HERMIONE
As vezes a realidade bate tão forte que sequer damos conta. Era assim que eu me sentia quando acordei no dia do meu casamento. "Casamento... Eu vou me casar", lembro de ter pensado, levantando-me abruptamente da cama ao me dar conta de que aquilo ia realmente acontecer. Nós nem ao menos havíamos conversado sobre como a cerimônia aconteceria, e eu não fazia ideia do que estava fazendo. Só sabia que ia me casar. E que compartilharia o mesmo leito com o homem que havia beijado há pouco. Sim, o mesmo homem a quem eu era indiferente, exceto pela necessidade de um dia vê-lo admitindo algum ponto à grifinória para uma resposta bem feita.
– Ficar divagando não vai resolver nossos problemas. – pensei enquanto domava os cachos num coque mal feito. Respirei fundo e ignorei meus sentimentos e anseios, decidida a agir de maneira prática.
Encontrei-o de pé na sala, parecendo ansioso embora aparentasse a postura usual. Mas os nós dos dedos o entregavam, e talvez só eu percebesse isso. A questão é que ele estava tão perdido quanto eu, e isso me tranquilizou de alguma forma. Evitando ao máximo me perder no seu olhar, pigarreei desviando para lugares seguros.
– A cerimônia acontecerá às cinco horas, e será celebrada n'Toca. – disse, frio e distante, com seu melhor tom de formalismo. Tive que me esforçar muito para manter a mesma aparência.
– Tudo bem – respondi, tentando camuflar toda a minha raiva – Mais alguma coisa?
Talvez fosse pela minha resposta, ou pelo modo como minha voz saiu, mas ele me olhou. Deixei a estupidez de lado e sustentei o olhar, tentando manter a mesma austeridade. Mas eu não era assim, e provavelmente meu olhar suavizou. Só sei que em poucos segundos uma caixa surgiu na minha frente, quebrando o contato.
– Dumbledore pediu que lhe entregasse. – disse, recompondo-se. Olhei interrogativamente para Snape, e recebi um incentivo em resposta.
– Alvo e suas excentricidades... – respondeu, dando de ombros – não sei o que é, mas ele pediu que lhe entregasse no dia da cerimônia. – Eu apenas o escutava, fitando curiosamente a caixa que levitava em minha frente. – Bom, vou deixá-la a vontade. Estou no escritório caso tenha alguma dúvida.
Depositei a caixa em minha cama e abri como uma criança curiosa. Era um vestido. O meu vestido de casamento. Balancei a cabeça pensando em como Dumbledore tendia a ser assustador e me concentrei no tecido a minha frente. Peguei-o depois de hesitar, esticando-o, e estranhei. Não havia nada no vestido, era apenas um pedaço de pano branco. Mas como era a única coisa que eu tinha, levei-o até a frente do espelho, colocando em frente ao meu corpo, e então alguma coisa começou a mudar.
A medida que me imaginava vestida para casar, o tecido ia se moldando aos meus pensamentos. Pensei num tom não tão branco e mais perolado, e assim ele ficou. Pensei em um vestido leve, que me proporcionasse liberdade para andar, e ele magicamente foi se encaixando no meu corpo. Nunca fui ligada a qualquer tipo de moda, confesso, mas de repente todos as personagens que salpicavam a minha imaginação - fruto dos incontáveis livros já lidos - começaram a brincar na minha mente. Estórias bruxas e trouxas, clássicas, foram as minhas referências, com seus personagens e figurinos bem descritos. Imaginando aqui e ali o vestido ficou perfeito. Nada extravagante, apenas simples e leve, romântico demais talvez, mas perfeito.
Parada em frente ao espelho me senti tola. Como eu poderia estar pensando em figurinos se o meu casamento nem era real? É óbvio que estava criando motivos para não pensar nos pontos mais graves, mas confesso que queria estar bonita. 'Ainda mais tola', pensei, jogando o vestido com força na cama. E só então notei que havia mais: uma carta jazia no fundo da caixa, e a letra imponente não deixava dúvidas que era do diretor. Imediatamente a peguei, devorando cada palavra.
