*********************** Cap 26 Trio ternura em: Fiquei até surdo dos ouvidos. ***********************
Hospital de Atenas, 08:00am
A sala branca, o ambiente estéril e a luz forte do quarto de hospital pareciam aumentar ainda mais a ansiedade do Cavaleiro de Áries.
Já trajando o avental cirúrgico, deitado sobre a maca ele acompanhava com os olhos atentos toda a movimentação dos enfermeiros ao seu redor, os quais faziam os procedimentos prévios necessários para a punção dupla em seu osso ilíaco. Estava nervoso e ansioso, também porque sentia a aura agitada de Kiki no quarto ao lado.
O garotinho estava internado há dois dias por conta da preparação para o transplante de medula e assim permaneceria nas próximas semanas. Agora só lhe restava esperar. Esperar pela medula de Mu que lhe seria transfundida. Esperar pela cura almejada. Esperar pelo momento em que finalmente retomaria sua vida, ainda tão breve.
Mesmo separados pela parede fria do centro cirúrgico, pai e filho mantinham contato pelo elo racial muviano e através dele partilhavam o amor que sentiam um pelo outro, junto da esperança por uma melhora. Contudo, Mu tinha o cuidado de ocultar de Kiki os sentimentos conturbados que lhe corroíam a alma, uma vez que ainda estava muito abalado com a notícia do parentesco, e mesmo feliz por poder doar a medula a ele, no fundo sabia que aquele transplante não significava sua cura definitiva. Estava ciente de que estavam apenas ganhando tempo naquela corrida contra a morte certa, e não podia deixar que o amado filho sentisse tais temores.
De repente, Mu sentiu um toque suave em sua mão, e este o resgatou momentaneamente do vórtice de pensamentos angustiantes no qual se perdera. Quando olhou para o lado, viu Shaka, que assim que tivera permissão entrou ali para ficar ao seu lado, e a visão do rosto dele coberto pela máscara e a touca imediatamente lhe partiu o coração e o fez pensar em Kiki. A imagem do filho, frágil e molinho no leito do outro lado da parede, com o cateter fixado no peito, o qual viria a ser fiel companheiro nas próximas semanas, se formou em sua mente. Sua família estava ruindo, e ele agarrado a um fino fio de esperança pelo qual fazia de tudo para evitar que se partisse.
Olhando diretamente nos olhos de Shaka, sem dizer nada, Mu entrelaçou seus dedos aos dele e apertou sua mão suavemente.
Não eram necessárias palavras. Seus olhares carregavam a mesma esperança e partilhavam da mesma angústia, e aquela comunicação silenciosa só teve fim quando o médico anestesista se posicionou ao lado de Mu e encaixou a enorme seringa no acesso venoso.
— Está pronto? — disse ele.
— Sim. — Mu respondeu sem desviar os olhos de Shaka — "Vai dar certo." — completou falando a ele por telepatia.
Shaka acenou com a cabeça.
— Então cante alguma música para mim... — o anestesista pediu ao começar infundir o líquido branco leitoso na veia do cavaleiro.
Mu pensou por um momento, sempre olhando para Shaka e apertando sua mão, até que começou a cantarolar baixinho uma canção em português que conheceu através do amigo brasileiro, quando este apadrinhara Kiki, e que agora lhe vinha à cabeça porque preenchia seu coração dado o seu significado.
— É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer... Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer... Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr...
Mu sentia suas pálpebras começarem a pesar, mas seguiu cantando.
— E assim, chorando... acalentar o filho... que eu quero ter...
Sua voz ficando mais arrastada a cada palavra.
Shaka agora lhe acariciava a testa passando as pontas dos dedos protegidos pela luva sobre as pintinhas lemurianas com extremo carinho e delicadeza.
— Dorme meu... meu pequenininho... dorme que a noite já vem...
A letra da canção já começava a se embaralhar em sua cabeça, e pouco a pouco sentia sua mente tragada para o vazio.
— Teu pai... está muito sozinho... de... de tanto... amor que... ele tem...
Santuário de Atena, 04:38pm – Vila das Amazonas.
As quatro rodinhas cor de rosa choque da mala de viagem rangiam injuriadas dado o trabalho ingrato de atravessar o terreno de terra grossa batida e cravejado de pedrinhas.
Acompanhando as rodinhas, num mesmo compasso vinham três pares de pés que arrastavam lentos os solados dos sapatos contra o chão, enquanto, num ritmo bem mais acelerado, uma discussão se dava.
Embora estivessem em três, apenas duas eram as vozes ouvidas ali, uma em tom mais comedido e a outra expansiva, bem ao típico modo italiano. E como ouvinte dessa dissonante sinfonia estava um par de ouvidos suecos resignados.
— Não era nem para você estar aqui, Mu — disse Geisty, que tinha parado a caminhada para desencravar um pedregulho do solado emborrachado da botinha.
— Você já me disse isso, Geisty. — O ariano respondeu contrariado, sem erguer a voz. Aproveitou que a amiga tinha parado para ele também buscar algum conforto massageando a área nas costas onde lhe fizeram a punção da medula, a qual sentia um pouco dolorida.
— Pois é... POIS É! — ela o repreendeu o encarando nos olhos — E é justamente isso que me deixa puta da minha vida! Eu já te disse isso sim, no hospital, e você teimou em vir para cá. Uma puta irresponsabilidade da sua parte... cazzo! Deveria estar em repouso, mas é teimoso como uma mula empacada. Mula não! Carneiro. Um carneiro velho e teimoso, isso que você é.
— Velho não!... Eu estou na flor da minha idade. E quem disse que não estou de repouso? Estou caminhando ao seu lado apenas.
— Mas que absurdo! — disse Geisty pondo as mãos enfaixadas na cintura e estufando o peito como uma pomba brava — Você deveria estar lá no hospital, com o Shaka e o Kiki, e não aqui.
— Kiki está bem, ainda dormindo, e o Shaka aproveitou para tirar um cochilo porque não consegue dormir há dias. Eu estou exatamente onde eu deveria estar, Geisty — disse Mu voltando a andar.
Geisty e Afrodite logo o acompanharam, caminhando ao lado dele agora num ritmo mais acelerado. Peixes vinha arrastando a imensa mala rosa choque que ele ansiava um dia levar para Bora Bora recheada de calcinhas dele e de Camus.
— Como se eu fosse aleijada das pernas e não pudesse andar sozinha. — A amazona resmungou.
— E não pode mesmo.
— Ah não?! Não posso não?
— É, não pode não.
— E porque cazzo eu não posso, Mu?
— Porque o problema não são suas pernas, Geisty, é a sua cabeça.
