*********************** Cap 28 O Yeti ***********************

No território dos Mansis, na costa leste da montanha Kholat Syakhl — Montanha dos Mortos na língua nativa indígena — ao norte da impressionante cordilheira dos montes Urais, uma figura exótica caminhava silenciosa sem deixar para trás qualquer rastro de sua passagem na neve baixa. Ela se destacava em meio à imensidão branca de gelo e neve pelo lenço vermelho que mantinha ocultos seus cabelos e rosto, e também pela chuba tibetana, um grosso casaco em cores diversas e vibrantes feito de lã de iaque. Usava os dons extraordinários de sua raça para pairar sobre a neve e assim evitar molhar as tradicionais botinhas tibetanas de bico fino que aqueciam seus pés, nem um pouco apropriadas para as caminhadas naquele tipo de solo.

Lentamente, e sempre atento, ele calcorreava de um perímetro a outro não muito extenso e então fazia uma pausa para emitir um chamado telepático. As ondas psíquicas tinham uma frequência específica; era o elo racial que só lemurianos partilhavam.

Sem resposta, ele retomava a caminhava solitária, desbravando a fria e insólita cordilheira.

Era cedo ainda. Por trás das montanhas o sol havia raiado a poucas horas — duas, ele contou desde que dera início à busca — mas o frio intenso, somado à grande altitude e o uso em demasia de seus dons telecinéticos já começava a lhe debilitar o físico e esgotar a mente. Mesmo assim, com o lenço vermelho ele cobriu um pouco mais o rosto queimado pelo frio, aprumou a mochila que trazia nas costas e seguiu em frente. Havia muito ainda a percorrer, e apesar do clima e o terreno difícil ele tinha fé que ainda naquele dia sua busca teria fim.

Já era a terceira vez que desbravava aquelas montanhas. Estivera ali há poucas semanas, porém agora, graças a Shion e Shaka, tinha a localização exata no mapa do que poderia ser o "esconderijo" do tal Yeh-teh. Só restava saber se esse seria o mesmo homem mencionado pela anciã que encontrara na floresta e que praticamente morrera em seus braços.

Apesar da euforia e da pressa, sua busca obrigatoriamente era lenta, minuciosa. Não podia negligenciar um centímetro sequer daquele território, pois que dessa vez seu coração lhe dizia que estava no lugar certo. Todo o local parecia emanar uma aura de mistério, que embora demasiadamente sinistra a ponto de lhe causar calafrios, também lhe era familiar. Apesar de Shion ter sido o único lemuriano com o qual convivera, conhecia bem as artimanhas de seu povo para afugentar forasteiros e presenças indesejáveis. Ele mesmo servia-se delas em Jamiel. O cemitério de armaduras arruinadas, no fosso abaixo da ponte que dá acesso à torre, além de assustador representa um perigo real aos curiosos. Muitos já morreram ao tentar cruza-la e hoje seus restos mortais, amaldiçoados pela eternidade, se somam aos tantos outros aos pés de Jamiel.

Seu povo conseguia ser demasiadamente assustador quando necessário. Dão vida a armaduras por meio de sacrifícios de sangue, e lidam com a morte de maneira estranhamente próxima e natural... A não ser quando esta está ligada a um ente querido.

Por isso ele estava ali. Por não saber lidar com a morte de Kiki como era esperado de um muviano.

E era nessa aura de morte e mistério que agora Mu caminhava exatamente pelo Passo Dyatlov. Para ele era inevitável pensar no quanto a raça humana por vezes conseguia ser excêntrica. Nove jovens esquiadores morreram ali sob circunstâncias assustadoramente violentas, e o local fora batizado com o nome do líder da expedição, Igor Dyatlov, em sua homenagem. Mas que bela homenagem!

O mistério do incidente Dyatlov nunca fora solucionado, e agora, mais do que nunca, Mu tinha certeza de que um dos seus estava envolvido, afinal que outra criatura nesse mundo poderia aterrorizar nove humanos ao ponto de lhes fazerem rasgar as próprias barracas de dentro para fora e correrem seminus em meio a uma intensa nevasca? Que outra criatura conseguiria mata-los com severa brutalidade, lhes fraturando os ossos do corpo e do crânio sem deixar uma só marca de luta ou impressão digital?

Um muviano bem irritado e violento com toda a certeza conseguiria. Pensando nisso, Mu ajustou mais uma vez a chuba, respirou fundo um tanto apreensivo e seguiu em frente. O tal Yeti certamente era um lemuriano hostil e violento, o que era lamentável, já que ansiava por um encontro amigável. Estava tão cansado dos conflitos...

Quando o sol estava a pino no céu e o esgotamento físico e mental já começava a castiga-lo, Mu fez uma pausa para recarregar as energias. Sem perder tempo, rapidamente encontrou um local onde pudesse fazer uma fogueira, e levitando sobre o fogo um pequeno caldeirão que trouxera na mochila colocou para esquentar a refeição que Shaka lhe preparara na noite passada para a viagem, guisado de frango na manteiga com batatas, legumes, queijo, pimenta e raiz forte. Uma comida bem forte, rica em carboidratos e com o toque especial dos temperos indianos dos quais aprendera a gostar. Em minutos, o perfume delicioso da comida alastrou-se pelo ar fazendo seu estômago roncar e atraindo até ali uma criatura peculiar.

Por mais distraído e despreocupado que estivesse naquele momento, Mu era um Cavaleiro de Ouro, portanto dotado de sentidos treinados e apurados superiores aos de uma pessoa comum, os quais lhe foram de imensa valia no instante exato em que, enquanto mexia o caldeirão borbulhante com uma colher de madeira, percebeu ser atacado.

Um rocha de pelo menos cinco toneladas, vinda sabe-se lá de onde, voou em sua direção na velocidade de um projétil disparado por arma de fogo.

Felizmente ele conseguiu com facilidade a congelar no ar a poucos centímetros de tocar seu corpo.

Somente uma criatura poderia manipular uma rocha daquele tamanho com aparente facilidade, Mu pensou eufórico. Então, com o coração aos pulos ele soltou a colher dentro do caldeirão e observou atento o perímetro em torno de si.

Foi quando aconteceu o segundo ataque.

Pelas costas do cavaleiro saltou feroz uma criatura grande, bem maior que um urso dos mais corpulentos, com garras afiadas, olhos vermelhos e o corpanzil coberto por uma pelugem branca espessa. Emitia o ronco gutural de uma fera, e também cheirava como uma.

No instante em que Mu percebeu sua presença ele se virou para ela, e o dia em instante virou noite no momento exato em que ele a congelou no ar a poucos centímetros de sua cabeça.

Agora segurava a ambos com telecinése, e mal podia acreditar no que seus olhos muvianos viam.

