Loving can hurt, loving can hurt sometimes
But it's the only thing that I know
When it gets hard, you know it can get hard sometimes
It is the only thing that makes us feel alive
(Photograph - Ed Sheeran)
.oOo.
Suprimindo um gemido de dor, Harry entrou no elevador junto com uma leva de memorandos voadores, seguido de Derek Stevens e Malcolm Baddock. Limpou o suor do rosto e preparou-se para a longa subida enquanto seus colegas conversavam entre si.
"... que vai sair no Profeta amanhã," dizia Stevens, excitado. "Na verdade, não me admiraria se nós fossemos parar em algum livro de recordes ou algo do tipo. Você acha que a McDonald chegou a ver alguma coisa?"
"O quê? Você quase perder as sobrancelhas?" Baddock perguntou, fazendo com que Stevens protestasse. "Provavelmente não. Ela pareceu estar impressionada, para você? A julgar pela cara que ela fez quando se aproximou, ela com certeza sentiu o cheiro de cabelo chamuscado."
"Só se for o seu!" Stevens rebateu, porém Harry reparou quando ele cheirou a própria roupa disfarçadamente e rolou os olhos. Stevens continuou. "Aliás, esqueça o que eu disse. Você estava ocupado demais tentando se esconder atrás da árvore. O que foi? Não queria estragar as unhas?"
"Olha quem fala! Você estava tão ocupado, gritando feito uma garotinha, que esqueceu como se usa a varinha! Se não fosse o escudo do Harry, você teria queimado muito mais do que as sobrancelhas."
"Pelo menos eu fiz alguma coisa."
"Me desculpe se não tenho nenhum desejo de virar churrasco," Baddock desdenhou. "Aliás, tenho certeza que vai sair no jornal, mas garanto que não vai ser nada bom, se depender daquele idiota do Walker."
Naquele momento, o elevador parou no terceiro nível e Harry imediatamente corrigiu sua postura, escondendo o braço esquerdo da melhor forma que pôde quando uma bruxa atarracada entrou, os olhos brilhando ao reconhecê-lo.
"Sr. Potter, que prazer vê-lo!" A mulher exclamou, ao que Harry sorriu e respondeu com simpatia, apesar de não conseguir se lembrar o nome dela. A bruxa ainda puxou conversa sobre algumas amenidades antes de se despedir no nono nível, e Harry não se surpreendeu ao descobrir que seus dois companheiros ainda falavam sobre Walker acaloradamente quando eles finalmente atingiram o décimo primeiro nível.
"... ele esperava, afinal? Que nós ficássemos de braços cruzados e assistíssemos à carnificina?" dizia Baddock, indignado, conforme eles deixavam o elevador, seguindo pelo corredor até o Quartel General dos Aurores.
"Ele provavelmente só está tentando impressionar alguém," Stevens retorquiu, bufando, e então abaixou o tom de voz. "Ouvi dizer que ele está caidinho pela Webb." Ele limpou a garganta e recomeçou a falar num tom de voz mais alto, como se não soubesse que Harry tinha ouvido cada palavra. "Mas, sinceramente, já estou acostumado com a palhaçada do pessoal do Diggory. Estou é com pena da McDonald por ter que lidar com aquela garota histérica."
"Ei, ela acabou de perder o irmão," Harry falou, incapaz de se impedir. Na verdade, só estava prestando atenção na conversa para tentar se distrair da ardência em seu braço, que parecia latejar com mais força a cada passo.
"Sim, mas precisava gritar daquele jeito por causa de uma simples queimadura?" Stevens perguntou. "Honestamente, minha mãe já teve queimaduras muito piores com um caldeirão e nem por isso..."
"Ah-há! Pode ir pagando, Harry!" Baddock deu dois passos largos e virou-se, bloqueando o caminho de Harry e estendendo a mão.
Harry rolou os olhos e suspirou.
"Eu já devia ter aprendido a não apostar com você."
"O quê?" Stevens encarou-os, confuso. "Como assim? O que vocês apostaram? Por que ninguém me avisou antes?"
"Porque nós apostamos que você não consegue ficar um dia inteiro sem mencionar a sua mãe," Baddock esclareceu, ao que Stevens fechou a cara. "Vamos, Potter! Ande logo!"
"Não é como se eu carregasse minhas moedas enquanto saio para enfrentar bestas gregas, se você ainda não reparou," Harry falou, olhando para as próprias vestes somente para constatar que estavam imundas. Ou o que restara delas. "Vou trocar de roupa e já pago você, está bem?"
