Something about the way that you walked into my living room
Casually and confident lookin' at the mess I am
But still you, still you want me
(Next To Me - Imagine Dragons)
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"Então você vai ao Baile." Draco estacou ao ouvir a voz da mãe vinda da lareira assim que pôs os pés na sala de estar.
"Ah," ele exclamou, incapaz de disfarçar o desapontamento.
"Posso saber quem você imaginou que seria?" Narcissa perguntou levantando o nariz para o alto. "Sua acompanhante? Draco, eu realmente espero que o motivo de você não ter me contado nada sobre isso não seja por que você vai levar aquela–"
"Astoria Greengrass, sim," Draco interrompeu-a, sem paciência para ouvir as reclamações da mãe. "Aliás, ela deve me chamar a qualquer momento, então passe para cá logo de uma vez ou libere a rede de Flu."
Narcissa suspirou.
"Infelizmente, seu pai não mudou de ideia a respeito de irmos ao Baile," ela lamentou-se. "Ele disse que nosso momento ainda não chegou. Mas fico feliz em saber que você vai, ainda que seja com aquela oportunista. Este é o seu momento, sem dúvida. E quem sabe em breve não poderemos acompanhá-lo?"
Draco sabia muito bem o que ela queria dizer com aquilo. Nos últimos meses, Draco tomara carona na explosão de Harry na mídia, algumas vezes propositalmente, outras nem tanto, porém aquilo fizera com que as opiniões a respeito dele se dividissem, sendo que boa parte das matérias dos tabloides já não o introduziam mais como ex-Comensal da Morte, mas sim como amigo do Menino que Sobreviveu. Infelizmente para Lucius e Narcissa, aquela boa fama ainda não repercutia para todos os Malfoy.
Ainda não.
"Imagino que vocês já tenham mandado a generosa contribuição de vocês," Draco disse sarcástico, inspecionando as abotoaduras.
"É claro." Narcissa empertigou-se. "Como sempre. Tem certeza que Potter não mencionou nada sobre o cartão que mandei junto?"
"Não é ele quem recebe as doações." Draco rolou os olhos. "É o pessoal da instituição."
"Oh." Aquilo fez com que Narcissa perdesse um pouco da pompa momentaneamente. Porém ela logo recuperou-se. "Eu devia ter pedido para você entregar pessoalmente, então. Aliás, mande lembranças minhas e do seu pai quando o vir hoje, não se esqueça, está bem? E certifique-se de não deixar sua ex dar vexame. Nós não gostaríamos de manchar sua tão merecida reputação com ela se jogando aos pés de Potter, gostaríamos? Aliás, você não deveria se envolver com ela mais que o necessário."
"Mãe..." Draco disse em tom de aviso, porém Narcissa ignorou-o.
"É óbvio que ela está se aproveitando da sua proximidade com o rapaz para se oferecer para ele. Não é mesmo uma coincidência ela ter terminado com o herdeiro dos Henrich bem no dia em que publicaram aquela entrevista com Potter?"
"Mãe, a senhora por acaso não mencionou Astoria nesse seu cartão, mencionou?"
"É claro que não." Narcissa fez questão de parecer ultrajada pela sugestão. "Não sou nenhuma fofoqueira. Além do mais, você como amigo dele deveria aconselhá-lo melhor sobre–"
"Oh, por Salazar, Potter não está interessado em Astoria, mãe," Draco explodiu. "Nem muito menos Astoria está interessada nele. Agora quer fazer o favor de parar de resmungar? Tenho um Baile para comparecer."
Ao contrário do que Draco esperava, Narcissa deu um sorriso satisfeito àquelas palavras. E não era por menos. Ela tinha acabado de conseguir muito mais informação sobre Harry nos últimos segundos do que nos últimos meses. Draco evitava a todo custo falar sobre o moreno com a mãe, desviando-se de todas as suas armadilhas e artimanhas para tentar arrancar algo do filho, porém já estava farto daquilo.
"Muito bem." A voz de Narcissa tornou a soar aveludada. "Não irei atrasá-lo. Seu pai e eu estamos orgulhosos de você, querido."
E com isso, ela se despediu.
