Sun is up, I'm a mess
Gotta get out now, gotta run from this
Here comes the shame, here comes the shame
(Chandelier - Sia)
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Harry despertou antes do amanhecer, como de costume. Observou o corpo adormecido ao seu lado por um momento, a respiração tranquila, a expressão relaxada, algumas mechas do cabelo crescido tocando a bochecha suavemente. Imaginou se Draco estava deixando o cabelo crescer de propósito ou se simplesmente se esquecera de cortá-lo bem curto, como de costume. Harry estava desacostumado a acordar vestido ao lado do loiro, mas o cabelo e o pijama fizeram com que Draco parecesse muito mais jovem.
Era verdade o que Harry dissera à Prof. Vector sobre Draco não se abrir com ele, mas Harry achava que conseguia ler Draco melhor agora. Ele estava lidando melhor com tudo aquilo, embora ainda tivesse um longo caminho a percorrer para a recuperação, de fato. Draco estava mais relaxado, menos na defensiva e já fazia algum tempo que não tinha pesadelos no meio da noite. Quanto à sua autoconfiança... bem, ele iria recuperá-la com o tempo, Harry tinha certeza.
Não havia muito que pudesse fazer para ajudá-lo. Draco tinha que lutar contra seus próprios demônios sozinho. O máximo que Harry podia fazer era estar lá por ele, mostrar que se importava e dar tempo ao tempo. Draco ainda agia como se Harry fosse sair da sua vida a qualquer momento, novamente, por isso Harry precisava mostrar a ele que não iria a lugar algum, não importa o que acontecesse. E os próximos meses definitivamente seriam uma provação e tanto, mas Harry não era nada senão determinado.
Harry levantou-se com cuidado para não balançar o colchão e trocou o pijama pelo moletom de corrida. Conteve um arrepio ao sair para o ar gelado do lado de fora de Grimmauld Place, mas sabia por experiência que logo estaria suando por baixo da roupa leve. Lançou o costumeiro feitiço de desilusão sobre si mesmo e em seguida pôs-se a correr. Os primeiros quarteirões eram os mais difíceis, depois seu corpo acostumava com o ritmo e a adrenalina fazia seu trabalho, aquecendo seus músculos rapidamente e causando uma sensação de satisfação.
Estava tão absorto nos próprios pensamentos que só percebeu o caminho que fazia quando já era tarde demais. Desacelerou o ritmo ao ver a silhueta de uma velha senhora na varanda de uma casa bastante simples no final da rua, acenando com uma colher de jardinagem.
"Bom dia, Harry!" A bruxa cumprimentou, bem-humorada.
"Olá, Madame Manson." Harry parou em frente ao gramado bem podado, arfando, espantando um gato que xeretava um arbusto de flores. "Está um ótimo dia, de fato."
"Alguém acordou com o pé direito hoje," Madame Manson brincou, os olhos marcados pelas rugas cada vez mais profundas ao redor dos seus olhos e boca. "Tenho algo que vai adoçar ainda mais essa manhã, você vai ver. Espere só um instantinho..." a senhora falou, já retirando o avental sujo de terra.
"Não, Madame Manson, não precisa se incomodar..." Harry falou, em vão. Procurava evitar ao máximo passar por aquele caminho, pois sabia que não voltaria de mãos abanando caso o fizesse. "Precisa de ajuda?" Acabou oferecendo, quando a Madame Manson frustrou todas as suas tentativas de recusar a oferta.
"Não será preciso. Não quero atrasar você," a bruxa falou, subindo os pequenos degraus da entrada com alguma dificuldade, seguida de perto pelo seu gato. "Sei como vocês jovens são apressados, hoje em dia..."
Harry sorriu, meneando a cabeça. Sabia que aquilo não era muito prudente, mas a velha senhora não era uma completa estranha. Harry tomara o cuidado de pesquisar sobre ela e descobrira que era a tia solteira de um dos funcionários do Departamento de Jogos e Esportes Mágicos. Além disso, ela lhe lembrava muito a Sra. Figg, que falecera alguns anos antes.
