I let it fall, my heart

And as it fell you rose to claim it

It was dark and I was over

Until you kissed my lips and you saved me

(Set Fire To The Rain - Adele)

.oOo.

Draco voltou para a mansão bem cedo no domingo, mas Scorpius só chegaria após o almoço, então aproveitou para ler na biblioteca pelo resto da manhã. Quando já se aproximava a hora do almoço, Draco foi interrompido por um dos seus elfos, que torcia as mãos nervosamente.

"O que houve?" Draco perguntou, franzindo o cenho.

"Tiddy pede desculpas, senhor, mas..."

"Sim, diga logo," Draco se impacientou.

"O menino Scorpius..." Draco já estava em pé antes que o elfo terminasse, seguindo-o rumo à sala enquanto ele ainda falava. "Ele chegou sem avisar e correu para o quarto dele. Effy está tentando falar com ele e Tiddy veio avisar o mestre..."

"Ele veio sozinho?" Draco perguntou, porém sua pergunta foi seguida pelo rugir da lareira, vindo da sala.

"Scorpius?" A voz de Astoria soou preocupada.

"O elfo disse que ele correu para o quarto dele," Draco respondeu, juntando-se à mulher. "Tiddy, veja se ele está bem," ele deu ordem, ao que o elfo desaparatou de imediato. "O que aconteceu, Astoria?"

"Não sei, ele está agindo tão estranho desde... desde..." Seus olhos vagaram como se ela vasculhasse a mente em busca daquela informação. Antes que ela conseguisse completar a frase, entretanto, o elfo já estava de volta.

"O pequeno mestre está bem, senhor. Disse que está indisposto. O mestre quer que Tiddy mande Effy trazer o menino, senhor?"

"Não será necessário," Draco dispensou, parcialmente aliviado.

"Ah, não..." Astoria exclamou, deixando-se cair numa das poltronas e por um momento Draco paralisou, preocupado. "Acho que sei porque ele está assim," ela falou e Draco exalou, aliviado por não ter que socorrê-la também.

"Assim como? O que aconteceu?" Ele perguntou, sentando-se na poltrona ao lado da ex-esposa.

"Ele tem estado respondão comigo, ultimamente. Não quis fazer nada a semana toda, brigou com os primos e se desfez dos chocolates que Tommy lhe deu. Nem minha mãe conseguiu agradá-lo. Eu achei que era por causa de um brinquedo que ele queria que eu comprasse de qualquer jeito, mas..." ela suspirou. "Acho que começou antes disso, depois que eu disse para Daphne que estava pensando em aceitar a proposta de casamento de Tommy."

"Tem certeza?" Draco estranhou. Scorpius nunca tinha demonstrado nada senão apreciação por Henrich, por mais que lhe doesse admitir.

"Não sei..." Astoria encolheu os ombros, o olhar ainda vagando, inquieto. "Na hora eu não achei que ele estivesse ouvindo nossa conversa. Ele estava ajudando Phillia a montar um quebra-cabeças, ensinando as vogais para ela... Eu não podia imaginar que..."

"Ei, não se culpe." Draco segurou a mão dela, fazendo com que ela o encarasse pela primeira vez. "Ele ficaria sabendo mais cedo ou mais tarde."

"Sim, mas eu planejava explicar tudo para ele! Não queria que ele ficasse sabendo desse jeito!"

"Calma. Você pode ter se enganado. Talvez ele esteja somente fazendo manha mesmo."

"Não, Draco... Ele ouviu. Só pode ser isso." Os olhos de Astoria brilhavam quando ela tornou a desviá-los. "Eu estava justamente falando para minha mãe que Tommy viria almoçar conosco quando Scorpius saiu correndo para a lareira sem dizer uma palavra! Meu Deus, Draco! O que eu faço? E se ele não quiser que eu me case?"

"Shhh, calma." Draco ofereceu o lenço que carregava no bolso à ex-esposa, que agora soluçava livremente.

"Nem me passou pela cabeça que ele pudesse ser contra! Ele sempre gostou tanto do Tommy!"

"Astoria... Astoria, olhe para mim." Draco esperou até que ela o encarasse novamente, depois de assoar o nariz. "Não tire conclusões precipitadas. Ele provavelmente só está confuso. Nós vamos conversar com ele e ele vai entender. Tenho certeza que vai," ele completou, antes que Astoria pudesse fazer alguma objeção.