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O salão já estava lotado quando Astoria e Draco chegaram. O convite mencionara que haveria um coquetel na recepção, depois seriam leiloadas algumas obras de arte e peças de decoração doadas especialmente para a ocasião e, ao final, haveria o baile ao som de Celestina Warbeck. Draco cumprimentou o mínimo possível de pessoas e levou Astoria até um canto mais afastado do salão, de onde era possível ver através das janelas os tetos das construções próximas cobertos da neve fina que caíra ao longo de todo o dia.
Draco pegou duas taças de champanhe de uma bandeja flutuante quando ela passou por eles e escaneou o salão em busca de Harry, fingindo não reparar nos olhares curiosos e muitas vezes hostis em sua direção. Encontrou alguns rostos conhecidos em sua busca, Hermione e Ronald Weasley entre eles. Hermione sorriu e ergueu a taça em cumprimento e Astoria acenou de volta, mas Ronald desviou os olhos assim que percebeu para quem a esposa estava olhando. Draco achou ter visto as orelhas do homem vermelhas quando ele olhou em sua direção algum tempo depois, mas não soube identificar a emoção por trás daquilo.
"Tudo bem, Draco?" Astoria perguntou, colocando uma mão em seu antebraço suavemente.
"Não poderia estar melhor," Draco falou, sarcástico, virando-se de costas quando o fotógrafo de plantão ergueu a câmera ao vê-lo.
Astoria apertou seu braço oferecendo um sorriso enternecido.
"Eu já agradeci o suficiente por você ter vindo?" ela perguntou.
"Não o suficiente. Nunca será o suficiente."
"Com licença," pediu uma voz polida e Draco suspirou resignado antes de se virar, encontrando o fotógrafo, que havia se aproximado. "Os senhores se importam em posar para uma foto?"
Draco limitou-se a inclinar a cabeça o mínimo que a cortesia permitia e manteve as feições estoicas enquanto Astoria segurava seu braço para posar para a foto ao seu lado, deslumbrante em suas vestes vermelho-queimado. O fotografo agradeceu e se afastou com uma mesura.
"Bem, pense pelo lado positivo," Astoria disse junto ao seu ouvido. "Poderia ter sido a Rita Skeeter."
"Shh! Não diga o nome dela em voz alta ou ela pode aparatar do seu lado com aquela maldita pena-de-repetição-rápida."
Astoria escondeu um sorriso divertido atrás de sua taça. Draco ignorou-a, tornando a percorrer o salão com os olhos. Achou ter visto Harry do outro lado do aposento conversando com McGonagal, mas antes que pudesse ter certeza, ouviu uma voz conhecida.
"Beth, querida, não me deixe tomar mais nenhum gole dessa champanhe," disse Blaise, aproximando-se de braço dado com a esposa gravidíssima. "Tomei apenas uma taça e já estou vendo coisas! Poderia jurar que aquele ali é ninguém menos que Draco Malfoy em pessoa!" Ele sorriu, estendendo a mão para Draco enquanto a esposa cumprimentava Astoria. "Ei, já estava pensando que nada além de um incêndio tiraria você daquela mansão num sábado à noite!" Ele virou-se para Astoria em seguida. "Astoria, o que você fez para conseguir essa façanha?"
"Felizmente, nada que envolvesse fogo," Astoria respondeu bem-humorada, aceitando o cumprimento do ex-colega de casa.
Draco rolou os olhos.
"Não vá dando ideias a ela." Draco cumprimentou Elizabeth Zabini em seguida. "Você está ótima."
"Obrigada." Elizabeth sorriu, alisando a barriga por cima das vestes de gala azuis e alternou o olhar entre Draco e Astoria. "Vocês dois também estão ótimos. Fazem um ótimo casal, como sempre. Por acaso vocês...?" ela deixou o resto da pergunta no ar e Astoria socorreu tão logo entendeu o que ela queria dizer.
"Ah, não, não. Viemos como amigos," Astoria esclareceu com um sorriso.
"Que pena." Elizabeth soou pesarosa.
"Então," Blaise atalhou, antes que as coisas ficassem esquisitas, "como está Scorpius?"
