And I've always lived like this

Keeping a comfortable, distance

And up until now

I had sworn to myself that I'm content

With loneliness

(The Only Exception - Paramore)

.oOo.

"E você continua saindo de casa regularmente?" Perguntou a Dra. Rost, ao que Draco rolou os olhos.

"Sim."

A bruxoterapeuta ficou esperando que ele elaborasse melhor, porém Draco limitou-se a encará-la, fazendo-se de desentendido.

"Saídas de rotina, como para comprar sapatos novos? Ou encontros?" A mulher elaborou, inabalada.

"Ambos."

"Certo, certo..." Ela fez algumas anotações, balançando a cabeça aprovadoramente. "E como você se sentiu nessas ocasiões."

"Incomodado." Draco se remexeu em sua poltrona, aproveitando para tomar mais um gole do seu chá. Harry o estava ensinando seu truque para passar despercebido, porém era mais difícil do que parecia. Exigia muita concentração e uma boa dose de autoconfiança, por isso não era de se estranhar que Draco acabasse chamando mais atenção do que gostaria em suas breves excursões fora da mansão. "Como um bicho num zoológico."

As pessoas não disfarçavam ao olhar em sua direção e algumas até mesmo faziam alguns comentários desagradáveis sem se dar ao trabalho de baixar o tom de voz, mas a verdade era que a grande maioria da atenção que Draco recebia ultimamente não era tão hostil quanto esperava. O ex-sonserino jamais admitiria, mas aquela mudança ocorrera desde que fora fotografado com Scorpius entre Harry Potter e Luna Lovegood na partida de quadribol do Tornados de Tutshill contra o Catapultas de Caerphilly. O Semanário das Bruxas tinha até mesmo publicado uma entrevista com um bruxo que dizia ter testemunhado todo o encontro. O homem, que preferira não se identificar, afirmava que Draco tinha um ótimo relacionamento com ambos os membros da Armada de Dumbledore e que Scorpius parecia à vontade em meio aos jovens Weasley. Draco suspeitava que fora o bruxo com vestes oficiais que acompanhava Percy Weasley quem vendera a informação, mas Harry não parecia se importar com nada daquilo.

"Entendo..." a bruxa fez mais algumas anotações. "E você se sente incomodado mesmo quando está acompanhado?"

Draco ia responder que sim, mas deteve-se a tempo.

"Depende da companhia," Draco acabou falando, à contragosto. Aquilo fez com que a Dra. Rost levantasse os olhos de suas anotações para encará-lo, surpresa.

"Se importa em elaborar melhor, Sr. Malfoy?"

O simples fato de se imaginar tentando explicar sem revelar mais do que devia fez com que Draco se sentisse frustrado. Suspirou e pousou a xícara na mesa de centro, massageando as têmporas em seguida.

"Não quero falar sobre isso."

"É natural que você se sinta mais seguro ao lado da sua... amiga."

"Já disse que estamos tentando ser discretos..." Draco não se conteve. "Nós evitamos lugares conhecidos e usamos alguns... truques para passar despercebidos, então é óbvio que eu me sinto mais seguro com..." Draco se conteve antes que a palavra 'ele' escapasse da sua boca.

"Sim, mas poderia ser o contrário," a Dra. Rost insistiu. "O fato de vocês estarem saindo às escondidas poderia fazer com que você ficasse mais ansioso, desconfiado... Mas claramente não é o que acontece. Isso mostra que você está confiando em alguém além de si mesmo e é uma ótima notícia! O que mais vocês têm feito juntos?"

"Além de sexo?" Draco perguntou, sarcástico, e odiou-se no momento seguinte ao perceber o triunfo nos olhos da mulher. Normalmente, Draco conseguia ser muito mais evasivo quando a bruxa tocava no assunto do seu relacionamento com Harry, com respostas curtas e atravessadas até que ela se conformasse em mudar de assunto.

"Já que você tocou no assunto," ela retirou os óculos para encará-lo melhor, "como é o sexo?"

"É..." mais uma vez, Draco se viu engolindo uma de suas respostas prontas enquanto realmente pensava no que responder. Estava prestes a dizer que aquela era, sem dúvida, a melhor parte do relacionamento de ambos – e não havia dúvidas de que continuava sendo incrível –, mas perguntou-se se estaria sendo honesto consigo mesmo. Já fazia quatro meses que eles estavam juntos e estavam ficando tão confortáveis fisicamente um com o outro que poderiam passar horas juntos sem trocarem mais que alguns toques ou beijos. "É ótimo," acabou dizendo.