Astoria assentiu, ainda que não parecesse convencida. Ela tornou a assoar o nariz e pôs-se em pé, limpando os olhos e respirando fundo algumas vezes.

"Vou falar com ele," ela anunciou e dispensou a companhia do ex-marido, dizendo que precisava consertar seu próprio erro.

Enquanto esperava na sala, absorto nos próprios pensamentos, Draco foi interrompido por uma chamada de Evelyn Greengrass, que não disfarçou seu descontentamento por ter que lhe dirigir a palavra enquanto perguntava pela filha, dizendo que ela era aguardada para o almoço. Draco se comprometeu a entregar o recado e crispou o lábio em desprezo tão logo a mulher desapareceu. Em seguida, foi a vez de Thomas Henrich aparecer, visivelmente desconfortável, encarando-o de cima a baixo como se suspeitasse que Draco tivesse escondido sua futura noiva dentro das vestes.

"Ela não deve demorar," Draco falou o mais vagamente possível, satisfeito com o incômodo do homem. "Direi a ela que você a procurou."

Henrich desapareceu sem sequer agradecer e Draco se sentiu ainda mais no direito de desprezá-lo. Quando Astoria finalmente voltou, não parecia nada animada, mas pelo menos não estava chorando.

"E então?" Draco perguntou, apreensivo.

Astoria meneou a cabeça tristemente.

"Ele não quis escutar o que eu tinha para dizer. Disse que vai morar com você, se eu me casar com o Thomas." Sua voz ameaçou se partir e Draco a abraçou.

"Não fique assim. Ele provavelmente só está magoado. Dê tempo um a ele."

Astoria assentiu e ensaiou um sorriso trêmulo quando Draco se afastou para encará-la.

"Vou conversar com ele. Até o final da semana, ele terá mudado de ideia, você vai ver."

"Obrigada, Draco." Astoria apertou sua mão em agradecimento.

"Agora vá, antes que seu pai apareça com uma maldição na ponta da língua. Sua mãe e Henrich já me deixaram de sobreaviso, agora só falta ele."

Astoria pareceu finalmente se lembrar de que era aguardada pelo futuro noivo e apressou-se em se despedir, despejando agradecimentos. Assim que ela sumiu pela lareira, Draco suspirou, conformado em ter que fingir não ter nada contra Henrich para o filho.

.oOo.

"Quer conversar sobre o que aconteceu?" Draco perguntou ao filho, que se sentara à sua esquerda na mesa e permanecera calado desde então, enquanto fingia comer.

"Não," Scorpius disse, sem levantar os olhos para o pai.

"Então eu falo e você escuta," Draco falou, arqueando uma sobrancelha para o filho. "Você sabe que não pode fazer isso, não é mesmo? Sair da casa da sua mãe sem avisar e aparecer por aqui como se não tivesse acontecido nada. Eu teria mandado você de volta para lá se sua mãe não tivesse aparecido."

Scorpius encolheu os ombros.

"Talvez da próxima vez eu vá para a casa do Harry, então," ele falou, ao que Draco estreitou os olhos.

"E você sinceramente acha que ele aceitaria você lá contra a vontade dos seus pais?"

"Pelo menos ele me ouviria."

"E o que você acha que estou tentando fazer?" Draco se irritou. Não estava acostumado com aquele lado teimoso do filho, mas não era como se nunca tivesse acontecido antes. "Estou perfeitamente disposto a ouvir você. Pelo que me lembre, você é quem se recusou a falar a respeito."

Scorpius largou os talheres, cruzando os braços.

"Você não entenderia."

"Então me esclareça!"

Eles permaneceram em silêncio por um momento, até Scorpius bufar e voltar a empurrar a comida de um lado para o outro.

"Mamãe disse que vai se casar com Tommy."

"E então?" Draco cutucou. "Não é como se ela tivesse mantido o namoro em segredo. Você sabia que eles estavam namorando."

"Sim, mas... Eu não achava que ela fosse se casar com ele! Quero dizer, se ela queria um marido, por que se separou de você? Se ela quer se casar, por que não se casa com você, então?"

"Scorpius..." Draco suspirou. "Nós já conversamos a respeito disso. Você sabe que eu amo a sua mãe, mas como uma amiga."

"Mas eu não quero que ela se case de novo!"

"Não é uma escolha sua."

"E por que não? Ela é minha mãe! Eu moro com ela! Não quero ir morar com Tommy!"

"E por acaso você conhece a casa do Henrich?"

