I can't breathe, I can't be

I can't be what you want me to be

Believe me, this one time

Believe me

(Bad Liar - Imagine Dragons)

.oOo.

"Obrigado por ter vindo," Draco falou quando Tiddy sumiu, após servir o chá.

"Sinto muito, não posso me estender," Theodore falou, remexendo-se. "Devo voltar para a Grécia no final da tarde e ainda tenho muito que fazer."

Draco franziu o cenho.

"Pensei que você tinha dito que ficaria até o final da semana."

"Mudei de ideia," Theodore desviou os olhos. "Olha, não precisa me olhar com essa cara de pena, está bem?"

"Theo..." Draco começou gravemente, mas foi interrompido.

"Olha," Theodore pousou a xícara na mesinha de centro e levantou-se, parecendo mais determinado do que Draco jamais havia visto, "não precisa fingir que não sabe. Sei que Blaise já contou tudo para você. Sei também que cheguei tarde demais."

As fotos do baile estavam estampadas na primeira página do Profeta e provavelmente havia material suficiente para alimentar as fofocas pelas próximas semanas. Os pais de Draco já tinham inclusive feito uma visita àquela manhã e Draco se sujeitara a ouvir as queixas e reprimendas da mãe em silêncio, como punição por ter contribuído para aquele alvoroço. Ele nem se deu ao trabalho de negar tudo, daquela vez, ciente de que não adiantaria.

"Não é tarde demais," Draco falou, levantando-se também. "Não acredite no que dizem os jornais. Theodore, por favor, sente-se..."

"Mas não é só o jornal, é?" Theodore insistiu. "Eu estava lá ontem. Eu testemunhei ela conversando com Potter com intimidade, rindo das coisas que ele dizia. E depois ainda teve a dança! Ela deve ter gastado uma fortuna para dançar com ele! Pensa que não sei reconhecer uma causa perdida quando vejo uma? Não pude competir nem com você, quem dirá com ele!"

"Ora essa! Quer fazer o favor de ouvir?" Draco falou, irritado, fazendo com que Theodore o encarasse novamente, afrontado. Draco suspirou. "Sente-se. Por favor."

O homem pareceu debater consigo mesmo por um momento antes de se sentar, lançando-lhe um olhar furibundo.

Draco hesitou antes de continuar. Sabia o que teria que fazer para convencer Theodore e estava disposto a fazê-lo por Astoria. Só esperava não se arrepender no futuro. As lembranças que tinha de Theodore na época de Hogwarts eram de um rapaz sério, leal, centrado. Mas vários anos haviam se passado desde então, quem poderia garantir que ele não mudara? E se ele tivesse se tornado amargurado depois de tudo que o ocorrera? E se ele também estivesse procurando uma oportunidade para se vingar de Draco ou da sua família, como tantos outros?

Bem, de qualquer forma, ele teria que correr o risco.

"Eles são amigos. Nada mais do que isso," Draco assegurou com firmeza. "Ele não está interessado romanticamente nela, nem o contrário."

"Como você pode ter tanta certeza disso?" Theodore questionou, desconfiado.

Draco respirou profundamente, reunindo coragem.

"Ela só concorreu pela dança por minha causa. Eu paguei pelo lance dela."

"Como assim?" Theodore piscou, confuso. "Por que você faria isso?"

"Porque eu dificilmente poderia fazer um lance em meu nome, não é mesmo?"

Demorou algum tempo para que Theodore compreendesse, seus olhos se arregalando.

"Oh!" ele exclamou, surpreso.

Draco desviou os olhos para as próprias mãos.

"É conveniente para mim que as pessoas pensem que eles estão juntos," Draco admitiu. "Mas não é justo para com Astoria. Por isso estou contando para você."

"Oh..." Theodore pareceu refletir por um momento antes de falar novamente. "Por acaso ela... Ela comentou alguma coisa sobre mim? Você sabe se ela..."

"Eu não sei," Draco admitiu. "Não sei se ela está interessada. Isso você terá que descobrir sozinho. Só queria que você soubesse que ela não está saindo com ninguém, no momento. Mas ela não é mais a garota que você conheceu em Hogwarts. Ela é uma mulher agora, mãe, divorciada... Além disso, ela acabou de sair de um relacionamento bastante desgastante, não apenas para ela como também para nosso filho. Por isso, se você não tiver certeza do que quer..."

