O que eu mais temia aconteceu. Eles nos alcançaram, possivelmente ficaram de guarda em várias partes de Neldor e lograram chegar até nosso barco. Assim que um dos marinheiros nos avisaram, montamos um plano de esconderijo e fuga.
A porta se abriu num rompante e ouvi passos rápidos na escada. Camella se escondia do outro lado da embarcação e como ela ainda tinha seus amuletos, conseguiu se camuflar entre os barris. Eu me escondi embaixo da escada, mas somente tinha a minha capa como escudo. Assim que o feérico colocou os pés no último degrau seus movimentos se tornaram lentos e eu já não o podia ver. Maldito! Tinha se camuflado.
Levei a minha mão a adaga, a qual minha irmã havia me emprestado assim que saímos do castelo. Era a única arma que eu possuía e minha única defesa. Me sentia tonta pela maresia, esse trajeto era mais demorado e nauseante do que foi a minha primeira vez. Forcei meus ouvidos e olhava atenta qualquer movimento no ar. Obviamente a primeira ideia dele foi verificar a saleta do capitão.
Antes de a porta ser aberta, outro feérico desceu correndo. Dessa vez era Azriel, com espada em punho e muito molhado. Engano meu achando que o feérico estava se encaminhando a saleta do capitão, ele estava dois passos a minha frente esperando Azriel chegar. Com um soco potente e sem aviso ele derrubou Azriel.
Eu fiz um barulho, eu sei que fiz. O susto foi muito grande, mas assim que notei meu erro me agachei e cravei minha adaga onde podia ser a perna do vheela, melhor do que imaginava minha adaga cravou no seu traseiro revelando sua posição. A camuflagem não seria possível agora.
Nós dois estávamos visíveis. Ele com sua armadura e espada, e eu com minha estupidez. Joguei qualquer coisa próximo as minhas mãos na sua direção antes de sair correndo a tal saleta. Nem dei o trabalho de trancar a porta, ele abriu num rompante. Meu adversário era o subcomandante, impossível eu ter alguma chance contra ele, ainda mais sem minhas espadas. Empurrei a mesa na sua direção e ele fez o mesmo, com mais força e antes de ficar encurralada entre a mesa e a parede, subi na mesa e o ataquei. Morreria ali, mas não sem antes tentar.
O meu ato suicida foi uma surpresa e ele não teve reação quando minha canela chutou seu ouvido. E minha mão segurava longe sua mão com a espada. Ele virou seu corpo, mas eu girei o meu junto com ele e cai para fora da saleta com as costas no chão, desajeitada.
O feérico já estava em cima de mim com a espada em punho para o golpe fatal. Mas foi repelido por um escudo azul. Respirei e me arrastei para longe, Azriel passou por mim como se eu fosse um saco de batatas, mas eu estava agradecida mais uma vez salvando minha vida.
Os dois duelaram como podiam no espaço apertado entre sombras, enquanto minha irmã arremessava tampa de barril e pedaços de madeira da onde ela estava escondida no inimigo. Assim que me afastei corri para as escadas, o comandante tinha uma espada extra próximo ao timão do barco, com esse pensamento cheguei a luz solar e o caos tinha se instaurado, todos os marinheiros contra um soldado. Uma espada Vheela seria melhor que de um mercenário.
Rodopiei entre as espadas do capitão e do vheela, entrei no meio do combate arrancando as duas facas que ele tinha preso na sua armadura. O vheela me acertou um soco nas costas, mas já era tarde eu tinha suas facas e voltei ao convés, sem olhar para trás. Com um ar de vitória encontrei Azriel encurralado pela espada e a parede, seus olhos encontraram os meus e eu sabia o que deveria fazer.
Quase como se lesse os seus pensamentos eu golpei onde a instante estava a cabeça de Azriel, ato que fez o subcomandante olhar a minha lamina por alguns segundos, o suficiente para Azriel acerta-lo do outro lado. Agora quem estava encurralado era ele, fizemos um sanduiche do Vheela, com golpes sincronizados acertamos em lados opostos e ele se perdeu na sua defesa. Desse jeito ele desistiu de manter Azriel próximo a parede e nos afrontou, eu e Az lado a lado contra ele. O ataque veio e continuamos a sincronia nas ofensivas, sem que nunca tivéssemos treinado fazíamos um par mortal. Mas eu estava sem nenhuma armadura e a espada já abrira minha carne em dois lugares diferentes. A dor foi dilacerante, mas mantive atacando. Só que não foi o suficiente, num descuido de Camella ele a encontrou e antes que ele fosse enfiar a espada em seu pescoço eu me atravessei abraçando Camella para protege-la esperando o golpe por trás.