"Não, mas eu gosto da casa da vovó Evelyn!"

"Você vai poder continuar visitando sua avó. Apenas vai ter mais uma casa para morar."

"Eu não quero! Já tenho onde morar e já tenho você, não quero outro pai!"

"Posso garantir a você que ninguém vai tomar o meu lugar como seu pai, Scorpius. Henrich será seu padrasto."

"Não quero nenhum padrasto! Não quero que ela se case!" Ele tornou a se largar sobre o encosto da cadeira, cruzando os braços e fechando a cara.

"Já disse que a escolha não é sua. Mas, me diga uma coisa, por que isso agora? Que eu me lembre, você gostava de Henrich até a semana passada. Vocês não estavam fazendo planos sobre sair para passear juntos quando ele esteve aqui?"

"Eu não quis ir com ele." Scorpius levantou o queixo. "Ele se atrasou. Eu disse que ele podia ficar com os chocolates, se quisesse."

"E o que há de errado com os chocolates?"

Scorpius rolou os olhos.

"Tommy pensa que tudo pode ser resolvido com chocolates. Como se eu tivesse dois anos de idade! Bem, eu posso comprar meus próprios chocolates, obrigado!"

"Com meu dinheiro, eu presumo?" Draco devolveu, sarcástico, contendo a vontade de concordar com o filho.

"Eu disse que você não entenderia!" Scorpius fez menção de se levantar, mas Draco segurou seu braço.

"Espere um instantinho, sim? Não me lembro de ter dado permissão para que você deixasse a mesa de jantar." Ele esperou que Scorpius se acomodasse novamente, ainda que a contragosto. "Tudo bem, você disse que não quer se mudar e que não precisa de um padrasto. E que não precisa de ninguém para comprar chocolates para você. Tem mais alguma queixa a acrescentar?"

"Ele nunca responde às minhas cartas," Scorpius devolveu, parecendo feliz por ele ter perguntado. "Mamãe diz que ele é muito ocupado, mas acho que ele daria um jeito de responder se realmente se importasse."

"Certo. O que mais?"

Scorpius pensou por um momento antes de encará-lo, desafiador.

"Tommy não gosta de você e nem você gosta dele, então por que você está do lado dele?"

Aquilo fez com que Draco levantasse as sobrancelhas, surpreendido.

"Primeiramente, não estou 'do lado' de Henrich," Draco esclareceu. "Estou defendendo os interesses da sua mãe. Ela tem todo o direito de se casar novamente, se quiser. Em segundo lugar, não sou eu quem tem que gostar dele, mas sim a sua mãe. E em terceiro lugar, o que faz com que você tenha tanta certeza do que disse?"

"Eu apenas sei!" Scorpius encolheu os ombros, sustentando seu olhar com ousadia. "E você nunca disse que gosta dele."

Draco levou o copo de suco aos lábios para esconder um sorriso enviesado.

"Como eu disse," Draco continuou, recuperando a compostura. "Não sou eu quem tem que gostar dele, mas sim a sua mãe."

"E por que eu tenho que gostar dele?"

Draco suspirou novamente.

"Você não tem. Mas isso não lhe dá o direito de impedi-la de se casar com ele, se ela quiser."

"Mas ela não se casaria com ele se eu não quisesse, casaria?"

"Provavelmente não," Draco ponderou. "Sua mãe faria de tudo para ver você feliz, Scorpius. Mas e quanto a você? Você também não gostaria que ela ficasse feliz?" Aquelas palavras fizeram com que o desafio nos olhos do garoto fosse substituído pela incerteza, até que ele abaixou os olhos novamente. "Você tem razão, Scorpius. Henrich e eu não nos damos muito bem um com o outro, mas nós escolhemos não entrar em atrito para que sua mãe não fique chateada. Para que ela não tenha que escolher entre um e outro, porque isso certamente faria com que ela ficasse infeliz. Por que obrigá-la a escolher, se ela pode ter a nós dois? Se você disser para sua mãe que não quer que ela se case, ela provavelmente vai passar o resto da vida sozinha. Mas a que custo?"

Scorpius alisou as cobertas por algum tempo antes de levantar os olhos novamente.

"Está bem, não vou mais brigar com Henrich. Mas eu ainda não gosto dele."

"Já é um começo," Draco concedeu.

"Mas se ela se casar com ele, eu posso vir morar com você?"

Draco fechou os olhos e fez uma prece silenciosa por paciência.

.oOo.