"Eu tenho!" Theodore disse, prontamente. "Tive muito tempo para pensar a respeito disso. Sei que ela não é mais a garota por quem me apaixonei, mas..." Ele corou, porém não desviou os olhos. "Pelo pouco que conversamos ontem à noite, na festa, posso dizer com certeza que ela se tornou uma mulher ainda mais interessante e eu gostaria de conhecê-la melhor. E gostaria de conhecer Scorpius também. Tenho dois sobrinhos, que também são meus afilhados e sempre gostei de crianças."

"Ótimo," Draco assentiu, relaxando uma pequena fração. "É um bom começo. Eu o aconselharia a ir com calma, no entanto. Astoria tende a colocar o bem estar de Scorpius antes do dela."

"Draco, eu..." Theodore engoliu audivelmente, parecendo sem graça por um momento. "Não sei o que dizer."

"Você não tem que dizer nada," Draco falou com dignidade. "Não estou fazendo isso por você. Estou fazendo porque acho que Astoria merece uma segunda chance. Não sei se você é capaz de fazê-la feliz, só sei que eu não fui. Por isso espero que você use a sua chance com sabedoria."

"Certamente," Theodore assentiu, levantando-se, ao que Draco também se levantou. "Obrigado pelo chá e pelo voto de confiança. E não se preocupe, não vou mencionar nada do que conversamos aqui."

"Eu agradeço," Draco assentiu novamente, aliviado, aceitando a mão estendida do ex-colega de casa. "Espero vê-lo novamente em breve."

"Também espero que sim."

.oOo.

Harry leu a carta de Teddy de novo e de novo.

"O que foi?" a voz de Draco trouxe-o de volta ao presente.

Harry levantou os olhos para encontrá-lo encarando-o por sobre o jornal com uma sobrancelha arqueada. Por um momento, pensou em mentir, dizendo que não era nada, porém logo descartou a possibilidade, suspirando e deixando a carta cair na mesa.

"Acho que Teddy sabe sobre nós," Harry acabou dizendo, passando a mão pelos cabelos num gesto de frustração.

Draco abaixou o jornal, seu olhar se tornando gelado.

"O quê?"

"Ele pediu que eu o encontrasse em Hogsmeade amanhã," Harry elaborou, desviando os olhos de Draco. "Disse que não teria problema se eu levasse você e Scorpius."

Draco rolou os olhos e voltou a erguer o jornal, levando a xícara de chá até os lábios e tomando um gole.

"E daí? Todo mundo sabe que somos amigos agora. É como se eu fizesse parte do pacote. Está tudo no Profeta." Draco bufou com descaso. "Como eles disseram, somos inseparáveis."

Harry esfregou os olhos por debaixo dos óculos.

"É, só que Teddy se referiu a você como meu namorado."

Harry ouviu quando Draco largou o jornal e nem tentou impedir quando ele pegou a carta, xingando.

"Pirralho enxerido," o loiro disse, indignado. "Como diabos ele saberia? Tem certeza que ele não está dizendo isso só para provocar você ou algo do tipo?"

"Não sei!" Harry largou-se na cadeira. "Não faz o tipo dele fazer esse tipo de brincadeira."

"Filho da-"

"Draco," Harry disse em tom de aviso e Draco xingou em voz baixa, levantando-se e saindo da cozinha.

Foi a vez de Harry rolar os olhos e segui-lo.

"Draco, espera. E daí se ele souber?"

"E daí?" Draco parou na porta da sala e virou-se para encará-lo. "Ele tem treze anos e me odeia. Que melhor oportunidade ele terá para ferrar comigo? Tudo que ele tem que fazer é contar para os amigos, que por acaso também me odeiam, e esses amigos vão contar para os pais deles e-"

"Ele não odeia você," Harry interrompeu-o. "Ele acabou de chamar você e Scorpius para Hogsmeade!"

"Provavelmente para provar para os amigos que estamos realmente juntos. Aposto como alguém vai convenientemente estar com uma câmera na mão e amanhã, surpresa surpresa, estaremos no Profeta."

"Deixa de ser paranóico, Draco. Ele é meu afilhado, esqueceu? Você acha que Teddy faria isso comigo só para poder expor você?"