"Ótimo," ela repetiu, acenando com a cabeça de uma maneira que julgava encorajadora. "E o que mais vocês costumam fazer além de sexo? Vocês costumam conversar?"

Draco bufou.

"Não, nós só trepamos como coelhos," falou, sarcástico. "É claro que nós costumamos conversar."

"Sobre amenidades?" A Dra. Rost pressionou, inabalada. "Ou sobre assuntos pessoais."

"Ambas as coisas," Draco admitiu. Na maioria das vezes, eles escolhiam tópicos mais seguros e impessoais, ou então Harry voluntariava informações sobre sua rotina, como se quisesse que ele de alguma forma fizesse parte daquilo. Mas ainda havia muitos assuntos considerados tabus entre ambos e eles invariavelmente tropeçavam em alguns deles. Algumas vezes, quando Potter percebia que Draco estava incomodado, tentava mudar de assunto. Porém, ao invés de aceitar o gesto de consideração, o loiro se sentia ultrajado com o excesso de cuidado.

"Ela sabe sobre o seu tratamento?"

"Sim," Draco cerrou os maxilares, profundamente incomodado.

"Bom, muito bom. E como você se sente, sabendo que ela..."

"É 'ele', pelo amor de Deus," Draco explodiu e continuou, diante da expressão confusa da bruxa. "Pare de dizer 'ela'. Não é uma mulher, entendeu?"

"Oh..." a bruxoterapeuta piscou algumas vezes, como se tentasse processar a informação. "Sinto muito. Você nunca disse que..."

"Eu nunca disse que era uma mulher."

"Sim, tem razão." A Dra. Rost encaixou melhor os óculos no rosto, parecendo recuperar a compostura. "Sinto muito."

Draco fez um som de desdém antes de consultar o relógio.

"Podemos encerrar por hoje?"

"Claro, sem problemas. Nos vemos na próxima semana."

Assim que as chamas da lareira morreram, Draco pressionou a ponte sobre o nariz e xingou em voz alta.

.oOo.

Draco acordou sobressaltado com o barulho da porta do quarto se abrindo, seguido da voz excitada de Scorpius.

"Papai, papai, acorda! Acabou de chegar uma coruja da mamãe, olha!" O garoto atravessou o quarto rapidamente ao mesmo tempo em que Draco se sentava na cama, se descobrindo com um movimento amplo que jogou a coberta do outro lado da cama. Felizmente, tinha vestido a parte de baixo do pijama antes de dormir.

"Scorpius!" Draco ralhou depois de engolir alguns xingamentos, o coração aos pulos. Sua repreensão fez com que Scorpius congelasse no lugar, a expressão animada dando lugar à apreensão. Draco esfregou os olhos e baixou o tom de voz. "Scorpius, o que é tão importante que você sequer teve tempo de bater na porta antes de entrar?"

"Ah, sinto muito, papai." Scorpius baixou os olhos para a carta que trazia em mãos. "É que eu reconheci a coruja da mamãe e achei que fosse para mim, mas tem o seu nome aqui, olha," ele apontou para o topo do pergaminho.

Draco suspirou e aceitou a carta.

"Está bem. Obrigado. Agora desça e tome o seu café da manhã antes que a Sra. Halder chegue."

"Já tomei meu café, papai," Scorpius falou prontamente, alternando o olhar entre Draco e a carta em sua mão. "Não vai ver o que a mamãe quer? Pode ser urgente!"

Draco abriu a boca para retorquir, mas conteve-se a tempo. Astoria não teria mandado uma coruja se fosse algo urgente, teria chamado via Flu. Além do mais, ela sabia que Draco acordava mais tarde e provavelmente havia instruído a coruja a esperar na sala até que ele acordasse. Porém, ciente de que o melhor jeito de despachar Scorpius seria fazendo a sua vontade, Draco passou os olhos rapidamente pelo bilhete. Rolou os olhos.

"Sua mãe está dizendo que teremos companhia para o chá, hoje."

"Sério? Quem?" Scorpius perguntou, novamente empolgado.

"Thomas Henrich."

"Tommy! Legal! Finalmente você vai conhecê-lo! Ele pergunta muito de você, sabia?"

Draco crispou o lábio superior.

"Tudo bem, depois você me conta tudo sobre o que exatamente Tommy pergunta sobre mim. Agora desça e espere pela Sra. Halder."