Bem ali, pairando no ar feito um balão de gás hélio peludo e mal encarado estava a lenda viva, o famigerado Abominável Homem das Neves, Pé Grande... Yeti!

— Por todos os deuses do Olimpo! — sussurrou Mu para si mesmo, fitando a criatura com os olhos arregalados sem ao menos piscar.

Igualmente espantado e admirado estava o Yeti, que além de ter seus dois ataques frustrados pelejava para se soltar das amarras invisíveis que o prendiam sem nenhum sucesso. Sua telecinése, excessivamente forte, parecia ser completamente irrelevante perante a grandeza da do outro, que parecia segurar a ambos, a si e à rocha, como quem segura uma pluma, o que lhe causou uma reação inesperada.

Aɞni´sha! Iålanaá oraḝb´maan phël-nǖr na!

Ele disse entre gargalhadas, num lemuriano arcaico ainda mais rebuscado e aparentemente ancestral que o falado por Mu.

O que disse? Filhote? Eu? — Áries questionou em lemuriano antigo, ainda um tanto perdido em suas emoções, vagueando entre a euforia e o choque.

A criatura balançou ligeiro as pernas suspensas no ar e subitamente se calou. Seu rosto estava parcialmente encoberto por uma camada grossa de peles e pelos, mas mesmo assim dava para perceber que parecia pensar.

"Hum... da Casa de Jamiel é o seu dialeto! Mas jovem demais você é para de lá vir, além de demasiado forte para um filhotão!" disse por telepatia, agora num dialeto mais próximo ao que ouvira de Mu — O favor você quer fazer de no chão me botar, criança? bronqueou em voz alta.

Ainda em choque, Mu o fitava sem se mover, pelejando para identificar por baixo de todas aquelas peles qualquer traço de fisionomia humanoide.

O mesmo fazia a fera, tentado identificar qualquer familiaridade no rosto encoberto pelo lenço vermelho que o ariano usava.

"Ei garoto! Surdo é você? Me põe no chão!" — ordenou novamente através da telepatia, já que seu pedido verbalizado não fora atendido.

Yeh-teh? — Áries murmurou questionando mais a si mesmo para ter certeza de que não estava delirando. Esperava encontrar um tipo de ermitão, mas jamais aquela figura tão caricata.

Ah, por muitos nomes me chamam os homens, só mais um deles esse é — disse dando outra gargalhada, então esticou as pernas para frente e como se espreguiçasse numa cadeira praiana imaginária levantou os braços peludos no alto da cabeça e cruzou as mãos atrás da nuca — Muito tempo faz que um herdeiro de Lemúria não encontro eu por essas regiões... Avenir sou eu para os nossos.

Avenir... — os lábios de Mu se mexeram repetindo o nome num sussurro quase inaudível, então de repente ele finalmente pareceu acordar do choque — Ah! Me desculpe!

Mais que depressa Mu o colocou no chão o fazendo pousar graciosamente sobre a neve fofa.

A rocha não teve o mesmo tratamento; livre da telecinése que a mantinha no ar ela caiu com tudo provocando um forte estrondo.

Por todos os deuses, finalmente eu o encontrei! — Áries vibrou olhando para ele. Ainda que tudo o que via era uma maçaroca de peles diversas de animais.

Procurando a mim logo percebi que você estava — disse o Yeti sacolejando os ombros e inclinando a cabeça para o lado. Então, sem mais delongas, retirou as grossas luvas de pelos com garras afiadas, as ajeitou debaixo de uma das axilas e curvando-se para baixo livrou-se da máscara. Ao fazê-lo, uma longa e volumosa cabeleira branca saltou para fora.

Quando Avenir voltou à postura anterior, Mu finalmente pode ver o seu rosto. Apesar da pele envelhecida, as feições dele conservavam a nobreza intrínseca ao povo muviano. As rugas e a barba longa não lhe tiravam a altivez, e os olhos, intensos e vermelhos como o magma incandescente, esbanjavam vida e sagacidade. Era bem alto, talvez até mais que Shion, pelo o que se lembrava, e embora há poucos minutos tivesse tentado lhe esmagar com uma rocha de toneladas, agora ele lhe sorria todo amistoso enquanto tecia um cumprimento à moda do povo muviano, tocando as pintinhas na testa com o indicador e o dedo anelar da mão esquerda e em seguida fazendo uma educada mesura.

O seu chamado telepático eu senti — disse Avenir por fim.

Mesmo assim tentou me matar me esmagando feito barata. — Mu repetiu o cumprimento e deixou escapar um riso tímido — Se é assim que recepciona os lemurianos que vêm aqui, não me admira que nunca eu tenha ouvido falar do senhor até encontrar a anciã na floresta.

Avenir encolheu os ombros e deu uma alta gargalhada.

Ah, perdoar esse velho casando você deve, criança. Há de se saber que nem todos que a essas montanhas chegam à procura do Yeti, sejam homens ou filhos de Lemúria, o fazem com fins pacíficos, mas... — inclinando-se ligeiramente para frente, ele contraiu o nariz parecendo farejar algo, e seus olhos incandescentes saltaram famélicos para o guisado dentro do caldeirão flutuante — Uma confissão fazer eu preciso... Declinar do seu chamado telepático e esperar que fosse embora disposto estava, mas o perfume do seu almoço mudar de ideia me fez.

Mu arregalou os olhos com pretensa indignação.

Só pode estar de brincadeira! O senhor ia me matar para roubar o meu almoço?

Se no meu lugar estivesse o mesmo teria feito você. Mais sagrado que comida só a cria, para um muviano... Ademais, para os visitantes proibido é esse perímetro da montanha. Os Homo Sapiens aqui vêm para essas terras destruir. Os muvianos para nossos tesouros naturais usurpar... O povo local os meus limites respeita, do resto dou cabo eu mesmo. Só recebo visitas com aviso de antecedência — disse sério, e sem que Mu esperasse se aproximou até ficar a poucos palmos de distância, então estreitou os olhos e o questionou com firmeza: — E você? Em qual dos dois se encaixa? Atrás dos tesouros da montanha você veio?

Mu olhou para ele com um olhar amistoso, e na mesma hora ele reconheceu aquele olhar como o de alguém que não procura a guerra.

Não vim atrás de tesouros ou para desbravar terras... Eu procuro esperança!

O Yeti recebeu com demasiada surpresa aquela afirmação.

Esperança?

Sim... E se foi a minha refeição que o fez vir até aqui, ainda que tenha tentado me matar para rouba-la e usufruir sozinho dela, eu me sentiria extremamente honrado em dividi-la com o senhor. Talvez assim eu possa pagar pela informação que procuro. — Nessa hora agradeceu a mão boa de Shaka para a comida.

E qual seria a informação?

