Do you know what's worth fighting for
When it's not worth dying for?
Does it take your breath away
And you feel yourself suffocating?
Does the pain weigh out the pride?
And you look for a place to hide?
Did someone break your heart inside?
You're in ruins
(21 Guns - Green Day)
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Draco passou todo o jantar esperando pelo momento em que tudo desmoronaria, portanto sentiu certo alívio misturado com raiva, quando finalmente aconteceu. Principalmente porque não fora ele a iniciar o desastre, mas sim Ronald Weasley.
Se o ruivo estava tentando disfarçar seu descontentamento com a situação, ele certamente estava fazendo um péssimo trabalho desde o início, disfarçando sons de desprezo sempre que a esposa fazia alguma tentativa de ser polida ou nas raras ocasiões em que Draco dizia algo. Ele fingia não reparar nos olhares atravessados que ganhava e emendava algum comentário qualquer, para provar que não fizera por mal.
"Hannah Logbottom falou muito bem a seu respeito," disse Hermione, numa das suas muitas tentativas de puxar conversa. "Ela disse que está sentindo sua falta em Hogwarts. Parece que a nova professora de Poções não encara com tanta boa vontade a obrigação de manter os estoques da Enfermaria."
"Ah, verdade!" Harry exclamou. "Neville vive mandando lembranças para você, mas eu sempre me esqueço."
"Claro, deve ser difícil para você se lembrar dos amigos quando está com ele," Ronald comentou, num tom quase brincalhão, então emendou diante da tensão que se seguiu. "Quem é o novo Chefe da Sonserina, aliás?"
"A nova professora," Harry respondeu, ainda que relutante. "Parece que ela era da Corvinal, mas como não sobrou nenhum professor sonserino e a sala dela é a única que fica nas Masmorras, acharam por bem que ela continuasse com a tradição."
"Bem, não posso culpá-la por estar achando certa dificuldade em dar conta de tudo, então," Hermione completou. "Não deve ser nada fácil ter que dar conta das aulas, do estoque de poções do castelo e ainda liderar os alunos."
"Sonserinos, ainda por cima..." Ronald meneou a cabeça. "Eu definitivamente não aceitaria o emprego por dinheiro nenhum nesse mundo."
Draco impediu-se de responder que ninguém seria louco ou desesperado o suficiente para oferecer o emprego a ele. Em vez disso, provou mais um pedaço do assado. Tentava se distanciar ao máximo sempre que ele fazia alguma insinuação, numa experiência quase incorpórea, mas estava ficando cada vez mais difícil se segurar.
"Isso está muito bom, Harry," Hermione elogiou, se servindo de mais uma porção de legumes cozidos.
"Obrigado," o moreno agradeceu. "Não chega aos pés da sua culinária, mas..."
"Mas você não precisava ter se incomodado," Ronald falou. "Quero dizer, nós poderíamos ter ido a um restaurante."
"Não me importo em cozinhar, Ron..." Harry atalhou, mas Ron continuou, sem parecer tê-lo escutado.
"Como era mesmo o nome daquele restaurante que nós fomos daquela vez?" Ele perguntou para a esposa. "Aquele todo chique que Amabel sugeriu? Aquilo sim, era comida boa..."
Draco quase engasgou diante do nome da ex-namorada de Harry e teve que limpar a garganta sonoramente para evitar um acesso de tosse.
"Ron..." Hermione falou, em tom de aviso.
"Ah, certo!" Ronald bateu na própria testa teatralmente. "Não seria nada discreto. E nós não iríamos querer isso."
"Luna também falou muito bem de você," Hermione atalhou novamente, ignorando a contribuição do marido para a conversa.
"É claro que ela falou," Ron explodiu, se levantando. "Ele provavelmente se ajoelhou para pedir desculpas por zombar dela durante anos, no colégio, e pela família dele ter mantido ela como refém durante meses. E sabe por quê? Porque ele precisava dela. Agora ele não precisa de mim ou de você, então para que perder tempo?"
"Ronald!" Hermione repreendeu, porém o ruivo estava exaltado demais para perceber o perigo que corria.
