*********************** Cap 29 Está na hora do patinho virar cisne ***********************
Moscou, Rússia
Na luxuosa, e que tinha de um tudo, cozinha da mansão de Camus, ele e Hyoga preparavam o jantar, este que era especial por dois motivos. O principal deles era a presença de Afrodite ali, que viera da Grécia ainda naquele dia a pedido do francês.
O segundo motivo era puramente didático.
— Jamais deve permitir que sua posição privilegiada o torne fraco. Os outros aprendizes nunca terão a educação e os privilégios que você tem, e isso non te confere o direito de se achar melhor do que eles. Só será melhor do que qualquer outra pessoa se for mais forte e inteligente do que ela — disse Camus, que acabava de retirar uma posta suculenta de salmão marinado de uma bandeja de prata para em seguida leva-la à panela no fogão onde o azeite de oliva já estava quente — É importante que non dependa de ninguém, nunca, especialmente para se alimentar e suprir suas necessidades básicas. Eu, por exemplo, embora tenha empregados para cozinhar para mim aqui e na Grécia, sou capaz perfeitamente de cuidar da minha alimentação. Aprendi a cozinhar ainda mais jovem que você. Isso pode ser vital em uma missão. Afinal, de que adianta matar cem inimigos e morrer de fome porque non conseguiu providenciar o próprio alimento? Um cavaleiro deve ser completo, e isso inclui prover seu auto sustento.
— Entendi, père — disse Hyoga com os olhos azuis atentos ao filé de peixe grelhando na panela, o qual fazia subir um aroma delicioso que preenchia toda a cozinha — Não devo permitir que os meus privilégios me tornem fraco e acomodado.
— Exatamente! E também non deve deixar o salmão passar do ponto — disse Camus virando a posta com a ajuda de uma espátula — Veja... está quase bom. Non deve cozinhar muito para non ficar ressecado e também non salpicar as ervas do tempero.
Observando tudo atentamente, o garotinho procurava memorizar cada detalhe sem nada questionar. A prepotência nunca fora mesmo um traço de sua personalidade quando se tratava de ouvir os ensinamentos do pai, seu mestre. Procurava absorver cada um com admiração e disciplina, almejando ser tão digno e poderoso quanto Camus, já que um dia herdaria dele a sagrada armadura de Aquário.
— Père, posso tentar? — pediu Hyoga demonstrando grande interesse na tarefa.
— Claro, petit! Pegue outra posta na bandeja. Vou tirar esta — respondeu Camus passando o peixe para uma travessa. Feito, esperou Hyoga colocar a nova posta no azeite quente e então lhe entregou nas mãos a espátula — Com cuidado para non espirrar óleo em você... Peixe é uma ótima fonte de proteínas e vitaminas, além de ser muito saudável. Em locais de frio extremo, como na Sibéria, é uma opção muito nutritiva. Pode te alimentar por horas, e em uma emergência nem mesmo será preciso de fogo, sashimi de salmão é muito saboroso.
— É uma opção, ou é a única opção? — Hyoga perguntou virando a posta na panela.
Camus não conseguiu evitar rir da pergunta dele. Passando os dedos no avental branco para retirar alguns poucos respingos de óleo caminhou até o grande balcão no centro da cozinha planejada e apanhou um cigarro da cigarreira. O acendeu e deu uma longa e profunda tragada.
— Há outras opções sim, e para alguém que adora a comida terrível da Afrodite e suas combinações... digamos, excêntricas, creio eu que isso non será um problema para você — disse espirituoso, encostando os cotovelos nus no balcão. Usava uma camisa de linho azul marinho com as mangas dobradas.
— Ah, não será mesmo! Eu já estou louco para comer um urso ou uma daquelas focas bem gordonas! — deu uma risadinha batendo no peixe com a espátula.
— Dieu! Estou vendo que vou colocar a fauna siberiana em risco levando você para lá! — brincou Camus, depois voltou a se aproximar do fogão — Comida é comida, Hyoga. O refino do paladar é restrito ao dia a dia como civil, como um cavaleiro, se for preciso comer o couro dos seus sapatos você come!
— Eca! — Hyoga fez uma careta — Espero que não cheguemos a isso père.
— Eu também espero, por isso vou te ensinar tudo sobre sobrevivência. Vai, já pode tirar. Já está passando do ponto. Non quer transformar o peixe em carvão, quer?
— Não!
— Então tire logo... Vá para o último pedaço. — Ordenou fazendo um carinho nos cabelos dele.
