SNAPE

Loucura. A palavra que definia o meu estado psicológico no momento em que busquei a Weasley para o casamento sob a desculpa medíocre de que 'Seria oportuno mais de duas testemunhas'.

Irresponsável. Foi aparatar com uma aluna sob a mentira de que iria castigá-la por tentar furtar um objeto da sala do diretor.

Idiota. Era a que definia o fato de eu estar pensando na felicidade da Granger.

Menina-irritante. Era o que eu falava para a minha mente conturbada todas as vezes em que ela me traía com pensamentos intensos com uma mulher que, definitivamente, não tinha nada de menina. Um pouco irritante, talvez. Mas nem de longe insuportável. A verdade é que até o gênio dela me agradava.

E ali estava eu, de pé ao lado de um Lupin desconcertado, uma Minerva insatisfeita, uma Molly sorridente – 'porque raios ela sorri tanto?!', eu me perguntava – e de um Arthur confuso. Não imaginava onde os gêmeos poderiam estar, mas agradecia mentalmente por uma Toca mais vazia.

Sentia as perguntas de McGonagall me bombardearem, mas antes que ela decidisse pelo 'sim' e jorrasse ofensas, a menina Weasley apareceu dizendo que Hermione já estava pronta. Nesse momento eu não sabia controlar minhas mãos trêmulas, muito menos o suor que brotava em minha nuca. 'Ela está pronta e vai descer a qualquer minuto', foi o que a ruiva disse enquanto sorria. E essas palavras ficaram ecoando na minha mente, como um mantra. 'A qualquer minuto' significava que em poucos segundos ela desceria e nos casaríamos. Que em pouco tempo faríamos nossos votos e que estaríamos ligados por uma magia poderosa. Que ela realmente confiava em mim e estava levando aquilo até o fim. Que eu a admirava mais do que podia supor ou sonhar, e que faria de tudo para fazê-la feliz, mesmo que como amigo – 'Porque é assim que ela me vê', pensava.

E então ela apareceu na sala. E eu suponho que não tenha conseguido esconder minha expressão estarrecida, pois o idiota do Lupin aproveitou a deixa para alfinetar o momento.

– Não vai buscar sua noiva, Severo? – e eu me limitei a um bufo seco e caminhei ao seu encontro, para então oferecer meu braço.

Chegando mais perto pude ver como os cachos caíam sobre os ombros, e como as pequenas flores contrastavam com o cabelo cor de mel. A pele clara revelou algumas pequenas sardas no nariz, que eu nunca havia reparado. Quantos segredos mais ela pode revelar?

Ela também parecia nervosa, mas determinada que era certamente não demonstraria fraqueza. E então me senti ainda mais tolo por estar agindo como um adolescente.

Tentando ignorar todo o meu nervosismo e desconforto com a situação, a conduzi calmamente até ficarmos frente a frente com o mesmo bruxo que, como eu havia ficado sabendo, tinha conduzido o enterro de Dumbledore. No curto caminho, senti os olharem de Minerva suavizarem ao ver Hermione, bem como o dos demais.

Quando paramos, enfim, esperei que ela soltasse meu braço. No entanto, ela apenas o apertou mais, olhando firme para o minúsculo bruxo como se dissesse: 'Eu não vou soltar'. Sorri internamente com a vitalidade da minha noiva, e o bruxo a nossa frente suspirou resignado, dando início a cerimônia.

Ele começou com palavras tolas sobre o amor que pareceram atingir a todos ali, com seus próprios dilemas amorosos. E era realmente cômico – para não dizer ridículo – que eu, a pessoa sem a menor expectativa ou esperança, estivesse ouvindo sobre sentimentos, ao lado da pessoa pela qual estava me apaixonando, e em um casamento – que a propósito era o meu. Até que em algum momento as palavras do bruxo começaram a me atingir de alguma maneira...

O amor é algo bastante curioso. A morte tem sentidos distintos em cada região; há culturas que a aceitam com alegria; há outras que choram com a mera possibilidade. A alegria é sentida das mais diversas e variadas formas, e enquanto para uns ela é passageira, outras parecem viver em eterno estado de torpor. Mas o amor é universal: quando se ama, os sintomas são muito parecidos. Quando se ama de verdade, claro. O amor não é se agarrar a uma pessoa; ao contrário, é deixar que as coisas fluam naturalmente. Amar não é prender, é saber soltar se isso fizer o outro feliz.