— Como é que é?
Do lado deles, Afrodite revirou os olhos e suspirou, já imaginando onde aquela conversa iria parar.
— Você me ouviu bem. Não pode andar sozinha porque eu não confio em você e nem no cretino do seu ex-marido, agora que ele está solto por aí — esbravejou Mu.
— AQUENDA! — Peixes deu um grito chamando a atenção imediata dos dois — Gente, eu estava lavando o cabelo. Como assim, ex-marido?
Num movimento parecendo combinado, Mu e Geisty olharam para os exuberantes cabelos do pisciano e os vendo secos não entenderam o que ele quis dizer, mas nem se ativeram a tentar, e então, o breve silêncio constrangedor que se fizera entre eles teve fim quando a amazona encheu ruidosamente os pulmões com o ar puro e perfumado dos botões de jasmim que abriam naquele fim de tarde de primavera e desandou a falar:
— Olha aqui, Mu, eu entendo e agradeço os seus cuidados, mas não quero mais você se preocupando com essa história. Você tem problemas muito maiores e mais urgentes para resolver. Seu filho precisa de você, e o seu marido está claramente precisando muito mais da sua companhia do que eu... Além disso, olhe para você... — ela fez uma pausa, ela mesma olhando para ele, reparando nos ferimentos oriundos da briga com Saga e que ainda eram bem visíveis em seu rosto cansado — Está ferido, cansado, preocupado com Kiki... Volte para o hospital. Você precisa descansar. Depois, todo tempo que tiver junto da sua família é precioso. Não o perca aqui com coisas insignificantes.
— Isso não é insignificante, Geisty. E você também é minha família. — Mu retrucou sério — Já disse que não vou deixa-la sozinha.
Afrodite parou de andar, esticou o braço e com a mão na altura nos olhos de Mu estalou os dedos repetidas vezes.
— Hallo, gay! Eu agora sou invisível, por acaso? Então posso dar um pivô aqui e voltar para minha casa, porque eu e nada é a mesma coisa, né? — disse, e entregou ao ariano uma expressão de zanga, deixando claro seu descontentamento.
— Não é isso, Dido — disse Mu — É que não estou aqui apenas para acompanha-la. Eu tenho uma coisa muito importante para conversar com ela...
— Ei! Vocês dois não falem como se eu não estivesse aqui! — protestou a amazona.
— Certo — disse Mu voltando a olhar para Geisty — Eu tenho uma coisa que está engasgada aqui dentro de mim desde o dia que te socorri em Gêmeos, e quero conversar isso com você hoje, dona Geisty. Nem um dia a mais, nem um dia a menos. Hoje!
Visivelmente alterado Mu voltou a caminhar, e novamente os dois amigos o acompanharam. Geisty toda desengonçada devido os inúmeros curativos e o corpo ainda dolorido. Afrodite arrastando a mala rosa.
— Porca madonna, mas se você queria conversar tem uma coisa chamada telefone, era só me telefonar — disse ela apertando o passo para ultrapassa-lo.
— Essa não é uma conversa para se ter por telefone.
— Ah! Então é isso! Você está é criando uma desculpa para fugir do hospital, caso contrário era só ter dito que eu ia ficar lá com você, mesmo Kiki não podendo receber visitas.
— Epa! — mais uma vez o ariano parou de andar e a encarou — Epa, epa, epa! Eu não preciso de desculpas para sair do hospital, não senhora! E por que eu não poderia vir até aqui com você, posso saber? Está me escondendo algo?
— Ah, pela castidade sagrada da Deusa! Mu!... Não seja ridículo!
— Eu agora sou o ridículo?
— Sim, você está sendo ridículo!
— Era só o que me faltava mesmo — resmungou Áries voltando a caminhar.
— Por que diz que estou te escondendo algo? — disse Geisty andando rápido atrás dele enquanto fazia um sinal a Afrodite para que também apertasse o passo — Por que eu te esconderia algo?
— Porque já fez isso uma vez... e eu estou achando que foi para proteger a mesma pessoa.
De repente, Geisty estancou os passos e sentiu seu peito gelar. E não foi devido ao que Mu acabara de dizer.
Estavam, finalmente, diante da entrada da Vila das Amazonas, um território de acesso exclusivo às guerreiras que serviam ao exército de Atena, e onde a presença masculina era terminantemente proibida, até para visitas periódicas, a menos que tivessem permissão do próprio Patriarca, ou fosse o próprio em pessoa.
Percebendo que havia algo errado com a amazona, Afrodite aproximou-se dela parando a seu lado. Reparou que em seu rosto agora predominava uma expressão de espanto e raiva, mas quando pensou em perguntar o que estava havendo eis que Geisty avançou em direção à entrada da Vila pisando duro, ainda que meio manca.
Isso porque, assim que chegaram ali, um Cosmo discreto, já bem conhecido dela, lhe deu boas vindas deixando clara sua presença. Mesmo que ela por seis anos tivesse buscado com todo afinco e esperança sentir aquele Cosmo,
agora ele só lhe trazia dor e mágoa. Era de fato uma presença indesejada.
— Mosca! — Afrodite chamou correndo atrás dela. Também já tinha sentido o Cosmo do visitante e se colocado apreensivo de imediato — Mosca, espera aí! Não é para correr... Dadá segura a bilôca! — isso ele murmurou para si mesmo, referindo-se ao lemuriano.
Mu também já o sentira, e por isso mesmo apertou o passo já de punhos fechados, ignorando as dores no joelho e na bacia, castigados pelo embate de dias antes, e adentrando a Vila antes dos dois amigos.
Acerca de cinco metros estava a casa reservada por Geisty, que outrora fora sua morada fixa naquele lugar, e na frente dela estava Saga.
De onde estava, um pouco atrás de Mu, a amazona já pôde notar que ele certamente já tivera dias melhores. O manto exuberante de Patriarca estava todo amarrotado e surpreendentemente tinha ganhado novas cores. O azul profundo, quase preto, deu lugar a um tom mais claro, e todo o vermelho que havia no traje fora substituído por dourado e branco. Seu rosto estava abatido e ainda coberto de hematomas e escoriações, e mesmo com os olhos tão inchados que mal se podia ver o tom das íris jades era possível notar o espanto estampado neles.