Scorpius saiu correndo e Draco alcançou sua varinha no criado, trancando a porta com um feitiço rápido e eficiente.

"Ele já foi," Draco falou e Harry gemeu, saindo de debaixo das cobertas.

"Ele desconfiou de alguma coisa?" O moreno perguntou, preocupado, já se levantando e pondo-se a se vestir.

"Nem um pouco," Draco meneou a cabeça. "Estava distraído demais com a maldita carta. Quase tropeçou na sua capa e nem percebeu."

"Que horas são?" Harry perguntou, enquanto se enfiava apressadamente em sua calça.

Draco consultou o relógio.

"Oito e quinze."

"Merda."

Draco recostou-se na cabeceira da cama, observando enquanto Harry se atrapalhava com as próprias roupas na pressa de se vestir. Queria dizer que agora já era tarde para ter tanta pressa, mas considerava uma pequena vitória o moreno não ter deixado escapar nenhum pedido de desculpas até o momento e não queria pressionar. Não era culpa dele o fato de ter perdido a hora, realmente. Eles tinham passado boa parte da madrugada em claro, entre discutir e fazer as pazes. Mas não era como se o Auror tivesse que trabalhar naquele dia.

"Quem é esse tal de Tommy?" Harry perguntou enquanto se sentava para calçar os sapatos.

"É o namorado de Astoria." Draco franziu o lábio superior. Não estava particularmente ansioso para se encontrar com o homem. Sequer o conhecia, mas já não ia com a cara dele e odiava o fato de ele querer conquistar o afeto de Scorpius com presentes. Porém, Astoria já mencionara várias vezes seu desejo de que eles se conhecessem e Draco não fora capaz de negar aquilo à ex-esposa. Sabia que era importante para ela.

"Qual é mesmo o sobrenome dele?"

"Henrich," Draco respondeu.

"Não me lembro de ninguém com esse sobrenome em Hogwarts," Harry falou, pensativo. "Ele é mais velho? Algum viúvo ou coisa parecida?"

Draco fez um som de deboche.

"Qual é, Harry. Astoria pode fazer melhor do que isso..."

"Eu sei!" Harry encarou-o, desconcertado. "É só que..."

"Ele estudou em Beauxbatons," Draco interrompeu-o. "A família dele se mudou para lá quando..." Draco engoliu em seco e desviou os olhos, servindo-se de sua dose diária de medicamentos. "Eles são uma família de sangue puro, mas fugiram assim que começaram a ouvir rumores sobre o Lor... Voldemort."

Aquele era um dos motivos da antipatia de Draco por Henrich. Sentia doses equivalentes de desprezo e inveja por ele ter escapado da guerra.

"Ah... entendo..." Sempre otimista, Harry passou a mão pelos cabelos para tentar ajeitá-los. Colocou as mãos na cintura, olhando ao redor para se certificar de que não estava se esquecendo de nada. "Fico feliz por Astoria. Espero que ele seja bom para ela."

"É melhor que ele seja, mesmo," Draco falou, ao que Harry sorriu, engatinhando sobre a cama até ficar com o nariz a centímetro do seu.

"Certifique-se de dizer a ele que não será o único a enfeitiçar as bolas dele se ele sair da linha."

"Claro."

Draco fechou os olhos quando os lábios de Harry tocaram os seus num beijo suave. Quando tornou a abri-los, o divertimento fora substituído pela incerteza na expressão do moreno. Draco fechou a cara.

"Draco..."

"Harry, eu já disse..."

"Por favor..." Harry uniu suas testas. "Prometa que vai pelo menos pensar a respeito..."

"Harry..." Draco mais suplicou que protestou, daquela vez.

"Por favor..." Harry beijou seus lábios novamente, uma mão segurando seu rosto delicadamente, o polegar acariciando sua face. "Por favor..."

Draco soltou o ar pelo nariz, irritado com a própria fraqueza. Harry pareceu sentir a própria vitória, pois sorriu antes de beijá-lo uma última vez. Ele desapareceu por debaixo da capa da invisibilidade antes de deixar o quarto silenciosamente.

"Porra!" Draco xingou, batendo a cabeça contra a cabeceira da cama.

.oOo.

"Chocolate!" Scorpius exclamou, exibindo o presente que ganhara do convidado.

"Como se diz, Scorpius?" disse Astoria, soprando seu chá.

