Olá, pessoas! Estou de volta e com um capítulo enorme!
Antes que leiam, porém, eu gostaria de falar algo importante:
A partir de agora os próximos capítulos serão longos. Porque? Porque eu tenho muitas informações para adicionar neles, que eu acho que não deviam ser separados em capítulos menores. Eu espero que entendam, é praticamente uma escolha de escrita minha.
Por causa disso, tomarei mais tempo para escrever os próximos capítulos, o que quer dizer que a minha ideia antiga de postar todo domingo (que já está meio falida no momento), vai ter que ser interrompida enquanto trabalho nesses capítulos longos.
Isso não quer dizer que eu não vou postar! Só quer dizer que vou demorar mais tempo, para fazer capítulos mais longos e mais detalhados para vocês!
(sem contar que eu tenho que cuidar da minha saúde física e mental enquanto escrevo isso.)
Aproveitem!
Soluço sabia que precisava de mais tempo para pensar e refletir, mas sua curiosidade pelo mundo lá fora era mais forte.
Ele hesitou ao se levantar, quando Banguela se virou para ele, abaixando a cabeça e apresentando a sela em suas costas. O dragão negro trinou suavemente, e Soluço quase conseguia ver um sorriso naqueles lábios de dragão.
Soluço se sentiu tentado a pular nas costas de Banguela, a sobrevoar a ilha assim como tinham feito ao chegar, admirar as paisagens do lugar do modo que um dragão faria. Assim como antes, do modo como eles já tinham voado ao redor de Berk.
Mas as coisas agora não eram mais como antes.
"Banguela, eu posso andar..." Ele disse, dando alguns passos em direção da abertura da caverna como que para comprovar tal coisa. Banguela trinou, se apressando até o garoto e se colocando na frente dele mais uma vez. "Não, amigão, eu quero explorar por mim mesmo."
O Fúria da Noite fez um som suave, abaixando os olhos por um momento, antes de erguê-los para o rapaz mais uma vez. E Soluço soltou um suspiro exasperado, incapaz de segurar um pequeno sorriso com o jeito de seu dragão. Era difícil dizer "não" para aqueles olhos, mas Soluço não conseguia deixar de pensar na conversa de antes e no que aquilo poderia significar para o dragão.
"Ele quer ficar do seu lado..." Lambe-Olho explicou, deslizando por entre as pernas de Soluço, quase fazendo o garoto tropeçar. "E diz que vai ser mais fácil." E então lançou um olhar para o dragão maior, movendo a língua de modo estranho.
Soluço não conseguiu compreender o que o Terror Terrível tinha "dito" por último, as palavras dançando sem sentido em seus ouvidos. Mas o que quer que fosse, Banguela não gostou, uma vez que voltou os dentes para Lambe-Olho.
Lambe-Olho guinchou, abrindo as asas e voando até o ombro de Soluço.
O pequeno viking riu levemente, o que pareceu incomodar o Fúria da Noite mais ainda. Banguela bufou, desviando os olhos de Soluço para o Terror Terrível, e o garoto se lembrou mais uma vez daquele momento que dividiram após seu primeiro voo juntos, quando conheceram Lambe-Olho pela primeira vez.
"Ah, tudo bem, Banguela..." Soluço sorriu, erguendo a mão e afagando a cabeça de Banguela, que se inclinou contra o toque. Um ronronar grave fez o corpo de Soluço tremer e ele sentiu suas bochechas esquentarem consideravelmente. Ele afastou a mão das escamas quentes e escuras, ignorando o leve ganido do dragão.
O ar ficou estranho de novo.
"Bom, é... Vamos lá, né...?" Ele deu um sorriso nervoso, novamente se dirigindo para a entrada.
Banguela fez um som estranho, mas se colocou ao lado do garoto – e Soluço notou que o Fúria da Noite estava mantendo um pequeno espaço entre eles, como tinha feito antes. O garoto sorriu, feliz com a consideração.
Ele sabia, sabia, que não tinha que ficar pensando naquilo. Eles já tinham conversado, já tinham decidido como as coisas iam ser, mesmo depois daquela "revelação". Soluço devia era estar contente em saber que Banguela ainda queria ser seu amigo e estava contente com as coisas sendo do jeito que eram.
Isso, ele ia tentar pensar mais desse jeito.
Eles caminharam na escuridão e Soluço não precisava ver para ter certeza de que Banguela continuava ao seu lado. O calor do dragão passava para ele do mesmo modo que sua energia faria, isso é, caso Soluço pudesse a sentir.
O garoto sentiu a presença dos demais dragões na caverna roçarem contra sua mente e tentou formar uma parede entre eles, como tinha feito antes. Era difícil, e ele não sabia se era porque estava curioso para conhecer energias novas ou só porque eram presenças mais fortes que a dele.
O corredor de pedra natural levava à uma abertura maior; de lá, entradas e saídas se abriam para o mundo de fora e para outras cavernas escurecidas; pouca luz entrava por uma passagem maior e pequeninas aberturas naturais no teto, mas já era possível ver melhor do que nos salões anteriores.
E Soluço admirou o lugar e seus habitantes. A caverna era grande, com estalagmites e estalactites gigantes, alguns tão grandes que chegavam a quase conectar o teto e o chão; dragões se encarrapitavam nelas, enrolando as caudas longas em volta de sua circunferência, alguns até estavam pendurados de ponta cabeça no teto – como Banguela às vezes fazia. Havia também diferentes níveis de pedra dentro da caverna, que quase pareciam não ser naturais; grupos de dragões se amontoavam neles, reunidos em grupos assim como fariam os vikings no Grande Salão de Berk. Alguns dormiam, outros pareciam dividir uma conversa casual no estilo de dragões, outros até estavam apertados um contra o outro, como um casal enamorado.
Soluço tentou não se demorar naquela comparação...
Olhos brilhantes e draconianos se voltaram para ele, e Soluço pode sentir a força de várias presenças diferentes apertando contra a parede que ele tinha criado. A parede não era totalmente sólida, e algumas informações chegaram até ele. Curiosidade, medo, irritação... Cada dragão parecia reagir de modo diferente para.
Mas todos apresentavam a mesma capacidade racional que Soluço tinha encontrado até ali entre os dragões. Em pensar que os vikings tratavam aqueles seres como apenas criaturas irracionais...
"O humano ainda está aqui?" Soluço conseguiu sentir a energia de um Gronckle murmurar, mais surpreso do que qualquer outra coisa. Mas o resto da mensagem sumiu, enquanto o dragão parecia dividir um comentário com o outro que estava a seu lado.
