A permanência de Umbridge em Hogwarts estava causando um clima de tensão pior do que no ano da fuga de Sirius Black, a Câmera Secreta e do Torneio Tribuxo. A presença da mulher era uma lembrança constante de que o olhar do Ministério estava sobre eles, os julgando, os repreendendo, os condenando. Era opressão feita de forma velada e sob a desculpa de que era exercida para o bem dos alunos. Ainda sim, a vida seguiu em Hogwarts, de forma desagradável e desconfortável. E fora a presença de Umbridge, ainda haviam os

NOM's, o que estava deixando todos os quinto anistas em um estado de nervos completo.

— O que vocês estão fazendo? — Dallas perguntou ao entrar na sala comunal da Sonserina ao final do dia de aulas e ver Daphne, Millicent, Blaise, Theodore, Pansy e Draco cercados por livros e pergaminhos. Crabbe e Goyle enchiam a cara de guloseimas, como sempre, e estavam completamente alheios ao grupinho com olhares desesperados e pálidos.

— O que você acha que estamos fazendo? Estamos estudando para os NOM's. — Daphne respondeu, avessa. O mau-humor também estava sendo uma constante para os alunos do quinto e sétimo ano, que também estavam sofrendo com testes de avaliação do Ministério, mas no caso deles eram os NIEM's.

— Ainda temos meses para os NOM's… — Dallas tentou explicar.

— E por isso mesmo já estamos atrasados. — Millicent respondeu com um leve tom histérico na voz. — Deveríamos ter começado a estudar desde o ano anterior, mas o Torneio Tribruxo tirou o nosso foco. — Dallas riu diante do ridículo da situação e recebeu olhares atravessados de todos os colegas.

— Eu não sei porque vocês estão se dando ao esforço. Todos são herdeiros de ricas famílias sangue-puro. O futuro de vocês já está garantido, não precisam de uma avaliação idiota do Ministério para dizer a vocação profissional de vocês. — Dallas explicou e ainda sim os olhares permaneceram intactos.

— Você mesma disse: somos herdeiros de ricas famílias sangue-puro. Temos um nome a zelar e não é tolerável que só porque o nosso futuro já está garantido, que tiremos notas baixas nos NOM's. — Draco esclareceu. — Você deveria fazer o mesmo.

— Na verdade não. Eu não sou herdeira de família rica, eu faço parte de uma família rica. E mesmo que fosse herdeira, a minha família rica de linhagem nobre é trouxa, os NOM's não significam nada para eles. — com essas palavras de despedida, ela tomou o caminho para o seu dormitório para guardar o seu material e seguir para o jantar. Draco a parou no meio do percurso ao segurá-la pelo braço.

— Você ainda é uma Black. — ele a avisou e Dallas o olhou longamente, de forma acusadora.

— Quantas pessoas, exatamente, sabem que eu sou uma Black? — a expressão de Draco, de um peixe fora d'água, ao ser pego de surpresa com esta pergunta e a falta de resposta que esta tinha, foi realmente hilária. — Pois é. Se quase ninguém sabe que eu sou uma Black, eu não tenho que manter a reputação de família alguma. Além do mais — ela soltou-se da mão dele. — eu sou brilhante. Não preciso dessa paranoia toda para gabaritar os NOM's. — e esta era uma verdade. Dallas vinha absorvendo praticamente tudo que era possível aprender sobre o mundo mágico desde que entrou em Hogwarts, os seus conhecimentos estavam além dos níveis testados pelos NOM's, pelos NIEM's até, então ela tinha a certeza de que não precisaria preocupar-se com nada. E, ainda sim, a paranoia dos sonserinos estendeu-se para toda a escola.

Quando entrou na biblioteca ao final da tarde do dia seguinte, foi para ver o lugar abarrotado de alunos. Granger sozinha ocupava uma mesa de quatro lugares de tanto livro que tinha espalhado sobre o tampo desta. Dallas identificou Patrick entre um grupo de corvinais, lufa-lufas estavam amontoados em grupos de quatro a seis alunos por mesa, discutindo em voz baixa e trocando pergaminhos com anotações. Sonserinos do sétimo ano estavam nas mesas sob as janelas, e as arrumou de forma a criar um círculo desajeitado de cadeiras e mesas. Dallas aproximou-se da bancada onde Madame Pince estava sempre empoleirada. A bibliotecária observava o seu domínio com a atenção de uma águia e o orgulho de alguém que gostava da ideia de finalmente ver aquelas crianças de cabeça oca usarem os livros para alguma coisa além de escorar pé de mesa bamba.

— Por que você não está fazendo o mesmo? — Pince perguntou quando Dallas estendeu à mulher o livro tinha tinha pegado emprestado dias atrás.

— A senhora está falando sério? — Dallas perguntou com genuíno tom de descrença na voz e mirou do rosto de Pince para o livro na mão da mulher. A bibliotecária rodou o volume entre os dedos ossudos e franziu as sobrancelhas ao ver o título. Era um livro de sobre Poções Avançadas e o seu conteúdo geralmente era usado no treinamento de Aurores.

— Esquece que eu comentei tamanho absurdo. — Pince disse com um meio sorriso que não durou muito tempo em seu rosto enrugado. — Sr. Potter, eu recordo que este livro deveria ter sido retornado há dois dias. — Dallas olhou por cima do ombro para ver Potter aproximando-se da bancada com um olhar de poucos amigos no rosto. Quando ele estendeu a mão para entregar o livro à Madame Pince, a atenção dela focou em uma marca curioso na pele pálida.

