ISIS NÃO SABIA O QUE esperar do casarão dos Malfoy, porém uma residência no meio do nada não figurou na sua mente até o instante em que aparatou em uma área rural no meio da noite. "Bons demais para se misturarem aos plebeus", pensou ela, alinhando a capa sobre os ombros, embora não visse a hora de retirá-la. Uma alameda estendia-se à frente, margeada por cercas-vivas de teixo que avançavam para além do portão de ferro forjado.

— Imaginei que os Malfoy fizessem o tipo cosmopolita, com bastante gente ao redor para admirar tanta opulência.

— Um conflito entre a personalidade flamboyant de Lucius e a necessidade de conservar segredos. — Underhill aproximou-se, pousando a mão na curva das costas de Isis; o calor trespassando o tecido. — Você as escondeu? — perguntou ele, de repente. A cartola projetava uma sombra sobre o rosto, tornando impossível descrever a reação do bruxo.

Um formigamento irradiou de onde ele a tocava para o resto do corpo, não pelo prazer de tê-lo por perto, e sim por receio da reação negativa de Erastus à resposta. Isis se deixou virar, encarando-o apesar da vontade de se encolher ante o olhar obstinado do tutor. Ela engoliu em seco, sabendo que os dois não se moveriam de ali até dar-lhe o que fora requisitado.

— Sim — murmurou em um fio de voz. — Todos perguntariam a história...

— E você explicaria com toda a calma, pois as cicatrizes são motivo de orgulho. — O aperto em seus ombros se intensificou. — Apenas Voldemort conhece a história e, embora a aprovação dele seja a única que verdadeiramente interesse, não seria de todo ruim divulgarmos seus feitos. — Ela desviou o olhar para o chão, porém Underhill a segurou pelo queixo, obrigando-a a encará-lo. — Não preciso repetir quão importante é que o Lorde das Trevas a aceite, não é?

Um estalo atraiu a atenção dos dois para um ponto não muito longe de onde estavam, e Underhill deslizou uma das mãos até a cintura da bruxa, incitando-a a andar pela aleia, após um breve meneio na direção do comensal recém-chegado.

— Há um forte apelo na sua história, minha garota, especialmente ao levarmos em conta a infância de você-sabe-quem. — Ele tomou a frente, elevando o braço esquerdo, e atravessou o portão como se este fosse feito de material etéreo.

Isis parou, vetada pelas barras de ferro, e aguardou até vê-las se contorcerem feito serpentes, formando um rosto amedrontador digno das histórias sombrias d'Os Contos de Beedle, o Bardo.

— Informe o objetivo — bradou a voz maquinal, ciente de que faltava algo primordial no antebraço esquerdo da convidada.

— Isis Blakeley. Acompanhante de Erastus Underhill no jantar dos Malfoy. — Os portões se abriram de imediato, silenciosos.

Underhill ofereceu-lhe o braço e Isis o tomou, fitando os contornos da mansão iluminada pelo luar. Luzes esverdeadas atravessavam com intensidade o gradeado de losangos das janelas, reavivando o matiz dos arbustos. Não gostou da aura do lugar. Tudo na propriedade emitia o último brado de uma elite decadente, voraz pela oportunidade de se reerguer.

— Cafona como sempre — resmungou Erastus, apontando para um vulto branco próximo a um chafariz. — Dinheiro não compra elegância, mas Lucius não compreende as sutilezas do requinte.

Isis estreitou o olhar e, à medida que se acostumava com a parca luz, identificou o pavão albino, banhado em um tom verde-claro. Brega, de fato, porém a beleza da ave era inegável.

Ela se concentrou no ruído do saibro sob os saltos, torcendo para que Underhill fizesse o mesmo com a antipatia pelos Malfoy, em vez retornar ao tema da conversa anterior. A gana em inseri-la no círculo seleto de comensais vinha consumindo-o desde o reencontro dos dois. O bruxo promovia festas, recrutava novos aliados e, se tudo corresse de acordo com os planos, viraria o novo responsável pelo Departamento de Mistérios em breve. Isis sabia que o único elemento capaz de o atrapalhar era a própria, e não desejava isso em sua consciência.