Draco estava sentado em sua cama, acomodado entre as pernas de Harry, as costas apoiadas contra o peito do moreno enquanto encarava a paisagem noturna pela janela do seu quarto sem realmente vê-la. Seus pensamentos estavam longe, porém seu corpo parecia atento a cada movimento do moreno, cujo tórax se expandia e se contraída cadenciadamente, as mãos vez ou outra acariciando seus braços, o nariz traçando pequenos riscos na lateral do seu pescoço, fazendo com que seus pelos se eriçassem, apesar da letargia que o acometera.

"No que você está pensando?" Harry perguntou num sussurro próximo ao seu ouvido, como se temesse espantar seus pensamentos.

Draco suspirou, piscando algumas vezes até sua vista se focar novamente na vista da janela. A noite estava clara e o céu bastante límpido. Era difícil imaginar o frio do lado de fora quando estava tão confortavelmente envolto pelo calor que emanava de Harry, mas a previsão para o dia seguinte era de sol.

"Scorpius tem dado trabalho para mim e para Astoria ultimamente," Draco falou. Sua voz saiu pouco mais alta do que a de Harry, apesar dos feitiços de privacidade que haviam lançado serem garantia suficiente de que ninguém os ouviria do lado de fora.

"Em que sentido?" Harry perguntou, pousando um beijo suave logo atrás da sua orelha, causando uma sensação agradável na altura do seu estômago.

Draco contou sobre a fuga de Scorpius no domingo e suas conversas com o garoto desde então. Astoria também aparecera todos os dias para o chá e conversava com o filho, mas sempre que parecia que haviam feito algum progresso, Scorpius se mostrava teimoso e arredio novamente. Cada vez que Astoria ia embora, Draco percebia a dúvida cada vez maior em seus olhos e nada do que dissesse fazia com que seu sorriso alcançasse os olhos quando ela se despedia.

"Scorpius é um bom garoto," Harry falou, por fim. "Ele vai acabar entendendo."

"Não sei..." Draco fechou os olhos, sentindo o sono alcançá-lo tão lentamente quanto as carícias de Harry. "Ele nunca agiu assim. Nem mesmo quando Astoria e eu nos separamos."

"Provavelmente é só uma fase. Além do mais, quando vocês se separaram, Scorpius ainda estava se acostumando a ter um pai presente. Você devia tomar essa rebeldia dele como um sinal de que ele já está se sentindo confortável o suficiente com você para manifestar seu desconforto com a situação."

Draco se sentiu irritado por Potter soar exatamente como sua bruxoterapeuta, mas a preguiça falou mais alto e ele resolveu mudar de assunto.

"Você está de folga amanhã?"

"Sim." Harry tornou a deslizar a ponta do nariz pelo seu pescoço.

"Tem algo planejado?"

Harry suspirou, afastando-se e Draco ouviu quando sua nuca alcançou a cabeceira da cama. As mãos que deslizavam por seus braços se enlaçaram ao redor do seu tórax conforme ele se aconchegava melhor.

"Estava pensando em ir até St. Hedwig pela manhã. Faz tempo que o pessoal tem insistido para que eu passe por lá e já está ficando chato arrumar desculpas." Ele fez uma breve pausa. "Você sabe sobre St. Hedwig, não sabe?"

"Sua instituição de caridade," Draco concordou. Seu pai havia feito algumas doações bastante generosas antes de se mudar de Londres. Durante o tempo em que Astoria carregara seu sobrenome, ela também tomara iniciativas para causas do tipo e Draco sempre a encorajara, porém sem fazer questão de saber os detalhes sobre os valores e os beneficiados. "E quanto à tarde?"

"Não tenho nada planejado ainda. Por quê?"

"Estava pensando em levar o Scorpius para um piquenique."

"Ah, sim..." Harry se remexeu minimamente. "Bem, eu adoraria acompanhá-los. Isto é, se o convite ainda estiver em pé..."

"Ótimo," Draco murmurou e devia ter cochilado por um momento, pois se sobressaltou quando Harry tentou mover seu cotovelo, que provavelmente o estivera pressionando nas costelas.

Sentindo-se pesado de sono, Draco moveu-se até se deitar na cama ao lado de Harry, que também se acomodou melhor ao seu lado, costa contra costa. Draco escorregou rapidamente para um sono profundo, embalado pelo som suave da respiração do moreno.

.oOo.

