*********************** Cap 27 Laços de Família***********************

Hospital de Atenas, Ala 5, no dia seguinte ao transplante de Kiki...

O Cavaleiro de Áries já assistira a muitos nasceres do sol. Alguns deles de beleza estonteante, como o do Himalaia, cujos raios dourados são derramados pelos picos mais altos da cordilheira e descem tingindo com uma paleta de cores quentes o que a noite pintou em escalas de cinza e branco; ou os famosos e almejados amanheceres das ilhas gregas, onde a imensa bola de fogo se levanta do leito azul do Egeu e fundi seus raios de luz com as águas, produzindo um espetáculo à parte.

Aquele era o primeiro nascer do sol que assistia da janela do quarto onde Kiki estava internado.

A luz da alvorada atravessava o vidro no teto e cintilava na copa de um ipê amarelo plantado no centro do pequeno jardim de inverno do outro lado, onde também havia uma capelinha ao fundo com um *ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Debaixo dele, num banquinho de madeira, Mu examinava com desaprovação o homem sentado de pernas cruzadas e coluna perfeitamente alinhada que concentradíssimo analisava um punhado de papeis e mapas, alguns até duas vezes maiores que ele mesmo, espalhados pelo chão de pedra. Seus cabelos dourados, ou o que sobrou deles, cintilavam à luz do sol como as flores do ipê.

Mu fechou os olhos com pesar e respirou fundo; soltou o ar pela boca fazendo o mínimo de ruído.

Estava tão cansado...

Lentamente fechou as cortinas voltando a mergulhar o quarto na penumbra, então caminhou até o leito onde Kiki dormia profundamente, igualmente exausto, ainda que dali não tivesse levantado desde o procedimento no dia anterior, e com um gesto tão sutil quanto o respirar de um passarinho lhe acariciou os cabelinhos ruivos. Inclinou-se e delicadamente beijou-lhe a bochecha magra, mesmo seus lábios não podendo tocá-las por estarem cobertos pela máscara cirúrgica, depois se afastou e caminhou até a porta. Antes de sair lançou um olhar para o leito vazio do outro lado do ambiente cujas roupas de cama nem haviam sido mexidas.

Com um suspiro longo Mu deixou o quarto.

Os corredores pálidos da Ala 5 naquela hora da manhã lhe pareceram ainda mais frios e desertos. O silêncio era tão profuso, a solidão tão cerrada e a realidade tão desoladora que enquanto caminhava chegou a fantasiar que ainda dormia.

Talvez estivesse sonhando...

Quem dera.

Quando chegou ao jardim parou na porta e inalou o ar da manhã profundamente. Por um breve instante o perfume doce das flores do ipê mandaram embora o cheiro de éter e fármacos diversos dos quais seu olfato já havia se habituado e sua memória lhe fazia sentir mesmo estando a quilómetros de distância daquele lugar.

Será que um dia deixaria de sentir esse cheiro?

Com o coração apertado Mu caminhou até o banquinho de madeira. Ao lado dele havia uma pilha de livros antigos.

Em uma das mãos trazia um copo descartável com café, a outra ele mergulhou os dedos nos cabelos loiros do homem sentado no banco; os sentiu gelados e ligeiramente úmidos. Fechou os olhos aprazido quando sentiu subir deles um perfume delicioso, mistura de sândalo e flor de lótus.

— Passou a noite em claro de novo, Luz da minha vida? — perguntou estendendo a ele o copo com café.

Shaka pareceu nem perceber o gesto. Levantando a cabeça de supetão fitou os olhos de Mu com tanta intensidade que parecia pretender hipnotiza-lo.

— Marido, você precisa ver isso! — disse, e na mesma hora levantou-se do banco e precipitou-se de joelhos no chão sobre os mapas, pondo-se a organiza-los um ao lado do outro.

Mu suspirou e esfregou cansado o rosto com a mão que tinha livre.

— Ver o quê? Pelos deuses, Sha, você precisa dormir — disse preocupado. Ele mesmo não havia consigo dormir direito naquela noite, mas Virgem vinha de noites seguidas em claro, e mesmo para um cavaleiro de Ouro a falta de sono era preocupante. Não queria que Shaka começasse a ter delírios — Nós já analisamos esses mapas dezenas de vezes, por que os trouxe para cá?

— Porque queria voltar logo para o hospital. Fui até em casa dar uma olhada no Siddhartha e tomar um banho enquanto você e Kiki dormiam e...

— A Geisty e o Dido estão cuidando do Saravasinho, Sha. Não tem que se preocupar com ele. — Mu o interrompeu.

— Eu sei, mas ele só come a sardinha crua que eu preparo.

— Você acostumou muito mal esse gato.

— O Mu vai deixar o Shaka falar ou não? O assunto não é o gato Siddhartha. — repreendeu.

Áries colocou uma mão na cintura e suspirou.

— Tá bom, fale — disse, mas nem deu chance para o indiano prosseguir — E por que não tomou banho aqui mesmo? — O interrompeu com aquela pergunta que para um ariano nada mais era que pura questão de prática.

— Porque eu precisava fazer a barba, e enquanto eu estava lá me barbeando eu reparei no rótulo do creme de barbear, sabe, refletido no espelho.

Mu enrugou a testa pensativo. Nada do que Shaka dizia lhe fazia sentido.

— E você precisava se barbear às três da manhã? Shaka, pelos deuses, você precisa dormir, não se barbear às três da manhã!

— Mu de Áries! — Virgem o repreendeu novamente encarando firme seus olhos verdes.

Confuso, mas também curioso, Mu fez um sinal impaciente para que ele prosseguisse, e visivelmente ansioso deu um gole generoso no café que lhe havia ofertado.

— Veja isso — prosseguiu Shaka, e reclinado sobre o mapa encostou o indicador em um ponto que correspondia aos montes Urais, a cordilheira russa de montanhas que demarca a fronteira entre a Europa e a Ásia — Está vendo aqui? Bem nesse ponto aqui?

Ainda de pé, Áries curvou-se e estreitou os olhos, fitando o ponto indicado pelo virginiano no mapa.

Havia uma anotação manuscrita. A letra era de Shion.

Ƣ Het Hey

— Sim, estou vendo... É aquele ponto nos Urais destacado pelo meu mestre. Eu já estive lá, você sabe — respondeu Mu, então calmamente se agachou ao lado do marido e o fitou ternamente no rosto — Sha, eu sei que está desesperado...

— Mu...

— Eu também estou, e hoje mesmo vou retomar as buscas por alguma pista do meu povo, mas você... você precisa descansar, Luz da minha vida, você não tá bem...

— Mu...

— Está há dias seguidos sem dormir, e olha aí... está todo machucado... — disse, correndo os olhos por alguns arranhões no pescoço de Virgem — Pensa que eu não te vejo apertando o cilício até sua pele rasgar? Eu estou começando a me arrepender de ter feito essa merda para você e...

— Mu, eu acho que encontrei! — Shaka o interrompeu, e num gesto efusivo tocou seu rosto apertando levemente a bochecha. Nessa hora esboçou um sorriso e seus olhos azuis brilharam intensamente.

Pego de surpresa novamente Áries o fitou aflito.

— Encontrou? Encontrou o quê?

— Veja! Aqui. — Novamente Shaka apontou para a anotação no mapa virando o rosto de Mu para o mesmo local — Ƣ Het Hey.

Mu deitou os olhos no mapa e pensou por um momento.

Nada fazia sentido.