Daquele ponto em diante Camus passou a só supervisionar o trabalho do filho, vendo o quanto ele parecia feliz ao executar aquela tarefa tão simples. Pobre criança... mal sabia o que a aguardava.
Camus tentava ministrar os sentimentos dentro de si da forma mais fria e prática que conseguia, mas era quase impossível apaziguar seu coração de pai deixando que apenas o de mestre guiasse suas emoções. Ele sabia que ao decidir levar Hyoga para a Sibéria para treiná-lo, só permitiria que ele saísse de lá consagrado cavaleiro de Atena. O treinamento era pesado, o isolamento terrível, e as provações tantas que nem era capaz de contar nos dedos. Seriam anos afastado da civilização, das regalias das quais estava acostumado, dos luxos, de Afrodite... Anos de dor, sofrimento, esgotamento físico e mental. Anos que transformariam Hyoga no homem que Camus precisava que ele fosse; seu sucessor no topo da hierarquia da poderosa Vory v Zakone e também no mais alto escalão do exército de Atena. E para isso ser possível precisava torna-lo o guerreiro perfeito!
Enquanto Aquário observava o filho terminar o jantar conforme suas instruções, sua mente pensava numa maneira de dizer tudo isso a ele. Como dar a notícia de que não veria mais os amigos do Santuário, os da escola, Kiki... se é que Kiki resistiria à doença que o estava consumindo. Como diria a ele que não veria mais Afrodite por anos?
Como diria isso a Afrodite sem causar um cataclismo?
Por mais que Afrodite estivesse ciente de que esse dia chegaria, Camus tinha certeza de que o noivo entrara em negação a alguns anos e sequer lembrava do assunto.
Deu uma longa tragada no cigarro e soltou a fumaça pelo nariz junto de um suspiro.
Aquele seria um jantar no mínimo barulhento, ele tinha certeza.
Enquanto isso, na pomposa sala recheada de obras de artes e tapeçarias de um esplendor arrebatador, nenhuma beleza era páreo para a figura de pé em frente à grande janela de vidro decorado que se abria em duas folhas para o luxuoso jardim. No parapeito desta, do lado de fora, uma jardineira havia sido instalada, onde agora desabrochavam as primeiras rosas que há algumas semanas haviam sido plantadas.
— Está vendo, Jarbas. É disso que elas gostam, terra, água, sol e amor — disse Afrodite enquanto com um regador servia água às flores, que pareciam vibrar, reluzentes e esplendorosas ao sol, reagindo a sua presença — De agora em diante, desaquenda de colocar flor em vaso com água.
— Oui, mademoiselle — respondeu o mordomo que atentamente observa a "madame", até ser surpreendido por ela que ao virar lhe apanhou a mão e o puxou para mais perto de si.
— Me dá aqui seu dedinho, meu anjo — disse Afrodite, que sem cerimônia alguma colou seu corpo ao do velho senhor russo e debruçou sobre o parapeito da janela junto dele, o fazendo meter o indicador na terra molhada da jardineira — Esse é o nível de umidade ideal da terra. Nem encharcada, nem seca. Entendeu?
Fiodr pigarreou embaraçado. Tinha o dedo socado na terra, o corpo comprimido entre o parapeito e o corpo de Afrodite, e o rosto tão corado que parecia ter sofrido queimaduras de inverno. Nunca fora um homem acostumado a contatos tão íntimos como aquele, e só não repelia imediatamente a "madame" porque há muito já rendera-se totalmente ao seu inexorável carisma.
— Oui, made... mademoiselle — respondeu. Os olhos arregalados de alarde alternavam entre as magníficas rosas na jardineira e os dedos delicados de unhas esmaltadas em azul turquesa da primeira dama daquele lar.
— Perfeito! Na minha ausência é você quem vai cuidar dos meus bebês, Jarbas — disse Afrodite recuando alguns passos, dando a tão sonhada liberdade ao mordomo que respirou aliviado voltando a posição anterior.
— Oui, mademoiselle.
Sem demora, pois que já sentia o perfume apetitoso do salmão grelhado vindo da cozinha, Afrodite retirou o avental de jardinagem e o entregou a Fiodr. De um modo todo meio afobado e desajeitado, ainda que com extrema graça, passou as mãos pelo tecido nobre do vestido, um Valentin Yudashkin* em seda vermelho carmim que Camus o presenteara no último aniversário, o ajeitando no corpo. O corte impecável da peça lhe facilitara o trabalho, ainda que os pequenos enchimentos no peito lhe dessem uma sensação desconfortável de algo fora do lugar. Em seguida, penteou com os dedos os cachos levemente modelados com babyliss e foi calçar os scarpins de saltos altíssimos que abandonara no meio da sala antes de ir lidar com as flores.