Mas nunca veio. Azriel se jogou para me salvar eu senti seu peso nas minhas costas. As suas costas com a minha desceram até o chão, Camella gritava chorando e eu não podia acreditar que Azriel tinha sido gravemente ferido ou até morto. A luta frenética ficou lenta e os olhos do Vheela estavam vidrados em Az com um grito mudo preso na garganta. O punhal do vheela estava no Azriel e a faca da verdade no vheela. O maldito estava por cima do meu parceiro e eu iria mata-lo, eu iria muito mata-lo... Meu sangue ferveu e meus olhos escureceram vermelho vivo, a raiva me dominou por completo. Estiquei meu braço até o pescoço do vheela apertando com toda minha força e não notei seu sangue brotando da sua boca e seu corpo mole até que eu o deitei no piso cheio de farelo.
Ele estava morto. Antes mesmo de eu o atacar. Camella segurava a cabeça de Azriel enquanto estancava o sangue que jorrava de seu corpo. Eu ouvia meu nome a distância, Az me chamava.
- Salve-o! Salve, por favor Camella. É tudo o que eu te peço, por favor... – Troquei as mãos de Camella pelas minhas e pressionava onde ele tinha sido atingido.
-Liz! – Azriel me chamava – Tem outros, você tem que se esconder. Liz! Me escuta!
Quanto mais ele berrava, mas ele tossia e sangue jorrava.
-Olha pra mim! Olha só para mim – e assim que tive sua atenção eu pude perceber que eu o amava. Não era somente o sentimento do laço ou a sensação de pertencimento, preenchimento de alma. Meu coração doía demais de vê-lo assim. Uma dor diferente, profunda e cheia de sentido.
Camella fez o que pode, enquanto a magia drenava do seu corpo magro eu via Azriel restaurar um pouco de cor. A ferida estava aberta, mas não sangrava mais. Ele ainda respirava com dificuldade, mas em nenhum momento seu olhar desviou do meu. Ficamos a assim nos encarando até um estrondo sacudir o navio e Camella desmaiar ao meu lado.
Acudi a minha irmã enquanto Azriel parcialmente recuperado sumiu pelas escadas. Olhei em volta procurando um lugar para esconde-la, levei seu corpo desfalecido para dentro da saleta e quando subi a popa do navio o embate já tinha finalizado. Azriel estava em frente ao corpo desfalecido do outro vheela. Como se aquela luta não fosse importante os marinheiros estavam a todo vapor.
-Usem todo o poder do vento, pois está ao nosso favor! Eles estão se aproximando! – Eu ouvia o capitão gritar e ao fundo no horizonte dois navios despontavam, não pequenas embarcações como a que tinham nos alcançados, mas navios de guerra.
Caminhei vacilante até o final do barco, agarrei a borda do navio como se fosse minha vida. Estávamos perdidos! Não teríamos chances! Se eu tivesse como lutar, Az não teria se ferido. Ele estava fazendo tanto por mim.
- De um pouco de credito ao capitão. – Az colocou a mão no meu ombro – Temos dois vheelas caídos, e algumas armas a mais, vamos!
A verdade é que não tinha me dado conta, Azriel sozinho tinha derrubado um dos melhores vheelas e ainda salvado a mim e a tripulação dos demais na pequena embarcação. Ele certamente não era um feérico qualquer! Com um pouco de fé restaurada, recolhi as espadas dos dois feéricos juntamente com os amuletos, o resto joguei ao mar.
Camella ainda descansava quando os dois navios fizeram meia volta, já estávamos em mares de Prythian.
-Liz... chegamos? – Eu quase ri da primeira pergunta que minha irmã fez depois de desmaiar sem magia.
-Não, mas estamos perto. Como está se sentido?
-Bem. Eu fiz o que você me pediu Liz, eu o salvei. – Sua voz saiu suave e suas pálpebras fecharam.
-Salvou. E eu sou grata. – Segurei sua mão mais firme – Sabe que não tenho conhecimentos de curandeira e minha magia é rala, só você poderia ajudar aqueles ferimentos.