— Sha, infelizmente essa anotação só faz sentido para o Shion... Eu estive nos Urais, eu varri toda aquela maldita cordilheira. Não há nada lá além de gelo e mais... — fez uma pausa inclinando-se sobre o mapa, então mais atentamente correu os olhos para outros pontos destacados mais ao norte, demorando-se numa área inóspita famosa por um incidente misterioso envolvendo excursionistas russos.

O coração do cavaleiro de Áries repentinamente disparou.

Het Hey... Yeh-teh... — disse Shaka cujos olhos estavam cravados no rosto espantado de Mu e mal piscavam — Quando lido de trás para frente...

Yeh-teh! — Mu quase gritou. Então seus olhos se arregalaram em surpresa e com um salto ele se levantou do chão em completa euforia — Por todos os deuses do Olimpo, Shaka!... Yeh-teh! Em tibetano Uso das Rochas, ou...

YETI! — ambos falaram junto, numa só voz.

Igualmente agitado Shaka juntou os mapas todos e também se levantou às pressas.

— O tempo todo estava bem debaixo no nosso nariz! — disse ele.

— Eu não acredito! — disse Mu, e bebeu de uma só vez todo restante do café sem nem perceber — Que truque mais antigo e simples, Shion! Het Hey, Yeh-teh! — repetiu as palavras mais uma vez.

— Ele certamente queria preservar a localização desse lemuriano.

— Sem dúvida que queria!... Só pode ser ele, Sha!... Lembra do famoso incidente de Dyatlov Pass?

Shaka balançou a cabeça ao modo indiano, eufórico.

— Nove jovens montanhistas foram mortos na costa leste da montanha Kholat Syakhl no final da década de 1950, nos Urais, sob circunstâncias misteriosas. É claro que me lembro, Mu... Até hoje o caso não foi solucionado.

— Não foi solucionado e muito menos foi explicado — disse Mu — Que alienígenas e Pé Grande que nada! Um lemuriano bem treinado poderia sim ter feito aquilo sem deixar nenhum rastro! — exclamou em polvorosa. Era como se agora tudo fizesse sentido em sua mente.

Shaka franziu as sobrancelhas e contraiu as mandíbulas num claro sinal de apreensão.

— Se foi isso mesmo que aconteceu, se aqueles jovens foram mortos por um lemuriano, então esse tal de Yeti deve ser um homem bem hostil, até perigoso... Talvez seja bom Shaka ir com você dessa vez.

Mu estalou os dedos e entregou rapidamente o copinho vazio a ele.

— Luz da minha vida, você é um homem hostil e perigoso, e eu me casei com você — brincou dando um selinho nos lábios dele. Estava numa euforia quase fora de controle — Depois, lemuriano nenhum nesse mundo me assusta. Eu vou agora mesmo para lá, só preciso passar em casa antes para vestir umas roupas quentes.

Áries já recuava um passo quando Virgem lhe segurou pela mão.

— Espera, Mu — disse, e em seguida deixou os mapas junto com o copinho de café sobre o banco de madeira para ter ambas as mãos livres. Agora com menos pressa e agitação, tomou as mãos do ariano nas suas e as apertou levemente — Antes de você ir, tem algo que quero falar com você. É sobre a Geisty e aquela discussão estapafúrdia na Vila das Amazonas.

Mu revirou os olhos, impaciente.

— E não faça essa cara — Shaka o repreendeu — Queria ter conversado com você ontem mesmo, mas além de estar nervoso você precisava de repouso.

— Eu não tenho tempo para isso, Sha. Aliás, não tenho tempo para mais nada que não seja tentar salvar a minha família — disse sério.

— Geisty é parte desta família.

— Sim, ela é — Mu piscou os olhos agitado — Mas ela pode esperar, e eu já tomei minha decisão; quando for me trocar em casa, aproveito para avisar ao estrupício do Saga que de agora em diante estou deixando minhas funções extras, de administrador financeiro do Templo das Bacantes e também as de ferreiro. A partir de hoje, Kiki é minha total prioridade. Aquele idiota que se lasque.

Shaka torceu o canto da boca enquanto seus olhos azuis encaravam com severidade os de Mu. Podia ver neles ainda a raiva e o descontrole instaurados desde o dia da briga com Gêmeos, e sabia que não conseguiria nada do ariano caso se colocasse em patamar semelhante, discutindo com ele, ou mesmo o forçando a admitir que esteva errado, por isso suspirou, aproximou-se e com ambas as mãos segurou seu rosto. Com extrema delicadeza, já que Mu ainda tinha ferimentos bem visíveis não totalmente cicatrizados, acariciou seus lábios rosados com os polegares e a área atrás das orelhas com os indicadores.

— Mu, não se conserta uma coisa quebrando outra. Ou você já conheceu alguém que é capaz de consertar uma xícara partida ao meio quebrando outra xícara? — Shaka falava em tom ameno e volume baixo.

— Hum...

— Concordo que Geisty pode esperar. Ela mesma jamais se colocaria na frente de Kiki, mas não é da pessoa dela que estou falando, mas da sua ânsia em interferir numa realidade que não te pertence para modifica-la conforme pensa ser o correto.

— Epa! Eu não estou interferindo coisa nenhuma em...

— Você está! Mu, você está! — Shaka o interrompeu apertando-lhe as bochechas, o forçando a olhar em seus olhos — Marido, essa realidade não é sua, e essa vida não é sua. É a vida dela, Mu. É a vida da Geisty... Você ama sua irmã e pensa estar fazendo o melhor por ela, mas está agindo de forma errática apenas porque quer resolver algo que te atormenta. E esse caminho que escolheu nunca te levará à solução do problema. Ele só vai te distanciar cada vez mais de ambas, da Geisty e também da solução.

— E qual é a solução? Deixar que ela faça o que quiser porque não consegue enxergar o erro e que continue à mercê daquele canalha?

— A solução para você é diferente da solução para ela — disse Shaka, que com ternura ajeitava os cabelos lilases do marido atrás das orelhas — A sua é recobrar a lucidez que você perdeu no momento em que se deixou dominar pela raiva, porque só assim vai conseguir enxergar com a mente e o coração. Só a lucidez vai te devolver o discernimento e te ajudar a encontrar a melhor forma de aconselhar e ajudar a sua irmã com tão difícil provação... Mas a lucidez só emerge dos confins de uma mente envenenada pela raiva quando se equilibra as emoções, porque assim os desejos são apaziguados. Geisty tem um karma a cumprir, e este está ligado ao de Saga... O nosso papel na vida dela não é impedi-la de cumpri-lo, mas ajudá-la a enxergar os erros e os acertos de ambos, é aconselha-la a não permitir que o amor que ela sente por ele a cegue e a impeça de proteger a si mesma... é protege-la dos perigos que ainda virão, treiná-la para que se torne forte...

Mu nada respondeu. Ainda olhando profundamente nos olhos de Shaka parecia ponderar acerca de cada palavra dita. Ao fim de um momento lhe foi inevitável aceitar a verdade contida em cada uma delas.

Meio inconformado soltou uma bufada de ar, não querendo se dar por vencido.

— Falando assim parece até que somente eu estou errado nessa história.

— Ninguém está totalmente certo, nem totalmente errado, sobretudo você. Se suas emoções estivessem em total equilíbrio eu tenho certeza de que sua postura quanto à questão da Geisty, e também do Saga, seria outra.

— Ok. Eu admito que não estou nos meus melhores dias. Posso estar meio exaltado, mas você também não está nada lúcido, Shaka — resmungou quase como uma criança procurando se defender.

