Soluço se sentiu frio e desconfortável, e sua cabeça vibrava levemente. Ele manteve os olhos fechados, não queria nem se mover. Mas algo cutucava sua mente, como se alguém quisesse que ele voltasse à realidade.

Um rugido alto fez o garoto tremer, o acordando imediatamente. Ele se sentou, sentindo a cabeça dolorida, assim como suas costas, mas ele sentia que precisava se mover após tal som.

"Pesadelo Monstruoso..." Ele reconheceu, mas não havia nenhum Pesadelo por ali.

Soluço se sentiu desorientado, como se alguém tivesse o atingido na cabeça, e demorou um tempo para processar o que estava acontecendo e onde estava exatamente.

Estava sentado no chão duro de uma caverna, com as costas contra uma pedra alta. Não se lembrava daquele lugar.

Soluço se levantou, ignorando a leve vertigem do movimento, e deu a volta na pedra, tendo uma melhor visão de onde estava.

Era uma caverna, grande e larga, com o teto alto, e que tinha quase o mesmo tamanho do salão de baixo da casa de Soluço. O lugar estava escurecido, com pouca luz entrando por pequenos buracos naturais no teto de pedra, mas os olhos de Soluço se acostumaram ao escuro mais rápido do que ele esperava.

O garoto parou para pensar, tentando se lembrar de como havia chegado ali. Tudo o que se lembrava era de chegar a uma nova ilha com Banguela e...

"Acalme-se, Fogaréu..." Uma energia tocou a mente de Soluço. Era calma se comparada ao rugido que tinha ouvido antes; parecia também ser mais velha e cansada, além de pesada, o que queria dizer que devia ser um Gronckle. "Deixe que Escama da Noite explique."

E Soluço se lembrou de como tinha chegado à ilha, como os dragões atacaram a ele e a Banguela, e de como ele tinha batido a cabeça em algum momento.

O rugido de Pesadelo Monstruoso ecoou pelas paredes da caverna mais uma vez e Soluço tremeu, se lembrando daquele momento na arena, em que tinha ficado cara a cara com um dragão daquele tipo.

E se lembrando dos olhos que tinha visto antes de desmaiar.

A energia era grande e quente, assim como a de Flamejante, mas parecia mais velha, mais potente, além de ser bem mais séria.

"Não podemos ter um filhote humano na ilha!" Foi a mensagem que veio junto com as chamas mentais. "Precisamos matá-lo antes que cresça!"

Soluço sabia muito bem de quem estavam falando. Embora não soubesse o que era a palavra "humano"...

Outro rugido, muito mais conhecido de Soluço, ecoou pela caverna de pedra e o garoto se sentiu um pouco mais confortável, feliz por saber que Banguela ainda estava por perto. Mas, mais uma vez, Banguela estava encarando um dragão muito maior que ele, só para proteger um pequeno viking.

O Pesadelo Monstruoso rosnou e Soluço sentiu o calor de sua energia ficar mais forte, como se tivesse passado para o plano físico – algo que Pesadelos podiam fazer sem problemas.

"Saia da minha frente, Sombra da Noite, ou eu vou matar você também!"

Soluço sentiu seu coração parar de bater ao ouvir aquilo.

Ele se levantou, ignorando seu cambalear, e correu pela única abertura da caverna, tentando não tropeçar enquanto se dirigia para a escuridão.

"Não! Não! Por favor, não machuca ele!" Ele exclamou, ouvindo sua voz batendo contra as paredes de pedra.

Ele conseguiu ver a luz do fogo do dragão maior antes mesmo de chegar até eles. Banguela estava lá, parado na frente do Pesadelo Monstruoso e de um Gronckle grande, impedindo que os dois seguissem pelo resto do corredor de pedra.

O Fúria da Noite se virou para o rapaz com olhos preocupados e soltou um guincho alto, antes de pular até ele, o envolvendo com uma asa de modo protetor, mostrando os dentes para os outros dragões como se mandasse ficarem longe.

"Banguela!" Soluço chamou, suspirando aliviado ao ter seu amigo do seu lado. "Você tá bem...?" Banguela simplesmente bufou, sendo interrompido por outro rosnado.

"Ele está aqui! Deixe-me, matá-lo, Defensor!" O Pesadelo Monstruoso encarou o garoto com olhos perfurantes, enquanto o fogo se alastrava por sua pele escamosa, iluminando mais o corredor.