"Obrigado, Tommy!" O garoto agradeceu e então voltou-se para Draco. "Posso comer, papai?"

"Só depois do jantar," Draco falou, decisivo.

"Ah, só um! Por favor, papai, só um!"

"Ora, que mal há nisso?" Falou Thomas Henrich, com uma voz aveludada e seu sorriso simpático. "Tenho certeza que Scorpie vai jantar direitinho depois, não é mesmo, garoto?"

Draco estreitou os olhos para o homem sentado à sua frente e abriu a boca para perguntar que diabo de apelido era aquele e quem ele pensava que era para tratar seu filho como um cachorro, porém Astoria apertou seu braço discretamente. Draco tomou um grande gole do seu chá para ajudar as palavras não ditas a descerem por sua garganta abaixo, queimando.

"Sim, papai," Scorpius acenou, angelicalmente. "Prometo que vou comer tudinho. Vamos, papai, por favor?"

"Você vai poder comer quantos bombons quiser após o jantar, Scorpius," Astoria acudiu rapidamente.

"Ahhh..." Scorpius lamentou, de ombros caídos.

"Oh, pobrezinho," Henrich falou, lançando um olhar desdenhoso para Draco. "Venha aqui, garoto. Vou mostrar quais são os sabores para você poder escolher depois."

Scorpius correu até ele para examinarem a caixa, lambendo os lábios de antecipação.

"Calma, Draco," Astoria sussurrou sem encará-lo, sorrindo quando o namorado olhou em sua direção. Henrich olhou para a mão que Astoria mantinha no braço de Draco e ela retirou-a delicadamente.

Draco sentiu certa satisfação diante do ciúme mal-disfarçado de Henrich. Ele claramente não ficara nada satisfeito quando Astoria escolhera se sentar na poltrona ao lado de Draco ao invés de se juntar a ele no sofá. Ela provavelmente fizera aquilo por puro hábito, mas Henrich não precisava saber daquilo.

Para desapontamento de Draco, Thomas era um rapaz muito bonito, refinado e aparentava ser mais novo que ele. Talvez não tivesse mais que vinte e cinco anos. Porém, o desprezo que Draco sentia por ele só fazia aumentar a cada vez que ele abria a boca para fazer alguma brincadeira idiota com Scorpius ou para discordar do que quer que Draco dissesse.

"... poderíamos levá-lo conosco para passear amanhã de manhã. O que acha, Astoria?"

Scorpius olhou para a mãe com os olhos arregalados brilhando de expectativa.

"Amanhã é sexta-feira," Draco falou antes da ex-mulher. "Scorpius tem aula."

"Ah, é verdade..." Scorpius deixou os ombros caírem, derrotado.

"Ora, que pena..." Henrich falou, aparentemente devastado pela notícia. "Seria tão bom se nós saíssemos uma última vez antes da minha viagem... Será que ele não poderia faltar somente amanhã?" Ele dirigiu-se à Astoria novamente, notadamente ignorando Draco.

"Por favor, mamãe..." Scorpius implorou.

Draco encarou a ex-mulher como se a desafiasse a contrariá-lo daquela vez. Astoria suspirou e dirigiu-se ao filho.

"Sinto muito, querido..."

"Ahh, mamãe..."

"Mas nós podemos sair assim que Thomas voltar," Astoria continuou. "No próximo sábado. O que vocês acham?"

"Está marcado, então," Henrich assentiu. "Podemos ir ao Beco Diagonal. Que tal?"

"Legal!" Scorpius comemorou. "Assim vou poder ir à loja de logros! Meu primo disse que tem uns brinquedos novos incríveis, mas meu pai não pôde me levar lá para ver..."

"Puxa..." Henrich meneou a cabeça e continuou, de maneira condescendente. "Tenho certeza que seu pai é um homem muito ocupado."

Draco estava prestes a dar uma resposta mordaz, porém as próximas palavras de Scorpius fizeram com que perdesse a linha de pensamento.

"É verdade. Se pelo menos papai também tivesse uma namorada, aposto como ele sairia mais vezes comigo..."

"Scorpius, por que você não vai mostrar a sua casa na árvore para Tommy, heim?" Astoria falou, ao que o garoto concordou, excitado, conduzindo o visitante para o jardim enquanto tagarelava.

Assim que ficaram sozinhos, Astoria lançou um olhar apologético na direção do loiro, que lhe devolveu um olhar gelado.

