– Molly! – exclamei, entrando na casa que eu tanto adorava.

– Hermione, querida! – disse, me abraçando daquele jeito caloroso Molly Weasley de ser. – Imaginei que chegaria mais tarde e que... – sua voz morreu quando Snape apareceu atrás de mim. – Severo... – cumprimentou ela, gentil.

– Srª Weasley... – respondeu ele, formalmente.

– Quis chegar mais cedo – quebrei o silêncio, fazendo Molly voltar as atenções para mim.

– Claro, claro! Vou te ajudar no que for preciso... É uma pena que Gina não esteja aqui também. – lamentou ela. Sim, era uma pena. Eu precisava muito conversar com ela. – E Severo, Arthur ainda não está aqui, mas pode ficar à vontade. – soltou educada mas não tão carinhosa, esforçando-se para não irritá-lo.

– Eu agradeço, mas não ficarei. – ele disse, me olhando intensamente. Meu estômago gelou. Sustentei o olhar, o que foi a deixa para a senhora Weasley encontrar algo para fazer na cozinha.

Ainda estava zangada com ele, então não daria o braço a torcer. Incrivelmente foi ele quem falou.

– Não estou a deixando de fora... – começou, fazendo-me olhá-lo furiosa – Tudo bem, talvez eu esteja. Só acho que já tem coisas demasiadas em sua vida agora. Muito para processar. – Por essa eu não esperava. Ele estava tentando me proteger?

– Eu escolhi dividir o fardo com você. Já conversamos tanto sobre isso... – suspirei, exausta.

Ele apenas me olhou, sem dizer uma palavra. Silenciosamente, tirou de dentro da capa uma caixa preta, colocou-a em cima da mesinha e saiu.

Ainda em choque, peguei o embrulho com dificuldade. Ao abrir, deparei-me com uma pulseira delicada, em ouro, com pequenos rubis. Era linda. 'Vermelho e dourado', sorri. Mas o que me fez sorrir ainda mais foi o bilhete: curto mas intenso, muito mais do que eu podia esperar dele.

Vermelho e dourado é uma péssima combinação. Mas na senhorita fica tolerável.

S.S.

– Hermione, querida, tudo bem? – perguntou a voz melodiosa, fazendo-me acordar do transe. Acho que respondi com um resmungo ininteligível, pois o olhar dela pousou no bilhete que eu não conseguia parar de olhar, para depois recair na joia.

– É uma linda pulseira... Foi Severo quem lhe deu?

– Espantosamente, sim. Foi ele. – respondi, depois de um pesado suspiro – Eu não sei ao certo como lidar com ele, Molly. Uma hora ele é tão grosseiro! Na outra está conversando amigavelmente... Depois me afasta com palavras horríveis e, agora, me dá um presente! Eu não sei como processar isso. – desabafei, exasperada, recebendo um afago nas costas em resposta.

– Não posso imaginar como tudo isso está sendo difícil, Hermione, mas ele se importa com você. E muito. – completou ela, enfatizando o 'muito'. Olhei-a curiosamente, e ela prosseguiu. – Bichento, o seu gato... – continuei sem entender – Ele o levou para você, Gina me contou por carta. Severo está fazendo 'vista grossa' para as correspondências dela. – disse, sorrindo, começando a tagarelar.

– Sim, mas foi só porque os Irmãos Carrow ameaçaram matá-lo. – disse, cortando o discurso caloroso de Molly.

– Matá-lo? Não querida, isso não aconteceu! Eles nem chegaram a ver Bichento nas masmorras. Você deve ter entendido errado... Gina procurou Severo para entregar Bichento, dizendo que ficaria feliz por tê-lo em seu aniversário. Ele tentou ignorá-la, mas no fim acabou cedendo. Peculiar não acha? – perguntou, lançando-me um olhar brilhante.

– Não foi assim que ele me contou... – sussurrei.

– Claro que não, Hermione! – respondeu, divertida com minha expressão de felicidade incontida. Estava gargalhando por dentro e não admitiria nunca, mas Molly, sendo mãe de sete filhos, perceberia certas coisas de longe. Talvez mães bruxas, ou trouxas também, sejam oclumentes naturais – Querida, o que está acontecendo?

Acho que não precisei responder, meu olhar angustiado disse tudo. E a resposta dela foi a melhor que eu poderia ter recebido naquele momento: um abraço. Soltei todo o desespero que estava entalado, apertando meu coração.

– Como eu deixei isso acontecer, Molly? Como?!

– Não se controla essas coisas, Hermione. Você deveria saber... E ele, bem... – hesitou – corresponde?

– Não. – respondi seca, tentando não revelar minha frustração.

– Dê tempo ao tempo. Tudo parece muito confuso agora, mas elas vão se ajeitar. Severo só deve estar tentando te proteger.

– Como você fala tão amigavelmente dele? – perguntei curiosa – Digo, muitos desacreditam que ele é inocente... Mesmo Harry e Rony, eles não aceitam isso até hoje. Porque está sendo tão flexível? Claro, Dumbledore, mas...

– Não é pelo que Dumbledore disse – cortou ela – Passei a acreditar em Severo no dia em que ele a salvou no casamento do Gui.

– Você viu? – questionei, assustada.

– Sim, e muitos teriam visto se o meu feitiço não o tivesse ajudado. Ele estava tão focado que nem sequer se deu conta do feitiço básico que lançou. Realmente estranhei como ele foi tão descuidado. Você deve tê-lo irritado bastante.

– Eu não entendo...