Banguela rugiu, cortando o ar com as garras para mostrar que não permitiria que chegassem perto do garoto.

"Fogaréu." O Gronckle rosnou e Soluço tremeu levemente com sua energia. Era mais forte agora do que era antes, mais poderosa e pesada, com um ar de comando e autoridade. "Já chega."

O Pesadelo Monstruoso bufou alto e ergueu a cabeça à contra gosto, examinando os demais de cima. Soluço se perguntava porque um dragão enorme como aquele obedecia ao dragão menor e menos poderoso, mas sabia – graças à energia que tinha sentido – que aquele dragão era muito mais do que um simples Gronckle.

Tal Gronckle se voltou para o pequeno viking e Soluço conseguiu vê-lo melhor graças ao fogo de Fogaréu. Ele era exatamente como se esperaria de qualquer Gronckle, grande e rechonchudo, possivelmente muito pesado; seu corpo de um amarelo queimado estava coberto de cicatrizes e Soluço notou que ele só tinha uma asa. Se seu nome era mesmo "Defensor", Soluço se perguntava contra o que ele já tinha lutado e se defendido para acabar daquele jeito...

"Escama da Noite, o que significado disso?" A energia de Defensor se voltou para o dragão negro.

Banguela respondeu, arrulhando baixo. Soluço ainda não conseguia ouvir o que ele tinha a dizer, mas acreditava que Banguela estava o apresentando para o outro dragão, uma vez que lançava olhares para ambos alternadamente.

Soluço se sentiu encolher ao notar que todos os demais olhos reptilianos na caverna estavam voltados para ele. Ele podia não conseguir ver no escuro, mas conseguia sentir que não estavam sozinhos ali.

No momento ele já estava acostumado a ser o centro de atenções – seja por bons ou maus motivos – mas dessa vez, era diferente.

Ele sentia como se estivesse sido julgado e se perguntou se estaria na mesma situação se tivesse ficado em Berk...

Soluço balançou a cabeça, não queria pensar naquilo, não num momento como aquele.

O Gronckle bufou se virando para o garoto e dando alguns passos na sua direção. Banguela manteve a asa em volta de Soluço, como se não confiasse em ninguém ali; Soluço instintivamente se apertou contra seu dragão, feliz por tê-lo ali.

"Você consegue nos entender, pequeno humano?" A energia de Defensor era curiosa e encostou contra a do garoto com cuidado, como se ele fosse feito de gelo fino.

Mas, antes que o garoto pudesse responder, as palavras sumiram de sua mente.

Ele sentiu a energia dos outros dragões tocando sua mente e teve de fechar os olhos com a dor repentina. As perguntas eram quase todas as mesmas, ecoando em sua mente como milhares de vozes diferente ("um humano que entende dragões?" "o que está acontecendo?" "há algo de errado aqui..." "porque o Sombra da Noite trouxe um humano?"), até que todas as palavras começaram a se misturar em uma cacofonia de sons e formas.

"S-sim..." Soluço sentiu sua voz gaguejar, sendo quase incapaz de ouvi-la.

Ele gemeu levemente, sentindo sua mente latejando. Algo quente encostou contra seu rosto e ele quase tinha certeza que era Banguela.

O Gronckle rosnou alto, antes de bufar forte, como se tivesse algum problema respiratório. A energia vinda dos outros dragões diminuiu consideravelmente e Soluço pode ouvir seus próprios pensamentos de novo.

De fato, Defensor devia ser como um líder para os demais dragões.

Soluço se virou para Banguela, que trinou baixo ao seu lado. Seus olhos se encontraram e o garoto sentiu como se aqueles grandes olhos reptilianos perguntassem sem palavras se ele estava bem.

"Você sabe que isso é tudo culpa sua, não é?" Ele reclamou, baixinho, para que nenhum outro dragão ouvisse. Mas a audição de dragões era muito mais poderosa que a de humanos, então ele não se surpreenderia em saber que outros tinham o ouvido também.

Banguela só respondeu com um arrulho e um ronronar.

"Curioso..." A energia do Gronckle formou as palavras na mente do rapaz. "Como isso é possível?"