A nova natureza do envolvimento de ambos não era mais segredo, o que aumentara os questionamentos sobre a origem de Isis. Voldemort até aceitaria uma mestiça, não uma nascida-trouxa. Ao questionar Underhill, ele a tranquilizara, alegando que esse empecilho era fácil de resolver.

Em poucos momentos de sua vida, Isis se interessara em descobrir as identidades dos genitores, pois passava a maior parte do tempo com medo de conhecê-los. Se os pais adotivos, que a escolheram em meio a tantas outras crianças, muitas vezes a tratavam com indiferença, não imaginava como os que a abandonaram reagiriam. Em todo caso, se fossem bruxos, tinha certeza de que estavam longe de ser uma família de posses, feito os Malfoy.

Ante a aproximação do casal, a porta da frente se abriu sozinha, revelando um hall de entrada espaçoso, ricamente decorado com quadros e retratos, além de um belo tapete a cobrir quase todo o piso de pedra. Arandelas coloniais emitiam parte da luminosidade avistada do lado de fora, guiando o caminho para longe dos olhares arrogantes das pinturas e para perto da escada, de onde saía um conjunto de vozes comedidas, misturada à música, vindas do andar superior.

Um arrepio cruzou das costas até a nuca de Isis, quando a bruxa avistou uma moça e um rapaz guardando o espaço em frente às pilastras que ladeavam os degraus. Sob a luz esmeralda, as peles macilentas e os trajes pretos acentuavam o ar moribundo que os cercava. Os olhares vidrados encararam o vazio até perceberem os recém-chegados.

— Bem-vindos à mansão Malfoy. Posso recolher suas capas? — perguntou o jovem em um tom apático.

Enquanto Underhill entregava a cartola ao "criado" temporário da casa, Isis se adiantou e retirou a capa antes que a outra se aproximasse. Em uma rápida observação, o vestido justo, frente única, era preto. Correntes finas criavam uma teia prata às suas costas, sustentando uma serpente que ondulava por toda a extensão da coluna. Contudo, um olhar atento repararia as escamas de um verde luminescente surgirem no tecido com a menor das movimentações.

Por um momento, a bruxa acreditou que o rapaz perdera um pouco do torpor ao encará-la, logo retornando ao estado de letargia. Bizarrices eram bem mais comuns que o esperado naquele meio, o que não tornava a situação aceitável. A bruxa decerto não nutria afeição por trouxas, o que não significava que gostava de vê-los em situações degradantes. Rhys fora uma criança comum e isso nunca soara um empecilho para amá-lo como um irmão, até entrar no mundo bruxo.

Esses, infelizmente, eram o tipo de pensamento que guardava para si e os escondera fundo ao subir o lance de escadas rumo à sala de visitas, armando-se daquilo que considerava uma de suas grandes qualidades: cinismo. O cenário, ao contrário da primeira impressão da mansão, condisse com o esperado: pomposo e démodé. Os recém-chegados se entreolharam e Underhill arqueou a sobrancelha com um quê de "não disse?".

Os motivos em verde e prata eram uma das poucas coisas belas. Instrumentos musicais tocavam sozinhos, regidos por um maestro inexistente. Os lustres e a lareira faziam um trabalho mais decente que o das arandelas, iluminando o cômodo longo e os visitantes. Muitos voltaram a atenção ao casal, que foi recepcionado não pelos anfitriões, e sim por um Yaxley claramente intoxicado pelo uísque de fogo que carregava em seu copo.

Underhill entregou uma cordialidade tão realista que a bruxa teria comprado caso não conhecesse a fundo a impressão que retinha de cada pessoa presente. E ele as atraía tal qual moscas, à exceção de Lucius, por motivos óbvios, Bellatrix, que não admirava ninguém além de seu mestre e senhor, e o homem próximo à lareira, trajando preto dos pés à cabeça, cujo olhar de indiferença cruzou com o de Isis.

A lembrança do baile promovido por Erastus retornou; a conversa que os dois tiveram, sem qualquer menção aos comensais ou demais obrigações. Até mesmo se esquecera do perigo que os próprios pensamentos correram ao ter Severus Snape tão perto.

— Maldito sortudo. — Isis voltou a encarar Yaxley, que fazia uma inspeção entusiasmada do seu corpo.