"Aqui está!" Madame Manson voltou e Harry foi até ela, aceitando o embrulho que ela trazia e oferecendo apoio para que ela descesse os degraus. "Ah, obrigada, querido. Espero que goste dos brioches. Meus feitiços de aquecimento já não são mais tão bons como antigamente, então é melhor comer logo!"
Harry agradeceu e enfiou o embrulho no bolso do moletom, acenando antes de acelerar o passo novamente.
Quando voltou para casa, não se surpreendeu ao encontrar Draco ainda na cama. Abriu a porta do quarto com cuidado e tinha quase alcançado o banheiro quando ouviu o sussurrar do tecido denunciando um movimento.
"Mhhhngh" ele ouviu o loiro murmurar.
"Que foi que você disse?" Harry se aproximou da cama, cuidando para manter o tom de voz baixo no caso de Draco ainda estar dormindo.
Draco abriu os olhos com certa dificuldade, o cabelo amassado onde estivera apoiado no travesseiro e o rosto marcado pelas dobras da fronha.
"Eu disse: aonde você pensa que vai?" ele falou, ainda um pouco enrolado.
"Vou tomar um banho," Harry falou, sentando-se na beirada da cama para beijá-lo suavemente nos lábios enquanto enfiava a mão gelada por baixo do pijama, tocando a pele quente da sua cintura e fazendo com que ele se sobressaltasse, fugindo do toque e xingando.
Harry sorriu, observando enquanto ele tornava a enfiar o rosto no travesseiro e levantou-se, despindo a parte de cima do moletom enquanto refazia o caminho até o banheiro. Porém, antes que o alcançasse, Draco se sentou na cama para encará-lo.
"Potter," ele chamou, irritado.
"Hm?"
"Volte aqui, sim?" Ele bateu a mão ao lado da cama.
"Estou todo suado..." Harry falou, passando a mão pelos cabelos.
Draco rolou os olhos e alcançou a própria varinha ao lado da cama, apontando-a para a própria boca e murmurando um encantamento.
"O que trás a pergunta: por que eu não estou suado, também?"
"É uma boa pergunta." Harry sorriu, engatinhando pela cama até estar sobre ele, retirando os óculos e depositando-os no criado-mudo. Quando o beijou, sentiu o gosto fresco de menta.
Draco segurou-o pela nuca com uma mão e pela cintura com a outra, trazendo-o para mais perto e aprofundando o beijo, arrancando um gemido de Harry. Ele deixou que Draco explorasse o seu tronco nu com as mãos enquanto lhe beijava o maxilar e o pescoço, sentindo a aspereza da barba por fazer até que Draco o empurrou, baixando os olhos para o braço esquerdo do moreno, onde sua mão estivera momentos atrás.
"O que é isso?" Ele perguntou, percebendo a falta dos pelos.
"Ah," Harry contorceu a boca em contrariedade. "Um pequeno acidente de trabalho. Não foi nada," ele garantiu diante do olhar estreito do loiro.
Harry já ia abaixar novamente para beijá-lo quando Draco inverteu as posições, empurrando-o contra o colchão e ajoelhou entre as suas pernas enquanto despia a parte de cima do pijama. As mãos de Harry imediatamente puseram-se a explorar a pele exposta e daquela vez o loiro não se retraiu ao toque das suas mãos já consideravelmente mais aquecidas.
Eles voltaram a se beijar enquanto Draco esfregava o quadril firmemente contra o do moreno. Harry deixou as mãos deslizarem pelas costas de Draco até se esgueirar por dentro da calça do pijama, segurando seu membro já totalmente ereto e trazendo-o para ainda mais perto. Draco mordeu o lábio inferior e jogou a cabeça para trás, expondo o pescoço novamente para a boca ávida de Harry.
"Coloque os dedos em mim," Harry sussurrou no ouvido de Draco, fazendo com que ele parasse abruptamente para encará-lo nos olhos. Harry deixou a cabeça cair contra o travesseiro e susteve o seu olhar como se o desafiasse a duvidar das suas palavras.
Aquilo fez com que a expressão do loiro passasse rapidamente de incerteza para determinação e ele saiu de cima de Harry para alcançar o lubrificante no criado, aproveitando para despir o restante do pijama. Harry também livrou-se rapidamente do restante das suas roupas.