"Eu... É, eu também não sei dizer, pra falar a verdade..." Soluço deu de ombros. Ele ainda achava estranho estar conversando com dragões, mas sentia que estava aos poucos se acostumando com aquilo... Era quase como conversar com outros vikings.

Banguela silvou baixo, desviando os olhos do rapaz – em quem ele esteve focado esse tempo todo – e de volta para o outro dragão.

"Você... O marcou?" O Gronckle parecia genuinamente surpreso.

Soluço sentiu seu ombro arder, como se a mordida reagisse ao ser mencionada. Em parte, Soluço entendia a surpresa, ele também não esperava que um dragão marcasse um humano, seja lá o que isso queria dizer – ele ainda não tinha certeza, mas estava começando a formar teorias...

Os outros dragões reagiram violentamente àquilo, mas foi a explosão de Fogaréu que fez Soluço tremer nas bases.

"O MARCOU?!" O rugido tremeu a caverna e suas chamas ficaram mais potentes, tanto que Soluço teve de cobrir os olhos e se apertar contra Banguela para se proteger do calor. "Isso é um absurdo!"

Os demais dragões concordaram e Soluço tocou o ombro, se sentindo desconfortável. Aquilo era algo sério, ele conseguia notar, mas porquê? O que marcar com uma mordida tinha de tão importante para os dragões?

Soluço se perguntou se Banguela tinha feito algo que podia ser definido como uma ofensa para os dragões.

Mas se tinha feito algo errado, Banguela não parecia ligar para tal coisa, mantendo a cabeça erguida e encarando os outros com ar de superioridade. Soluço não sabia como se sentir quanto àquilo.

Fogaréu rosnou, balançando a cabeça e batendo as asas, apagando seu fogo só um pouco.

"Vamos ver o que Fogo Gelado acha disso!" Foi o que Soluço conseguiu ouvir antes que o Pesadelo Monstruoso desse as costas para eles, quase atingindo Banguela com a cauda, e correu para longe na caverna, batendo as asas enquanto se preparava para voar.

O escuro tomou conta do salão de pedra e Soluço se apertou contra Banguela, só para ter uma melhor ideia de onde estava enquanto esperava seus olhos se acostumarem com o escuro.

Mas se todos os outros dragões pareciam ultrajados, a energia que vinha de Defensor ainda era curiosa e confusa, como se ele não tivesse formado uma opinião sobre tudo aquilo.

"Eu sentia o seu cheiro nele, mas não pensei..." Foi só o que veio através de sua energia, antes de bufar e rosnar novamente. Soluço sentiu quando os olhos do Gronckle o encontraram antes mesmo da presença pesada. "Eu não sei como humanos pediriam educadamente para vê-las, mas... As marcas?"

Soluço achou o pedido estranho, porém educado. Aquelas marcas deviam ser realmente muito importantes para dragões... E, por algum motivo, ele se sentiu tímido, como se aquelas cicatrizes fossem algo intimo e pessoal, que ele não devia mostrar a ninguém.

Mas Soluço decidiu que era melhor não desobedecer ao "líder" dos dragões.

Ele puxou a gola da camisa, revelando o que acreditava ser o bastante das cicatrizes em sua pele pálida.

Defensor se aproximou e Soluço ficou parado no lugar. Banguela não reagiu, apenas encarou o dragão enquanto esse chegava mais perto. O garoto sentiu a respiração forte e entrecortada do Gronckle contra seu rosto enquanto esse o cheirava – e ele focou seus olhos nos dentes grandes e afiados que saltavam da boca grande quando eles chegaram perto de sua pele.

Com um bufar estranho, Defensor se afastou.

"Entendo..." As palavras tocaram a mente de Soluço. "Realmente... A culpa é do Escama da Noite…"

Soluço piscou uma ou duas vezes, ajeitando a camisa novamente. Banguela trinou ao seu lado, chamando sua atenção.

"Escama da Noite? Você quer dizer o Banguela?" O garoto adivinhou.

"Banguela… É assim que humanos chamam a espécie dele?" Defensor soltou um arrulho grave.

"Não, não exatamente… Eu chamo ele assim… Mas, ah, isso não vem bem ao caso, eu, uh..." Soluço balançou a cabeça sentindo que tinha muito para processar. "Pode me dizer o que é que essa marca quer dizer, de uma vez? Por favor?"