Espantados também estavam os olhos de Geisty, que o encaravam faiscantes enquanto seu coração acelerava doloroso. Não podia negar, em seu íntimo, o ímpeto voraz e instintivo de correr até ele, como um peregrino sedento que depois de percorrer por seis anos um deserto avista um oásis de águas cristalinas; mas também como o peregrino, que cansado depois de tanto tempo em busca da fonte para matar a sede se apavora temendo ser esta apenas uma miragem, Geisty sentia todos os músculos de seu corpo retesarem em pavor. Temia dar um passo e ver a imagem de Saga se esvair feito areia levada pelo vento, e temia também ser esse o seu desejo verdadeiro de agora em diante. Afinal, seria Saga seu oásis construído sobre areia movediça? Mas, e se ele fosse real? E se pudesse, um dia, se tornar de fato firme? Dar-lhe segurança!
Eram tantas as dúvidas que a consumiam... mas entre elas havia uma única certeza, e foi a essa que ela escolheu se apegar. Estava desapontada, magoada, ferida, de todas as formas, e fazia questão de deixar claro que ele era o único culpado de sua miséria.
— Como você tem a ousadia de vir até aqui, Saga? — esbravejou Mu antes mesmo de Geisty conseguir dizer qualquer coisa. Tinha o rosto tomado pela raiva e os punhos fortemente cerrados.
— Geisty... — disse aflito Saga, evitando olhar para o ariano, até porque, quando viu a amazona ali, com o corpo coberto por curativos e bandagens de todos os tamanhos, seu coração apertou dentro do peito e sentiu vontade de gritar. Só não correu até ela porque quando pensou em mudar o passo ela mesma o impediu levantando a mão e lhe fazendo um sinal para que não avançasse.
— O que você faz aqui, Saga? — inquiriu Geisty franzindo as sobrancelhas e com a voz afiada tal qual fio de navalha — Homens não são permitidos aqui sem a autorização de uma amazona.
— Ou do Grande Mestre — disse Saga, e percebendo que seu receio de ser hostilizado pela esposa se confirmou tentou contornar: — Geisty, eu só vim até aqui porque precisava te ver... precisava muito...
— Bom, já viu, Saga. Pode ir embora, agora. — Ela disse um tanto abalada, porém bem irritada.
Uma angustia terrível sufocava a garganta do cavaleiro de Gêmeos. Por mais que Afrodite já lhe tivesse alertado sobre o estado da amazona, vê-la ali, diante de si, tão ferida, e olhar em seus olhos cheios de mágoa e raiva, lhe causava dor e uma culpa de corroer a alma.
— Por favor, Geisty... precisamos conversar, preciso saber como está, eu preciso...
— Quer saber como estou, Saga? Eu estou mal. — ela o interrompeu — E especialmente mal porque me parece que você levou exatos seis anos para se preocupar com meu estado.
— Geisty, por favor, precisamos...
— Vocês não precisam merda nenhuma, Saga! — Mu sobrepôs sua voz a dele — Aliás, você é quem precisa dar o fora daqui antes que eu...
— Mu! Por favor, não! — pediu Geisty agarrando o ariano pela manga da camisa a fim de conte-lo, como quem segura um carneiro nervoso pelos chifres — Chega disso! Ele já está de saída... Não está, Saga?
Exatamente nesse momento, Afrodite chegava ali todo atrapalhado com a mala rosa, a qual, depois de muito tentar manobrar pelo terreno irregular cheio de pedregulhos, trazia nos braços junto ao peito, e sem pensar duas vezes já se colocou entre Saga e Mu, obrigando a ambos recuarem alguns passos para trás.
— Ei! Firma o toco* aí, Mu! E para já de palco* as duas — disse ele alternando os olhares entre os dois cavaleiros — Ah, que saco! Será que agora vai ser sempre assim? As bonitas não podem se ver que já querem se pegar? Ah, tá boa! Eu tô loca, heim!
— Eu não quero brigar com ninguém — disse Saga na defensiva.
— E nem eu. Me solta Geisty. — Mu afastou as mãos da amiga.
— Ah, não? Pois me parece que ainda agorinha ouvi você provocar ele — rebateu a amazona.
— Por favor, não quero que briguem entre vocês também — pediu Saga juntando as mãos à frente do peito — Não foi para isso que vim aqui. A culpa é toda minha.
— É sim! — os três amigos responderam num coro em uníssono.
Saga baixou os olhos e pareceu pensar por um momento.
— Eu peço que me perdoem, os três — disse com certa gravidade, depois olhou diretamente nos olhos de Geisty — Eu vou resolver isso, eu prometo... Geisty... eu prometo. Eu vou consertar tudo... Eu nunca deveria ter envolvido você nisso. Não antes de ter certeza que poderia segura-lo, mas agora...
— Saga, por favor... — Serpente sussurrou angustiada.
— Agora eu vou conseguir, eu sei que vou! Eu... eu procurei um especialista.
— Especialista? — Geisty indagou visivelmente surpresa e curiosa.
— Procurou um exorcista?
— Claro que não, Afrodite — disse Saga, e hesitou por um momento, depois prosseguiu — Eu... voltei ao hospital ontem e... eu conversei bastante com o doutor Hector e tentei deixa-lo um pouco a par do que houve...
— Disse a ele que tentou matar a sua esposa depois de infernizar a vida dela e de todo mundo por seis anos? — provocou Mu sem nenhuma paciência para aquela conversa.
— Mu, deixe-o falar, por favor — pediu Geisty.
Saga engoliu em seco e esfregou as mãos nervoso. Ele parecia um homem que caminha vendado na borda de um penhasco, temendo despencar a qualquer momento ao mínimo passo em falso.
— Hector me encaminhou à ala de neurologia... eu fiz alguns exames, na verdade foram vários... e ontem mesmo ele agendou uma consulta com um psiquiatra renomado amigo dele que vai me atender assim que os exames ficarem prontos... O consultório dele fica em Ancara, então eu devo viajar daqui uns três dias, mas... eu tenho fé que ele vai descobrir um jeito de me ajudar a conter... conter Ele, vocês sabem quem, para sempre, entende? Vai me ajudar a saber exatamente o que eu tenho, ou... o que Ele é.
— Mau caráter é o que você tem! — Mu esbravejou apontando o dedo para o grego — Olho junto e capeta no couro.
— Mu! Não provoque, por favor! — Geisty o repreendeu segurando-o novamente, agora pelo punho, e embora estivesse deveras surpresa com o que o geminiano dissera, pois nunca esperou uma atitude dessa natureza vinda dele, já que sabia o medo que Saga tinha de ser dado como louco em definitivo e trancado para sempre em um hospital psiquiátrico, tentou parecer o mais indiferente que conseguiu — Eu acho bom mesmo, Saga. Não faz mais que a sua obrigação. E se veio até aqui para me ver, já viu, então...
— Vim também para conversarmos — disse Saga tentando conter a ansiedade que praticamente o sufocava — Sei que não é a melhor hora, Geisty. Você acabou de chegar do hospital e precisa descansar, eu sei, mas...