"Pensei que Fogaréu tinha se livrado dessa coisa!" A energia pontiaguda de um Nadder tocou a mente de Soluço e ele tentou reforçar sua parede mental para afastá-la.
"É só um filhote...!" Ele ouviu algo estranho, que não tinha ouvido antes. A energia parecia vibrar em diferentes formas, como se houvesse quatro energias se comunicando ao mesmo tempo. Era até um pouco parecida com a energia de um Zipperarrepiante, mas dava para notar que não era aquele tipo de dragão.
Soluço deu uma olhada em volta, tentando encontrar um dragão com quatro cabeças, se lembrando de ter lido sobre um deles no Livro dos Dragões. E por um momento seus olhos se encontraram com o que parecia ser quatro pares de orbes idênticos, que o examinavam de modo estranho.
Um chamado conhecido de um Fúria da Noite e um Terror Terrível fez Soluço se virar. Banguela veio em sua direção e o garoto notou que havia andado na direção do escuro, momentaneamente esquecendo que estava acompanhado – quase como se estivesse sido puxado na outra direção.
"Ah, foi mal..." Foi só o que disse, se aproximando de Banguela mais uma vez. E ele notou o modo como o Fúria da Noite o observou, curioso e talvez um pouco preocupado. Soluço não entendeu bem o porquê daquilo, mas sorriu, tentando mostrar para Banguela que estava tudo bem.
Banguela soltou um arrulho suave, fazendo um movimento com a cabeça em direção da entrada e voltando a andar. Soluço o acompanhou – e tinha certeza de que Banguela havia lançado um olhar para trás, mostrando os dentes para os dragões na caverna. O garoto fez uma nota mental sobre aquilo.
"Tem coisa muito mais legal pra ver lá fora." Lambe-Olho disse, pulando do ombro do garoto para as costas de Banguela – que rosnou levemente com o contato, mas não fez nada para tirá-lo de lá. "Aqui é só onde a gente dorme..."
"É, eu imagino..." Soluço sorriu levemente, se lembrando do pouco que tinha visto ao chegar.
Eles seguiram por outro corredor de pedra, esse bem mais largo do que o corredor que conectava a caverna de Banguela com a maior, e ao longe já era possível ver a entrada do sistema de cavernas.
E Soluço não sabia se se deixava levar pela curiosidade que sentia sobre os dragões que viviam ali, ou se ele revivia o medo que tinha de dragões quando era ainda muito pequeno.
O corredor, que parecia servir de caminho transitório entre dois grandes salões cavernosos, estava cheio de dragões indo e vindo e com alguns descansando contra as paredes, como se aquele fosse seu quarto.
E eram tantos dragões diferentes! Soluço reconheceu um Tambortrovão de um profundo roxo quando esse passou por eles, sem notar que havia um "humano" ao lado do Fúria da Noite. Soluço nunca tinha visto tantos dentes ou uma boca tão grande quanto aquela; parecia ser capaz de conter um viking adulto entre aquelas mandíbulas!
Em um momento, Soluço podia jurar que tinha visto um Machadrago, ou um dragão parecido passar por eles, voando no topo do corredor de pedra, suas asas eram tão largas que quase tocavam cada parede; Soluço instintivamente abaixou a cabeça, mesmo estando muito abaixo do dragão, se lembrando do que aquelas asas afiadas podiam fazer.
Soluço se lembrou de todas as vezes que havia lido sobre aqueles dragões no Livro dos Dragões, quando Perna-de-Peixe trazia o livro consigo sempre quando eles se encontravam. E, por um momento, ele sentiu saudade daquele tempo, de sentar na grama com seu melhor amigo, falando sobre dragões e plantas. E agora cá estava ele, conhecendo aquelas mesmas espécies das quais os dois haviam especulado sobre por tanto tempo; ele chegou a imaginar a animação de Perna-de-Peixe caso o loiro estivesse ali. Talvez o coitado acabasse desmaiando...
Banguela soltou um ronrono baixo e, mesmo com o pequeno espaço entre os dois, Soluço ainda pode sentir as vibrações. Ele empurrou aqueles pensamentos para longe. Perna-de-Peixe não estava ali, mas Soluço "aproveitaria" o momento pelo seu amigo.
E, uma vez longe de seus pensamentos, o garoto notou como os dragões se moviam ao seu redor. Alguns se inclinavam na sua direção, cheirando o ar ao seu redor antes de se afastar, as vezes reclamando sobre seu cheiro ou mostrando surpresa ao notar que o humano "cheirava à Sombra da Noite". Soluço tentava não pensar naquilo e nas implicações.
Outros se aproximavam com curiosidade e interesse, tendo nunca visto um humano assim de perto e Banguela rosnava alto, às vezes só por darem um passo na direção deles. Soluço ficava ao mesmo tempo agradecido pela proteção do amigo e um pouco desconfortável com ela, se lembrando de quando era protegido por sua irmã mais nova.
Alguns os seguiram enquanto caminhavam até a entrada, formando um círculo ao redor dos três.
Afastar a energia de todos aqueles dragões era um tanto cansativo. Soluço conseguia empurrar a maioria, mas às vezes, uma consciência ou outra acabava tocando a sua, transmitindo informações que o garoto não sabia se devia ouvir ou não.
"Uau, até parece que você é o alfa..." Lambe-Olho trinou suavemente, um som que lembrava um pouco uma risada humana. E sua energia, mesmo sendo tão suave e pequenina, passou pela parede invisível sem dificuldade – talvez porque estava tão perto do garoto. "Todo mundo quer ficar te seguindo..."
"Ah, com certeza..." Soluço tinha uma ideia do que o pequeno Terror Terrível estava falando, mas ele tinha quase certeza de que um "alfa" não era seguido por energias cheias de medo, raiva e confusão.
A entrada da caverna dava para um campo largo e aberto, assim como Soluço se lembrava ter visto ao chegar. Não muito longe da caverna, começava uma floresta de árvores altas com troncos grossos, que desciam pelo lado da montanha em uma descida confortável, antes de se erguer novamente em um morro alto.
E se Soluço achava que as cavernas estavam cheias de dragões, era porque ele não tinha visto muito bem o resto da ilha.
Dragões de todos os tipos e tamanhos se sentavam entre as pedras ao pé da montanha, se aquecendo na luz do sol; alguns corriam pelo campo aberto, incomodando os demais, brincando e guinchando alto como crianças animadas; outros dormiam, apreciando o momento a sós ou com outros ao seu lado. E acima deles, indo e voltando para além da montanha e da mata, indivíduos e grupos pequenos voavam, bloqueando a luz do sol vez ou outra.