Por mais que o casamento de vocês não tenha sido planejado da maneira mais convencional, não quer dizer que não possam se respeitar e, até mesmo, se amar.

Nesse momento uma luz insistente me distraiu, e quando olhei para o braço de Hermione que estava junto ao meu, pude ver a pulseira que eu a havia presenteado. Mas ao contrário das cores vermelho e dourado, estava pincelada com as cores da sonserina. Ela me olhou de soslaio e sorriu, e um pigarro nos fez voltar a atenção para frente.

Porque o amor não advém apenas do sentido romântico da palavra, mas da preocupação com o outro, da vontade de abdicar da própria felicidade se isso significar a do outro. O amor não é egoísta.

O amor não é egoísta, repeti mentalmente. A frase explodiu em minha cabeça de maneira estrondosa, me fazendo perceber algo que nunca havia me dado conta. Eu sempre agi de maneira egoísta em relação a Lilly, provavelmente culpa da minha imaturidade. Mas aquelas palavras me fizeram pensar... Não que eu não a amasse. Eu a amei com todo o meu coração. Mas foi da maneira errada. Em contrapartida, eu me preocupava com Hermione. Seria capaz de engolir todos os amigos idiotas e irritantes dela se isso a fizesse feliz. Por Merlin, eu dividia a casa com um gato!

– Agora é o momento em que farão seus votos. Por favor, testemunhas, aproximem-se.

– Isto, agora deem as mãos – disse, alternando o olhar entre mim e Hermione. Por um momento fiquei sem saber o que fazer, hesitante, até que ela pegou a minha mão e a sustentou no ar. Tão macia, tão fina, tão delicada...

Fizemos nossos votos sem deixar o olhar um do outro, alheios a todo o resto. Por Merlin, ela estava linda! Lembro-me de quase corar olhando tanto para o rosto dela, desejando beijá-la uma vez mais. E sempre.

Tive que desviar meu olhar e me concentrar na luz prateada que emanava de nossas mãos entrelaçadas. Fomos então unidos pelo pacto. A luz comprovava que estava feito. E isso me fez temer olhar para ela. Temi me deparar com arrependimento e tristeza nos olhos castanhos, e ela pareceu percebeu isso, pois apertou meus dedos com mais força fazendo-me olhá-la. E ao contrário do que eu esperava ver, um sorriso estonteante dava lugar às minhas incertezas e receios.

– Podem concretizar a cerimonia agora... – brincou a menina Weasley, fazendo com que eu e Hermione lançássemos um olhar furioso para ela.

No entanto, enquanto nos preparávamos para soltar nossas mãos, a voz rouca do pequeno bruxo nos fez parar.

– A jovem está certa. Devem macular a cerimônia com um beijo. Merlin.

...

HERMIONE

'Um beijo?! Caramba, eu não tinha pensado nisso.' Mas embora não tivesse pensado, eu desejava. No entanto, antes que eu pudesse racionar sobre isso, ele me surpreendeu com um beijo na testa. Foi um beijo bonito, carinhoso, respeitoso. Só que eu queria mais, e me senti frustrada. 'É assim que ele me enxerga? É assim que vai ser?', perguntei a mim mesma, desapontada.

E em poucos segundos fomos cercados de sorrisos – de Molly, Gina e Arthur, é claro – e por cumprimentos formais da professora Minerva e do professor Lupin, que ainda pareciam atônitos com tudo aquilo.

Severo rapidamente tratou de se afastar, do seu jeito sempre silencioso. E Lupin o seguiu, provavelmente querendo conversar sobre os acontecimentos recentes – mais especificamente a morte de Dumbledore.

Minerva também não perdeu a oportunidade de saber como eu estava e, finalmente, me deu a sua 'bênção'. Ela parecia acreditar em Severo, enfim.

– Ele tem demonstrado muito zelo, Hermione. Dumbledore não poderia se enganar tanto... A senhorita tinha razão. – disse, sorrindo – Ou melhor, Senhora Snape. – e saiu em busca de Molly, me deixando com a testa enrugada por trazer à tona esse pequeno detalhe que até então não tinha me ocorrido.

'Senhora Snape...', repeti. Soava bem. Soava muito bem.