"O que foi? Vai dizer que você se esqueceu de todas as vezes que ele chamou você de Sangue Ruim? Ou insultou seus pais? E você, Harry?" Ele voltou-se para o moreno, que largou os talheres e pressionou a ponte sobre o nariz, como se implorasse por paciência. "Por acaso contou a ele sobre a maravilha que era a sua vida fora de Hogwarts? Sobre como seus tios o obrigavam a cozinhar para eles, fazer tarefas domésticas e ainda trancavam você num armário passando fome..."
"Ron, já chega," Harry falou por entre os dentes cerrados. "Sente-se."
"...enquanto ele era servido por dezenas de elfos domésticos e ainda chutava o traseiro dos pobres coitados? E você," Ronald finalmente olhou para Draco com uma expressão maníaca nos olhos.
"Pelo amor de Deus, Ron..." Hermione implorou, porém seu marido tampouco lhe deu ouvidos.
"Tudo que você fazia era pensar em mil maneiras de tornar a vida dele ainda pior, como se não bastasse tudo que ele tinha que passar. Então sinto muito se tenho dificuldade em aceitar essa palhaçada que vocês chamam de relacionamento se você não tem nem coragem de assumir para o seu próprio filho..."
"Já chega, Ron!" Foi a vez de Harry perder as estribeiras, batendo o punho na mesa e se levantando.
Ronald finalmente se calou, apesar de ainda encarar Draco com os olhos cheios de ódio, as narinas alargadas e os nós dos dedos brancos conforme apertava um guardanapo numa das mãos. Draco sustentou o olhar do ruivo, a respiração alterada como se tivesse corrido uma maratona, simplesmente pelo esforço de se manter inabalado. Sentiu o suor brotar de sua têmpora e agarrou-se à raiva que sentia como se sua vida dependesse daquilo, com medo de desmoronar caso se permitisse sentir qualquer outra coisa. Harry respirou fundo para tentar recuperar a calma.
"Ron, por que você não me acompanha até a adega enquanto eu escolho uma bebida para acompanhar a sobremesa?"
Ronald jogou o guardanapo que segurava sobre a mesa e seguiu por uma porta lateral na cozinha.
"Não se atreva a sair daí," Harry falou para Draco que rangeu os dentes em resposta, mas não fez menção de se levantar enquanto o moreno se afastava e fechava a porta da adega atrás de si.
Draco baixou os olhos para sua taça de vinho que segurava com força e obrigou-se a relaxar o aperto antes que a quebrasse. Evitou a todo custo olhar na direção de Hermione e concentrou-se em acalmar a própria respiração, porém aquilo se tornou cada vez mais difícil conforme as vozes se elevavam no cômodo anexo tornando possível distinguir cada palavra. Aparentemente, nenhum dos dois se importara em lançar um feitiço de privacidade.
"... toda aquela história sobre você confiar no meu julgamento e querer que eu fosse feliz?" Perguntou Harry.
"Aquilo foi antes de você mesmo terminar tudo e dizer - e essas foram suas exatas palavras - que nunca ia dar certo, que você não queria um relacionamento às escondidas!"
"Eu já disse que nós estamos tentando resolver isso!"
"Não, Harry. Você está fazendo a si mesmo de bobo, é isso que está acontecendo. Quero dizer, olhe para ele, sentado naquela cadeira como se fosse um trono, olhando para todo mundo do alto da sua superioridade, com cara de quem cheirou bosta... Você realmente acredita que ele está tentando resolver alguma coisa? Aquele bastardo egoísta e covarde? Para ele é muito cômoda, essa situação, por que ele iria querer mudar alguma coisa? Ele tem os pais para darem tapinhas em suas costas, está ganhando popularidade e ainda pode foder com você quando quiser, em todos os sentidos possíveis..."
"Já terminou de dizer o que tinha para dizer?" Harry perguntou, porém Ronald continuou.
"Quanto a você... Você pode se enganar agora dizendo que está feliz. Pode passar um ano ou dois dizendo a si mesmo que pode esperar mais um pouco até que vocês resolvam isso. Mas daqui a dez anos, você vai olhar para trás e ver que desperdiçou boa parte da sua vida com alguém incapaz de fazer você feliz!"
"Malfoy..." Draco ouviu a voz tentativa da bruxa ao seu lado, mas ignorou-a determinadamente. Fechou os olhos e prendeu a respiração sem que percebesse.
