DADAS AS CIRCUNSTÂNCIAS E SOMENTE EM RAZÃO DELAS
Em uma vinícola. Região do Vêneto. Itália.
Milo de Escorpião imaginou reações diversas da Musa da Poesia às suas palavras, mas não o silêncio. Para ele, era angustiante não saber o que aquela ausência de palavras ocultava, e, em determinado momento, ele não conseguiu mais se conter:
_Sei que tudo parece um absurdo, mas você precisa acreditar em mim. A sua segurança depende disso.
Adella encarou o cavaleiro de ouro, estudando-o. Depois, num rompante, passou a folhear o seu diário até encontrar algo no fim de uma página. Olhou-o novamente, como se tivesse descoberto alguma coisa, mas, em seguida, apresentou um semblante repleto de dúvida.
_Talvez você precise de tempo para assimilar tudo o que eu disse – Milo ponderou. – Mas não temos muito tempo. Posso sentir que o Caos se fortalece a cada dia, o que torna a nossa ida ao Santuário ainda mais urgente.
A Musa da Poesia caminhou até um dos porta-retratos espalhados pelo quarto. Ela sorriu ao ver a família emoldurada nele e, finalmente, disse:
_Por favor, saia. Volte por onde veio.
Milo pensou em negar tal pedido, mas imaginou que ela precisava de um tempo sozinha – apesar da sensação em seu peito que o instava a ficar.
_Estarei por perto – ele avisou. – Caso precise de mim.
Adella nada disse. Quando ficou sozinha, ela apenas se vestiu depressa e correu para pegar uma mala. Após enchê-la com seus pertences, partiu com pressa. Deixou para trás o seu diário ainda aberto. Ao final da página que encontrara, escrito com uma bela caligrafia, estava uma assinatura: Erato, Musa da Poesia.
Pelas ruas de Londres. Inglaterra.
Aioros caminhava apressadamente, seguindo o rastro perturbação caótica que surgira nas proximidades do hotel. Ele passou por uma estátua estranha, a qual tinha um semblante tomado pelo terror, mas não lhe deu muita atenção, pois queria retornar logo para Anna. Ah, Anna... Ela estava tão linda! Aioros sentiu o coração acelerando ao pensar nisso. No entanto, mais estátuas aterrorizadas apareceram em seu caminho, e o cavaleiro de Sagitário finalmente compreendeu o perigo que enfrentaria:
_São... Pessoas – ele tocou o rosto de uma delas. – Pessoas transformadas em pedra!
Aioros ouviu passos atrás de si, acompanhados de silvos medonhos. Evitou se virar na direção da criatura e, após fechar os olhos, tentou apurar os seus ouvidos. Ele foi rápido e preciso, algo esperado de um cavaleiro de ouro, e logo a Medusa desapareceu em meio à luminosidade do seu golpe.
Satisfeito, Aioros observou as pessoas transformadas em pedra voltando lentamente ao normal. Ele sorriu, mas não se deteve ali para qualquer explicação. Anna estava esperando e, definitivamente, ela detestava atrasos. No entanto, o cavaleiro esqueceu de que, nos tempos mitológicos, a Medusa era a mais conhecida dentre as Górgonas, que eram... Três.
Catedral Metropolitana de Atenas. Grécia.
A crise do seu vestido de noiva foi resolvida com relativo sucesso – uma vez que, após o reparo, o pesado e volumoso vestido estava agora também apertado. Dora sentia que a sua respiração estava curta demais, porém, esforçava-se para agir conforme o esperado.
Como de costume, os sacerdotes ortodoxos cantavam as liturgias em grego. Suas vozes potentes preenchiam o ambiente silencioso, e a Musa dos Hinos tentava encontrar conforto ao escutá-las. Seus olhos também passeavam pelas figuras santas desenhadas no altar: iam, voltavam e paravam, às vezes, na figura apática do noivo – bem diferente de Afrodite de Peixes, ela pensou, censurando-se em seguida.
Estava ali para se casar, para honrar a sua família, não para duvidar da sua decisão. Ela era uma boa filha, obediente e correta. Desse modo, voltou a se concentrar no canto sacerdotal, mas sentiu o ar faltando ainda mais num misto de desconforto e ansiedade. Quando olhou despretensiosamente para o lado, ela viu... Afrodite!
