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[Cachoeira – Arredores do Castelo do Oeste]
*Pov. Mizuki*
– Mais uma vez. – Dei-lhe um leve empurro ao falar em seu ouvido. Sua mente estava vagando ao mesmo tempo e isso a fazia se distrair do treino.
– Feh! – O deboche do hanyou fez minha aprendiz tensionar os punhos e eu o olhei em reprovação. – Que é, velhota? – devolveu com uma ofensa e eu o ignorei, voltando minha atenção à minha pupila.
Nara deixou meus ombros, descendo para a água. Como eu a comandei antes, e sem demora, se aproximou do hanyou na margem, que ainda não era capaz de perceber a presença de minha protetora. Afinal, sua atenção estava voltada toda para a jovem miko a minha frente.
– Mas o q...?! AH! – sorri. Poderia ser "velhota", mas ainda conseguia surpreender inus tolos.
– O que foi isso? – Kagome abriu os olhos, quebrando sua concentração e eu me pus a frente de sua visão.
– Foque apenas em seu interior, senhorita. – Ordenei, e ela os fechou novamente. Como em uma tentativa de aumentar seu foco, ela colocou suas mãos em prece.
Muito bem.
Olhei atentamente para sua expressão. Estava serena, mas ainda não estava focada o suficiente. Algo a prendia. Será que a presença do meio-youkai estava mesmo atrapalhando sua concentração? Ou seria...
Era apenas uma suspeita, mas ele poderia ser o culpado. Aquele Rei venenoso.
Chamei Nara de volta para mim. O hanyou não atrapalharia tão cedo o treino e eu precisava de minha familiar para o que planejava. Nara envolveu meus ombros lentamente, suas escamas refletindo a luz do sol.
Me posicionei, também em prece. Envolvido por meus braços, o crânio espelhou minha própria energia. Irei quebrar esse seu truque sujo.
Na testa da menina, surgiu. Aquele escudo amaldiçoado, não havia dúvidas. Era o escudo daquele Clã. Então ele realmente havia conseguido se aproximar de Kagome no passado. Como eu não havia notado na época?
Mas, já está fraco. Sorri, a mudança de eras deve tê-lo enfraquecido, o quebrei facilmente e me pus a observar a marca sumir lentamente. Estava feito. Desfiz a prece, segurando o crânio com ambas as mãos e ganhando uma carícia na bochecha de Nara.
– Tenho certeza de que dessa vez ela vai conseguir. – Sussurrei, observando a energia pura e azulada de Kagome se intensificar e a envolver. Admirei suas marcas youkai crescerem e pulsar por sua pele.
Está aprendendo.
– Ei, velhota!
Já acordado? Parece que subestimei o meio-youkai.
Me virei para ele. Não importava o quanto eu tentasse entender, como a menina poderia ter sido apaixonada por essa criança mal-educada um dia?
– Sim?
Em fúria, ele pisou a água, se aproximando. O acompanhei com os olhos, tendo que mover minha cabeça para cima quando ele já estava bem próximo. Detestava o quanto este corpo era tão pequeno em comparação ao meu verdadeiro.
– O que essa cobra fez comigo?! – Gritou, apontando para Nara. Esta sibilou para ele, mostrando as presas e deixando claro que ela poderia fazer de novo.
– Cale-se, criança desbocada. Não vê que atrapalha? – ele se retesou, olhando por um segundo para a miko atrás de mim e voltando os olhos para os meus. – Nara apenas te paralisou. Eu esperava que demorasse algumas horas, mas vejo que não é tão fraco quanto pensei.
Fui para a margem, o deixando confuso. Agora era só aguardar que Kagome saísse do transe por si mesma.
– O que ela está fazendo? – Não esperava que ele se juntasse a mim, se sentando ao meu lado.
Olhei para o meio-youkai. O que ele ainda estava fazendo indo atrás da menina, para cima e para baixo? Notei que ela já o havia rejeitado. E ele mesmo não parecia mais sentir amor pela jovem. Pelo menos não o mesmo tipo de amor que meu mestre sente por ela.
– Unindo. – Respondi simples, não mais focando naqueles olhos curiosos. Algo nele me irritava, talvez a similaridade com aquele ancião.
– "Unindo", o que?
Respirei fundo.
– O puro e o impuro.