Draco deixou que Astoria assumisse a conversa dali em diante, perguntando também sobre Alana e sobre o bebê que estava por vir enquanto Draco vasculhava o salão novamente. Daquela vez, encontrou Harry sem muito esforço, porém recebeu de volta um sorriso apologético. Ele estava de braço dado com Bellamy Closs, que parecia ainda mais redonda em suas vestes roxo berrante, e conversava com o Ministro da Magia. Draco limitou-se a arquear a sobrancelha para ele em resposta. Não era como se não soubesse que Harry dificilmente teria como dar atenção a ele durante o evento, afinal. Ainda assim, Draco viu-se relaxando o aperto em sua taça e moveu o pescoço para aliviar um pouco da tensão acumulada, respirando profundamente.
"Ah, lá está Theodore!" Draco foi trazido de volta à conversa pela exclamação de Blaise, que acenou para alguém próximo. "Theo! Aqui!"
Draco levou algum tempo para reconhecer o ex-colega de casa. Theodore Nott tinha ganhado alguma massa muscular desde a última vez em que o vira, no julgamento do pai do garoto. Ele também tinha perdido as espinhas características da idade, embora permanecesse com uma ou outra cicatriz no rosto barbado. Theodore hesitou por um momento ao passar os olhos pelo círculo de sonserinos, mas acabou se aproximando depois de olhar ao redor.
"Boa noite," ele disse, um tanto timidamente, seu olhar encontrando o de Astoria antes que ele abaixasse a cabeça. Pelo menos isso não havia mudado, então.
"Quanto tempo!" Blaise passou uma mão ao redor dos ombros do recém-chegado. "Fico feliz que você tenha resolvido vir, afinal."
"Tenho algumas coisas para resolver por aqui durante a próxima semana," Theodore falou, mexendo com sua taça nervosamente.
"Veio sozinho?" perguntou Elizabeth e algo em seu tom fez com que Draco desconfiasse das intenções do casal.
"Estou com minha prima," Theo olhou ao redor novamente, gesticulando vagamente. "Ela está por aí."
"Soube que você está estudando na Grécia," Astoria puxou conversa.
"Ah, er..." Theodore corou, incapaz de segurar o olhar de Astoria. "E-Eu... já me formei, na verdade. Mas sim, estou morando lá. Ultimamente."
"E não pensa em voltar?" Astoria continuou.
"Ele está cogitando a possibilidade, não é mesmo, Theo?" Blaise interveio novamente.
Theo desconversou e pareceu que ia dar alguma desculpa para se retirar, mas Blaise cochichou algo em seu ouvido e ele relaxou uma pequena fração, embora ainda parecesse tenso. Draco percebeu quando ele levantou os olhos para Astoria novamente e então seus olhos passaram para Draco.
"É bom vê-lo, Theo," Draco se manifestou finalmente, erguendo sua taça numa saudação.
O rapaz relaxou um pouco mais, oferecendo um sorriso tentativo.
"É bom ver vocês também," ele falou, por fim.
"Então, conte-nos como é a Grécia!" Elizabeth incentivou.
"Não sabia que você estava dando uma de alcoviteiro, agora," Draco falou silenciosamente para Blaise enquanto Theodore falava um pouco sobre sua vida e as duas mulheres exclamavam, impressionadas.
"Ele parece ter superado a paixonite para você?" Blaise perguntou, parecendo satisfeito consigo mesmo.
"Não, não parece."
Alguns minutos depois – e duas rodadas de champanhe –, o grupo de sonserinos aumentou com a chegada do ex-apanhador Terence Higgs – já no segundo casamento – e um ligeiramente alegre Slughorn. De algum modo o grupo havia se dividido: os Zabini e Higgs conversando com Slughorn de um lado, Astoria e Nott ainda conversavam do outro, enquanto Draco fingia participar da conversa.
"Esse canto é exclusivo para os sonserinos?" Draco virou-se ao ouvir a voz de Luna Scamander.
"Não, de maneira nenhuma." Draco estendeu a mão para os recém-chegados, grato pela desculpa para deixar o casal conversar em paz.
"Ótima festa, não é mesmo?" disse Rolf quando uma bandeja de canapés flutuante se aproximou deles.
"Os vol-au-vents de bucho estão uma delícia!" disse Luna, servindo-se de um pedaço.
Draco estava prestes a se servir de um quando pensou melhor, deixando a bandeja passar.