O Gronckle parecia surpreso pela pergunta, soltando um som baixo e repetitivo, que soava como um murmúrio de um velho. E Soluço se sentiu um pouco desconfortável, se perguntando se tinha feito algo errado.

Os dragões se agitaram novamente.

"Você não levou isso em conta, não é mesmo, Escama da Noite?" A energia de Defensor novamente foi dirigida para Banguela, mas Soluço conseguiu ouvir mesmo assim.

Banguela respondeu com o que soava como um choramingar, olhando do Gronckle para o rapaz com a cabeça abaixada, como se tivesse sido derrotado, ou como se tivesse vergonha de alguma coisa.

"Banguela..." Soluço chamou e os olhos verde-amarelados se voltaram totalmente para ele. Agora, além de confuso, ele se sentia preocupado, se perguntando porque seu dragão estava agindo daquele jeito. "O que você fez...?"

Banguela soltou um arrulho baixo, mas foi rapidamente interrompido por um outro chamar.

"Defensor!"

Soluço sentiu um arrepio subir por suas costas quando aquela energia tocou sua mente e seu corpo e ele automaticamente se voltou para o dragão ao seu lado. Banguela ergueu os olhos para a direção na qual Fogaréu havia sumido e seus olhos estavam sérios novamente, as pupilas fechadas em fendas.

O garoto sentiu quando o Fúria da Noite se moveu, o escondendo melhor com o corpo e a asa.

"Fogaréu disse que meu irmão voltou!" A energia se aproximou e, no meio da escuridão, tudo o que Soluço conseguia ver vindo em sua direção era um par de olhos de um verde profundo e brilhante.

"Irmão...?" E Soluço sabia bem porque tinha reconhecido aquele tipo de energia.

"Escama!" Um arrulho conhecido, mas mais agudo, chegou até ele antes mesmo da presença e o garoto prendeu a respiração quando o dragão se aproximou.

Era menor que o Pesadelo Monstruoso, mas parecia maior que Banguela. E, assim como o Fúria da Noite, seu corpo devia ser coberto por escamas escuras, que o faziam desaparecer nas sombras; tudo o que se via eram seus dentes brancos e os olhos verdes, mas Soluço sabia o que veria caso houvesse mais luz ali.

"Outra Fúria da Noite..." Ele não conseguiu segurar suas próprias palavras.

A Fúria da Noite pareceu notar e parou enquanto se aproximava, voltando a andar apenas alguns segundos depois, com passos lentos e calculados. Banguela se moveu assim como o outro dragão, mantendo o garoto escondido.

"O que está acontecendo aqui?" O dragão perguntou, notando o estranho ar entre os demais dragões – afinal, se Soluço sentia, é claro que ele sentiria.

Soluço sabia que tinha um bom motivo para Banguela estar o escondendo daquele modo, afinal, até o momento não era como se os outros dragões – com exceção de Defensor – tivessem gostado muito dele. Ele entendia que, depois de tantos anos de inimizade, era o esperado.

Mesmo assim, o garoto se sentiu curioso sobre aquele dragão, aquele outro Fúria da Noite, que aparentemente era "irmão" de Banguela. Por um tempo Soluço tinha deduzido que, dentre todos os dragões, ele só não podia ouvir Fúrias da Noite; mas cá estava ele, ouvindo um outro dragão da mesma espécie sem problema algum.

A energia que vinha dele era parecida com o que Soluço tinha sentido antes, sendo mantida afastada do garoto por uma parede invisível e impossível de tocar.

A presença de uma Fúria da Noite era como ele imaginava, quente e poderosa, mas com um ar estranho, sombrio, misterioso, como se algo se escondesse por trás dela, algo fora de seu alcance. Cercava sua mente como uma névoa, lançando pequenos raios em sua própria energia que o faziam sentir um leve e estranho formigamento.

Soluço só queria que aquela fosse a energia de Banguela, não de outro dragão.

"Escama da Noite... O que é isso em sua cauda... E em suas costas...?" Tal recém-chegado bufou, examinando o outro com os olhos, notando os apetrechos que o cobriam.

Banguela respondeu com um som estranho, que parecia ser ao mesmo tempo um rosnado e um arrulho. E mais uma vez, Soluço desejava tanto poder ouvir seu dragão...

