O vento batia com força nas janelas, uivando de maneira assombrosa do lado de fora. A maré estava agitada, fazendo as ondas quebrarem violentas na praia. A chuva ameaçava mas não caía, fazendo Hermione pensar com ironia na semelhança entre a tempestade e a guerra prestes a estourar. Só que era apenas chuva lá fora, somente pingos no vidro, algo que daria mais vida depois de cair. Com a guerra não seria assim. Tremeu só de pensar o quão real era aquilo, e que muitos não sairiam vivos. Torturou-se ao pensar: quem? Quem não sairia vivo? Quem sairia machucado?

Por um momento todo o controle que estava mantendo se esvaiu ao pensar na pessoa que não sairia viva: Harry. Era certo. Hermione pensou no amigo, nos momentos em que passaram juntos; pensou em Rony e no quanto ele sentiria; pensou em Gina... 'Oh meu Deus, Gina! Ela não vai aguentar! Não vai!', repetia começando a se descontrolar e a desabar em lágrimas.

– Granger! O que aconteceu? – o vulto negro estancou à porta, preocupado. Hermione pareceu não ouvir, pois continuou abraçada às próprias pernas enquanto chorava e sussurrava coisas desconexas.

– Hermione... – sussurrou, aproximando-se da menina – O que aconteceu? – perguntou, com uma delicadeza que a fez parar.

– Porque isso importa? – devolveu, magoada – Desde aquela noite não fala comigo, não me olha, não faz questão de me deixar a par da situação lá fora. – sua voz transparecia raiva e mágoa, embora o tom fosse baixo e pausado.

O vento escolheu o momento para ficar ainda mais feroz, e a chuva que ameaçava cair finalmente dava alguns ares de sua presença, lançando pequenos respingos na janela.

Snape apenas se virou para sair, ignorando Hermione.

– Vai fugir? Bem sonserino da sua parte! – estourou ela.

– O que você quer que eu diga, Granger? – perguntou, baixo e distante, como se não se importasse. A raiva dela só fez aumentar.

– QUALQUER COISA! – gritou.

– Está bem – começou, ainda mais calmo – Aquilo foi um erro.

– Aquilo? – perguntou de maneira retórica – Então é assim que define um beijo? – ela estava muito magoada, embora soubesse que ele só estava tentando afastá-la.

– Por Merlin, Granger, não faz a menor diferença. – disse, com desdém – O que importa é que não se repetirá. – completou, resoluto e frio.

– Como não se repetirá se nos casaremos amanhã? Ou se esqueceu que devemos... enfim, consumar o matrimônio? – perguntou, desconcertada e temerosa, tentando deixar as lágrimas de lado.

– Eu não preciso te beijar para consumar o ato menina tola. – disparou, sorrindo maliciosamente. Merlin, fui longe demais. Não precisava de tanto... Mas você tem que afastá-la Severo. É o melhor para ela.

– Isso foi completamente desnecessário. Até mesmo para você. – disse, se esforçando para os olhos não marejarem ainda mais. – Saia do meu quarto, Snape. Agora.

O mínimo que ele podia fazer era atendê-la. Sabendo que tinha extrapolado, só acatou ao pedido da jovem e rumou se odiando chalé adentro.

A jovem dos olhos cor de mel e cabelos volumosos não saía dos pensamentos do professor desde que ele fora avisado sobre os planos do diretor. Só que o modo como ela estava o invadindo mudou ao longo do tempo em que conviviam, e isso era algo que o brilhante Severo Snape não previu nem por um momento.

Ele não queria tê-la beijado, e antes disso, não queria ter se preocupado com ela. Ainda pior que se preocupar com ela, também com que a fazia feliz – o gato e seus amigos. Querer afastá-la era mais preocupante, pois demonstrava um zelo inquestionável. Ele não se preocupava em trair a memória de Lílian, pois por mais conturbado que fossem seus pensamentos, ele aprendeu a separá-los depois de muitos erros, e o lugar da ruiva era diferente daquele que Hermione estava aos poucos preenchendo. Tampouco queria prevenir-se do sofrimento inegável que seria amá-la, pois já estava acostumado às tormentas. Mas fazê-la sofrer... Não, isso seria inadmissível. E era o que aconteceria segundo ele: a magoaria.

E teriam que compartilhar a mesma cama, o mesmo momento. Teriam que sentir o gosto um do outro e alcançar o ápice da intimidade. Snape tentava a todo custo se afastar das imagens que o remetiam a desejar o corpo de Hermione, pois ele sentia-se ainda mais impuro de ansiar por alguém tão distante e inocente. Mas rapidamente a pele clara o atordoava, seguido pelo sorriso sincero e os olhos de mel. Hermione era, sem dúvida, uma mulher que não precisava de esforços para ser incontestavelmente e naturalmente linda.

– Inferno. – praguejou – Porque ela tinha que aceitar o maldito beijo?!