Pronto ficou de frente com Fiodr, lhe sorriu animado e deu um giro em torno de si mesmo até voltar à posição de início.
— E então? Estou bonita? — perguntou — Sabe, eu não poderia, nem deveria, estar aqui hoje, porque você não faz ideia do caos que está lá na Grécia — suspirou — Mas o Camy disse que era um jantar especial... O que você acha que é, Jarbas?
— Mademoiselle? — Fiodr contraiu os lábios e fez uma sutil mesura.
— Pela grinalda de rendas e canutilhos de Dadá! Será que ele vai marcar a data do nosso casamento? — sussurrou levando as mãos ao rosto e apertando as bochechas. Tinha os olhos delineados com lápis arregalados e cravados aos do mordomo — Eu te falei que pedi ele em casamento? Ai foi tão lindo, Jarbas!... Quer dizer, foi meio tenso, a gente discutiu antes, ele me mandou ir nadar no oceano, comer piranha e dar para peixe espada, enquanto ele ia viver vestido de pano de chão na casinha do cachorro, que a gente nem tem, mas mesmo assim foi lindo!... Você acha que um dia a gente se casa, Jarbas?
Diante do silêncio do velho senhor, Afrodite se aproximou mais, respirou fundo e sorriu.
— Estou aqui tagarelando e você não entende uma palavra do que eu falo, né? Seu velhinho fofo, vem cá, me dá um abraço — disse, e sem que o outro esperasse o abraçou todo animado — Eu adoro você, Jarbas, sabia? Eu gosto de conversar com você. Pelo menos com você eu posso falar do Camus, posso falar dos nossos planos, do quanto eu amo aquele viado bravo e babadeiro, já que você não entende mesmo. — suspirou, então abaixou o tom de voz quase próximo a um cochicho — Sabia que o Camus usa calcinha?
Como esperado, não houve qualquer reação por parte do mordomo. Calado e hirto como um galho seco ele estava, calado e hirto como um galho seco ele permaneceu.
Afrodite então encostou mais seu rosto próximo ao ouvido dele.
— Camus adora calcinha. E ele tem até preferência, sabia? Ele gosta daquelas que ficam bem enfiadas na bunda, assim, bem atoladas no rabo — suspirou, levemente excitado com a imagem que sua mente delineava — Dadá me abana! O que é aquele homem usando calcinha atolada no rabo!
Com um tapinha nas costas de Fiodr, Afrodite afastou-se o vendo esfregar o nariz com o avental de jardineiro.
— Isso fica entre a gente, Jarbas — disse dando a ele uma piscadinha — Ah! A tempos quero te dizer isso, Jarbas. Você precisa curtir mais a vida, tipo, pegar umas senhoras safadas por aí, frequentar os bailes da terceira idade, trepar de vez em quando. Não é porque tá velho que tá morto, meu anjo. Não precisa mais cuidar tanto do Camus, porque agora ele tem a mim. Eu cuido dele — sorriu.
— Oui, mademoiselle — Fiodr respondeu antes de ter uma crise de espirros.
— Ah, pobrezinho. Acho que é o meu perfume... Anda, vá ver sua novela, Jarbas, querido — fez um gesto com as mãos no ar o dispensando — Agora já sabe. Terra levemente úmida e nada de colocar minhas rosas em vasos com água, ok?
Com uma mesura tímida o mordomo se despediu e seguiu para seus aposentos.
Como todos os outros funcionários que trabalhavam na mansão para Camus, Fiodr já estava mais do que acostumado com as exigências extravagantes e excêntricas da madame. Afrodite era uma figura tão carismática e exuberante que desde de que passara a frequentar a mansão, anos atrás, havia cativado a todos naquele lugar, especialmente porque trouxera para ali a leveza e a alegria que aquela casa jamais tivera. Ninguém entendia direito o que ele falava, por causa da barreira do idioma, mas com um pequeno esforço de ambas as partes, tudo se esclarecia e todos acatavam às suas ordens com um sorriso no rosto e os olhos brilhantes de admiração. Para eles, as mudanças trazidas pela "madame", cuja procedência nunca ficara exatamente clara — apostavam que tinha vindo da Dinamarca — não se deram apenas na casa, mas também no proprietário dela.
