Everything that kills me makes me feel alive

(Counting Stars - OneRepublic)

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Draco não sabia dizer o que o deixava mais estupefato: o fato de Harry ter aceitado ser entrevistado por Rita Skeeter novamente ou a admissão do Auror de que tinha chantageado a escritora para que ela se comportasse.

"Não é como se fosse a primeira vez," Harry encolheu os ombros, colocando uma carta no tapete e comprando outra. Eles tinham se sentado no chão da sala de Harry para jogar Snap Explosivo com Scorpius, mas o garoto tinha se entediado no meio do jogo e saíra para explorar a casa com Kreacher. "Além do mais, ela sabe ser uma repórter decente sem aquela pena-de-repetição-rápida."

"E como você faz? Você aprova as perguntas antes?" Draco perguntou, curioso, escolhendo uma carta, mas trocando por outra no último instante.

"Sim. Bem, Hermione aprova," Harry admitiu, empurrando os óculos nariz acima. "Ela faz questão de lidar com Skeeter pessoalmente."

"E Skeeter não tenta trapacear?" Draco arqueou uma sobrancelha.

"Pode apostar que sim." Harry sorriu, pegando mais uma carta com uma expressão convencida no rosto. "Mas ninguém pode recriminá-la por tentar, eu acho."

Draco estava prestes a anunciar sua vitória quando as cartas explodiram em sua mão.

"Ah, qual é?" Draco largou as mãos no colo ao mesmo tempo em que Harry piscava, surpreso.

"Ei, eu ia ganhar dessa vez!"

"Duvido muito." Draco suspirou.

Harry procurou por sua varinha, provavelmente para limpar a fuligem das cartas que cobria as mãos e os rostos de ambos, mas franziu o cenho assim que alcançou-a.

"Que diabos...?" Ele encarou a varinha analisando-a melhor e Draco sorriu enviesado. "Esta não é a minha varinha." Ele olhou ao redor.

"Você realmente não reparou quando Scorpius trocou?" o loiro perguntou, curioso.

"Scorpius?" Harry soou espantado e impressionado ao mesmo tempo. "Quando...? Como...?"

"Ora, Potter, eu esperava mais de você, com seu treinamento de Auror e tudo mais. Eu sinceramente achei que você estava fingindo distração só para que Scorpius ficasse feliz."

"Pare de se gabar e diga logo como ele fez isso!" Harry tentou encobrir o orgulho ferido com irritação, mas era difícil levá-lo a sério com a cara preta de fuligem.

Draco encolheu os ombros.

"Ele fingiu descuido com as próprias cartas, inclinando-as para que você visse. Você, como bom grifinório que é, fez questão de olhar para o outro lado para não trapacear e então ele aproveitou para..."

"Filho da..." Harry começou, mas Draco cutucou-o com um pé.

"Ei, preste atenção no que vai dizer. Ele continua sendo meu filho e de Astoria, até onde sei."

"Ah, não tenho dúvidas quanto a quem ele puxou." Harry voltou a examinar a varinha. "Que danadinho! Aposto como vai acabar na Sonserina também. O Chapéu Seletor não vai nem terminar de assentar na cabeça dele e já vai dar a sentença, exatamente como você."

Draco soltou um riso sarcástico pelo nariz, incapaz de conter o orgulho de transparecer em seu meio sorriso.

"Eu sabia que você estaria assistindo atentamente. Não podia tirar os olhos de mim desde o primeiro dia, não é mesmo, Potter?" Ele não resistiu à provocação, tornando a cutucar o moreno com o pé.

"Essa varinha é a que dei para ele, quase dois anos atrás?" Harry perguntou, claramente mudando de assunto.

"Sim. Bem feito, aliás. Já estava na hora de você provar do próprio veneno."

Foi a vez de Harry sorrir enviesado.

"Ele pegou você também, não foi?" Harry fez menção de tocar o rosto de Draco com a mão imunda, mas o loiro bateu em sua mão antes que ele o alcançasse.

"É claro que não," Draco mentiu, ao que Harry bufou, incrédulo. "Não sou tão fácil de enganar quanto você, sabe?"

Draco olhou para a porta da sala ao escutar um barulho abafado vindo do andar de cima.

"Não se preocupe," Harry colocou a mão no joelho de Draco, que ficou tenso de repente. "Kreacher morreria antes de deixar que algo acontecesse com Scorpius."