Ele estava mesmo num canto, sob um dos arcos da igreja, próximo à uma coluna? Por acaso ela estava vendo coisas? Sua visão estaria lhe pregando uma peça?
_Céus – a Musa dos Hinos sussurrou. – O que ele está fazendo aqui?
Sem querer, Dora chamou a atenção do sacerdote. Ela tentou disfarçar o seu crescente nervosismo, e fixou o olhar nas figuras santas novamente. Mas Afrodite continuava ali. Ela podia sentir a sua presença, e o seu coração acelerou ao imaginar quais seriam as pretensões dele. Estaria ali para interromper o seu casamento? Por um segundo, apenas por um segundo, Dora desejou que isto acontecesse. Estava vendo mais coisas ou as figuras santas lhe dirigiam agora um olhar de censura?
Dora ficou vermelha e buscou ar com vontade. O vestido de noiva lhe pareceu mais volumoso, apertado e pesado do que antes. Ela olhou para Irineu, que aparentemente notava que algo estava acontecendo, mas não entendia o quê. Depois, viu Afrodite, que sorria – ou ria? Dora estava confusa demais para saber, e o mundo ao seu redor pareceu girar.
Suas pernas falharam e ela pensou que atingiria o chão. No entanto, foi amparada por braços fortes e sentiu o cheiro de rosas junto ao seu corpo. O canto sacerdotal cessou imediatamente por motivos óbvios. Irineu, o noivo, arregalou os olhos, surpreso. Os convidados do casamento, antes em raro e reverente silêncio, explodiram em gritos e comentários. Um deles, entretanto, sobressaiu-se:
_É ele! O homem!
O Sr. Archipoulos, vermelho de raiva como um tomate maduro, ergueu os punhos para defender a honra da sua única filha. Os tios e primos de Dora pareciam dispostos a fazer o mesmo, e Afrodite não conseguiu conter uma gargalhada. Estava ali, roubando uma noiva! E justamente aquela!
_Perdão, senhores – ele disse em tom de troça, quase teatral. – Mas o que eu sinto por ela é forte demais. Esse casamento não pode acontecer!
Dora olhou para o cavaleiro de Peixes, sentindo o seu coração palpitar. Ele tinha mesmo dito aquilo? Estava mesmo disposto a impedir o seu casamento? Dora não conseguiu agir ou reagir. Apenas viu a multidão de homens enraivecidos que avançava na direção do cavaleiro.
O ar fugiu de seus pulmões mais ainda, e sua visão simplesmente escureceu. Quando acordou, horas depois, estava bem longe da catedral, no Santuário de Athena.
Cnossos, Grécia.
Shura se movia com altivez e desenvoltura frente à criatura mitológica que enfrentava. O Minotauro, em fúria, mais uma vez investiu contra o cavaleiro de Capricórnio, que parecia recordar as touradas da Espanha. No entanto, o seu dever era acabar com aquela perturbação caótica o mais rápido possível, e ele desferiu o golpe final.
Aos poucos, o intrincado labirinto se desfez, acompanhando a sorte daquele que o habitava. Não demorou e a paisagem verdadeira reapareceu ao redor das pessoas antes perdidas, e ele acolheu dentro de si a sensação de dever cumprido. Somente percebeu que era observado por olhos atentos algum tempo depois. Era ela, a deusa Ártemis.
Shura não conseguia imaginar a razão da presença dela ali. Talvez fosse melhor não saber. Então, ele apenas a reverenciou com um gesto de cabeça e se foi.
Em uma vinícola. Região do Vêneto. Itália.
Ao som de uma animada música, a pisa das uvas seguia animadamente, com previsão para durar até o entardecer. No entanto, Milo estava alheio ao que acontecia ao seu redor, pensando apenas na reação de Adella à sua explicação sobre o Caos e acerca da natureza divina dela. Ele também se sentia um tanto estúpido pelos desvios na sua missão, a começar pelo beijo em Veneza.
Camus jamais deixaria algo assim acontecer. Ademais, o cavaleiro de Aquário teria a reprimenda exata para colocar os sentimentos de Milo no lugar, mas o Escorpião não tinha ideia do paradeiro do amigo. E, para piorar a situação, um cosmo conhecido se aproximou. Era Radamanthys de Wyvern, a Estrela Celeste da Fúria, um dos três Juízes do Submundo – que, todavia, parecia tão murcho quanto o cavaleiro de Athena.