Não quer comer primeiro? — perguntou Mu — Creio que tenho muito a explicar antes, e meu estômago não está muito disposto a esperar. Abusei dos dons na procura pelo senhor, e meu corpo me exige reposição das energias.

Avenir olhou para o caldeirão, inalou mais uma vez o perfume saboroso do guisado e sentiu a boca salivar. A gentileza daquele muviano tão poderoso lhe intrigava, porém não mais que suas vestes coloridas, em especial as botas. Sem dizer nada coçou a barba longa por um instante em que parecia ponderar.

Fazer assim nós vamos. O seu caldeirão traga com você até a minha morada. Lá um pernil de cervo sendo assado eu tenho no braseiro, então com a comida em nossas barrigas conversar melhor nós podemos — disse Avenir animado, já recolocando a máscara e as luvas de fera — Nos apressar devemos antes que sua comida cheirosa esfrie.

Afoito e eufórico, e principalmente cheio de nova esperança, Mu tratou logo de por a mochila nas costas e apressar-se a seguir Avenir pela montanha. Trazia o caldeirão flutuante a seu lado.

Andaram pouco mais de dois quilómetros na neve, como se quisesse ter certeza de que despistava qualquer curioso, então em um determinado ponto Avenir teleportou a ambos para o pé da montanha, onde havia uma estreita passagem.

Venha. Por aqui — disse ele adentrando por ela.

Mu o seguiu até chegarem a uma enorme parede de pedra maciça. Não se surpreendeu ao vê-lo mover com telecinése o paredão alguns centímetros para o lado, abrindo assim uma fenda. O que surpreendeu Áries foi ver uma criança do outro lado. Era uma garotinha, humana, de não mais que uns oito anos de idade. Estava muito bem vestida, agasalhada com peles quentinhas e sapatinhos muito bem forrados. Assim que ela os viu ali, correu para os braços do velho Muviano, serelepe e sorridente, porém sem emitir qualquer tipo de som, nem os gracejos e vivas tão comuns às crianças daquela idade.

Quando a garotinha se deu conta da presença de Mu ali, ela olhou curiosa para ele piscando os grandes olhos escuros.

"Filhota! Temos visita." Avenir avisou a garotinha por telepatia, de modo que ambos pudessem ouvir, mas em seguida continuou verbalizando as palavras enquanto caminhava ela no colo.

Uma exceção ela é. — Referia-se a proibição de humanos ali — Surda-muda nasceu essa pobre criatura, então a abandonaram na floresta à Oeste da montanha os nativos. É isso que fazem os Mansis com os bebês que nascem deficientes... À própria sorte os abandonam para que o Yeti um fim ao sofrimento deles dê... Que pecado!... Como se capaz fosse eu de qualquer mal fazer a um ser tão puro e indefeso, independentemente de um humano ser... Para mim peguei a filhota. Boa companhia ela é. Asseada e silenciosa.

Mu olhava para eles sem saber bem o que dizer, mas em seu íntimo estava feliz pelo destino da pequenina. Os olhos do velho lemuriano eram puro amor por ela, e os dela por ele.

E qual o nome da sua filhotinha?

Filhota! — ele deu uma gargalhada. A menininha riu em silêncio, em seguida deu um apertão nas bochechas dele.

Filhota?! — Mu indagou curioso.

É. — Avenir deu de ombros — Melhor nome não dar, sabe. Evitar o apego em demasia se deve. A espécie dela vive tão pouco... Breve demais é a vida humana, e quando há apego a gente sofre... Por isso, nada de nomes.

Por mais uma vez Mu se calara. Porém desta não por falta de palavras, mas porque sentia a garganta apertada e doída, como se uma mão poderosa lhe estrangulasse sem piedade. Aquela era uma verdade da qual sempre procurava fugir, embora soubesse que chegaria o dia em que não teria mais para onde correr. A realidade de sua união com Shaka o assombrava sempre que pensava que teria que despedir-se dele no auge ainda de sua vitalidade de muviano.

Como desejava ter mais tempo ao lado dele...

Avenir logo notou que por instantes a aura de seu visitante mudou, ficara introspectiva, soturna, melancólica. Contudo, achou melhor não questionar, afinal, ele tinha ido à sua procura em busca de esperança, e quem busca por esperança certamente está vivendo um inferno particular.

Venha, vamos comer — disse ele colocando a garotinha no chão, então pareceu lhe dar algumas instruções, pois que ela logo correu até o próximo cômodo, que ficava depois de um pórtico esculpido na pedra, e voltou trazendo um grosso pano nas mãos. Com ele apanhou o caldeirão flutuante com o guisado e retornou ao lugar de onde viera. Mu julgou que ali deveria ser a cozinha — O que veio fazer aqui você me dirá depois de forrados estarem os nossos estômagos... A propósito, o seu nome ainda não disse.

O Yeti deu um grunhido e uma a uma começou a livrar-se das peles que cobria-lhe o corpo, e conforme elas iam dançando no ar em torno dele, pegavam o rumo de um grande baú posto ao fundo do aposento e lá se deitavam.

Ah, me desculpe — disse Mu olhando admirado para ele, agora bem mais imponente nas vestes por debaixo do disfarce, então seguindo seu exemplo desenrolou da cabeça o lenço vermelho revelando seu rosto por completo — O meu nome é...

ATLA!

Surpreso com a interrupção tão abrupta, e mais ainda com o semblante estupefato com o qual Avenir agora o encarava, os olhos esbugalhados e a boca aberta em espanto, Mu franziu o cenho alarmado e confuso.

Perdão?

Ora seu traquinas! — deu um passo à frente e mandou um tapão no ombro do ariano — Algum tipo de brincadeira isso é? Por que não disse que era você? — fez uma pausa e aproximou-se mais, analisando minuciosamente o rosto emoldurado pelos cabelos lilases — Não o vejo há décadas, Atla!... Mas... um momento esperar... Ficar mais jovem como conseguiu você?

Mu encolheu os ombros e respirou fundo.

Senhor... eu creio que deva estar havendo algum engano — disse educadamente.

Certamente que sim! — exclamou o Yeti — Uma peça em mim pregando está você! Décadas você passa sem aparecer e de repente fingindo ser um filhote perdido você surge aqui.

Não, senhor, eu não...

Velho e cansado estou, mas enxergando bem continuo! Diga lá, Atla, rejuvenescer como conseguiu? É alguma poção? A fórmula quero para mim.

Senhor Avenir, tenho certeza de que está me confundindo com outra pessoa. — Mu insistiu.

Filho de Lemúrianenhum no mundo do meu ataque escaparia, a menos que fosse ele o maior telepata dentre nós todos. Forte meu sangue é, e acima da média o meu poder.

Mas eu não sou esse... Atla, de que está falando. O meu nome é Mu.