Draco abriu a boca para responder, mas acabou tornando a fechar. Ele bufou e girou nos próprios calcanhares de novo, rumando para a lareira.

"Você não precisa ir," Harry continuou, seguindo-a para a sala. "Eu entendo se não quiser ir. Mas não vejo nada demais se você for. Quero dizer, Teddy disse que Gibbon vai estar lá e sei que vocês eram próximos. Além do mais, ele e Devens gostariam de ver Scorpius. Eles podem ter sido estúpidos, mas no final das contas eles ajudaram a salvar a vida dele."

Draco virou-se para encará-lo novamente, o rosto contorcido de raiva.

"Ah, então você se lembra do que aconteceu da última vez que estivemos em Hogsmeade? Eu já estava pensando que você tinha se esquecido, afinal por que você sequer cogitaria que eu levasse Scorpius lá novamente?"

"Draco," Harry falou, exasperado, mas Draco balançou a cabeça, levando a mão ao pó de Flu atirando-o na lareira.

"Poupe sua saliva, Potter," ele disse e sumiu entre as chamas.

Harry suspirou. Sua vontade era de segui-lo e continuar aquela conversa, mas já estava atrasado para o trabalho e estava sendo aguardado para uma reunião importante com o Ministro. Além do mais, não estava exatamente no humor para lidar com o drama de Draco no momento.

.oOo.

Draco fez um feitiço Tempus pelo que parecia ser a centésima vez e respirou profundamente. Ele olhou para a moeda que mantinha segura na mão pelas últimas duas horas, apesar de saber ser em vão. Ele teria sentido o metal esquentar caso Harry tivesse mandado alguma mensagem. Já passava das dez da noite e ele não tinha se dignado a dar nenhum aviso.

Draco já deixara seus elfos de sobreaviso para entrarem em contato caso Harry aparecesse ou mandasse alguma coruja. Tinha até mesmo subido até o quarto de Harry para se certificar de que ele não tinha aparatado direto na cama ou coisa parecida e pedira para Kreacher montar guarda ali.

"Mestre Malfoy se preocupa demais. Mestre Harry tem cabeça dura," ele bateu na própria cabeça, "difícil de quebrar."

Draco teria rido se não estivesse tão irritado. Começava a se perguntar se Harry estava fazendo aquilo para puni-lo pela discussão que eles tiveram àquela manhã. Ele não achava que Harry pudesse ser tão infantil a esse ponto, mas aquilo já estava começando a ficar ridículo.

Por diversas vezes, Draco ensaiara mandar uma mensagem para Harry. Talvez ele só estivesse entretido demais com algo para olhar no relógio. Afinal, não era como se ele estivesse cumprindo horários nas últimas semanas. Harry vinha passando cada vez mais tempo no Ministério ultimamente e sempre que Draco apontava para o fato de que ele estava distraído, Harry sorria e dizia que estava tudo bem.

Draco sabia que não era nada pessoal, que Harry lidava com assuntos altamente confidenciais a maior parte do tempo e que provavelmente não estava escolhendo ser evasivo ou atrasar de propósito como uma forma de punição, mas isso não impedia que Draco ficasse irritado e relutante em ser o primeiro a ceder. Afinal, Harry sabia que ele se preocupava; será que não poderia gastar alguns segundos para mandar uma ou duas palavras?

"Oh, por Salazar," Draco pegou a própria varinha e apontou para a moeda. "Cresça você também, Draco."

Antes que Draco pudesse pensar no que dizer, entretanto, as chamas da lareira acenderam com um estrondo e Harry saiu.

Draco levantou-se no mesmo instante, guardando varinha e moeda no bolso do casaco. "Por acaso você sabe que horas são?" ele perguntou, carrancudo diante da onda de alívio que o invadiu.

Harry soltou um longo suspiro, seus ombros caindo. Ele levou a mão aos olhos, esfregando-os por baixo dos óculos. "Er… Alguma coisa depois das oito? Sei lá."

Ele retirou o sobretudo, largando-o no encosto da poltrona mais próxima, cambaleou até o sofá e desmoronou nele com um gemido, colocando um braço por sobre os olhos.

Draco aproximou-se dele, franzindo o cenho.

"Você por acaso está bêbado?" Ele perguntou, já imaginando Harry bebendo e rindo com os colegas do quartel-general enquanto ele se remoía de preocupação.

