Um manto branco caíra sobre as terras de Hogwarts, sendo o principal responsável do vento enregelante nos corredores do castelo, e carregando a promessa de um Natal de lareiras constantemente acesas e casacos pesados. Um dia antes de as férias iniciarem, os alunos corriam para arrumar os malões, na expectativa de se reunirem às famílias após meses tão incômodos. Muitos ainda lidavam com a dificuldade em "esbarrar" com os fantasmas dos amigos circulando pela escola, embora a presença de Potter, durante o jogo da Grifinória, tenha ajudado no moral dos antigos colegas.

Desde então, os únicos contatos de Isis com Snape ocorriam durante as aulas de Poções. Quando ensaiava uma aproximação, a fim de combinar uma reunião onde discutiriam a última lembrança, o professor dava um jeito furtivo de escapar. Após muita insistência, ganhara uma explicação seca sobre quão atribulado ele estava, ao se preparar para interrogar Yaxley.

Apesar de irritada com a falta de consideração, a bruxa não insistira. A princípio, pensou em reportar as informações diretamente a McGonagall, porém, de quebra, precisaria explicar o envolvimento dos Malfoy com Underhill, correndo o risco de a informação vazar. Por isso engoliu o orgulho e recorreu às migalhas de paciência que lhe restavam.

À medida que aproximava das festividades de fim de ano, a angústia aumentava por não explorar o que obtiveram com a memória, arrependendo-se do abraço abrupto na mesma medida. Isis não tivera coragem nem de dividir a situação com Aurora, desviando o foco para a invasão de sonhos; quesito que vinha se transformando em motivo de orgulho. Não duvidava que, em poucos dias, conseguiria invadir os sonhos de qualquer um no castelo, incluindo Snape.

Enquanto patinava no lago congelado, a pedido de Cybele, Isis afastou os pensamentos dos inúmeros problemas que a cercavam e se permitiu uma dose moderada de divertimento. Não muito longe de onde estavam, outros estudantes guerreavam com bolas de neve, com direito a bonecos enfeitiçados que se assemelhavam a iétis, para o terror de Filch. As duas só voltaram ao castelo quando já não sentiam os dedos dos pés, acomodando-se em um banco próximo ao pátio da Torre do Relógio.

— Mamãe disse que não passaremos o Natal em casa. Imagino que iremos a Gales, onde a vovó Guthrie vive. — A menina ajeitou o cachecol, quase escondendo metade de rosto corado sob a lã tartan. — Não nos falamos desde que meu pai morreu.

— Morreu? — Isis se aprumou, lembrando-se muito bem de Cybele explicar-lhe que ele fora preso.

— Eu não queria mentir para você, só que a gente mal se conhecia. — Ela deu de ombros, tentando transmitir uma tranquilidade muito longe da realidade. — Aconteceu antes da batalha em Hogwarts. Ele foi encontrado perto de um... acho que um orfanato abandonado. Aquele onde várias nascidos-trouxas ficaram escondidos. Foi uma maldição da morte, segundo contaram.

Isis sentiu uma fisgada repentina na barriga, onde a cicatriz da facada estava, e não fez questão de disfarçar o semblante, sabendo que Cybele o leria como uma surpresa esperada após uma notícia impactante. Embora não fosse a responsável pelo assassinato do comensal, sentia-se dessa forma por tê-lo testemunhado. Tampouco se arrependia do contentamento experimentado com o final trágico do bruxo que quase a matara, o que não significava ausência total de sentimentos, por conta da colega.

— Como sua mãe acabou se envolvendo com um homem assim? — A menina sorriu e desviou o olhar, dando a entender que se perguntara a mesma coisa várias vezes.

— Ela não gosta de falar sobre isso. A minha teoria é de que achou que seria capaz de mudá-lo. — Cybele se recostou na parede, pensativa, e aparentando uma maturidade pouco vista no dia a dia. — A gente não pode ajudar ninguém que não queira ser ajudado, é o que mamãe sempre diz hoje em dia. — Isis concordou pouco antes de a colega se levantar. — É melhor eu ir. O trem sairá em uma hora. Tem certeza de que quer aproveitar as férias aqui?

— É... não terei outra oportunidade de passar o Natal no castelo.