— Isso não é uma competição para decidir quem de nós está mais descompensado, Mu.

— Exato! Não é! — Áries respirou fundo fechando os olhos e procurando se calmar — Vem cá.

Com carinho levou as mãos aos cabelos curtos do indiano, fez um afago e o puxou para um abraço.

Shaka o abraçou deitando a cabeça na curva de seu pescoço, e depois de um instante lhe tomou a mão e devagar a desceu até a própria coxa, fazendo ele sentir os nós apertados do cilício sob o tecido da calça.

— Ambos estamos enlouquecendo... Tem dias que me olho no espelho e não me reconheço... — murmurou, em seguida levantou a cabeça e olhou nos olhos de Mu — Então você chega, eu olho para você e sei que estou exatamente onde deveria estar... Sempre juntos... Um segurando a mão do outro na beira do abismo e suplicando: Não olhe para ele! Não olhe! Ou ele olhará para você de volta... Deixe-me ajuda-lo com sua dor agora, Mu. Não vá ver o Saga. Deixe que eu falo com ele. Dedique-se ao nosso filho e deixe o resto comigo.

Mu olhava fixo nos olhos de Shaka, então nessa hora seus dedos se fecharam ao redor do metal preso na coxa dele o apertando com delicadeza. Será que estava com a mente e o emocional tão alterados quanto os de Shaka? Quando foi que ambos se aproximaram tanto da boca do abismo ao ponto de justamente ser Shaka a pessoa mais adequada para lidar com Saga de Gêmeos?

— Você está certo — murmurou com um suspiro resignado, logo depois se afastou — Eu não vou mentir para você, ainda estou irritado, magoado, além de muito puto da minha vida com essa história da Geisty com o Saga... mas eu vou ouvir você e me focar no que realmente importa, meu filho... pelo menos por enquanto.

Shaka acenou com a cabeça um gesto afirmativo e seus lábios desenharam um tímido sorriso.

— Ótimo, faça isso — disse e foi recolher rapidamente os mapas e livros que havia deixado sobre o banco de madeira — Eu vou emitir um chamado a Ágora e Shiva para que venham imediatamente aqui ficar com Kiki por um instante. Vou acompanhar você até em casa, assim enquanto se arruma para a viagem, eu te preparo umas marmitas com carboidratos e calorias suficientes para manterem seu corpo nutrido e aquecido. Vai sentir frio lá.

Mu sorriu de volta estendendo a mão ao marido que a apanhou de pronto.

— Perfeito. Aproveito e também dou um cheiro naquele capetinha preto do Ebó. Os últimos arranhões que ele me deu já cicatrizaram, preciso de novos.

Antes mesmo que Shaka comentasse algo, Mu teleportou a ambos para casa com um risinho bobo no rosto.

Santuário de Atena. Templo do Grande Mestre – 11:50am

Antes de tomar o último lance de escadas, fazendo um esforço incomum Saga ergueu a cabeça para calcular a distância que ainda faltava percorrer. O sol estava a pino, o que o impediu de ver com clareza a entrada do imenso templo de mármore no topo do Monte Zodiacal; ainda que nem precisasse, já que sabia de cor a quantidade exata de passos a percorrer até ela.

Resignado ele prosseguiu sem prestar a mesma atenção do início da subida ao ruído constante da sacolinha de plástico que trazia pendurada nos dedos de uma das mãos, mas ainda conservando o olhar fixo nos pés que mantinham o mesmo compasso ritmado de quando galgou os degraus da Casa de Áries. Agora quase no topo da montanha ele ainda se perguntava por que diabos havia escolhido aquele par de tênis tão incômodos. Zeus, como os odiava! O mesmo ódio ele dedicava ao vendedor da sapataria do Shopping de Atenas onde os comprou, o qual lhe tinha jurado pela própria mãe que eram os mais confortáveis do mercado. Deve ser órfão o desgraçado!, pensou.

Sentia-se tão esgotado que dedicou mais meia dúzia de injúrias ao dito cujo em pensamento mesmo, já que até verbalizar sua insatisfação lhe parecia demasiado custoso.

Apertando os dedos judiados dentro dos tênis, pensou que junto dos remédios prescritos pelo psiquiatra deveria ter comprado também alguns analgésicos, mas o doutor Tibúrcio Aeropholius o alertou que não fizesse uso destes enquanto estivesse tomando os psicotrópicos, que por sinal eram consideravelmente fortes e lhe causavam uns efeitos colaterais bem desagradáveis; mesmo para alguém que estava para lá de acostumado a se medicar com whisky e aspirinas.

Quando finalmente chegou à entrada do templo, diante do imenso pórtico dois soldados que mantinham a sentinela imediatamente lhe bateram continência.

— Bom dia.

Saga respondeu por mera formalidade, sem olhar para os rostos dos rapazes, e seguiu avançando.

— Senhor Patriarca! — chamou um deles mantendo a postura impecável, o peito estufado e o olhar firme no horizonte à sua frente.

— Sim? — Gêmeos respondeu estacando os passos e virando apenas o rosto na direção dele.

— O Cavaleiro de Virgem o aguarda no salão principal.

Surpreso, Saga ergueu as sobrancelhas e olhou para os soldados, que mais pareciam dois ídolos esculpidos em mármore.

O receio era um sentimento ainda presente entre os que transitavam por aquele templo.

— Shaka está aqui? — Saga perguntou; mais um artifício para convencer a si mesmo de tão inusitada visita.

— Sim senhor.

Sem dizer nada o grego fez um sinal afirmativo para os soldados em agradecimento e prosseguiu para o interior da construção, indo direto ao salão. Curioso, mas sem uma gota que fosse de ansiedade, logo chegou no local e assim que seus pés pisaram o longo tapete vermelho de odor embolorado viu ao final dele, diante dos degraus do trono dourado, a figura magra, bem mais do que se recordava, o aguardando.

Ele estava de costas para si, e ainda lhe era extremamente chocante vê-lo sem a exuberante cascata loira de cabelos que moldurava tão majestosamente sua silhueta. E junto dos cabelos também se foram as joias, os trajes exóticos chamativos e toda a imponência que era intrínseca a seu ser, quase divino.

O mundo que encontrou depois de seis anos estava mesmo de pernas para o ar; era o que pensava constantemente.

Nem de longe, tampouco em seus mais loucos devaneios, poderia dizer que aquele homem era o Cavaleiro de Virgem que conhecia.

— Shaka?!

O indiano virou-se para ele num sobressalto.

Fossem outros os tempos, jamais teria sido pego distraído daquela forma, quiçá deixado de notar a aproximação daquele que por anos considerou um inimigo em potencial, mas que agora, olhando para seu rosto pela primeira vez depois do ocorrido nas escadarias da Sexta Casa, teve a prova de que este não existia mais. A sombra que via há anos nas feições de Saga de Gêmeos parecia mesmo ter desaparecido, e sem ela agora reconhecia a fisionomia do homem que na infância admirou como guerreiro e amou como a um pai.

Mas ainda havia muita mágoa...

Sem muita, ou nenhuma discrição, Shaka correu os olhos por toda a figura à sua frente, demorando-se um tempo na sacolinha que ele trazia na mão. Era de se espantar que um cavaleiro de Ouro forte como Gêmeos precisasse mesmo de tantas caixas de remédios.

— Espero que não se importe por eu não ter solicitado uma audiência prévia, tampouco avisado que viria — disse Virgem em tom moderado e cordial.