A outra Fúria da Noite soltou um trinar confuso e ergueu a cabeça, fechando os olhos e momentaneamente sumindo no escuro. Soluço se moveu levemente atrás da asa de Banguela, sem conseguir segurar sua curiosidade. Ele sabia que não conseguia ver muito bem e que, pela reação de Banguela, era melhor ficar escondido, mas ele queria sabe mais do que estava acontecendo.

O único momento em que Soluço tinha visto outro dragão como aquele, mesmo de vislumbre, tinha sido em um dos seus sonhos estranhos. Ele tinha até pensado que Banguela seria o único...

"Esse cheiro..." O dragão rosnou, abrindo os olhos novamente, suas pupilas negras se fechando em fendas. "Humano!"

E quando Banguela rosnou, movendo sua asa e quase batendo na cabeça de Soluço, o garoto sentiu os olhos do outro dragão pousarem nele.

As Fúrias da Noite rugiram um para o outro e Banguela se moveu, pulando para frente e empurrando Soluço para trás, quase o lançando ao chão.

Era difícil ver, mas Soluço conseguiu perceber como a Fúria da Noite tentava passar pelo dragão menor, tentando chegar até ele; mas novamente Banguela estava o protegendo, dessa vez abrindo mais as asas, como se tentasse se mostrar maior que o outro.

Soluço não sabia se devia ficar preocupado ou não; afinal, Banguela já tinha enfrentado dragões maiores do que aquele, e pelo que o garoto tinha entendido, aqueles dois eram irmãos, o que o fazia se perguntar se iriam se ferir de verdade.

Por um momento, Soluço pensou em sua irmã... E sua barriga se embrulhou levemente ao pensar em Berk.

"Porque está protegendo essa criatura?!" A Fúria da Noite rugiu alto, agudo, e Banguela simplesmente respondeu com um rugido mais grave.

Os dois dragões pularam para longe quando uma rajada de lava foi lançada na direção deles, marcando uma linha quente e brilhante entre os dois.

E Soluço pode finalmente ver o outro dragão.

Era quase idêntico à Banguela, porém sua cor parecia um pouco mais azulada e os olhos mais esverdeados; era realmente maior que o outro e suas barbatanas, agora coladas contra o pescoço musculoso, era menores – e era como se lhe faltassem uma ou duas.

Defensor bufou alto, movendo a cabeça para se livrar do resto de lava em seus lábios escamosos. E seus olhos reptilianos eram sérios, assim como sua presença, que apertava com força contra a mente de Soluço. O garoto cambaleou levemente, mas se manteve de pé.

"Venham." O Gronckle rosnou e soltou outro rugido, dessa vez direcionado aos demais dragões na caverna, que se agitaram. "E se eu souber que algum dragão, até o menor dos Terrores Terríveis, ficou ouvindo nossa conversa, haverá consequências!"

Soluço mais ouviu do que viu os dragões batendo suas asas e saindo da caverna, tanto voando quanto andando com passos rápidos.

O Gronckle soltou um som estranho e ríspido, se voltando para o dragão e o pequeno viking. Banguela manteve os olhos presos na outra Fúria da Noite, mas virou seu corpo na direção de Soluço, que deixou que o dragão se apertasse novamente contra ele.

"Escama da Noite, vá na frente com... Seu humano..." Defensor bufou, fazendo um movimento com a cabeça.

Banguela bufou, lançando um último olhar para o outro dragão de sua espécie, antes de se voltar para Soluço mais uma vez, fazendo um arrulho baixo e cutucando suas costas com o focinho. Soluço simplesmente obedeceu, seguindo pelo corredor de pedra e retornando para a caverna em que tinha acordado.

Estava... Confuso e preocupado com o que tinha acontecido.

Ele entendia a raiva e o medo que os dragões sentiam ao vê-lo ali, era praticamente o mesmo que os viking de Berk sentiam em relação aos dragões.

Pensamentos giravam em sua cabeça, mas ele ainda não conseguia raciocinar direito.

A energia da Fúria da Noite apertava contra sua mente, obscura como uma sombra e tomando conta de sua mente como uma névoa quente. Ele tentou empurrar a presença do dragão para longe, sem muito sucesso, era como se ela estivesse examinando sua cabeça, tentando entender e ouvir tudo o que ele pensava e sentia.