— Considere-se sortudo também, por ainda ter os olhos, Corban — disse a bruxa, com a calma de quem discutia sobre o clima. — Porque se continuar me olhando assim, perderá os dois.

Um grupo próximo de comensais interrompeu a conversa para acompanhar o desenrolar daquela pequena inquietação. Isis sustentou a atenção recebida com o queixo erguido e um sorriso torto de desdém, no aguardo da próxima ação de Yaxley. E quando ele explodiu em uma gargalhada, dando tapinhas do ombro de Underhill, os outros comensais o acompanharam em bom humor forçado.

— Ótimo trabalho, Erastus! Ótimo trabalho! — Ele virou o uísque de uma vez, carregando o casal para uma conversa com comensais mais discretos.

Underhill a segurou pelo cotovelo, puxando-a com delicadeza até roçar os lábios na orelha de Isis.

— Você é perfeita. — O bruxo sussurrou, mantendo-a por perto.

Não havia sinal de desconforto no semblante de Erastus. Sem importar o ângulo por onde analisasse a situação, Yaxley não representava qualquer tipo de risco a ele. Pouquíssimos dos convivas ali possuíam a genuína capacidade de despertar sua hostilidade; um deles, por outro lado, era o único na sala com quem Isis desejava conversar.

Ela escondeu o desconforto com um sorriso e fez o melhor para se manter sociável. "Ótimo trabalho", repetiu as palavras em pensamento, repassando-as em busca de um significado menos exasperante que o responsável por tirá-la do sério naquele instante. Qual o motivo real por trás delas? Isis tinha medo de admiti-lo para si mesma. Admitir-se um projeto de Underhill. Após tantos anos, devia se sentir grata por tudo o que recebera, contudo, essa concepção vinha mudando de maneira irrefreável. A insistência para que se tornasse uma comensal não a atraía e ele não se importava com isso. O plano fora traçado há muito tempo para ser mudado.

"Se eu não beber alguma coisa agora, vou surtar", pensou, olhando as imediações na esperança de encontrar um "zumbi" trouxa com uma bandeja, porém, no lugar destes, elfos domésticos zanzavam pela sala a passinhos sem confiança, na esperança de não serem atingidos, de propósito ou não, pelos bruxos.

— Erastus aqui nos contou que a senhorita estudou em Uagadou — comentou Dolohov, levando a taça com vinho à boca. — Uma mudança brusca de ambiente, não?

— Ela sempre foi excepcional em Transfiguração — adiantou-se Underhill, com o tom melífluo, deixando deliberadamente Astronomia de fora. — A transferência para Uagadou foi um presente inesperado, porém bem-vindo. — Ele a mirou com um olhar acintoso. — McGonagall não teve a capacidade de extrair o melhor de Isis.

"Você sim, certo?", ela imaginou-o pensando, orgulhoso de seu experimento.

— Velha maldita. — Amycus contorceu o rosto em uma careta de desagrado, que o deixou ainda mais parecido com um porco. — Tudo mudará agora que o velhaco senil despencou da Torre de Astronomia. Hogwarts será nossa em breve, não é mesmo, Severus? — Ele ergueu a taça na direção do mestre de Poções, que repetiu o gesto de uma maneira mecânica e moderada, mantendo uma expressão indiferente.

Isis revirou os olhos ao ouvir a risada chiada de Carrow e, por um instante, vislumbrou os músculos de Underhill tencionarem ao encarar Snape. Assim como outros comensais, o bruxo não acreditava na lealdade do professor. Após a morte de Dumbledore, muitos mudaram de opinião, não Erastus. Para ele, Severus era terreno desconhecido e não podia se dar ao luxo de se cercar de incerteza, especialmente uma "incerteza' que ocultava pensamentos tão bem quanto lia-os.

— Preciso beber alguma coisa. — Isis murmurou de um jeito que só Underhill pudesse ouvi-la.

— Não vá para muito longe — sussurrou em seu ouvido, segurando-a com firmeza antes de permiti-la ir.