Encafifado, Avenir estreitou os olhos vermelhos e se aproximou ainda mais dele, curvando-se para baixo para examinar-lhe a face bem de perto.

Mu? — grunhiu a pergunta.

Sim!

Certeza disso tem você?

Ora claro! Então eu não sei quem eu sou?

Olha aqui, Atla...

Mu! Eu sou Mu. — O corrigiu já meio impaciente.

Hum... se uma brincadeira estiver você fazendo...

Não é nenhuma brincadeira. Eu disse e repito, o meu nome é Mu.

Mu de que?

Só Mu.

Avenir estreitou ainda mais os olhos.

Isso como pode? Um lemuriano sem clã e sem sobrenome? De que Casa é você?

Mu ficou confuso com a pergunta.

Hum... da Casa de Virgem? — deu de ombros.

Não existe essa Casa de Virgem — retrucou o ancião — O seu dialeto é da Casa de Jamiel.

Sim, eu vivi em Jamiel por alguns anos e sou seu guardião atual, mas...

Impossível! Todos os membros do clã de Jamiel conheci, e nenhum Mu havia entre eles. Senil não estou, ainda, embora 365 anos já tenha feito eu.

Mu encarou firme os olhos acima dos seus.

Está explicado porque nunca ouviu falar de mim, é mais de três séculos mais velho. Eu só tenho 38 anos — disse, então o viu se afastar e cruzar os braços pensativo — E embora eu tenha vivido boa parte da minha vida em Jamiel e no Tibet, o meu lar verdadeiro fica na Grécia. Eu sou um cavaleiro de Atena, senhor Avenir. Sou Mu, Cavaleiro de Ouro de Áries, guardião da primeira Casa Zodiacal e Ferreiro Celestial dos exércitos de Atena na Terra. Sou discípulo de Shion de Áries.

Avenir o encarou com uma expressão estranha. Se antes havia incredulidade e curiosidade em seu olhar, agora ele o fitava com uma intensidade incômoda. O clima entre eles, que antes era amistoso, chegou a ficar tenso por um momento, e toda essa tensão se tornava visível na aura do ancião muviano.

Mu não soube decifrar o motivo de tal mudança tão drástica, mas desconfiava de que estava relacionada a Shion. Primeiro a confusão com sua identidade, depois a reação esquisita dele ao ouvir o nome de seu mestre.

Não fosse pela urgência em tratar dos assuntos de Kiki o teria questionado e investigado essa ponta solta mais a fundo.

Algum problema com algo que eu disse? — limitou-se a apenas perguntar isso.

O Yeti ponderou por um instante. Aquelas informações haviam despertado algo em sua mente, uma possibilidade intrigante, curiosa e muito cruel. No entanto, não seria ele a se meter nos assuntos dos outros clãs, especialmente nos que se referiam ao ferreiro Shion. Ele então abanou a mão no ar jogando de vez para escanteio aquele assunto.

Não. Nenhum — disse ele suspirando — Que assim seja, jovem ferreiro Mu de Jamiel, da Casa de Virgem. Comer vamos logo que a mesa posta já deve estar.

E de fato estava. A garotinha viera até eles apressada e sinalizou para que seguissem para outra área daquela morada peculiar nas entranhas da montanha, de onde Mu sentia vir um aroma delicioso de assado.

Seguindo o ermitão e sua pequena cria, a cada passo que avançava o ariano ficava mais surpreendido com aquele lugar. As rochas haviam sido esculpidas e moldadas conforme a necessidade de se estabelecer os cômodos, os quais eram revestidos, desde o assoalho ao teto, por cristais de infinitas cores e formas. A mobília que se via era rústica, e embora simples configurava um ar inesperado de requinte e extremo conforto ao lugar. E como não podia deixar de ser, fazendo jus ao lar de um muviano ancestral, por onde passavam haviam abjetos diversos flutuando no ar. O lustre, de graciosas hastes de bronze e velas que emitiam uma luz dourada, pairava a alguns centímetros de tocar o teto forrado por cristais lapidados de um tom de rosa clarinho. No que parecia ser uma sala de estar, por onde agora passavam, uma mesa sem pernas levitava acima de um grosso tapete de peles, o qual era varrido por uma vassoura serelepe num vai e vem frenético e ritmado. Em outra parte desse mesmo salão, um espanador agitado também tirava o pó de uma estante embutida na rocha. A casa toda parecia ter vida própria.

Mu de repente se viu alarmado com tudo aquilo. O uso banal da telecinese sempre fora uma prática rigorosamente desaconselhada por Shion, mas Avenir parecia ignorar veementemente tal preceito. Ali nada era inerte, o que fez Mu perguntar-se se em outras residências lemurianas tal hábito era igualmente comum. Pegou-se então pensando na anciã moribunda que conhecera há poucos dias e no modo como ela preparava as refeições, levitando as panelas sobre o fogareiro, manipulando os ingredientes... É, pelo jeito os muvianos usavam e abusavam do dom que lhes fora dado. Pudera, nenhum deles era um Cavaleiro de Ouro precisando poupar as energias pra uma guerra eminente.

Áries deixou de lado as divagações quando viu Avenir e a garotinha adentrarem um arco de pedra de onde vinha uma luz quente amarelada. Ali era a cozinha, pois o perfume do assado agora se tornara mais forte.

Antes de entrar Mu retirou a chuba que cobria seu corpo e a segurou nos braços junto do lenço. A temperatura naquele local era bem mais confortável, já que no fundo do ambiente havia uma espécie de lareira com uma chaminé embutida na rocha. Sendo preparado nela estava o cervo, e sobre um braseiro posto em uma espécie de estrado de ferro estava o caldeirão com o seu guisado.

Apesar do cheiro delicioso da comida, e da fome devastadora que o consumia, Mu prendeu-se a um detalhe em especial. Ali, entre panelas de todo tipo e tamanho, talheres de madeira e prata, jarros de porcelana e barro, haviam também uma infinidade de instrumentos que pareciam pertencer a um laboratório alquímico de séculos passados; garrafas, vidros, pipetas e pequenos frascos, com toda a sorte de conteúdos estavam espalhados por prateleiras presas à parede ou levitando sobre fogareiros improvisados em uma bancada. E o mais admirável era que toda aquela borbulhante e flutuante bagunça viva tinha lá sua ordem, assim como era em sua Forja, em Áries, uma desordem organizada.

O senhor é um mestre alquímico? — Mu perguntou ao se sentar na cadeira que lhe foi oferecida junto a uma pequena mesa que obviamente era feita para apenas duas pessoas. Num banco ao lado colocou a chuba e o lenço.

Avenir riu com gosto, sentando-se na frente de Mu enquanto pegava a criança no colo; dividiria com ela o acento e a refeição.