"Ouvi dizer que você voltou a fazer poções," comentou Luna. "Rolf e eu vamos para a Romênia no próximo mês, quer encomendar algo?"
"Você vai voltar a viajar?" Draco perguntou, admirado, imaginando se ela planejava levar os filhos junto. Em se tratando de Luna, não era nada difícil.
"Não, só vou acompanhar Rolf em uma ou outra viagem," Luna esclareceu.
Eles tinham acabado de combinar trocarem algumas corujas ao longo do mês quando mais pessoas se juntaram a eles.
"Luna! Que bom vê-la!" disse Hermione Weasley, aproximando-se para abraçar a ex-colega de Hogwarts.
Draco virou-se para o lado e deparou-se com o marido dela ao seu lado. Ronald Weasley o encarava do alto dos seus quase dois metros de altura, suas sardas mais pronunciadas pela vermelhidão acentuada do seu rosto.
"Malfoy," ele disse, aparentemente incapaz de sustentar seu olhar por mais que alguns segundos por vez.
"Weasley," Draco devolveu com a mesma falta de entonação, levando a mão ao bolso da varinha instintivamente. Não que achasse que Weasley seria capaz de atacá-lo no meio de todas aquelas pessoas, mas porque havia algo de inquietante na maneira como o ex-grifinório mexia com a gola das vestes nervosamente.
Weasley limpou a garganta.
"Se importa de conversarmos por um instante?" o ruivo perguntou.
Draco franziu o cenho relanceando para Hermione, que parecia alegremente distraída com os Scamander.
"Claro," Draco falou, fazendo um sinal para que ele falasse enquanto olhava ao redor novamente, procurando por Harry.
"Em particular," Weasley falou, acenando com a cabeça para uma das portas duplas que levava ao outro aposento.
Draco retesou-se novamente, sentindo-se encurralado. Todos os seus instintos lhe diziam para recusar o mais polidamente possível, porém bastou um olhar para Hermione – que sorriu e assentiu com firmeza – para que Draco soubesse que não tinha escapatória. Aquele confronto já fora adiado por tempo demais.
Endireitando a coluna, Draco colocou a taça vazia numa taça flutuante – felizmente, sua mão estava firme ao fazê-lo – e tocou gentilmente no braços de Astoria, que ria de algo que Theodore dissera.
"Volto num instante," ele avisou, sustentando seu olhar e fazendo um aceno discreto com a cabeça em direção a Weasley quando ela franziu o cenho.
"Tudo bem," Astoria garantiu com um pequeno sorriso que não alcançou os olhos. Draco podia ler a preocupação em seus olhos, por isso apertou seu braço de maneira asseguradora antes de se afastar com um pedido de licença para Theodore.
Draco acompanhou Weasley para uma sala adjacente ao salão principal, que dava acesso a uma comprida sacada, onde alguns bruxos fumavam um charuto fétido. Os bruxos interromperam sua conversa ao vê-los, mas logo voltaram a conversar entre si. Um feitiço mantinha a neve longe da sacada, mas não era suficiente para impedir o frio cortante de formar névoas conforme respiravam.
Quando eles estavam a uma distância segura do pequeno grupo, Weasley sacou a varinha – Draco deu um passo para trás, levando a mão ao bolso, pensando se Astoria demoraria muito para suspeitar de algo e começar a procurar por ele...
"Caramba, Malfoy, calma aí!" Weasley pareceu surpreendido pela reação de Draco. Ele rolou os olhos e lançou um feitiço de abafamento ao redor deles.
Draco afrouxou o aperto na varinha, mas esperou que Weasley guardasse sua arma primeiro antes de fazê-lo. O ruivo suspirou.
"Olha," Weasley falou, passando a mão pelos cabelos. "Vamos direto ao assunto, certo? Você não gosta de mim, eu não gosto de você, mas acredito que até mesmo nós dois temos algo em comum, certo? Quero dizer, Harry é meu melhor amigo e quero o que é melhor para ele, mas não posso falar em seu nome, Malfoy."
Draco segurou o olhar de Weasley por um instante antes de assentir.
"Nós definitivamente temos algo em comum então, Weasley," ele declarou, colocando as mãos nos bolsos da capa para protegê-las do frio.