Draco fingia ler um livro enquanto, na verdade, encarava dois pequenos barquinhos de papel que navegava no lago. O de Harry era mais firme, enquanto o de Scorpius pendia para um lado, parecendo prestes a se desfazer a qualquer momento. O Auror havia enfeitiçado as dobraduras para navegarem por conta própria, fazendo pequenas ondas na superfície outrora calma do lago. Por várias vezes, alguns peixes curiosos os beliscavam, fazendo com que se desviassem de sua rota, sem nunca afundar.

O tempo estivera ameno durante toda a tarde, porém o sol começava a se pôr e um vento gelado trazia o cheiro das árvores, ameaçando penetrar seu suéter. Draco levantou a gola da camisa que usava por baixo quando um arrepio de frio lhe percorreu a espinha. Um riso de Scorpius fez com que seus olhos abandonassem o livro por um momento para observa a cena ao seu lado.

Ao contrário de Draco, que conjurara uma cadeira confortável para si, Scorpius e Harry estavam sentados sobre uma toalha florida, estendida sobre a relva. O moreno presenteara Scorpius com um jogo de montar palavras e já fazia mais de uma hora que eles estavam soletrando nomes e palavras curtas que o garoto já conhecia. Vez ou outra ele errava uma letra e Harry o corrigia com toda paciência, sem nunca fazer com que Scorpius se sentisse envergonhado por errar.

"Vamos, leia em voz alta!" Harry provocava, fazendo com que Scorpius risse ainda mais, tampando a boca com a mão e meneando a cabeça. "Não vai ler, então eu leio para você. Está escrito 'gi-fa-fa'."

Scorpius se jogou para trás de tanto rir e Harry sorriu também, seu olhar se elevando até encontrar com o de Draco. O loiro pensou em desviar, mas já era tarde. Os olhos de Harry se suavizaram ainda mais, seu sorriso se tornando mais carinhoso que divertido. Draco voltou a olhar para o livro antes que sua expressão se tornasse algo muito parecido com aquilo.

"Draco, não se mova!" Harry falou, de repente, fazendo com que o loiro congelasse no lugar. "Scorpius, olhe! Debaixo da cadeira do seu pai."

"O que é?" Scorpius perguntou, interessado e Draco conteve a vontade de encolher os pés para junto do corpo como uma criança. Em vez disso, olhou para Potter, esperando vê-lo de varinha em punho, porém ele se abaixara e puxava Scorpius para engatinhar junto a ele, levando a mãos sobre os lábios para que ele não fizesse barulho.

"O que é?" Draco perguntou, indeciso entre o medo e a irritação.

"É um jacaré?" Scorpius perguntou e Draco não resistiu, abaixou-se para espiar por baixo da cadeira, uma das mãos já alcançando a varinha. Mas seu movimento brusco fez com que o animal se assustasse, correndo rapidamente pela grama até desaparecer dentre as árvores.

"Ah, papai! Você assustou o bebê jacaré!"

"Não era um jacaré," Harry explicou, divertido, enquanto Draco se recompunha. "Era uma iguana. É como um lagarto de jardim."

"Eu já vi lagartos no jardim de casa, mas nenhum desse tamanho!" Scorpius se admirou. "Qual é a diferença dele para um jacaré?"

"Jacarés comem peixes e outros animais. Iguanas são herbívoras."

"Quer dizer que elas só comem vegetais? Como os pavões do papai?"

"Isso mesmo."

"Tem certeza? Ele era grande o bastante para comer um... pato!" Scorpius terminou sua fala com uma exclamação, já se levantando e correndo até a beira do lago.

"Scorpius, cuidado!" Draco se levantou de um pulo, sua mente já imaginando o filho escorregando na grama molhada e caindo dentro da água. Porém o garoto desacelerou o passo, apontando para as aves brancas que nadavam em direção aos barquinhos de papel enfeitiçados.

"Eles vão comer os nossos barquinhos, Harry!"

Harry riu, também se levantando e postando-se ao lado de Draco, ainda que mantivesse certa distância. Como Scorpius previra, um dos patos tinha alcançado o barquinho de Harry e tentava bicá-lo, agitando as asas e grasnando.

"Por que você não dá pão para eles?" O moreno ofereceu.

"Posso?" Scorpius voltou-se para o moreno, esperançoso.

"Aqui." Harry convocou o que sobrara dos pães com a varinha e levitou-os até o garoto. "Jogue as migalhas na água e eles virão até você. Mas tenha cuidado para não cair na água."