_Escória do Santuário – Radamanthys cumprimentou Milo à contragosto.
_Verme do Hades – Milo respondeu de maneira sisuda. – Você está atrasado. Eu já conversei com a Musa da Poesia sobre a guerra contra o Caos.
_E ela?
Milo gostaria de dizer que Adella havia acreditado em suas palavras, que ela estava disposta a acompanha-lo até o Santuário. Porém...
_Não sei ao certo – assumiu.
Radamanthys fechou o seu semblante. Depois, perguntou com sua voz cavernosa:
_Não sabe?
_Não. Ela nada disse.
Milo esperou uma atitude de triunfo da parte do Juiz, mas este nada disse por um tempo. O cavaleiro de ouro, então, precisou de coragem para propor algo:
_Penso que, dadas as circunstâncias e somente em razão delas, nós deveríamos... – Milo fez uma pausa. – Trabalhar juntos.
Radamanthys assentiu de modo relutante. Disse:
_Em razão das circunstâncias e somente em razão delas.
Milo percebeu que, apesar das diferenças, Radamanthys também parecia envergonhado por ter perdido o rumo da sua missão em Verona. E que seria bom não atrapalhar e ser atrapalhado dali para a frente. No entanto, a trégua entre ambos seria posta à prova mais cedo do que imaginavam, pois eles perceberam que o cosmo da Musa da Poesia se afastava da vinícola rapidamente.
_Mas o que...? – Milo questionou.
_Ela está fugindo de algo? – Radamanthys cogitou.
_Eu não sinto perigo algum.
O juiz do Submundo também não:
_Se não há perigo, ela está fugindo... De nós?
Milo arregalou os olhos, surpreso com a possibilidade.
_Só há um meio para descobrir – o cavaleiro disse e, na companhia do seu improvável novo aliado, começou a seguir o cosmo de Adella.
Hotel Dorchester. Londres, Inglaterra.
O salão de entrada possuía arabescos perfeitos em seu chão claro, assim como opulentas colunas e portas douradas. Estas, magníficas, eram enfeitadas com relevos de pássaros, plantas e delicados muranos. As paredes, por sua vez, eram recobertas por grandes espelhos, os quais iam do teto ao chão em finas molduras também douradas. No entanto, Anna não estava impressionada com todo luxo e requinte ao seu redor, pois costumava frequentar ambientes como aquele.
Na verdade, a Musa da Eloquência estava incomodada com o atraso de Aioros. Àquela altura, ela começava a se perguntar onde ele poderia estar. E mais: se tinha sido uma boa ideia convidá-lo para aquele baile. Aioros era um idealista, sem dúvida. Será que ele desistira de comparecer em razão de algum ideal que Anna considerava como tolice?
Por alguns segundos, ela pensou que sim. Porém, lembrou-se de que o cavaleiro de Sagitário também era uma pessoa de palavra. E, se ele disse que estaria presente, apenas algo sério poderia impedi-lo de estar ali.
_Devo me preocupar? – Ela se perguntou.
No entanto, foi interpelada pelo seu antigo assistente, o qual se aproximou dela com um sorriso zombeteiro nos lábios:
_Ora, ora... Onde está o Borralheiro?
Anna torceu os lábios discretamente. Não estava disposta a lidar com comentários ridículos naquele momento, mas não deixaria de responder:
_Atrasado, obviamente. É um incômodo para mim, mas não maior do que a sua presença aqui. Ou maior do que a sua incompetência. Inclusive, para me sabotar. E quem você precisou bajular para estar aqui?
O assistente não gostou do que ouviu, mas não pôde treplicar porque Aioros chegou. Sorrindo, o cavaleiro de Sagitário se aproximou de Anna, que ficou bastante surpresa ao vê-lo em trajes de gala. Ela o examinou de cima a baixo, criteriosa, e pareceu aprovar o que via – muito, na verdade.
_Desculpe-me pelo atraso – ele disse. – E você... Você está linda.
Anna sabia que sim, mas agradeceu ao elogio com um sorriso. Depois, disse:
_E você está... Diferente.
Um pouco desconcertado, Aioros respondeu:
_É apenas uma roupa.