Quando ele tentou dar um passo à frente na direção dela, instintivamente ela recuou outros dois para trás se afastando dele e trazendo junto Mu e Afrodite, os agarrando forte pelos braços.
— Exato, Saga! Eu preciso mesmo descansar. Então você já pode ir embora, porque não quero conversar com você agora.
— Tudo bem, eu vou embora... mas podemos nos falar em outro momento? Em breve? — Saga insistiu, sentindo o coração acelerado. No entanto, não a culpava, esse ônus era exclusivamente seu e o aceitava sem barganhar.
— Não! — bronqueou Mu — Você nem devia ter vindo aqui, seu saco de merda!
— Mu já chega! Para com isso! Quem decide sou eu, e ele já disse que está indo embora. — Geisty protestou segurando firme o punho do ariano, vendo o sangue ferver no rosto dele, depois voltou-se para Gêmeos — Sobre nossa conversa, Saga... Eu esperei você por seis anos. Durante esse tempo eu trabalhei bastante a minha paciência, então acho bom você começar a trabalhar a sua também.
Saga tinha a impressão de que um buraco no solo arenoso debaixo de seus pés havia se aberto e por ele toda a esperança que cultivara para aquele encontro tinha sido tragada de uma única vez. Sentiu vontade de reagir. De deixar de se conter e responder como desejava à imensa ânsia de permitir extravasar suas urgências, abraçar aquela mulher que amava tanto quanto a vida à qual insistia em se agarrar, por si e por ela; por um futuro que sempre sonhou junto dela, e depois beijar seus lábios saudosos, aconchegar-se no calor de seus braços, no conforto de seus seios, e dizer a ela que tudo ficaria bem, que iria ao céu e ao inferno se preciso fosse para consertar seus erros, para aprender a dominar sozinho aquele seu terrível demônio, mas conteve-se, por amor, por respeito, e agora também pela consciência de que devia isso a ela.
Sentia a garganta estrangulada por uma vontade troante de gritar, por perdão, por alívio, e para que todos soubessem que a amava e que a partir daquele dia nunca, sob hipótese alguma, a deixaria exposta ao perigo e sozinha novamente.
— Entendo — foi tudo o que Saga conseguiu dizer.
Ele não obteve resposta.
Pelo menos não de Geisty.
— Entende bosta nenhuma, seu idiota. — Mu voltou a esbravejar. Ver o grego ali, com aquela postura de bom moço depois de tudo o que aconteceu, e depois do que descobriu ter ocorrido no passado lhe fervia o sangue — Você está vendo, Geisty? É por isso que eu não confio no seu julgamento.
— MÁ CHE?! — a amazona arregalou os olhos alarmada.
— Eu não posso te deixar ficar perto desse babaca que você já dá confiança para esse traste!
— Mas era só o que me faltava mesmo! — reclamou ela extremamente aborrecida, e já sem muita paciência puxou o ariano pelo braço até a entrada da casa que ocuparia ali — Anda, vamos entrar. Vem Afrodite, traz minha mala!
— Minha mala, né odiosa? — disse o pisciano caminhando até a porta. Ao passar por Saga olhou para ele e disse baixinho: — Você fez bem. Vai cuidar dos teus miolos moles e deixa que a gente cuida dela — sorriu para ele antes de entrar.
Da porta, Geisty olhou uma última vez para o rosto confuso e judiado do grego.
— Vá embora logo, Saga. Mu fez a punção da medula hoje, deveria estar de repouso absoluto, e eu acabei de receber alta. Não podemos nos estressar por sua culpa. Não volte aqui... você não é bem-vindo.
Sem mais nada dizer ela fechou a porta.
Gêmeos ainda ficou ali por um breve momento, depois, de cabeça baixa e andar lento, deixou a Vila das Amazonas.
Dentro da casa, um ariano muito sério encarava outra ariana um tanto nervosa.
— Mu, precisava essa cena toda? — Geisty reclamou ajeitando os cabelos para trás — Eu já disse que não quero falar com ele, porca madonna.
— Precisava sim. Na verdade, foi ótimo que aquele pulha tenha aparecido aqui, porque ficou ainda mais evidente para mim a necessidade urgente da nossa conversa.
— Como é?! — retrucou ela virando o ouvido na direção do lemuriano, descrente do que ouvira.
Com um suspiro longo, e revirando os olhos, Afrodite soltou a mala rosa no chão e foi até eles.
— Gente, é sério que vocês vão começar outra discussão? Agora entre vocês? Ah, não heim! Os dois estão cagados. Mu, você nem deveria estar aqui, gay — disse parando ao lado deles de braços cruzados.
— Sim eu não deveria, mas estou, e sabe por que, Afrodite? Porque a mulher que eu amo como uma irmã, e por quem eu arrisquei a minha vida para salvar das garras de um demônio obsessor, mentiu para nós esse tempo todo! — disse enérgico apontando o dedo em riste para Geisty.
Imediatamente os olhos de Peixes e os de Serpente se arregalaram.
— Aquenda!
— Eu menti? — Geisty apontou as mãos para o próprio peito indignada — Você ficou louco, Mu?
— Nunca estive tão lúcido na minha vida, Geisty. E a senhora agora vai se sentar nesse sofá e me ouvir.
Num gesto abrupto Áries caminhou até a amiga e de um jeito bronco a apanhou pelo braço, a fazendo se sentar no pequeno sofá que havia na modesta sala de estar.
Visivelmente insatisfeita, Geisty levou a mão ao braço quando o ariano o soltou, surpresa com a postura bruta dele, que nem de longe condizia com a gentileza e docilidade habituais, lembrando muito mais os modos severos com os quais Shion a tratava no passado, quando ainda treinava para se tornar uma amazona. De pé diante de seus olhos, a figura de Mu lhe parecia julgar com a mesma autoridade impassível de que se lembrava de ter visto apenas nos olhos austeros de Shion, e ela não gostou nada de ver aquela mesma postura arbitrária no amigo. Havia algo errado com Mu.
No mesmo instante que pensou isso Geisty já se corrigiu. Lógico que havia algo errado. Ninguém melhor que ela para conhecer a dor de perder um filho, e Mu estava vivendo um verdadeiro inferno na iminência de perder o dele.
— Afrodite, você senta aí também. — o lemuriano praticamente ditou a ordem.
Peixes, tão surpreendido quando Serpente, arqueou as sobrancelhas e dobrando o pulso apoiou os dedos no peito enquanto se sentava sem tirar os olhos dos dele, que soltavam faíscas. Nem imaginava sobre o que ele tanto queria falar que exigia aquele clima tenso todo.