Scorpius pôs-se a esfarelar os pães e jogá-los o mais longe que conseguia. O movimento atraiu a atenção dos patos, que meio nadaram, meio voaram até a margem próxima do garoto e este, por sua vez, gargalhava cada vez mais alto.

"Obrigado por me convidar." Harry tinha se aproximado sem que Draco percebesse e seus braços se tocaram levemente. "Significa muito para mim."

Draco limitou-se a assentir, embora o Auror mantivesse os olhos fixos à frente.

"Hermione me contou que vocês escutaram tudo o que Ron disse, àquela noite," Harry continuou. "Só quero que você saiba que não precisa se sentir pressionado a dizer algo para Scorpius. Eu concordei com isso e estou feliz por tê-lo feito. Pode tomar o seu tempo..."

"Ninguém está me pressionando, Harry," Draco interrompeu-o.

"Ótimo... Por que eu estou adorando fazer parte disso."

"Acabou o pão!" Scorpius falou, batendo as mãos na calça para livrá-las dos farelos. A algazarra atraíra mais patos e eles se amontoavam, brigando pelos farelos. "Ei, por que você não briga com um do seu tamanho?" Scorpius falou para uma ave particularmente encrenqueira e no momento seguinte ela estendia as asas e voava em direção ao garoto, que deu alguns passos para trás antes de se virar e correr em direção a eles. "Papaaaai!"

Harry riu, levantando a varinha. Porém não precisou lançar nenhum feitiço, já que o pato pousara na grama para comer os farelos que se acumularam ali. Scorpius alcançou-os e grudou na perna do pai, olhando por cima do ombro. Draco teve que dar um passo para trás para não perder o equilíbrio, mas engoliu a repreensão que tinha na ponta da língua ao ver o medo estampado nos olhos do filho.

"Está tudo bem," Harry bagunçou os cabelos de Scorpius, divertido. "Da próxima vez, é melhor trazermos mais pão," ele falou e então lançou um olhar envergonhado na direção de Draco, parecendo só então perceber o que acabara de dizer.

"Da próxima vez, você pode alimentá-los, se quiser," Scorpius falou, já se recuperando do susto o suficiente para encarar os patos com irritação.

O vento soprou mais forte novamente, abafando o grasnido dos patos e Draco percebeu que o sol já estava quase totalmente escondido pela silhueta das árvores do outro lado do lago, criando sombras cada vez mais longas.

"Está na hora de irmos embora," ele anunciou, olhando ao redor antes de agitar a varinha e fazer com que sua cadeira sumisse.

Scorpius reclamou, mas acabou ajudando Harry a guardar o que sobrara do lanche e o jogo de letras antes de o moreno dobrar a toalha com um aceno de varinha. Por fim, Harry tirou o feitiço que pusera sobre os barquinhos de papel, que abandonaram sua rota ziguezagueante e se deixaram levar pelo vento rumo à outra margem do lago. Draco estendeu a mão para o filho, porém este já agarrara a mão de Harry para ser lado-aparatado. Os únicos trouxas visíveis estavam longe demais para perceberem algo, entretanto o Auror acenou para que eles fossem até o abrigo das árvores para não correrem o risco de serem vistos. Draco segurou o braço estendido de Harry antes de desaparatar, pousando no hall de entrada da mansão, logo em seguida.

Draco não precisou olhar para os olhos arregalados do elfo doméstico para perceber que tinha visita, ao notar alguém sentado numa das poltronas, porém sentiu o alívio percorrê-lo ao perceber que se tratava de Astoria.

"Draco...? Harry!" Astoria exclamou ao se levantar, sua expressão se abrindo num sorriso enquanto Draco gesticulava para que o moreno fosse até ela.

"Mamãe!" Scorpius foi o primeiro a alcançá-la, abraçando a mãe. "Mamãe, nós estávamos no parque! Harry me deu um jogo de soletrar e nós fizemos barquinhos de papel e..."

"Scorpius, acalme-se," Draco admoestou, porém Astoria parecia feliz demais pela recepção calorosa do filho para se importar.

"Parece ótimo, querido!" Ela falou depois de abraçá-lo. "Depois você tem que me contar tudo!"

"Astoria," Harry falou, estendendo a mão um tanto timidamente, ao que a mulher sorriu. "É sempre um prazer vê-la."

"Eu digo o mesmo, Harry!" Ela olhou de Harry para Draco e de volta para o moreno. "Fico feliz em encontrá-lo por aqui! Draco..."