Camus mantinha os mesmos funcionários, leais e discretos, que outrora serviram a Yuri Yurievich Volkov, seu mestre. Arrumadeiras, cozinheiras, jardineiros, motoristas... todos conheciam o francês desde a tenra idade e o viram se tornar um homem, fechado, introspectivo, melancólico, duro, exatamente como era o antigo dono daquela casa. Tudo mudou quando Afrodite surgiu ali, e a mudança mais radical se dera mesmo em Camus. Junto com as novas cores, flores e perfumes que tomaram a mansão do Vor da máfia russa, vieram os sorrisos, e esses agora se tornaram constantes num rosto onde antes eram extremamente raros. Os olhos de Camus também tinham ganhado um brilho vivaz, e todos ali torciam muito para o casal, esperando ansiosos o dia em que o patrão desposaria a "madame" misteriosa e tornaria legítima aquela união.
Afrodite desconhecia esse desejo dos funcionários, mas certamente partilhava dele. Contudo, enquanto o sonhado dia do casamento não chegasse, iria usufruir do que tinha.
Feliz em estar ali, e esforçando-se como podia para ao menos por um dia deixar de pensar no sofrimento dos amigos e curtir a família, Peixes caminhou até a cozinha encontrando Camus pondo a mesa para o jantar e Hyoga a terminar de grelhar a última posta de salmão.
— Pela deusa, Camy, você deixou ele sozinho no fogão! — disse Afrodite assustado — E se ele sofre uma queimadura?
Da mesa, Camus olhou para o sueco com um ar um tanto indiferente.
— Ele já sabe manejar um fogão a um bom tempo, e você sabe disso. Non seja dramática, ma belle.
— Dramática? — Afrodite reclamou encarando o francês — Qualquer bocó sabe que fogo, óleo quente e criança são uma combinação péssima!
Camus revirou os olhos e foi até o armário de cristais apanhar três taças.
— Onde tem criança aqui, maman? — Hyoga protestou virando-se para Afrodite, que agora acercava-se dele no fogão — Eu já sou adulto!
Afrodite calou-se por um momento, como se reconsiderasse. Embora tivesse apenas dez anos, Hyoga de fato há muito perdera o aspecto infantil pelo qual tinha caído de amores desde o instante exato em que o viu pela primeira vez. A realidade dura e nociva da máfia havia levado a inocência de seu garotinho e ele mal se dera conta disso.
Com um suspiro longo e um cafune nos cabelos loiros caídos nos olhos, Afrodite resignou-se.
— Para mim, você sempre será o meu loirudinho nariz de batatinha — sorriu, tentando disfarçar a melancolia — Hummm, mas nem o ajeum daquele restaurante bacana lá na Arbat* que o seu pai adora cheira tão bom assim!
— Espero que a senhora goste, maman. Eu fiz do jeito que o père ensinou, com ervas e manteiga, mas no da senhora eu coloquei um ingrediente especial.
— Ah, é? E o que é?
— Calda de caramelo!
Afrodite arregalou os olhos e passou a língua entre os lábios tintos de batom.
— Uau! Agora minha barriga até roncou! Isso deve estar divino!
Ambos riram divertidos, até que Camus aproximou-se deles e abraçando Afrodite pela cintura de modo bastante íntimo e bem a vontade disse:
— Como é que é? Esse último pedaço sai ou non sai?
— Está pronto, père. Já vou tirar — disse o garotinho apressando-se para executar a ação.
— Parfait! Vamos jantar que depois preciso ter uma conversa importante com vocês dois.
— Credo, mon amour, não se diz uma coisa dessa sem dizer qual a coisa a se dizer. Eu sou uma pessoa ansiosa! — Peixes protestou.
Camus riu, e para amenizar a situação puxou o sueco e lhe beijou ternamente os lábios. Um beijo ligeiro e carinhoso, enquanto Hyoga levava a travessa com o salmão para a mesa. Esta estava posta de modo simples, mas era visível o capricho que o francês tivera com cada item, desde os requintados pratos de louça que pertenceram à família Volkov, aos talheres de prata e taças de vinho e água em cristal. Para Hyoga tinha suco de framboesas, o preferido dele, um carinho especial que Afrodite trouxera da Grécia para o pequeno.
Tudo estava perfeito, o momento em família, a comida, as conversas... até que em dada ocasião, Camus percebeu que Hyoga parecia ter largado de comer o peixe, passando a revira-lo no prato com o garfo para lá e para cá.
— O que foi, filho? Por que non está comendo? — perguntou.