"Você devia era ir para o St. Mungos," Stevens falou ao pôr os olhos na ferida em seu braço e franzir o nariz numa careta. "Parece estar ficando pior. Isso deve estar doendo pra caralho."
"Nem tanto," Harry mentiu, tentando disfarçar uma careta de dor quando eles voltaram a andar em direção ao Quartel General.
"Minha mãe costuma passar babosa... Ora, cale a boca, Baddock!" Stevens falou quando o outro começou a rir.
Harry deixou os dois aurores discutindo do lado de fora e entrou na sala dos aurores, quase trombando em Proudfoot.
"Ei, chefe!" o Auror mais velho falou, sem nenhum traço de zombaria. Desde que Robbards tinha tirado uma licença para cuidar da saúde no último mês, Harry fora designado como seu substituto, ao invés de Proudfoot. Porém este não demonstrara ressentimento, ao contrário do que Harry temia. "Ouch, isso deve estar doendo..." ele apontou para o braço, que Harry tratou de esconder atrás do corpo.
"Isso não é nada," Harry menosprezou.
"Não parece exatamente 'nada'." Proudfoot levantou uma sobrancelha. "De qualquer forma, você está sendo aguardado."
Ele apontou para a mesa de Harry. Além dos vários memorandos que flutuavam aguardando sua resposta, como já era de costume, havia ainda um elfo doméstico balançando-se timidamente nas pontas dos pés, com o emblema de Hogwarts nas vestes puídas.
"Está aí já faz quase uma hora," Prodfoot encolheu os ombros. "Tentei arrancar alguma coisa dele, mas ele simplesmente se recusou a dizer qualquer coisa. Mas, ei, não deve ser nada grave ou ele teria falado," o Auror mais velho tentou animá-lo, provavelmente já tendo passado por algumas situações semelhantes, com a filha ainda em Hogwarts.
Harry assentiu e se adiantou até sua mesa, chamando a atenção do elfo, que fixou-o com seus grandes olhos azuis. Harry não pode deixar de se lembrar de Dobby.
"Ah!" Proudfoot exclamou, como quem acaba de se lembrar de algo. "Diggory pediu que você o procurasse assim que chegasse, mas deixa que eu me entenda com ele. Primeiro o mais importante," ele acenou para o elfo, que fez uma mesura.
"Harry Potter, senhor. A senhora Longbottom mandou Fizzy avisar Harry Potter que o menino Lupin se acidentou."
Harry grunhiu. Imaginava que não fosse nada grave, ou Neville teria dado um jeito de avisá-lo antes, mas não conseguia evitar se sentir apreensivo.
"O que foi, dessa vez?"
"Fizzy não sabe os detalhes, senhor. A senhora Longbottom pediu para Harry Potter ir até Hogwarts assim que puder."
Harry olhou ao redor, só então percebendo o silêncio da sala. Imediatamente, os demais aurores desviaram seus olhos e voltaram com seus afazeres, como se não estivessem bisbilhotando. Somente Proudfoot, Stevens e Baddock se adiantaram.
"Não se preocupe conosco," Baddock fez um gesto de desdém. "Podemos nos virar sem você pelo resto do expediente, se você ainda não percebeu."
"Sim, serão longos e tormentosos..." Stevens consultou seu relógio de pulso. "Vinte minutos. Mas a gente sobrevive."
Proudfoot se limitou a sorrir, levantando as sobrancelhas como se o desafiasse a discordar.
"Amanhã é meu dia de folga," Harry lembrou. "E quanto ao relatório?"
"Acho que podemos dar conta disso também," Baddock rolou os olhos.
"Ao contrário do que você imagina, não somos completos inúteis, chefe," Stevens imitou o tom sarcástico do colega.
Harry assentiu e voltou-se para o elfo.
"Obrigado, Fizzy. Diga a Hannah que estou a caminho."
O elfo assentiu e desapareceu com um sonoro 'pop!'.
.oOo.
Harry achou melhor não perder tempo trocando de roupa, limitando-se a jogar uma capa por cima do uniforme, retraindo-se de dor cada vez que o tecido repuxava as feridas em seu braço. Aparatou em Hogsmeade e imediatamente se arrependeu por não ter colocado alguma roupa mais quente, conforme o vento gelado ameaçava penetrar em seus ossos. Percorreu o caminho até o castelo o mais rapidamente possível, aproveitando para mandar uma mensagem para Draco avisando que se atrasaria.