"Fique de quatro," Draco ordenou e Harry engoliu um protesto. Gostava de observar a expressão do loiro durante o sexo, a maneira como suas pupilas escureciam de desejo enquanto ele ofegava e dizia palavras sujas. Harry achava que nunca se acostumaria com aquilo, pois Draco era sempre tão cuidadoso com as próprias palavras no restante do tempo que era admirável a maneira como ele se libertava naqueles momentos.
Antes que pudesse se impedir, Harry viu-se obedecendo, apoiando-se nas mãos e nos joelhos sobre a cama e se colocando à mercê do outro. Draco posicionou-se entre as suas pernas e segurou seu quadril com uma mão, debruçando-se sobre ele para beijar o seu pescoço enquanto o preparava com a outra mão, os dedos revestidos da substância viscosa circulando-o e relaxando-o antes de o invadirem com facilidade.
"Ahh," Harry ofegou, empurrando-se de encontro a ele.
"Você gosta?" Draco perguntou junto ao seu ouvido.
"Sim," Harry admitiu, sem qualquer pudor.
"E assim?" Draco escorregou mais um dedo, ao que o seu corpo resistiu por um breve momento antes que ele assentisse avidamente. Então ele curvou-os e Harry sentiu um choque delicioso espalhando-se desde suas entranhas. "Não estou ouvindo," Draco provocou.
"Sim, eu gosto," Harry falou, as mãos fechando-se sobre o lençol da cama conforme Draco continuava a tocá-lo no mesmo lugar.
Draco beijou, lambeu e mordeu seus ombros antes de adicionar um terceiro dedo e continuar com sua tortura. Ele definitivamente havia se soltado mais desde a primeira vez que eles tentaram aquilo. Diferente de se sentir receoso por ceder o controle, Harry sentira um tipo totalmente novo de excitação.
"Draco..." Harry disse em tom de aviso, a mão agindo por conta própria para tocar a própria ereção, porém o loiro afastou-a antes que ele conseguisse seu intento.
Harry grunhiu e já estava se preparando para aguentar um pouco mais de tortura, porém Draco logo retirou os dedos de dentro dele e pôs-se a espalhar lubrificante sobre si mesmo, dando algum tempo para que o moreno se recuperasse. Quando ele voltou a se posicionar, Harry já havia relaxado as mãos sobre a cama novamente.
"Se doer, me avise," Draco sussurrou novamente contra o seu ouvido e só então Harry reparou no quão ofegante ele também estava.
Harry assentiu e Draco empurrou-se lentamente, dando tempo para que ele se ajustasse à invasão enquanto distribuía beijos em sua nuca. Somente os dedos que se enterravam em sua cintura denunciavam o quanto ele estava se controlando para não ir mais rápido e Harry se sentiu grato enquanto seu corpo era esticado forçadamente. Sem que percebesse, Harry levou uma mão até o quadril de Draco, mantendo-o imóvel por um momento enquanto tentava se acostumar.
"Tudo bem?" Draco perguntou, preocupado.
"Sim." Harry soltou a respiração que havia prendido e sentiu os dedos de Draco também relaxarem um pouco o aperto de ferro em sua cintura. "Toque em mim, sim?"
Draco atendeu ao seu pedido prontamente, estimulando-o lentamente enquanto se movia no mesmo ritmo, até que Harry soltou um gemido, encorajando-o a ir mais rápido. Logo eles estavam se movendo descoordenadamente de encontro um ao outro e Draco segurou seu quadril no lugar com uma mão, estocando com firmeza e estimulando-o com a outra mão enquanto xingava e grunhia.
"Ah Harry... tão apertado... porra... tão quente... Goza para mim, goza..."
Harry já estava lá antes mesmo que as palavras saíssem da boca de Draco, seus testículos pulsando em ondas intensas enquanto ele se derramava na mão do loiro e este xingava ainda mais alto, investindo impetuosamente contra ele até parar abruptamente, ofegando. Ele moveu-se mais algumas vezes até relaxar por completo, as batidas do seu coração ecoando fortemente contra as costas do moreno.
Os braços de Harry cederam sob o peso de Draco e eles desmoronaram sobre a cama, a respiração entrecortada e o suor esfriando lentamente na pele.