Hyoga ergueu os olhos para ele e deu de ombros.
— Está bom, mas é que eu não gosto muito de peixe — respondeu simplesmente, servindo-se de mais um copo de suco.
— Hum... acho bom que comece a gostar — disse Camus descansando o garfo na borda do prato, observando sério o filho — Vamos, coma o seu jantar.
Afrodite olhou para o aquariano fazendo uma careta de desaprovação.
— Ah, não fale assim com ele, mon amour. Tudo bem não gostar de peixe. Gostando só dessa peixinha aqui é o que importa — sorriu fazendo um carinho na bochecha de Hyoga, que estava sentado ao seu lado e sorriu em resposta.
— Non passe a mão na cabeça dele, Afrodite. Ele precisa aprender a comer de tudo, e esse salmão é da melhor qualidade. Non tem querer, tem que comer — disse Camus ainda olhando sério para Hyoga. Quanto mais o mimasse agora, mais ele sofreria depois.
— Olha quem fala! — Peixes arregalou os olhos que agora tinha pregados ao rosto de Camus — Eu vou trazer um pratão de macarrão com salsicha e Tang de uva para você, vamos ver se você come. Não, não! Se não gosta de algo não precisa comer. Tem tantas outras coisas boas para comer no mundo, não é mesmo?... E outra, Camy, Hyoga é novinho demais para cozinhar. Não quero meu filho mexendo em fogão ainda. Dadá me guarde de acontecer alguma coisa com esse menino e ele perder um olho! Já pensou?
Desviando os olhos do filho e os direcionando ao pisciano, Camus retirou o guardanapo do colo e o colocou sobre a mesa, ao lado do prato. Realmente Afrodite sequer desconfiava do motivo de estar ali, o motivo de tudo aquilo, e seu coração já começava a ficar apertado. Como diria ao noivo que em pouco tempo ele e Hyoga partiriam para a Sibéria sozinhos e lá ficariam por pelo menos cinco anos, isolados de tudo e de todos, passando por privações diversas, inclusive escassez severa de comida? Como seria a melhor forma de dizer?
A verdade era que não existia uma melhor forma.
Por isso, Camus decidiu acabar com aquele dilema de uma vez por todas.
Enfiando a mão no bolso da calça social, retirou a cigarreira de ouro e dela um cigarro, o qual acendeu calmamente com uma longa e profunda tragada.
Afrodite olhou para ele franzindo as sobrancelhas e piscando repetidas vezes as longuíssimas pestanas escovadas e tingidas por uma espessa máscara negra.
— Apaga esse oxanã, Camus! Ah, tá boa! Mesa de jantar não é lugar de fumar!
— Ma fleur...
— Vai ficar tudo com gosto de cinzeiro.
— Ma belle...
— O peixe está uma delícia, mas se Hyoga não gosta de peixe podemos pedir uma pizza! — bateu palmas no ar sorridente.
— Sim! Pizza! — Hyoga repetiu o gesto e eufórico deu um salto da cadeira — Eu vou buscar o cardápio da pizzaria e o telefone para gente fazer o...
— Hyoga senta nessa cadeira já! — Camus elevou a voz apontando para a cadeira, assustando os dois — Nós non vamos pedir pizza! Dieu, Afrodite!
— Cruzes! Posso saber por que está gritando desse jeito? — o sueco lançou um olhar dardejante para o aquariano.
— Peixinha... me escute, s'il-vous-plaît — pediu Camus encarando os olhos do pisciano — Você também, Hyoga... precisamos conversar um assunto sério.
— Que assunto? — perguntou Peixes ansioso.
Hyoga já voltara à cadeira e agora aguardava calado, já meio que prevendo o que o pai diria.
— Ma belle... eu venho me organizando e preparando tudo há algum tempo e... finalmente chegou a hora.
— Hora? Hora do quê?
— Em dois meses, acho que menos até, Hyoga e eu partiremos para a Sibéria, onde darei início ao treinamento dele de fato.
O rosto de Afrodite ficou lívido.
A notícia o atingira como uma martelada dada no meio da testa.
Então aquele era o assunto que Camus queria tratar consigo.
Será possível que o tempo tinha passado tão depressa, e que era tão distraído, que não percebeu que já chegara a hora?
— Mas... já? — fez a pergunta mais por não saber exatamente o que dizer, depois olhou para Hyoga ao seu lado, que embora orgulhoso e ansioso para dar o próximo passo em seu treinamento não conseguia esconder o nervosismo — Não é muito cedo?