A bruxa concordou, sentindo-o encará-la enquanto se dirigia a um dos elfos na sala. O pobre coitado se encolheu ao vê-la se aproximar, respirando aliviado quando tudo o que Isis fez, ainda com ar pensativo, foi pegar uma taça de vinho da bandeja e caminhar até a janela. Do lado de fora, archotes iluminavam a entrada do labirinto vivo. Foi fácil fantasiar-se embrenhando-se por aquele caminho, para ficar o mais longe possível daquela gente. Não se encaixava ali e desperdiçara a chance de se unir ao outro lado. Em meio à música e às conversas, nunca experimentara tanta solidão.

Ao levar a taça à boca, observou com apreensão o elfo se acercar do grupo de Lucius e sua esposa de postura elegante, mas insossa; não a culpava. Viver com um Malfoy era tão danoso quanto beijar um dementador. Ele despertava risadas dos convidados mesmo com a postura e o semblante abatidos. E quando a criatura mal-ajambrada se acercou do bruxo, Isis se preparou para uma possível demonstração de humilhação gratuita.

Vendo a oportunidade de ser desprezível, Malfoy colocou a bengala no meio do caminho, causando um tropeço que fatalmente levaria o elfo ao chão se não fosse pelo gesto discreto de Isis, que o ajudou a recuperar o equilíbrio sem derrubar uma taça sequer. A frustação saiu em um crispar de lábios, logo contornada por outra piada infausta.

Com cara de paisagem, ela tomou um gole do vinho e desviou o foco para a lareira, cruzando olhares com Snape uma vez mais. Certo de que detinha sua atenção, ele encarou o elfo por tempo o suficiente para que Isis entendesse o ponto de interesse e, então, voltou a fitá-la de um jeito calculista, expressando no silêncio que noticiara o gesto de civilidade.

— Mal chegou e já aparenta tédio. — A voz morosa a arrastou de volta, encontrando Lucius tão perto que um espirro a faria dar uma cabeçada nele. — Underhill a prende tanto naquela casa que a senhorita esqueceu o jeito correto de se festejar.

— Ou talvez você só seja um péssimo anfitrião. — Ele riu, interpondo-se entre Isis e sua visão de Snape, encurtando o espaço já estreito ao se posicionar à sua frente.

— Então não é verdade que ocupam mais tempo com livros que... divertindo-se? — Diante do sorriso desdenhoso, ela riu. — Uma mulher jovem e estonteante merece muito além do que Erastus pode proporcionar.

— Estonteante? Ah, Lucius — Isis o segurou pela lapela, ajeitando o tecido sob o olhar insinuante, embora não houvesse um amassado —, e você seria a pessoa perfeita para isso, não? Sangue puro, bon vivant. Só tem um problema... — a gola apertou de repente ao redor do pescoço dele, fazendo-o soltar um gemido estrangulado — eu prefiro os morenos.

O broche com o brasão da família pressionava o pomo de Adão de uma maneira dolorosa e, ainda assim, Isis entreviu algo além de angústia no semblante contraído de Lucius. O tecido afrouxou no mesmo instante e a bruxa recuou, sem conter o desprezo. "Pobre Narcissa", pensou, percebendo o olhar contrariado da mulher cair sobre os dois.

— Agora dê um jeito nesse volume vergonhoso entre as pernas — disse ela, enquanto Malfoy ajeitava o colarinho. — A maioria dos presentes já conhece seus fetiches, porém não queremos que o Lorde das Trevas pense que escondeu um filhotinho da Nagini dentro das calças.

Isis forçou a taça vazia nas mãos dele e, aproveitando que Underhill estava entretido com os "amigos", rumou para longe daquelas pessoas sem olhar para trás, certa de que Malfoy não faria uma cena quando o pescoço corrias riscos mais sérios que um breve apertão. O peso sobre os ombros tornou-se um pouco suportável ao sair da sala. Apesar de imensa, não foi difícil se encontrar na mansão. Podia se gabar do senso de direção, adquirido ao longo das constantes fugas de casa na adolescência.

Portas trancadas, portas que davam em outras portas. Havia um labirinto do lado de fora e outro guardado entre as paredes do casarão, sem contar o porão úmido que, com certeza, não se encontrava inabitado àquela altura da guerra.