"Está bom assim?" Harry perguntou, virando-se de frente para ele e tocando a têmpora do loiro, onde o cabelo molhado grudava na pele.
"Tirando o fato de que está ingloriosamente cedo," Draco murmurou, aconchegando-se junto ao peito de Harry e puxando a coberta sobre ambos. "Bem melhor," ele suspirou.
Levemente desconfortável pela sensação incomum do lubrificante esfriando entre suas pernas, Harry abriu a boca para protestar, mas seus músculos estavam começando a ficar doloridos. Então ele se limitou a alcançar a própria varinha e lançar um feitiço de limpeza antes de relaxar completamente.
.oOo.
"Potter!"
Harry quase derrubou a panqueca com o susto, mas conseguiu arrumá-la na frigideira com uma sacudida precisa antes de voltar a atenção para Draco, que estava sentado à mesa com o Profeta Diário aberto diante do nariz. Harry gemeu ao ver a foto na manchete da primeira página.
"É isso que você chama de pequeno acidente de trabalho?" Draco levantou os olhos para encará-lo com o rosto mais pálido que o normal. "Uma quimera? Realmente?"
"Ah," Harry empurrou os óculos, deslizando-os sobre a ponte do nariz. "Bem, o que posso dizer? Não tive muita escolha..."
"Eu sabia que você era grifinório demais para a própria segurança, mas... honestamente, isso é demais até para os seus padrões!"
"Olha," Harry colocou a última panqueca na pilha ao lado do fogão e apagou o fogo antes de levá-las para a mesa. "O que quer que tenham escrito aí, garanto que não foi nada do tipo."
"Sério?" Draco levantou uma sobrancelha, sarcástico. "Porque aqui está dizendo que você matou uma quimera para salvar a vida de uma garota qualquer que..." ele folheou algumas páginas, "oh, parece que é a sua namorada secreta, quem diria?"
"O quê?" Harry limpou as mãos no avental enquanto se posicionava atrás de Draco para ler a manchete. "Que ridículo! Eu nunca tinha visto essa garota antes na minha vida! E era um bebê quimera, se é que isso faz alguma diferença..."
Draco encarou-o por cima do ombro como quem confirma que não, não fazia diferença. Harry suspirou e retirou o avental antes de se sentar de frente para o loiro, que ainda passava os olhos na matéria. Incapaz de se conter, Harry levantou a mão e colocou-a sobre o jornal.
"Escute," ele falou quando Draco finalmente levantou os olhos para encará-lo. "Guarde isso, por favor. Prometo que conto tudo para você, mas será que podemos tomar café primeiro?" Ele esperou enquanto Draco dobrava o jornal e o colocava de lado antes de se servir de uma panqueca, evitando encará-lo.
Harry suspirou. Aquele humor não ia ajudar em nada com as notícias que tinha para dar.
"Tudo bem, aqui vai," Harry disse, também se servindo de panquecas enquanto contava sobre o chamado que haviam recebido na manhã anterior sobre o desaparecimento de um bruxo. O rapaz morava sozinho e passava a maior parte do tempo viajando, sendo que a última viagem que fizera fora para a Grécia, alguns meses atrás. A irmã do rapaz disse que vinha tentando contatá-lo havia alguns dias sem sucesso. Quando aparecera na casa do irmão, ela estava totalmente abandonada, a mesa de jantar ainda posta, a cama desfeita e os documentos do rapaz ao lado do criado-mudo. Ela contatara os aurores imediatamente e Harry reunira uma equipe para fazer uma averiguação pela casa. Eles logo descobriram um alçapão onde, aparentemente, o jovem bruxo vinha criando uma quimera que contrabandeara da Grécia.
Draco fungou.
"E é claro que, ao invés de chamar o Departamento de Regulação e Controle das Criaturas Mágicas, você preferiu salvar a garota você mesmo." Ele enfiou o garfo com força em sua panqueca.
"Nós mal tivemos tempo de mandar um patrono!" Harry defendeu-se. "Não é como se algum de nós estivesse esperando encontrar uma quimera no porão de uma casa em Londres! Eu estava lutando pela minha vida e dos meus colegas tanto quanto pela da garota, pelo amor de Deus!"