"Juro que não sei o que deu em Thomas," ela falou, exasperada. "Ele não costuma ser assim, tão infantil."

"Ah, claro, porque ele parece mesmo ser muito maduro," Draco devolveu, sarcástico, depositando sua xícara na mesinha de centro. "Aliás, quantos anos ele tem? Doze?"

"Ele não é tão novo quanto parece." Astoria suspirou, também dispensando sua xícara vazia. "Vai fazer vinte e sete no próximo mês."

"Muito maduro, realmente."

"Draco..." Astoria implorou. "Ele só está se sentindo ameaçado. Não é fácil para ele, competir com você, sabe?"

"E quem disse que estou competindo com ele?"

"Eu sei disso, mas ele não sabe. Tudo que ele sabe é que nos separamos amigavelmente e que, além de você ser o pai do meu filho, também é meu melhor amigo..."

"Não entendo como isso dá o direito a ele de querer passar por cima das minhas decisões. Quem ele pensa que é para..."

"Ele só está tentando ganhar o afeto de Scorpius."

"E, por acaso, ele tem que fazer com que meu filho me odeie?"

Astoria colocou as mãos nas têmporas, massageando-as.

"Draco, eu realmente preciso de um amigo agora. Então se você puder, por favor, deixar de encrencar com ele por um minuto..."

Draco abriu a boca para dizer que não estava encrencando coisa nenhuma, mas tornou a fechá-la diante do olhar da ex-esposa. Então foi sua vez de suspirar.

"O que houve?" Perguntou.

"Ele me pediu em casamento." Ela mordeu o lábio inferior, encarando as próprias mãos.

"E o que você respondeu?"

"Disse que precisava de um tempo para pensar," ela gemeu. "Draco, não sei se estou preparada ainda. É muito cedo! Faz apenas alguns meses que nos conhecemos. Ele não foi nada além de atencioso e amoroso comigo, mas... Às vezes ele diz uma coisa ou faz algo que eu não esperava e eu penso que não sei quase nada a respeito dele! E se ele não for nada do que aparenta? E se ele mudar completamente com Scorpius assim que nos casarmos? E se ele não gostar tanto assim de mim...?" A voz de Astoria tremeu.

Draco engoliu em seco. Queria confortá-la, dizer que ela estava fazendo tempestade num copo d'água, que aquilo era bobagem... Apesar da sua implicância com Henrich, ele parecia realmente devotado a Astoria, como se compreendesse que tinha sorte em poder admirá-la de tão perto. Mas, ao mesmo tempo, que garantias Draco tinha para oferecer? Além disso, se sentia culpado por ela estar se fazendo aquelas perguntas.

Draco e Astoria não tinham namorado, mas apenas noivado por alguns meses enquanto suas famílias planejavam e preparavam o casamento. Durante esse tempo, Draco também fora exemplarmente carinhoso e atencioso com sua noiva, mas se tornara frio e distante tão logo se casaram.

"Ei," Draco segurou as mãos de Astoria, buscando seu olhar. "Você não precisa fazer nada que não esteja preparada. Diga a ele que quer esperar e, se ele não concordar, então que ele se foda."

Aquilo fez com que Astoria sorrisse, os olhos brilhantes de lágrimas não derramadas. Mas o sorriso durou muito pouco.

"Mas e se essa for minha única chance? E se ninguém mais me quiser? Não estou ficando mais nova, sabe..."

"Não, mas está ficando mais bonita a cada dia." Draco trouxe uma mão de Astoria até seus lábios, beijando os nós dos seus dedos.

"Meu Deus, tinha me esquecido de como você sabe ser charmoso, quando quer," ela riu, limpando os olhos.

"É bom saber que ainda levo jeito," Draco sorriu, mas tornou a ficar sério em seguida. "Astoria, estou falando sério. Você tem trinta anos, não sessenta. E definitivamente não precisa de homem nenhum para ser feliz, então não deixe que nenhum idiota coloque você para baixo."

"Eu sei que não preciso de ninguém, mas também não quero ficar sozinha." Astoria apoiou a cabeça em seu ombro. "Scorpius vai crescer e me deixar, um dia. E então serei só eu novamente. Quero dizer, até você tem o Harry..."

"Agora," Draco corrigiu, sarcástico. "Eu tenho o Harry agora. Mas quem garante que ele vai estar aqui para sempre? Não é como se estivéssemos fazendo planos para o casamento..."

"Mas..." Astoria começou, mas Draco interrompeu-a.