"E como você pode ter tanta certeza de que não estou feliz? Me diga!" Exigiu Harry.
"Acontece que tenho sido seu melhor amigo por vinte anos! Posso não ser a pessoa mais perceptiva do mundo, mas até eu sei que você não precisa de nenhum amante. Você precisa de uma família, Harry! E isso ele nunca vai poder oferecer. Quanto mais cedo você perceber isso, melhor. Então se o preço que tenho que pagar para abrir seus olhos é a sua raiva, que assim seja!"
"Não posso mais..." Draco falou, finalmente soltando o ar dos pulmões e se levantando.
"Malfoy, espere! Draco!" Hermione tentou impedi-lo, em vão. Draco subiu rapidamente os degraus em direção à sala de estar, porém chegou completamente sem fôlego.
Amaldiçoou em pensamento, afrouxando a gravata. Suas mãos tremiam quando alcançou o pó de Flu. Assim que pisou na própria sala, xingou em voz alta e caiu no sofá, abaixando a cabeça entre as pernas, tentando recuperar o fôlego. Sentiu os olhos se encherem de lágrimas de raiva e humilhação. Fechou-os com força, tentando acalmar a respiração.
"Você está bem?"
Draco se sobressaltou ao ouvir a voz de Hermione vinda da lareira. Não tinha sequer ouvido o rugir das chamas antes de ver seu rosto através das labaredas encantadas.
"Precisa de ajuda?" Perguntou Hermione, a voz mais aguda que de costume. "Quer que eu vá até aí?"
"Estou bem," Draco declarou, piscando para espantar as lágrimas e tentando recuperar um pouco da dignidade que lhe restava. Percebeu que já respirava melhor e já não tremia tanto. Pelo menos o susto fizera com que se recuperasse do ataque de pânico.
"Draco, eu… sinto muito," Hermione falou, consternada.
Draco desviou os olhos da lareira. Sentia-se esgotado, derrotado e permitiu-se um momento de autocomiseração. Aquela doença estava acabando com o pouco que restava do seu orgulho. Perguntou-se se seria possível descer ainda mais baixo do que já se encontrava, mas no mesmo instante escarneceu da própria dúvida. É claro que poderia ser pior. Poderia ter sido Ronald Weasley quem testemunhara seu colapso, ao invés da sabe-tudo.
"Sabe o que é pior?" Draco ouviu-se dizendo, alguns longos segundos depois. "Ele tem toda razão."
"Não é bem assim," Hermione falou, parecendo um tanto desconfortável.
Draco respirou fundo, reunindo coragem.
"Grang... Weasley, eu..." Ele começou a dizer, mas foi interrompido.
"Pode me chamar de Hermione. E não ligue para o que Ron disse. Não preciso que você peça desculpas," ela falou com firmeza.
Draco encarou-a. Hermione levantou ainda mais o queixo como se o desafiasse a questioná-la, ao que Draco desviou os olhos novamente.
"Além do mais, não acho que Harry esteja infeliz. Quero dizer, vocês têm seus desentendimentos, como qualquer casal, mas não acho que vocês estejam fadados a serem infelizes."
"Mas eu não posso dar uma família para Harry." Draco planejava soar sarcástico, mas sua voz saiu um tanto incerta aos seus próprios ouvidos. "Ou vai dizer que Weasley não tinha razão sobre Harry precisar de uma?"
Hermione suspirou.
"Bem, na verdade ele tem toda razão quanto a isso. Mas não no sentido que você pensa. Você pode ser a família dele. E deixar que ele faça parte da sua."
Draco engoliu em seco.
"Ouça, Draco," Hermione continuou, visivelmente frustrada. "Sei que Ron sabe ser inconveniente quando quer, mas... Ele só está tomando conta de Harry."
Antes que algum dos dois tivesse chance de dizer mais alguma coisa, ouviram-se vozes do outro lado da conexão e Hermione olhou por cima do ombro.
"Me desculpe, tenho que ir," a bruxa se desculpou. "Até logo, Draco."
O silêncio que se seguiu à sua partida chegava a ser opressor. Draco sabia o que aconteceria a seguir. Ele levantou-se, pronto para fugir do confronto o quanto antes, mas mal virou as costas e já era tarde demais.