Aquilo fez com que Draco se calasse, embora suas narinas permanecessem alargadas.
"E quanto ao bruxo?" Ele acabou perguntando depois de algum tempo em que só se ouviam o barulho dos talheres.
"Morto." Harry reconhecia o pedido de desculpas disfarçado naquela tentativa de puxar conversa, mas ainda estava um tanto magoado para aceitá-lo.
"Como é que ele conseguiu contrabandear uma quimera?"
"Ele provavelmente deu um jeito de trazer o ovo e chocá-lo," Harry encolheu os ombros.
Draco levantou os olhos para encará-lo, perscrutador, porém Harry evitou seu olhar.
"Skeeter diz que um tal de Walker pretende processar você por matar um animal mágico raro," ele continuou e Harry rolou os olhos.
"Que seja. Bellamy provavelmente vai ficar feliz com tudo isso," ele fez um gesto vago em direção ao Profeta.
Aquilo fez com que Draco se endireitasse na cadeira, os olhos estreitos.
"Quem?"
"Bellamy Closs." Harry franziu o cenho diante da expressão do loiro. "A diretora do conselho de St. Hedwig? Eu nunca mencionei ela para você?"
"Não." Draco alcançou seu chá, bebendo um gole e voltando a atenção para seu prato novamente.
"Bem, sobre isso..." Harry respirou fundo. "Tenho me encontrado com o pessoal da instituição há algumas semanas. Eles estão precisando de fundos e planejam fazer um evento beneficente no Natal. Não sei se você chegou a acompanhar o último baile, há uns quatro anos atrás?" Ele perguntou, ao que Draco limitou-se a encolher os ombros. Harry largou seus talheres, suspirando. "Bem, resumindo, eles precisam da minha figura pública para atrair doadores, então..."
"Eu sei como isso funciona," Draco interrompeu-o, novamente ríspido.
Harry imaginou se ele estaria se recordando do 'boom' que Harry tivera na mídia quatro anos atrás: escândalos, especulações – ainda mais que o normal –, entrevistas, supostos vazamento de informações e fotos privadas... Harry conteve um arrepio só de recordar. Harry tinha oferecido seu próprio ouro para Bellamy para evitar passar por tudo aquilo novamente, mas ela recusara prontamente, dizendo que aquilo era totalmente insustentável. Ela provavelmente tinha razão, afinal era por isso que ele tinha passado a administração da instituição para ela. Mas Harry não deixava de pensar no que toda aquela exposição na mídia significaria para Draco e o quanto aquilo poderia prejudicar o relacionamento deles.
Harry observou em silêncio enquanto Draco abandonava seus talheres e limpava a boca num guardanapo, tomando um gole de chá em seguida. Então teve um sobressalto.
"Ah, já ia me esquecendo!" Harry levantou-se e foi até o armário, retirando um embrulho e colocando-o sobre a mesa.
"O que é isso?" Draco arqueou uma sobrancelha.
"Brioches! Espero que ainda estejam quentinhos..." Ele pegou um e deu uma dentada. "Hmm... Bom..."
"Você fez isso?" Draco perguntou, pegando um doce e examinando-o atentamente.
"Não, claro que não," Harry sorriu. "Isso está definitivamente acima dos meus dotes culinários. Foi Madame Manson. Encontrei com ela hoje pela manhã e..."
Harry interrompeu-se diante do arrastar da cadeira de Draco. Ele havia devolvido o brioche na travessa e se levantara com uma expressão gelada no rosto.
"Tenho que ir," o loiro disse, já saindo da cozinha.
Harry reagiu rapidamente, seguindo-o em direção à sala e apontando a varinha para a lareira antes que ele a alcançasse.
"Me deixe sair, Potter!" Draco rugiu, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo.
"Não até termos conversado," Harry apontou para o sofá, tornando a guardar a varinha.
"Não quero conversar."
"Então apenas escute o que eu tenho a dizer!"
"Você não pode me prender aqui dentro!" Draco apertou os maxilares, seu peito subindo e descendo rapidamente conforme ele olhava ao redor, como se buscasse alguma rota de fuga alternativa.
"Quer apostar?" Harry permaneceu parado em frente à porta rigidamente, deixando claro que ele não conseguiria sair por ali sem passar por cima de Harry primeiro.
