Em Dol Godur...
Gandalf havia seguido as ordens da senhora Galadriel e fora, juntamente com Radagast, às altas colinas de Rudaur, onde os antigos homens do norte haviam enterrado o corpo do rei bruxo de Angmar. Foi lá que eles encontraram os túmulos vazios. Os antigos aliados de Sauron, os nove espectros do anel, haviam ressurgido.
Os magos se dirigiram a Dol Godur, onde Radagst afirmara ter encontrado a lâmina de Morgul. Gandalf pediu a ele que retornasse e contasse a Senhora Galadriel o que haviam descoberto, enquanto ele adentrava a antiga fortaleza. O mago castanho alertou sobre a possibilidade daquilo ser uma armadilha. Gandalf sabia que era, porém não tinha escolha.
O peregrino cinzento encontrou nas antigas ruínas alguém que julgava estar morto. Thráin, filho de Thór. O pai de Thórin estava vivo. Ele havia sido capturado para que revelasse sobre o mapa e a chave que havia deixado com Gandalf e que agora pertenciam a Thórin. O velho anão, porém, não cedeu em momento algum, apesar das torturas. Gandalf tentou levar seu amigo dali, mas havia mais alguém além deles por lá. Um poder tão antigo quanto maligno.
Azog, o servo do necromante, apareceu com seus lobos para impedir a fuga de Gandalf e Thráin. O mago lutou contra eles. No entanto, havia um poder mais forte do que os orcs vivendo naquelas paredes destruídas. O necromante finalmente se revelou. O peregrino cinzento não conseguiu proteger seu amigo e o antigo inimigo do mundo, Sauron, revelou-se, aprisionando Gandalf. O cajado do mago foi quebrado e a esperança parecia haver abandonado aquelas terras.
O profano aproximou-se de seu prisioneiro. Talvez ele pudesse tirar do mago alguma resposta sobre aquilo que o atormentava.
- Tenho uma proposta a fazer, mago.
Gandalf estranhou. O que aquele monstro estaria planejando?
- Estou ouvindo.
- Eu tornarei sua estadia aqui menos desagradável se me disser onde está 'a esperança de Dúrin'.
- O que quer com ela?
- Isso não é da sua conta.
Gandalf olhou ao redor.
- Tanto poder a sua disposição e seu coração temem uma criatura tão pequena.
- Cale-se, mago! Não a tememos! Nós a odiamos! Eles querem retomar Gundabad e não conseguirão! Diga-me onde ela e Dúrin caminham!
- Você deve estar enlouquecendo, Azog. Dúrin já não caminha entre nós há muito tempo!
O profano bufou.
- Ela se atreveu a invadir meus domínios. Não será poupada. Meu filho cuidará disso. Dessa vez não falhará.
- Então era ele quem estava perseguindo a pequena… Deve ter sido frustrante ter de lidar com o fracasso...
- Maldição! O que eu estava pensando quando achei que você teria alguma serventia para mim! Apodreça nessa gaiola!
Gandalf observou o orc pálido se afastar e não conseguiu parar de pensar sobre Kibil Nala. De onde ela viera? Como ela pode ter tentado invadir Gundabad? O mago fechou os olhos, implorando a Ilúvatar que ele o iluminasse. Então adormeceu e a resposta lhe foi enviada em sonho.
O mago se viu rodeado pelo vazio. Não havia nada. Apenas uma suave canção ao fundo. Aos poucos, a melodia foi se distanciando e ele pode ouvir uma voz profunda contar uma história antiga.
'Dizem que no início os anões foram feitos por Aulë na escuridão da Terra-média. Pois tão grande era o desejo de Aulë pela vinda dos Filhos, elfos e homens, para ter aprendizes a quem ensinar suas habilidades e seus conhecimentos, que não se dispôs a aguardar a realização dos desígnios de Ilúvatar. Temendo, porém, que os outros Valar pudessem condenar sua obra, trabalhou em segredo e fez em primeiro lugar os Sete Pais dos Anões num palácio sob as montanhas na Terra-média. lúvatar apiedou-se de Aulë e de seu desejo, em virtude de sua humildade. Aulë pegou os Sete Pais dos Anões e os levou para descansar em locais bem afastados; voltou em seguida a Valinor e esperou os longos anos transcorrerem até que os sete pais despertaram.
Dentre os Sete Pais, o mais venerável foi Dúrin, o Imortal, assim chamado por haver vivido mais do que qualquer outro. Dúrin despertou sozinho em Gundabad, ao contrário dos outros pais, que despertaram com suas esposas. Assim dizem as canções:
"O mundo era jovem e as montanhas eram verdes
Nenhuma mancha havia sob a lua ainda
Nenhuma palavra havia sido dada a tempestades ou pedras
Quando Dúrin acordou e caminhou sozinho.
Ele se inclinou e olhou no Lago-espelho
E viu uma coroa de estrelas aparecer
Como pedras preciosas sobre um veio de prata
Acima da sombra de sua cabeça "
Dúrin olhou ao redor e nomeou tudo o que viu, mas não achou para si a companhia que seu coração desejava. Ele deu um longo suspiro e seu desejo pairou no ar, antes de ser recolhido pelas mãos delicadas da Yavanna, esposa de Aule. Ele caminhou sozinho durante muito tempo até chegar a Kazhad-dum onde, ao se mirar no Lago-espelho viu seu anseio transmutado em uma coroa que adornava sua cabeça. Um veio de prata… Kibil Nala… E Dúrin soube que no momento certo ela, sua companheira, apareceria. E foi o que aconteceu. E Dúrin fundou o mais poderoso e mais antigo dos Reinos Anões.
Yavanna mirou o que tinha em suas mãos e indagou o marido.
- Por que, meu senhor, criaste Dúrin sozinho? Por que ele teve que esperar por tanto tempo para que lhe desse uma companheira?
- Porque desejei partilhar contigo a alegria de minha criação. A companheira de Dúrin será obra de minhas mãos. Mas das tuas há de sair uma companhia igualmente preciosa para a sua descendência. Guarda contigo o anseio do coração dele e na hora certa serão tuas mãos que darão forma a ela.
- E como saberemos que a hora terá chegado?
- 'Quando a palavra transcender a folha escrita, ligando aqueles que jamais poderiam se encontrar.' Estas foram as palavras de Mandos.
Yavanna não compreendeu de imediato, mas fez como o marido orientou e guardou consigo o suspiro de Dúrin.
Gandalf despertou inquieto. Seu coração dividido entre o desespero e a esperança. Galadriel estava certa. A esperança de Dúrin caminhava sobre a Terra Média.