Aioros olhou ao seu redor. O salão de entrada estava repleto de homens vestidos como ele. Eram endinheirados, pessoas influentes que estavam ali para doar dinheiro para alguma causa escolhida pela Fundação. Depois, todos eles voltariam para suas vidas como se tivessem feito muito pelo mundo que, não raro, ajudavam a prejudicar.
_Algo errado? – Anna perguntou ao ver a expressão contrariada no rosto do cavaleiro.
_Tudo.
_Não comece.
_É preciso pensar sobre o que acontece por aqui, Anna.
Ela torceu os lábios e pediu:
_Não agora.
Ele assentiu e se lembrou que tinha outros assuntos para tratar com ela.
_Certo. Mas precisamos conversar quando esta noite acabar.
_Mais ambientalistas? Por favor, não.
Aioros sorriu.
_Não. Algo mais complicado, talvez.
_Aquela conversa estranha do avião? Sobre deuses e guerra? – Anna se exasperou um pouco. – Aioros, não me faça crer que você é um louco.
O cavaleiro não respondeu. Ele teria de pensar numa maneira eficaz para convencer a Musa da Eloquência – o que parecia uma tarefa improvável. Todos os convidados, então, foram conduzidos para outro ambiente, tão impressionante e luxuoso quanto o primeiro. Anna e Aioros se acomodaram numa das várias mesas e o baile prosseguiu.
O ponto alto da noite seria um leilão angariar fundos para alguma causa, tal como Aioros pensara. Ele, ao contrário da maioria ali, não estava se divertindo. Enquanto isso, Anna cumprimentava e conversava com seus pares, fazendo contatos sociais importantes. No entanto, uma música agradável começou a tocar e o cavaleiro de Sagitário teve uma ideia.
_Com licença – ele interrompeu a conversa de Anna com outros advogados. – Você gostaria de dançar comigo?
A música era Wonderful Tonight, de Eric Clapton, perfeitamente executada pela banda. Anna ficou surpresa com o convite:
_Eu não...
_Você não dança em bailes? – Ele continuava com a mão estendida, sorrindo.
Algumas pessoas estavam olhando para os dois. Anna, então, achou melhor aceitar o pedido antes que a situação ficasse constrangedora. Seria uma dança, apenas. Nada demais. No entanto, gritos foram ouvidos no salão, e logo a música parou. Aioros sentiu que duas perturbações haviam surgido exatamente ali, e puxou Anna para debaixo de uma das mesas.
_Haja o que houver, Anna, não saia daqui. E não olhe caso elas se aproximem.
_O que está acontecendo? – Ela não compreendia a gravidade da situação. – Onde você pensa que vai?
_Por favor, eu não tenho tempo para explicar – ele tinha pressa. – E você não acreditaria.
A Musa da Eloquência tentou sair de baixo da mesa, mas foi impedida por Aioros:
_Não, Anna! E não olhe!
Mais gritos foram ouvidos, e Aioros precisou deixa-la para lidar com as Górgonas. No entanto, Anna não permaneceu embaixo da mesa por muito tempo. Ao sair, esbarrou em algo que parecia uma estátua colocada ali sem propósito aparente. Ao observá-la melhor, percebeu que se tratava do seu antigo assistente, agora transformado em pedra.
_Mas o que...?
Anna olhou ao seu redor e viu mais pessoas petrificadas. No mesmo instante, ela ouviu silvos assustadores atrás de si. Num impulso, Anna se virou para ver o que estava produzindo aquele som, mas não conseguiu enxergar, uma vez que um clarão se interpôs entre ela e a criatura.
Aioros, então, chegou para afastá-la do perigo, protegido pela armadura de Sagitário que ali chegara. Ele desferiu um golpe poderoso e a Górgona desapareceu como a primeira. Anna abriu os olhos, afetados ainda pela luminosidade, e percebeu que era o cavaleiro quem lhe abraçava.
_Por favor, Anna... Não saia daqui. Ainda há uma delas. É perigoso.
_Aioros!
Ele se dirigiu ao salão de entrada, repleto de espelhos, atraindo a terceira Górgona. Ela o seguiu e o plano do cavaleiro funcionou. Após ver a sua imagem refletida, a criatura desapareceu. Aos poucos, as pessoas transformadas em pedra voltaram ao normal.