No caminho para a ala hospitalar, o Auror acenou para alguns alunos que o reconheceram, porém se desculpou toda vez que alguém o abordou. Quando chegou à enfermaria, tinha o cenho franzido em apreensão, o rosto corado e a respiração curta.
"Hannah? Teddy?" Harry chamou assim que pôs os pés na enfermaria, ouvindo o que parecia ser alguém fungando.
Um movimento à esquerda chamou sua atenção e Harry deparou-se com o afilhado espiando por detrás das cortinas, o cabelo azul berrante.
"Harry?" O garoto franziu o cenho.
"Teddy!" Harry respirou aliviado, aproximando-se do afilhado. "O que aconteceu?"
"Welter me acertou com um balaço," Teddy rolou os olhos, voltando a se acomodar na maca assim que Harry empurrou as cortinas. "Honestamente, não foi nada. Eu apaguei na hora, mas já estou bem. Por favor, diga a tia Hannah que eu já posso sair..."
"Harry? É você?"
O Auror virou-se para a sala adjacente à enfermaria, de onde Hannah espiava. Ao longe, ele ouviu alguém espirrar.
"Ei, Hannah," ele acenou.
"Espere só um instantinho," a enfermeira pediu, voltando a desaparecer dentro da sala. "Sr. Neumann, aguente mais um pouquinho!" Ela gritou, ao que foi respondida com um gemido vindo de algum ponto à direita.
"Sim, é exatamente quem você está pensando," Teddy respondeu à dúvida do padrinho, soando entediado.
"O que foi dessa vez?" Harry perguntou, preocupado com seu ex-aluno, Amias Neumann, que passara boa parte do ano em que Harry estivera em Hogwarts sob os cuidados de Hannah. Pelo jeito, a situação não mudara muito desde então.
"Eu é que sei?" Teddy encolheu os ombros. "Provavelmente desenvolveu alguma alergia ao ar."
Como que para confirmar aquelas palavras, Amias teve uma crise de espirros.
"Aqui, querido. Já vai, já vai..." Hannah falou, dirigindo-se a uma maca envolta em cortinas com uma poção fumegante.
"O que você está fazendo aqui?" Teddy perguntou, chamando a atenção de Harry para si novamente. O garoto encarou-o de cima abaixo, tomando nota do seu uniforme. Então seus olhos se iluminaram de excitação. "Aconteceu alguma coisa por aqui? Alguém foi sequestrado? A escola foi invadida...?"
"Não, não é nada disso," Harry interrompeu-o. "Só vim ver como você estava."
"Ah..." o garoto exclamou, decepcionado. "Estou bem, já disse. Você não devia ter deixado o serviço só por minha causa." Apesar das palavras desdenhosas, Harry pode notar certa satisfação na voz do afilhado. "Mas, já que está aqui, você poderia aproveitar para falar com o Hagrid sobre colocar a vida dos alunos em risco com seus cruzamentos de espécies perigosas. Pode ter certeza que eu corro mais risco nas aulas dele do que em qualquer partida de quadribol."
Harry não pode deixar de sorrir. Antes que pudesse fazer qualquer comentário, entretanto, os dois foram distraídos pela aproximação de Hannah.
"Ufa, finalmente o pobrezinho conseguiu dormir," ela falou, num meio sussurro, sorrindo para Harry e aceitando seu cumprimento.
"O que houve com Amias?" Harry perguntou.
"Ah, na verdade ele só está gripado," Hannah explicou. "Mas, como ele costuma ter complicações respiratórias, achei melhor ficar de olho nele. Mas e você, Teddy? Como está se sentindo?" Ela apontou a varinha para o garoto e pôs-se a checar o resultado de alguns exames.
"Tirando o tédio, estou ótimo," Teddy desdenhou. "Posso ir agora?"
"Receio que não, querido. Preciso mantê-lo acordado por mais algum tempo para descartar a possibilidade de uma concussão."
"Como se fosse possível dormir com Amias espirrando a cada cinco segundos..."
"Você está se sentindo sonolento?" Hannah perguntou, ignorando o comentário.
"Não?" Teddy continuou com seu tom sarcástico, ao que Harry lhe lançou um olhar reprovador.
"Sente-se, por favor," a enfermeira pediu, virando gentilmente a cabeça do garoto, que protestou mas não fez nada para impedir enquanto ela massageava seu couro cabeludo. Aos poucos, os protestos do garoto foram morrendo conforme ele relaxava.
"Dói aqui?" Ela perguntou, ao que Teddy grunhiu numa negação. "E aqui?"