Ao olhar no rosto dele o que mais chocou Saga foram sem dúvida os olhos, incomodamente abertos, mas além da fisionomia extremamente abatida e taciturna ele estava pálido como nunca, e uma máscara de angústias e raiva reprimida tomara lugar do que antes era pura serenidade.

Não o julgava. Quem era ele para julgar alguém. Ao menos Shaka ainda se mantinha minimamente são da mente, o que não amenizava seu desconforto. Testemunhar o sofrimento de qualquer irmão de armas lhe era penoso; ainda mais penoso quando se tratava de Shaka... Podia parecer estranho, uma piada para alguns e até para si mesmo, dada a realidade de conflitos que tinha com aquele cavaleiro, mas a verdade é que se sentiria eternamente responsável por ele.

Depois de um momento perdido nos traços do rosto angustiado de Virgem, Saga finalmente respirou fundo, piscou os olhos e voltou à realidade.

— Ah... não, claro que não. Você é bem-vindo aqui... sempre — fez uma pausa meio atrapalhado com as palavras e com os olhos azuis o encarando firme — Aconteceu alguma coisa urgente?

— Os tempos demandam urgência para tudo... ao que me parece — respondeu Shaka após um instante de silêncio, e apontou para a sacola com remédios nas mãos de Saga.

A julgar pela expressão que se formou no rosto marcado de Gêmeos, Virgem tinha razão. Ele tinha pressa em retomar tudo aquilo que o Outro lhe tirou.

— Essa é minha derradeira tentativa de vencê-lo... — disse Saga balançando a sacolinha, em seguida avançou alguns passos até parar a uma distância curta do outro — Se isso não funcionar, então... bem... Mas, imagino que não veio até aqui por estar preocupado com minhas urgências.

— Correto... Vim falar do Mu — disse sucinto.

Gêmeos deu um suspiro fundo e lento, talvez de puro alívio.

— Veio reiterar a minha ordem de despejo? — perguntou, depois inspirou fundo novamente e soltou o ar de uma vez só — E quando ele vem ocupar o trono?

— Como é? — Shaka questionou enrugando as sobrancelhas claras. Depois de um instante balançou a cabeça ao modo indiano em um sinal negativo.

— Não vem? — Saga encarou os olhos dele, confuso.

Ainda eram claras as palavras do lemuriano na mente do grego dizendo que lhe tomaria o cargo de Grande Mestre. Sabia que era uma questão de tempo apenas, e aceitaria resignado.

— Mas é claro que não! Isso é outra sandice da sua cabeça, Gêmeos — Shaka respondeu parecendo impaciente. As palavras saindo de sua boca como tiros de chumbinho — Mu não tem tempo nem para arrumar a própria bagunça, vai lá ter tempo para arrumar a sua? Você que a arrume.

— Ah! Alto lá! — fez Saga levantando o indicador até à altura do rosto do indiano — Sandice da minha cabeça porra nenhuma! Palavras do senhor seu marido. Eu posso estar louco, talvez esteja mesmo, mas ainda não cheguei ao ponto de delirar não. Ouvi muito que bem ele dizer que reivindicaria o trono, enquanto dava com a minha cabeça contra o chão!

— O que você ouviu não foi dito pelo Mu.

— Ah não foi? — Saga quase gritou, indignado.

— Não. Quem disse todos aqueles disparates foi um Gênio ruim.

— Ah pronto! — bateu a mão contra o quadril e deu uma alta gargalhada, misto de desespero e ironia — Lá vem você com suas esquisitices passar pano pro Mu.

— Não estou advogando em favor dele. Estou apenas sendo justo. A voz que você ouviu sair da boca do Mu era a dele, de fato, mas as palavras eram do Gênio ruim da Raiva. Ele tomou emprestada a voz do Mu enquanto seu espírito estava dominado pela ira num momento de fraqueza. Nada além disso — disse com aparente serenidade.

Saga lançou a ele um olhar dardejante e torceu o canto da boca, indignado.

— O Mu precisa de tempo. Tempo e paz de espírito para encontrarmos a cura para Kiki, não de mais um emprego... E é por isso que estou aqui. Encontramos uma pista significativa sobre o paradeiro do que pode ser um lemuriano ancestral, visto que, se realmente for ele, vive desde muito antes da década de 1950. Ele pode conhecer a cura para o mal que está matando nosso filho... Talvez não se recorde, já que... já que estava subjugado pelo Outro, mas Kiki está... morrendo... — teve dificuldade em verbalizar as últimas palavras, quase engasgando-se com elas — E Mu há semanas está desbravando o mundo, de Polo a Polo, pelos desertos, mares e montanhas, correndo contra o tempo e a desesperança numa missão solitária para encontrar alguém do povo dele que possa nos ajudar a salvar nosso menino. E ele só vai dar essa missão por encerrada quando encontrar, ou quando... — calou-se, e baixando a cabeça limpou a garganta com um leve pigarrear. Instantes depois voltou a olhar para Saga — Por isso, eu vim aqui te dizer que a partir de hoje Mu se afastará do cargo de diretor financeiro daquele seu alcoice mundano de prevaricação e vício e também da Forja de Áries.

Saga engoliu em seco. Suas mãos tremiam enquanto seus dedos apertavam com força a sacolinha de plástico.

Não havia muito o que pudesse dizer, afinal conhecia como ninguém aquele sentimento. Um fel amargo lhe subiu pela garganta quando inevitavelmente pensou nos próprios filhos. O horror que caiu sobre si agora assombrava o virginiano. A sensação de sentir o chão sob os pés desaparecer, e não apenas por um breve instante.

— Eu... eu me informei sobre o que aconteceu ao Kiki. Também li os relatórios das missões de busca feitas pelo Mu — fez uma pausa puxando alguns dados pela memória. Depois que passou a tomar os psicotrópicos suas lembranças por vezes lhe pareciam confusas — O transplante? Como foi o transplante? Já surtiu algum efeito?

Shaka engoliu um grito entalado na garganta. Cruzou os braços disfarçando o nervosismo.

— Ainda é muito cedo para saber, mas... o transplante não é a cura.

O brilho nos olhos de Saga deixava claro seu espanto e alarme.

— É apenas uma investida da medicina humana para tentar nos dar mais tempo — continuou Shaka, fazendo uma pausa — Tempo... que ilusão a nossa pensar que podemos controla-lo.

— Shaka, eu sinto muito — lamentou Saga, sentindo os dedos das mãos gelados e o peito apertado — Sinto pelo Kiki, por você e... também pelo Mu.

Virgem levantou os olhos e o fitou parecendo ansioso.

— Gêmeos, sobre o Mu...

— Não, Shaka — o interrompeu fechando os olhos e balançando apressado a cabeça — Não é necessário que me diga nada a respeito do Mu.

— Eu quero dizer — insistiu, e o vendo novamente encarar seus olhos prosseguiu — Eu sei que está com raiva dele, talvez confuso com sua conduta e postura agressiva e inflexível, mas acredite... Mu chegou ao seu limite. Não sabe as coisas horríveis que você... digo... que o Outro disse a ele, as ameaças... Tentou fazer com que eu o matasse bem aqui, nesse salão onde estamos, e também tratou com desprezo e deboche a situação de Kiki... Depois ainda feriu a Geisty...

Ao ver Saga levar a mão ao rosto e apertar os dedos na fronte num claro sinal de abalo e atormentação, Shaka aproximou-se mais e abaixou o tom de voz.