-Não diga besteiras, sua magia é estrondosa quando canalizada. – Camella se apoiou nos cotovelos e me olhou seria. – O que diabos ele é para você afinal? Você tem noção que ele entrou na frente de uma espada pra te salvar e quase morreu por isso?
-Xiii, fala baixo. Ele está dormindo ali. Eu tratei do restante dos ferimentos e ele adormeceu assim que os outros navios deixaram a perseguição.
-Outros navios?
-Navios de guerra, vheelas com certeza. Mas não quiseram transpassar para Prythian, um navio da corte diurna estão nos escoltando.
-Corte Diurna?
- É são aliados da corte noturna. Aqui as coisas são um pouco diferentes, encantadoras eu diria. As alianças realmente funcionam!
- Acreditava que funcionaria com Neldor também. Mas nem tudo são flores... – E pela primeira vez notei que minha irmã não era totalmente feliz em Neldor. Ela falava com um tom de amargura e tristeza.
- O que aconteceu em Neldor? De verdade? – Busquei seus olhos esperando a transparência.
- O que aconteceu em Prythian? Quem é esse feérico para você que está fazendo o impensável para te proteger? De verdade Liz. – Camella me devolveu a pergunta ainda raivosa.
Olhei para o único feérico que ressonava na saleta do capitão destruída. Ele era o feérico mais lindo que eu tinha conhecido e também cheio de mistérios. Desde suas sombras, a sua força, o seus gostos e suas amantes, tudo era oculto. A princípio eu pensava que era como se ele quisesse viver assim encoberto, mas então percebi que ele gostava de viver no mundo dele. E eu estava começando a decifrar como era esse mundo.
-Ele é meu parceiro, mas nem tudo são flores Camella. – E deixei os dois a sós. Precisava pensar.
O ar úmido foi bem-vindo quando sentei próximo ao capitão. Desde o embate ele não dirigia a palavra a mim, somente a sua tripulação. Apoiei meu cotovelo em minhas coxas e suspirei cansada: caverna, resgate, ataque em alto mar eu estava exausta e mesmo assim não conseguia dormir, não quando precisava entender o que Azriel queria de mim.
Por um lado, eu estava feliz porque finalmente teria um pouco de paz longe dos vheelas. Eles eram meu povo, minha família. Mas agora eu os temia como o mais letal dos inimigos. E por outro lado eu estava apreensiva, pois Azriel estava me levando para onde tudo começou e o motivo para eu ter fugido e capturada ecoava na minha cabeça. Ele não me queria como parceira e eu estava atrapalhando.
Antes eu me sentia viva, preenchida e acolhida por todos. Podia dizer que eles eram meus mais caros amigos. Agora me sentia estranha, como uma peça solta no tabuleiro, sem ter onde acomodar.
-Liz... – levantei minha cabeça no momento que ouvi aquela voz rouca que tanto fazia minha espinha arrepiar.
Seus cabelos negros ricocheteavam seu rosto, Az se manteve distante o tempo todo e até neste momento. Sempre respeitoso, nunca invadindo o meu espaço e essa reserva me enchia de dúvidas.
-Az. – O ar faltou no meu pulmão. Ele se aproximou ainda me estudando.
-Obrigado. – Eu olhei a ele confusa, mas ele somente afastou as madeixas para trás – Não está sendo uma travessia muito fácil, é verdade. - ele disse sorrindo – Mas vale a pena te ter em segurança em Velaris.
Ah Velaris, sorri concordando porque todas as lembranças que eu tinha de Velaris eram como uma vida colorida.
-Eu estou dando muito trabalho, não é?! – Brinquei entrando no clima. – Era mais fácil ter nos jogado no mar assim que avistaram os vheelas.
-O problema é que não sou um bom nadador. – Az disse se sentando ao meu lado como fazia entre nossos treinos.
-Quem disse que você seria jogado? Você tem um importante papel na tribulação. – Falei em tom jocoso, pois a única ajuda que Az estava dando era ficar de olho em nós duas.
-Quem disse que vou deixar você fugir assim? – Azriel fechou os olhos e jogou a cabeça para trás antes de continuar - Você jamais cairia no mar, antes de se molhar a tomaria em meus braços e voaria até a minha corte. Não importa quantos vheelas, mercenários ou aliados surjam com seus planos. Vou te levar para casa.
Ele manteve os olhos fechados ao mesmo tempo que eu avaliava sua postura relaxada, suas asas dobradas confortavelmente nas suas costas e um pequeno sorriso desenhava seus lábios.