Mais ou menos. Um pouco de tudo, digamos, sou eu, jovenzinho — eledisse enquanto manipulava uma faca com sua telecinése e trazia para a mesa duas fatias generosas do pernil do cervo, as depositando em ambos os pratos — Dizer a verdade eu vou a você... Guardião desse local eu sou, porque para o nosso povo sagrado ele é.

Sagrado? — Mu perguntou curioso enquanto mandava um pedaço generoso do pernil para dentro da boca. Estava faminto.

Exato... Somente nessas cordilheiras cultivar algumas das nossas ervas mais importantes conseguimos — disse ele, e agora trazia à mesa o caldeirão com o guisado preparado por Shaka junto de duas cuias fundas. Levitou uma concha até o caldeirão e a deixou lá para que o Mu se servisse — O tempo de sobra e a solidão para o estudo das ervas e dos cristais muito útil me foram. Gosto acabei pegando pela prática da alquimia lemuriana, mas um mestre alquímico não chego a ser. Para a caça e o plantio são mais voltados os meus dons.

Entendo — Mu respondeu solene. Estava demasiado curioso para perguntar mais, mas o ronco do estômago dos dois os obrigou a devotarem toda a atenção a seus pratos cheios.

Durante a refeição eles mantiveram uma conversa amena, fazendo uso de telepatia na maior parte do tempo, já que suas bocas estavam bem ocupadas com o assado e o guisado, o qual, aliás, foi muito elogiado pelo anfitrião e sua pequena criança, que repetiu o prato duas vezes feliz da vida.

Já satisfeitos deixaram a cozinha e foram até a sala, onde Avenir acendeu um longo cachimbo com fumo de ervas e ofereceu outro a Mu junto de um cálice de um forte licor russo feito de grãos. Dizia que ajudava a digerir a carne.

Sentaram-se lado a lado em frente à outra lareira, esta bem menor que a da cozinha, e o ariano então iniciou uma breve narrativa expondo toda a situação de Kiki, enquanto fumava com gosto o cacimbo oferecido. A cada palavra dita, Avenir podia ver o desespero instalado em seus olhos.

Hum... o temido Mal do filhote novo... — murmurou o ancião ao passo que desenhava círculos no ar soprando a fumaça aspirada — Que pesar, minha criança, que pesar... — lamentou.

Aquela senhora... na floresta... ela me disse que você tem a cura — disse Mu em tom de suplica — Por todos os deuses, me diga que tem.

O que você procura talvez eu tenha sim... Venha comigo.

Deixaram os cachimbos ali e sem demora Avenir se levantou, sendo seguido por um Mu eufórico. Caminharam pelas entranhas da montanha naquela morada singular até chegarem ao que parecia ser um depósito, pois que embutidas nas paredes haviam dezenas de prateleiras e estantes que guardavam uma infinidade de itens, alguns catalogados minuciosamente, outros nem tanto. Avenir pediu para que Mu o aguardasse do lado de fora. Ali era seu baú dos tesouros, e ele tratava de cada ingrediente e infusão com certo exagero de cuidados.

Na porta, espiando a movimentação do homem do lado de dentro, que parecia procurar por algo de difícil acesso, Mu estalava os dedos e batia os calcanhares aflito e apreensivo, quando finalmente o viu apanhar um grande jarro de vidro transparente do alto de uma das prateleiras. Seu coração então disparou.

Aqui — disse Avenir quando regressou, então entregou a Mu o jarro, que o apanhou como se segurasse um inestimável tesouro, ainda que nem soubesse do que se tratava.

O que é isso? — perguntou o ariano analisando o conteúdo que parecia apenas folhas simples trituradas.

Demiti Gelidusophylla, ou como chamam os Mansi,Flor Kristall — disse Avenir — Quinze anos de colheita estão todos nesse jarro... Só nos Urais crescem essas flores, por isso quase extintas elas estão... Do nosso povo um dos tesouros é esse, por isso os deuses antigos aqui me colocaram. Há séculos a venho cultivando, com paciência e persistência, porque na nossa medicina muito utilizada ela é, além de ser o único tratamento eficaz para o pior pesadelo de toda mãe e todo pai muviano. O mau funcionamento progressivo do corpo do filhote regredir e estabilizar essa planta poderosa pode, desde que tarde demais não seja — suspirou, compadecido da dor do visitante — Ah, a maior benção para um muviano que se pode ter é um filhote! A continuidade da nossa espécime... o legado nosso... Aos deuses antigos rogarei para que haja tempo de salvar o seu.

Como posso agradecê-lo, senhor Avenir? — Mu perguntou com os olhos brilhantes.

Necessidade não há de agradecer. De todos nós é o dever de lutar pela vida de um filhote, pois cada vez mais raros eles são nesses tempos... Ademais, a quem me saiba encontrar, fornecedor de matérias primas únicas sou eu, por isso a mim foi enviado você.

E como eu devo usá-la? Alguma infusão ou poção? — perguntou Mu visivelmente ansioso.

Avenir fez um muxoxo e deu um longo suspiro.

Infelizmente, o profundo conhecimento da medicina lemuriana não tenho eu. Um boticário apenas sou, algumas curas mais simples conheço, mas o Mal do filhote novo uma condição complexa é, com atuações diferentes em cada organismo, e diferentes estágios de avanço da doença... Uma infusão talvez resolva, ou não... Um conhecimento a fundo desse mal e do acometimento do paciente necessário é para ser eficaz o tratamento, mas garantir a você posso eu que a única cura vem dessa planta... Enfim... O jarro todo levar você pode. Farta será a colheita dela esse ano para o estoque repor. Agora, como genuína é a sua necessidade, um preço amigável e justo farei por ela.

Mu piscou os olhos um pouco preocupado. Como não havia pensado nisso? Obvio que fossem lá quais os serviços do tal Yeti, ele certamente exigiria ser pago por eles.

Ah, claro! Bem, eu... Me desculpe, senhor Avenir — disse meio embaraçado — Estou tão focado em minha missão que nem sequer pensei em pagamento. Eu não trouxe nada de valor comigo, mas se puder esperar um instante eu posso...

As suas botas.

Avenir o interrompeu. Tinha os olhos vermelhos pregados nas botinhas tibetanas que Mu calçava. Gostou delas desde que as vira mais cedo.

Como é? As minhas botas? — Mu perguntou confuso.

Sim. Bem a calhar vem um calçado novo, confortável e quentinho. Quanto você calça?

Quarenta e dois.

Avenir deu de ombros.

Bem... Um pouco pequeno vai ficar... Pés grandes tenho eu — brincou sorrindo para ele.

Agitado, Mu levitou o jarro para ter as mãos livres para retirar as botas.

Se as usar bastante elas vão lacear. São feitas de lã de iaque e tingidas à mão. Eu mesmo as fiz — disse entregando as botas a ele apressado — Fique com elas.