"Porra, Harry!" Draco deixou-se cair no sofá, e Harry sentiu seus próprios músculos relaxarem uma pequena fração.
"Vamos começar pela Madame Manson, sim?" Harry começou ainda um tanto bruscamente, sentando-se na beirada da poltrona.
"Você não tem que me dar satisfações," Draco disse, sua perna balançando-se nervosamente como que para extravasar seu desconforto com aquela situação toda.
"Mas eu quero!" Harry insistiu, acalorado. "E ela não é uma completa estranha, eu procurei saber sobre ela. Não sou tão irresponsável quanto você imagina que eu seja!" Ele ignorou o bufar sarcástico de Draco. "Além do mais, ela tem uns cem anos ou mais, Draco, eu sei lá! Ela é gentil e educada e... e solitária. Não vejo motivos para tratá-la com frieza ou recusar os presentes dela só para magoá-la!"
Aquilo fez com que a perna de Draco se aquietasse, ainda que ele permanecesse com os olhos baixos.
"Bellamy é viúva, mãe de três filhos, todos mais velhos que eu," Harry continuou. "Ela já trabalhou em outras instituições de caridade antes e sabe muito bem o que faz. A garota da quimera? Eu honestamente não consigo me lembrar do nome dela agora," Harry sacudiu a cabeça. "Quem mais? A zeladora do Ministério? A secretária do departamento?"
"Pare!" Draco explodiu. "Pare de tirar sarro de mim!"
"Eu não estou!" Harry insistiu no mesmo tom indignado, mas então suspirou, passando a mão pelo rosto. "Draco, você e eu... Nós estamos juntos, certo? Eu gosto... de estar com você. Eu estou feliz com você," ele falou e assistiu conforme Draco fechava os olhos, meneando a cabeça minimamente em sinal de cepticismo. Harry escorregou ainda mais para a ponta da poltrona. "Draco! Por favor, eu preciso que você acredite no que eu digo, se nós quisermos sobreviver a este Natal e, não sei quanto a você, mas eu quero!"
Draco limitou-se a soltar um som estrangulado que poderia ser qualquer coisa. Harry conteve a vontade de xingar, frustrado.
"Isso tudo é por causa do que o Ron disse?" Harry esperou por uma resposta que não veio. Harry respirou profundamente mais uma vez. Tinha que se lembrar que Draco estava passando por uma fase difícil da sua vida e que precisava ser paciente com ele, se quisesse realmente ganhar sua confiança. "Draco... Nos próximos meses... As coisas vão ficar caóticas lá fora. Piores do que já são. Eu preciso que você saiba que não estou interessado em ninguém além de você. Não importa o que os outros digam. Por favor, diga que você acredita em mim."
Draco demorou para responder, mas Harry esperou pacientemente.
"Eu acredito em você," o ex-sonserino assentiu, ainda encarando as próprias mãos. "Eu acredito que isso é o que você pensa agora."
"Mas?" Harry pressionou, porque a maneira como ele tinha colocado ênfase na palavra "agora" indicava que havia um "mas" ali, em algum lugar.
"Weasley tem razão. Você não vai se contentar com isso para sempre. E eu fico esperando o momento em que você vai se dar conta disso. Talvez..."
"Pare aí mesmo," foi a vez de Harry interrompê-lo, taxativo. "Não se atreva a sugerir terminar comigo. Não é uma opção."
"Harry, eu não posso contar para Scorpius!"
"Eu já disse que não estou pressionando você a fazer isso! Quando você estiver pronto..."
"E se eu nunca estiver pronto?" Daquela vez, Draco levantou os olhos para encará-lo.
Harry piscou, abrindo e fechando a boca.
"Por quê?" Ele finalmente perguntou. "Depois de tudo isso, não é possível que você ainda ache que eu vou sair da sua vida assim, tão fácil! Eu entendo que você queira proteger ele, mas..."
"Não é só isso!"
"Então me diga o que é!" Harry insistiu.
Quando Draco ficou em silêncio novamente, deixando a cabeça pender para o encosto do sofá, Harry juntou-se a ele, imitando sua posição e encarando o lustre encardido.
