Bateram com força, sem nada dizer, mas eu já sabia de quem se tratava.

Me levantei com preguiça, puxando a yukata que estava ao chão e a vestindo lentamente. De novo, esmurravam a porta e eu me irritei, a encarando. Irei arrancar outra parte desse maldito!

Abri a porta de uma só vez, logo encontrando a face detestável de Nizo Okuda. Assim que nossos olhos se encontraram ele fez uma careta, enquanto seus olhos viajavam para dentro de meus aposentos.

– Onde ele está? – perguntou, petulante, adentrando o quarto a força.

Bufei em irritação. Minha noite havia sido tão maravilhosa, logo cedo tenho que suportar o irmão insuportável do fruto de meus maiores desejos? Fechei a porta, visto que ele não sairia dali sem respostas.

– Bem, como pode ver, ele não está aqui, Nizo-san.

Ele rosnou, se virando para mim.

– Não banque o engraçadinho 'pra cima de mim, maldito! – esbravejou, agarrando minhas vestes para me puxar próximo de sua face. Eu apenas sorri. Era um tanto engraçado ser enfrentado por alguém mais baixo que eu. Em altura os dois irmãos combinam. – O cheiro dele está impregnado nesse lugar! Na cama e... – Olhou para baixo, torcendo o nariz. –...E em você todo! Porque está com o cheiro de Takeshi em você, general?!

– Oh, acho que ninguém lhe contou como isso acontece. É assim, quando dois adultos se com...

– EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM! – vociferou, me interrompendo, e eu perdi a vontade de sorrir.

– Então não sei o que quer que eu o diga, Nizo-san. – falei baixo, me desvencilhando de sua mão. – Quer que eu diga o quanto tenho me sentido atraído por ele? Que ontem nós dois -finalmente- cedemos à nossas vontades? Por favor, não tens nada com isso.

Desviei dele, indo até uma cômoda para pegar outras vestes.

– Percebeu a cicatriz que há nele? Também possuo uma parecida.

Me virei de imediato com a pergunta. Do que ele estava falando? Nizo ainda estava na mesma posição de antes, de costas para mim, mas foi se virando aos poucos, e quando estava de frente, se aproximou, me olhando fixamente. Ambos sérios.

Não havia muita semelhança, a expressão de Nizo era mais dura, irritada, e seus olhos continham aquela mensagem muda de "irei te matar se continuar me olhando", bem diferente dos vazios e calmos de Takeshi. Nada parecido com meu ancião, com exceção da cor dos olhos, o cabelo branco típico de Inus do Oeste...e aquela cicatriz.

/...acariciei seu rosto, me sentindo curioso sobre aquela cicatriz.

Me contaria como conseguiu isso, ancião? – seus lábios se curvaram, mas era um sorriso sombrio. /

A lembrança da face perturbada de Takeshi em toda vez que eu tocava no assunto sobre a cicatriz me incomodou e eu olhei atentamente a face de Nizo, este por sua vez se manteve em silêncio sob meu olhar.

Realmente havia uma cicatriz parecida. Como nunca reparei nisso antes? A dele também atravessava o olho esquerdo, como um raio, mas ao invés de uma estrela, tinha um pequeno círculo na ponta, acima da sobrancelha.

Me aproximei, afim de olhar mais atentamente. Ao contrário de Takeshi, Nizo não escondia nada aquela marca, que também parecia recém feita, pelo tom avermelhado. Estiquei a mão em direção a sua face, e ele apenas olhou para ela por um instante, voltando a olhar para mim quando meus dedos tocaram sua pele. Estava quente.

Deslizei a ponta dos dedos para a cicatriz, sentindo o quão profunda era, e fazendo com que o inu ancião fechasse os olhos no processo. O que poderia ter causado isso aos dois?

Olhei para baixo, notando outra coisa. O que é essa marca em seu pescoço?

Tive minha mão estapeada quando tentei tocar aquela cicatriz específica, me fazendo despertar e focar nos olhos do outro novamente.

– O que significa isso? – perguntei, olhando diretamente a marca em volta de seu pescoço, mas querendo saber de ambas as cicatrizes.

Ele sorriu de lado, fazendo troça. – Está curioso, Han? Mal se aguenta de curiosidade.