— O Mu foi ferido de muitas formas e por muito tempo. Ele suportou até onde conseguiu, e junto da raiva tem o medo... o medo de perdemos a mais dura batalha de nossas vidas... Mu não está em seu estado normal... Nenhum de nós está — disse, e discretamente desceu o braço e tocou por debaixo do tecido da calça o cilício preso à sua coxa.

Saga olhou dentro dos olhos dele os percebendo cheios de angústia e completamente vazios de fé.

Afinal, que mundo terrível era aquele ao qual retornara? E que coisas medonhas tinham acontecido aos seus amigos, provocadas ou não por sua negligência ao subestimar seu lado maligno?

Suspirou ruidosamente.

— Será que iremos conseguir resgatar o nosso estado normal? Seremos capazes, mesmo depois de tanto tormento, de sermos os mesmos? — ele questionou — O que Buda te diz, Shaka?

— Nada — respondeu seguro, e tal determinação causou demasiado assombro ao grego.

— Como assim, nada?

— As palavras de Buda me têm tanta utilidade quanto uma arma civil carregada... Agora eu sou o meu próprio guia.

Saga, que julgava já ter passado por muito em sua vida, acabava de descobrir que estava redondamente enganado.

De tão perplexo com o que acabara de ouvir, agora ele encarava Virgem como quem olha para um completo estranho.

Sentiu o peito apertar dolorosamente. Shaka não era um estranho, apenas estava terrivelmente perdido e a única coisa que podia fazer por ele era tentar lhe indicar o caminho de volta.

Com um gesto lento e cuidadoso Gêmeos deu um passo à frente e pousou a mão no ombro do indiano. Olhava para ele com calor nos olhos.

— Bem... diga ao Mu que ele pode ficar afastado das atividades do Templo das Bacantes e também da Forja de Áries o tempo que ele precisar, e que não se preocupe com nada disso... — fez uma pausa mantendo o olhar firme ao de Shaka — Sabe, uma vez no passado eu ofereci ao Mu uma parcela dos recursos disponíveis do Santuário para ser aplicada num tipo de fundo para busca e proteção do povo lemuriano. Ela seria empregada em qualquer assunto que fosse relativo a eles e à origem de Kiki... Mu recusou dizendo não ser necessário por enquanto. Bem... a proposta continua de pé, para o que for preciso... — respirou fundo tomando coragem para concluir a frase, pois que era difícil ainda para si aquela realidade — Para salvar a vida do filho de vocês.

— Eu sei que você teria feito o mesmo por eles. Teria ido até o fim para salva-los... — falou Shaka antes de fazer uma pausa e prender a respiração por alguns meros segundos. Seus olhos azuis celeste feito duas chamas místicas atracados aos de Saga — Se ao menos lhe fosse dado a chance de fazer.

— Sem dúvida que teria — os lábios trêmulos desenharam um sorriso tenso.

— Sobre aquele dia...

— Não! — Saga chacoalhou a cabeça num gesto negativo e recolhendo a mão do ombro de Shaka gesticulou com ela no ar — Não preciso que me diga mais uma vez o quanto fui fraco e covarde, Virgem. Porra, você tem 25 anos, e desses pelo menos uns 15 passou esfregando meus pecados e minhas fraquezas na minha cara, puta que me pariu. Já não me basta ter a porra da consciência de que vou pagar por tudo isso naquele caralho gelado do Cocito quando eu morrer, ainda tenho que aguentar sermão de...

— Eu estava errado.

— Um virginiano chato de nariz empinado me lembrando disso a cada... — De repente Saga calou-se e imóvel encarou Shaka — Como é que é? O que foi que você disse?

Shaka levantou o queixo e piscando os cílios longos repetiu:

— Eu disse que eu estava errado.

Gêmeos cobriu a boca aberta com a mão. Os olhos jades arregalados nem piscavam.

— Pelo corno chifrudo do Hades! — balbuciou incrédulo, depois levantou a sacolinha com remédios até a altura do rosto e olhando para ela murmurou: — Essas merdas de tarja preta aqui devem ser muito fortes mesmo! Estão até me fazendo ouvir coisas que jamais ouviria são.

— Quer parar de fazer cena, Gêmeos!

— Que cena? Quer que eu fique indiferente a um acontecimento apoteótico como esse?! Você disse que estava errado? O invencível e sábio Shaka de Virgem, errado?

— Eu não sou invencível, tampouco sábio... do contrário saberia como salvar o Kiki e também jamais teria julgado você — suspirou contraindo os lábios. Seus olhos azuis brilhantes fitavam fixos os dele. Aquela frase pareceu congelar o tempo ao redor de ambos — A verdade é que descobri isso muito tarde...

— Shaka...

— Apenas quando a dor veio até mim foi que fui capaz de entender você... Saga... A sua dor agora é a minha... e eu te peço perdão por não ter sido capaz de compreendê-lo e ajuda-lo com ela.

Com a respiração suspensa, Saga podia sentir as batidas do coração pulsar frenéticas no peito. Então em questão de segundos viu uma verdadeira transformação se dar no olhar que Shaka lhe direcionava. O que antes era pura aflição e austeridade, agora convertia-se em pura ternura.

Carinho igual nos olhos de Virgem ele se recordava ter visto apenas nos tempos em que Shaka era um garotinho.

Aquele não era um armistício. Não. Eles nunca estiveram em guerra de fato.

Era um acerto de contas.

— Eu preferia que você nunca viesse a saber o que é isso... Que nunca viesse a conhecer essa... dor.

Shaka nada disse. As palavras estavam enroscadas em sua garganta.

— Preferia que continuasse na total ignorância, e que me julgasse para todo o sempre como o saco de merda que eu sou, um fraco, um covarde... mentalmente instável... Eu suportaria conviver com o seu desprezo, Shaka, como suportei por anos... Seria tão mais fácil... Até porque o seu desprezo sempre foi justo, eu fiz por merece-lo — suspirou profundamente tentando manter a compostura, depois voltou a olhar para Shaka com os olhos úmidos de lágrimas — Eu perdoo você. Não guardo nenhuma mágoa, nem de você, nem do Mu, embora ele tenha me obrigado a implantar três dentes e entrar na dieta da sopa. Eu odeio sopa... A questão é que eu e... o Outro, nós fizemos por merecer o seu julgamento — deu um sorriso sem ânimo e com os dedos da mão livre enxugou os olhos — Bem... o seu recado está dado. Considere suas obrigações para com o Santuário, e também as do Mu, suspensas até a melhora de Kiki. E se eu puder ajudar de alguma forma a minha oferta continua de pé. Podem usar os recursos do Santuário nas buscas ou no que for preciso.

— Não precisamos de dinheiro, mas tem algo que você pode ajudar — disse Shaka finalmente conseguindo amolecer o nó na garganta.

— Tem? Bem, pois então diga!

— Nas últimas semanas eu solicitei por diversas vezes o uso da biblioteca deste templo, para fazer pesquisas nos acervos particulares de Shion e de seus antecessores...

— O Outro te negou o acesso? — perguntou indignado.

— Não. Na verdade foi Geisty quem solicitou por mim... O Outro e eu... bem, para a segurança de todos nós mantínhamos uma certa distância depois que eu tentei mata-lo e ele tentou me prender no Satã Imperial.

— Você tentou me matar? — perguntou incrédulo com a mão sobre o peito.

— Não tentei. Eu quis te matar.

— Seu... seu virginiano ingrato! O corpo Dele é o meu também!