"Shh! Esqueça o Harry por um instante. Estamos falando de você, agora. E eu honestamente duvido que você vá ficar solteira por muito tempo. Se não for esse engomadinho do Henrich, será outro."

"Outro engomadinho?" Astoria provocou, ao que Draco sorriu.

"Provavelmente. Nunca se sabe. Ouvi dizer que Theodore Nott ainda está solteiro."

Astoria riu. Desde o início do sétimo ano, Nott não se preocupara em esconder dos demais sonserinos que tinha uma quedinha pela irmã mais nova de Daphne. Blaise costumava tirar sarro nele, dizendo que ele nunca teria coragem de chegar nela, afinal ele era bastante tímido. E, de fato, Nott jamais chegara a confessar seu amor por Astoria, que jamais desconfiara dos sentimentos do garoto até que Draco lhe contasse. Depois da guerra, o pai de Theodore voltara para Azkaban e ele embarcara numa viagem ao redor do mundo. Nott jamais retornara à Inglaterra e chegara a mandar algumas correspondências para Draco da Grécia, onde se instalara para se especializar em Aritmância. Depois que Draco ficara noivo de Astoria, entretanto, Nott cortara relações com ele, apesar de ainda se corresponder com Blaise, eventualmente.

"Bem, talvez eu tenha que pedi-lo em casamento, se as coisas não melhorarem para o meu lado," Astoria zombou. "Até que ele não era feio. Só muito magro. E tímido."

"Imagino que lidar com números em tempo integral não tenha melhorado essa última qualidade."

"Imagino que não..."

Eles ficaram em silêncio por algum tempo antes que Astoria se endireitasse.

"Bem, agora chega de falarmos sobre mim. É sua vez de dizer o que há de errado," ela falou. "E não diga que não há nada errado, porque eu conheço você muito bem."

Draco fechou a boca e meneou a cabeça, torcendo para que Scorpius e Henrich voltassem logo. Até mesmo aturar aquele babaca era melhor do que enfrentar um questionário de Astoria. Quando ficou claro que Draco não diria nada, ela pressionou.

"Por que você disse que Harry pode não ficar para sempre? O que aconteceu, Draco? Vocês brigaram?"

Draco suspirou.

"Ele quer que eu jante com os amigos dele, no domingo."

"Bem, e qual é o problema disso?"

"Além do fato de que os amigos dele me odeiam?" Draco devolveu, acidamente. "E, acredite, eles realmente me odeiam."

Draco ainda se lembrava de como Weasley brigara com Harry por ele obrigá-los a voltar para resgatá-lo na Sala Precisa, em meio ao Fogomaldito; ou do soco que o ruivo lhe dera depois que Harry salvara sua vida uma segunda vez, naquela mesma noite da batalha, estuporando o Comensal que duelava com ele; ou da expressão desgostosa de Weasley durante seu julgamento, claramente contrariado com a determinação de Potter em defender sua família e evitar que seu pai e ele fossem mandados para Azkaban. Já Hermione Weasley era uma incógnita. Ela certamente não demonstrava tanto seus sentimentos quanto o marido, mas se os xingamentos que Draco costumava dirigir a ela e o fato de ela ter sido torturada por sua tia fossem algum indicativo, ela não precisava demonstrar.

"Ora, mesmo se isso for verdade, talvez eles estejam dispostos a dar uma chance a você, pelo bem de Harry."

"Ou usar o fracasso do jantar contra mim – e pode ter certeza que será um fracasso."

"Mas está claro que é importante para ele que você se esforce, Draco," Astoria ponderou.

"Astoria," Draco interrompeu-a, "você não está entendendo..."

"Não, Draco, você é que não está entendendo," foi a vez de Astoria segurar as mãos de Draco. "Você disse que ele pode sair da sua vida a qualquer momento, mas esse jantar não me parece um sinal de que ele queira terminar com você. Muito pelo contrário! Significa que as coisas estão ficando mais sérias. Eles são a família dele, pelo amor de Deus!"

Felizmente, Draco foi poupado de ter que responder, uma vez que Scorpius e Henrich voltaram de sua breve excursão pelo quintal naquele momento. Henrich vacilou por um instante ao vê-los tão próximos, de mãos dadas. Astoria levantou-se rapidamente e foi ao encontro dele e Draco ainda encarou o olhar desconfiado do seu convidado por algum tempo, em desafio, antes que o outro desviasse os olhos.

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