"Astoria" Draco adiantou-se para beijar as faces da ex-esposa, sentindo-se irritado consigo mesmo. "Me desculpe, acabei me esquecendo do horário."

Na verdade, Draco se esquecera completamente do chá com Astoria, senão teria enviado uma coruja cancelando.

"Não se preocupe, querido. Tiddy disse que você não deveria demorar, por isso achei melhor esperar."

Draco pediu que todos se sentassem e ofereceu chá às visitas. Scorpius fez questão de tomar chá também, recusando o chocolate quente que Effy lhe oferecera. Draco pensou em mandá-lo para seu quarto para se lavar para o jantar, porém achou injusto com Astoria, que segurava a mão do filho com os olhos brilhando de felicidade.

"Quer dizer que você acompanhou meus garotos a um passeio?" Ela se dirigiu a Harry.

"Sim, tive esse prazer," o Auror esbanjou carisma, fazendo com que Draco arqueasse uma sobrancelha. Se não o conhecesse, poderia jurar que ele estava flertando com sua ex-esposa. "A companhia foi muito agradável, devo dizer. Sem contar no desafio para o meu intelecto. Scorpius sem dúvida me surpreendeu com o jogo de soletrar."

"Ah, sim, ele só tem recebido elogios da Sra. Halder!" Astoria concordou, lançando um olhar aprovador para o filho, que olhava da mãe para Harry como se os analisasse atentamente.

"Foi realmente um prazer encontrá-la, Astoria, mas eu devo..." Harry falou assim que terminou seu chá, já se levantando, porém Astoria o impediu.

"Não, por favor, Harry! Fique mais um pouco! Eu insisto! Draco..." Ela encarou o ex-marido, que suspirou.

"Harry, por favor. Sente-se," Draco falou, tornando a encher sua xícara sem esperar por uma resposta.

Vencido, Harry tornou a se sentar, passando uma mão pelos cabelos. Scorpius soltou uma exclamação, porém Draco não soube decifrar a expressão do filho, que susteve seu olhar com um sorriso enigmático nos lábios. Era pena que ele estivesse tão bem-comportado, pois assim Draco não tinha desculpas para mandá-lo para seu quarto.

"Então... Como vão as coisas no Ministério da Magia?" Astoria puxou assunto, tratando de fazer com que Harry ficasse à vontade novamente, como se fosse ela a anfitriã, como nos velhos tempos.

Draco não prestou muita atenção à conversa, apenas acrescentando uma ou outra observação quando julgava pertinente. Depois de algum tempo, Scorpius finalmente teve seu momento sob os holofotes e contou sobre o passeio para a mãe, pedindo a validação de Harry a todo o momento.

Depois de algum tempo, Harry se levantou novamente e daquela vez Astoria não o impediu de ir embora, limitando-se apenas a dizer que ele deveria aparecer mais vezes para o chá, como se coubesse a ela fazer o convite. O moreno não foi nada senão polido e beijou-lhe a mão galantemente antes de se despedir e desaparecer pela lareira.

"Bem, eu também tenho que ir," Astoria anunciou, despedindo-se de ambos com uma aparência muito mais tranquila do que Draco havia testemunhado durante toda aquela semana.

"O que você está tramando, Scorpius?" Draco perguntou assim que se viu sozinho com o filho.

"Como assim?" O garoto se fez de desentendido.

Draco não se deixou enganar nem por um segundo pela expressão angelical do filho, mas decidiu deixar para confrontá-lo mais tarde, mandando que ele subisse para se preparar para o jantar.

.oOo.

Foi somente à noite, quando colocava Scorpius para dormir, que Draco finalmente descobriu o realmente que se passava na cabeça do filho.

"Papai, você estava certo o tempo todo," Scorpius falou enquanto se deitava em sua cama e esperava que o pai o cobrisse.

"Sobre o quê?" Draco perguntou, desconfiado, estendendo o cobertor sobre o garoto e sentando-se na beirada da cama.

"Sobre a mamãe se casar."

Draco piscou, surpreso.

"Que bom que você entendeu, filho. Saiba que isso significa muito para ela. E para mim também."

"Sim, mas ela não pode se casar com qualquer um," Scorpius continuou.

"Estou de acordo," Draco falou, imaginando onde Scorpius estava tentando chegar com aquilo. "Thomas Henrich não é qualquer um. Ele pode não ser minha pessoa favorita na face da Terra, mas é de uma família respeitável e parece ser um homem honrado."