Harry soltou uma risada sem humor pelo nariz.

"Bem que eu queria." Ele retirou o braço do rosto, mas manteve os olhos fechados e só então Draco percebeu que ele tinha um olho roxo e inchado. "Só estou cansado."

Draco encarou-o de cima abaixo novamente, reparando em como suas roupas estavam amarrotadas e até rasgadas em alguns pontos. Draco segurou uma mão do auror e examinou seus nós dos dedos inchados.

"O que aconteceu?" Ele perguntou por fim, a irritação dando lugar a preocupação novamente.

"Nada."

"Não parece ser nada."

Harry suspirou novamente e só então abriu os olhos para encará-lo, oferecendo um sorriso forçado que logo se transformou em uma careta de dor.

"Nada que eu possa dizer." Ele tossiu e gemeu, segurando o lado do corpo. "Sinto muito."

As narinas de Draco se alargaram e ele moveu o maxilar, flexionando os músculos faciais.

"Você não deveria estar no St. Mungus?" ele perguntou. "Não é o protocolo? Como foi que liberaram você desse jeito?"

"Eles não liberaram." Harry encolheu os ombros. "Eu disse a eles que podia ir ao hospital sozinho."

"E você espera que eu o parabenize pela sua irresponsabilidade?"

"Deus," Harry desencostou-se do sofá com um grunhido. "Eu só quero um pouco de sossego, está bem?"

Ele levantou-se com dificuldade e quase perdeu o equilíbrio. Draco segurou-o antes que ele desmoronasse novamente. Harry prendeu a respiração e ficou pálido, ao que Draco afrouxou o aperto na lateral do seu corpo.

"Salazar, Harry. Você pode ter rompido um órgão ou coisa parecida."

Harry deixou a cabeça pender no ombro de Draco e soltou o ar dos pulmões, agarrando-se a ele.

"Nah. Só estou um pouco dolorido. McDonald deu uma checada em mim, disse que eu precisaria de um analgésico para dormir, mas que ficaria bem. Só preciso descansar."

Draco resmungou, incrédulo, mas ajudou-o a passar um braço ao redor do seu pescoço e segurou-o junto ao seu corpo.

"Tudo bem, vamos colocar você na cama, cabeça dura."

Eles subiram as escadas com dificuldade e Draco ajudou-o a se despir antes de colocá-lo na cama. Ele teve que dispensar a ajuda de Kreacher, que lançou um olhar reprovador quando seu mestre declarou que dispensaria o jantar naquela noite.

"Hmm," Harry murmurou em contentamento ao se acomodar melhor na cama, abraçando o travesseiro.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos, completamente imóvel, enquanto Draco o observava, sentado na beirada da cama, e então resmungou alguma coisa.

"Perdão?" Draco perguntou, inclinando-se para ouvir melhor.

"Você vem?" Ele perguntou, levantando a cabeça do travesseiro apenas o suficiente para ser ouvido.

Draco meneou a cabeça, mas levantou-se e preparou-se para dormir. Ele enfiou-se debaixo das cobertas e fechou os olhos, tentando relaxar.

Harry virou-se para encará-lo, piscando pesadamente, os olhos parecendo desfocados sem as lentes.

"Sinto muito por não ter mandado nenhuma mensagem," ele falou. "Eu estava meio ocupado."

Draco encarou-o de volta, avaliando sua expressão arrependida.

"Por que eu tenho a impressão que você não quis ir para St. Mungus só para não me preocupar?"

Harry fez uma careta.

"Provavelmente porque você me conhece bem demais."

Draco rolou os olhos.

"Seu plano não funcionou muito bem." Draco alcançou a varinha e apontou-a para o rosto do moreno, fazendo com que o inchaço diminuísse.

Harry ofereceu-lhe um sorriso agradecido e aconchegou-se a ele, passando um braço por sua cintura.

"Não precisa se preocupar. Estou bem. Melhor agora."

Draco fechou os olhos mais uma vez e respirou profundamente, entretanto sua mente não parava de remoer aquele argumento que eles tiveram naquela manhã.

"Harry?"

"Hm."

"Você respondeu algo para seu afilhado?"

Harry suspirou, mantendo a cabeça no ombro de Draco, seu rosto fora do campo de visão.