— Eu sei, enfim... o Mu me impediu — respondeu dando de ombros.

— Que ótimo, não? Depois ele voltou atrás e ele mesmo tentou me matar.

— E aí eu que o impedi. Mas, isso não vem ao caso agora, não prolongue a conversa, pode ser? O que quero dizer é que não encontrei nada relevante nessas buscas, ou ao menos nada que o Mu e eu já não tivéssemos conhecimento. Então...

Gêmeos contorceu a boca desanimado.

— Tentaram em Jamiel?

— Claro que sim, mas não há nada lá também. Então...

— Então o quê?

— Quer parar de me interromper, Saga, por obséquio?

— Me chamou de Saga! — arqueou as sobrancelhas surpreso e surpreendentemente feliz.

— É o seu nome, não? — ironizou Shaka enrugando a testa.

Saga sorriu.

— Sim... é o meu nome — respondeu — É que há anos não se refere a mim pelo meu nome.

Shaka respirou fundo revirando os olhos.

— Quanto drama... Enfim, como eu dizia, não encontramos nada verdadeiramente relevante nas bibliotecas oficiais e nos acervos de Shion, mas Geisty esses dias nos chamou a atenção para algo. Ela disse que Shion tinha um diário particular. Algo parecido com um livreto de notas ou um grimório, com capa de couro e uma fechadura rudimentar, que ele a todo instante fazia notas e carregava consigo para onde ia. Você por acaso viu esse diário? Sabe onde ele está?

Pela fisionomia de Saga, Shaka percebia que ele esforçava-se para se lembrar.

— Hum... Não. Infelizmente eu não me lembro de ter visto nada parecido com o que descreveu.

— Como não, Saga? Pense direito, concentre-se — pediu quase suplicante — Você, depois do Mu, é provavelmente quem esteve mais tempo com Shion, e também quem mais frequentou esse templo e suas câmaras. Não é possível que nunca tenha visto esse diário em algum lugar.

— Se Shion não quisesse que eu tivesse conhecimento desse diário, então sim, é possível que eu nunca o tenha visto mesmo — disse Saga muito sério — Shion era um homem muito reservado, especialmente em suas particularidades. Algumas coisas ele até confidenciava ao Aiolos e não a mim... Depois, ele não tinha por que confidenciar mesmo. Mu é que era o mais próximo a ele. Mu foi criado para ser seu sucessor, não eu — calou-se diante daquele fato — E se Mu não sabe o paradeiro desse diário, então ninguém mais sabe.

Num acesso de desespero e dor, Shaka avançou até Saga e o agarrou fortemente pelas mangas da camisa azul que ele vestia dando-lhe um chacoalhão.

— A cura para o mal que está matando o meu filho pode estar nas páginas desse diário... Por favor, Saga... você tem que se lembrar. Tem que se lembrar! — rogou. Todos os músculos de seu rosto estavam trêmulos.

Gêmeos retesou o corpo todo e olhou para a face em chamas dele com os olhos arregalados e atordoados.

— Shaka... eu sinto muito... — disse com extremo pesar — Eu nunca vi esse diário... Juro pela alma dos meus filhos. Sinto muito.

Os olhos azuis celestes esgazeados fixos aos do geminiano aos poucos encheram-se de lágrimas, então rapidamente Virgem baixou a cabeça e antes mesmo de permitir que essas deslizassem por seu rosto ele soltou o tecido e se afastou, dando as costas a Saga.

— Me desculpe — disse baixinho enquanto passava os dedos pelos olhos numa tentativa inútil de ser discreto.

Agoniado, o Santo de Gêmeos deu um passo à frente e esfregando os dedos no cós de elástico da calça de moletom propôs:

— Olha... eu posso te ajudar a procura-lo, Shaka. Podemos procurar nos acervos do meu escritório, nas pilhas de documentos do arquivo ativo ou nos do arquivo morto... — conseguindo a atenção do virginiano, que se virou para olhar em seu rosto com um novo brilho de esperança nos olhos, Saga prosseguiu: — Eu sei que você e Mu já procuraram nesses lugares, mas quem sabe, né? Agora que sabemos exatamente o que procurar, pode ser que fique mais fácil encontrar algo parecido com um diário tão específico.

Shaka balançou a cabeça indicando que aceitava a proposta.

— Ótimo! — disse Gêmeos, que percebendo que fora pego pelas próprias palavras abandonou o plano de se render ao cansaço que os tranquilizantes lhe causavam e voltar para a cama. A urgência de Shaka era deveras mais importante, além de genuína.

Assim, juntos eles foram dar início à busca, primeiro no escritório que outrora fora de Shion e agora pertencia a Saga, onde estavam instalados em estantes alguns dos acervos particulares de todos os Grandes Mestres que já ocuparam o trono de regente do Santuário na ausência de Atena.

No entanto, eles não estavam sozinhos.

Um par de ouvidos alcoviteiros tinha acompanhado a conversa dos dois cavaleiros desde seu início, e agora, quando ambos já estavam fora do alcance de seu único olho curioso, com seu típico andar moroso e calculado ele se esgueirou por entre as colunas do templo, se escondendo na penumbra dos corredores frios até chegar ao escritório.

Além dos pais de Kiki, e de todos os cavaleiros e amigos, havia mais uma pessoa muito interessada na cura do jovem lemuriano, e Gigars era sua única fonte de informação sobre o andamento do caso.

Silencioso como um camundongo, o velhote parou atrás da enorme porta e atento ouvia os dois cavaleiros conversando do lado de dentro. Porém, poucas foram as novidades que seus ouvidos velhos conseguiram capturar de fato, e por isso sabia que quando fizesse a ligação para a fonte à qual deveria passa-las certamente ouviria meia dúzia de impropérios.

Do lado de dentro do escritório, depois de abrir umas tantas gavetas e retirar dezenas de livros das estantes, Saga se jogou exausto na cadeira de estofado de veludo vermelho que servia sua escrivaninha. Havia deixado sobre esta a sacolinha de plástico com as caixas de remédios, e já passados alguns minutos do horário em que deveria tomar um deles, a revirou impaciente, apanhou o que deveria tomar, rasgou a caixa e jogou duas pílulas goela abaixo. As empurrou com um gole de água de uma garrafa que havia deixado ali no dia anterior.

De joelhos ao lado dele, Shaka acompanhou todo o processo com discrição e reserva enquanto esvaziava outras gavetas. Não queria parecer bisbilhoteiro, mas reconheceu alguns fármacos como sendo indicados para tratamento psiquiátrico de transtornos graves de personalidade e transtorno dissociativo.

De repente, pegou-se pensando na luta daquele homem, no quanto ele deveria estar cansado daquela batalha. No quanto ele lutava sozinho dessa vez. Sentiu uma compaixão profunda por ele.

Quando o pior inimigo é você mesmo, talvez não exista vencedor, pois que a batalha nunca termina.

— Você parece cansado, Saga — disse Shaka voltando a esvaziar as gavetas — Talvez fosse bom se recolher e dormir um pouco. Eu posso fazer isso sozinho.

— Não! Eu estou bem — respondeu o grego esfregando o rosto com as duas mãos, como se quisesse espantar o sono — Acho que preciso só de alguma coisa mais forte para beber... GIGARS!

O grito do Patriarca quase matou o velho do coração, que detrás da porta bateu com o cajado na madeira e no susto a abriu na mesma hora.

— Pois não, Grande Mestre! — disse assustado. O único olho esbugalhado como se tivesse visto uma stripper já no fim da apresentação.