"Draco," Harry falou com determinação, após surgir pela lareira. "Por favor, não faça isso comigo. Eu honestamente não sei se consigo lidar com você me evitando agora."
"Eu disse que isso seria um desastre," Draco falou, acusador, voltando-se para encará-lo.
"Eu sei," Harry deixou os ombros caírem, parecendo subitamente cansado demais para argumentar. "Olha, a culpa foi minha por insistir nisso, eu admito. Mas, por favor, não torne as coisas mais difíceis para mim agora."
Draco desviou os olhos. Sentia as mãos dormentes. Ou talvez fossem seus sentidos que estivessem dormentes. Draco deixou-se sentar novamente, olhando para o nada e sentindo-se esgotado, vazio.
Harry suspirou, aliviado, desmoronando no sofá ao seu lado e acendendo a lareira. Ele desabotoou os primeiros botões da camisa, assim como o loiro fizera momentos atrás, e esfregou os olhos por trás dos óculos, deixando o corpo pender até encostar a cabeça no ombro de Draco. Quando ele estendeu a mão, Draco aceitou-a num gesto quase automático. Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, observando o suave crepitar das labaredas na lareira.
"Draco...," Harry começou, mas Draco cortou-o rapidamente.
"Não quero falar a respeito disso."
Draco não queria pensar em nada, tampouco, porque sabia onde seus pensamentos o levariam.
"Eu também não," Harry admitiu, sem muitas delongas. "Prometo nunca mais forçar você a esse tipo de situação, está bem?"
Eles ficaram em silêncio por um longo, longo tempo.
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Outubro estava se mostrando particularmente frio. Harry e Draco se encontraram durante todos os dias daquela semana, nem que fosse apenas para se aconchegarem em frente à lareira em silêncio, apreciando a companhia um do outro. Draco sentia como se estivesse roubando um pouco de tempo a cada minuto que passava com Harry, imaginando que em algum momento o Auror se daria conta de que Weasley tinha razão, no final das contas. Desejava saber o que se passava na cabeça dele, mas ao mesmo tempo preferia continuar sem saber.
Desde o fiasco do jantar de domingo, Harry não tocara no assunto, portanto não seria Draco quem o faria. Ele tentava não remoer as palavras ditas e não ditas e em alguns momentos aquilo se provava mais fácil que em outros. Como quando eles compartilhavam os momentos mais espontâneos.
Na noite de sábado, enquanto o céu desabava do lado de fora, Draco de alguma forma se encontrara observando enquanto Harry fazia o jantar.
"Como você sabe quando está cozido?" Draco perguntou, espiando por cima da borda da panela com legumes.
"Você experimenta," Harry encolheu os ombros enquanto checava o assado no forno. Draco arqueou uma sobrancelha, incrédulo. "Eu, particularmente, não gosto dos legumes muito cozidos. Eles perdem um pouco da cor e muitas vitaminas." Ele levantou os olhos da panela para a expressão duvidosa do loiro e sorriu, empurrando os óculos para encaixá-los melhor no rosto. "Quer provar?"
"É como fazer poções," Draco zombou das palavras do outro, momentos antes. "Honestamente, se eu fosse provar todas as poções que faço para saber se estão 'no ponto'..."
Apesar das próprias palavras, Draco se aproximou, alcançando o garfo que Harry usara para mexer os legumes, e lutou para pescar uma ervilha.
"Não ria!" ele falou para Harry, que desviou o olhar, divertido.
Quando finalmente conseguiu, Draco levou a mão ao garfo, triunfante, porém logo a afastou, xingando e abanando os dedos queimados. Com o susto, Draco também havia largado o garfo, que quicou no chão, respingando água fervente em sua calça.
"Aqui, deixe-me ver," Harry falou, assim que conseguiu parar de rir, tentando alcançá-lo.
"Não foi nada," Draco puxou a mão do alcance do outro, irritado.
"Quer que eu dê um beijinho para sarar?"
"Filho da mãe," Draco xingou enquanto Harry tornava a rir, abraçando-o por trás e segurando sua mão com firmeza para poder inspecioná-la.
