O restante da semana foi prazeroso, enfim um pouco de sossego. Liz e Camella estavam satisfeitas com a reunião de Rhysand, Camella estava aliviada que Ruven havia como prometido enviar informações precisas do que ele sabia sobre seu povo. Enquanto durante o dia Feyre e Elain deixavam as duas ocupadas, ao final da tarde as irmãs aceitavam de bom grado meus passeios onde eu podia passar horas agradáveis ao lado de Liz. Camella, como também havia me advertido, não facilitou nenhum momento a sós com Liz, mas tampouco me repreendeu ou me tratava com frieza, no fim ela era que mais falava entre nós três.
Minha parceira ainda parecia metade em Prythian metade no continente, mas sabia que isso somente mudaria com o tempo e realmente me agradava o fato de Camella estar aqui, ela poderia ajudar Liz melhor do qualquer um de nós.
Contudo minhas atividades se tornaram indispensáveis e novamente tive que me distanciar da corte noturna, Rhys me garantiu que um guarda ficaria acompanhando as duas onde fossem pelo menos enquanto não tínhamos mais noticias do continente. O que era para ser somente dois ou três dias tornou praticamente uma semana. Voltei exausto e curioso sobre Liz.
"Onde elas estão?" Perguntei assim que passei pela porta da casa de Rhysand.
"Provavelmente no atelier." Disse Rhysand pouco preocupado fazendo um gesto para me sentar. "Eu estou bem obrigado. Cassian também. Chegou antes como já deve saber com o relatório." Rhys falava em tom jocoso.
"Parece que em um dos seus passeios Liz se interessou em um galpão semidestruído pelo ataque de Hybern. Fica próximo ao porto, um daqueles que ainda não foi reutilizado." Feyre explicava enquanto colocava alguns biscoitos e chá a nossa frente. "E esta reformando para seu atelier."
"Az! Você chegou!" Elian me abraçou sem nem mesmo que percebesse a sua entrada na sala. "Estava agora mesmo com Liz e ela me perguntou noticias suas, eu sei que ela tenta evitar, mas acaba perguntando todos os dias." Disse sorrindo marota. "Eu e Camella temos conversado bastante, sabe? E estou ajudando no que eu posso na sua parte do atelier."
Olhei de Feyre para Rhysand esperando que algum deles me explicasse o que elas estavam aprontando, mas os dois saboreavam os biscoitos em silencio e algo me dizia que eles estavam se divertindo com minha curiosidade latente.
"E o que seria esse atelier? Passei 10 dias fora e Liz já esta metida em trabalho? Ela não devia estar se recuperando ou algo do tipo?"
Rhysand gargalhou quase colocando seu chá todo para fora, enquanto Feyre tentava inutilmente engolir o biscoito sem parar de rir.
"Eu sabia que a primeira coisa que você perguntaria era sobre as irmãs vheelas. Mas nunca esperaria essa sua reação paternalista com a pobre moça. Ela esta bem Az, a curandeira a visitou no primeiro dia, receitou tônicos e exercícios." Rhys dizia entre risos. "Não há motivos para tranca-las dentro daquele apartamento minúsculo."
Balancei minha cabeça em discordância com um semi sorriso, tinha certeza que Rhys e Feyre estavam apostando alguma coisa a minhas custas. E me servi de chá e biscoitos.
"Acho que isso também não será um problema. Raul esta ajudando na reforma e finalizando um quarto no mezanino para Liz, ele esta sendo de grande ajuda não sei como tem tanta energia desde os treinamentos ate na reconstrução do galpão." Elian me contava como se eu soubesse quem era Raul e eu entendia menos ainda do que ela me narrava com tanta euforia.
"E esse galpão, o atelier do que se trata?" Tentei mais uma vez uma simples explicação.