— Você já estava aí? — Saga perguntou surpreso com a entrada imediata atrapalhada.

Shaka esticou o pescoço e olhou para ele por cima da escrivaninha.

— Estava ouvindo atrás da porta, boquirroto?

— Oh!... N-Não, cavaleiro de Virgem... — Gigars encenou uma expressão de incredulidade — Pelo que me toma?

Saga apertou os olhos e estalou a língua.

— Ah, não importa... Por favor, peça para que nos sirvam alguma coisa para beber.

— Para mim, chá. Eu não bebo álcool, e nem você deveria beber — disse Shaka com seu natural pedantismo para tecer críticas.

Saga levantou uma sobrancelha e girando a cadeira abaixou a cabeça para olhar para ele.

— Para o seu governo, Shaka, eu também não bebo álcool — disse resoluto — Inclusive também ia pedir para me trazer um chá.

Virgem o encarou e fechou a gaveta com uma batida.

— Dissimulação é efeito colateral dos remédios que você está tomando?

Saga o fuzilou com os olhos.

— Estava demorando, né? Sabia que às vezes é incontrolável o desejo de quebrar a sua cara?

— Hum... vindo de você isso não me causa espanto nenhum. Inclusive, não precisa se sentir intimidado com a presença de Shaka aqui — falou enquanto voltava a abrir outra das gavetas e já vasculhava o interior — Pode pedir o seu trago em paz... Mas o Shaka aconselha o Saga a deixar esse vício horroroso o quanto antes, para o bem dele.

— Olha aqui, Shaka, o Saga só bebia... digo, eu só bebia porque ele... digo, eu... Ah, foda-se, deixa para lá... — coçou a nuca irritado e confuso, depois girou a cadeira novamente e voltou a ficar de frente para o secretário, que aguardava na porta — Gigars, traga-nos chá de maçã e aquelas bolachinhas frescas que parecem cocô de cabra que a Hebe fez e deixou aqui ontem, por favor. O meu traga com gelo, e o do cavaleiro de Virgem quente e com canela — demandou fazendo um gesto ansioso balançando a mão no ar.

Gigars fez uma mesura sofrível, depois caminhou com seu ritmo manco batendo o cajado contra o piso de mármore.

Quando se viu sozinho novamente com Saga, Shaka voltou a levantar a cabeça e do chão onde estava olhou para ele.

— Parece que está realmente determinado a se tornar um homem melhor. Isso é bom. Shaka fica feliz por você... E Geisty também ficará.

Gêmeos foi pego de surpresa pela menção da amazona por ele. Só na simples menção do nome dela sentiu o coração acelerar.

Com os olhos brilhantes voltou a girar a cadeira para olhar para ele.

— Você acha que ela vai me perdoar?

Virgem deu de ombros.

— Não posso responder por ela, mas... se quer o perdão da sua esposa, deixar os vícios, a vida perversa e tornar-se finalmente um homem decente e virtuoso já é um primeiro passo.

Saga emitiu um ronco parecido com um mugido.

— Não sei por que ainda te dou ouvidos.

— Porque a função de Shaka como Cavaleiro de Ouro de Virgem é ser o conselheiro pessoal do Grande Mestre, no entanto, o Saga nunca deu ouvidos a ele... Não à toa levou uma vida desregrada e só se estrepou... O Samsara cobra, Saga.

— Hum... o Samsara cobra e Shaka tripudia. Que dupla competente vocês dois formam... — suspirou ruidoso — Mas eu estou fazendo tudo o que posso agora, tudo que está ao meu alcance para evitar que eu, que Ele, retorne... e para conseguir o perdão dela... da minha amazona. — o olhar vago era um resumo da mente que procurava saudosa pela imagem da esposa na memória — Quando te disse que não bebo, é porque de fato nunca gostei de álcool. Eu bebia por necessidade... Entorpecido eu conseguia abafar a voz Dele dentro da minha cabeça, conseguia impedi-lo de usar o meu corpo... Se eu fosse um ébrio perdido como você diz, eu não teria procurado o Alcóolatras Anônimos assim que reassumi o controle do meu corpo e da minha mente para me ajudar a combater esse vício maldito compulsório que eu tenho certeza que não é só de álcool.

— Você está indo no AA? — Shaka perguntou chocado.

Saga então se inclinou para o lado dele e esticando o braço abriu a última gaveta da escrivaninha, de onde retirou um folheto azul. Nele estavam estampados todos os horários das reuniões do AA, as quais aconteciam na Catedral da Anunciação da Igreja Ortodoxa de Atenas. Neste, algumas datas estavam sinalizadas com um selo redondo em azul e dourado, os quais contabilizavam os dias de vitória sobre o vício.

Saga entregou o folheto nas mãos de Shaka.

— Estou limpo há três dias, sete horas, quarenta e dois minutos, e... — olhou no relógio em seu pulso — Vinte e dois segundos.

Shaka ainda olhava para o folheto quando Saga completou:

— Eu quero fazer as coisas do jeito certo agora, Shaka.

Virgem olhou para ele e depois de um momento lhe devolveu o folheto.

— Esse deveria ter sido o caminho desde o início... Mas, antes tarde do que nunca. Tem meus parabéns e minha admiração.

— Sim, antes tarde do que nunca.

— Será que você pode trazer um folheto desse para eu dar para o Mu?

Saga arregalou os olhos espantado.

— Para o Mu? Deixa de ser doido, ô Shaka! O Mu não é alcoólatra. Pelo menos não que eu me lembre... Ele é?

— Quem é que sabe, né? — Shaka balançou aflito a cabeça ao modo indiano — Meu marido agora é frequentador fiel daquela baiuca tosca cheia de gente viciada, o tal Piriquitão Night Club... Nunca se sabe o dia de amanhã. — suspirou voltando às gavetas

— Pelos deuses! Eu estou muito desatualizado de tudo! — disse Saga perplexo.

— Inclusive, a sua esposa também vai lá.

Saga levou a mão ao colarinho da camisa a fim de afrouxar a gravata que de tão apertada lhe estava deixando sem ar; só então se lembrou que estava sem.

— Quanta desgraça! A minha Geisty... se afundando na bebida? — suspirou abatido — Eu não posso acreditar... Isso é culpa minha.

— Gostei de ver! Assumir a culpa por seus erros já um sinal de evolução.

Gêmeos torceu a boca desgostoso com o comentário.

— Eu falhei com ela quando ela mais precisou de mim... Mu está certo, eu sou um merda! E se ele se tornou um alcóolatra eu nem posso julga-lo, porque pelo jeito conviver com o Outro e permanecer sóbrio não é uma possibilidade.

— Independente disso, Saga, se durante a sua caminhada você sentir que está prestes a cair novamente... minha casa estará de portas abertas para recebe-lo, como esteve também para Geisty. Mu e eu cuidamos dela enquanto você... enquanto você esteve longe. Ela é nossa família... Vá conversar comigo se precisar.

Saga sentiu seu coração se aquecer com a oferta.

— Eu irei. Obrigado — sorriu — E obrigado por cuidarem dela... Geisty é tudo o que eu tenho agora.

— Bem... agora não poderei mais te chamar de proxeneta ébrio, mas apenas de proxeneta.

— Cacete, hein! — Saga resmungou — Você não me dá uma folga. E quer saber? Nem de proxeneta você pode me chamar mais, porque, caso você não tenha reparado, meu caro, o Templo das Bacantes agora é dirigido e administrado pelo senhor seu marido, juntamente com o Afrodite e a Geisty, portanto, tecnicamente falando, quem merece a alcunha de proxeneta agora é o Mu.