Banguela soltou um trinar suave e Soluço se virou, encontrando olhos brilhantes focados nele. As pupilas estavam novamente dilatadas, tanto que Soluço conseguiu ver seu reflexo nelas graças à luz da outra caverna.

"Eu... Eu estou bem, Banguela..." Não era ao todo verdade, e ele sentia que Banguela sabia disso.

Soluço tinha muitas perguntas, mas preferia não falar sobre aquilo agora, não com aqueles outros dragões por perto. Ele preferia ficar sozinho, com seu amigo.

"Amigos!" A Fúria da Noite rosnou alto, batendo a cauda no chão com força e Banguela parou de andar, voltando pupilas finas e sérias para o outro. Soluço fechou os olhos, tentando afastar a energia violenta do outro dragão. "Então era isso que Fogaréu mencionou..."

"Fogo Gelado, deixe Escama da Noite falar." Defensor rosnou simplesmente, cambaleando entre os dois dragões até chegarem à caverna menor. Soluço notou que ele mancava, mas parecia não ligar para isso.

Banguela se virou para Soluço uma última vez, antes de se voltar para os outros dragões, arrulhando baixo.

Soluço examinou a outra Fúria da Noite, agora que tinha mais luz. Era talvez uma cabeça maior que Banguela, tinha as pernas mais longas, com garras mais curtas, e seu corpo parecia mais magro. A maior diferença entre os dois porém, era a cor de suas escamas; enquanto Banguela tinha uma coloração negra como a própria escuridão, esse outro Fúria tinha uma cor mais azulada, como a cor do céu noturno quando só um filete de sol estava presente no horizonte.

A Fúria da Noite rosnou alto e Soluço sentiu a energia obscura bater contra sua mente tão violentamente, que ele caiu no chão, surpreendendo tanto a si mesmo quanto o dragão do seu lado, que rapidamente abaixou a cabeça em sua direção.

"Você marcou um humano...?! Você marcou um humano!" A energia do dragão era idêntica a seus rugidos, a seu bater de pés violentos e os movimentos erráticos de sua cauda. "E ainda por cima o humano que lhe retirou o voo?!"

Aquele sentimento era raiva, pura raiva, queimando Soluço de uma forma mais potente que a chamas mentais de um Pesadelo Monstruoso. O sentimento desceu por sua mente, passando por sua corrente sanguínea e tomando conta de seu corpo, se tornando parte dele. E Soluço se sentiu pesado, dolorido, sua visão havia se tornado vermelha e ele não conseguia mais ver.

Mas chegou a ouvir um rosnado muito conhecido.

"Não me importa o que você diz, Escama." As palavras dançavam pela mente do garoto como se fossem chamas, e ele fechou os olhos, tentando não pensar naquilo. "Você não se lembra do que humanos fizeram? O que fizeram com nossa família?"

E de repente, o calor da raiva foi substituída por um gelo terrível, tanto que Soluço momentaneamente ficou sem ar. E se a energia de Fogo Gelado tinha o queimado antes, agora o congelava assim como o vento do norte que assolava Berk no inverno. Ele teria pensado mais nas "palavras" do dragão caso sua mente estivesse funcionando no momento.

Soluço piscou os olhos, recuperando a visão e se encontrando em baixo das asas estendidas de Banguela, que ainda rosnava para Fogo Gelado.

A Fúria da Noite maior mostrou os dentes, desviando os olhos para Soluço e ele sentiu o frio ficar ainda pior.

"E você ainda quer ficar com seu humanozinho por perto?" Fogo Gelado bufou alto, erguendo os olhos para Banguela. "Talvez eu não devesse ter te ajudado..."

"Já chega, vocês dois!" Defensor rosnou e soltou o ar com um som estranho. Ele desviou os olhos de uma Fúria da Noite para a outra, antes de pousá-los no garoto. Soluço encarou seu olhar, sentindo a energia do outro dragão negro se afastar levemente, o deixando em paz.

Fogo Gelado bufou mais uma vez, voltando sua energia para o Gronckle.

"Não podemos ter um humano aqui!"

"Fogaréu disse o mesmo..."

"Ele está certo!" A Fúria da Noite rosnou. "Devíamos nos livrar dele...!"