"Sim, mas... Tommy não é a pessoa certa para a mamãe," Scorpius soou irritado.

"É mesmo?" Draco arqueou uma sobrancelha. "E posso saber quem, na sua sábia opinião, é a pessoa certa para a sua mãe?"

"Harry Potter!" Scorpius exclamou, triunfante.

Draco projetou o corpo para trás como se desviasse de um golpe.

"Como?" Draco perguntou, embasbacado.

"Papai, você não viu como ele trata a mamãe como se ela fosse uma princesa? E como ela ficou feliz em vê-lo aqui?" Scorpius falou, excitado. "Ela estava sorrindo como se fosse Natal! Ela nem queria que ele fosse embora e pediu que ele voltasse mais vezes! Você não viu?" O garoto se sentou na cama, aparentemente incapaz de conter a própria empolgação. "Além disso, ele sabe dar os melhores presentes. E não é como se ele precisasse disso para que eu gostasse dele. E ele sempre responde às minhas cartas. E vocês são melhores amigos!" Ele falou, como se tivesse acabado de se dar conta. "Você nem precisaria fingir gostar dele só para agradar a mamãe. Nós poderíamos passar horas juntos, nós quatro! Não seria o máximo?"

"Scorpius..." Draco tentou interromper o fluxo de palavras do garoto, mas ele continuou como se não tivesse ouvido.

"Mamãe e eu provavelmente teríamos que nos mudar da vovó, mas aposto como a casa dele é bonita!"

"Scorpius."

"Você conhece a casa dele? Pode me levar lá algum dia...?"

"Scorpius!" Draco praticamente gritou, fazendo com que o filho se sobressaltasse, a empolgação substituída pela incerteza por um momento. "Filho," Draco recomeçou num tom mais ameno. "Não é assim que as coisas funcionam. Você não pode escolher a melhor pessoa para a sua mãe. Isso tem que partir dela..."

"Mas tenho certeza que ela deixaria o Tommy se o Harry pedisse ela em casamento!"

"Ele não vai pedi-la em casamento!" Draco perdeu a paciência.

"E por que não?" Scorpius perguntou, cruzando os braços teimosamente.

"Por que ele já é comprometido!" Draco se arrependeu assim que as palavras deixaram sua boca.

"O quê?" Os olhos de Scorpius se arregalaram e ele deixou os braços caírem ao lado do corpo, baixando os olhos para a coberta. "Você quer dizer que ele já tem uma namorada?"

"Sim." Draco pressionou a ponte sobre o nariz.

"Mas ele nunca fala nela! Talvez ele não goste tanto dela assim..."

"Scorpius, já chega!" Draco empurrou os ombros do filho até que ele se deitasse novamente e já ia se levantar quando soltou o ar dos pulmões, fechando os olhos por um instante. "Filho..." Ele falou, voltando a baixar o tom de voz. "Sei que você quer o melhor para a sua mãe, mas não é sua responsabilidade encontrar um pretendente para sua mãe. Como eu disse, você não tem que gostar de quem quer que seja, mas tente ser razoável. Ela sabe escolher o que é melhor para ela. A nós dois, cabe apenas apoiá-la no que ela decidir. E se ela escolher se casar com Henrich, nós devemos ficar felizes por ela."

"Ah..." Toda a empolgação parecia ter se extinguido de Scorpius e por um momento Draco se sentiu tentado a contar toda a verdade para o filho, nem que fosse apenas para ver o brilho voltar aos seus olhos. Mas não podia lhe dar esperanças quando tudo poderia acabar num piscar de olhos. A qualquer momento, Harry poderia se dar conta de que aquilo não era o que ele queria e então seriam dois corações partidos, ao invés de um só.

"Ei," Draco chamou, tocando o queixo do filho com a ponta do dedo para fazer com que ele o encarasse novamente. "Me prometa apenas que vai pensar a respeito, está bem?"

Scorpius encolheu os ombros, repuxando a boca numa caricatura de sorriso que não durou nem dois segundos. Draco beijou a testa do filho e desejou-lhe boa noite antes de apagar as velas e fechar a porta do quarto.

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N.A.: então, faltam 8 capítulos, mas eles ainda estão em revisão. Posto assim que possível. Enquanto isso, deixo vocês com meus sinceros agradecimentos a todos que leram e comentaram! É muito gratificante receber o carinho de vocês depois de todo esse tempo. Be safe, everybody!