Mesmo com a barreira que tinha criado, Soluço conseguia ouvir e sentir as incontáveis presenças ao seu redor, algumas mais próximas, outras mais distantes. E, enquanto tentava impedir que as energias o bombardeassem de mensagens, Soluço ainda podia ouvir os sons naturais dos dragões, os guinchos, trinares e rosnados altos, criando uma música no ar - ou uma cacofonia.
No meio de todos aqueles sons, Banguela soltou um trinar alto. Ele o encarava com os olhos grandes, bem abertos, a cabeça inclinada para o lado. Soluço não sabia por quanto tempo tinha ficado ali parado, admirando o lugar ao seu redor.
"Isso aqui... Isso parece um paraíso de dragões!" Ele disse ao encontrar sua voz, embora não soubesse o que falar.
"Se você achou isso aqui legal, você tem que explorar mais...!" Lambe-Olho arrulhou e Banguela se balançou com violência, forçando o pequeno dragão a alçar voo de suas costas antes que fosse jogado no chão.
Soluço riu, mas concordou com o Terror Terrível. Tudo ali era tão vibrante, com as cores da natureza e dos dragões, era totalmente diferente do que Soluço já tinha visto. Boa parte de Berk era verde, mas a vila era tão... Sem cor. Tudo era marrom, cinza, e com tão poucas cores.
Era como se Soluço tivesse chegado a um mundo totalmente diferente.
"Vem!" Lambe-Olho trinou, sua energia vibrando de um modo que Soluço tinha certeza ser especifica dos Terrores Terríveis. "A fonte é por aqui!"
Banguela fez um movimento com a cabeça na direção que o dragão menor havia voado e o garoto os acompanhou.
Soluço notou que o mesmo grupo que tinha os acompanhado para fora da caverna, ainda estavam por perto, observando, seguindo e fazendo comentários entre si.
"Ei, é o humano!" "Coisinha estranha..." "Porque ele está aqui mesmo?" "Não é perigoso ter uma coisa dessas aqui...?"
Soluço tentou ignorar o que conseguia ouvir, mantendo a parede invisível entre ele e os dragões. Enquanto Banguela reagia de modo diferente, mostrando os dentes para aqueles que tinham os comentários mais desfavoráveis sobre o humano. O garoto sorriu, se sentindo um pouco contente em ver o dragão tentando proteger a sua "honra".
Mas fora os comentários e os olhares esquisitos que Soluço ganhava, ele notou que não estava perturbando o dia a dia dos dragões.
Havia algo no modo como eles agiam, como se estivessem vivendo suas rotinas normais, se encontrando com amigos, voando quando queriam e relaxando no sol num certo horário e com um grupo definido.
Um Zipperarrepiante passou correndo por eles, quase os atingindo com as duas caudas, sendo seguido por um Nadder tão rápido quanto ele. Banguela rosnou, como se dissesse para "olhar por onde andavam", mas esses não lhe deram atenção. Soluço riu, recebendo um bufar do Fúria da Noite.
E o garoto conseguia sentir algo entre as presenças e energias draconianas, parecia ser um surpreendentemente forte senso de comunidade, de amizades e famílias.
Fazia-o pensar em Berk novamente.
Eles deram a volta na montanha, deixando as cavernas para trás até chegar à um penhasco. Era alto, dando para o outro lado da ilha que Soluço ainda não tinha visto. Lá de cima ele conseguia ver uma baía quase arredondada que se esticava para longe até o que parecia ser um paredão de pedras. A mata continuava naquela direção, se abrindo para um outro penhasco mais abaixo, coberto de grama rala e verde. Soluço sabia que devia ter mais para além daquele penhasco e sentiu sua pele quase formigar de curiosidade e vontade de explorar.
"Uau..." Foi só o que conseguiu dizer. Sua mão instintivamente se dirigiu para seu cinto, mas seu caderno não estava ali.
Banguela chamou a atenção do garoto mais uma vez, abaixando a cabeça e o encarando com olhos brilhantes.
E Soluço se lembrou de quando o dragão havia o oferecido as costas anteriormente.
"Ah, agora entendi porque você queria que a gente fosse voando..." Ele riu, nervoso, se lembrando do que tinha pensado de volta na caverna. Talvez ele estivesse pensando demais, ele sempre pensava demais.
Banguela arrulhou de modo animado e Soluço sorriu, se lembrando de com o dragão oferecia suas costas para ele quando o garoto não parecia muito contente.
Ignorando as coisas que já tinham se passado por sua cabeça mais cedo, ele pulou nas costas de Banguela, colocou o pé no pedal e em segundos, com Lambe-Olho empoleirado em seus ombros, os dois se lançaram para o alto.
O garoto respirou fundo. Havia só se passado um dia desde que haviam voado, mas Soluço já sentia falta daquilo. Ele não sabia descrever exatamente como se sentia quando estavam no alto, entre as nuvens, mas era um sentimento bom, de felicidade e... Liberdade.
Em pouco tempo, eles voltaram a descer, se dirigindo para a praia logo em baixo do longo penhasco. Ao pé do penhasco e surpreendentemente não muito longe do mar que batia contra as pedras da praia, estava um lago, de aparência grande, que sumia para áreas que Soluço não conseguia ver, para além do penhasco.
Uma cachoeira alta caia do alto, o som se unindo ao das ondas quebrando não muito longe.
"Ah, graças aos deuses..." Soluço suspirou, sentindo como se sua garganta tivesse se apertado mais ainda só de ver a corrente de água pura. Ele tinha até momentaneamente se esquecido da sede, se perdendo na maravilha da ilha.
Vários dragões já ocupavam as margens, tomando água sem nenhuma preocupação no mundo. Pelo menos até o humano chegar.
Soluço tentou ignorar os olhares que recebeu, e quando alguns dos Nadders alçaram voo, guinchando em sua direção, como se não quisesse ficar no mesmo lugar que o garoto. Ele ficou feliz por não ter conseguido ouvir o que eles tinham a dizer.
Quando Banguela tocou o chão, Soluço pulou de suas costas.
"Aqui está! Nossa fonte!" Lambe-Olho guinchou alto, subindo pelas costas de Banguela e parando em sua cabeça, forçando o focinho do dragão para o chão. Banguela respondeu com um rosnado e, com um movimento rápido com a cabeça, jogou o pequeno dragão pra trás.
Soluço se ajoelhou na beirada menos íngreme, juntando as mãos e finalmente aliviando a ardência em sua garganta. Soluço se surpreendeu. Aquela água tinha um gosto diferente da água de Berk, e parecia saciar sua sede muito melhor do que ela. E, embora já não tivesse mais sede, Soluço não conseguiu se impedir de tomar mais alguns goles, desfrutando daquele sabor diferente... Surpreendentemente puro.