— O que é isso? — Dallas nem ao menos pediu licença, simplesmente segurou a mão de Potter e puxou o membro em sua direção. A marca curiosa era um ferimento cicatrizando, ainda com um tom avermelhado nas bordas e inchado. Um ferimento que dizia "eu não devo contar mentiras".

— Não é nada. — Potter respondeu com amargura e arrancou a mão de entre os dedos de Dallas, que o mirou com estranheza. — Terei algum ponto descontado pelo atraso? — a biblioteca de Hogwarts não cobrava multas por atraso, mas, no lugar, a punição sempre era um descontar de pontos para a casa.

— Não. — Madame Pince declarou com um tom suave, beirando a pena. — Não. Mas que isto não se repita.

— Não irá. Madame Pince. — Potter meneou a cabeça em um gesto de despedida. — Winford. — completou, na direção de Dallas, em um tom seco e distante e isto foi praticamente um soco na boca do estômago dela. Dallas podia contar nos dedos de uma única mão todas as vezes em que Potter a chamou pelo sobrenome de modo tão formal, e em nenhuma das vezes ela gostou da forma em como ele a tratou.

O encontro seco e formal com Potter não foi a única coisa desagradável que aconteceu com Dallas naquela semana. A nomeação de Umbridge como Alta Inquisidora de Hogwarts conseguiu superar isto. A nomeação de Umbridge e o fato de que Draco estava deliciando-se com toda aquela situação, voltando ao status de menino insuportável em quem Dallas queria enfiar uma pitada de bom senso que fosse no soco. O irmão, aparentemente, estava adorando este novo sistema opressivo de Hogwarts, cantando as maravilhas que eram a escola finalmente ter um pouco de ordem que fosse e estivesse colocando os sangue-ruins e mestiços em seus devidos lugares. Para Dallas e muitos outros alunos, ter a incompetente da Umbridge como uma sombra desagradável sobre os ombros dos professores era enervante. A expressão azeda de Snape mostrava que ele estava a um passo de enfiar um Avada Kedavra na fuça de sapo rosa da mulher. McGonagall não precisava recorrer a tanto, a professora de Transfiguração tinha a língua afiada o suficiente para colocar Umbridge em seu devido lugar.

— Umbridge é um desperdício de espaço e ofende a minha inteligência. — Patrick comentou ao encontrar com Dallas a caminha da aula de Trato das Criaturas Mágicas.

— Você e toda a escola acham isto.

— Nem toda a escola. Malfoy parece estar divertindo-se muito com a situação. — Patrick meneou a cabeça na direção de Draco, que acabara de fazer um lufa-lufa do primeiro ano fugir correndo e aos prantos. — Ele é um babaca. Não dá para acreditar que vocês são parentes.

— Nem eu. Mas se formos levar em consideração, eu também não sou uma pessoa tão boa assim. — Patrick a parou ao estender o braço em frente ao peito dela e depois a mirou com olhos largos, antes de soltar uma risada curta e irônica.

— No momento em que você admite os seus defeitos, você é uma boa pessoa. Além do mais, você nunca fez primeiro-anistas chorarem só por diversão.

— Okay. Draco é um babaca, fato. Eu achei que ele estava melhorando, mas aparentemente eu estava errada.

— Eu acho que será preciso um trauma muito grande para Malfoy abrir os olhos para a vida e ver que nada e nem ninguém gira em torno do umbigo sangue-puro dele.

— E este é o meu grande medo. — Dallas completou quando aproximavam-se da área onde seria a aula de Trato das Criaturas Mágicas. A figura familiar do professor Grubbly-Plank ficava maior a medida em que eles se aproximavam e mostrava que Hagrid ainda não tinha retornado para Hogwarts.

— Mas o pior de tudo isto não é Malfoy achando-se o rei do universo por causa de Umbridge, é a própria ferrando conosco. Temos os NOM's este ano e ao invés de uma professora de Defesa Contra As Artes das Trevas decente, temos ela. Às vezes eu acho que ela irá começar a ensinar corte e costura do que realmente a matéria para qual foi contratada para ensinar.

— Você não percebe, Patrick. — Dallas abaixou o tom de voz quando eles estavam perto o suficiente do grupo de alunos que rodeava Grubbly-Plank. — O Ministério precisa de alunos dóceis e complacentes ao lado dele, para fortalecer a ilusão de que tudo está bem, que ele não voltou, e a melhor maneira de fazer isto é não ensinando DCAT. Poções? Transfiguração? Feitiços? Matérias muito interessantes e úteis, mas quando for preciso lutar contra os Comensais da Morte, eles não irão usar Expeliarmus em duelos, não é mesmo? Dizer que não precisamos aprender a nos defender das Artes das Trevas é o mesmo que dizer: "está tudo bem, nada está acontecendo, e se não está acontecendo, esta matéria não é necessária para o currículo escolar".

— O que é uma tática ridícula, porque até quando tudo estava em suposta paz, antes dele voltar, aprendíamos DCAT normalmente.

— Patrick? Quantos professores nesses últimos cinco anos você pode dizer que foram professores decentes? — Patrick torceu o rosto em desagrado quando percebeu aonde Dallas queria chegar. — Isto mesmo. Lupin e Moody, mesmo que este último tenha sido um Comensal disfarçado. E eu pesquisei, antes disso, nenhum professor de DCAT durou um ano no cargo e a maioria era incompetente.

— Então temos esperanças, Umbridge não vai durar um ano.

— Provavelmente não. Mas ainda sim estamos ferrados.

— Muito.