"Não, não tive tempo. Mando uma coruja amanhã pela manhã dizendo que não poderei ir." Ele fez uma longa pausa e Draco já estava se preparando para dizer algo quando ele continuou. "Se você está preocupado que ele vá dizer algo-"

"Não estou," Draco interrompeu-o, engolindo em seco. "Você tem razão, ele não faria nada para prejudicar você."

Harry segurou sua mão e apertou-a. Draco sabia que aquele era o jeito dele de dizer que o havia perdoado, ainda que Draco não tivesse exatamente pedido desculpas.

"Estava pensando em sugerir que nos encontrássemos depois do Natal naquela doceria, Doce Encanto," Harry falou em seguida, a voz ainda pastosa de sono. "Você não precisa ir, se não quiser, mas eu gostaria de levar Scorpius, se você não se importar."

Draco soltou o ar dos pulmões lentamente.

"Você não precisa responder agora," Harry emendou logo em seguida. "Depois conversamos sobre isso."

Draco sentiu uma onda de gratidão misturada com algo mais profundo e assustador. Sabia que Harry estava sendo indulgente com ele, mas não conseguia achar forças para recusar a oferta de trégua e perguntava-se até quando seria tão sortudo.

Draco limitou-se a apertar a mão de Harry de volta. Demorou ainda um tempo para que esvaziasse a cabeça o suficiente para dormir, mas acabou embalado pelo ressonar profundo de Harry próximo ao seu ouvido.

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Harry colocou um pedaço de torta de caramelo na boca e suspirou, olhando ao redor da mesa - ou melhor, das mesas. Harry não esperava um grupo tão grande de pessoas quando combinou de se encontrarem ali, mas a dona do estabelecimento sugeriu que juntassem algumas mesas para que todos pudessem se sentar juntos.

Teddy viera acompanhado de seus colegas de casa Amias Newmann, Isolde Lerner e Celestia Horn. E havia também o grupo bastante eclético de setimanistas sonserinos, grifinórios e lufa-lufas: Calloway Devens, Brick Gibbon, Leonie Proudfoot, Sarah Matlock e Saskia Davis.

Por um momento, Harry se permitiu sentir-se orgulhoso ao vê-los todos enturmados. Talvez ele não tivesse mudado radicalmente a dinâmica do relacionamento entre as Casas em Hogwarts, mas pelo menos deixara uma pequena contribuição para a mudança, além de fazer alguma diferença na vida daqueles adolescentes.

Depois de ser paparicado pelos setimanistas, Scorpius havia se sentado entre Teddy e Isolde e balançava as pernas alegremente enquanto conversavam. Amias mantinha certa distância de Scorpius depois de descobrir que ele tinha não só um gato como também um pufoso ao ter uma crise de espirros - o garoto tinha uma alergia severa a qualquer pêlo de animal -, mas também participava da conversa.

Harry se sentara próximo das garotas setimanistas, sem jeito de declinar o convite, enquanto Draco se sentara na outra ponta da mesa, próximo de Gibbon e Devens. Harry percebera que Sarah fazia questão de esnobar Calloway, mas seu ex-namorado não parecia se importar, envolvido que estava na conversa com Brick e o ex-Professor de Poções.

"E você, Leonie," Harry perguntou à lufa-lufa, "Já decidiu qual carreira vai seguir?" Harry lembrava-se de como a garota sofrera com a perspectiva de desapontar o pai em seu quinto ano, mas já conversara o suficiente com o Auror Proudfoot sobre a ex-aluna para saber que aquilo não era mais um problema.

Leonie ofereceu-lhe um sorriso acanhado. "Gostaria de ser Medibruxa, se meus N.I.E.M.s forem bons o suficiente."

"Isso é ótimo!" Harry aprovou.

"Ela vai arrasar," Sarah falou, sorrindo para a amiga. "Já disse que o chapéu deve ter se confundido. Ela deveria estar na Corvinal de tanto que gosta de livros!"

"Olha só quem fala! Você também não desgruda dos livros ultimamente, Sarah!" Saskia rolou os olhos. "Não saiu da biblioteca nem mesmo para assistir às partidas de quadribol!"

"O que posso dizer?" Sarah encolheu os ombros. "Livros são mil vezes melhor do que garotos estúpidos montados em vassouras." Ela lançou um olhar atravessado para Calloway, que ria de algo que Brick dissera. "Sem ofensas, Professor," ela acrescentou rapidamente ao se dar conta do que dissera.