— Ora, então se forme e vire professora de Hogwarts. — Isis riu, mas a garota parecia falar sério.

— Quem sabe. Feliz Natal, Cybele.

Mesmo depois da despedida, Isis continuou sentada, concentrada no barulho do vento cortante. Com um quê de hesitação, enfiou a mão no bolso interno do casaco e retirou a carta que Aurora deixara na cama do dormitório, relendo-a pela quinta vez só naquela manhã. Não tivera coragem de queimá-la nem depois de lê-la, tal qual fizera com tantas outras da mesma remetente. Estivera disposta a ignorá-la por anos, porém a bruxa não se via mais capaz de julgar a outra com tanta rigidez.

No final da mensagem, o convite para uma visita; inocente, evitando demonstrar ansiedade. Cogitou ser uma armadilha preparada por Underhill, porém não acreditava que ele fosse recorrer a um artifício tão deficiente de criatividade. O espetáculo fazia parte do seu modus operandi.

Quando Isis avistou um grupo de quartanistas esbaforidos entrar no pátio, voltou a guardar o pedaço de pergaminho e se levantou, caminhando de volta à sala comunal. Com todos preocupados com a ceia de Natal, ninguém notaria sua ausência por apenas uma noite.

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Quem olhasse para o terreno ao redor do Salgueiro Lutador, juraria ter avistado um fantasma. A capa branca quase camuflava Isis em meio à nevasca; os pés afundavam no tapete espesso e gelado, molhando as botas. Com um floreio discreto, um galho voou até um ponto específico e, em um piscar de olhos, nem mesmo o vento forte foi capaz de mover a árvore, enquanto a bruxa se dirigia à entrada para a Casa dos Gritos.

Descobrira a passagem secreta no final de seu segundo ano em Hogwarts, após madame Pince a flagrar na sessão reservada — de madrugada — e levá-la à sala de Filch. Na ocasião, ao vasculhar um dos armários do zelador, encontrara um pedaço de pergaminho que funcionava feito um mapa quando utilizado da maneira certa. Mantivera-o em segredo até mesmo de Underhill e só o devolvera na sua última semana na escola, por não ver mais serventia. Felizmente, a memória dos locais ficara.

A brancura da capa se perdeu ao se arrastar no buraco entre as raízes do Salgueiro e cair no túnel baixo. Pela primeira vez não se sentiu irritada pela estatura de Hannah Cooper. Mesmo assim foi necessário caminhar encurvada por mais de dois quilômetros, até avistar uma subida que dava em uma abertura pequena. Ao entrar no quarto caindo aos pedaços, não perdeu tempo espanando as roupas. Um feitiço e estava limpa de novo. Outro, e voltara a ser a velha Isis de sempre, em vez da adolescente americana de Ilvermorny.

As passadas ficaram pelo chão — marcadas pela poeira —, perdendo-se na escuridão proporcionada pelas janelas vedadas. A ponta da varinha iluminou o caminho pela casa velha, que ainda detinha o poder de assustar estudantes e turistas. Isis desviou de móveis quebrados e trapos deixados no meio do caminho, até encontrar um ponto por onde poderia sair sem chamar atenção. Os pedaços de madeira em uma das portas cederam com dificuldade.

Quando estava prestes a sair, notou algo de diferente no ar. Ela inspirou fundo, devagar, e virou para trás, clareando o que um dia fora uma sala de estar. A luz projetou as sombras dos móveis nas paredes descascadas, sem exibir qualquer sinal de ameaça no ambiente. Isis estreitou o olhar, vasculhando o cômodo até se convencer de que não havia perigo.

A rajada de vento quase fez a porta bater, porém a bruxa a impediu a tempo, ajeitando o capuz da capa para manter o rosto tapado. Isis andou o mais rápido que pôde, percorrendo a mesma estrada de quando visitara Hogsmeade semanas antes. Não houve um ataque de dementadores dessa vez, embora o frio se assemelhasse ao provocado pelos velhos carcereiros de Azkaban.

As luzes de Natal possuíam um brilho difuso sob a tempestade de neve, transmitindo uma atmosfera de sonho ao povoado. Os poucos estabelecimentos abertos abrigavam bruxos solitários e aurores azarados, obrigados a trabalhar em prol da segurança dos moradores naquela noite fria de inverno.

