Em Esgaroth
- Majestade, creio que seria uma temeridade partirmos agora. Os homens informaram que os orcs continuam rondando as proximidades da cidade.
- Tolices desses mortais – Thranduil insistia em sua resolução inicial. - Não passarei nem mais um minuto cercado por esses canais cheirando a peixe.
A voz do rei impunha-se como argumento inquestionável. Rúmil capitulou e montou seu cavalo, seguindo o exemplo de Thranduil. Os demais soldados já estavam a postos. O soberano de Mirkwood balançou as rédeas e a comitiva retomou seu caminho em direção a Valle. Seu coração parecia avisá-lo de que a demora de Legolas estava relacionada a algo especialmente desagradável e ele queria poder ver com seus próprios olhos do que se tratava. Não seria um bando de orcs renegados que o separariam de seu objetivo.
Em Valle
A dupla fez como havia combinado. Legolas montou seu cavalo e atravessou os portões da cidade, poucos instantes após o sol haver brindado a terra com seus primeiros raios.
Thórin aguardou até que o calor do astro-rei mandasse embora os primeiros calafrios da manhã e tomou o mesmo caminho. Antes, contudo, de seguir a estrada que conduzia a Esgaroth, o anão mirou as muralhas de Erebor e o sangue pareceu gelar em suas veias. Havia momentos em que seu exílio pesava demasiado. O anão fitou a estrada e ao longe pode distinguir o caminhar contido do cavalo de Legolas e não se reconheceu ao perceber o quanto estava ansioso em seguir ao lado dele, ainda que fosse para mandar embora aquelas sensações sombrias.
Algumas colinas já havia sido deixadas para trás quando a montaria de Thórin começou a se aproximar. Legolas parou e aguardou pelo anão.
-Podemos ir ou deseja dar mais uma olhada em direção ao seu lar. Ficará alguns dias sem vê-lo.
Thórin estranhou o comentário e franziu o cenho.
- Eu vi como mirou a montanha ao sair de Valle, Thórin. Não deve perder as esperanças. O retorno é certo, embora os caminhos a serem percorridos ainda não estejam claros.
Thórin baixou a cabeça e coçou a barba.
- Eu devo estar sofrendo de algum mal ou feitiço, já que suas palavras estranhas parecem fazer algum sentido para mim e, de certa forma, diminuem o que me consome.
Legolas sorriu e fitou o horizonte, contudo, inesperadamente, uma sombra acercou-se de seus olhos e o elfo pareceu empalidecer.
- O que houve? - o anão estranhou.
- Um mal se aproxima… - ele murmurou.
- Quer voltar? - Thorin aguçou a visão. - Não vejo nada.
- Não pode ser visto com os olhos físicos…
Thórin bufou.
- Mais presságios élficos. Vai desistir por causa de um calafrio?
- Nem em mil anos – Legolas agitou as rédeas, iniciando o galope. - Precisamos nos apressar. Tente me acompanhar se puder.
Thórin aceitou o desafio e seguiu o elfo. Aquela altura, já havia desistido de questioná-lo.
Em Erebor
- Como assim, ele não está em Valle? - Dwalin questionava firmemente o soldado. - Ele não pode ter simplesmente desaparecido!
- Sinto muito, meu senhor. O guarda me informou que ele atravessou os muros logo cedo.
- Tem certeza de que procurou por todos os lugares? - Balin tentou acalmar os ânimos.
- Sim, meu senhor. Nem sinal do príncipe.
Os irmãos se entreolharam. Para onde Thórin poderia ter ido? Temiam que a tristeza pudesse levá-lo a agir de forma impensada.
Sigel ouvia tudo por trás de uma coluna. Seu pai certamente a mataria se descobrisse que estava se prestando a esse papel, contudo, não poderia abrir mão de ter notícias de Thórin. Fossem quais fossem.
- Talvez tenha tomado a estrada para Esgaroth ou para as Montanhas de Ferro – Balin sugeriu.
- Sem nos avisar? Não creio. Thórin jamais faria isso.
- Como ele nos avisaria, irmão? Não pode se aproximar das muralhas de Erebór. E duvido que se utilizasse de algum mensageiro humano.
Dwalin ponderou o argumento.
- Você tem razão. Vamos esperar alguns dias?
- Apenas mande mensageiros a Esgaroth e as Montanhas de Ferro.
Dwalin concordou com a sugestão do mais velho.
- Devemos avisar alguém?
- Não há motivos para preocupá-los, Dwalin. Aguardaremos as notícias.
Sigel observou com cuidado a movimentação dos soldados que seguiram em busca do príncipe. E se ele estivesse ferido quando o encontrassem? E se precisasse dela? Não. Seu pai jamais permitiria. Ainda que Balin e Dwalin concordassem em enviar algum curador, com certeza Oin seria o escolhido.
Na Estrada para Esgaroth
Legolas e Thórin improvisaram um acampamento junto a sombra de algumas árvores.
- Este pão élfico até que não é mal – o anão comentou. - Embora eu prefira um belo pedaço de carne assada.
O elfo sorriu.
- Pelo visto está saciado.
- Posso dizer que sim.
- Então podemos ir.
- Não estou entendo - Thórin comentou.
- O quê?
- Tanta pressa.
O elfo baixou a cabeça e pôs as mãos na cintura.
- Sei que não acredita em meus sentidos, Thórin, mas…
- Eu sei, eu sei… 'um mal que se aproxima'. Então vamos – concluiu, levantando-se.
Thórin caminhou em direção a árvore onde deixara o pônei.