– Hum... – sabia que aquela resposta não o bastava, mas ele apenas voltou a focar na água a volta da miko. Eu entendia, não era sempre que se via a água se afastar do corpo de alguém daquela maneira. E as ondas mínimas que sua energia azulada causava eram bonitas.
De canto, podia ver que ele prezava por sua segurança. Tanto quanto, meu mestre. Tanto quanto, eu mesma. Agora ela possui tantos protetores. Me alegrei com o pensamento. Foi exatamente o que eu desejei.
Voltei a olhar para Kagome. A miko estava -finalmente- unindo aquelas forças. Os arabescos rosados brilhavam em sua pele, o cabelo esvoaçava com a força que sua energia emanava de seu corpo. Sua prece, calma e profunda, trazia sua essência para fora. Uma youkai de pureza.
Quando ela despertar, tenho certeza que será capaz de perceber melhor seus poderes de sacerdotisa e os de youkai. Após ter aceitado as outras partes de sua alma, apenas isso faltava. Unir suas energias.
Com um estalo em minha mente e o sibilar de Nara, eu sabia que ele também tinha notado a mudança. Mas não havia nada que o antigo lorde do Leste pudesse fazer para impedir.
– O que vocês estão escondendo dela?
A voz do hanyou interrompeu meus pensamentos, me forçando a olhar para ele. Então o meio-youkai sabia que algo estava errado.
– Apenas continue ao redor dela. – Não estava na hora de revelar isso. Ainda.
– Feh! Mesmo que não mandasse, eu continuaria.
– Bom.
Pois eu não posso mais protege-la da mesma maneira que fazia.
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[Aokigahara - Caverna congelada aos pés do Monte Hakurei]
*Pov. Kikyou*
Olhei para cima, outro carregador de almas se desfazia ao tocar na barreira de Naraku, que envolvia seu castelo. Eles haviam se amontoado ali, tentando me alcançar. No entanto, desde o último ocorrido, ele só deixaria que um atravessasse a barreira por dia.
Virei para encarar a figura do meio-youkai aranha, que fingia não perceber minha presença. Ele olhava para o espelho de sua cria com grande interesse. Por ela estar de costas para mim, eu não percebia o que ele poderia estar vendo.
– Pensei que eu fosse sua aliada, Naraku. – falei, com falsa mágoa na voz.
O hanyou se virou para me olhar, assim como sua cria. Mas não havia mais nada refletido em seu espelho. O que ele estava aprontando? Não era suposto que partíssemos em breve?
– Você pode ir agora, Kanna. E diga a Kagura que espero por notícias dela e de Kohaku.
A youkai branca meneou a cabeça, confirmando suas ordens, logo deixando a sala onde estávamos.
Naraku me observou após sua cria nos deixar a sós. O sorriso desdenhoso não deixando seus lábios nem mesmo quando eu o atingi com energia pura. Apenas um pequeno choque.
– Não fique assim, minha querida Kikyou. Estou apenas evitando que seja morta antes de ter cumprido seu papel em meus planos. – Por um momento, o vi deixar de sorrir. Estaria ele falando seriamente? – Mas não se preocupe, em breve conseguirá o que deseja.
Ele voltou a sorrir, olhando para algo atrás de mim. Ou seria alguém?
– Conseguirá até mais do que esperava, se tiver paciência. – A voz arrastada de Orochi próxima de minha orelha fez um arrepio percorrer por minha coluna e uma ânsia domar meus sentidos. O youkai estava além de me enojar. Era aquela energia sinistra que escapava de cada poro de seu corpo.
Segurei a respiração, tentando evitar aquele ar carregado, esperando-o se afastar por completo de mim e ir se recostar na parede próxima de seu aliado. O loiro não se abalou por minha expressão de repulsa. Tão odiável quanto Naraku, ele também carregava um sorriso sórdido.
– Espero que essa sua audácia não seja pelo fato de ter impedido que aquelas criaturas de baixo nível passem pela barreira. Seria? Precisa tanto assim de almas desafortunadas para sobreviver, sacerdotisa Kikyou?
– Então, fora uma ordem sua. – Olhei brevemente para Naraku, que bebericava seu saquê. Aparentemente alheio a nossa conversa. – Pois bem. E o que tanto aguardamos? Pensei que partiríamos logo. Houve mudanças nos planos? Ou teria prazer em olhar para mim por todo esse tempo?