"Você vai sobreviver," ele falou, beijando o pescoço de Draco, que tornou a xingá-lo apesar de já não fazer nenhum esforço para se livrar dele. "Felizmente, você não vai precisar usar os seus dedos hoje à noite."
"Continue falando e você terá que usar os seus. E garanto que não será em mim," Draco mirou uma cotovelada no estômago do moreno, que conseguiu evitar a maior parte do golpe e tornou a se aproximar do fogão, apagando a chama da panela de legumes. "Ei, você não vai provar?"
"Não." Harry encolheu os ombros. "Já está bom," ele levitou a panela com um aceno de varinha e despejou seu conteúdo numa peneira, retirando o assado do forno e regando-o com o molho em seguida. "Por que você não coloca a mesa?"
"Você não está falando sério," Draco falou, depois de um curto silêncio.
"E por que não estaria?"
"Porque você tem um elfo doméstico?" Draco devolveu, sarcástico.
"Ele vai insistir para usarmos a prataria da sua tia-avó e vai demorar uma hora para colocar todos aqueles talheres," o Auror falou, sem se virar. "Honestamente, Draco. É apenas assado com legumes! Dois pratos, dois garfos e duas facas é o que basta!"
Draco abriu a boca para dar uma resposta atravessada, mas acabou bufando e revirando os olhos. Harry deu instruções sobre onde encontrar os pratos e talheres enquanto terminava de preparar o jantar. O olhar de Draco caiu sobre um embrulho azul brilhante sobre o balcão fazendo com que seu cenho se franzisse, porém empurrou aquilo para o canto de sua mente enquanto continuava sua busca pelos guardanapos. Por fim, achou melhor convocá-los com a varinha e acabou bombardeado por meia dúzia de pacotes de guardanapo voando em sua direção. Era por isso que nunca se aventurava a convocar facas ou tesouras.
O loiro também tomou a liberdade de se aventurar pela adega e teve que suprimir uma exclamação de surpresa.
"Você estava sentado em cima do ouro esse tempo todo?" Draco falou, assim que voltou para a cozinha com um vinho de elfos da sua safra preferida.
"Não entendo muito de vinhos," Harry admitiu, já se acomodando na mesa posta. "Uma vez comentei sobre a adega para Hermione e ela me deu um livro sobre o assunto, mas eu nunca me animei a ler, pra dizer a verdade."
"Como se pudesse aprender sobre vinhos com um livro," Draco desdenhou, abrindo a garrafa e servindo duas taças. Ele agitou o líquido vermelho por um momento antes de sentir o aroma levemente adocicado. Só então ele provou sua bebida, suspirando em seguida. Quando tornou a abrir os olhos, deparou-se com um par de olhos verdes encarando sua boca e fez questão de umedecer os lábios lentamente, ao que Harry mordeu o lábio inferior.
"Por favor, Sr. Malfoy," Harry gesticulou para que Draco se servisse dos legumes, como se oferecesse um prato do mais fino paladar.
Harry costumava desfazer da própria culinária, mas Draco não poderia se importar menos. Quando ainda era a senhora da mansão Malfoy, Astoria costumava encomendar cardápios simples aos elfos, reservando as refeições mais elaboradas apenas para grandes ocasiões, como a visita dos sogros. Ao contrário de Narcissa, que fazia questão de refeições de três pratos em dias comuns e de seis pratos em ocasiões especiais. Draco tampouco se importava em ter que se servir, mas sinceramente não entendia porque Potter insistia em poupar seu elfo doméstico, por mais decrépito que ele fosse. Não era de se admirar que a pobre criatura quase chorasse de alegria quando podia ser útil.
"Cuidado para não queimar a língua," Harry falou quando Draco levava a primeira garfada à boca. "Vou precisar dela intacta mais tarde."
Draco não se deu ao trabalho de responder, limitando-se a chutá-lo por debaixo da mesa. Ao invés de evitar o contato, Harry apoiou os pés na batata da perna no loiro. Eles comeram em silêncio, exceto por um ou outro comentário. Lá fora, o céu parecia se sacudir e estremecer, tornando a calmaria do lado de dentro um tanto etérea.
"O que é aquilo?" Draco perguntou ao deparar-se novamente com o embrulho azul.
Harry teve que se contorcer para trás para ver do que se tratava.