— Cruzes, santa, para que esse climão? Tá parecendo até o velho Shion quando pegava para gongar a gente.
Mu soltou um suspiro e cruzou os braços no peito.
— Ótimo! Pois quem dera eu fosse mesmo como ele, ou tivesse metade de seu pulso firme. Talvez assim nada disso estaria acontecendo — disse entredentes — Mas não é para falar sobre meu antigo mestre, ou sobre os dias contados do atual Patriarca, que eu vim até aqui hoje... Eu vim para tomar providências urgentes a respeito do seu comportamento imprudente, Geisty.
A respiração de Serpente ficou presa na garganta.
— Quê? — ela inquiriu incrédula, o dardejando à queima roupa com o olhar.
— Abafa! — Afrodite disse surpreso.
— De que merda você está falando, Mu? Que papo é esse de tomar providências, meu comportamento... Ah, pela a Deusa! Eu virei criança agora? — esbravejou tomando as rédeas de si. As bochechas coradas e o rosto zangado deixavam claro seu estado alterado.
Mu a encarou firme, suas mandíbulas rígidas e fortemente contraídas evidenciando a tensão. Ele sabia que o assunto a tratar com ela era delicado, porém não podia adia-lo mais.
— Eu estou falando sobre o que aconteceu quando Saga a trouxe de volta para o Santuário, há pouco mais de oito anos atrás — disparou, e na mesma hora que a viu movimentar-se para se levantar do sofá também a viu desistir, mantendo-se sentada pelo simples fato de suas pernas perderem as forças completamente.
Os dois se encaram por um segundo, num silêncio que para ela pareceu durar uma eternidade.
Do lado da amazona, a menção do episódio citado fez acender na memória de Afrodite alguns flashes de momentos já há muito esquecidos, e que por coincidência, ou não, tinha acessado no dia anterior na dura conversa com Camus, mas ainda não conseguia entender ao que Mu se referia.
— E o que aconteceu? — Peixes perguntou, vencido pela curiosidade.
Geisty ficou ainda mais tensa.
— Aconteceu que aquele espírito espurco a estuprou no dia em que a trouxe para o Santuário e a enfiou no bordel, dias antes da estreia da casa, e ela não só simplesmente omitiu esse fato de todos nós como nos convenceu a deixa-la morar por seis anos ao lado do miserável.
Mu fora direto como uma bala certeira no alvo, e este estava bem ali, sentada no sofá, imóvel e pálida feito uma estátua de mármore, com o semblante congelado em pavor.
— Pela empunhadura de madrepérolas da machadinha de Dadá! — Afrodite, de olhos arregalados, virou-se para Geisty com as mãos coladas no rosto — Isso é verdade, Mosca?
Geisty não respondeu. Sequer olhou para ele. Mantinha os olhos fixos no rosto severo de Mu, enquanto em sua cabeça uma pergunta se repetia em loopings.
— Como? — ela perguntou num sussurro, o fitando em espanto.
— Como eu sei disso? — Mu repetiu a pergunta.
— Você não tinha o direito... — ela sussurrou furiosa.
— Eu não invadi sua mente, como deve estar pensando.
— Não tinha o direito... — ela sacudiu a cabeça em uma negativa veemente, assombrada — Você não tinha o direito de ler a minha mente! Não tinha!
— E eu não li, já disse. — Mu repetiu em voz alta — Você mostrou essa lembrança para mim involuntariamente, no momento em que a resgatei na Casa de Gêmeos, há três dias. Eu jamais invadiria a sua mente, Geisty, nem a sua e nem a de ninguém, mas o seu desespero naquele instante era tamanho que você me abriu as portas da sua mente, me gritando por socorro. A minha mente, por segundos, foi inundada pelas lembranças desse dia, desse fato em especifico, já que, naquele instante, ele era o seu pior medo. Você temia que ele se repetisse — falou incisivo, sentido todos os músculos do corpo tensos, uma vez que experimentou o medo dela ao partilhar daquela lembrança e ainda o sentia vivido dentro de si.
Um silêncio sinistro se derramou sobre os três, parecendo comprimi-los ainda mais dentro naquela sala minúscula.
Abalada Geisty sacudia negativamente a cabeça repetidas vezes, como se assim pudesse negar o fato, ou simplesmente apaga-lo, enquanto Mu mantinha-se firme.
— Não tente negar. Eu vi! — disse Mu, agora usando um tom mais brando — Eu senti todo o horror e o medo que você viveu naquele dia, Geisty.
— Para... Para! — ela pediu em desespero, entremeando os dedos enfaixados nos fios negros dos cabelos, repetindo uma ação típica sua em situações de extremo nervosismo.
Ao lado dela no sofá, Afrodite estava em choque. Agora os flashes de memória eram tão nítidos quanto uma fotografia recém tirada de um acontecimento recente, porém os sentimentos que brotavam em si eram completamente diferentes. Se lembrava de tê-la visto entre os lençóis revirados da imensa cama, assustada e visivelmente abalada. Debochou dela, caçoou, hostilizou... Peixes sentia seu coração tão pesado que chegava doer, e o pior era ter a consciência de que, naquela época, mesmo que soubesse que ela havia sido abusada pela face maligna de Saga, ainda assim não se importaria.
Mortificado Afrodite esfregou o rosto e levantou-se do sofá, dando umas poucas voltas pela sala.
— Conseguem entender agora por que estou aqui? — disse Mu — Definitivamente, depois de tudo o que ocorreu, não há mais dúvidas de que você, Geisty, não é capaz de tomar decisões sozinha quando o assunto é o canalha do Saga.
Súbito a italiana lançou um olhar cheio de mágoa para o lemuriano, enquanto Afrodite parou de andar ficando de pé ao lado de Mu.
— O que está falando? — protestou ela — Você não tem o direito de pôr em questão a minha capacidade de discernimento, muito menos de determinar que decisões eu devo ou não tomar. É da minha vida que estamos falando, Mu.
— Exatamente! Estamos falando da sua vida, essa aí que você coloca em risco sempre que o assunto é o Saga. — Mu apontou o dedo para ela — E eu tenho direito de me meter na sua vida sim, porque é a mim que você pede socorro quando seus planos furados dão errado. Ou vai me dizer que não sabia que esse seu plano irresponsável de ir morar em Gêmeos com aquele monstro, baseado na esperança tola de trazê-lo de volta, estava fadado à terminar em tragédia?
— Não chame meus sentimentos de tolos! — ela rosnou, sentindo as orelhas ferverem.
— Chamo! Chamo sim! Porque você foi uma tola em acreditar que aquilo não se repetiria. Pelos deuses!