Anna olhou a armadura de Sagitário diante de si, quase majestosa. Quando Aioros voltou para perto dela, percebeu que, ao contrário do que poderia imaginar, a Musa da Eloquência perdera a sua fala. Ele sorriu, divertindo-se com tal contradição. Por fim, olhou para ela, estendendo-lhe a mão, e perguntou:
_Agora você acredita em mim?
Santuário. Casa de Peixes.
Era noite quando Dora acordou. Viu-se em um lugar totalmente estranho, repleto de rosas, e achou que estava em um sonho. No entanto, o seu nariz estava irritado com o aroma do lugar, e ela percebeu que tudo aquilo deveria ser mesmo real. Lembrou-se de Afrodite, do momento em que desmaiara em seu... Casamento!
_Oh, não!
Dora tentou ficar de pé, mas se desequilibrou. Ainda estava com seu vestido de noiva, tão pesado, apertado e volumoso quanto antes. Decidiu que precisava voltar à catedral para remediar aquela situação absurda, mas antes, deveria descobrir onde estava. Ao sair da Casa de Peixes, a Musa dos Hinos percebeu a grandeza do Santuário de Athena – e o tamanho das escadarias das Doze Casas.
Ainda assim, Dora estava decidida a sair dali. Respirou fundo e, para facilitar a sua fuga, resolveu se livrar de todo o tecido extra do seu vestido de noiva – o que era muito. Mais leve, e sentindo-se estranhamente livre, ela começou a descida, porém, foi surpreendida por um homem de feições orientais que passou por ela como um raio.
Dora arregalou os olhos e se perguntou que lugar seria aquele. E mais: onde estava Afrodite? Ela tentou não pensar nele e na vergonha pelo que havia acontecido. Tentaria conversar com Irineu, com seus pais e, com a benção dos santos, resolveria tudo. Demorou, mas ela passou por Aquário, Capricórnio e Sagitário. Ao chegar em Libra, entretanto, deteve-se. Dora sentiu ali uma enorme tristeza, e viu que o homem que passara por ela estava ali, tentando falar com alguém:
_Mai... Por favor, abra a porta. Eu preciso saber o que houve.
Ninguém respondeu. Porém, Dora se sentiu inexplicavelmente compelida a ajudar:
_Com licença – ela chamou a atenção de Dohko. – Eu... Eu...
O cavaleiro de Libra olhou para ela, visivelmente preocupado:
_Você deve ser uma Musa, uma das irmãs da Mai.
_Musa?
_Sim – Dohko não entendeu a confusão no rosto dela. – Quem trouxe você?
Dora simplesmente falou:
_O senhor Afrodite, creio eu. Ele estava... Estava no meu casamento.
Dohko não sabia que tipo de artifício o cavaleiro de Peixes havia usado para levar Dora ao Santuário, mas isto não lhe pareceu urgente naquele momento.
_Por favor, ajude a Mai – ele pediu antes de deixa-la ali, sozinha e em frente àquela porta fechada.
Dora se aproximou e sentiu uma familiaridade inexplicável. Com cuidado, ela disse para que a pessoa dentro do quarto escutasse:
_Eu não sei o que houve com você, mas costumava dizer aos meus alunos que os hinos e as canções servem para agradecer a Deus pelo bem que alivia as dores e pelas dores que nos ajudam a crescer – Dora fez uma pausa. – Sendo assim, espero que isso ajude.
Ela, então, começou a cantar. Sua voz soou temerosa a princípio, mas foi crescendo e se tornando límpida e poderosa. Aos poucos, luzes foram acesas em todo o Santuário. E, surpreendentemente, a porta fechada foi aberta. Uma jovem encolhida, de cabelos escuros e óculos embaçados, abraçou Dora com força.
As duas ficaram em silêncio por um tempo, mas sentiam que estavam se reencontrando. Dora estava confusa, claro. E ficou ainda mais quando, após algum tempo, outra pessoa chegou e disse:
_Esse seu lá lá lá me acordou – Kieve reclamou. – Mas a minha pergunta é: por que raios eu acho que conheço você e a sua voz?
Olá! Tentei acelerar as coisas. Espero que não tenha ficado estranho. Sintam-se à vontade para me dizer, se for o caso. :)