"Isso deveria me tranquilizar?" Draco perguntou, já se levantando e desalojando a mão do moreno, porém não sem deixar um rastro de fuligem em sua calça. "Não é de hoje que seu elfo doméstico parece estar com um pé na cova."

"Onde está minha varinha?" Harry perguntou ao se levantar.

"Debaixo do sofá," Draco apontou, sacando a própria varinha e rumando para o corredor.

Antes que ele pudesse começar a subir as escadas, entretanto, Scorpius desceu correndo, os olhos ligeiramente esbugalhados.

"Scorpius?" Draco chamou, desconfiado. "O que você fez?"

"Eu? Nada!" Scorpius fingiu inocência, porém acabou exalando em derrota diante do olhar cético do pai. "Eu posso ter derrubado uma das cabeças de elfo-doméstico. Mas não chegou a quebrar e Kreacher já colocou de volta no lugar," ele emendou rapidamente.

"Que pena." Harry juntou-se a eles, divertido. "Venho tentando quebrar essas cabeças acidentalmente há anos! Você era a minha última esperança, Scorpius, de verdade."

"Harry, sua casa é muito maneira!" Scorpius aproximou-se de Harry, excitado, erguendo o pescoço para encará-lo como quem encara uma divindade num pedestal. "Kreacher me mostrou o meu nome na árvore arqueológica."

"Genealógica," Draco corrigiu.

"Isso!" Scorpius assentiu enfaticamente. "E eu juro que vi um pote andando dentro de um dos armários, mas Kreacher não deixou que eu abrisse."

"Bem, pelo menos um de vocês tem algum juízo," Draco disse, sarcástico.

"Que bom que você gostou," Harry disse com um sorriso bobo estampado no rosto. "Você pode voltar quando quiser. Você e seu pai são sempre bem-vindos."

"E quanto a minha mãe?" Scorpius perguntou, cheio de expectativa, e Harry soltou um som de surpresa antes de encontrar o olhar cauteloso de Draco.

"Bem, ela também, é claro," Harry assegurou. "O que você acha de tomarmos um lanche agora?"

"Legal! Ei, vocês ainda estavam jogando Snap Explosivo?" Scorpius disse, olhando de um adulto para outro, provavelmente registrando a sujeira.

"Ah, bem... Deixe-me..." Harry apontou a varinha – a falsa, Draco logo reconheceu – para as próprias mãos e seguiu-se um jorro de faíscas. "Mas o que...?" o Auror fingiu espanto e Scorpius caiu na risada.

Draco rolou os olhos, fingindo não estar se divertindo com a cena toda.

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Algum tempo depois, de volta para a mansão Malfoy, Scorpius voltou-se para o pai com o cenho franzido.

"Sabe, pai? Eu adoraria morar na casa do Harry, mas não acho que a mamãe gostaria."

"É mesmo?" Draco ironizou, contendo-se para não repreender o filho por algo que sequer poderia explicar. "Que pena."

"É..." Os ombros de Scorpius caíram, porém ele logo aprumou-se novamente. "Mas talvez ela possa redecorar, não é mesmo? Ela gosta de comprar cortinas e arranjos de flores! Aposto como ela gostaria de enfeitar a casa dele!"

Draco achou melhor não responder.

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"Ele mandou um convite para você?" A Dra. Rost perguntou após outro longo silêncio.

Draco conteve a vontade de rolar os olhos.

"A instituição mandou, não ele."

"A instituição dele," a Dra. Rost frisou.

Draco não tinha mencionado o nome de Harry em nenhuma das suas sessões, mas não era de se admirar que a bruxoterapeuta havia tirado suas próprias conclusões. Draco considerara dissuadi-la, a princípio, mas chegou à conclusão de que não fazia sentido. Principalmente depois da partida Tornados x Catapultas, quando a mídia confirmara a proximidade de ambos incontestavelmente. Além do mais, a mulher assinara um contrato mágico que a impedia de dizer, escrever ou mesmo insinuar uma só palavra sobre o que conversavam durante as sessões.

"Todas as famílias bruxas influentes receberam convites, o meu não é especial," Draco disse, irritado. "Além do mais, eu já disse para ele que não pretendo ir."

"E o que ele disse?"

"Ele disse que tudo bem, contanto que eu mande um cheque bem generoso."

"Mesmo?" A bruxa soou tão surpresa que Draco bufou, dessa vez rolando os olhos deliberadamente.