Minha cara Hermione,
Não creio que conseguirei expressar tudo o que desejo em uma simples carta, mas tentarei.
Imagino o que tem sido estes últimos meses para você, para o Harry, para o mundo bruxo... Mas geralmente as pessoas tem alguém para contar, para apoiá-las, e Severo sempre esteve completamente sozinho. Quando apareceu querendo saber mais sobre seu professor, vi a chance perfeita de proporcionar a ele alguém em quem contar. Egoísta da minha parte? Talvez. Mas não menti para a senhorita em nenhum momento, e aceitou mesmo sabendo que seria difícil. E essa foi uma das atitudes mais honradas que já tive o prazer de vivenciar.
Severo é um bom homem, mas essa relação depende mais de você que dele. Ele tentará afastá-la de todas as formas possíveis, de maneiras até cruéis, mas persista. Sei que o gênio dele tende a ser demasiado difícil, mas há uma pessoa interessante por trás de todo aquele (mau) humor. Por mais que não pareça, vocês são muito parecidos, minha cara. Compartilham do mesmo grau de inteligência e a mesma paixão por poções e aprendizado. Ambos são maduros demais para a idade que possuem, não tem paciência para tolices e são leais – a suas causas, aos seus amados. Portanto, não deixe Severo perder os motivos para lutar. Ao contrário, seja mais um deles.
Talvez agora esteja pensando que arquitetei um plano descabido porque precisava de um espião forte e não deprimido. Não vou negar que foi uma consequência pensada, mas sinceramente não foi meu motivo principal. Gosto muito de Severo, perdoei-o pelos seus erros e descobri uma pessoa boa apesar de tudo. Portanto, ajude-o a se perdoar, Hermione. Ajude-o a se lembrar de sentimentos esquecidos. Faça-o descobrir sentimentos nunca sentidos. Ame-o como sei que já está amando agora. E espere. Talvez essa seja a sua real luta, o seu campo de batalha. E eu realmente espero que todos saiam vivos e bem.
Já vi que estou me delongando, e convenhamos, não posso mais me dar tal luxo.
Sejam felizes.
A.D.
P.s.: Vista-se como leu em seus livros. Pode ajudar.
Minhas mãos ainda tremiam quando reli a carta pela quinta vez.
Ajude-o a se lembrar de sentimentos esquecidos. Faça-o descobrir sentimentos nunca sentidos. Ame-o como sei que já está amando agora.
– Merlin. – sussurrei, sem saber o que fazer. Como Dumbledore podia simplesmente prever – e afirmar – isso? Como ele sabia?
E espere. Talvez essa seja a sua real luta, o seu campo de batalha. E eu realmente espero que todos saiam vivos e bem.
Como ele sabia eu nunca poderia responder com certeza, mas de uma coisa eu estava certa: daria a Severo uma vida diferente, mostraria a ele que tudo podia ficar bem. Ele não me amaria de volta, eu sabia, mas ofereceria minha amizade ainda assim. E em apenas uma coisa o diretor estava errado: não seria este o meu campo de batalha. Severo jamais poderia significar guerra para mim.
E as palavras de Dumbledore me deram a força necessária para seguir com aquele casamento. Não que eu tivesse uma opção diferente. Não tinha. Mas a minha motivação era ainda mais intensa.
Com a carta ecoando na minha cabeça, rumei ao encontro dele. Minhas mãos suavam como nunca, e eu já sentia meu rosto esquentar. Ser corajosa não significa estar preparada pra tudo e, definitivamente, enfrentar Severo Snape estava longe de ser algo previsto por mim. Especialmente estando ciente de tudo o que ia nos acontecer a partir de então. E mais especialmente ainda, estando ciente dos meus sentimentos em relação a ele.
'Calma, Hermione. Você sabe o que falar.', sussurrei.
Respirando fundo, bati na porta. Nada.
'O que mesmo eu vou falar?!', apavorei.
Quando minha mão ensaiava a segunda batida, convenci-me de que ele não estava e me virei para sair.