"Ouch!" Teddy se retraiu, afastando-se como um animal machucado.
"Bem, vamos ter que cuidar melhor disso. Harry, por que você não se senta?" Hannah apontou para um banquinho ao lado da cama enquanto tocava o braço esquerdo de Harry, que não conseguiu suprimir uma exclamação de dor, enquanto se afastava instintivamente do toque. "O que foi?" A enfermeira arregalou os olhos, assustada.
"Não foi nada!" Harry mentiu. Tinha intenção de pedir que a amiga inspecionasse seu machucado, mas preferia que ela o fizesse bem longe de Teddy.
Entretanto, já era tarde para aquilo, a julgar pelo olhar determinado que Hannah lhe lançou. Derrotado, Harry retirou a capa com cuidado, seu rosto se contorcendo de dor conforme o fazia. Quando finalmente descobriu o braço machucado, tanto Hannah quando Teddy exclamaram em espanto. Só então Harry se permitiu analisar o próprio machucado e se arrependeu imediatamente. A pele estava muito avermelhada e desfigurada pelas bolhas que se levantaram da sua carne. Algumas bolhas haviam estourado e uma secreção amarelada era visível em alguns pontos. Harry sentiu o próprio estômago se revirar e a dor triplicar de intensidade, ao que se obrigou a desviar os olhos.
"Argh!" Teddy também se voltara para o outro lado, enojado. "Que horror!"
"Harry! Por que você não me disse antes?" Hannah questionou, assombrada. Ela imediatamente levou uma mão à testa de Harry, que sentiu um arrepio percorrê-lo diante do toque gelado da enfermeira. "Meu Deus, você está queimando de febre! Venha, vamos cuidar disso imediatamente!"
Harry se deixou ser guiado até a maca ao lado e deitou-se obedientemente, sem ter a oportunidade sequer de retirar as botas sujas de lama. Hannah se afastou com a promessa de voltar logo com algo para que ele bebesse e a ameaça de estuporá-lo caso ele se atrevesse a recusar seu tratamento.
"Como você fez isso?" Teddy perguntou, a curiosidade falando mais alto, uma vez que ele voltara a encarar seu braço injuriado com o rosto contorcido em clara aversão.
"Aqui está." Antes que Harry pudesse responder, Hannah já estava de volta com uma poção em cada mão. "Beba tudo de uma vez. E você deveria prender a respiração, acredite."
Harry achou melhor seguir o conselho da amiga, virando os dois copos de poção de uma só vez e respirou fundo algumas vezes para evitar colocar tudo para fora logo em seguida.
"Argh! Isso é horrível!" Harry falou, a boca se enchendo de saliva para compensar o gosto ruim na boca enquanto seu braço formigava intensamente.
"Eu sei, eu sei..." Hannah suspirou, dando alguns tapinhas no braço são de Harry. "A Profª. Chapman é absolutamente contra a utilização de alguns ingredientes simplesmente para amenizar o paladar. Mas, pelo menos as poções funcionam... quando ela se dá ao trabalho de prepará-las, claro. Bem, mas é claro que isso não é problema seu, Harry. Deixe-me ver... ah, ótimo!"
A enfermeira examinou seu braço e Teddy soltou uma exclamação, fazendo com que Harry também baixasse os olhos para seu braço, curioso. A ferida estava se curando rapidamente de dentro para fora, refazendo camada sobre camada de pele.
"Muito bom, muito bom," Hannah exclamou, satisfeita. "Deve ficar um pouco sensível hoje, mas amanhã você não vai nem se lembrar da dor. Já os pelos não vão crescer tão rápido, eu receio..."
Só então Harry percebeu a ausência de pelos sobre a pele rosada recém curada, bem como na maior parte do seu braço.
"O que foi que você andou aprontando, afinal?" Hannah perguntou, arregaçando a manga da sua camisa para examinar melhor o seu braço. "Tem mais alguma coisa que você esteja escondendo de mim?"
"Não, era só isso," Harry garantiu, libertando-se dos cuidados da amiga o mais delicadamente possível e sentando-se na maca ao mesmo tempo em que girava o braço para exercitá-lo. "Obrigada, Hannah."
"Não foi nada, imagina," Hannah sorriu, porém logo tornou a ficar séria. "Mas você ainda não respondeu à minha pergunta. Você sofreu uma queimadura de segundo grau profunda! Devia ter procurado ajuda imediatamente!"
"Não foi nada, eu já disse. E nem estava doendo tanto assim..."