"Certo," o ruivo falou, mudando o peso de um pé para o outro. "Olha, não vou fingir que entendo esse relacionamento de vocês. Não sei o que Harry pode ter visto em você, de todas as pessoas. Mas não cabe a mim entender, cabe?"
Draco limitou-se a arquear uma sobrancelha diante da pergunta retórica. Se Weasley estava tentando se desculpar, tinha escolhido uma estratégia interessante – para não dizer ineficaz.
"Quer saber?" Weasley continuou, irritado. "Todo mundo acha que tenho que pedir desculpas para você, mas não me arrependo de uma palavra do que disse. Só me arrependo de como eu disse. Devia ter falado direto na sua cara desde o começo! Acho que você se safou muito fácil de tudo que fez. Acho que você é um covarde por não querer assumir. Acho também que isso tem tudo para dar errado e que o quanto antes Harry se der conta disso, melhor. Mas estou disposto a dar uma chance a você. Por Harry, não por você. Porque ele acha que você vale a pena, por algum motivo, e tenho que respeitar essa decisão dele. Só espero que ele não esteja enganado sobre você." Os olhos dele se estreitaram, o nariz agora avermelhado pelo frio. "E você deveria esperar também, porque se você machucá-lo..."
Ele era corajoso, Draco tinha que admitir. Isso era a segunda maior coisa que sempre o incomodara em Ronald Weasley. A primeira era que ele tinha conseguido chegar até Harry primeiro e Draco sempre imaginara que poderia ter sido diferente, caso contrário; que Draco teria tido uma chance, caso Weasley não tivesse enchido o ouvido de Harry de coisas a seu respeito antes mesmo que pudesse se apresentar. Agora Draco sabia que aquilo jamais teria acontecido; que aquele garoto que ele fora nunca teria tido uma chance com Harry, mas isso não o impedia de se ressentir com Weasley.
Draco desviou os olhos do ruivo por um instante, contendo um arrepio. Ele tinha deixado o casaco do lado de dentro e o frio começava a penetrar seus ossos.
"Às vezes também acho que isso tem tudo para dar errado," Draco viu-se admitindo, encarando os telhados cobertos de neve que se estendiam pelo horizonte. "Mais vezes do que o contrário. Também tenho meus arrependimentos, Weasley, e entendo o seu posicionamento, mas não vou desistir dele enquanto ele me quiser. Já cometi esse erro uma vez. Não vai acontecer de novo."
Ele olhou para Weasley então, encontrando-o sério, o cenho franzido em desconfiança. Eles se mediram por algum tempo até que Weasley assentiu, sua expressão se suavizando.
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Quando Draco voltou para o salão, o grupo tinha se dispersado, ficando apenas Astoria e Theodore Nott para trás.
"Você está gelado!" Astoria disse ao passar uma taça de champanhe para Draco assim que ele se aproximou. "E pálido. Está tudo bem?"
"Sim. Estávamos dando uma volta do lado de fora."
Antes que Astoria pudesse dizer algo reprovador, Theodore limpou a garganta.
"Er... Acho que... Acho que vi minha prima. Depois nos falamos. Com licença," ele se retirou depois de um olhar furtivo para onde Astoria ainda segurava a mão de Draco.
Draco arqueou uma sobrancelha para a ex-mulher, que encolheu os ombros.
"Estávamos só conversando," Astoria falou, mas Draco viu quando ela enrubesceu.
"Boa noite," Draco virou-se ao ouvir a voz de Harry, o coração subitamente acelerado. Harry estava voltado para Astoria, a mão estendida para um aperto formal. "Astoria, como vai?"
"Bem, obrigada," Astoria sorriu com doçura ao cumprimentá-lo.
"Draco," Harry voltou-se então para o loiro, o olhar intenso.
"Harry," Draco aceitou o aperto de mão firme que durou talvez um pouco mais que o necessário.
"Se importam em posar para uma foto, senhores?" O fotógrafo estava de volta.
Harry rolou os olhos antes de suavizar sua expressão, voltando-se para o fotógrafo com uma expressão solícita.
"Mas é claro," ele colocou-se ao lado de Draco, endireitando os ombros e ajeitando os óculos.