"É claro que não."

A Dra. Rost ainda o encarou por algum tempo antes de se dar por vencida, abaixando a cabeça para fazer algumas anotações.

"E o que você fez com o convite?" Ela perguntou, por fim.

"E isso importa?" Draco devolveu, mas a mulher limitou-se a encará-lo com uma expressão neutra. "Eu guardei na gaveta do meu escritório." A bruxoterapeuta arqueou uma sobrancelha. "Já disse que não vou!" Draco insistiu e amaldiçoou-se pela exasperação que transpareceu em sua voz.

"Tudo bem, eu acredito em você," a mulher falou num tom condescendente e Draco pressionou a ponte sobre o nariz.

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A entrevista saiu numa edição especial do Profeta no último fim de semana de outubro. Harry escondeu o jornal de Draco àquela manhã e tratou de distraí-lo daquilo de todas as maneiras possíveis, dizendo que ele teria tempo suficiente para ler quando retornasse à mansão para esperar por Scorpius. Draco não estava exatamente tentado a protestar.

"Você está de folga amanhã, não está?" Draco perguntou enquanto eles relaxavam na banheira depois de terem passado boa parte da manhã na cama. "Tem algo planejado?"

Draco planejava levar Scorpius ao Beco Diagonal para ver a decoração de Halloween. Já fazia tempo que o garoto o estava importunando com aquilo, apesar de Astoria já tê-lo levado algumas vezes. Harry demorou um pouco para responder, a cabeça encostada na borda oposta da banheira, as mãos massageando a sola dos pés de Draco preguiçosamente.

"Vou visitar o túmulo dos meus pais," ele falou e Draco ficou tenso por um momento, lembrando-se do que a data significava para o moreno.

"Quer companhia?" Draco acabou oferecendo antes que se arrependesse.

Harry levantou os olhos para ele, surpreso.

"Você está falando sério?" Harry perguntou e Draco limitou-se a encolher os ombros.

"A menos que você prefira fazer isso sozinho, sim estou falando sério."

"E quanto a Scorpius?"

"Ele pode ir conosco. Ou posso deixá-lo com Effie por alguns minutos."

Harry voltou a massagear seu pé após uma breve hesitação, as sobrancelhas arqueadas em ponderação.

"Eu gostaria que vocês fossem."

"Mas?"

O ex-grifinório suspirou.

"Eu sempre vou lá nesse dia. É provável que tenha algum fotógrafo à espreita. Aliás, Bellamy provavelmente vai garantir que tenha alguém lá para tirar fotos, você sabe..."

"Bem... Isso é mais razão ainda para que Scorpius e eu estejamos lá."

Harry riu, mas então ficou sério novamente ao perceber que Draco não o acompanhara no riso, suas mãos paralisando novamente enquanto ele o escrutinava. O loiro rolou os olhos.

"Você quer ou não quer manter as pessoas falando sobre você? Isso certamente vai dar o que eles falarem."

Harry sacudiu a cabeça, incrédulo.

"Se você insiste," ele encolheu os ombros. "Mas saiba que não vou culpar você se desistir depois de ler a entrevista."

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A matéria começava com perguntas sobre o baile beneficente e o trabalho desenvolvido em St. Hedwig, mas não era de se admirar que o foco tivesse mudado rapidamente para a vida pessoal de Harry logo em seguida - sendo que esta última parte ocupava mais do que a metade do artigo.

R.S.: E quanto à sua vida amorosa? Alguma garota especial?

H.P.: Não, não. Nenhuma garota.

R.S.: Por enquanto, não é mesmo?

(Esta entrevistadora não se envergonha em dizer que deu uma piscadela para o jovem, que sorriu embaraçado - e receio que o sorriso dele continue tão encantador quanto sempre foi, senão ainda melhor!)

R.S.: Quer dizer que você está livre para convidar qualquer garota para o baile?

H.P.: Não exatamente. Vou levar a Sra. Closs.

R.S.: Ah, claro. Quão nobre da sua parte. É uma pena, realmente... Tenho certeza que as bruxas solteiras de toda a Londres se candidatariam para a vaga, se pudessem. Eu certamente seria uma delas.

H.P.: Obrigado, fico lisonjeado.

(Ele não é um perfeito cavalheiro?)