Rosnei. Sabia bem que aquela atitude era para fugir da questão, podia ver em seus olhos que aquele assunto também machucava o sempre cabeça quente do Okuda.

– Não desvie da pergunta, Nizo.

O sorriso dele se perdeu, voltando a carranca de sempre.

– Não lhe devo explicações, general. E se realmente se importa com meu irmão, irá deixa-lo em paz. Para o próprio bem dele.

Se afastou, indo diretamente para a saída e saindo do quarto.

Não fiz nenhum movimento para impedi-lo, estava confuso com suas palavras. O que poderia ter causado aquelas feridas? E minha relação com ele realmente o colocava em risco? Por quê?

Olhei para meus dedos, ainda estavam quentes do contato da pele de Nizo.

– Hunf. – Apertei a mão em punho, voltando a pegar um kimono e uma hakama na cômoda. Precisava encontrar Takeshi e tirar aquela história a limpo. E também haviam outros deveres.

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*Pov. Kagome*

Meu corpo doía, parecia que tinha sido atropelada por uma locomotiva e meus olhos ainda ardiam por ter chorado tanto no dia anterior. Minha cara estava enfiada no travesseiro macio de Sesshoumaru, e cheirava tanto a ele que poderia ficar naquela posição o dia todo!

Porém, meu estômago roncou, me lembrando que não tinha me alimentado bem faziam horas, me forçando a tirar o rosto do travesseiro cheiroso.

Grunhi, tentando me mover, mas todo meu corpo parecia estar fortemente abraçado por enormes braços.

Sesshy?

É claro, eu obedientemente fora para a cama dormir ao lado dele após ter chorado o suficiente por um ano, por sentir uma culpa que na verdade não pertencia a ninguém. E também teve o pedido...que eu finalmente havia aceitado.

Olhei para ele ao lembrar de como tinha me pedido para ser sua lady novamente, sorrindo no processo. Eram raras as vezes que ele exibia uma face tão tranquila, parecia estar em sono profundo.

Acariciei seu rosto, acima de uma de suas marcas na bochecha e ele respirou fundo, ainda de olhos fechados.

– Bom dia. – falei, mordendo o lábio quando seus olhos se abriram.

– Hn. – Resmungou, me girando em seus braços para que ficasse por cima de seu corpo.

Meus joelhos pressionaram a cama, minhas pernas acomodadas dos lados de seu corpo. Ele me abraçava de tal modo que nossos peitos estavam colados e minha intimidade em contato com sua ereção me lembrou que nossas yukatas para dormir facilmente se abriam.

Corei rapidamente. Já deveria estar acostumada a isso!

Ele sorriu, malicioso.

Aspirei, procurando palavras para proferir naquele momento. Era sua noiva agora. Como deveria me comportar? Tinha me comportado tão infantilmente, realmente iria querer alguém tão imprudente como eu? Agora que estava mais calma e em seus braços, percebi que estava agindo por impulso novamente. Quando eu iria aprender?

– Pare de se martirizar, Kagome. – Meu nome soara tão baixo e doce em seus lábios, que me surpreenderam. Mas como ele sabia?

Ele se moveu abaixo de mim, seus dedos alcançando e pressionando rapidamente entre minhas sobrancelhas. O ouvi suspirar, o peito forte se pressionou contra o meu, me sentindo ser levemente levantada e logo voltando.

– Rugas. Estava fazendo uma cara tensa. – respondeu, provavelmente pela minha expressão questionável.

Soltei o ar levemente, sabendo que deveria relaxar.

– Eu sei. É que temos tido pouco tempo. Nenhum, aliás, sem alguma coisa que nos preocupemos. A cada vez que estamos perto de resolver algo, surge outro problema, Sesshoumaru.

Sua mão veio para uma carícia em minha bochecha, ao mesmo tempo que a outra puxou minha cabeça para deitar em seu peito. Seu coração batia forte e ritmado, como um tambor.

Estava tão absorta no som profundo, que nem mesmo notei as batidas na porta, apenas percebi a presença da serva que adentrara o quarto quando Sesshoumaru se levantou, me colocando em seu colo, tendo cuidado em nos cobrir, mesmo que não estivéssemos exatamente nus.