"Talvez porque você tenha queimado a maior parte das terminações nervosas," Hannah rolou os olhos e tornou a colocar a mão em sua testa. "E quem disse que você já pode se levantar? Honestamente, Harry, isso poderia ter progredido muito rapidamente e..."
Hannah foi interrompida pelo barulho da porta se abrindo.
"Harry!" Neville exclamou, porém seu sorriso logo se transformou em apreensão. "O que houve? Teddy não melhorou...?"
"Eu estou ótimo," Teddy falou, cruzando os braços. "Harry é que não está nada bem."
"Ei, eu..."
"Ora, não seja teimoso, Harry," Hannah admoestou, empurrando o Auror até que ele se deitasse novamente. "Que tipo de exemplo você está dando para o seu afilhado? Quero ficar de olho em você por mais algum tempo para ter certeza de que a febre não vai voltar. Ande logo! E tire esses sapatos imundos, por favor..."
Bufando, Harry achou melhor não contrariá-la. Afinal, ela tinha razão sobre servir de exemplo a Teddy. Pelo menos o fato de Harry também estar preso na enfermaria parecia ter feito com que o garoto mudasse de ideia sobre deixar a enfermaria o quanto antes. Harry ficou calado enquanto os dois atualizavam Neville sobre os acontecimentos recentes.
"... e agora ele não quer contar o que foi que aconteceu," Teddy terminou, lançando um olhar magoado ao padrinho.
"Bem, eu não culparia Harry por isso," Neville falou, ao que Harry lhe lançou um olhar agradecido. "Eu também fui Auror e sei que nós não podemos comentar para qualquer pessoa sobre o que acontece em serviço."
"Mas eu não sou 'qualquer pessoa'! Não é como se eu fosse sair espalhando para todo mundo..."
"A questão não é essa, Teddy," Neville continuou, inabalado. "Ninguém está duvidando da sua capacidade de manter segredo. Mas tente compreender o lado do seu padrinho. Ele fez um juramento ao se tornar um Auror."
Aquilo fez com que Teddy se calasse, apesar do bico petulante que insistia em permanecer em seu rosto. Felizmente, a conversa mudou para assuntos mais agradáveis conforme Neville e Harry aproveitavam para colocar o assunto em dia.
"Você poderia ficar para o jantar, o que acha?" Neville convidou.
"Eu não me admiraria se tivesse que ficar até amanhã, se depender da sua mulher," Harry falou, lançando um olhar de esguelha para Hannah, que se afastara para checar Amias.
Neville riu alto, mas logo abafou a risada colocando a mão sobre a boca diante do olhar atravessado que recebeu da esposa, do outro lado da enfermaria.
"Duvido que Hannah vá mantê-lo aqui por muito mais tempo contra sua vontade, mas prometo que vou conversar com ela. De qualquer forma, a notícia sobre você ter vindo já está correndo pelo castelo e eu mesmo só desconfiei que você pudesse estar por aqui quando vi uma porção de alunos rodeando a ala hospitalar, comentando a respeito."
"Mais um motivo para eu ir embora o mais rápido possível," Harry argumentou. "Imagino que Vector não vá ficar nada feliz com esse alvoroço todo."
"Mas hoje é domingo!" Teddy interveio. "Não é como se você estivesse atrapalhando as aulas ou algo do tipo. Por favor, Harry..."
"Na verdade, a Profª. Vector me pediu para avisar que quer dar uma palavrinha com você," Neville comentou. "Aliás, eu deveria avisá-la que você está... bem, incapacitado."
Harry começou a protestar sobre ir até a diretora de uma vez, porém bastou um olhar para a expressão atenta de Teddy para que desistisse. Neville deixou-os com a promessa de voltar rapidamente e Harry suspirou, encarando o teto da enfermaria.
"Está vendo o que eu tenho que aguentar por aqui?" Teddy suspirou, entediado.
"Acredite, Teddy. Eu sei bem como você se sente," Harry admitiu. "Só não imaginava que teria que passar por isso novamente depois de tanto tempo..."
"Aposto que você não saía daqui, quando estava em Hogwarts!" Teddy pareceu subitamente excitado. "Afinal, além de também jogar quabribol, você tinha um bruxo das trevas poderoso atrás de você. Aliás, não sei como não tem uma ala aqui na enfermaria com o seu nome, ou algo do tipo. Aposto que você também contava os segundos pra poder sair daqui o quanto antes..."
"Está bem, já entendi!" Harry interrompeu-o. "Mas, caso você ainda não tenha percebido, não estou numa situação melhor que a sua, no momento."