"Tudo começou quando eu mostrava meu jardim a Camella e Lucien foi acompanhar Liz ao porto para comprar pedrarias que ele tinha encomendado. Camella se entusiasmou com meu jardim e Liz com as pedras. Lucien disse que ela gastou uma pequena fortuna, até então não tínhamos entendido o porquê da compra, até ela pedir auxilio a Lucien para comprar o galpão" Elian endireitou a coluna e continuou o relato. "Não sei bem como funciona, mas elas separam o galpão em duas partes, uma será o atelier para que Liz trabalhe com artefatos mágicos e a outra será de Camella para preparar soros e poções!"
"Tudo com o aval de Amren é claro." Rhys relaxou as costas no sofá. "Ela que esta responsável por Velaris por hora."
Elian gostava mesmo de uma boa historia, mas não me importei com seus floreios. Tudo isso significava uma coisa: Liz iria ficar em Velaris.
"Eu gosto disso em Liz." Feyre disse mais para ela do que para alguém em especial. "Ela não espera para fazer, estando aqui sem poder voltar a seu antigo trabalho deu um jeito de se manter ativa."
"Ela não gosta de estar aqui sem poder pagar" Disse passando as mãos no rosto. "Ela se sente uma prisioneira ou uma mera convidada quando fizemos tanto por ela, trabalho é a forma como os vheelas têm como pagamento."
"E não tem nada mais nobre que isso" completou Rhysand. "Mas você pode imaginar que artefatos mágicos e Amren em pouca distancia não pode ser boa ideia."
"Ela deve estar mais eufórica do que as duas" Imaginei Amren dando todos os jeitos para que o atelier saia o quanto antes.
"Incrivelmente ela esta se controlando. E é isso que nos intriga" Feyre disse olhando Rhysand e ali eu pude perceber que eles deviam estar apostando mais alguma coisa. Elian continuou contando sobre os negócios de Lucien e logo .
"Bem, obrigado pelo chá Feyre. Quero ver o andamento desse tão famoso atelier" Fiz uma pequena reverencia para os presentes e nos despedimos como sempre.
Não perguntei exatamente onde ficava o atelier, segui meus instintos. Havia muitas coisas passando pela minha cabeça nos últimos dias, desde que Liz voltara a Prythian meus sonhos com ela voltaram, nítidos e ardentes. Eu não gostava de vê-la apenas como uma parceira, gostava de pensar nela como a feérica que ela era. Mas quando fechava meus olhos a noite os sonhos vinham sensuais e a Liz nos meus sonhos era tudo menos defensiva como ela era na realidade. Se antes ela mantinha uma distancia receosa, agora ela seu olhar era cheio de sentido e reconhecimento. Sentíamos a existência do laço, porem ela não estava ainda preparada. Nem eu sabia se eu estava, mas era essa sua fragilidade e sensibilidade que me fazia ter certeza nós dois estávamos juntos nessa. A surpresa de ter um parceiro e as duvidas se isso era certo eram as mesmas, mas cedo ou tarde acabaríamos por entender.
Liz era uma vheela, um povo adormecido e poderoso, que buscava por liberdade eu um bastardo, grão espião da corte noturna apegado a um amor não consumado. O que nós tínhamos em comum? O que fazia nossa alma estar ligada? Eu já tinha a resposta.
Avistei Camella com vestido rosa destoando totalmente da área portuária de Velaris, ela carregava nas mãos uma caixa e entrava no galpão com telhas e algumas madeiras novas. Devia ser esse o atelier.
Passei pelas portas maciças abertas embora por fora parecesse um simples galpão, por dentro parecia uma pequena galeria. Próximo a entrada havia um punhado de plantas em cestos, varias estantes vazias e um pequeno forno a lenha, o espaço onde Camella dispunha frascos vazios nas estantes tinha uma parede de pedra que dividia por igual o galpão , do outro lado mesas antigas com algumas caixas e lamparinas de todos os tamanhos e a cima um mezanino recém montado, a frente das duas saletas um corredor de pequenas janelas faziam uma iluminação vibrante. Camella estava distraída quando entrei no local.
"Precisa de ajuda?" Perguntei fazendo a feérica me olhar assustada.
"Oh! Você já voltou!" Camella olhava para os lados procurando alguém ou alguma coisa.