"Ah... Tinha me esquecido disso." Ele suspirou e tomou um gole do seu vinho, recostando-se melhor na cadeira. "Tem uma bruxa que mora aqui perto, a Madame Manson. Às vezes eu passo pela casa dela quando vou caminhar. Normalmente eu uso aquele feitiço de desilusão que você já conhece, mas um dia eu me esqueci e ela me reconheceu. Desde então, o feitiço nunca funciona com ela e ela sempre tem algo para mim."
"E você costuma aceitar?" Draco arqueou uma sobrancelha, ignorando o ciúme que ameaçava tomá-lo. Em sua mente, já imaginava a Madame Manson esperando Harry na varanda com um vestidinho florido e um sorriso cheio de covinhas.
"Eu tentei recusar, acredite. Mas é mais fácil assim. Ela já me deu um par de chinelos e um pijama. Mas a maioria das vezes é algum doce caseiro ou uma massa que ela mesma fez. Eu costumo jogar fora esse tipo de coisa, mas uma vez ela mandou um pão caseiro e eu não resisti," ele encolheu os ombros. "Às vezes dou para o Ron. Costumava dar, pelo menos..." ele baixou os olhos para o prato, cortando um pedaço de carne. "Hermione conhece uns ótimos feitiços para checar esse tipo de coisa."
Ele encheu a boca em seguida e Draco tentou ignorar o embrulho, porém seu olhar recaía sobre ele de tempos em tempos. Aquilo era uma clara demonstração de tudo que Draco não sabia a respeito da vida de Potter e fazia com que algo quente e irracional se agitasse dentro dele, como quando lia alguma matéria a respeito dele. De alguma forma, todas as matérias acabavam com uma especulação quanto à vida amorosa do Salvador do Mundo Bruxo. Mas o loiro se recusava a dar o braço a torcer, por isso optou por mudar de assunto.
"Estou pensando em levar Scorpius para um piquenique quando o tempo melhorar," Draco comentou casualmente.
"É uma ótima ideia," Harry comentou, os pés se balançando preguiçosamente de encontro à sua perna. "Aonde você pensa em ir."
"Ainda não sei," Draco encolheu os ombros. "Talvez no Heath¹. Minha mãe costumava me levar lá quando eu era criança."
Draco se lembrava da mãe torcendo o nariz e agitando a varinha junto à própria saia sempre que algum trouxa se aproximava. Draco nunca soube qual feitiço ela usava, mas se acabava de rir sempre que via algum trouxa dar meia volta e sair correndo, olhando por cima do ombro de olhos arregalados, como se perseguido pelo próprio demônio. Narcissa nunca lhe dissera por que deixaram de ir ao parque, mas Draco suspeitava que tinha algo a ver com o fato de terem encontrado a cantora Celestina Warbeck da última vez, quando tinha oito anos.
"Acho que nunca estive lá," Harry falou, franzindo o cenho. "Não sabia que bruxos costumavam frequentar parques trouxas."
Ele tinha um pouco de molho no queixo, mas não parecia ter percebido.
"Não em bando," Draco esclareceu e jogou um guardanapo em direção ao moreno. "Seu queixo."
Harry agradeceu ao mesmo tempo em que outro trovão ribombava, seguido pelo silêncio.
"Você gostaria de ir conosco?" Draco perguntou, mantendo os olhos no próprio prato.
"Mhh!" Harry soltou uma exclamação de surpresa. Draco viu pelo canto do olho enquanto ele largava o talher para limpar a boca novamente, engolindo com dificuldade. "Eu adoraria, claro, mas..." Ele limpou a garganta, os pés batendo em sua canela enquanto ele se remexia. "Tem certeza?"
"Se eu não tivesse certeza, não teria convidado." Draco finalmente ergueu os olhos, tornando a baixá-los diante do misto de emoções estampado nos olhos do Auror.
"Me avise com pelo menos um dia de antecedência," Harry falou, por fim, sem conseguir disfarçar a animação. "Vou economizar minhas folgas até lá, só para garantir."
"Mais vinho?" Draco mudou de assunto e ficou feliz quando Harry se deixou levar, estendendo a taça vazia.
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¹ Hampstead Heath, um parque antigo de Londres