"Er..." o fotógrafo pareceu sem jeito por um momento. "A... iluminação não está muito boa, Sr. Potter. O senhor se importa em mudar de lado?"
Draco teve que se conter para não soltar uma expressão de incredulidade. A iluminação, claro. Certamente não tinha nada a ver com o fato de que o rapaz poderia vender muito melhor uma foto de Potter se ele estivesse ao lado de Astoria Greengrass. Harry também deveria ter desconfiado, já que enfiou-se no meio de Astoria e Draco.
"Que tal assim?" ele perguntou com um sorriso que desarmou o fotógrafo.
Draco puxou o ar com surpresa ao sentir a mão de Harry na base da sua coluna, o polegar acariciando-o discretamente por sobre as vestes. Quando o fotógrafo finalmente se deu por satisfeito, Harry estalou os dedos para chamar por uma das bandejas flutuantes, servindo-se de uma taça de champanhe.
"Deus, estou exausto," o moreno admitiu depois de tomar um grande gole. "Vocês se importam se eu me esconder aqui com vocês um pouco?"
"De maneira nenhuma," Astoria garantiu. "É um prazer ter sua companhia."
"Você é muito gentil, minha cara. Mas devo avisá-la que sou um homem comprometido. Suas atenções são desperdiçadas em mim. Diga a ela, Draco."
Draco bufou.
"Depois dessa foto, estarão anunciando o noivado de vocês amanhã pela manhã," Draco disse, ligeiramente amargurado.
"Eu estaria feliz se ela fosse a única," Harry falou, olhando ao redor.
"Ah, então você está se escondendo de alguém em particular?" Astoria perguntou, curiosa.
"Você se lembra de Sarah Matlock?" Harry voltou-se para Draco. "Grifinória. Quintanista, na época em que lecionei. Cabelos castanhos sempre presos num rabo de cavalo..."
"Sim, eu me lembro," Draco falou, tentando imaginar onde ele queria chegar com aquilo.
"Bem, a mãe dela está aqui. Srta. Friar. Mulher encantadora."
"Posso imaginar," Astoria sorriu. "Por acaso ela está vestida de preto com uma flor prateada no cabelo?"
"Puta merda!" Harry virou as costas para a multidão. "Porra! Diga que ela não está vindo para cá!"
Astoria limpou a boca com seu lenço de bolso para esconder o divertimento, as bochechas avermelhadas. Draco não se conteve e olhou ao redor, procurando por alguém que se enquadrasse na descrição. Havia algo de familiar nos traços bem-feitos da mulher e a maneira como ela mordia o lábio inferior fez com que Draco fechasse a cara. Surpreendida, a bruxa desviou os olhos.
"Sinto muito, Astoria," a voz de Harry trouxe-o de volta à conversa. "Me desculpe. Não costumo falar palavrão assim. Devo estar convivendo demais com Draco."
Draco arqueou uma sobrancelha, mas foi Astoria quem defendeu-o primeiro.
"Ah, mas Draco dificilmente fala palavrão. Ele é um perfeito cavalheiro nesse sentido, tenho que admitir."
"É, bem, só em determinadas ocasiões, então, certo?" Harry falou com um meio sorriso provocador.
Draco engasgou-se com seu champanhe. Astoria pareceu confusa.
"Como assim? O que você... Oh!" ela pareceu compreender então, seu rosto se tornando afogueado. "Oh. Ele nunca falava palavrão comigo. Mas eu dificilmente poderia fazer o que você faz com ele, então..."
"Astoria!" Draco indignou-se.
"Ora, mas é a verdade! O que posso fazer? Me falta o equipamento."
"Verdade." Harry ofereceu sua taça num brinde, se divertindo às suas custas.
"Honestamente..." Draco meneou a cabeça, estarrecido.
Longe de parecerem arrependidos, Harry e Astoria continuaram falando de Draco como se ele não estivesse ali. O loiro endireitou as costas e fingiu indiferença, mas teve sua vingança quando alguém pediu a atenção de todos os presentes, convidando-os a se sentarem no salão adjacente para dar início ao leilão.
