Capítulo XXIV

Harry havia tomado um banho e sentado no sofá aguardando seus amigos. Como Draco anteriormente, ele tinha um copo de whisky de fogo nas mãos.

Rony e Hermione chegaram após as 23 horas.

— Desculpe a demora Harry. — Hermione disse quando saiu da lareira.

Harry não disse nada, apenas descartou o copo sobre a mesinha de centro e caminhou até Hermione, abraçando a amiga.

— Você está cada dia mais linda! — Harry disse a Hermione, referindo-se a sua gravidez.

— Estou cada dia enorme, isso sim. — Hermione sorriu docemente.

— Por favor, sentem-se! — Harry indicou uns minutos depois. — Suponho que Rony lhe contou tudo sobre Pansy.

— Sim Harry e não sei o que dizer. Como sua amiga eu sempre serei sincera, mas quero ter o cuidado de não o julgar, ou a Rony, por terem escondido tudo isso. — Hermione lançou um olhar de soslaio ao marido.

— Rony não tem culpa Herms, é uma coisa minha. Na verdade, é também do Ministério, Pansy é uma testemunha protegida. No geral nós não podíamos dizer nada.

— Eu entendo.

Alguns minutos depois, quando Rony e Hermione se sentaram, Harry, que estava de pé, continuou.

— Eu me apaixonei por ela, por Pansy. É difícil aceitar, para mim foi. Demorei para admitir para mim mesmo. — Harry viu a expressão de compreensão no rosto dos amigos — Não foi logo no início. Quando ela veio até mim dizendo que estava grávida eu não acreditei. Pensei que tudo não passava de um plano, uma armadilha dela e talvez do Malfoy para me prejudicar de alguma forma. Pensei que ela anunciaria para todo o mundo a mentira e isso destruiria tudo o que eu mais havia desejado na vida, uma carreira respeitável e uma família, uma família com Ginny. Como eles sempre me odiaram durante a escola, foi o que imaginei...

Rony e Hermione permaneceram calados, esperando o amigo continuar.

— Quando a levei para casa, o propósito era realmente ficar de olho nela, mas eu também queria mantê-la distante de tudo o que pudesse me prejudicar, especialmente da imprensa. Já bastava todo o circo do início. Queria mantê-la isolada para que o que quer que ela tenha planejado, não desse certo. Tinha esperanças de que se fosse um plano sórdido, isso terminaria, no máximo quando a criança nascesse. Ela não poderia mais alegar ser minha porque eu faria um exame de paternidade. Mas eu queria manter tudo isso em segredo.

Harry calou-se um pouco incomodado.

— Continue Harry, sabe que pode confiar em nós. Pode nos contar tudo. Você é nosso amigo. — Hermione incentivou ao ver a expressão do amigo.

— A convivência com Pansy me aproximou dela. Tanto que dormimos juntos outra vez. — Harry ocultou o plural em sua declaração. — Desta vez ambos estávamos sóbrios e aconteceu porque queríamos. — Harry retomou o copo de whisky, girando-o na mão — Logo depois e antes que eu pudesse processar o que havia acontecido Ginny me procurou e acabamos fazendo as pazes. Logo estávamos retomando nossos planos de casamento, nossa relação. — Harry suspirou — Foi quando me distanciei de Pansy e pedi que Rony estivesse assistindo-a. Não queria repetir o mesmo erro agora que tudo estava bem entre Ginny e eu.

— Foi quando nos tornamos amigos. — Rony assumiu.

— Sim. Isso me deixou enciumado, admito. Ver a proximidade de vocês, a simpatia dela por você, como ela se sentia à vontade. As vezes isso me irritava demais. Mas cada vez que eu pensava nela, eu tentava pensar em Ginny, nos nossos planos e na nossa vida. Ginny sempre parecera o certo, o seguro, o que eu mais queria. Pansy era bagunça, era mentira, era problema. Assim eu via a ambas. Isso ajudava a me afastar de Pansy e me manter com Ginny.

— Você passou a estar todo tempo livre com Ginny e raramente ia a sua casa. Eu notei e Pansy também, ela sabia que você a estava evitando — Rony complementou.