"Eu sei, mas... Promete que não sai daqui sem me levar junto?" Teddy encarou-o, astuto.
"Prometo que vou tentar..."
"Fechado!" Teddy sorriu, satisfeito.
.oOo.
"... eu disse para Ruschel não mexer, mas quem disse que ele escutou?" Teddy tagarelava, animado. "E então, BAM! Eu juro, ele ficou totalmente amarelo cintilante!"
Harry riu com vontade, achando mais graça na maneira de Teddy contar a história do que na história em si.
"É sério!" Teddy continuou sem se abalar. "Eu não fazia ideia do que aquela bolinha era capaz de fazer até por os olhos nele! Até o branco do olho ficou..."
Teddy se interrompeu ao ouvir a porta da enfermaria se abrir lentamente, interrompendo a conversa entre padrinho e afilhado.
"Harry! Harry..." Teddy sussurrou, com urgência. "Se for a Isolde, diga que estou dormindo profundamente e não devo ser incomodado sob nenhuma hipótese!" Ele falou, cobrindo-se com um lençol e virando-se para o outro lado, fingindo dormir.
"Prof. Potter?" Harry ouviu alguém chamar num quase sussurro.
"Aqui," Harry também manteve a voz mais baixa para não chamar a atenção de Hannah, que sumira em direção ao quartinho anexo à enfermaria.
No momento seguinte, um garoto de pele morena espiou pela fresta da porta.
"Ele está aí?" Perguntou outra voz e logo outra cabeça apareceu acima da primeira.
"Ei!" Harry sorriu e fez um gesto com a mão, convidando-os a entrarem. "Podem vir!"
Calloway Devens entrou primeiro, seguido de perto por Brick Gibbon. Os dois garotos, agora setimanistas, haviam mudado muito desde que Harry os vira pela última vez, um ano e meio atrás. Calloway crescera alguns centímetros, porém Brick estava tão alto que não parecia fazer muita diferença. Os dois não pareciam mais tão desengonçados como antes, tendo ganhado alguma massa muscular com a ajuda da puberdade e o sonserino não parecia mais tão dentuço quanto antes, o rosto mais comprido e anguloso. Harry estava genuinamente feliz ao vê-los, principalmente porque os dois pareciam ter se tornado ainda mais próximos depois de todos aqueles acontecimentos.
"E aí?" Calloway cumprimentou despojadamente enquanto se aproximavam, colocando as mãos no bolso da calça. "Ei, Lupin. Ótimo jogo."
Teddy ergueu uma sobrancelha, desconfiado. O garoto tinha abandonado a encenação assim que descobrira que não se tratava da sua colega, Isolde Lerner. Harry arquivou aquela informação para questionar o afilhado mais tarde.
"Er... sinto muito pelo balaço," Calloway acrescentou, percebendo sua gafe. Afinal, fora um batedor grifinório quem mandara Teddy para a enfermaria. "Espero que você esteja... bem?"
"Estou ótimo. Obrigado." Teddy acrescentou a última parte depois de um olhar de esguelha para o padrinho.
"Que bom vê-los!" Harry se sentou na maca para encarar os visitantes. "Como vão as coisas?"
"Bem," Calloway falou depois de trocar um olhar com Brick, balançando-se sobre os pés. "Ficamos sabendo que você estava aqui e resolvemos dar uma passada para dar um alô."
Harry agradeceu e puxou conversa com os garotos sobre os exames e sobre os planos para suas carreiras. Calloway respondeu a maioria das perguntas enquanto Brick permanecia ao seu lado, apenas concordando com o que ele dizia, sem oferecer muita contribuição para a conversa. Harry teria estranhado o comportamento do garoto se não o conhecesse.
"E como vai a Franny?" Harry perguntou e observou enquanto os dois garotos trocavam um olhar carregado de significado.
Naturalmente, foi Calloway quem respondeu.
"Ela está bem, eu acho. Não temos nos falado muito, ultimamente. Ela conseguiu um estágio no Ministério da Magia da Holanda."
"Em Amsterdã?" Harry se admirou. "Uau!" Ele olhou de Calloway para Brick. "Hmm... você disse que não têm se falado muito?"
Calloway abriu a boca para falar, mas Brick foi mais rápido, daquela vez.
"Nós terminamos no final do ano passado," o sonserino deu de ombros. "Achamos que seria melhor assim."
"Entendo..." Harry concordou, ainda mais admirado pelo fato da amizade dos dois garotos ter sobrevivido ao término do namoro de Franny e Brick. "E quanto a Sarah?"