"O humano vai sujar nossa água..." Ele foi tirado de seus pensamentos por uma energia pontiaguda, sabendo que ela vinha do Nadder que estava sentado em baixo de uma árvore, não muito longe deles. "Você sente esse cheiro?"
"Imundo!" O outro Nadder retrucou, soltando um bufado forte e balançando a cabeça violentamente para efeito.
E, embora ele soubesse que aqueles eram apenas comentários feitos para mexer com ele, Soluço não conseguiu deixar de se sentir um pouco desconfortável. Será que ele cheirava mesmo...? Bem, fazia alguns dias desde a última vez que ele tinha tomado um banho, ou pelo menos um banho de verdade; ele se lembrava da última vez que tinha entrado na lagoa no cânion escondido, logo depois que ele e Banguela haviam voado de verdade pela primeira vez...
O dia em que Banguela o mordeu.
O dia em que tudo mudou.
Um arrulho arrancou o garoto de seus pensamentos e ele se virou, encontrando grandes olhos verde-amarelado o encarando com interesse. Ele nem notou que tinha levado a mão até o ombro coberto, apertando contra seu manto e a túnica verde, como se pudesse sentir as marcas da mordida.
"Eu- Eu estou bem, Banguela." Disse rapidamente e se colocou de pé num movimento brusco, surpreendendo o dragão que soltou um arrulho grave. "E-estou muito melhor! Melhor impossível! Sem sede!"
Banguela não parecia convencido, mas Soluço ignorou aquilo.
"Então... Vamos andando?" Ele disse simplesmente, dando a volta ao redor do dragão, que não desviou os olhos dele, até mesmo quando teve de virar o pescoço para o outro lado. Lambe-Olho trinou e Soluço ouviu suas próprias palavras na energia do dragão, como se esse não passasse de um papagaio imitando sons. "Ah, Banguela... O que foi?"
Banguela rapidamente foi até o garoto antes que esse se afastasse demais e Soluço notou como o dragão quase o envolvia com o corpo inteiro. Banguela soltou um som grave, mantendo a cabeça baixa, mas os olhos focados no pequeno viking, que o olhava com confusão. Ele bufou com força, como se tivesse lembrado que Soluço não podia ouvi-lo e simplesmente moveu a cabeça em direção da montanha que se erguia acima deles. No alto do penhasco, um grupo de dragões ainda estava parado, observando com interesse.
Soluço não precisou processar o que Banguela queria dizer com sua linguagem corporal quando Lambe-Olho soltou um guincho indignado.
"Voltar?" Ele repetiu a palavra que ouviu vindo do dragão menor e Banguela bufou. "Ah, Banguela, não, eu quero conhecer esse lugar!"
E era verdade, ele queria caminhar por entre aquelas árvores, subir os montes e descer até as praias, ele queria conhecer tudo! E todos! Mesmo que esses não quisessem conhecê-lo. Em que outro momento ele teria uma chance como aquela em sua vida?
Bem, talvez ele tivesse um bom tempo para fazer isso, considerando a sua situação e a de Banguela.
Tal dragão não pareceu nada animado, balançando o corpo mais uma vez e soltando um guincho quase tão agudo quanto o do Terror Terrível. Banguela desviou os olhos de Soluço e mostrou os dentes para os demais dragões que ainda estavam por perto; alguns se afastaram e outros alçaram voo, mostrando que não queriam antagonizar o Fúria da Noite.
Mais uma vez, Soluço entendeu, mesmo sem a ajuda de Lambe-Olho.
"Tá, tá, eu sei, é perigoso, mas o que você espera que eu faça pelo resto da..." Ele ergueu os olhos para o céu, vendo como o sol já tinha descido de seu pico há um bom tempo. Uau, ele nem tinha notado quanto tempo tinha passado. "Da tarde...?"
"É! Vamos explorar!"
"É, isso aí! Você o ouviu, Banguela!" Soluço sorriu. "Vamos explorar!" Banguela revirou os olhos, soltando um som grave e incomodado. Soluço segurou uma risada com aquela reação, embora soubesse que o dragão tinha razão. "Tá legal... Pensa assim, Banguela..." O dragão virou a cabeça levemente para o lado, encarando o garoto com aqueles grandes olhos verdes. "É melhor eu explorar a ilha – essa ilha cheia de dragões – com apenas Lambe-Olho do meu lado... Ou- Ou com você?"
Houve uma pausa e Lambe-Olho guinchou. Banguela encarou o garoto de um modo estranho, as pupilas negras afinadas, e respirando em lufadas. Soluço simplesmente encarou de volta, conseguindo ver seu reflexo naqueles grandes orbes reptilianos. E, embora ele não conseguisse entender o que aquela expressão queria dizer, o pequeno viking sabia muito bem o que estava se passando pela cabeça do Fúria da Noite.
Até que a resolução do dragão pareceu cair. Banguela revirou os olhos de um modo draconiano e balançou a cabeça grande com um bufado alto; as pupilas dilataram consideravelmente e ele lançou para o garoto um olhar cansado. Soluço sorriu quando Banguela se colocou ao seu lado, abaixando o corpo levemente e olhando o garoto com expectativa, soltando mais um som grave do fundo da garganta.
"Ora, eu posso cuidar dele também!" Lambe-Olho guinchou indignado, sem traduzir o comentário que tinha ouvido, e tudo o que Banguela fez foi bufar, lançando o que parecia ser um sorriso torto para Soluço.
"Claro que pode..." O garoto murmurou mais para si mesmo do que para os dragões.
Soluço voltou para as costas de Banguela, notando que estava sem os elásticos de proteção. Ele tinha esquecido que tinham fugido de Berk em uma correria tão assustadora, que nem notou que não estava usando seu colete de voo.
Pelo jeito Berk não saia de sua cabeça. Mas o que tinha acontecido por lá, o que o levou a fugir e encontrar aquela nova ilha, tinha sido deixado para trás. Soluço não queria se lembrar daquilo.
Banguela trinou em baixo do garoto, o tirando de seus pensamentos. Ele moveu a barbatana.
Os três voaram acima do lago de água pura, passando pelas praias de pedra que pareciam não ter areia alguma. Eles sobrevoaram uma floresta menor que começava ao pé da lagoa, com árvores de porte pequeno e troncos menores.
"Aqui é a área os Sumidores!" Lambe-Olho trinou no ouvido de Soluço. "Eles são bem chatos, mas pelo menos só ficam por aqui..."