— Como é que é?

— E pela queixa que você acabou de fazer, provavelmente ébrio também... — estalou os dedos agitado — O que você estava falando do Samsara mesmo? Ah, sim, que ele cobra!

— Ora, Gêmeos, não distorça as coisas.

— Ah há! — fez Saga apontando o indicador para ele, dando um sorriso vitorioso, e quando percebeu que ele ia retrucar logo se adiantou — Espera! Está bem, estou brincando, ok? Vamos retomar o foco? Você disse que o Mu está agora mesmo nos Urais procurando o tal Yeti, enquanto nós precisamos encontrar o diário do Shion, certo? Vamos voltar às buscas?

— Eu vou deixar passar apenas porque preciso voltar o quanto antes para o hospital, mas assim que tudo isso passar eu faço questão de explicar a você porque isso que disse é uma completa sandice. Só existe um proxeneta aqui, e ele é você.

— Está certo... Foco. Vamos procurar.

Saga riu, mas logo se recompôs.

Como era bom poder desfrutar da companhia daquele virginiano chato novamente.

Horas depois, os dois cavaleiros ainda procuravam incansáveis por aquilo que seria, talvez, a última esperança para a cura de Kiki. Agora estavam na biblioteca, mergulhados em livros, manuscritos, fichários e toda a sorte de papel que tivesse qualquer coisa impressa.

E nada do diário.

Num determinado momento, com os olhos fundos de cansaço e falta de sono, o estômago enjoado pelo excesso de chá de maçã e agonia, Shaka aproximou-se da comprida e estreita janela de vidro e olhou para o horizonte. O sol já se deitava atrás das colinas e as primeiras estrelas piscavam num céu manchado de azul anil e escarlate.

Aquele tinha sido um dia exaustivo, de buscas frustradas para ambos, ele e Mu, que há milhares de quilômetros dali, na imensa cordilheira dos montes Urais, também não obtivera sucesso na busca pelo lemuriano conhecido como Yeti.

Quando já exausto Mu comunicou-se por telepatia com Shaka o avisando que encerraria as buscas naquele dia e voltaria para o hospital para passar a noite com eles, Virgem sentiu seu coração ser mais uma vez esmagado pela desesperança. Tinha colocado tanta expectativa na pista descoberta no mapa, e estava tão confiante... Era uma volta a menos na pequena linha da vida de Kiki, que se encurtava a cada dia.

De repente, os joelhos do poderoso Santo de Virgem tremeram ferozmente, e num repentino ataque de pânico, alimentado por uma frustração visceral, ele sentiu uma leve vertigem e o coração disparar descontrolado. Tombou para frente e apoiou ambas as mãos no parapeito da janela; de cabeça baixa soltou meia dúzia de impropérios, em hindi mesmo, e em voz alta.

Parecia que seu Karma era mesmo ser derrotado pela vida, já que se negou a abraçar a morte.

A poucos passos dali, diante do desespero de Shaka, Saga largou imediatamente a inspeção que fazia em uma das tantas instantes e correu até ele. Sem reservas, sem nada perguntar ou sequer cogitar se teria ou não permissão, o segurou pelos ombros, girou seu corpo magro e de frente para ele o abraçou com força e a mesma afeição e proteção de quando acolheu nos braços a criança maltrapilha recém-chegada da Índia.

Saga sabia o que ele estava sentindo.

Ah! E pelos deuses, como ainda estava desgraçadamente impresso em cada fibra do seu ser aquele sentimento sufocante de impotência e dor!

O luto pelos filhos mortos era uma ferida aberta dentro do Santo de Gêmeos, pois se para o resto do mundo seis anos haviam se passado, para ele não haviam se passado nem bem seis dias.

O tempo agora corria diferente para ambos, Virgem e Gêmeos.

Não conseguindo conter mais as lágrimas que faziam queimar seus olhos em chamas, Shaka chorou, ainda que discretamente e tentando disfarçar ao esconder o rosto no peito de Saga. Sentia-se pequeno e derrotado, mas imensamente reconfortado por aquele abraço que ele tanto precisava sem nem mesmo saber disso.

— Se acalme, Shaka... Nós vamos encontrar o diário... não perca a sua fé. Não perca — Gêmeos pedia apertando o indiano com força contra seu corpo. Salvar Kiki agora lhe parecia ser a chance de alcançar alguma redenção; a chance que não tivera de salvar os próprios filhos.

E por falar em filhos, o sentimento que Saga de Gêmeos tinha por aquele cavaleiro em seus braços não era diferente do que tinha por Heitor e Dario. Por isso, encostando o rosto nos cabelos loiros dele, fechou os olhos e confessou:

— Você, Shaka, é como um filho para mim... Eu não pude salvar os meus filhos de sangue, mas agora eu posso lutar para salvar você de carregar nas costas uma dor semelhante a minha. E eu vou lutar. Eu te prometo que vou encontrar esse diário — deixou que as lágrimas escorressem sem pudores por seu rosto aturdido. Chorava pelo próprio luto e pela dor do outro. Então afastou-se minimamente para poder segurar no rosto de Shaka com ambas as mãos e o olhar firme em seus olhos azuis celeste sofridos — Eu sei que não consegui ser o pai que você merecia ter, afinal eu era só um garoto... e cheio de responsabilidades e de problemas, mas eu... eu amei você desde o dia que Shion entregou sua tutela a mim, Shaka, nunca duvide disso... Por isso eu te prometo, não vou deixar você passar pelo que estou passando. Não vou deixar você e o Mu conhecerem essa tristeza avassaladora em sua essência. Não vou deixar isso acontecer nem que para isso eu passe dias e noites em claro. Eu vou achar esse diário. Acredite em mim.

A voz de Saga era grave e vigorosa, mas seus lábios e face tremiam.

Shaka sentia as mãos dele geladas em seu rosto quente, enquanto via seus olhos jades selvagens gritarem por um voto de confiança.

Nem era preciso.

— Eu acredito em você.

Os braços de Virgem enlaçaram as costas de Gêmeos num gesto lento e carinhoso, então seus dedos finos se fecharam firmes nos cabelos azuis revoltos, repetindo um gesto que há anos guardava saudoso apenas em suas lembranças.

Ali uma cena do passado se repetia.

Sempre que sentia medo, quando tinha um sonho ruim, quando era hostilizado pelos outros garotos, nas noites de tempestade ou quando os dons de seu poderoso Cosmo saíam de seu controle, era agarrado à madeixas azuis de Saga que Shaka encontrava conforto e proteção. Era também nelas que ele se segurava quando o jovem cavaleiro de Gêmeos o punha nos ombros e o levava para passear em Rodório.

E como eram alegres os dias que passavam juntos...

Uma pequena fração daquele sentimento resgatado de paz, proteção e conforto aqueceu o coração de Shaka naquele fim de tarde. Era bom sentir-se seguro nos braços daquele que seria o mais próximo que teria de um pai.

*Os Ícones são uma forma característica de Arte Sacra e Litúrgica da Igreja Cristã Ortodoxa, vigente na Grécia, e deriva do grego EIKÓN, que consiste na representação de santos esculpidos em madeira e seguindo rígidas técnicas de pintura. Dentro dos dogmas Cristãos Ortodoxos se faz proibida a reprodução de imagens sacras com volume e forma como nas estátuas e imagens tridimensionais encontradas na Igreja Católica Romana.