– Professor! – gritei com a mão no peito, depois de trombar com ele. Pude perceber que um sorriso quase escapou de seus lábios quando me recompus do tropeço. Mas rapidamente se recuperou, cruzando os braços sobre o peito enquanto me olhava intensamente. 'Como ele consegue?', pensei, indignada. Nos beijamos! E foi como se nada tivesse acontecido. Mas se era assim que ele jogaria, então eu também podia entrar no jogo.
– Agora a senhorita bate na porta antes de entrar sem permissão? – soltou, levantando a sobrancelha. Não pude conter o sorriso pelo comentário dele, um tipo sutil de humor que estava começando a me agradar muito.
– Do jeito que fala faz parecer que sou inconveniente. – retruquei.
– Mas a senhorita é! – devolveu rapidamente. Bufei em desagrado, numa fingida irritação. Pelo menos o humor dele não estava dos piores.
– As minhas atitudes variam de acordo com as suas, senhor. – devolvi a ele as mesmas palavras de outrora.
– Está dizendo que seu gênio irritante é culpa minha?
– Bem, não todo ele. – comecei, fazendo-o levantar imperceptivelmente o canto do lábio. 'Será que algum dia o verei sorrir abertamente?', pensei. – Mas em partes, sim. É isso que estou dizendo. – e sorri. Ficamos longos segundos nos olhando naquele corredor estreito. Conseguimos conversar de maneira leve mesmo em um diálogo atravessado. Era bom.
– Tem alguma dúvida a respeito do... – pigarreou – da cerimônia? – completou, ficando sério.
– Não... – respondi – quer dizer, sim. Mas não é por isso que vim. É que eu... bem... eu gostaria de... o casamento, digo, a cerimônia, será no final da tarde, certo? Mas eu gostaria de... enfim...
– Essa pergunta pretende sair ainda hoje, Hermione? – soltou impaciente, me assustando ao ouvir meu nome mais uma vez saindo dos lábios dele.
– Eu gostaria de ir mais cedo para a Toca – disparei. Ele pareceu considerar, me olhando curioso, então eu continuei – Eu gostaria que Molly me ajudasse. Pode não ser um casamento dos sonhos, mas ainda assim é um casamento. Então... – parei, corando abruptamente. O chão nunca me pareceu tão interessante.
– Me fez perder todo esse tempo para perguntar isso? – soltou, irônico – Interessante essa coragem grifinória... – alfinetou, me fazendo revirar os olhos. - Quando quer ir? – perguntou finalmente.
– Depois do almoço, talvez... – respondi, dando de ombros. Ele apenas assentiu e passou por mim rumo ao laboratório. Respirando fundo mais uma vez, soltei – O senhor poderia almoçar comigo? Tenho algumas coisas para perguntar... – por um momento achei que ele diria não. Mas pouco me importava... Não tinha absolutamente nada a perder. Só que ele concordou.
...
O almoço transcorreu bem. Achei prudente não tocar em nenhum assunto que pudesse afastá-lo, então só perguntei coisas relativas à cerimônia.
– Quem vai estar n'Toca?
– O Srº e a Srª Weasley, Minerva, o bruxo que celebrará a cerimônia e Lupin. – respondeu sem tirar os olhos do prato. Mas espera...
– Lupin?! – perguntei, confusa.
– Sim, ele será testemunha junto com a Minerva. – disse, como se fosse simples.
– E como eles concordaram com isso? Pelos céus, Snape, você me deixa por fora de tudo! – reclamei, nervosa.
– Não imaginei que isso era importante... – respondeu, entediado. Por Merlin, como eu tive vontade de azará-lo naquele momento.
– Olha aqui, Snape, eu estou me CASANDO para que a Ordem CONFIE EM VOCÊ! Só que se VOCÊ não confia em mim isso tudo soa inútil! Eu me torno inútil! – estava realmente nervosa, a ponto de interrompê-lo quando ele ameaçou falar – Não quero saber! – disse, preparando-me para sair da cozinha. – A propósito, quero ir para A Toca agora. – e saí batendo os pés como uma garotinha mimada. 'Efeito Snape', pensei.
Sei que minha postura foi tola, mas como ele podia não me contar? As coisas estavam acontecendo e ele não me contava! Sabia que precisava ser mais paciente, mas era impossível manter a calma perto dele. Em todos os sentidos.