Ao se deparar com um cômodo aberto, Isis ficou aliviada por ser uma biblioteca em vez de encontrar uma das câmaras exóticas que podia jurar que existiam ali. As paredes cobertas por painéis de madeira quase preta só ficavam expostas nas colunas que se erguiam para sustentar o piso superior, acessível através da escada em caracol. Um espelho, semelhante ao da sala de visitas, encimava a lareira acesa, ornado com volutas.

Ela andou por entre os divãs verdes e a mesa de centro, analisando o conteúdo das estantes por alto até chegar na escada que no mezanino. O som dos saltos se misturava ao do crepitar da madeira, preenchendo o cômodo. Não havia nada ali que pudesse ser considerado conhecimento potencialmente perigoso. O Ministério rumava ladeira a baixo, mas não fora tomado por completo, oferecendo risco, ainda que mínimo, aos comensais e seus artefatos duvidosos.

Enquanto caminhava junto à balaustrada, ouviu um rangido discreto da porta e se virou, preparada para outra investida de Lucius. Sem ninguém por perto, nada a impediria de ser um tanto quanto agressiva e, com uma perícia significativa, modificar as memórias para que se tornasse segredo de uma pessoa só. Contudo, não houve o ruído da bengala contra o chão ou a cabeleira loira caindo pelas costas. No lugar, um andar silencioso e os densos cabelos pretos escorridos.

Isis ficou sem reação, surpresa por vê-lo ali; um encontro não muito diferente da noite do baile na casa de Underhill. Já podia declará-los um padrão? Porque o jeito que ele a mirava de volta, dizia-lhe que não fora uma coincidência. Ela se segurou no corrimão, mantendo-o alvo de sua atenção ao vê-lo subir a escada e andar na sua direção.

— Entediado? — perguntou quando Snape parou à sua frente, desejando ser habilidosa o suficiente para ler os pensamentos que ele escondia com maestria.

— Fatigado. — Ele apoiou-se no corrimão, encarando o piso abaixo.

A palavra soara mais monocórdica que cansada, porém o debate interno de Isis estava empenhado em descobrir em que momento a relação de ambos se tornara confortável o bastante para que ele admitisse algo do tipo em alto e bom som. "Uma armadilha", pensou com uma compreensão súbita. Severus queria arrancar alguma coisa dela; uma ou várias informações sobre Underhill, sem dúvida. A jovem em si não se via detentora de nada capaz de atrai-lo.

Então, estudando o semblante impassível de Snape, deu-se conta de que estava ao lado do assassino do grande Dumbledore. Ela o encarou de cima a baixo, procurando vestígios do comensal homicida, detendo-se alguns segundos extras no perfil anguloso. Fatigado. Não conseguira visualizar antes, mas ali estava, como se só então ele permitisse que a bruxa o enxergasse de verdade.

Apesar de lutar para manter uma postura digna, havia um tremor quase imperceptível nas mãos e um esgar que, a princípio, mostrava-se feito presunção, de modo a camuflar um esgotamento presente nos olhos caídos. Na ânsia em querer enxergar o responsável pela morte do diretor, encontrou apenas um homem alquebrado, extenuado pelo peso das próprias escolhas ou, quem sabe, das obrigações impostas a ele. Talvez por isso estivesse ali, acolhendo o silêncio da biblioteca ao seu lado em vez de se misturar aos "colegas"; porque via a mesma debilidade nela.

— O que faz aqui, Blakeley? — perguntou Snape, como se conversasse sobre amenidades banais, embora duvidasse que esse fosse o tipo de tópico que ele abordasse ao jogar conversa fora, também duvidando que o professor conhecesse a definição de "bate-papo".

— Estou fugindo dos comensais — comentou, sem conseguir parar de encará-lo.

Quando ele virou a cabeça na sua direção, Isis umedeceu os lábios, dando-se conta do que aquele questionamento realmente se tratava. A resposta óbvia dependurava-se na ponta da língua, mas não havia convicção o bastante para fazê-lo acreditar. Já a verdade, que tentava esconder a sete palmos, era vergonhosa demais para admitir em voz alta. Perigosa demais. E ainda não tinha descartado a possibilidade de ser uma cilada para derrubar Erastus.

— Porque tenho que estar aqui. — Ela aceitaria uma nova taça de vinho naquele momento. — Assim como você.