"É..." Calloway coçou a cabeça, desviando os olhos. "Isso também não... funcionou muito bem," ele admitiu, sem jeito.
"Ela trocou ele pelo goleiro reserva dos Cannons," Brick ofereceu com um sorriso enviesado, ganhando uma cotovelada do grifinório.
"Oi! Quer parar de falar isso para todo mundo?" Calloway repreendeu, irritado. "Eu não saio falando para todo mundo sobre todos os caras que a Franny já saiu depois que vocês terminaram?"
"Todos os caras? Você disse que era só um!"
"Bem, eu menti, obviamente. Me desculpe se eu fiquei preocupado em magoar você."
"Me magoar? E quem disse que eu me importo, cabeçudo?"
"Idiota."
Terminada a troca de insultos, eles encararam Harry como se nada tivesse acontecido. De alguma maneira, aquilo fez com que um sorriso tomasse conta do seu rosto enquanto ele meneava a cabeça.
"É bom saber que vocês estão se entendendo."
Eles trocaram um olhar e encolheram os ombros, fingindo indiferença.
"Teddy?" eles ouviram uma voz tímida e viraram-se para ver uma garota, que se aproximara sem que percebessem.
Não fosse pelo gemido que Teddy soltou, Harry não teria reconhecido sua ex-aluna.
"Srta. Lerner?" Harry chamou a atenção da garota, que corou, envergonhada. "Eu não reconheci você sem os óculos!"
"Ah, bem... Já não preciso mais deles," Isolde Lerner respondeu. "Desculpe interromper, professor. Eu só queria saber se Teddy está bem, mas ninguém atendeu quando bati à porta..."
"Está tudo bem." Harry olhou para o afilhado, que tinha fechado a cara. "Fique à vontade."
A garota imediatamente correu para o lado de Teddy, disparando perguntas sem se abalar com as respostas secas que o garoto oferecia, de má vontade. Logo em seguida, quem apareceu foi Leonie Proudfoot, acompanhada por mais duas lufa-lufas. Harry deu-lhes as boas vindas depois de lançar um olhar preocupado em direção aos aposentos da enfermeira-chefe.
A partir de então, Harry perdeu completamente o controle da situação, conforme os alunos começaram a entrar aos bandos, o som de conversas animadas enchendo o local rapidamente. Logo Harry ouviu os espirros de Amias Neumann, indicando que o garoto acordara e não demorou para Hannah aparecer, assustada.
"Mas o que está acontecendo aqui?" A enfermeira-chefe perguntou, a surpresa logo dando lugar à irritação. "Fora! Todos vocês! Agora mesmo! Ora, só me faltava essa...! Aonde já se viu...?" Ela virou-se para a direção dos seus pacientes quando os alunos já se retiravam em meio a fracos protestos. "E você, Srta. Lerner? O que está esperando?"
"E-eu..." Isolde gaguejou, lançando um olhar implorador para Teddy.
Porém, o garoto não pareceu comovido.
"Você devia ir, Isolde," Teddy falou, um tanto secamente.
"Tudo bem." A garota deixou os ombros caírem, derrotada. Porém, quando já estava no meio caminho, voltou-se com o olhar brilhando novamente. "Vou guardar alguma coisa do jantar para você, está bem? Até daqui a pouco!"
Isolde saiu correndo, a animação aparentemente revigorada, antes que Teddy ou Hannah pudessem frustrar seus planos novamente. Ela quase trombou com a Profª. Vector na saída, desculpando-se profusamente.
"Hunf..." Teddy grunhiu, envergonhado pela atitude da colega, porém Harry não teve oportunidade de comentar sobre o comportamento do afilhado antes que a diretora se aproximasse.
Hannah abriu a boca para dizer algo, entretanto foi interrompida por outra crise de espirros de Amias e correu para acudi-lo novamente.
"Olá, Harry," Vector cumprimentou ao se aproximar e Harry fez menção se se levantar para cumprimenta-la, porém ela o impediu com um gesto delicado. "Não se incomode. Neville me contou sobre seu ferimento, você deveria descansar."
"Estou bem. Não precisa..."
"De qualquer forma, é melhor não contrariar Hannah," Vector comentou, sabiamente, sentando-se num banquinho entre sua maca e a de Teddy e puxando conversa como garoto sobre o jogo, por um momento, antes de voltar-se para Harry novamente.
Depois de uma troca de perguntas educadas sobre amenidades, a diretora finalmente chegou ao ponto de sua visita um tanto objetivamente.