"Ninguém vai matar o humano!" O rugido do Gronckle soou mais alto do que o de Banguela e Soluço sentiu como o dragão rechonchudo já parecia exasperado com toda aquela conversa. Ele bufou com força mais uma vez, cambaleando levemente. "Viemos para essa ilha para vivermos em paz, e assim vamos viver."

"É perigoso!" Fogo Gelado ainda não havia sido persuadido. "No máximo devíamos leva-lo para longe daqui! E se outros humanos vierem atrás dele?!"

E com aquilo, Soluço novamente se viu pensando em Berk, nos vikings... Em sua família.

Ele se lembrou de como tinha pensado naquilo, se perguntando se seus pais iriam em busca dele ou não. E em parte ele ainda queria acreditar que sua família estava fazendo exatamente isso, mas apenas imaginar o que podia acontecer caso um monte de vikings aparecesse naquela ilha...

Soluço sentiu um leve desconforto em seu estômago e Banguela pareceu notar, choramingando baixo em sua direção.

"Eu não acho que vocês vão ter se preocupar com isso..." O garoto se pegou murmurando baixinho, mas o bastante para qualquer ser com audição avançada ouvir.

"Porque diz isso, humano?" Defensor bufou, desviando sua energia de Fogo Gelado. E o garoto sentiu como o outro dragão parecia ofendido com aquilo, mas ele tentou ignorar.

"Porque... Nós fugimos..." Soluço respondeu, tentando ignorar a energia do dragão azul-escuro, que o encarava de modo estranho. "E, bem... Sabe, tem um monte de coisa que aconteceu que, sabe, eu não sei bem como explicar..." Banguela trinou novamente, apertando a cabeça contra seu lado e Soluço quase sorriu com o contato, afagando as escamas negras do dragão. "Mas eu não acho... Eu não acho que alguém vai estar... Atrás de mim..."

"Não podemos confiar num humano!" Fogo Gelado rosnou, quase sem deixar o garoto terminar de falar.

Soluço revirou os olhos, exasperado, e Banguela pareceu fazer o mesmo.

Defensor não respondeu ao dragão e Soluço sentiu um leve arrepio quando a energia pesada do Gronckle tocou a sua. Ela era um pouco mais suave dessa vez, delicada, como se tivesse notado que precisava tomar cuidado quando fazia contato com o pequeno viking. E por um momento Soluço conseguiu sentir o que o dragão pensava dele e como o via.

Um "humano" franzino, pequeno e de aparência nada perigosa.

O garoto teria ficado incomodado com aquilo caso não fosse verdade e caso ele não sentisse um instintivo embaraço ao sentir a energia do outro dragão o estudando daquele modo.

E Soluço também pode sentir quando Defensor transmitiu a impressão que tinha do garoto.

Ele podia ser pequeno e de aparência inofensiva, mas dragões não confiavam em vikings.

Mas ainda assim... Sua energia parecia mais aberta, mais amigável que antes, principalmente quando flutuou aparentemente entre Soluço e Banguela, como se tentasse entender o que havia entre os dois.

E então...

"Escama confia nele." Defensor bufou, encarando Banguela de um modo estranho, mas o dragão simplesmente sustentou seu olhar. "Muito." Ele desviou a atenção para a Fúria da Noite. "Eu confio em seu julgamento." E então para o pequeno viking e seu dragão. "O humano pode ficar."

Soluço sorriu e quando a energia do Gronckle o tocou novamente, sentiu como se estivesse sendo "bem-vindo" ao mundo daquele dragão.

O rugido alto de Fogo Gelado afastou aquele sentimento, e Soluço se lembrou de que não tinha sido "bem-vindo" por mais alguém.

E energia da Fúria da Noite o queimou novamente, mas Soluço tentou sustentar seu olhar irritado e a força de sua presença. E Soluço novamente sentiu como se estivesse na arena, frente à um dragão nada amigável, e que não tinha interesse em lhe dar uma chance.

Sim, o momento na arena não tinha sido o melhor de todos, mas ele tinha quase conseguido fazer o Pesadelo Monstruoso o aceitar... Se seu pai não tivesse interferido... Soluço sabia que, se tinha chegado perto do sucesso naquele momento, ele poderia fazer isso mais uma vez. E Stoico não estava ali para atrapalhar.

Ele queria dar uma chance à Fogo Gelado, ele só esperava que a Fúria da Noite lhe desse essa mesma chance.