"Sumidores...?" Soluço nem teve que pensar muito para saber de que tipo de dragão Lambe-Olho falava.
Junto com as "palavras" que ele conseguia ouvir na energia do Terror Terrível, Soluço conseguiu ver imagens em sua mente, imagens de dragões grandes que mudavam de cor e sumiam de repente.
"Ah, Transformasas!" Soluço olhou para baixo, interessado. Nunca tinha visto um Transformasa de perto... "Lá tem um!"
Havia um Transformava empoleirado em uma das pedras maiores da praia, não muito longe de onde terminava a floresta. Parecia estar dormindo, aproveitando a luz do sol da tarde, que logo iria acabar.
Banguela se moveu levemente e rugiu alto, surpreendendo tanto Soluço e Lambe-Olho quanto o Transformasa.
O dragão avermelhado olhou em volta, assustado, antes de erguer olhos incomodados para o alto.
"Ah! Foi mal! A gente não queria perturbar...!" Soluço retrucou e no mesmo instante o Transformasa desapareceu diante de seus olhos. "Uau... Camuflagem perfeita..."
Banguela bufou, balançando a cabeça com um ar de travessura e um sorriso de dragão.
"Banguela, seu dragão mal, ele só estava relaxando no sol!" Soluço repreendeu, mas não conseguiu deixar de sorrir com o jeito de seu dragão.
O Fúria da Noite bufou, dando a volta. Soluço mudou a barbatana sem pensar duas vezes, queria ver mais, muito mais.
Eles voaram além do penhasco, além dos campos verdes, pontilhados de dragões de todas as cores. Soluço tinha quase certeza de que devia ter Erva de Dragão entre as plantas daquele lugar.
Além do campo, subindo o morro, começava uma nova floresta com árvore de troncos grossos e copas cobertas de folhas escuras, que se aprofundava mais e mais ao descer o declive que levava para a montanha. Soluço se lembrou das florestas de Berk, sendo que aquelas eram as únicas que ele já tinha conhecido, pelo menos até ali. Ele se lembrou de voar com Banguela sobre sua ilha natal, sentindo vontade de fazer o mesmo ali e explorar o lugar como um dragão faria.
Voando ao lado de Banguela e Soluço, Lambe-Olho contou que ali viviam os "Corta Madeira", e em pouco tempo Soluço se encontrou com tais dragões. Ele se lembrava de ter visto aquela espécie no Livro dos Dragões, e tinha quase certeza de que se chamava Machadão – principalmente por causa do focinho que lembrava a lâmina afiada de um machado.
Os dragões reagiram como Soluço esperava, com surpresa e choque ao ver um humano entre eles, e ainda por cima, montado em um Fúria da Noite.
"Esse é o humano que o Sombra da Noite trouxe!" Ele sentiu a energia de um deles tocar a sua mente. A presença dos Machadões era um pouco parecida com as dos Machadragos, mas parecia mais terrena, mais áspera.
"Mas é tão pequeno!" Um dos dragões soltou um arrulho confuso, virando a cabeça para o lado com curiosidade. "Tem certeza que é um humano?"
Soluço revirou os olhos levemente com aqueles comentários, já estava esperando por algo do tipo. Banguela soltou um rosnado baixo logo em baixo. Ele sorriu para os dragões assim como teria sorrido para qualquer pessoa em Berk.
"Olá." Disse simplesmente e os dragões se calaram, tanto fora quanto dentro de suas mentes. Os olhos draconianos o examinaram com curiosidade, as pupilas apertadas em linhas finas e o garoto tentou passar uma presença amigável. "Hum... Bela floresta a de vocês..."
Soluço podia praticamente sentir Banguela revirando os olhos em baixo dele, mas não se importou.
Dois dos Machadões inclinaram a cabeça para o lado, curiosos, como se não soubessem no que pensar, enquanto o outro rosnou alto, movendo a cabeça como um viking balançaria um machado para intimidar um inimigo.
Banguela respondeu com outro rosnado e moveu o corpo, o que fez com que Soluço instintivamente movesse a cauda. Os dois voaram para longe dos Machadões, planando acima das árvores altas e subindo a inclinação do monte.
"Aqui tem uma montanha de fogo!" Lambe-Olho trinou. "Só que ela não tem mais fogo..."
"Um vulcão adormecido?" Soluço adivinhou, lembrando de ter lido coisas sobre isso com Perna-de-Peixe. "Incrível..."
As árvores diminuíam ao subir em direção do monte, e o garoto viu como esse parecia ter o topo um pouco mais achatado que o normal. Para além do monte havia uma lagoa, que caia pelo lado de um penhasco íngreme em uma cachoeira grande, atingindo o mar. A essa hora eles tinham dado a volta na ilha, mas ainda tinha tanto para ver...
Mas antes que Banguela pudesse descer para as praias de areia branca, um som chamou a atenção deles.
Um Pesadelo Monstruoso estava voando não muito longe deles; era pequeno, o que talvez mostrasse que era ainda jovem, com uma vibrante coloração arroxeada.
"Ei! Sombra da Noite! O que é isso em suas costas?" As palavras vibraram de um modo estranho, diferente, mas que Soluço sentia ser familiar.
Era quase o mesmo tom que Melequento usava, ou melhor, que a maior parte dos jovens de Berk – e alguns adultos – usavam quando falavam com ele, pelo menos até ele se tornar "famoso".
Banguela rosnou na direção dos Pesadelo Monstruoso, balançando a cabeça com violência e, embora Soluço não pudesse ouvir, ele podia jurar que Banguela estava mandando o outro dragão "calar a boca".
Soluço tentou formar uma barreira entre si mesmo e o Pesadelo Monstruoso, tentando ignorá-lo como o Fúria da Noite fazia. Mas logo outra energia se juntou à do dragão maior, e era praticamente idêntica, até vibrava do mesmo modo.
"Belo brinquedinho!" Outro Pesadelo Monstruoso se aproximou, encarando o garoto com aqueles olhos reptilianos e mostrando os dentes como se sorrisse. "Você se importaria em dividir um pouco?"
Banguela rosnou, movendo a cabeça na direção do dragão e mordendo o ar com violência. As energias dos Pesadelos vibraram no que parecia ser uma risada de dragão.
"Cala a boca, Fogo do Céu!" Lambe-Olho também se pronunciou, guinchando de modo desgostoso.
"Não se meta na conversa de dragões crescidos, minhoca." O Pesadelo Monstruoso roxo rosnou.