– Oh, minha querida. É isso o que pensa? – Em um piscar, ele estava a centímetros. Suas garras feriam meu rosto, porém não me movi. Não poderia deixar que ele me desestabilizasse. Encarei os verdes, que brilhavam, com a mesma impetuosidade. – Nada me daria mais prazer que arruinar essa aparência sua. Mas, tenho um trato com Naraku, e por isso. Apenas por isso. Estás a salvo.
Não tão rápido quanto ele havia se aproximado, se afastou.
– Vim apenas trazer notícias a respeito da princesinha. – disse, se virando para Naraku.
– Ela uniu o puro ao impuro, o selo de minha família já estava desgastado, de todo modo. Não será tão simples colocar nossos planos em prática agora, mas prometo que será muito prazeroso. E você terá sua alma, sacerdotisa.
Dessa vez, se virou para olhar para mim, vi em seus olhos que ele desejava ver minha reação. Quis vomitar com a energia que vinha dele e quase suspirei aliviada quando o vi saindo dali, voltando para seus aposentos.
Pude ouvir a risada dele já longe, enquanto permanecia na mesma posição, mastigando suas palavras. Preciso ter cuidado com essa cobra.
Em minha inércia, não percebi a aproximação de Naraku.
O toque de sua mão nas minhas, que apertavam o tecido de minha hakama, fora o que me despertara. Mirei seus olhos, tentando entender o que ele pretendia com aquele ato vazio.
Mas o que vi foi fora de qualquer entendimento que eu pudesse ter.
Não pude lhe perguntar, pois ele também se fora, me deixando sozinha na sala. Ao olhar para baixo, vi que havia chamuscado minhas próprias vestes, e minhas mãos tremiam um pouco.
Ri, sem humor.
Mas o que é isso...Estou mesmo com medo?
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*Pov. Kagome*
Branco. A energia era cristalina, conseguia sentir em cada fibra de meu ser. Algo que eu não era capaz de sentir a muito tempo. A sensação de estar livre e centrada. Era como se finalmente soubesse exatamente o que deveria fazer dali em diante. Estava confiante.
Aos poucos desfiz minha barreira e interrompi minha prece, sabia ter terminado o treino por enquanto. Busquei com os olhos por Mizuki e Inuyasha, encontrando-os próximos a margem, lado a lado, me observando.
Mizuki parecia...como posso dizer? Feliz. E Inuyasha parecia mais sério que o normal.
Me aproximei deles, não dando muita atenção para o emburrado.
– Como fui, Mizuki-san? – perguntei, à uma sorridente Mizuki, enquanto que Inuyasha fazia menção de pular a frente dela para me dizer algo, mas logo sendo jogado longe pela energia da palma da mão da youkai.
– Esplêndida! Como se sente, minha menina? Algo diferente? – perguntou, ignorando totalmente meu choque pela força com que ela havia jogado o outro para fora de nossa conversa.
– B-bem...sim! Sinto como se pudesse controlar melhor minha energia pura e minha energia youkai. Como se fossem uma só. Era esse o objetivo desse treino nessa água gelada, Mizuki-san?
– A água conduz melhor a energia, não importa se é pura ou não. Ser gelada é apenas um requisito pessoal para que tenha mais resistência. Heh – dito isso, saiu calmamente.
– Ou seja, você apenas queria me ver congelar, né sua bruxa! Volta aqui! – gritei, mas ela já estava bem longe.
Bufei enquanto tentava me aquecer com meus braços e lembrando que eu poderia facilmente fazer isso com meu youki. Liberei uma pequena parte, já me sentindo quentinha. Alguns arabescos surgiram e eu não mais estranhava a leve ardência que acompanhava aqueles desenhos na pele.
– Nunca vou me acostumar com essa sua aparência, Kagome.
Suspirei. Claro que Inuyasha não demoraria a voltar.
Me virei para ele e fingi demência, indo buscar meu arco e flechas, que estavam em um canto. Estava cansada e ter uma conversa com ele era a última coisa em meus planos.
– Até quando pretende me ignorar? Hein? Kagome!
Ajeitei a aljava em meu ombro e segurei firme o arco. Ah, minha paciência!