R.S.: Mas, falando sério agora, não está acontecendo nenhuma paquera? Talvez alguma amizade que pode se tornar algo mais? Posso me lembrar de algumas ocasiões em que você foi fotografado com algumas damas, a Srta. Astoria Greengrass entre elas...

H.P.: Astoria? Oh, não, não é nada do tipo. Somos apenas bons amigos. Às vezes trocamos algumas correspondências por causa de Scorpius.

R.S.: Ah, claro, o pequeno Scorpius Malfoy... Ele parece bastante apegado a você desde o incidente do ano passado...

(Estou me referindo, é claro, ao sequestro do jovem Malfoy pelo perigosíssimo Comensal da Morte Teobald Crabbe, que culminou na captura do criminoso fugitivo, felizmente sem nenhuma consequência física para o garoto. Isso graças ao Salvador do Mundo Bruxo, obviamente.)

H.P.: Scorpius é um garoto encantador. Ele e meu afilhado têm se dado bem, ultimamente. E eles são primos distantes.

R.S.: Neto de Andrômeda Tonks (previamente Black), claro. Por acaso foi isso que aproximou você de Draco Malfoy, recentemente? Ou foi o incidente em Hogsmeade que acabou por derrubar algumas barreiras?

H.P.: Isso certamente ajudou. Mas a minha aproximação com Draco começou antes disso, enquanto lecionamos juntos em Hogwarts.

R.S.: Então vocês são realmente amigos agora?

H.P.: Eu o considero como um amigo, sim.

R.S.: Uau, isso é realmente admirável. Quero dizer, com todo o histórico entre vocês dois...

H.P.: Todos nós cometemos erros.

R.S.: Sim, mas tenho certeza que o Sr. Malfoy tem muito que agradecer a você. Afinal, você salvou o filho dele. Além de ter testemunhado em favor da família dele após a guerra.

H.P.: Ele não me deve nada. Fiz o que tinha que fazer, o que era certo.

R.S.: É uma pena que o casamento dele com a Srta. Greengrass tenha terminado. Eles faziam um belo casal...

H.P.: Eles são bons amigos. E excelentes pais.

R.S.: Ouvi dizer que Astoria está entre os melhores partidos de Londres, ultimamente. Assim como você, aliás. Tem certeza que o Sr. Malfoy não está cuidando para que Astoria tenha um bom partido para auxiliar na educação do filho dele, já que eles são tão bons amigos?

H.P.: Tenho certeza que Astoria pode conseguir um bom partido por si mesma. Ela é uma mulher encantadora.

(Devo dizer que fiquei arrepiada com a maneira como os olhos dele brilharam ao dizer isso. Se contar com todo o carinho por trás do comentário. Essa Astoria é mesmo uma mulher de sorte!)

R.S.: Também ouvi dizer que ela já conseguiu um bom partido. Um rapaz de família muito bem relacionado e afortunado, em todas as maneiras possíveis, pelo que sei. De fato, já era de esperar que um noivado tivesse sido anunciado a esse ponto. Me pergunto por que ainda não foi... Talvez a Srta. Greengrass ainda tenha esperança de fisgar um peixe ainda maior, quem sabe?

H.P.: Como eu disse, ela é uma mulher notável. Tenho certeza que pode escolher com quem quer se casar. E não é uma decisão fácil, principalmente para quem já tem um filho, como ela. Ninguém pode culpá-la por levar o tempo que precisar para se decidir.

R.S.: De fato, de fato. Tem que ser um bom partido e ainda por cima se dar bem com crianças. Não é algo fácil de encontrar, hoje em dia, mas eu mesma posso pensar em uma ou outra pessoa com essas qualidades e muitas mais. Como coragem sem precedentes, por exemplo. Então, Harry, me conte mais sobre esse incidente com uma quimera! Quer dizer que, não contente em derrotar o maior bruxo das trevas de todos os tempos, você também é o segundo bruxo a matar um dos animais mágicos mais perigosos e o primeiro a sobreviver após a façanha! Me conte tudo!

A entrevista seguia com especulações e perguntas traiçoeiras, mas Harry se saíra bem nelas, apesar de os comentários de Skeeter terem conseguido deturpar algumas das respostas. No geral, poderia ter sido muito pior.

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Já era tarde da noite quando Astoria apareceu em seu escritório, os olhos vermelhos e um sorriso trêmulo no rosto.

"O que aconteceu?" Draco perguntou, largando a colher que usava para mexer seu caldeirão e limpando as mãos na capa antes de se aproximar dela.