"Não seja assim, Sombra da Noite!" O dragão mais avermelhado soltou um arrulho baixo, se aproximando de Banguela. O Fúria da Noite mostrou os dentes e se afastou com a ajuda do garoto. "Não podemos dar boas-vindas ao pequeno humano?"
Os olhos amarelos e reptilianos do Pesadelo Monstruoso se focaram no garoto e Soluço sabia que tais "boas-vindas" não seriam nada agradáveis. Ele forçou a barreira entre sua mente e a dos dragões para sua proteção. Banguela simplesmente mostrou os dentes mais uma vez mais uma vez e bateu as asas com força, se afastando dos Pesadelos. Lambe-Olho soltou um último guincho antes de seguir atrás deles.
"Tá tudo bem..." Soluço disse, sentindo a necessidade de falar alguma coisa. Ele afagou a cabeça do dragão, que bufou, alto e desgostoso. Lambe-Olho trinou baixo e Soluço sorriu para ele, tentando fazer com que ambos se sentissem melhor.
E, de repente, a forma grande e quente de Banguela sumiu de baixo de Soluço, enquanto algo agarrava seus braços com força o puxando para o céu. Banguela guinchou alto, erguendo olhos surpresos para o garoto ao vê-lo sendo levado para longe.
"Ah! Não! Banguela!" Soluço gritou, vendo Banguela cair, sem ter ninguém para ajudá-lo a voar.
"Vamos brincar, humano!" O Pesadelo Monstruoso trinou acima do garoto como se não tivesse visto aquilo, levando-o para longe do dragão negro.
"Não! Não! Não! O Banguela precisa de mim! Ele não pode voar sem a minha ajuda!" O garoto exclamou, ainda que se agarrasse mais às pernas do dragão, com medo de cair. Ele observou enquanto Banguela continuava caindo. "Banguela!"
Mas o dragão negro foi rápido, ele abriu as asas, planando até chegar ao topo de uma árvore, que curvou levemente em baixo de seu peso. Soluço suspirou, aliviado. Banguela ergueu os olhos que pareciam mostrar ao mesmo tempo raiva e medo, e rugiu alto para o ar, mostrando os dentes afiados, e pulou da árvore, seguindo atrás dos Pesadelos Monstruosos por terra.
O Pesadelo Monstruoso que carregava Soluço fez um som de surpresa e o garoto viu quando Lambe-Olho se lançou contra o rosto do dragão maior, mordendo seus chifres enquanto vibrava um continuo "solta ele!" por sua energia.
Soluço teria ficado surpreso com a bravura do pequeno dragão, isso se seu ataque não tivesse distraído aquele que ainda o segurava pelos braços.
As garras ao redor de seus ombros afrouxaram o aperto e Soluço se sentiu deslizando.
"A-ah! Não! Não! AH!" Ele não ousou ver o quão alto estava acima do chão, mas ainda assim tentou se agarrar às pernas fortes do Pesadelo Monstruoso, em vão. Em segundos, ele estava caindo, assim como Banguela.
Ele quase nem registrou quanto tempo ficou no ar...
Soluço ouviu um rugido alto e conhecido e de repente sua queda foi interrompida pela forma grande e negra de Banguela. Ele caiu sobre as costas do Fúria da Noite, quase como se não tivesse sido tirado de lá.
Banguela atingiu o chão e o garoto sentiu seu corpo ser jogado para a frente, mas ele se segurou – desajeitadamente – à sela e se manteve no lugar.
Soluço se apertou contra as costas do dragão, tentando recuperar seu fôlego e acalmar seu coração assustado. Ele momentaneamente se sentiu bobo, se lembrando que já tinha passado por momentos similares antes, enquanto aprendia a voar com Banguela – mas de qualquer modo, a ideia de cair para sua morte não era nada agradável.
Ele não esperava que sua calma exploração pela ilha acabasse... Daquele jeito...
Demorou um tempo para Soluço notar que Banguela estava tentando chamar sua atenção, guinchando e arrulhando alto, tentando conseguir alguma resposta do pequeno viking. E Soluço sentiu seu coração apertar levemente enquanto diminuía as batidas. Banguela soava honestamente preocupado com ele, mas o que esperar de seu melhor amigo?
"Eu... Eu tô bem, amigão..." Ele finalmente falou, ainda se sentindo sem ar. Seus ombros doíam levemente por causa do Pesadelo Monstruoso, mas fora isso, ele estava bem.
Banguela soltou um trinar suave que soou como um suspiro aliviado.
"Soluço!" A forma pequena e leve de Lambe-Olho pousou sobre as costas de Soluço, e sua energia vibrou com o mesmo tom de preocupação que Soluço conseguia ouvir vindo do Fúria da Noite.
"Uau, tudo isso por um humano!" Fogo do Céu rosnou, pousando não muito longe deles. Ele mostrou os dentes enquanto o outro dragão se colocava ao seu lado, balançando a cabeça possivelmente dolorida graças ao ataque do Terror Terrível. "Vocês são ridículos!"
Banguela se virou para os dragões, suas pupilas tão fechadas que era quase impossível ver. Ele rugiu, usando seu corpo como um escudo protetor entre ele e os outros. Soluço levou a mão até a cabeça de Banguela, sentindo como se uma briga estivesse prestes a começar. Com quantos Pesadelos Monstruosos o Fúria da Noite já tinha lutado... Por ele...?
Ele valia tanto assim...?
Um som estranho vindo dos dragões maiores o tirou de seus pensamentos.
"Ah, esse humano é seu, não é?" Um deles bufou alto, batendo as asas. "Seu o que? Seu lanchinho? Por isso você queria proteger ele da gente?"
Banguela balançou o corpo com força, surpreendendo o garoto em suas costas, e ergueu a cabeça como se tivesse orgulho de si mesmo. E então rugiu mais uma vez, dessa vez ainda mais alto. Sua cauda balançou violentamente para os lados.
Energias variadas explodiram ao redor de Soluço e, pela primeira vez, ele notou que eles haviam atraído uma multidão de curiosos.
Dragões os rodeavam, soltando sons curiosos e surpresos, mas ainda mantendo uma certa distância. Suas energias vibravam com o mesmo tom, cutucando uma à outra como que procurando mais informações sobre o que tinha acontecido.
E aqueles que tinham ouvido o Fúria da Noite, reagiam com mais força do que os demais.
Não foi preciso para Soluço explorar muito fundo para saber o que Banguela tinha "dito"...
"O que está acontecendo aqui?" A energia de Defensor vibrou junto com seu rosnado de Gronckle. Ele se aproximou lentamente, mancando, com Fogaréu logo ao seu lado – que examinava a cena com olhos sérios.