– Até que eu seja capaz de olhar para você e não lembrar o que você fez! Eu sei! Eu sei que não estava em seu controle, mas mesmo assim... que droga, Inuyasha! – respirei fundo, encarando os dourados tão sofridos de meu antigo companheiro de viagem. – Você tem noção do quão grave poderia ter sido? Sesshoumaru teria matado você! Se você sabia que estava perdendo seu controle, você deveria ter buscado ajuda! Diz que você não sabia que seu lado youkai estava dominando seus sentidos! Diga!
Inuyasha estava em choque, sem palavras. Não mais me olhava nos olhos, encarava os próprios pés com as orelhas baixas.
– Eu estava realmente sem controle. Algo não estava certo, mas mesmo assim eu continuei a ignorar os sinais. Me perdoe. Não sabia que seria capaz de...te ferir.
– Senta.
E o comando o levara de cara ao chão, como sempre. Não era o suficiente para apaziguar minha dor ao olhar para ele, mas pelo menos me fez rir.
– Argh! E isso é hora de fazer isso, Kagome? – perguntou, tirando terra do nariz. Me aproximei sem que este notasse e segurei suas orelhas, o puxando para próximo de mim.
– Eu te perdoei. Se lembra? Você estava quase morto quando eu o fiz. Mas não me peça para ser a mesma de antes. Isso é impossível e eu irei demorar para confiar em você de novo.
Mesmo estando tão perto, não me incomodava tanto dessa vez. Sorri quando ele confirmou com a cabeça que tinha entendido.
Acariciei levemente suas orelhas e as soltei, me afastando em seguida. Uma presença bem conhecida e esmagadora dizia que eu deveria ir para longe de Inuyasha. E bem rápido.
– Feh! Estarei por perto, se precisar de mim. – Inuyasha também tinha percebido e já estava um pouco longe quando virou para mim novamente. – Obrigado, Kagome.
Sesshoumaru surgiu em seguida, com cara de poucos amigos e eu o olhei sorridente.
– Oi, Sesshy! – o cumprimentei, ignorando totalmente o semblante zangado.
Claro que sabia que ele não gostava que Inuyasha estivesse por perto, e me perguntava o motivo de ele o permitir e não me dizer o porquê. Mizuki também escondia algo. Talvez Hayato soubesse sobre isso e era com ele que eu pretendia falar logo.
– Vejo que acabou seu treino.
– Sim! O que acha? O equilíbrio de minhas energias está bem melhor, né? – falei, exibindo o azulado que emanava de mim.
Sem nenhum aviso, ele me avançou com a espada, que eu consegui deter com meu arco, por pouco não o quebrando no meio.
O olhei estupefata.
– Tá louco?! Quase partiu ao meio!
– Seus reflexos também melhoraram. Vai treinar com General Hayato agora?
Suspirei. Ele podia ter sido menos agressivo.
– Não, ele está ocupado com preparativos para a sua ausência, com a segurança do castelo. Tem certeza de que quer ir até minha era comigo? Precisam de você aqui.
– Está tudo sob controle. Vamos.
– Eh? E aonde vamos mesmo?
– Treinar. – disse simplesmente, se virando e caminhando para dentro da floresta.
Uma gota de suor desceu lentamente por minha têmpora. Sádico dos infernos!
Corri até ele, o alcançando.
– Mas treinar? Agora? Sesshoumaru, achei que também estivesse ocupado hoje! Você me disse para treinar com Mizuki hoje e amanhã. Será logo à noite, certo? A viagem ao poço, eu digo.
– Não precisa treinar amanhã. Porém, hoje irá treinar comigo, Kagome.
Um arrepio me subiu a espinha. Tanto por ter que treinar com ele quanto pelo jeito gostoso como ele me chamava. Eram sentimentos bem opostos.
– Que seja então...Forma youkai? – perguntei, um sorrisinho escapando. Amava tomar a forma de Akemi.
Sesshoumaru me olhou por sobre o ombro. Uma ordem muda para me conter, mas eu já havia jogado minhas coisas num canto e corrido para passar por ele.
– Duvido me alcançar! – falei para ele, já deixando minha forma youkai vir para a superfície e correndo o mais rápido que podia.
Um rosnado próximo de mim me dizia que ele conseguia sim me alcançar. Sesshoumaru já estava em sua forma youkai, correndo bem perto, quase me derrubando.
~Acho que o deixei bravo. Hahah~
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