Divergindo do esperado, a única iluminação do Três Vassouras vinha das lâmpadas coloridas formando a palavra "Fechado" na porta, logo abaixo de uma coroa de azevinho. E foi bem ali que Isis parou, encarando as letras por alguns segundos antes de dar a volta e entrar em uma viela ao lado, onde a entrada dos fundos ficava.

Uma das janelas embaçadas, e não tapadas com cortinas, deixava passar uma luz amarelada, saída da cozinha do pub. Isis chegou a erguer a mão para anunciar a chegada, mas parou antes de bater na madeira.

— Eu sei que você está aí. — Ela se virou, encarando um ponto próximo à caçamba de lixo, onde a iluminação não alcançava. — Se quer mesmo saber o que vim fazer no pub, ao menos se dê ao trabalho de se mostrar.

A silhueta se formou aos poucos, escorrendo para a luz como se desprendesse-se das sombras atrás de si. A capa de Severus era mais grossa que a habitual, o que não impediu a leveza de seus passos até a bruxa. O vento jogava as mechas escuras para o lado, tapando parcialmente o rosto carrancudo. Isis deu um sorriso torto ao ver o descontentamento dele ao ser pego no flagra, e não se deu ao trabalho de explicar o que fazia ali. Não ainda.

Deixando-o com sua irritação, bateu à porta e aguardou em silêncio até ouvir o ruído áspero do trinco e das dobradiças. Rosmerta surgiu do outro lado, coberta com uma manta branca cheia de pinheiros, que terminava em seus tornozelos, onde sapatos listrados em verde e vermelho roubavam a atenção de todo o resto. O sorriso cheio de dentes da mulher se extinguiu ao passar de Isis para Snape.

— Tem espaço para mais um na ceia? — A senhoria do Três Vassouras, sem saber o que dizer, cedeu espaço para que os recém-chegados atravessassem a soleira.

Isis não demorou a retirar a capa e as luvas, confortável no calor da cozinha, onde o vapor subia das panelas nos fogões, e pratos sujos se lavavam sozinhos na pia. O sobretudo que usava, de um verde escuro, não era muito diferente do que vestira na noite em que ateara fogo ao orfanato, e esperava que o mestre de Poções não visse isso como uma indireta. Só o trajara por ser enfeitiçado, adequando-se facilmente ao corpo após desfazer a transfiguração.

— Ah, eu trouxe algo — disse, tateando a capa em busca do bolso e retirando uma garrafa de uísque de fogo, que afanara da cozinha do castelo.

— Não precisava. — Rosmerta a pegou, ainda sem graça com a presença de Snape ali. — E é um prazer tê-lo aqui, professor. É uma pena não o ver com tanta frequência por essas bandas.

— Ele está cansado do Natal na escola, por isso resolveu me... — "Seguir", pensou Isis, sem deixar o sorriso de lado — acompanhar. Acredito que uma nova introdução seja necessária nessa ocasião, já que não se veem com frequência. — A senhoria engoliu em seco, imaginando o que estava por vir. — Rosmerta, este é o famoso mestre de Poções de Hogwarts, Severus Snape. E Severus, essa é Rosmerta Dubhach, dona do Três Vassouras e minha mãe.

Os lábios do professor se entreabriram enquanto os olhos quase se fecharam, encarando as duas bruxas com ar descrente ante a revelação. Rosmerta, por outro lado, ficara vermelha feito as listras em seus sapatos de salto alto.

— Bom, é melhor eu levar isso aqui para a mesa. — Isis pegou uma travessa de frutas e saiu da cozinha, deixando os outros sozinhos em um momento de imenso embaraço.

O salão estava todo enfeitado, mal assemelhando-se à estalagem barulhenta e esfumaçada que era. Isis quase se arrependeu de ter agido de forma tão impetuosa segundos antes, ao ver o empenho da mãe biológica refletido no cuidado com a decoração natalina. A bruxa não podia dizer que todos os seus Natais foram ruins ao lado dos Blackeley, pelo menos não nos primeiros anos, quando a mãe adotiva ainda detinha um grau considerável de lucidez. Com Rosmerta era complicado, exigindo um nível alto de compreensão e empatia para não despejar toda a culpa de seus problemas nela.