"Ah, nós só queríamos brincar um pouco..." Fogo do Céu bufou, balançando a cabeça como se tivesse sentido um cheiro ruim. E Soluço sentiu o sentimento que vinha do Pesadelo Monstruoso – e de vários outros dragões –, um sentimento de nojo. "Mas agora é melhor a gente não se misturar com uma coisa... Dessas..."
Banguela simplesmente rosnou, mostrando os dentes, e Soluço sentiu sua barriga dar uma cambalhota, o deixando um pouco enjoado.
Fogaréu bufou, balançando a cauda com violência e erguendo o pescoço, ficando mais alto que os demais dragões.
"Eu não disse?" Sua energia vibrou, quente e forte. Soluço podia jurar que Fogaréu estava tentando o queimar com ela. "Esse humano que você trouxe só vai causar problemas nessa ilha." E se voltou para Banguela, o encarando com um ar de estranha superioridade. O Fúria da Noite não estava intimidado. "Se queria que ficasse em segurança, devia ter pensado em levar ele para qualquer outro lugar!"
Banguela não dignou o Pesadelo Monstruoso a uma resposta, pelo menos não física. Ele só ergueu a cabeça, sustentando o olhar pesado do dragão maior, como se mostrasse que sua posição não iria mudar em relação a tudo aquilo.
Soluço quase se sentiu lisonjeado...
"Ele não fez nada!" Lambe-Olho guinchou em sua defesa também. "Foi o Fogo do Céu e o Flama!"
Fogaréu rosnou para o dragão menor, que abaixou a cauda e a cabeça levemente.
Para Soluço era como se estivesse volta em Berk, com sua irmã o protegendo dos comentários dos outros vikings, quando eram mais novos. Ele não sabia como se sentir quanto aquilo, mas quase riu na ironia do destino. Será que em algum dia ele poderia se proteger sozinho, sem a ajuda de alguém...?
"Eu disse para cuidar bem de seu humano." O Gronckle mais velho bufou, para o dragão negro, tirando o garoto de seus pensamentos. "Se algo acontecer com ele, não há nada que eu possa fazer."
Ele rugiu, se voltando para os Pesadelos Monstruosos e os demais dragões, possivelmente dispersando a multidão, mas Soluço já não se importava mais com isso.
Ele suspirou, deslizando das costas do dragão.
Banguela soltou um arrulho baixo, se voltando para o garoto e o examinando com os olhos.
"Eu... Estou bem, Banguela..." Soluço disse simplesmente, sem conseguir encarar o dragão.
O Fúria da Noite devia não estar convencido, pelo modo como ganiu baixo, apertando a cabeça contra o lado do humano.
"Olha, eu- eu agradeço tudo o que você fez pra me proteger, mas..." Soluço disse, calmamente, como se não soubesse o que falar. Ele forçou a parede entre sua mente e os demais dragões, cansado daquelas energias.
Banguela arrulhou baixo, seus olhos ficando sérios e as pupilas mais apertadas. Ele se aproximou novamente, trazendo o focinho até o humano e o cheirando.
"Banguela- Banguela, não, eu já disse que estou bem!" Soluço disse rapidamente, colocando as mãos sobre o focinho do dragão e o empurrando para longe.
O réptil voador não parecia convencido, como se tivesse notado que algo estava incomodando o garoto.
Soluço suspirou.
"Banguela, olha, nós somos amigos. Só Amigos." Ele passou a mão pelo cabelo desarrumado. "Ai, a gente já teve essa conversa antes..." E respirou fundo, tentando soar mais sério. "Eu não sou 'seu', Banguela! Eu não pertenço a ninguém!"
Banguela pareceu retrucar, soltando um arrulho, seguido por um bufar alto. E mesmo sem saber o que ele tinha para falar, Soluço se sentiu um pouco irritado com aquele tom.
"Escama da Noite disse que ele falou no sentido de 'amigo'..." Lambe-Olho traduziu mesmo assim.
"Sentido de 'amigo'...?" Soluço perguntou, um pouco confuso com a afirmação. Banguela arrulhou, movendo a cabeça levemente, assentindo como um humano.
O garoto não podia acreditar, mas... O dragão estava mentindo para ele.
"Banguela, eu vi o jeito que os outros dragões reagiram..." Ele disse simplesmente. "Você não disse que eu sou só seu amigo..."
Banguela encarou o garoto por um momento, respirando em lufadas pesadas, e era como se estivesse pensando no que dizer. Soluço sabia que aquilo simplesmente confirmava o que ele tinha deduzido. O dragão choramingou, abaixando a cabeça e encarando o garoto com aqueles grandes olhos brilhantes. Ele soava triste, talvez arrependido e apologético.
Soluço sentiu a necessidade de desviar os olhos mais uma vez, se sentindo fraco e um pouco desconfortável em baixo do olhar do dragão. Ele não sabia se Banguela realmente se sentia assim, ou se só estava tentando acalmá-lo, mas de qualquer jeito, o dragão ainda tinha mencionado aquilo, mesmo depois de concordar com o garoto que deixaria tudo de lado.
Soluço já não estava mais com humor para tudo aquilo. De qualquer modo, o sol já estava prestes a se pôr.
"Eu acho... Eu acho que é melhor a gente voltar para a caverna..." Disse simplesmente, ainda sem se voltar para o dragão.
"Mas tem tanto ainda para ver!" Lambe-Olho trinou alto, voando até ficar no nível do humano. "A noite é bem mais legal que o dia!"
"Não, não, Lambe-Olho. Olha, eu quero conhecer a ilha! Quero mesmo!" Soluço disse rapidamente, forçando um sorriso. Ele notou como o Terror Terrível o encarava com olhos brilhantes, quase do mesmo modo que Banguela tinha feito antes. Devia ser uma coisa de dragão. "Mas... Sabe, eu não vejo bem no escuro, e de noite é quando eu durmo e... Ah, sabe, coisa de... Humano..." Ele disse a palavra com hesitação, não sabia se gostava muito dela ao invés de "viking".
"Sem graça..." Lambe-Olho ganiu, balançando a cauda com desgosto.
Soluço quase riu com o tom infantil do dragão e se dirigiu para a montanha. Eles haviam descido à uma pequena distância das cavernas, mas que ainda era um bom caminho a pé. O garoto sabia que o dragão iria oferecer suas costas mais uma vez, mas ele o ignorou e os dois caminharam lado a lado.
A multidão havia sido dispersada por Defensor e Fogaréu, mas muitos dragões ainda os cercavam como se eles fossem um tipo de atração, os observando com interesse e curiosidade.