— Você não entende...
— Se está falando de amor, sim, eu entendo muito bem, pode ter certeza que entendo, mas não é disso que estou falando, Geisty... falo da tolice de se arriscar por ele sem nos contar o real perigo, de acreditar que uma amazona de Prata poderia lidar sozinha com aquele demônio, um cavaleiro de Ouro.
— Eu posso lidar! — Geisty se exaltou batendo as mãos contra o acento do sofá — Como tenho feito todos esses anos.
Mu se enfureceu.
— Não! Não pode! Se pudesse não teria que nos pedir ajuda, e não teria que ser socorrida por cavaleiros de Ouro todas as vezes em que ele tentou te estuprar de novo!
— Vocês me ajudaram porque são meus amigos, e porque são amigos dele!
— Geisty, não faça isso, não distorça as coisas!
— Você não pode me exigir que eu lhes conte sobre algo que eu mesma decidi esquecer — ela falou quase engasgando-se. Seus olhos violetas já encharcados de lágrimas.
— Posso. Posso sim! A partir do momento que você buscou minha ajuda, que precisou de mim para socorre-la, eu precisava saber de tudo. — Mu tentava controlar seu modo de falar. Não queria magoar Geisty, e vê-la chorando lhe era doloroso, mas também não podia mais ignorar aquele problema — Pelo amor de Atena! Você podia contar sem contar... Mas tinha que ao menos nos dar uma leve pista, mas ao contrário disso, você sempre preferiu nos garantir que tinha tudo sob controle — esfregou o rosto nervoso — É assim que você lida com seus problemas, os esquecendo? Pois isso é grave demais para se esquecer.
— Quem decide se é ou não sou eu, Mu! — ela revidou com voz embargada pelo choro.
— E você decidiu que não é, né? Porém, há três dias era tão importante que gritou sobre isso assim que eu te peguei nos braços, aterrorizada — disse o ariano injuriado — Não percebe o quanto está sendo leviana? Pelos deuses, Geisty! E ainda quer tomar decisões sozinha? Você traiu a nossa confiança, minha, do Shaka e do Afrodite, e enfiou a todos nós nessa sua canoa furada, porque ninguém, escute bem, NINGUÉM, minimamente são, ia permitir que você fosse adiante com esse plano de merda de continuar casada com ele e vivendo sob o mesmo teto.
— Traí a confiança?
— Sim!
Geisty enxugou os olhos para encara-lo firme.
— E para quem você acha que eu deveria ter contado na época? Heim, Mu? Me diga? Para você, que há quase uma década havia abandonado o Santuário e fugido para Jamiel?
Aquelas palavras tocaram fundo no orgulho do Cavaleiro de Áries.
— Para o Afrodite, que me tratava como uma cachorra vira lata de rua? — apontou para Peixes, que ainda chocado ouvia tudo calado — Ah! Talvez devesse ter contato para o Shaka, que na época era uma lenda viva para mim, já que ele nunca saía da Sexta Casa e sequer chegava perto do bordel.
Mu ergueu o queixo olhando para ela com os olhos verdes chispando.
— É, talvez ele teria sido a pessoa certa para te ouvir.
— E no momento que precisei muito falar com alguém Shaka foi mesmo a pessoa certa para me ouvir e aconselhar, mas a verdade, Mu, é que antes disso não havia ninguém. Para quem acha que eu poderia dizer que fui abusada pelo Patriarca? E que isso aconteceu em um quarto de bordel, o mesmo para onde eu, uma amazona sagrada de Atena, fui trazida para pagar uma dívida milionária que nem era minha. Me diz? Para quem eu poderia pedir ajuda?
— Na época eu realmente não estava aqui para te proteger, e essa culpa eu vou carregar comigo até o fim. — Mu ditou sério — Mas depois eu estava. Você teve a oportunidade de me falar inúmeras vezes.
— E de que adiantaria? A verdade é que nessa vida eu nunca tive ninguém por mim. Eu sempre fui sozinha... até o Saga me trazer para cá e... — fez uma pausa e respirou profundamente enxugando as lágrimas mais uma vez — E ele mesmo lutar com toda sua força de vontade para me proteger de sua face maligna. Saga foi quem tentou o tempo todo me manter longe Dele... o segurando, o impedindo de se aproximar de mim...Mas até mesmo para isso Saga precisava de mim, eu era a razão pela qual ele lutava todos os dias. No mais, se eu contasse para quem quer que fosse, o resultado seria o mesmo. Era a palavra do Patriarca, o regente maior e absoluto dessa porra de Santuário, contra a minha, uma amazona fodida que devia o próprio peso em ouro à máfia russa... além da humilhação de ser subjugada por um cavaleiro eu ainda seria dada como mentirosa.
— Agora você tocou no ponto em questão. — Mu bradou energético para a surpresa dela e de Afrodite, que mais parecia um bibelô sueco de decoração no meio da sala — Você acaba de me confirmar sua fragilidade. Você não contou, porque sabe que a palavra de uma mulher não tem nenhum valor frente a de um homem, porque assim dita a sociedade. Mas e depois, Geisty... Quando aquele espírito imundo voltou e você sabia dos riscos? Como mulher, como amazona, você deveria estar ciente da sua realidade e nunca mais ter se aproximado dele, ou você esqueceu o motivo pelo qual as amazonas escondem os rostos com máscaras? Ela serve para protege-las da cobiça do homem.
Ao ouvir aquilo Afrodite arregalou os olhos e com a mão cobriu a boca num gesto de puro alarme. Quando olhou para Geisty viu seu rosto tomado por uma lividez espantosa e sua fisionomia visivelmente perturbada.
Mais uma vez a amazona identificava a postura do antigo Patriarca fortemente presente, agora também nas palavras de Mu, duras e autoritárias tais quais as dele. Era como se ali, diante deles, estivesse a encarnação do próprio velho Shion a acusa-la, como fizera no passado, e não mais o gentil e doce amigo.
Diante do espanto da amazona, Afrodite tentou intervir fazendo um gesto para que Mu cessasse a discussão, mas o ariano estava longe de desistir.