"Ele é muito novo para manter um segredo desses," Draco falou, por fim. "Bastaria uma palavra na casa dos Greengrass e o mundo todo saberia. E não estou pronto para isso, Harry. E se eu nunca estiver?"
"E se eu me machucasse e não pudesse mais trabalhar?" Harry devolveu. "E se alguém pusesse as mãos num vira-tempo e trouxesse Voldemort de volta? Vamos lidar com essas coisas quando elas acontecerem, se elas acontecerem. Não adianta vivermos do que poderia ser. Além do mais, Scorpius vai crescer. Você não vai precisar esconder dele para sempre. Até lá..." Harry alcançou a mão de Draco e entrelaçou seus dedos. "O que há de errado em dois caras solteiros saindo juntos?"
Harry esperou pelo momento em que Draco se desvencilharia dele, mas os segundos se transformaram em minutos e nada aconteceu. Harry fechou os olhos, permitindo-se sentir um pouco de alívio.
"Ele quer que Astoria se case com você," Draco soou magoado e Harry endireitou-se para encará-lo. Draco ainda tinha os olhos fechados, os dedos em pinça sobre o nariz, como se tentasse conter uma dor de cabeça.
"Scorpius?"
"Não, Ronald Weasley. É claro que é Scorpius!"
Harry sorriu, apertando a mão dele.
"Ele vai esquecer isso logo. Ele só não está acostumado com a minha presença. Ainda."
Harry voltou a se aconchegar, daquela vez puxando o braço de Draco que ainda mantinha seguro por sobre seus ombros e apoiando a cabeça no ombro dele.
"Estive em Hogwarts ontem." Harry acariciou o braço queimado numa reação inconsciente.
"Hum?"
"Teddy se acidentou. Nada grave. Hannah mandou lembranças e Vector quer que você volte a fazer poções para a enfermaria da escola."
"O quê?" Draco remexeu-se, porém sem fazer menção de desalojá-lo.
"Ela disse que a atual professora de Poções não está dando conta de manter o estoque. Disse que entraria em contato com você em breve."
"Desde quando estão mandando recados para mim por seu intermédio?"
"Somos melhores amigos, você não sabia? Está no Profeta."
"Bem... Se está no Profeta, então deve ser verdade."
"Então..." Harry falou após uma breve pausa. "Você vai ao baile de Natal?"
Draco bufou em resposta e Harry arrependeu-se por ter tocado no assunto naquele momento.
"Você está falando sério?" Draco perguntou quando o silêncio se estendeu novamente.
"Estou." Harry virou o rosto para encará-lo, seu nariz tocando o queixo de Draco antes que o loiro se voltasse para ele, uma sobrancelha arqueada. "Não comigo, é claro. Vou levar Bellamy, de qualquer jeito. Não é justo que ela tenha todo o trabalho e não tenha com quem ir."
"E quanto aos filhos dela?"
"Casados. Vão levar as esposas."
"E quem você espera que eu leve?" Draco soou levemente irritado.
"Bem..." Harry encolheu os ombros. "Pensei que você pudesse levar Astoria."
"E quanto a Henrich?"
Harry suspirou, voltando a se aconchegar no ombro do loiro.
"Não sei. Foi só uma ideia."
"Você sabe que eu odeio esses eventos, não sabe?"
"Eu sei. Você vai receber um convite, de qualquer forma. Seus pais também, provavelmente."
"Está ficando melhor a cada minuto!" Draco disse, sarcástico.
Harry limitou-se a suspirar novamente.
"Olha, Harry, eu posso mandar meu peso em galeões, mas não me obrigue a ir!" Draco soou defensivo daquela vez e Harry rolou os olhos.
"Não vou obrigá-lo! Prometo! Só estava comentando... Não vai acontecer novamente."
Foi a vez de Draco suspirar.
"Astoria provavelmente vai, de qualquer jeito."
"Ótimo."
Eles ainda ficaram algum tempo ali, em silêncio, abraçados. Harry não soube precisar quanto tempo. Provavelmente teriam ficado ali pelo resto da manhã, não fosse a coruja que Harry recebera de Teddy, que começava com algo do tipo: 'Como assim, você matou uma quimera?'.
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