Isis colocou a travessa sobre a mesa redonda, já arrumada, e se perdeu em pensamentos enquanto encarava a neve cair ao redor do pinheiro enfeitado; os flocos sumindo pouco antes de encostarem no chão.

— Pensei que não fosse vir — comentou Rosmerta, aproximando-se com uma bandeja encimada de três canecas de cerveja amanteigada.

— Também pensei. — Isis notou o olhar apreensivo da mãe direcionado a Snape, que retirava a capa e a dobrava com cuidado.

Todos se sentaram à mesa e Isis tratou de puxar assunto para desviar a atenção de Rosmerta para longe de Snape, antes que este se sentisse mais desconfortável do que já estava. Perguntou sobre o movimento do pub, a vida no pós-guerra, e evitou comentar sobre a maldição que Draco Malfoy lançara sobre a mulher. Ficara sabendo desse episódio infeliz por intermédio de Aurora, o que fizera Blakeley se questionar várias vezes sobre a visita à mãe. Por isso decidira de antemão não contar nada além do necessário durante as conversas.

— E o seus... pais, os que a adotaram, como estão? — Isis disfarçou o desconforto tomando um gole de absinto.

— O Sr. Blackeley deve estar muito bem, obrigada. A Sra. Blackeley... — A bruxa deu de ombros. — Ela sempre teve uma saúde muito frágil. Ajudei do jeito que pude nos anos em que morei com os dois, mas papai nunca foi muito fã de magia. Não mantemos contato.

— Ele devia ser grato por você tentar ajudar. — Rosmerta ajeitou a manta sobre os ombros ao estremecer de raiva. — O seu pai... seu pai de verdade teria ficado orgulhoso. Era um bom homem, e teria crescido muito como auror se não tivesse sido assassinado por aqueles comensais, durante a primeira guerra. — A senhora encarou Snape de soslaio.

— Tenho certeza de que ele não ficaria nada orgulhoso do que me tornei. Mas talvez eu não tivesse me tornado o que me tornei se ainda estivesse vivo. Sem orfanato ou... — A imagem de Underhill surgiu em sua mente e Isis a afogou sob a torrente da fada verde.

— Sei que vou me arrepender pelo resto de minha vida por tê-la deixado naquele abrigo. — Rosmerta choramingou, secando os olhos marejados com a manta, diante de uma Isis imperturbada. — Não podia imaginar que você sofreria tanto naquele lugar.

Ver a senhoria daquela forma embrulhou seu estômago. A Rosmerta de suas memórias da adolescência era confiante e botava os arruaceiros para correr do seu pub com um olhar. O aspecto abatido era doloroso de se observar e não mudara desde o dia em que fora atrás dela, muito antes de Lorde Voldemort retornar. Descobrir a identidade da própria mãe fora um choque sem precedentes. Sempre estiveram tão perto uma da outra e nem uma das duas sequer desconfiara.

— Claro que não. Você era jovem demais, e estava sozinha no mundo, então fez o que achou melhor para nós duas. Quem nunca tomou uma decisão estúpida quando era adolescente? — A pergunta retórica pairou no ar enquanto Isis olhava de soslaio para Snape.

Rosmerta deu dois tapinhas na mão da filha — que segurou a vontade de recuar — e se ergueu; o rosto alguns tons mais vermelho, após várias taças de vinho dos elfos.

— Se me dão licença, vou buscar aquele uísque. Coma um pouco mais, professor. O senhor está muito magrinho. — Snape arqueou a sobrancelha, acompanhando a mulher se afastar em direção à cozinha.

Os segundos de silêncio que se seguiram serviram para Isis se questionar quão apropriado era deixar o mestre de Poções saber sobre a sua vida daquela forma, enquanto conhecia tão pouco sobre a dele. Isso só a impulsionava à ideia de invadir os sonhos de Snape em uma busca pelas verdades que o próprio nunca teria a consideração de falar em voz alta.

— Você me obriga a dizer o óbvio tantas vezes que me questiono se o Chapéu Seletor ainda é uma alternativa viável em Hogwarts, sabendo que ele a colocou na Sonserina. — Isis se virou, surpresa ao ouvir Severus falar pela primeira vez naquela noite. — Não sabe quão perigoso é deixar o castelo em suas condições?