"Eu estava mesmo pensando em chamá-lo qualquer dia desses, Harry. Já faz algum tempo que o Prof. Marchbanks tem insistido em fazermos algo no sentido de melhorar o aconselhamento profissional dos quintanistas, por isso eu e os demais professores chegamos a um consenso sobre fazermos uma Semana das Profissões, convidando alguns palestrantes de diversas carreiras para um bate papo com os alunos. Já obtive o comprometimento de vários profissionais do Ministério, mas ainda não tive chance de conversar com ninguém do Quartel General. Ouvi dizer que você está no comando dos Aurores agora, é verdade?"
"Temporariamente, sim," Harry concordou.
"Sei que o tempo de vocês é precioso," Vector continuou. "Mas gostaria muito que os alunos tivessem a oportunidade de conhecer mais sobre o trabalho de vocês para poderem fazer suas escolhas com mais consciência..."
"Sim, eu entendo," Harry interrompeu-a. "É uma ótima ideia, aliás. Não posso garantir nada sobre a minha presença, em particular, mas terei prazer em disponibilizar um representante do QG para o evento. Só me deixe saber quando será e farei o possível."
Vector ofereceu-lhe um pequeno sorriso, suavizando sua expressão normalmente circunspecta.
"Eu não esperava menos de você, é claro. Assim que tivermos fechado a data, eu o avisarei." Ela se levantou e fez menção de se afastar, mas pareceu pensar melhor. "Por acaso você tem mantido contato com Draco?"
"Ahm. Sim." Pelo canto do olho, Harry percebeu o olhar que Teddy lhe lançou e procurou manter a expressão neutra. O garoto se mantivera quieto, a atenção dispersa até aquele momento e Harry se perguntou o que aquilo possivelmente significaria. "Nós nos encontramos recentemente."
"E como ele está?" A diretora voltou a se sentar, a expressão mais suave que nunca. "Temos trocado algumas correspondências, mas ele é sempre muito evasivo quando se trata da sua..." ela lançou um olhar de esguelha para Teddy, "vida particular. Ele tem cuidado da própria saúde?"
Harry respirou aliviado à menção daquela última pergunta. Por um momento, tinha imaginado que Vector estivesse se referindo a algo muito mais particular do que aquilo.
"Acredito que sim," Harry falou, encolhendo os ombros. "Ele parece saudável, pelo menos. Mas não é como se ele se abrisse comigo, tampouco."
"Entendo..." Ela suspirou. "Temos tido alguma dificuldade com o abastecimento do estoque de poções da enfermaria. A nova professora de Poções é muito competente, mas receio que ela e Hannah não têm se dado muito bem. Estive pensando em pedir um auxílio a Draco, mas tive receio de incomodá-lo."
"Não há nada de mal em fazer uma proposta," Harry ponderou. "O máximo que pode acontecer é ele recusar. Mas acho que vale a pena tentar. Ele tem muita consideração por você."
"E eu por ele," ela sorriu um tanto carinhosamente. "Bem, acredito que você tenha razão. Vou mandar uma coruja para ele assim que possível."
A diretora convidou o Auror a ficar para o jantar e se afastou depois de um breve, porém sincero, agradecimento.
"Que foi?" Harry perguntou diante do olhar perscrutador de Teddy.
"Ah, sei lá..." o garoto encolheu os ombros, examinando as próprias unhas. "Tem alguma coisa que você queira me dizer a respeito do seu amigo Draco?"
Harry encarou o afilhado por alguns segundos antes de dar de ombros.
"Não sei," Harry imitou o tom desinteressado do afilhado. "Tem alguma coisa que você queira me dizer a respeito da sua amiga Isolde?"
Aquilo fez com que Teddy se calasse.
.oOo.
"Ei," Harry falou em meio a um bocejo. "Sinto muito pela demora," ele se desculpou.
"Está tudo bem?" Draco perguntou, fechando um livro de aparência pesada para encará-lo, do outro lado da lareira.
"Sim." Harry alongou os músculos do pescoço numa tentativa de aliviar a tensão. "Foi um dia longo, só isso. Me desculpe por perder o jantar..."
Ao invés de responder, Draco consultou o próprio relógio.
"Você deveria dormir," ele concluiu. "Nós dois deveríamos."
"Venha dormir comigo," Harry pediu num sussurro.
Draco o encarou por um momento antes de suspirar de um jeito derrotado, meneando a cabeça.
Harry sorriu afeiçoadamente.
.oOo.