Legolas sentiu um aperto no peito e olhou em direção a ele.
- Não! - o elfo tentou impedi-lo.
O anão voltou-se, fitando o elfo, antes de perceber a presença do outro imortal. O soldado de Mirkwood apontava uma flecha em direção ao anão.
- Nunca se cansará de guardar segredos de seu pai? - Thranduil revelou-se por trás das árvores.
Legolas prendeu a respiração.
Thranduil continha a ira.
- O que, em nome do Único, você está fazendo na companhia desse aí?
Legolas engoliu seco. Thórin jamais deixaria de reagir àquelas palavras.
O anão moveu-se em direção ao rei, ainda que sob a mira do soldado élfico.
- Retire o que disse ou sentirá o fio de minha espada em sua pele.
- Não antes que sinta a flecha de meu soldado na sua.
- É próprio dos covardes designar outros para lutarem em seu lugar.
O rei fechou a mão em punho.
- Legolas, se preza pela vida dessa criatura, mande que feche a boca.
O elfo lançou um olhar de súplica em direção ao anão. Thórin meneou a cabeça em uma negativa.
- Nem em mil anos!
- Você não tem mil anos – Thranduil provocou. - Deveria gastar melhor seus parcos dias de vida na companhia dos de sua raça… - ele quase cuspiu a palavra.
Thórin respirou fundo, recordando-se de tudo o que Legolas havia contado sobre as perdas daquele rei arrogante e da mágoa que guardava de seu povo. Todavia, tanto ele quanto Legolas sabiam que não era da natureza dos anões suportar provocações como aquelas, ainda que não fossem totalmente infundadas.
- Sei que não aprecia meu povo – Thórin disse, trincando os dentes.
- Sabe? Tem certeza disso? Então por que está cercando meu filho? Que mal está planejando contra nós?
Thórin desembainhou a espada.
Os demais soldados ergueram seus arcos.
- Você não tem o direito de me acusar sem provas!
- Provas não são necessárias quando o mal é autoevidente. Nada de bom pode ser esperado de um anão.
- Meu pai, por favor…
O rei mirou o filho.
- Em atenção a você, Legolas, concedo ao anão o direito de voltar para o buraco de onde veio e você retornará comigo.
Legolas fechou os olhos. A ira que queimava no olhar de Thórin não poderia se contida. O anão ergueu a espada. Thranduil desembainhou a dele.
Legolas colocou-se entre eles, de costas para o pai e próximo ao anão.
- A palavra empenhada – ele moveu os lábios lentamente, sem pronunciar som algum, a fim de que apenas Thórin compreendesse o que dizia.
O anão estreitou os olhos, tentando ler os lábios do elfo. Legolas repetiu a expressão.
O anão hesitou, mas pareceu considerar. Legolas finalmente cobrava sua dívida.
- Deponha a espada, Thórin, ou acabará morto. É isso que lhe peço – ele verbalizou.
O anão cravou a espada no chão, embora ainda segurasse firmemente o cabo.
Thranduil observou com atenção, tentando compreender o que ocorria. A expressão no rosto do anão era de uma contrariedade inédita.
- Então é assim que terminamos, mestre elfo – ele soltou o cabo da espada.
O olhar de Thórin doeu no peito de Legolas. Havia começado a surgir entre eles uma amizade sincera. Infelizmente, não havia muito espaço para isso no mundo em que viviam.
Thórin estava destroçado por dentro. Legolas sabia disso.
O anão caminhou em direção ao pônei, montando-o e retomando a estrada para Valle.
- Vai deixá-la aqui? - Legolas indagou, apontando para a espada.
- Se não pude usá-la para defender minha honra, para que mais ela me serviria?
Thranduil abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa.
- Pai, por favor…
O rei acatou o pedido do filho.
O anão seguiu o seu caminho.
- O que disse a ele para que aceitasse ir embora?
- O senhor não ouviu?
Thranduil estreitou os olhos.
- O que isso importa agora, meu pai? Ele se foi.
O rei ponderou. Não valeria a pena ter mais um desentendimento com Legolas. O que tinha em mente com certeza manteria seu filho distante o suficiente para que aquela situação absurda não voltasse a ocorrer.
- Vamos para casa. Seu povo precisa de você.
O príncipe franziu o cenho.
- Partirá para Lórien. Os senhores de Caras Galadhon o esperam. A Senhora Galadriel tem assuntos a tratar conosco e você será meu representante nesta questão.
Legolas assentiu. Sabia que ficar distante de Thórin seria a melhor maneira de mantê-lo em segurança.
- Preparem as montarias – Thranduil ordenou. - Partiremos em alguns minutos.
O rei afastou-se.
Legolas viu-se sendo observado por Amras. O príncipe aproximou-se.
- Então ele era a razão de sua curiosidade?
Legolas assentiu.
Amras leu nas entrelinhas o que não havia sido dito.
- Ele é seu devedor?
- Não mais. Pagou sua dívida, aceitando partir com as ofensas de meu pai em seus ouvidos.
- E agora você partirá para Lothlórien e a amizade de vocês sucumbirá.
Legolas fitou o chão.
- Gostaria que houvesse outra maneira.
Amras aproximou-se do príncipe e pôs a mão em seu ombro.
- Parece que uma maldição pesa sobre nós, alteza. Mas tenha fé. Se ele foi forte o suficiente para manter sua palavra diante do que vimos, deve ser alguém de grande valor e honra.
Legolas mirou a estrada. Seus olhos élficos ainda conseguiam ver Thórin se afastando.
- Ele é.