— Já eu me questiono a necessidade que você tem de iniciar discussões contraprodutivas. — Ela se levantou, ouvindo as articulações estalarem ao se espreguiçar. — É o orgulho que o impede de perguntar como descobri que estava me seguindo?

— Tanto quanto sua presunção em me revelar tal feito, então vá em frente e se envaideça. — Isis se aproximou dele e o serviu com uma taça de vinho, apreciando o momento.

— Seu cheiro. — Passados alguns segundos de constrangimento, a bruxa riu ao ver um rubor se espalhar pelo rosto pálido de Snape. — Por Merlin, Severus, não disse que você está fedendo. É o seu perfume.

— Eu não uso perfume — disse entredentes. — Fui muito tolerante deixando-a vir aqui, mas já é o suficiente. Você voltará agora comigo para Hogwarts.

O professor se levantou, contrariado, porém a bruxa se colocou em seu caminho e o puxou pela sobrecasaca antes que ele pudesse se afastar. Por um instante, pareceu que Isis iria beijá-lo, desviando o rosto — no último segundo — para a curva do pescoço, coberto pelo colarinho. O nariz roçou brevemente no tecido ao inspirar fundo, do jeito que fizera na Casa dos Gritos, e a mão afrouxou o aperto na vestimenta, repousando no peito de Snape com leveza.

— Descurainia — murmurou contra o pescoço dele —, sanguinária... o senhor andou preparando Poção Polissuco? — Severus voltou o rosto na sua direção, roçando a bochecha morna na de Isis até se encararem. — Ainda acha que não pertenço na Sonserina ou será que mereço dez pontos pela minha argúcia, professor?

Mais alguns centímetros e ela encostaria os lábios nos dele, mas o ruído repentino de vidro se espatifando fê-la se afastar, xingando Rosmerta em pensamento antes mesmo de se virar e a encontrar parada no salão, embasbacada com a cena inusitada. Isis se afastou e sumiu com a sujeira com um aceno brusco. Quando voltou a olhar Snape, o professor já havia recolocado a capa.

— Tem dois minutos para se despedir — disse com frieza, passando pela senhoria como se ela nem estivesse ali.

— Sinto muito pelo uísque. — Isis estava prestes a dizer que não tinha problema, contudo Rosmerta se adiantou; as rugas entre as sobrancelhas se intensificando. — Querida, sei que não devo...

— Ah, não. Já é um pouco tarde para dar conselhos amorosos. — Ela correu para pegar a capa e fugir da conversa.

— Eu sei, eu sei, mas Snape, minha filha... — Rosmerta negou com a cabeça, preocupada. — Podem dizer que é um herói, um homem de Dumbledore, mas sei muito bem a maneira que trata as pessoas. Na época da escola, vivia grudado em Lilian Evans, a mãe de Potter. — Isis parou com a capa sobre os ombros, subitamente interessada. — Uma mocinha preciosa, ela era. Nascida-trouxa. Nem Lily aguentou ficar ao lado dele. Há algo de muito sombrio nesse homem, Isolde.

— Não me chame assim... — murmurou, irritada, porém a mulher a ignorou.

— Ele não é uma boa pessoa!

— Eu também não sou! — Isis terminou de ajeitar a capa, sem se importar com o semblante mortificado da senhoria. — Feliz Natal, Rosmerta, e obrigada pelo jantar.

Do lado de fora, onde o calor não chegava, ela passou direto por Snape, refazendo o caminho para a Casa dos Gritos em silêncio aflito. A tempestade aumentara consideravelmente, obrigando-os a se curvarem na hora de andar, aumentando a resistência. Cada movimento exigia um esforço maior que o anterior, piorando ao chegarem na ladeira.

Isis nunca ficara tão reconfortada por estar em uma casa decadente, onde mal conseguia reprimir os espirros graças ao mofo e à poeira.

— Underhill sabe que Rosmerta é sua mãe? — Na escuridão, ela não se deu ao trabalho de erguer o rosto na direção da voz, que soara menos tensa que minutos antes.

— Acho que ele sempre soube, mas nunca me falou. De qualquer maneira — disse, secando as vestes —, Kingsley sabe. O problema é que Rosmerta não quer aurores em seus calcanhares.

Ela suspirou, massageando o pescoço, e ouviu a madeira ranger à medida que Snape se distanciava.

