Depois de desamarrar Cassian e fugir do combate, afinal estávamos em desvantagem. Desdobrei com Liz para onde Rhys tinha nos orientado. Antes de voltarmos a Neldor como o plano incial eu precisava achar a tal curandeira que tinha me ajudado anos antes aqui no continente, pois nossos sentidos ainda não estavam funcionando perfeitamente e Cassian já começava a ficar desesperado.

Uma parada a mais na curandeira e nos separamos, Cassian e Feyre voltaram a Prythian, precisamos avisar nossos aliados e estar preparados. Eu, Rhysand e Liz nos encaminhamos a Neldor. A recepção foi como esperado, Ruven quase nos expulsou das suas terras, mas Melaure lembrou que Liz era irmã de Camella e o impacto que teria se ela soubesse que ele não a acolheu. Por fim, ele autorizou que eu ficasse somente para levar Liz em segurança a Prythian, mas dias depois ele mudou de ideia e pediu que levasse Camella também.

Ruven não parecia muito satisfeito, mas eu estava aliviado em levar Camella de Neldor. Ainda tinha a impressão que tinha algo errado naquele castelo. Não me ofereceram nem eu iria aceitar uma acomodação, fiquei na cidadela esperando notícias de Liz.

No quarto dia uma feérica jovem apareceu nos meus aposentos e disse que a senhorita estava acordada e que estava na hora de eu partir. Entendi o recado e sai da estalagem em direção ao castelo. Antes mesmo de chegar a ponte que dava acesso ao castelo, as duas estavam me esperando na passagem, vestidas com capas longas de viagem e capuz cobrindo as cabeças, mas nenhuma escondia mais a cor de seus cabelos.

Suspirei aliviado e um pequeno sorriso brotou em meus lábios quando identifiquei Liz em pé, parecia saudável e sem resquícios dos dias da caverna, seu olhar desviou do meu e não voltou a me encarar.

-Não perca seu tempo avisando Ruven. – Camella posou a mão no meu peito impedindo que continuasse. – Ele já está informado e o quanto antes partirmos melhor.

-Parece que você está fugindo dele e não dos vheelas. – Não contive em alfinetar ainda sorrindo, virando meu rosto para Liz.

Liz a distância virou seu rosto para mim e meu pulmão faltou ar. Ela estava linda, demorei em seus olhos, em suas feições delicadas, na boca levemente rosada e voltei a minha atenção a irmã.

-Não gosto de despedidas, e já está acordado que vamos a Prythian, não é?! Quanto mais tempo demorarmos aqui pior. – Camella dava passos seguros esperando que Liz a acompanhasse.

-Eu vou acompanhar vocês. – Uma voz grave surgiu atrás das duas e Ruven vinha com roupas de soldado.

Fiz um aceno com a cabeça concordado, deixei que Camella fosse na frente, mas ela puxou Liz junto com ela, nos deixando para trás. Sorri irônico a Ruven, parecia que os dois estavam com algum problema. Mas ele me ignorou e nos acompanhou em silencio até o porto.

As duas pouco conversavam e atenção de Ruven permutava entre a estrada e Camella. O caminho foi mais rápido do que eu lembrava e logo chegamos ao porto. Um navio comerciante estava atracado no cais e Ruven se afastou para negociar com o capitão.

Liz parecia pouco confortável, mexia as mãos, os pés, parecia impaciente enquanto a irmã tentava tranquiliza-la com o olhar.

-Não há sinal de Vheelas aqui Liz e logo estaremos em Prythian. Estará salva lá, eu mesmo me certificarei da sua segurança. – Desviei minha atenção para Ruven que voltava satisfeito.

-Foi uma pequena fortuna, mas o que se esperar de um reles comerciante. Infelizmente meus navios estão todos ocupados e vocês precisam sair dessas terras o quanto antes. – Ruven se virou para Camella e ela pareceu incerta de como reagir. – Me concederia a honra de uma palavra a sós? Eu não sei quando vou vê-la de novo.

Sua última frase fez efeito pois a feérica abaixou a cabeça se afastando de nós como um pedido mudo para Ruven acompanha-la. Eu quase me divertia vendo Ruven tão desesperado para uma simples conversa, porem Liz estava ali na minha frente vidrada no outro casal.

-Como você esta? – Aproveitei o momento para perguntar, em fim estávamos sozinhos e um turbilhão de perguntas atravessavam minha mente. Estava preocupada? Ansiosa? Com medo? Triste? Machucada? Nossa ligação mais uma vez parecia fraca. E ela era uma incógnita para mim.

Liz soltou o ar pela boca e continuou acompanhando Camella e Ruven, pensei que não fosse me responder.

-Estou bem. – Ela não me encarava, sentia o receio no timbre de sua voz. – Eu...não agradeci, mas obrigada por me salvar.

Tão rápido ela me olhou seu rosto voltou a qualquer ponto no oceano. Ela estava tremula e frágil, mais frágil de quando a vi presa na caverna, tinha algo diferente em Liz. Alguma coisa tinha quebrado, modificado e cerrei meus punhos com força. Malditos vheelas que a prenderam naquele lugar, maldito eu, afinal não fui resgatar ela antes, deixei que a levassem. Apertei a base do meu nariz com meus dedos a fim de me controlar. O tempo não tinha sido meu amigo, nunca fora. Será que era pedir demais que pelo menos agora eu tivesse ocasião para concertar seja lá o que tivesse mudado nela? Fazer com que ela voltasse a ser aquela feérica confiante e forte?