Oh! Oh! Muito obrigado! — o ancião riu animado, empolgando com a macies das botas — Outro par de botas maiores, uns quatro números, quando vier me visitar você me traz, combinado?

Feito — Mu sorriu ao estender a mão e firmar o trato.

Ah... só mais um capricho antes de ir embora peço eu — disse Avenir — Um duelo.

Mu arregalou os olhos.

Um duelo?

Avenir deu uma gargalhada ao percebê-lo apreensivo.

Relaxe, uma pistola carregada na sua mão não vou colocar. É um duelo telecinético. Uma diversão para esse velho solitário. Aceita ou corre?

Mu pigarreou desconfiado.

E como seria um duelo telecinético? Quais as regras ou... não tem regras?

Regras? Sem regras — esticou os braços e estalou as costas espreguiçando-se — Décadas passam até que aqui um de vocês apareça, então, desenferrujar os miolos a chance eu tenho.

Hum... acho que entendi. Uma demonstração de poder. Pensei que frustrar o seu ataque na montanha tinha sido o suficiente.

Desprevenido você me pegou — apontou para ele, sério, torcendo para que não desconfiasse de sua real intenção com aquela proposta — Um lemuriano pequenino como você certamente páreo para o meu poder não há de ser.

Tudo bem, eu aceito. — Mu riu de ser chamado de pequenino, e nem podia repreendê-lo, já que para os padrões de sua raça sempre fora considerado baixinho. Consequência do árduo treinamento dado por Shion, que o fez desenvolver precocemente seus dons telecinéticos para prepara-lo para o ofício de Ferreiro. Com a mente em constante atividade telepática quando ainda era um bebê e nos primeiros anos de vida, seu desenvolvimento físico pagou o preço. Não que achasse ruim, na verdade considerava bom, já que era da mesma altura de Shaka, o que facilitava certos encaixes.

Perfeito, vamos para fora — disse Avenir já tomando o rumo da saída.

E assim eles fizeram.

Levitando alguns metros do chão, concentrado Avenir apontou para o cume do maior e mais alto pico da cordilheira, então no instante seguinte os olhos atentos de Mu viram rolar de lá algumas rochas cobertas de gelo. Uma pequena avalanche também se formou, mas conforme ia se derramando montanha abaixo também ia se dissipando, até restar no ar apenas uma fina camada de cristais de gelo. Era de fato impressionante de se ver, dada a proporção do montante de rocha e a distância de onde estavam.

Com os pés no chão Avenir olhou para Mu satisfeito. Tinha o rosto vermelho como um pimentão, fruto do esforço feito.

Nada mal, senhor Avenir. Sua telecinése é mesmo muito poderosa — disse Áries com um sorriso amistoso.

Sua vez. Não rir de você eu prometo. Respeitoso serei — brincou ele rindo.

Está certo. — Mu riu de volta e continuou a sorrir mantendo os olhos cravados aos deles, até que de repente a fisionomia de Avenir ficou séria.

Com um movimento rápido, de reflexo até, o ancião olhou para os próprios pés sobre a neve fofa, e como se subitamente perdesse o controle da gravidade desequilibrou-se e quase foi ao chão. Sentia como se a montanha o puxasse para baixo, então arregalou os olhos escarlates e encarou Mu, que continuava com a face serena, sorrindo.

Um estrondo contínuo fez os poucos pássaros que habitavam a região alçarem em bando um voo desorientado, revoando o céu aos gritos.

"Está movendo a montanha! Toda a montanha! E as placas de rocha sob ela!"

A voz de Avenir soou na mente de Mu com uma entonação de puro choque.

"O senhor gostaria de conhecer o Caribe? Tem sol, tem mar, e o clima é bem melhor que o daqui. Posso levar sua montanha para lá e fazer uma ilha particular para o senhor no meio do oceano, o que acha?"

"Não se atreva, Atla! Digo, Mu!" — corrigiu-se imediatamente, enquanto tratava de fechar a mente para que o visitante não pudesse lê-la. Eufórico como estava devido à confirmação de suas suspeitas, poderia deixar escapar um pensamento aleatório.

A questão é que para Avenir agora tudo fazia sentido. Mais uma vez estada diante dos poderes do maior telepata de todos os tempos.

Mu riu da confusão do ancião e o "duelo" teve um vencedor.

"Lá vem o senhor de novo me confundir com esse tal de Alta. Já disse que não sou essa pessoa. O meu nome é Mu."

"Já me corrigi, não? Mu da Casa de Virgem!"

Mu riu e acenou positivo com a cabeça. Achou melhor não estender aquele mal entendido. Era claro que Avenir conhecia muitas pessoas, entre elas muitos lemurianos, ao longo de mais de três séculos de vida, e algum haveria de parecer-se consigo. Deixando para trás as solenidades e lhe dando um abraço forte despediu-se dele.

Agora que encontrou um dos seus, certamente viria visita-lo muitas vezes. Talvez pudesse aprender com ele as lições que Shion não tivera tempo de ensinar-lhe. Talvez dali surgisse uma nova amizade.

Assim que seu jovem visitante foi embora e Avenir se viu sozinho, este pousou os olhos nas botas tibetanas em suas mãos as admirando sério e concentrado, então deu um longo suspiro pleno de lamento e pesar.

"Ah, Shion... o que foi que você fez! O que foi que você fez!"

Santuário de Atena, Casa de Virgem.

O cavaleiro de Virgem parou no meio da grande sala de paredes de pedra e iluminação parca amarelada analisando minuciosamente o conteúdo dentro do jarro de vidro.

— E pensar que talvez a última esperança para a cura do nosso filho vem de uma planta quase extinta... — suspirou, com os olhos azuis colados ao farelo de ramos e folhas secas.

Nem de longe Shaka parecia o mesmo homem que momentos antes deixava o hospital às pressas com o coração palpitante de alegria e esperanças renovadas. O chamado de Mu lhe avisando que encontrara o Yeti e estava voltando para o Santuário para mudar de roupa e higienizar-se tinha sido atendido de pronto.

Quase ao mesmo tempo ambos se teleportaram para a Sexta Casa, e no reencontro comemoraram a pequena vitória com beijos afoitos, abraços acalorados, risos e lágrimas, mas ao passo que Mu ia narrando a conversa com Avenir, enquanto apressado se livrara das camadas de roupas que usou para proteger-se do frio, o coração de Shaka voltava a ser esmagado por uma angustia crescente.

Agora eles sabiam qual era o mal que estava matando Kiki, tinham conhecimento de um possível remédio, mas não sabiam exatamente como deveriam ministra-lo, além do acesso a ele ser uma incógnita. Será que conseguiriam encontrar mais da Flor Kristall? E se não conseguissem?