— Você não devia estar aqui, nessa casa. — O som dos passos cessou num átimo.

— A senhorita não me deu outra opção. — Mesmo se esforçando para disfarçar, Isis percebeu a nota de desconforto na voz do professor. — Ademais, o que houve aqui já deixou de ter importância. — Ele voltou a andar e a bruxa teve que se apressar, sem se importar com os esbarrões e tropeções nos móveis carcomidos.

— Sinto muito. — O assoalho parou de ranger outra vez. — Mas você tem que parar de me evitar. — As palavras saíram arrastadas, cansadas. — Embora me custe reconhecer, fingir que Yaxley tem a resposta para a localização de Erastus não nos levará a lugar algum. — Ela acendeu a ponta da varinha, iluminando as costas de Snape, que parara próximo à escada. — Eu preciso da sua ajuda. — Admitir isso em voz alta quase fê-la engasgar com as palavras.

Quando Severus se virou, o semblante indiferente cedera espaço a um tom de reserva, enquanto a desconfiança e a satisfação se alternavam em seu olhar. A bruxa apagou a luz e se guiou através do tato para pousar a mão no peito do professor, deslizando os dedos por dentro da capa. O espaço entre os dois diminuiu à medida que Isis se sentia cada vez mais atraída pelo calor que Snape emanava.

Os batimentos acelerados ecoavam nos ouvidos, intensificando-se ao ser puxada com gentileza até o peito estar colado ao dele; o perfume das raízes e ervas inebriando-a. Isis encontrou o rosto de Severus na escuridão, correndo a mão pela bochecha morna e traçando a linha do queixo. Não havia ninguém ali para interrompê-los, ninguém para dizer que era inapropriado. E ainda que fosse, ela estava perdida demais para sequer notar o ambiente em que se encontravam.

Quando o rosto ficou próximo o suficiente para sentir o hálito quente contra a sua boca, Isis sorriu, satisfeita, e o beijou. A princípio não passou de um resvalar, testando quão disposto Snape estava a prosseguir. Sem qualquer tipo de oposição, ela passou a língua devagar pelos lábios macios do mestre de Poções antes de embrenhar os dedos pelos cabelos dele, segurando-os com firmeza da mesma forma que fizera em seu "sonho" compartilhado.

O que começara devagar e discreto, evoluíra ao ponto de a bruxa mal se dar conta que se amparava na parede, lutando contra a respiração ofegante e a avidez crescente de se deixar consumir por aquele momento onde apenas o toque fremente importava. Uma névoa permeava os pensamentos, nublando qualquer indício de coerência. Não duvidava que Snape estivesse atraído por ela, mas obter a confirmação era delicioso.

O beijo se tornou impaciente, exigindo algo que ele, sozinho, não seria capaz de oferecer; uma ânsia efervescente e incontentável, carente de realizar os caprichos egoístas a qualquer custo. A fixação no alvo beirava o irracional, agora que despertara de uma dormência repleta de negações, desejos reprimidos. E o toque abrasador fora o catalisador necessário para libertá-la.

Contudo, quando a bruxa tentou livrar o professor da capa, a fim de acentuar o contato, teve as mãos presas contra a parede, acima da cabeça. O gemido inconformado com a interrupção foi abafado pelo som da tempestade. Isis sentia o peito de Snape subir e descer contra o seu, mantendo o aperto firme nos punhos até ele afastar-se de repente, retomando o controle de si mesmo.

— Por que você...

— Transforme-se de volta e retorne ao castelo. — A voz saiu enrouquecida, um pouco mais alta que a nevasca do lado de fora. — Avisarei em breve a data e o horário da próxima reunião.

A madeira voltou a ranger, anunciando o afastamento de Severus até o caminho secreto, e Isis permaneceu em silêncio arfante, sem acreditar no que acabara de acontecer. Ela encostou a cabeça na parede e fechou os olhos, aguardando a respiração abrandar. O corpo inteiro queimava apesar do vento gelado que atravessava as frestas dos tapumes, então só lhe restou esperar até estar apta o suficiente para se transfigurar em Hannah.

Isis tocou os lábios inchados e sorriu, vibrante quanto ao rumo que a noite tomara. Mesmo assim não ficou inteiramente satisfeita, incapaz de se contentar com tão pouco e decidida a ir além.