Harry sorriu. "Não me ofendi."

As garotas logo se levantaram para pedir mais um pedaço de torta e Harry mais uma vez notou como Brick e Calloway riam novamente, empurrando os ombros um do outros, fazendo Draco menear a cabeça, ainda que parecesse quase divertido. Naquele momento, Scorpius aproximou-se do pai para perguntar algo e Harry notou um detalhe que fez suas sobrancelhas se arquearem em espanto. Brick disse algo no ouvido de Calloway e eles trocaram um olhar cheio de cumplicidade, antes de desviarem os olhos. Os dois garotos estavam bastante próximos e por um momento, Harry teve a distinta impressão de que, se olhasse debaixo da mesa, veria que estavam de mãos dadas.

"Eles são tão óbvios, não é mesmo?" Teddy falou ao seu lado e Harry se sobressaltou ao notar que o afilhado havia se sentado no lugar vago deixado por Sarah. "O velho clichê de inimigos que viraram amantes. Eles me lembram de umas histórias que ouvi de outro casal que quase se matava pelos cantos do castelo e agora não se desgrudam." Teddy arqueou uma sobrancelha para o padrasto sugestivamente.

"Teddy…" Harry olhou ao redor apenas para se certificar de que ninguém os ouvia. "Por favor, tome cuidado…"

"Não vou contar para ninguém," Teddy rolou os olhos e se levantou quando Sarah voltou.

Harry tentou participar da conversa das garotas, mas seus olhos insistiam em se voltar para os dois garotos, notando em como eles nunca se afastavam, seus braços sempre se tocando.

Quando chegou a hora de partirem, Harry se despediu de Scorpius, dizendo que acompanharia Teddy. Scorpius ficou levemente desapontado, mas então Teddy prometeu que o veria novamente antes de voltarem as aulas e o rosto do garoto se desanuviou.

"Eles são realmente um casal?" Harry perguntou assim que ficou sozinho com o afilhado novamente. Eles caminhavam pela galeria bruxa, admirando a decoração de Natal.

Teddy encolheu os ombros, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco.

"Não assumidamente, até onde sei. Não faço ideia de quem sabe sobre eles. Eu mesmo só desconfiei porque a história toda me pareceu bastante familiar, sabe?"

Harry suspirou, encarando o afilhado com o cenho franzido.

"Desde quando você sabe?"

"Sobre Devens e Gibbon?" Teddy perguntou, fingindo ignorância, ao que Harry deu-lhe um empurrão brincalhão com o ombro. O garoto já era bastante alto para a idade, sem dúvida seria como o pai.

"Vamos, Teddy, não se faça de desentendido."

Teddy fez um muxoxo entediado.

"Desde aquele dia na sua casa, quando flagrei Malfoy saindo de fininho. Eu perguntei para Kreacher," ele esclareceu, ao que Harry soltou uma exclamação traída. "Não perguntei diretamente, tipo, 'Ei Kreacher, sabe se esses dois estão dormindo juntos?'. Fui sondando até saber de tudo que precisava para tirar minhas conclusões. Vocês dois também são bastante óbvios. Quero dizer, Scorpius mencionou que o pai dele estava viajando justo quando você resolveu tirar uns dias do serviço para ir para a praia," ele finalizou com outro encolher de ombros.

"Sinto muito por não ter contado," Harry se desculpou, parando para encará-lo.

"Eu admito que fiquei chateado no começo…" Teddy chutou algo no chão. "Mas acho que entendo agora. E, como eu disse, não vou sair por aí contando, se é o que você…"

"Não estou preocupado com isso," Harry interrompeu-o, segurando-lhe o braço para atrair sua atenção. Ele esperou até que o afilhado o encarasse. "Você está bem com tudo isso?"

"Suponho que sim," Teddy deu de ombros uma vez mais. "Quero dizer, não morro de amores por Malfoy e definitivamente não sei o que você vê nele, mas Scorpius não é nada mal. A pessoa não pode ser assim tão mal se conseguiu criar um filho como Scorpius, pode?"

Harry sorriu e bagunçou os cabelos do afilhado antes de abraçá-lo.

"É, sua lógica faz sentido. Vamos embora agora, estou congelando."

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