— Nós vamos dar um jeito, Luz da minha vida — disse Mu, que já sem as roupas pesadas, as quais tinha amontoado num cesto trazido até ali por Shaka para este fim, de cueca e camiseta regata apenas, agora sentado no sofá retirava as grossas meias de lã de ovelha — Nem que a gente precise cultivar essa flor aqui, no seu jardim, mas nós vamos dar um jeito.

Shaka virou-se para ele e o fitou preocupado.

— Como? Se ela só cresce em clima extremamente frio? E por estar quase extinta seu cultivo não deve ser nada simples.

Mu lançou as meias no cesto e jogou as costas no acento do sofá esticando as pernas. Apertou com os dedos dos pés o pelinhos do tapete felpudo sob eles, tentando relaxar.

— Se for preciso a gente tenta em Jamiel, e se mesmo assim ainda não der certo, fazemos uma parceria com o Camus.

— Perdeu o juízo? Conchavar com aquele criminoso?

— Ele não é um criminoso qualquer, né, Luz da minha vida, ele é um criminoso que pode reproduzir o clima exato e ideal para o cultivo da planta que precisamos para salvar a vida do Kiki. Posso construir uma estufa e pedir a ele que mantenha o clima nela exatamente igual ao dos Urais.

— Não é a mesma coisa... tem que considerar o solo, os nutrientes, a incidência solar...

Mu alongou o pescoço e em seguida desencostou-se do acento; apoiou os cotovelos nos joelhos e então olhou sério para Shaka.

— Afrodite pode nos ajudar com isso também. Nós vamos conseguir, acredite, tenha fé. Eu sinto que estamos sendo guiados pelo caminho certo.

Shaka olhou para ele por um momento, depois balançou a cabeça com um sinal afirmativo.

— Eu acredito no nosso empenho em salvar a vida do nosso filho — respondeu, depois foi até Mu e sentou-se ao lado dele no sofá — E acredito na medicina do seu povo. Esses dois elementos apenas que podem salvar o Kiki.

Mu suspirou resignado.

— Nisso eu também acredito, e sabe no que mais? Algo me diz que a peça final deste quebra cabeças nós vamos encontrar no diário perdido do meu mestre. Sabe, Shion tinha muitos sonhos premonitórios onde ele via o futuro. Ele viu o meu, inclusive.

— Ele viu o seu futuro? E o que foi que ele viu? — Shaka interrogou interessado.

Mu deu de ombros.

— Eu já te contei, você que esqueceu. Eu não sei o que ele viu, não me disse em detalhes. Sempre que eu perguntava ele dizia que tais previsões só podem ser reveladas no momento certo, para não se interferir no livre arbítrio. Ele só me disse que eu precisava me preparar para ter uma família, pois eu seria pai.

— Hum... Mero ardil da parte dele. Shion criou você para cumprir exatamente o que ele programou para sua vida, e certamente um casamento com Shaka não estava no pacote — resmungou o virginiano.

Mu riu descontraído e deu um beijo estalado na bochecha do marido.

— Pois eu fiz mesmo questão de casar com o Shaka justamente por ter aprendido desde muito cedo os valores do casamento, por estar preparado para ele. Deve isso à Shion, sabia?

— Ah! Devo? Pois Shaka achou que o Mu tinha casado com ele por amor, e não por convenção.

— Não se faça, Luz da minha vida — brincou, rindo da cara emburrada do indiano — Claro que casei com você por amor, mas foi a educação que Shion me deu que me fez considerar o valor de se firmar um compromisso antes de consumar os desejos da carne. Para mim, as previsões dele estão se cumprindo perfeitamente.

— Será? Não acredito que Shion o tenha doutrinado dessa forma para no fim você se casar com um homem. E quando ele te preparou por anos para formar uma família, não acho que um marido, no lugar de uma esposa lemuriana, e um filho adotado estavam nos planos dele.

— Bom, não estavam nem nos meus, né Sha. Foi o Samsara.

Shaka respirou fundo.

— Enfim, isso não vem ao caso agora. O que mais te disse o tal Avenir? Não é possível que ele não saiba exatamente como se deve ministrar o tratamento. Ele não deu nenhuma outra dica? Não está se esquecendo de nada, está?

— Não... Eu te relatei exatamente tudo o que ele me disse, do jeito exato que ele me disse... O resto de nossa conversa foram apenas amenidades. Sinto que poderia passar dias lá, jogando conversa fora... De fato ele parece ter um conhecimento profundo acerca dos muvianos, mas guarda consigo muita coisa em sigilo absoluto. Pelo menos foi o que senti.

— Ora essa, de que adianta ter conhecimento se não o passa adiante? Isso não é nada inteligente, além de extremamente egoísta.

— Bom... ele deve ter os motivos dele — Mu fez uma pausa e pareceu pensar por instantes, depois olhou para Shaka com uma expressão estranha — Sabe, Sha, aconteceu uma coisa esquisita lá.

— O que?

— Assim que ele olhou para o meu rosto me confundiu com outra pessoa, outro lemuriano. Atla, acho que era o nome.

— É mesmo? — Shaka surpreendeu-se — Então há outros lemurianos que o visitam com frequência!

Shaka claramente se referia à família de Mu. O irmão que ele nunca conheceu, a cunhada, mãe de Kiki...

— Não. Não me falou de ninguém. — O ariano respondeu cabisbaixo, em seguida suspirou. Não queria trazer à tona aquele assunto. Não ainda.

Shaka torceu os lábios num claro sinal de desalento, então de repente ficou sério, parecia puxar pela memória alguma lembrança perdida.

— Você disse Atla? — franziu as sobrancelhas loiras parecendo concentrado — A pessoa com a qual ele o confundiu chamava Atla?

— Sim — Mu repetiu.

— Tem certeza?

— Sim, por que? — perguntou curioso.

— Espere aqui um instante, Mu.

Para surpresa de Áries, Shaka se levantou, colocou o pote com as flores sobre a mesinha de centro e em seguida desapareceu diante de seus olhos. No instante seguinte sentiu a presença e o Cosmo dele na Casa de Áries. Achou estranho, e como o bom ariano curioso e impaciente que era, teleportou-se para junto dele o encontrando na biblioteca. Ali Shaka havia deixado vários baús que trouxera da Casa de Virgem quando precisou esvaziar um dos cômodos para fazer um quarto para Kiki.

— Ei, o que está fazendo? — Mu perguntou ao vê-lo abrir um deles e vasculhar apressado o interior — O que está procurando?

Virgem logo encontrou o que queria.

— Isto! — disse ele virando-se para Mu. Na mão trazia um livro muito antigo, de aparência secular, cuja capa de couro trazia as inicias impressas A.V.

— Isto é...

— Um dos diários de Asmita de Virgem — disse Shaka, e com cuidado começou a folhear os registros.

— E o que você tá procurando ai?