— Sim. Queria ficar longe dela. Queria evitar Pansy a todo custo. Estar perto dela me fazia querer estar com ela e eu não sabia lidar com isso. Eu enxergava Ginny como o meu caminho a seguir e Pansy era um obstáculo para isso. Eu estava com Ginny agora.

— E você estava feliz com Ginny?

— Na maior parte do tempo sim, mas eu sentia que não era mais a mesma coisa de antes. Entretanto, eu esperava que voltasse a ser.

— E quando você percebeu seus reais sentimentos por ela Harry? — Hermione questionou.

— Somente quando Blaise a levou. — Harry disse tristemente — Eu me sentia atraído por ela, mas pensava que era somente isso, algo físico. Mas quando ela desapareceu, eu percebi que me preocupava de verdade com ela, que me importava com seu bem-estar.

— E como você se sente agora?

— Desesperado — Harry suspirou — tudo o que mais quero é encontrá-la, abraçá-la e protegê-la, independente de quem é o pai da criança.

— Pansy disse que o bebê não era seu, verdade? — Hermione trouxe à tona.

— Sim. Ela disse que não era meu filho e pediu para ficar comigo só até receber sua herança. Ela queria proteção. Pensei que como ela teria seu próprio dinheiro já não precisava mais me enganar para pegar o meu. A farsa tinha acabado. Logo eu estaria livre dela.

— Você suspeitou que ela mentia Harry?

— Confesso que sim Herms, mas pensei que era o melhor para todos e não dei um segundo pensamento a isso.

— E você Ron? — Hermione perguntou ao marido.

— Também tive minhas dúvidas. Eu via o jeito que ela agia em torno de Harry, o olhar que ela tinha e o humor que ela ficava depois, quando Harry não estava. Imaginei que ela tinha sentimentos e sofria com a distância. Suspeitei que por se sentir rejeitada, ela tinha mentido. Ela se afastou do Malfoy por causa da família dele, para não o atrapalhar, mesmo quando ela sentia algo por ele. Imaginei que ela estava fazendo o mesmo com Harry.

— Zabini pode estar mentindo? — Hemione questionou.

— Creio que não. Acredito no julgamento de Draco, ele conhece o amigo ou ex-amigo. E realmente acredito que Zabini usou veritasserum em Pansy. A forma como ele reagiu...

— Também acredito nisso. — Rony comentou.

— Considerando que você está apaixonado por Pansy, como fica Ginny?

— É possível amar duas mulheres ao mesmo tempo? — Harry perguntou desolado.

— Acredito que sim Harry. Mas as intensidades e tipologias são diferentes. — Hermione disse.

— Eu sei que amei Ginny, como mulher e companheira, ela era tudo o que eu queria, até Pansy aparecer. Mas apesar de estar apaixonado por Pansy, não sei se quero uma vida com ela como desejei com Ginny. Mas sei que não terei com a Ginny a vida que sempre quis porque isso mudou quando Pansy entrou em nossas vidas.

— Bem, isso talvez só o tempo possa esclarecer Harry. Mas você precisa pensar a respeito. — Declarou Hermione. — Agora você não vai encontrar a resposta, mas precisa decidir, achar a resposta. No final, você precisará escolher.

— Sim, eu sei que sim. E sendo honesto, não consigo me ver casando com Ginny agora, não com toda essa situação. Só quero Pansy de volta.

— Sabe, talvez você deva apenas deixar Pansy seguir sua vida como ela quer Harry, protegendo-a até o beber nascer e depois deixando-a ir — Rony opinou.

Harry ficou em silêncio encarando o amigo.

— É realmente triste o que aconteceu com ela. O que ela soube sobre sua vida e sua família. Sabe, ela não é como a garota que conhecemos em Hogwarts. Eu sei que ela lutava contra a tristeza de estar sozinha e o filho se tornou o mundo dela.

— Eu a rejeitei todo esse tempo, fazendo-a sofrer ainda mais. A essa hora Zabini já deve ter devolvido as memórias dela. Ela deve me odiar agora. — Harry falou tristemente.

— Acredita que ela voltará a ser como antes? Eu penso que não. O que ela sente agora é real. — Rony continuou.