— Não soa tão convicta disso, o que me faz questionar até que ponto seus desejos e os de Underhill convergem. — A voz era sedosa, provocando-a a cometer um erro que custaria tudo o que possuía. — Assim como eu? — Em um movimento ágil, ele a segurou pelo punho esquerdo; o polegar roçando na pele livre da marca negra. — Não podia estar mais enganada. — Isis resfolegou, apossada por um torpor que a paralisava. — Quanto antes admitir a verdade para si mesma, melhor; você não serve para ser uma comensal, Blakeley, não importando quanto o seu senhor tente induzi-la a isso. Não importando o quanto você se humilhe para se convencer de que ele está certo.

A mão livre foi mais rápida que a razão necessária para a impedir de agir por impulso ao esbofetear Snape. A marca dos dedos se destacou na pele pálida, queimando em um vermelho tão incandescente quanto a raiva dentro de Isis.

— Cada um escolhe o mestre ao qual ser capacho, professor — disse, puxando o braço de volta enquanto observava cada músculo dele se retesar. — Você teve dois, matou um.

Ele não voltou a encará-la, mantendo o rosto inclinado e dirigindo um olhar enfurecido à pessoa que acabara de entrar. Adrenalina corria pelas veias de Isis ao avistar Underhill parado em frente à lareira; uma postura relaxada, olhos vidrados em ambos e um sorriso torto pronunciando-se nos lábios. Snape deu-lhe as costas e desceu as escadas com calma, quase flutuando, fingindo-se alheio à presença do outro comensal ao sair da biblioteca com a porta batendo atrás de si.

Isis ficou sem palavras ao fitar o tutor, incerta se devia se desculpar, não importando o motivo, só para evitar um embate. Quando Erastus ergueu o dedo indicador, gesticulando para que se aproximasse, ela foi a despeito do nervosismo. Prolongou as passadas o quanto pôde, ruminando uma explicação plausível para o que ele presenciara. Quanto da conversa fora ouvida? Quanto fora visto?

O sorriso não se desfez ao ficarem frente a frente.

— Preciso mesmo perguntar o que houve para você fazer o favor de me explicar? — perguntou após fartar-se do silêncio de Isis. — Eu mandei que ficasse perto.

— Estava nervosa e resolvi me afastar da sala para me acalmar antes de você-sabe-quem chegar. — O próprio controle da ansiedade a surpreendeu, tanto que sorriu de volta, orgulhosa. — Snape deve ter visto a porta entreaberta e resolveu azucrinar o juízo de alguém, sentindo falta de fazê-lo com os alunos.

— O que ele disse a você para ganhar aquela carícia de presente? — Isis riu, desviando o olhar para os próprios pés.

— Ele... Ele disse que não tenho cara de comensal. Eu devia considerar isso um elogio, não? Imagine ser parecida com Yaxley. — Underhill estreitou o olhar, e a bruxa teve certeza de que não estava convencendo-o.

Underhill chegou a mão perto do rosto de Isis, acariciando sua bochecha antes de deslizar os dedos até o pescoço dela, envolvendo-o com um aperto leve. A respiração da bruxa ficou apressada, mais pela inquietude da ameaça latente, ao vê-lo diminuir o espaço entre ambos, do que pela pressão.

— Não está mentindo para mim, está? — A boca estava tão perto da dela que Isis ficou em dúvida se seria beijada ou asfixiada.

— Não tenho motivos para mentir. — Ela engoliu em seco, cobrindo a mão do tutor com a sua ao sentir a compressão aumentar quase imperceptivelmente.

Isis fechou os olhos ao experimentar o toque dos lábios macios no ombro, a mão livre agora cingindo seu braço. O hálito morno contra a pele fê-la arrepiar, instigando a ânsia que traía a vontade de afastá-lo. Sempre o colocara em um pedestal; mestre de suas vontades. Isso era amor, certo? Amor exigia sacrifícios, assim aprendera.

— Alguém pode nos ver — murmurou, incapaz de conter o choramingo que deixou a boca quando dentes pressionaram sua carne.

— Essas paredes não presenciam um bom espetáculo desde que Draco foi concebido. — A mão deslizou para a nuca de Isis e se enfiou em seus cabelos, puxando-os até deixar o pescoço exposto. — Então permita que vejam que você é só minha.