Fogo Gelado bufou, erguendo a cabeça levemente e quando Soluço encarou seus olhos novamente, ele viu um brilho diferente neles... E quando suas energias se esbarraram mais uma vez, ele pode sentir... Confusão... E Curiosidade.

Fogo Gelado devia ter ouvido seus pensamentos, e sua decisão.

Soluço sorriu levemente para o dragão. Os olhos verdes se desviaram para seus lábios por um momento. E...

Com um bufar alto e violento, Fogo Gelado deu as costas aos demais e saiu da caverna com pressa, sumindo na escuridão. Sua energia quente e obscura deixou um leve zumbido na cabeça do garoto, mas aos poucos foi sumindo, enquanto o dragão se afastava.

Soluço suspirou, deixando sair o ar que tinha segurado em algum momento.

Aquele não tinha sido um ótimo primeiro "contato", mas pelo que tinha sentido e visto, ele esperava que tivesse uma chance de acalmar os ânimos com a outra Fúria da Noite.

Banguela soltou um arrulho baixo, quebrando o silêncio ao se voltar para Soluço, encarando-o com olhos brilhantes. O garoto foi puxado para longe de seus pensamentos e ergueu uma sobrancelha, confuso.

O dragão parecia animado, como um filhotinho prestes a ganhar um lanche, o que não fazia muito sentido depois de tudo que tinha acontecido...

"Então... O que que foi tudo isso?" Soluço experimentou perguntar, mas ainda não ouvia nada vindo do dragão. Banguela trinou suavemente, apertando a cabeça contra o lado do garoto, que suspirou, sentindo um pouco da tensão em seu corpo sumir com o contato. "Ah, eu tô bem, só... É, só meio confuso, sabe né...?" O dragão simplesmente apertou o focinho contra seu lado, como se tentasse empurrá-lo em alguma direção. "Banguela, eu já disse que tô bem!"

Mas era como se o dragão não estivesse prestando atenção à suas palavras, quase como se ele procurasse alguma coisa no humano, cheirando-o com interesse.

"Ah! Banguela! O que que há com você?" Soluço exclamou, abaixando a túnica verde quando o dragão acidentalmente a ergueu com um movimento rápido com o focinho. Ele podia ser conhecido por saber o que os dragões queriam dizer, seja por "palavras" ou por sua linguagem corporal, mas dessa vez ele estava totalmente perdido. "O-o que tá acontecendo?" Ele se virou para o outro dragão, se lembrando que não estavam sozinhos. Quem melhor para entender um dragão do que outro?

Defensor não respondeu, apenas fez um barulho característico de Gronckles, examinando a cena com o que parecia ser curiosidade ou confusão. Até que Soluço finalmente conseguiu abrir uma pequena distância entre ele e Banguela, com uma mão apertando o focinho do dragão.

Banguela não parecia feliz. Ele soltou um bufado levemente interrompido pela mão do rapaz e voltou os olhos para Defensor, soltando um arrulho grave, como se pedisse ajuda.

"Acredito... Que humanos não marquem outros... Por isso sua confusão?" As palavras finalmente surgiram através da energia pesada do dragão.

"Bem, é..." Soluço pensou no que dizer, olhando de um dragão para o outro, até que notou que esse devia ser o momento em que ele finalmente teria respostas. "Eu quero saber- Eu só quero saber porque o Banguela me marcou?" Ele perguntou, notando como o Gronckle o estudava com os olhos. "Tipo, sabe, eu sei se ele queria que eu entendesse os dragões, que eu pudesse falar com eles- bem, digo, vocês...! Mas... Então, por que eu não consigo ouvir o Banguela?" Banguela se moveu, afastando o braço do garoto e apertando o focinho contra o ombro do garoto. Soluço se afastou, mais por instinto do que vontade – e pode sentir seu ombro formigar levemente. "E- Ah! Banguela, para com isso...!"

Defensor fez o mesmo murmurar draconiano de antes.

"Marcas como essas não são mordidas normais." O Gronckle arrulhou.

Soluço hesitou, sem saber o que pensar quanto aquilo. Ele simplesmente esperou, assim como Banguela, que parecia ter finalmente se acalmado.

"Escama da Noite está pedindo para cortejar você." Defensor rosnou suavemente e era quase possível sentir o sorriso em suas palavras.