"Ah, não foi nada," ela falou, a voz embargada. "Desculpe ter aparecido sem avisar. Pode terminar sua poção, prometo não atrapalhar."

"A poção pode esperar." Draco acenou a varinha para apagar o fogo mágico abaixo do caldeirão e desapareceu com o seu conteúdo com outro aceno. "Venha."

Ele segurou a ex-esposa pelos ombros e guiou-a até uma das poltronas mais afastadas da escrivaninha, sentando-se de frente para ela.

"Não sabia que você tinha voltado a fazer poções," Astoria comentou, numa fraca tentativa de ganhar tempo.

"Vector pediu um auxílio com o estoque da enfermaria de Hogwarts," Draco respondeu, convocando um elfo para servir o chá.

"Isso significa que você vai poder fazer suas próprias poções?"

"Não exatamente," Draco crispou o lábio superior. "Vector pediu uma manifestação da Dra. Rost e ela achou seguro que minha autorização fosse restrita a determinados ingredientes."

"Bem, talvez seja melhor assim," Astoria ponderou, aceitando o chá com um aceno de agradecimento ao elfo. "Scorpius já está dormindo?"

"Faz alguns minutos." Draco pousou a própria xícara de chá na mesinha ao lado. "Astoria..."

A mulher baixou os olhos para sua xícara por um momento antes de se pronunciar novamente.

"Tommy e eu terminamos."

"Oh?" Draco exclamou, apenas a consideração por Astoria impedindo-o de soar agradavelmente surpreso.

Astoria respirou profundamente, porém sua voz soou trêmula quando ela voltou a falar.

"Eu estava planejando tudo para o baile, já tinha ido até a Madame Malkin escolher o modelo do meu vestido, marcado cabelo e unhas e até pedido para minha mãe cuidar de Scorpius à noite..." Ela fungou. "E então, quando comentei com Thomas ele... Ele disse que eu nunca tinha perguntado a ele se ele queria ir, que eu estava assumindo coisas a respeito dele, que ele não tinha interesse nenhum em participar do Baile do Potter. E o jeito que ele falou o sobrenome do Harry, praticamente cuspindo... E ele disse que Harry não tinha nada que ter mandado um convite especialmente para mim, já que ele já tinha recebido um... E eu tentei explicar que não era Harry quem mandava os convites, mas ele não queria ouvir... e então eu disse, tudo bem, então não precisa ir. Eu vou com Draco. E então," ela soluçou, "ele disse coisas terríveis, Draco... Coisas que não consigo nem repetir..."

Draco tinha se movido para se sentar no apoio de braço da poltrona de Astoria, passando os braços ao redor da ex-esposa e ela aceitou o convite para enterrar o rosto no peito dele, soluçado livremente agora.

"Shh... está tudo bem." Draco passou a mão pelas costas de Astoria e deixou-se escorregar para o assento da poltrona, espremendo-se no pequeno espaço junto com ela. "Esqueça o que quer que ele tenha dito, está bem? Ele é um perdedor orgulhoso e imbecil. Ele não merece você, está ouvindo? E você merece coisa muito melhor."

"Mas e se eu n-não conseguir nada m-melhor? E se ninguém n-nunca..."

"Chega. Não quero ouvir nada disso. Astoria, você é a mulher mais doce, linda e encantadora que eu conheço. Você vai encontrar alguém ou alguém vai encontrar você, tenho certeza disso. Agora trate de chorar tudo o que tem para chorar por esse babaca porque não quero mais ver você derramar uma lágrima por ele, ouviu bem?"

Astoria soltou um riso em meio ao choro, apertando seu braço em agradecimento. Eles ficaram em silêncio por algum tempo enquanto Astoria se acalmava. Quando ela voltou a falar, sua voz estava mais estável.

"Scorpius sem dúvida vai ficar feliz em saber disso."

Draco bufou.

"Ele provavelmente vai querer casar você com o Harry na próxima semana," ele disse, ao que Astoria riu suavemente.

"Aposto como ele ficaria feliz em casar qualquer um de nós dois com o Harry. Se ele ao menos soubesse... Aliás, se Tom soubesse, talvez ele não se sentisse tão ameaçado por você e por Harry."

"Ele não seria menos babaca por isso."

"Você nunca gostou dele, gostou?"

"Deus, não."