Erastus colou o corpo ao dela e levou os lábios de encontro ao pescoço avermelhado, deixando um rastro incendiário por onde passavam. A respiração de Isis tornava-se cada vez mais irregular; os suspiros impossíveis de serem detidos quando cada toque era calculado para usurpá-la de sua razão. Ao sentir uma das mãos envolver seu seio por cima do tecido — o polegar circulando o mamilo túmido —, o gemido abafou o crepitar das chamas.

— Erga o vestido e se sente. — Ele ordenou, cessando o contato abruptamente. — Não vou falar duas vezes — acrescentou ao vê-la parada, ainda entorpecida.

Isis puxou o tecido devagar, trazendo-o à altura dos quadris e só então se sentou, mantendo a roupa íntima exposta. Sabendo onde ele queria chegar, não esperou uma segunda ordem para afastar as pernas e apoiar os pés na beirada do divã. Apreensiva, ela viu Erastus sacar a varinha e, em um movimento gracioso, teve os punhos atados por uma corda invisível.

— Boa garota — disse ele, dedicando-se alguns segundos para admirá-la antes de se ajoelhar à sua frente.

O toque foi gentil ao afagar a parte de trás da sua perna, beijando-a devagar até chegar ao interior da coxa. Apesar de as pálpebras pesarem, Isis mal piscava, cerrando os punhos diante da maldita imobilidade que a limitava. Os dedos passeavam pela pele sensível, ora em carícias lentas, ora em apertos intensos. Quando a boca foi de encontro à virilha, Isis arqueou as costas, querendo acelerar o que Underhill fazia questão de retardar.

Pegando-a de surpresa, ele a puxou pelos quadris, quase deitando-a no divã e posicionou as pernas trêmulas sobre os ombros antes de se perder na zona úmida entre as coxas de Isis; os saltos finos pressionando com força as costas de Erastus. A língua percorreu o tecido fino antes de a bruxa arrancá-lo com um gesto mecânico que fez a costura se soltar. O estalo do tapa foi mais alto que o gemido, deixando uma marca — ainda mais forte que a que deixara no rosto de Snape — dos cinco dedos perto das nádegas. Ela mal experimentou a ardência.

— É você quem está no controle aqui? Em voz alta — mandou ele ao ver Isis negar só com a cabeça.

— Não, você está.

As palavras saíram altas, irreprimíveis, de uma Isis desnorteada ao saborear dos estímulos que Underhill proporcionava. Ele não interrompeu a conexão de olhares ao correr a língua quente pelo ponto sensível, roçando a boca antes de sugá-lo. As mãos prendiam suas coxas, abrindo-as um pouco mais. Ela jogou a cabeça para trás, cedendo à força que a impelia a fechar os olhos, contudo, em vez de ser possuída por imagens do amante, mordeu os lábios ao reviver o toque cálido em seu punho esquerdo, nos minutos que precederam aquela obscenidade na mansão dos Malfoy.

Cada vez que os gemidos se tornavam mais altos, Underhill recuava, negando-lhe o gozo enquanto Isis se controlava para não gritar o nome do homem errado. Quando dois dedos a penetraram, um xingamento ficou preso na garganta. O gosto de sangue preencheu a boca ao cortá-la com uma mordida impulsiva. Os olhos de Erastus brilhavam, embriagados pela visão da jovem; o verde do vestido contrastando com a pele ruborizada, os quadris se movendo contra seus lábios úmidos.

Ele parou de repente, levantando-se, e Isis teve que se esforçar ao máximo para se segurar ao seu objetivo, lembrando-se do que a fizera retornar até aquele instante. Underhill abriu os botões do colete com destreza, jogando-o na mesa de centro. A pele da bruxa formigava de antecipação — agora graças à ansiedade diante da missão — e não ofereceu resistência ao ser reposicionada no divã, deitada com as mãos presas acima da cabeça enquanto recebia o corpo de Erastus sobre o seu.

— Preciso de você. — Ela sussurrou, respirando com dificuldade. — Preciso estar com você. Eu não... — as palavras foram cortadas por um resfolegar, graças ao atrito da ereção entre as suas pernas — não aguento mais ficar longe, fingindo ser alguém que não sou.