"Sim. Vejo que esta colocando tudo em ordem. E Liz?" Onde ela esta?" Dei alguns passos na direção da outra saleta que estava vazia, porem um estrondo vindo de cima me fez correr para a escada.
Não estava preparado para ver aquela cena, assim que coloquei minha cabeça no mezanino vi Liz rolar no chão tirando o feérico de cima dela os dois gargalhando embolados no tapete, seu corpete era a única coisa que sustentava o pouco tecido que escorregava pelos seus braços, deixando seus ombros e busto muito descoberto. O feérico ainda sorrindo para minha parceira esticou o braço afastando os cabelos dela do rosto tocando na sua nuca. Nunca senti tanto ciúme como nesse momento.
O que aquele macho estava fazendo com Liz embolada no chão, rindo como crianças travessas um para o outro? Desci o restante das escadas com algo gelado no meu estomago, o que era esse sentimento? Por que me sentia tão desconfortável? Com Mor nunca me descontrolei e agora me pegava tentando reter minha agressividade sem conseguir de fato, pois Camella me olhava pálida de boca aberta a minha frente.
Eu não sei que cara eu tinha, mas isso pouco me importava. Segundos depois ouvi os dois descerem, Liz chamou meu nome, mas tudo o que eu fiz foi fechar meus olhos.
"O que...o que houve? O que foi esse estrondo?" Camella perguntou.
"Az?" A voz doce de Liz chegou aos meus ouvidos, mas eu não conseguia apagar a cena.
"Nos caímos. A escada desestabilizou e acabamos os dois no chão." A voz masculina ainda trazia o tom do riso, acalmei meus instintos o que pude antes de me virar aos dois.
Liz me olhava confusa enquanto ajeitava a túnica rasgada nos ombros. Alguns passos atrás um guarda de cabelos negros como meu olhava a situação sem entender.
"Você esta bem?" Liz me perguntou novamente.
"Sim." Respondi engolindo em seco, pois a verdade era que eu queria explodir.
"Senhor." O feérico fez uma pequena reverencia notando a minha presença pela primeira vez. Ainda era difícil respirar.
Liz inclinou o rosto ainda me analisando e foi um piscar de olhos sua expressão mudou de confusa para surpresa e depois vazia novamente. Ela entendeu. Ela sabia o que eu estava sentindo. Me senti um pouco envergonhado.
"Volto outra hora." Dei meia volta e sai fora do galpão.
"Az! Espera!" Meus pés travaram assim que ouvi Liz me chamar. "A gente precisa conversar."
Eu sabia que a gente precisava, mas ouvir aquela frase me deixou nervoso. Aquele não era o momento, mas era a primeira vez que Liz vocalizou que queria conversar, então me virei para ela sem realmente me mover.
"Primeiro eu quero te mostrar o que eu venho fazendo nesses dias que você andou fora." Ela fez um sinal para que voltássemos ao galpão.
Não consegui evitar, meu olhar foi de baixo para cima, analisando suas botas, a calça de couro, o corpete que acentuava sua cintura fina e fazia seus seios volumosos, a túnica que havia por baixo estava danificada, sabe-se lá o motivo, a deixava ainda mais desejosa. Como nos sonhos. Não me mexi.
Então ela caminhou na minha direção, balançando os quadris os olhos presos nos meus.
"Há muito tempo quero fazer algo para agradecer pelas minhas aulas de voo, vem. Deixa eu te mostrar meu atelier." A voz calma batia no meu rosto e sua mão entrelaçou a minha, ela sorriu me puxando de volta, mas não foi um sorriso ingênuo, foi um sorriso travesso como soubesse da guerra interna que eu estava travando.
Camella e o Raul, o guarda que estava designado a vigia-las, logo saíram para buscar o restante das caixas de Camella. Ela me mostrou os dois ambientes e me contou como tinha começado sua ideia, andava de um lado a outro, mas sua mão não largou a minha. Eu não me importava que ela remexia dentro das caixas somente com uma mão, não me importava com o desconforto de momentos atrás, se estávamos só nós dois, ela segurava firme e eu não tinha intenção de larga-la.