"Por quê?" Astoria afastou-se para encará-lo e Draco susteve seu olhar por um momento, sardônico.

"Por que você gostava dele? Ele é um idiota completo! Não entendo como seu gosto por homens pode ter caído tanto depois de mim."

"Talvez porque você tenha sido perfeito demais para ser verdade?"

Draco suspirou e tornou a abraçá-la.

"Tudo bem, eu mereci isso," ele falou e ela apertou seu antebraço suavemente em um pedido de desculpas.

"O pior é que nem sei se terminamos mesmo."

"Como assim?"

"Bem, ele disse que se eu fosse ao baile com você, que estava tudo terminado entre nós. E então ele foi embora sem mais nenhuma palavra."

Draco abriu a boca para dizer algo e então seus olhos se estreitaram.

"Astoria..."

"Draco!" Ela endireitou-se, indignada, limpando os olhos com um lenço que Draco conjurou para ela. "Você sinceramente acha que eu inventaria tudo isso para fazer você ir ao baile?"

Draco suspirou novamente, largando-se contra o encosto da poltrona e encarando o teto por algum tempo. Então, com uma nova determinação no rosto, ele alcançou a mão de Astoria e entrelaçou os dedos nos dela.

"É melhor Madame Malkin caprichar nesse vestido. Você sabe que não danço com ninguém malvestido."

O rosto de Astoria se iluminou num sorriso.

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"Então você vai ao baile, afinal?" Perguntou a Dra. Rost e Draco levantou uma mão em sinal de aviso.

"Nem comece."

A bruxa baixou os olhos para suas anotações, mas Draco podia ver que a maldita estava tentando esconder um sorriso divertido.

"Bem, acredito que nosso tempo já tenha acabado, não?" Draco consultou o próprio relógio e pousou a xícara na mesa antes de se levantar.

"Oh, bem, ainda temos cinco minu-"

"Eu realmente tenho que ir agora."

"Vai a algum lugar?" A bruxoterapeuta perguntou, parecendo só então reparar nas vestes formais do seu paciente. "Você está muito elegante para uma segunda-feira de manhã. O que pode ser tão-"

"Salazar, são só cinco minutos, mulher! Podemos compensar na próxima sessão, por favor?" Draco estalou os dedos, chamando pelo elfo doméstico. "Effie, traga Scorpius, sim?"

"Sim, mestre Malfoy. Agora mesmo, mestre Malfoy." O elfo fez uma última reverência antes de desaparatar com um pop.

No mesmo instante, Draco pôde ouvir os passos apressados de Scorpius no corredor.

"Papai, papai! Vamos logo! Harry já deve estar esperando!"

"Ah, claro," Draco ouviu a voz da Dra. Rost e bufou ao ver a bruxa ainda na lareira, retirando os óculos do rosto. "Bom dia, Scorpius. Como vai?"

"Ah, olá!" Scorpius empertigou-se ao perceber que não estavam sozinhos, olhando da bruxa para o pai, subitamente acanhado. "Sinto muito, eu..."

"Está tudo bem, a Dra. Rost já está de saída." Draco lançou um olhar significativo para a bruxa, que finalmente disse adeus e sumiu. "Effie?"

Draco olhou ao redor e localizou o elfo com dois buquês de flores. O loiro ficou com o maior e entregou o menor para Scorpius, que lutava para alisar a gola das vestes novas.

"Lembre-se do que combinamos, está bem?" Draco falou para o filho, abaixando-se para arrumar suas vestes com a mão livre.

"Está bem," Scorpius rolou os olhos. "Nada de ficar fazendo perguntas nem caretas para os fotógrafos."

"Lembre-se que é um momento importante para o Harry. E que cemitério não é lugar de fazer bagunça."

"Sim, papai," Scorpius assentiu, dessa vez mais sobriamente. Ele ficara bastante consternado quando Draco explicara para ele, no dia anterior, sobre a morte dos pais de Harry quando ele ainda era um bebê. "Vou me comportar."

"Tenho certeza que sim." Draco levantou-se, rumando para a porta. Assim que saíram para o jardim, ele ofereceu a mão para que o filho segurasse. "Pronto?"

"Pronto," Scorpius falou, estufando o peito.

Draco queria ter a confiança do filho, mas a verdade era que estava com o coração acelerado e as palmas das mãos suando. Antes que pudesse desistir, entretanto, ele respirou profundamente e aparatou.

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