Isis fechou os olhos ao vê-lo chegar o rosto perto do seu, na expectativa de que finalmente a beijasse, porém o hálito morno contra o pescoço dissolveu essa chance.

— Você nunca estará longe o bastante de mim.

Erastus a penetrou devagar, atento às reações de Isis, que virou o rosto para o lado na esperança de encontrar o que a levara até ali. Não houve qualquer sinal de mudança no ambiente a princípio, tampouco sentia-se capaz de se concentrar o suficiente para perceber sutilezas. Isso até notar o reflexo no espelho. A visão tornava-se cada vez mais nublada; a euforia da descoberta mesclava-se ao prazer físico, tão poderosa que a eclipsou em segundos.

No lugar da biblioteca, viu uma paisagem inóspita e familiar, refletida na superfície polida — bela como uma pintura. Isis fechou os olhos, movendo os quadris de encontro a ele e ouvindo a respiração entrecortada de Underhill se intensificar. O aperto em seus punhos chegava aos limites do suportável, mas ela não se importou, mergulhada no próprio êxito e se agarrando a um lugar muito distante da mansão dos Malfoy. Um ruído semelhante a estática invadiu os ouvidos, acompanhado da sensação sufocante de peso no peito.

Ao voltar a abrir os olhos, viu a estrutura do dossel em vez do teto da biblioteca. A luz alaranjada da lareira iluminava o rosto suado e esquentava o cômodo, embora o corpo estivesse tão imóvel e gelado quanto uma pedra de gelo. Isis respirou fundo, recobrando os movimentos aos poucos e tomando ciência da incrível dor de cabeça a martelar o cérebro. Ela se arrastou para fora da cama — os resquícios da escrita hierática sumindo — e colocou os pés sobre as pantufas, levantando-se devagar para evitar uma queda ocasionada pela tontura.

Estava fora daquele pesadelo e saíra vitoriosa, largando Underhill para trás.

Isis puxou o roupão do encosto da cadeira e o vestiu com a velocidade que membros e mente ainda letárgicos a permitiram. Sobre o assento, o uniforme que usaria ao amanhecer, quando todos os alunos — quatro dias após o ataque a Hogsmeade — seriam levados de volta a Hogwarts.

Não fora uma tarefa fácil controlar as perguntas, porém Aurora e Snape haviam criado uma desculpa para a sua presença nos Três Vassouras. A ausência de outras duas alunas durante o tumulto, causado pelos comensais, ajudara a abrir precedência para a de Hannah. O mestre de Poções não possuía a estima em alta da professora, portanto a compensava com intimidação, e ninguém ali se colocaria contra a palavra dele. Ademais, a maior preocupação estava direcionada aos aurores feridos.

A porta foi aberta com cautela, dando para o corredor escuro. Não sabia precisar o horário, entretanto, esperava que todos estivessem no ponto alto do sono naquele instante. A pantufa abafou as pisadas lentas que a levaram até o fim do corredor, e chegou a erguer o punho, mudando de ideia antes de bater. Isis umedeceu os lábios e, agarrando-se a uma memória feliz, lançou o feitiço do patrono. Os esmerilhões atravessaram a madeira, deixando um rastro de luz perolada, e não se passaram nem dois minutos antes de escutar o rangido discreto das dobradiças.

— Estava dormindo? Sei que está tarde, mas preciso conversar — murmurou, recebendo um olhar compreensivo de Aurora.

— Não consigo dormir desde o ataque de Pirraça. — A professora deu espaço para que passasse e verificou o corredor antes de fechar a porta. — Pesadelos?

— De certa forma — disse, esfregando os punhos embora não houvesse marca alguma da força de Underhill. — Você tem um... — Aurora adiantou-se, pegando o copo sobre a escrivaninha e enchendo-o d'água. — Obrigada. — O líquido correu sua garganta disseminando uma onda fria de alívio para a quentura que ainda persistia em fazê-la suar.

— Então, o que foi agora? Ele voltou a atacá-la? Andou insistindo para que voltasse? — Isis suspirou, dando um sorriso à amiga.

— Eu consegui. Eu consegui, Aurora. — A boca da professora se entreabriu em surpresa. — Tenho quase certeza de onde ele está, e sei exatamente quem vai me confirmar.