— Mesmo que seja, não acredito que seja forte o bastante para ir contra os princípios sangue-puro dela. Para estar comigo depois de tudo o que eu fiz.

— E isso te preocupa meu amigo. Eu vejo que você agora só pensa nela. No fundo talvez você já tenha feito sua escolha. — Disse Rony.

— Nesse caso, você precisa considerar que talvez ela não queira ser encontrada, talvez ela decida ficar com o Zabini. — Hermione comentou.

Harry estremeceu com o pensamento.

— Se ela quiser ficar com ele, não poderei impedi-la, mas se for meu filho, ele ficará comigo.

— Harry... — Hermione quis argumentar.

— Não Hermione, tem que ser assim. Eu não vou permitir que meu filho fique à mercê de comensais da morte.

— Agora precisamos decidir o que fazer.

— Quero encontrá-la, quero meu filho, mesmo que Pansy não fique comigo. Apesar de que Rony tem razão, eu quero ficar com ela.

— Pensa que ela não ficará?

Harry riu sem graça.

— Eu espero que sim, com todo o meu coração eu desejo que ela escolha ficar comigo e ter uma família, mas no fundo eu sei que é mais provável que não.

— Você tem certeza de que a ama de verdade Harry? Não é apenas por ela estar grávida e você ter esse sentimento intenso de formar uma família? — Hermione encarou o amigo.

— Eu pensei sobre isso. Mas eu sei que eu a amo Hermione, de verdade. Toda a incerteza e nosso passado não foram o bastante para me impedir de sentir amor por ela. Ter um filho só completa tudo. Mas a presença dela, estar com ela, tudo isso me faz querer mais.

— E o seu casamento com Ginny? — Rony questionou.

— Não posso me casar. Se Pansy está entre nós, é porque o amor perdeu força. Terei de falar com ela, explicar, cancelar tudo e dessa vez para sempre.

— Nesse caso, vamos encontrar Pansy. Vamos rever todo o arquivo sobre Pansy, buscar pistas nas declarações dela. Devemos pedir do Malfoy as cartas que ele recebeu também, tentaremos rastrear. — Disse Hermione. —Agora descanse. Amanhã é sábado e você precisa realmente estar com a mente limpa para melhor trabalhar no caso, ainda mais com sentimentos envolvidos. Descanse no final de semana, tente não pensar ou se culpar, e não faça nada imprudente.

— Ficarei bem Hermione, não se preocupe. E obrigada por terem vindo.

— Mandarei um almoço para você amanhã e depois.

— Muito obrigada! Não sei como agradecer o apoio de vocês.

— Direi a Ginny que você tem muito trabalho para impedi-la de vir aqui. Mas sugiro que converse com ela na próxima semana Harry. — Rony acrescentou.

— Eu agradeço. Mandarei uma coruja dizendo o mesmo e bloquearei o acesso dela.

Rony e Hermione partiram e Harry bebeu finalmente a bebida em seu copo. Ele teria um final de semana para afogar todas as suas mágoas em firewhisky, além de pensar no que fazer com sua vida.

Harry encheu o copo e sentou-se no sofá, encarando o fogo da lareira. Agora que admitiu ter sentimentos por Pansy isso afetava uma dimensão maior de sua vida. Ele se perguntava o que queria e o que esperava afinal. Passou, então, a ponderar sobre o que estava a favor de cada uma das mulheres em sua vida.

Ficar com Ginny era o mais correto, o mais fácil e o mais aceito. Eles se conheciam desde que Harry tinha 11 anos, ele se sentia parte da família Weasley, ele sabia sobre toda a vida de Ginny e ela sobre a dele, eles eram amigos e amantes, o mundo magico a aceitava como sua heroína e a admirava como jogadora de quadribol, eles casariam e teriam filhos, formando uma grande família como ele sempre desejou.

Ficar com Pansy era o mais improvável, o mais difícil e o que seria amplamente criticado. Ela era um desafeto nos tempos de escola, sempre lutaram, eram opostos, era complicado, eles eram de mundos diferentes. O mundo não o perdoaria por estar com ela ao invés de Ginny, talvez nem a família Weasley. Ele tinha muito a perder. Mas se sentia com ela de uma forma como nunca se sentira antes, vivo.