— Espere... eu sei que vi em algum lugar... — dizia Shaka manuseando as páginas, até que finalmente encontrou. Afoito estendeu o diário ao ariano: — Aqui! Veja, Mu. A assinatura nas notas iniciais.

Assim que Áries pôs os olhos no papel amarelado, um sentimento estranho acometeu todo seu ser. Sensitivo como era, sabia que aquilo não deveria se tratar de uma mera coincidência.

— Atla! — sussurrou o nome manuscrito em letras rebuscadas desenhadas em tinta preta desbotada.

— Atla é o nome do aprendiz do Ferreiro Celestial que viveu em Jamiel no século XVIII. — Shaka explicou.

— Está falando do Hakurei? O lemuriano irmão gêmeo do antecessor do mestre Shion? — desviou os olhos do livro para encarar os olhos de Shaka.

— Sim, ele mesmo. Há vários registros de um lemuriano chamado Atla nos manuscritos do diário de Asmita. Na verdade, por ser cego de nascença, Asmita não era quem escrevia seus ensinamentos, ele os ditava para que Atla os transcrevesse em seu diário pessoal. Veja, quase todos os manuscritos têm a assinatura dele.

— Tá de brincadeira! — Mu exclamou com os olhos arregalados pregados aos do marido — Então existiu mesmo um lemuriano chamado Atla?

— Tudo indica que sim.

— E ele não era qualquer um, pelo jeito. Shion me disse que Asmita era considerado um homem sagrado, poucos podiam ter acesso a ele — Mu disse ao desviar os olhos para o livro novamente.

— Não apenas por isso. Segundo consta nos relatos, Atla teve importância fundamental na Guerra Santa daquele tempo, e também foi alguém muito importante para Asmita... Me lembro de ter lido uma passagem onde são relatados, de forma muito sensível e poética, os ritos cerimoniais do funeral de Asmita, ainda no decorrer da Guerra. Esse manuscrito também é assinado por Atla. Se trata de um texto muito emotivo, por sinal... Shion nunca mencionou nada a respeito desse homem a você?

— Não... — respondeu Mu alarmado. Se antes tudo parecia se encaixar, agora nada mais fazia sentido. Atla era, definitivamente, uma peça nova no tabuleiro de mistérios que cercavam Shion e o seu passado, e uma peça que parecia não se encaixar a nenhuma outra — Eu li todos os manuscritos do Grande Mestre Sage, e os tantos livros de alquimia lemuriana e da arte milenar do conserto das armaduras sagradas escritos pelo Mestre Forjador Hakurei, e também os de seus antecessores, mas em nenhum deles consta esse nome.

— O que é deveras estranho, Mu, já que Atla era aprendiz direto do Hakurei, portanto deveria existir manuscritos de autoria dele sobre os mesmos ofícios... Tem certeza de que não há nenhum?

— Tenho... No acervo de Jamiel, por ordem de descendência, a literatura do ofício da nossa arte na Forja passa de Hakurei de Taça para Shion de Áries e depois para mim. Meu conhecimento adquirido como ferreiro das armaduras será incluído no acervo depois que eu passar o ofício para Kiki... — disse concentrado — A menos que esse tal de Atla não tenha se tornado ferreiro por algum motivo...

— Mesmo que Atla não tenha se tornado ferreiro celestial, ainda assim ele existiu e foi importante. Não acha estranho Shion não ter lhe falado sobre ele?

— Claro que eu acho, Luz da minha vida!... Mais estranho ainda é não haver nenhum relato da existência dele na literatura lemuriana, mas existir nos diários de Asmita de Virgem! É como se os lemurianos quisessem apagar a existência dele da nossa história... mas... por que fariam isso?

— Bem... ele pode ter morrido precocemente, ou tudo não passar de uma grande coincidência — disse Shaka — Enfim, Mu, não temos tempo para pensar nisso agora. Fique com o diário. Pode lê-lo se quiser. Quem sabe encontra alguma pista desse homem. Eu vou para Virgem colocar as suas roupas para lavar e depois preparo algo para você comer. Deve estar faminto por ter se teleportado de uma distância tão longa... E apresse-se no banho. Não vá ficar horas lá pensando na vida como você faz. Precisamos voltar ao hospital o quanto antes para conversamos com Adônis e colocá-lo a par da nossa descoberta.

— Está bem. Vá na frente, Luz da minha vida. Eu já vou — disse, e despediu-se de Shaka com um beijo.

Mu ficou ali por um tempo ainda, de cuecas e regata, com o diário nas mãos e a cabeça fervendo.

— Atla... — murmurou sentindo que algo importante estava contido naquele nome.

Depois de um momento deixou a biblioteca, apanhou na Forja uma das calças de trabalho que deixava ali e caminhou até o átrio, onde estavam alocados os destroços e o que sobrou da gigantesca estátua de Buda destruída por Shaka. Juntas ali estavam também todas as imagens sacras retiradas do Templo de Virgem a pedido do indiano.

Com cuidado e devoção, Mu acendeu algumas velas e incensos e os colocou aos pés do estatuário, em seguida ajoelhou-se e com o diário de Asmita nas mãos começou a tecer uma prece.

Áries rogava aos deuses e a Buda que lhe dessem sabedoria para lidar com a informação nova que obtivera e que lhe concedessem a graça da cura de Kiki; também pediu para que o ajudassem a alcançar a lucidez necessária para resolver os tantos problemas que o cercavam, e quando pediu por um sinal, para saber se estava no caminho certo, se deveria continuar a ter fé e esperança, eis que uma luz sutil, quente e aconchegante, tocou seu rosto chamando sua atenção imediata. Ao ver de onde ela vinha surpreendeu-se, pois que vinha da menor estátua dentre todas ali, do pequeno Ganesha de barro que havia furtado dos estúdios de novela, em Bollywood, quando estava na sua lua-de-mel na Índia.

Estranhamente, sentiu seu coração confortado ao olhar para ela, ali, perdida entre tantas outras, então a levitou até suas mãos e depositou um beijo, suave e respeitoso, sobre a cabeça do deus elefante.

— Obrigado! — disse num sussurro, sem jamais questionar a origem divina do sinal que pedira, afinal era um budista que servia a uma deusa pagã.

Ter sua prece ouvida por Lord Ganesha era apenas mais uma peculiaridade de uma vida politeísta.

Antes de regressar a Virgem, Mu arrumou um local todo especial para o ícone de barro, lhe acendeu alguns incensos e deixou a Primeira Casa levando consigo as transcrições feitas por Atla no diário de Asmita.

Aquele era mais um dos mistérios que fazia questão de desvendar quando sua vida voltasse aos eixos, já que agora sua fé e esperança estavam renovadas e ele tinha certeza que voltaria.

Negrito – Traduzido do lemuriano arcaico.