"... temos algumas peças muitíssimo interessantes," dizia a bruxa que logo Draco reconheceu como a rechonchuda acompanhante de Harry, Sra. Closs, "mas já vou avisando às damas para não gastarem todos os seus galeões. Como vocês sabem, teremos um baile ao final do leilão e já não sou nenhuma mocinha, por isso gostaria de leiloar minha posição como acompanhante do nosso patrono, Sr. Harry Potter, para a primeira dança!"
O salão explodiu em vivas. Draco encarou Harry com uma sobrancelha arqueada, observando conforme ele empalidecia.
"Ora, não sabia que você abriria o baile, Harry!" Astoria exclamou, animada.
"Pelo jeito, você não era a única," Draco falou com um misto de satisfação vingativa e irritação.
"Ah, não, não, não, não..." Harry falou assim que recuperou a voz, largando sua taça na primeira superfície que encontrou – o beiral da janela mais próxima. "Com licença, preciso esclarecer um mal-entendido."
Porém, aparentemente os esforços de Harry foram em vão. Ao final do leilão, Draco havia adquirido um vaso egípcio decorado e uma pintura renascentista por uma pequena fortuna e Astoria adquirira um conjunto de porcelana com detalhes em ouro por um valor não muito menos exorbitante quando a dança foi anunciada novamente.
Draco fechou a cara.
"Bem," Astoria falou, pegando um dos papéis encantados onde os interessados colocavam o valor dos seus lances e a uma das penas encantada no centro da mesa, "não custa nada tentar, não é mesmo?"
"O quê?" Draco encarou-a, incrédulo. "Você vai participar disso?"
"É claro que vou!" Astoria escreveu seu lance no papel, onde a tinta foi rapidamente absorvida. Mas não antes que Draco pudesse ver a quantia. "E você deveria torcer por mim. Não sei se você reparou, mas a Srta. Friar não fez nenhum lance até agora."
Draco virou-se para olhar para a mesa ao lado, onde a bruxa de preto agora escrevia seu lance com determinação. Draco endireitou-se na cadeira, apertando os punhos.
"Azar o dela." Ele colocou o máximo de desprezo que conseguiu reunir em sua voz. "Ela provavelmente não viu Harry dançando na abertura do Torneiro Tribruxo. Se tivesse visto, provavelmente evitaria o constrangimento. E você também deveria."
"Ora, não deve ter sido assim tão mal," Astoria dobrou o papel e já ia encantá-lo para que ele fosse enviado quando Draco segurou seu pulso antes que pudesse se impedir.
Astoria encarou-o, intrigada. Draco umedeceu os lábios, desviando os olhos.
"Dobre o valor," ele disse, por fim. "Eu cubro."
"Oh!" Astoria exclamou surpresa. "Bem, se você tem certeza..."
Ela amassou o papel e descartou-o, pegando um novo. Algum tempo depois, Astoria foi anunciada como vencedora. Draco sentiu o alívio percorrê-lo e encontrou uma expressão parecida em Harry, que sorriu resignado, levantando-se para marchar até a mesa de Astoria, oferecendo-lhe a mão.
"Senhorita," Harry fez uma mesura, beijando a mão de Astoria cerimoniosamente antes de pousá-la em seu braço, guiando-a para o salão adjacente.
Em seguida, todos se levantaram para segui-los. Exceto pela Srta. Friar, que parecia extremamente decepcionada. Pelo canto do olho, Draco viu alguém rumando em sentido contrário à multidão e virou-se para ver Theodore Nott deixando o salão com uma expressão carregada.
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Draco estava sentado no sofá tomando uma dose de uísque de fogo quando a lareira explodiu em chamas. Ele levantou os olhos para ver Harry cruzando a sala com a gravata torta e uma expressão exausta.
"Você ainda está vestido?" Harry falou arrancando a gravata e deixando-se cair no sofá ao seu lado com um suspiro. "Pensei que você já estaria na cama uma hora dessas."
"Estava pensando," Draco falou simplesmente, pousando o copo na mesa de centro e alcançando a varinha para bloquear a rede de Flu.
"Sobre?" Harry aconchegou-se a ele, apoiando a cabeça no seu ombro e esfregando os olhos por trás dos óculos.
"Sobre Astoria."