— Não, Afrodite! — Mu apontou o dedo para o pisciano antes de voltar-se para Geisty novamente e seguir com seu discurso — Ela precisa entender como se operam as coisas nesse Santuário. Não é à toa, Geisty, que não é permitido mulheres na mais alta patente dos exércitos de Atena. Você por acaso conhece alguma amazona de Ouro? Não, né. E você sabe bem o motivo. São doze cavaleiros, doze homens, para proteger a vida e a honra da deusa. E por que você acha que a Vila das Amazonas é separada de todo o Santuário? Por que o treinamento delas é intenso e rigoroso? Por que a elas é negado o amor? Você sabe de todas essas respostas, Serpente! Sempre soube. Uma amazona de Prata nunca teria qualquer chance contra o Cavaleiro de Gêmeos, assim como não teve no passado. E aqui entra o meu dever de zelar por você, como seu irmão de criação, como Cavaleiro de Ouro e como homem. Tudo isso me dá o direito de ter essa conversa com você. Eu protejo o seu bem estar físico e sua honra arriscando a minha vida se for preciso! Mas se você omite uma coisa grave dessas, se mente para mim, se expõe deliberadamente ao perigo, sabendo o que vai acontecer, como eu posso confiar em você para lidar sozinha com o Saga?
— Está insinuando que a culpa de eu ter sido abusada foi minha? É isso que eu estou ouvindo, cavaleiro de Áries? — disse enérgica sentindo-se trespassada por uma raiva tamanha que lhe fazia tremer todo o corpo.
— Dadá me puxa agora! — Afrodite levou ambas as mãos trêmulas ao rosto e apertou as bochechas.
— Quê?! Não! — Mu respondeu no mesmo tom exaltado — Óbvio que não.
— Mas era só isso mesmo que me faltava — rosnou Geisty, e seu olhar para ele era tão penetrante quanto uma adaga.
— Você não escutou nada do que eu disse? Mas que inferno! — retrucou Mu.
— Escutei até demais! — berrou Geisty.
— Não foi isso que falei. Você não teve culpa da agressão que sofreu daquele cretino, caramba. Mas e depois?
— Quer dizer que depois eu tive? — inquiriu ela rapidamente.
— Por sua inconsequência? Sim! Você foi inconsequente, Geisty. — Mu apontou nervoso o indicador para ela.
— Deus, tenha misericórdia desses dois! — berrou Afrodite alucinado, temeroso com rumo que a discussão estava tomando.
Bem nesse momento o Cosmo poderoso do Cavaleiro de Virgem invadiu a pequena sala e uma luz dourada intensa obrigou a todos cobrirem os olhos com as mãos por alguns segundos. Quando ela se esvaiu por completo e eles puderam descobri-los, viram Shaka de frente para Mu. Estava com roupas civis simples e a postura levemente curvada. Não era ele em carne e osso, mas uma projeção astral fidedigna à realidade.
Quando Mu se deu conta, mãos quentes lhe tocaram gentilmente o pescoço, depois desceram para os ombros os apertando suavemente.
"Dá para sentir sua raiva mesmo há quilómetros de distância... Eu não permiti que deixasse o repouso para acompanhar sua irmã e depois discutir desse modo descontrolado com ela. O momento de ambos, o seu e o dela, é de reflexão e reserva... Marido, nós temos uma missão! Ainda estamos no campo de batalha pela vida do nosso filho, e Geisty... a batalha dela está apenas começando. Precisamos vencer a nossa para conseguir organizar a fúria interna que nos consome, dia a dia, e então poder ajuda-la na dela, com respeito e sabedoria, jamais com imposições... Por favor, volte para o hospital. Fique comigo. Me permita acalmar o seu coração."
Como um bálsamo reconfortante a presença de Shaka, em especial suas palavras, surtiram um efeito imediato no agitado ariano. O marido sempre era seu porto seguro quando as emoções o levavam a navegar por mares revoltos.
"Desculpe."
Mu respondeu a Shaka por telepatia e logo em seguida tombou a cabeça para o lado, olhando firme nos olhos de Geisty.
Com esse último olhar reprovador despediu-se antes de desaparecer junto da imagem do virginiano.
Na sala, a amazona ainda tinha o rosto contorcido de raiva e os olhos injetados faiscantes, os quais extravasavam toda a mágoa guardada por anos agora em novas e abundantes lágrimas que escorriam sem que tivesse qualquer controle.
Peixes, ainda com as mãos coladas no rosto, levantou os olhos para cima, como quem agradece silenciosamente a uma graça alcançada, então respirou fundo e juntou as mãos frente ao peito. Quando voltou a olhar para Geisty sentiu um aperto no coração e na garganta. Havia tanto a dizer a ela... Mas, tudo o que dissesse, nesse momento, certamente os conduziria também a uma discussão. Era claro que todos estavam com seus juízos alterados desde o ocorrido, e a volta de Saga, somada àquela verdade que viera à tona, estava rodeada de erros de todas as partes, feito uma ilha em que todas as saídas levam ao mesmo destino, o mar aberto e a morte certa.
Afrodite sentia-se mal agora por não ter se importado com ela no passado, não ter sequer se preocupado pelo modo como Saga, quando este perdia a lucidez para o Outro, a tratava, já que ele mesmo não se importava com ninguém, nem consigo mesmo. Tantas também foram as vezes em que fora abusivo, com Geisty, com os irmãos de armas, com as bacantes, com os amigos, com Camus... E tantas também foram as vezes em que sofrera abusos, de todos os tipos, por anos... E era ele o único culpado de sua própria desgraça. E em todas essas vezes guardava tudo para si, calando-se.
Que Geisty havia se exposto a um perigo que não precisava correr isso era verdade, dava razão à preocupação de Mu, mas não ao modo como ele vinha agindo e conduzindo o problema.
Afrodite sabia como ninguém o quanto era difícil, ainda mais quando se é um cavaleiro de Ouro poderoso e orgulhoso, ou uma amazona de Atena forte e destemida, ter de assumir que fora subjugado.
— Mosca... — ele se aproximou dela devagarzinho, pegando um lencinho branco que tirou do bolso da calça jeans e lhe oferecendo — As lágrimas vão cagar tudo os cortes no teu rosto e vai ficar cicatriz.
Com todos os músculos do rosto contraídos, Geisty tinha o olhar vago tão injetado que nem piscava. Depois de um momento olhou para ele e como uma fera acuada pegou o lencinho com as pontas dos dedos livres das ataduras. Trêmula como um bambuzal chacoalhado por uma forte ventania, ela enxugou o rosto com aspereza e raiva.
— Você também acha, não é? Concorda com ele? Pode falar.
— Concordo com quem? — perguntou Peixes estreitando os olhos, angustiado com o modo bruto com que ela passava o tecido no rosto. Deu graças por ser um lenço e não uma lixa.
— Com o Mu, ora. Também acha que a culpa foi minha? Por eu ser uma merda de amazona... Por eu não conseguir me defender... Também acha que sou uma merda de pessoa por não ter falado a verdade a vocês?