A youkai evitou olhar para a cama, mas eu notei o tom avermelhado em sua face, fazendo com que a minha própria se tingisse de vermelho, pela vergonha de ser vista daquela forma.

Após deixar o desjejum em uma bandeja, sobre uma mesinha próxima da cama, ela saiu. Da mesma forma rápida que entrou, fazendo uma reverência para nós, sem ao menos nos dirigir o olhar.

Assisti em câmera lenta a porta se fechar e ocultar a face da serva que disfarçava um sorrisinho, contido, porém visível em seu rosto corado.

A porta finalmente se fechou e eu encarei Sesshoumaru, que se virava para pegar a bandeja, esticando o braço. Como se nada tivesse acontecido.

– Porque não me avisou? Eu poderia ter... sei lá, saído de cima de você, ao menos!

Ele me direcionou o olhar com uma sobrancelha arqueada, me fazendo bufar. Quando abri a boca para dizer algo, esqueci o que ia dizer, pois ele havia enfiado alguma fruta ali para me calar.

– Estava tão distraída que não importaria. Apenas coma. Esses barulhos estão cada vez mais altos. – disse, apontando para a minha barriga com o olhar e eu enrubesci pelo embaraço. Havia deixado de lado o fato que meu estômago roncava, por estar tão aconchegada nele.

– Hhmn – grunhi, mastigando o que identifiquei ser um pedaço de pêssego. Estava delicioso, logo esquecia o episódio anterior, me servindo de mais frutas.

Tomamos o café em silêncio, apreciando a companhia um do outro. Acho que era a primeira vez que fazíamos aquilo na cama, a sós.

Pensar na frase "a sós", fez com que um calor subisse por entre minhas pernas e balancei a cabeça para afastar o pensamento.

Sesshoumaru passou uma mão pelas minhas costas, causando um arrepio e me despertando.

– Preciso verificar como estão os preparativos para nossa ausência daqui pouco tempo. Foque no treino com Mizuki hoje e amanhã de manhã. À noite partiremos. – falou próximo, depositando um beijo em meus lábios, quando terminava de mastigar um pedaço de caqui, aprofundando um pouco quando abri a boca em surpresa.

Quando se afastou, lambendo o canto da boca, fiquei perdida naquela visão, achando-o extremamente sexy.

– Doce. – Sorriu, provocante, indo pegar um kimono e sua armadura, pegando as espadas próximas da cama. Apenas o acompanhei com os olhos, sem conseguir desviar de sua nudez e de seu jeito gracioso ao se vestir, até ele me devolver o olhar intenso. – Se continuar a me olhar desse jeito, a manterei nesse quarto por uma semana comigo, Kagome.

Me toquei que o estava devorando com os olhos e virei a face, envergonhada.

Peguei outra fruta, fingindo não saber do que ele falava. Ouvi um riso anasalado e quando me virei para o fitar, ele já estava fora, a porta fechando às suas costas.

Suspirei pesadamente, me sentindo um tanto solitária e não achando a ideia de ficar presa ali com ele por uma semana ruim. Mas haviam coisas a serem resolvidas.

Coloquei a bandeja de lado, me concentrando em quem eu desejava ter uma conversa.

~Hanna...~

~Hm? ~

~Me perdoe. ~

Não queria chorar mais, porém as lágrimas já estavam em meus olhos. Desde a conversa com Sesshoumaru que eu necessitava de falar com minha outra parte. Eu havia errado com ela e Akemi.

Fechei os olhos, indo para aquele lugar vazio e calmo, visualizando o grande cão soturno que também era uma parte minha, e vi em seus olhos que ela me perdoara. Ao seu lado, Hanna me encarava com olhar um tanto bravo, mas fingido. As lágrimas a entregavam.

~Tudo bem, menina. Agora vem aqui! ~

Não hesitei em correr até elas. Hanna me envolveu com carinho, Akemi passou seu focinho em minha bochecha, num carinho, me fazendo rir pela sensação gelada de seu nariz. Naquele momento eu sabia que estava completa, não fora nossa culpa e eu as amava, as aceitava.

Abri os olhos, estando de volta ao quarto. Sentia as duas mais próximas do que nunca.

– Agora, mais um treino com Mizuki. – Suspirei com a sentença. Águas geladas novamente.

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