-Não há o que agradecer. Você sabe que eu nunca te abandonaria, não sabe? – dei um passo em sua direção, mas ela se moveu no mesmo momento. Ela precisava saber que eu era seu parceiro e jamais deixaria algo assim acontecer com ela novamente.

-Não precisa se sentir obrigado. Sei que deve ser difícil – Ela tomou um ar, sabia que estava mencionando a parceria - Mas eu estou bem. Vou ficar bem. Tenho uma dívida com você, mas é só isso. Vou resolver isso e assim que resolver você não precisara se preocupar comigo, sua família não precisa se preocupar comigo.

A conversa foi abruptamente interrompida por Camella que voltava com passos firmes, arrastando Liz para o navio.

-Cuide dela por mim. Assim que puder vou busca-la. – Ruven colocou sua mão pesada no meu ombro. – Estarei em dívida com você.

Divida. Todo mundo agora tinha dividas comigo, pouco me importava com as dívidas de Ruven, obvio que manteria Camella a salvo. Mas o que queimava meu estomago eram as palavras de Liz. Me despedi do grão senhor de Neldor e acompanhei as feéricas na embarcação.

-Hey! Não vai pensando que sua passagem esta paga meu camarada! – O corpanzil do capitão transpôs a minha frente.

-Desculpe, como é que é? – Arqueei minha sobrancelha e olhei no fundo dos olhos daquele feérico cheirando a peixe, era só o que me faltava me barrar quando estava próximo de sair do continente.

-Bom, para transportar mais três pessoas tive que deixar dois dos meus marinheiros. Vou precisar de ajuda com as velas se quiser sair daqui. – Vi o pavor dançar nos seus olhos, seu tom mudou para um pesaroso e eu entendi o que teria que fazer. Era simplesmente mais fácil me pedir!

-Então me diga o que eu preciso fazer. – Arregacei minhas mangas e caminhei pelo deque. Seria uma travessia pesarosa, com feéricos que pareciam mais piratas do que meros marinheiros mercantis.

Camella e Liz se refugiaram dentro da embarcação e somente saiam para respirar a noite. Acompanhava Liz com olhar sempre que saia do convés, ela não removia o capuz , mas somente de ver sua silhueta já me sentia bem. Não tocamos mais no assunto, Camella estava sempre de guarda e dizia que Liz não estava totalmente recuperada. Ela não estava e dificilmente estaria nos próximos anos, mas não quis comentar.

Estávamos em alto mar, provavelmente no meio da travessia quando uma embarcação menor e veloz nos alcançou. A princípio pensamos que podia ser algum navio pesqueiro perdido, mas assim que se aproximou notamos cinco feéricos armados, não era bom sinal. O capitão estava a postos com alguns arcos e flechas apontado para a pequena embarcação.

- Vocês têm somente esses quatro arcos? Alguma outra arma? – Estudei o nosso navio, mas somente tinha barris cheio de grãos.

-Essa é uma embarcação de comercio não de guerra. O que temos é para proteção da mercadoria quando algum engraçadinho tenta nos acalcar. – O capitão estava confiante, mas eu não. Vheelas estavam na outra embarcação.

E como eu imaginava eles se aproximaram rápidos e não responderam nossos avisos, com uma distância considerável os arcos dispararam na direção dos vheelas, mas eles formaram um escudo magico de proteção, semelhante ao que eu utilizava. Os ataques não surtiram efeitos e não vi alternativa senão atacar. Voei até o barco entre flechas , mas todos os meus ataques eram expelidos, eles zombavam e riam das nossas tentativas.

Dois deles que estavam em pé na embarcação olharam para mim e atiraram ganchos com cordas no navio.

-Veja e aprenda como fazer um resgate morcego. – Dizia um deles.

-Sabem nadar? – Perguntei antes de fechar minhas asas e afundar no oceano, sem pensar duas vezes ou sem ter a certeza se ia dar certo, nadei até a baixo da embarcação e com toda forca que minhas asas podiam exercer embaixo da agua empurrei o lado esquerdo da embarcação. Não virou. Troquei de lado e exerci a mesma força, dessa vez com ajuda da maré e dos próprios vheelas que estavam balanceando para o outro lado, o barco virou. Foi o suficiente para os outros três caírem na agua. Subi na embarcação, enquanto um deles já agarrava a borda. Segurei minha espada que estava na bainha e cravei na madeira, deu chute nos feéricos que estavam tentando subir enchia meus pulmões de ar para exercer mais força e coloquei todo meu peso na bainha da espada, ouvi um estalo e arranquei a espada do lugar, voando alto. Olhando para baixo os três vheelas restantes subiam na embarcação danificada.

Os outros dois feéricos abriam o caminho facilmente entre os marinheiros se encaminhando ao convés. Com um rasante empurrei um ao longe e o outro já estava dentro do navio. Assim que me direcionei para a porta do convés senti uma rasteira e cai no chão. O capitão rolou por cima do vheela e foi uma deixa para proteger as feéricas que deviam estar escondidas.

O convés estava vazio. Sem sinal de nenhuma pessoa, sem aviso senti um soco e a escuridão me abraçou.