Draco tinha percebido como Astoria ficara desapontada ao saber que Theodore havia saído do baile mais cedo, apesar de ela não admitir. Culpava-se por não ter pensado na repercussão daquela dança para a ex-esposa. Devia ter imaginado que aquilo poderia significar ainda mais especulações para cima dela, mas deixara-se levar pelo ciúme e agora Astoria sofreria as consequências do seu egoísmo. Mais uma vez.
"Ela está bem?" Harry perguntou. "Espero não ter danificado os pés dela permanentemente ou algo parecido."
"Ela vai sobreviver," Draco falou, apertando o ombro do moreno. "Não se preocupe. Ela está bem."
Eles ficaram em um silêncio confortável por algum tempo antes que Harry falasse novamente.
"Ron realmente falou com você?"
"Sim," Draco suspirou.
"Ele se desculpou por ter sido um babaca com você?"
"Bem," Draco considerou a pergunta por um momento, "ele disse que se arrependia de algumas coisas, eu disse que também tinha meus arrependimentos..."
Harry não precisava saber exatamente quais.
"Obrigado," Harry falou com um suspiro.
"Por quê?"
"Por conversar com ele. Você poderia muito bem ter recusado, depois de tudo que ele disse."
"E aguentar você com cara de enterro toda vez que o nome dele era mencionado?" Draco soltou um som de desprezo pelo nariz.
"Obrigado por ter ido ao baile."
Draco abriu a boca para dar outra resposta desdenhosa, mas Harry continuou antes que ele conseguisse dizer alguma palavra.
"Eu sei que você não foi por minha causa, mas obrigado mesmo assim. Obrigado por pagar pelo lance da Astoria também. Você me salvou de um constrangimento ainda maior."
"Não foi tão ruim."
"A dança?" Harry perguntou, surpreso.
"É claro que não. Estou falando do baile. A dança foi horrível."
Harry riu.
"Obrigado pela honestidade."
"Sempre às ordens."
Harry desvencilhou-se dele para encará-lo por um momento, parecendo contemplar algo. Draco encarou-o de volta, questionador. Harry levantou-se e empertigou-se, colocando uma mão atrás do corpo numa pose formal, estendendo a outra.
"Me concede essa dança?" ele perguntou.
Draco rolou os olhos, ignorando sua mão estendida.
"Deixe de bobagens..."
"Eu insisto!" Harry falou, segurando seus braços e puxando-o.
"Harry!"
"Draco..." Harry fez bico e Draco suspirou, deixando-se ser carregado para o meio da sala.
"E quanto à música?" Draco perguntou quando eles se encararam, seus braços envolvendo os ombros de Harry, cujos braços circulavam sua cintura. Talvez ele estivesse gostando mais daquilo do que deveria, mas estava determinado a não deixar que Harry soubesse.
"Vai me dizer que você ainda não está com aquelas músicas da Celestina reverberando na cabeça ainda? Porque eu poderia cantar, se você fizer questão." Harry sorriu e começou a mover o corpo de um lado para o outro, os pés ainda sem deixar o chão.
"Não, obrigado," Draco dispensou.
Harry encostou o rosto no seu e Draco fechou os olhos, deixando-se guiar. Harry começou a murmurar a melodia de uma das canções e Draco soltou um riso debochado pelo nariz. Sentiu quando Harry sorriu, sem deixar de murmurar, a voz tornando-se mais confiante, assim como seus passos.
"You stole my cauldron, my favorite black hat... na na na my owl... na na na na vampire bat..."
Draco riu de verdade daquela vez.
"You claimed that you loved me, said we'd never part... you stole my cauldron, but you can't have my heart..."
"Ora, cale a boca," Draco disse e beijou-o.
Harry sorriu em meio ao beijo, mas correspondeu languidamente, puxando-o para mais perto. Uma das suas mãos pousou delicadamente na bochecha de Draco, acariciando-a com o dedão. Seus passos foram diminuindo o ritmo até que eles pararam completamente, beijando-se sem pressa. Não era nenhum beijo ardente, apenas terno e assegurador. Draco sabia que milhares de palavras estavam sendo trocadas ali e sentiu-se relutante em se afastar, mas podia sentir o cansaço de Harry no peso de seus braços.
"Vamos," Draco falou, afastando-se e segurando sua mão. "Vamos colocar você na cama."
Harry seguiu-o obedientemente.
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