— Dadá, aquenda o delírio! Claro que não Mosca! — disse eloquente e tenso — E nem o Mu pensa isso... Não ponha ovos no que ele disse, e nem palavras na boca dele...
— Como não? Não ouviu as coisas que ele me disse? — respondeu enérgica e arfante.
— Mosca, qualquer um vê que ele não está no juízo perfeito. Deve ter tomado muita pancada na cabeça... — suspirou — Olha, para o Buda aparecer aqui feito o Espirito Santo que desceu no dia da anunciação e arrebatar ele daqui é porque a gay tá bem lôca.
— Hum... vocês homens. Sempre se protegendo — disse desgostosa.
— Onde tem homem aqui, santa?... Sabe, eu entendo ele. Ele acha que você se colocou em risco indo morar em Gêmeos com aquela alma sebosa e não abrindo o jogo com a gente, e nisso sim, eu concordo com ele, mas não te julgo... — suspirou sentando-se no modesto sofá de estofado amarelo. De fato não podia julgá-la. Assumira todos os riscos de um relacionamento com Camus e já sofrera as consequências de diversos deles. O mais grave há seis anos, quando quase morreu depois de um levante da Vory v Zakone contra o Santuário após Dimitri descobrir seu caso com o francês — Você deveria, sim, ter nos contado, porque certamente nossa postura seria outra e os cuidados redobrados. A isso que o Mu se referiu.
— Mas eu não consegui... não tive coragem. Eu não queria lembrar. Não queria lembrar Dele, nunca mais. Mas eu queria o Saga de volta. O meu Saga... Eu prometi que seria o farol dele... Eu prometi que o traria de volta... Eu não podia desistir... — disse sentindo a própria voz se embargar até sumir.
Com cuidado, e delicadamente, Afrodite a puxou pela mão até a fazer sentar-se a seu lado no sofá.
— Eu sinto muito pelo que aconteceu — disse Peixes em voz baixa e levemente embargada — E eu te peço perdão por naquela época não me importar, sequer imaginar que algo desse tipo pudesse acontecer a você. Dadá, eu já nem tenho mais cara para te pedir tanto perdão. Eu praticamente te peço perdão todo dia por uma cagada diferente — suspirou profundamente e coçou a cabeça nervoso — Mas, nesse caso, só existe um culpado, o malassombrado do Coiso. Você não tem culpa, o Mu não tem culpa, apenas está perdido e desesperado como eu, como você, como o Saga... Dê um tempo a ele também. Ele está com medo, Geisty, medo de perder a família dele, e você faz parte dela. O medo faz as pessoas agirem de forma estranha. Eu tenho certeza de que quando o encosto do velho Shion sair das costas dele ele vai voltar a ser o cara ponderado e lúcido que sempre foi, e então vocês vão resolver essa charufinácea toda. Por enquanto, o que acha da gente arrumar esse seu moquifo aqui? Eu te ajudo.
Geisty se afundou no sofá colocando os pés sobre o acento e apoiando os braços nos joelhos enfaixados. Olhou para a mala rosa de rodinhas lambrecadas de lama. Ela destoava daquele cenário cinzento; seu lugar era em Bora Bora, certamente.
Suspirou rendida. Estava magoada com os dois amigos. Não achava justo cobrarem algo de si que ela mesma decidiu deixar enterrado no passado, mas compreendia a preocupação deles. Era legítima.
Sem conseguir encarar os olhos aquamarines que tinha certeza estarem voltados para si cheios de boas intenções, Geisty afundou-se ainda mais no sofá.
Afrodite, vendo ela naquele estado, tentou anima-la com algo que sabia ser seu ponto fraco.
— Sabe, eu coloquei um vinho daqueles invocados que tinha no seu quarto aí, dentro da mala — disse ele sorridente — Quer beber?
Ela olhou para ele de soslaio.
Já era alguma coisa.
Sem pressa ele foi até a mala, apanhou a garrafa e a abriu. Na falta de taças eles decidiram beber no gargalo mesmo, sentados lado a lado no sofá.
— Obrigada... — ela finalmente disse no décimo ou décimo segundo gole.
Afrodite olhou para ela lhe tomando a garrafa das mãos.
— Não tem de que — ele sorriu, depois deu um gole generoso na bebida.
— E eu te perdoo... Também não fui uma boa pessoa para você naquela época. Fiz você atender o prefeito Praxédes semanas seguidas...
— Foi uma época bosta, melhor esquecer... mas... foi quando eu conheci o Batman!
Geisty sorriu finalmente.
— Pois é... tudo tem dois lados, o bom e o ruim... Quem dera o Saga tivesse apenas o bom... — ela suspirou e pensou por um momento — Acreditou nessa história que ele contou de psiquiatra? Será que ele foi mesmo procurar ajuda médica para tentar segurar o Coiso?
— Ué, claro que acreditei! Por que ele mentiria? Saga sempre foi miolo mole, Mosca.
— Acha que ele vai conseguir?... Acha que o problema dele é... físico?
— Eu não sei, mas Dadá permita que ele consiga sim! E também permita que Kiki fique curado logo, que o Batman um dia saia da Batcaverna e se case comigo, e que você saia logo dessa casa mequetrefe alofenta*, amém!
— Ah, vai começar a menosprezar a minha casa? Estava demorando! Ela é pequena, mas é jeitosa.
— Igual você. É bruta, mas a gente se acostuma.
— Antes bruta que iludida... Está esperando o Batman se casar com você só porque ficaram noivos? Aliás, que noivado mais sem graça, bicha. Nem uma festinha, nada!... Enfim, de todo jeito, para ele se casar com você antes ele tem que se divorciar da coroa que sustenta ele.
— Aaaaah, não! De novo isso?
E entre brincadeiras, goladas de vinho no gargalo, risos e também choro, os dois passaram horas ali, lamentando vez ou outra a falta que Mu fazia nessas reuniões do Trio Ternura, mas entendendo que ele também precisava de um tempo para reorganizar-se.
Quando a noite caiu, Afrodite se despediu de Geisty com a promessa de que sempre estaria ao lado dela, apoiando nas decisões que tomasse, mas agora ciente de que seu amor cego por Saga poderia leva-la a tomar decisões arriscadas demais. Ficaria bem mais atento.
Foi com um nó na garganta que enquanto seguia pelo caminho de terra batida da Vila das Amazonas ele via a amiga lhe acenar da janela de madeira.
Pediu em silêncio aos deuses que cuidassem dela nessa nova jornada.
Dicionário Afroditesco
Alofento – mal cheiroso
Firmar o toco — esfriar a cabeça, se acalmar, tranquilizar-se
Pára de palco! — diz para alguém que está fazendo barraco; parar de dar show