– Hermione, ele pode não amar você. – e ouvir isso doeu – Mas alguma coisa ele sente, não tenho dúvidas disso! E uma pessoa que protege a outra assim, tão puramente, não pode ser ruim. – concluiu, sorrindo. – Bom, agora vamos parar com a conversa que você tem que se arrumar! – e sem esperar resposta me puxou escada acima.

...

Estava sem coragem de me olhar no espelho, temendo um ataque de pânico. 'Eu vou me casar...', era o que eu repetia incansavelmente. 'Pelos céus, Hermione, é só um vestido!', sussurrei, tentando me convencer a encarar minha aparência de uma vez por todas.

– Você está linda, Hermione. Não tenha medo de se olhar. – disse Molly, suavemente.

E respirando fundo, fiz o caminho até o espelho de Gina como se estivesse caminhando para a morte. Mas quando finalmente olhei meu reflexo, não me assustei como temia. O vestido caiu perfeitamente, sem exageros. E acho que meu cabelo nunca tinha estado tão bonito.

– A senhora fez um pequeno milagre aqui, Molly. – brinquei apontando para o cabelo, quebrando a tensão.

Os cachos soltos pendiam pelos meus ombros, e uma tiara de pequenas flores do campo completava o conjunto. Simples, natural, bonito. Mas o que mais chamava a minha atenção era a pulseira no pulso esquerdo. Por algum motivo cogitei como ela ficaria se ao invés de rubis fossem esmeraldas. Num impulso, peguei minha varinha no intuito de transfigurá-la. Não poderia trocar sua essência, mas poderia trocar sua cor.

Molly assistiu àquele momento com a boca ligeiramente aberta, o que me fez corar furiosamente. E ela nem tentou disfarçar o espanto, continuou alternando o olhar entre mim e a pulseira num misto de curiosidade e diversão.

– Achei que verde e prata iam combinar mais com o vestido... – disse, implorando mentalmente que ela desistisse de continuar o assunto. Mas não, Molly continuou me olhando como se pedisse uma explicação. – Ah, não diga nada, ok? Eu nem sei porquê transfigurei essa pulseira. Eu nem deveria usá-la!

– Mas é claro que deveria, minha querida. Seria uma desfeita renegar o presente, e não há motivos para criar animosidades entre vocês... - 'Porque já bastam as inúmeras existentes', eu podia jurar que ela completaria a frase assim não fosse a voz estridente de uma Gina empolgada abrindo a porta.

– Gina?! – exclamamos eu e Molly ao mesmo tempo.

– Hermione, você está linda! – gritou ela, correndo para me abraçar. – Oi mãe!

– Querida, o que faz aqui? – Gina pareceu hesitar, e ela não mentia bem para tentar inventar uma história.

– O professor Snape... ele me liberou para assistir ao casamento. – eu queria perguntar, gritar na verdade, o que? como? porque? mas Gina lançou um olhar do tipo 'não pergunte nada agora' e eu assenti. – Mãe, o professor Lupin e a professora McGonagall chegaram e estão lá embaixo com o professor Snape...

– Oh sim, claro! – soltou Molly, despercebida dos olhares que eu e Gina trocávamos como se fossem códigos. – E Hermione, quando estiver pronta... – e eu gelei. Quando estiver pronta... Se eu fosse seguir essa máxima, não me casaria naquele dia.

– Gina, como chegou até aqui?

– O professor Snape... Eu fui chamada no meio da aula e imaginei que estivesse encrencada...

– Encrencada? Porque estaria? – a interrompi.

– Depois eu explico essa parte. Tem ligação com a espada de Gryffindor. – e quando eu ameacei perguntar algo, ela continuou – O professor Snape estava muito desconcertado quando o encontrei. Imaginei que estaria furioso ou algo pior, mas ele só estava tentando me dizer algo. Acho que esperei ele ter coragem para falar por uns dez minutos! 'Típico', pensei.

– Enfim, ele inventou alguma história sobre ter mais testemunhas na cerimônia, mas eu acho que não é isso... – completou ela, sorrindo.

– E o que você acha que é, Gina? – instiguei.

– O óbvio, Hermione! Ele quer que as coisas saiam de um modo não muito traumático para você. Talvez ele tenha pensado que ter a amiga no dia do casamento não fosse algo tão absurdo afinal. – disse, dando de ombros – Um verdadeiro cavalheiro!

– Snape? Cavalheiro? Ok, Gina, você foi longe demais agora! – e rimos sonoramente.

Só que eu sabia que a ideia não era de tudo absurda. O formalismo dele beirava à Idade Média. Os trajes, o modo de andar, o modo de se portar... Sim, talvez eu estivesse me casando com um verdadeiro cavalheiro. Mas por algum motivo eu não queria que fosse assim. Não queria que agisse de modo educado apenas para facilitar as coisas para mim. Queria que ele fizesse essas coisas pensando em mim, e não por ser o certo a se fazer.

– Hermione... – acordei do meu triste devaneio com um olhar cúmplice de Gina – eu sei o que está pensando. O fato de ele agir como um homem correto não quer dizer que ele só esteja seguindo a etiqueta. Na verdade, ele deve estar pouco se lixando pra isso – confortou-me ela – Ele gosta de você...

– Ah por favor, Gina! – a repreendi.

– Hermione, sério. Ele levou Bichento até você, me trouxe até aqui, te salvou... – se abriu comigo, me beijou... – o que mais você quer? – segurança, era o que eu queria. Saber que aquele sentimento vívido que crescia de uma maneira tão assombrosa dentro de mim não era unilateral. Saber que eu não estava ficando louca por te me apaixonado por Severo Snape.