E, mais uma vez, Soluço se lembrou de Berk e do modo como os vikings o olhavam e o rodeavam; primeiro para ter certeza de que ele não ia fazer nada idiota, que colocaria toda a vila em perigo; e mais tarde só porque eles queriam um pouquinho de tempo com a pequena celebridade.
Se ele tivesse que escolher no momento, ele preferia os vikings.
Quando chegaram à abertura das cavernas, o sol já tocava o horizonte, pintando o céu com cores variadas. Soluço viu alguns dragões alçarem voo, apenas vultos negros contra as nuvens coloridas, e sentiu vontade de fazer o mesmo. Mas ele se sentia exausto, tanto mentalmente quanto fisicamente.
Eles caminharam pelos corredores de pedra, dessa vez mais perto das paredes. Soluço chegou a notar como Banguela se mantinha entre ele e os demais dragões, como uma muralha protetora.
Lambe-Olho continuou arrulhando como um pássaro cantor, como se nada tivesse acontecido antes, falando sobre outros lugares na ilha que ele gostaria de mostrar para o humano um outro dia.
Soluço não estava prestando atenção, perdido em pensamentos enquanto chegavam à caverna dos Fúrias da Noite.
"O que essa coisa está fazendo aqui?"
Banguela respondeu com um rosnado alto, erguendo o pescoço como que para esconder Soluço do campo de visão da outra Fúria da Noite.
Fogo Gelado havia retornado, e estava deitado em um dos cantos da caverna, acima das marcas de rocha queimada que indicavam sua "cama". As pupilas finas de seus olhos mais amarelados do que verdes estavam focados em Soluço, e o garoto quase conseguia sentir como eles o atravessavam até a alma.
A energia do dragão ainda era forte, pesada e obscura como uma sombra, envolvendo o garoto. Soluço apertou a mesma parede que tinha criado até agora contra ela, contente ao notar que conseguia refletir a maior parte da presença poderosa.
As duas barbatanas maiores na cabeça de Fogo Gelado se ergueram, como se surpreso.
Banguela simplesmente sibilou, mostrando os dentes para o irmão, enquanto suavemente movia o corpo, forçando Soluço a acompanha-lo enquanto caminhava até o outro lado da caverna.
Fogo Gelado simplesmente bufou, o que soou mais como um suspiro do que qualquer outra coisa.
Banguela se dirigiu para o canto da caverna, onde marcas na pedra demarcavam sua área de descanso. Ele se deitou, deixando o corpo cair de modo pesado e soltando o que parecia ser um suspiro de dragão.
Soluço hesitou.
Banguela inclinou a cabeça para o lado, encarando o garoto com aqueles olhos brilhantes, como se perguntasse alguma coisa. Ele ergueu uma das asas e esperou.
Soluço tinha finalmente entendido porque não queria continuar tendo contato físico com o dragão. Porque ele sabia que, para Banguela, aquilo tinha um sentido totalmente diferente do que para o garoto. E ele não queria que o dragão tivesse uma má ideia do que aquilo queria dizer.
"Banguela, eu não..." Mas sua resolução se desfez ao sentir seu corpo e mente retrucar, desejando descansar. "Ah, tudo bem..."
Ele se deitou contra o dragão, assim como já tinha feito algumas vezes antes, apertando as costas contra o corpo forte e quente do Fúria da Noite. Um suspiro escapou seus lábios ao se aconchegar.
Nem tinha notado como tinha sentido falta daquilo. Embora ele tivesse medo do contato – e o que ele podia representar – Soluço não podia mentir para si mesmo, ele adorava ficar perto de Banguela, de sentir seu calor como se ele fosse sua fornalha pessoal. Era uma pena que as coisas estavam tão confusas, mas ele podia tentar apreciar aquilo sem pensar muito... Não é?
"Uau, você deixa ele deitar em você como se fosse um de nós..." Fogo Gelado bufou, tirando o garoto de seus pensamentos.
Soluço piscou uma ou duas vezes, sentindo o cansaço tomar conta de sua mente e de seu corpo. Fogo Gelado soava... Confuso. Como se não soubesse como pensar quanto àquilo. Talvez estivesse... Tentando compreender melhor porque Banguela havia escolhido um humano...?
"Ah, Fogo Gelado, você é uma dragoa chata..." Lambe-Olho bufou, se apertando contra as pernas de Soluço e se enrolando em um círculo.
O dragão maior simplesmente rosnou na direção do Terror Terrível.
Ah, ela é uma fêmea..., Soluço pensou em silêncio, surpreso por não notar. Talvez fosse por isso que ela era tão diferente de Banguela.
Soluço entendia porque os dragões não confiavam nele e até entendia porque eles não gostavam de saber que um deles havia escolhido um humano como "companheiro" – com certeza ele e Banguela teriam a mesma reação dos vikings de Berk caso Soluço tivesse revelado ao povo que um dragão era seu namorado.
Namorado...!
Soluço sentiu suas bochechas esquentarem consideravelmente.
Não, não, Soluço! Nada de pensar nessas coisas!, ele retrucou para si mesmo. Banguela é seu amigo, só isso! Pelos deuses, ele é um dragão!
Banguela soltou um arrulho grave, seguido por um suspiro. Soluço se voltou para o dragão, mas esse já tinha os olhos fechados, a cabeça deitada em cima das pernas musculosas.
Soluço observou o Fúria da Noite ao seu lado.
Humanos e dragões, inimigos há tantos anos, mas agora cá estava ele, deitado ao lado de dragões.
Ele gostaria que Fogo Gelado não pensasse mal dele, ele não era como os demais vikings, tinha até dito isso para si mesmo algumas vezes antes.
Talvez um dia ele conseguisse mostrar, conseguisse provar para todos aqueles dragões que ele era... Amigo.
É, assim como tentou fazer com os vikings uma vez...
"Eu não me importo com o que você quer me mostrar, humano." Fogo Gelado rosnou, surpreendendo o garoto. Ela manteve a cabeça abaixada, virada para as pedras e contra os demais na caverna. "Apenas fique no lado da caverna do Escama da Noite."
"Ah, tá... Desculpa, eu só não queria... Te perturbar." Soluço murmurou. "Mesmo assim, ah, obrigado por me deixar ficar aqui..."
Fogo Gelado respondeu com um bufado alto, mas não se virou.
Soluço suspirou e sentiu seu corpo vibrar com um ronronar grave de Banguela. Suas pálpebras estavam ficando cada vez mais pesadas. Ele se ajeitou contra Banguela, assim como já tinha feito antes, sentindo o peso da asa grande e escura sobre seu corpo, e ele dormiu.