— Non... na verdade já é bem tarde — disse Camus num tom de voz ameno, então tomou um gole de água antes de prosseguir — Eu iniciei meu treinamento na Sibéria com seis anos. Hyoga já está com dez... E eu confesso que esse atraso non se deu por negligência minha, mas... por fraqueza.
Percebendo que o pai abaixara a cabeça e tinha um tom de voz um tanto lastimoso, Hyoga desassossegou.
— Fraqueza? Por que fraqueza, père? — perguntou.
Camus olhou para ele e suspirou longamente. Não queria, não podia dizer a ele exatamente o que sentia, ou teria que ser franco e revelar antes da hora o que o aguardava. O fim absoluto da infância, das regalias, da vida de luxo e conforto... privações, a mente e o corpo levados ao limite da exaustão e da quase morte; sofrimento, dor... Camus sabia o quão duro era o treinamento de um cavaleiro de sua categoria, e para tornar Hyoga perfeito como queria não o pouparia de nada, de nenhum sofrimento; seria seu mestre e também seu carrasco, ainda que seu desejo mais íntimo de pai fosse protege-lo de todo o mal e de toda a dor.
— Porque eu, na verdade, adiei o inadiável... esse dia chegaria de qualquer maneira.
Tenso, Afrodite levou a mão à garganta e engoliu em seco.
Peixes era um cavaleiro de Atena, e como todos também conhecia bem o árduo caminho até se consagrar um. Foram anos de solidão nas gélidas falésias da Groelândia, sofrendo com o horror do treinamento conferido aos cavaleiros cuja manipulação de toxinas venenosas chega a extremos de alterar suas próprias fisiologias. Porém, não deixara nada para trás, ninguém que sentisse sua falta ou lamentasse sua morte caso sucumbisse ao treinamento. Não havia uma mãe o esperando esperançosa. Nenhum pai que se orgulharia de sua trajetória. Ninguém. Mas com Hyoga era diferente!
Por mais que soubesse que esse dia chegaria, e que por vezes sonhara com ele, em ver Hyoga se tornar um homem, Afrodite não tinha o psicológico preparado para aceita-lo. Sentia-se completamente desesperado. Não conseguia aceitar que aquele garotinho sentado na mesa, a quem amava tanto e cuidava com todo seu zelo e carinho, fosse conhecer a dor de se tornar um cavaleiro de Atena. Queria gritar, queria impedir, rasgar as próprias roupas, esbofetear a cara de Camus até ele desistir, mas em um raro momento de lucidez e maturidade não fez nada disso. Levou ambas as mãos para debaixo da mesa e apertou o guardanapo bordado até rasga-lo.
Do lado de Afrodite, Camus podia sentir a oscilação em seu Cosmo.
— Eu sei o que está sentido, ma fleur... mas deve se orgulhar desse momento — olhou para Hyoga o vendo muito sério — Tudo o que fizemos até aqui foi brincadeira de criança. Nosso filho precisa do treinamento correto para se tornar um homem e um cavaleiro poderoso. Ele precisa ser capaz de se defender sozinho quando non pudermos mais zelar por ele, e isso depende exclusivamente de mim... Vocês terão um tempo ainda para se despedirem um do outro, e você de seus amigos, Hyoga. Eu calculo que devemos partir dentro de dois meses.
— Como assim despedir? — Afrodite questionou, com os olhos brilhantes e o rosto extenuado.
— É, père, como assim, despedir? A maman é uma amazona. Ela não pode ir com a gente e ficar lá por uns dias? — disse Hyoga inocente.
Camus apagou o cigarro no prato e respirou fundo.
— Non, ela non pode — disse categórico.
— Aquenda! Como assim, não posso? — perguntou Afrodite nervoso elevando a voz.
— Afrodite, non comece! Você sabe muito bem porque non pode... O treinamento fora do Santuário é um treinamento diferenciado, e o dos cavaleiros de gelo requer solidão e isolamento total, justamente por isso que é feito em um lugar ermo da Sibéria e não em qualquer outro lugar de clima frio apenas. — Agora Camus falava olhando diretamente para Hyoga — Você possui Cosmo, Hyoga, mas ele é fraco, amador. Precisa elevar seu Cosmo e força a níveis inimagináveis, e para isso terá que passar por provações, rotinas de exercícios intensos, incluso de sobrevivência, que te façam ultrapassar os limites de humanos comuns. Por isso o estou ensinando a cozinhar, por isso tem que comer seu salmão mesmo sem gostar... Uma vez na Sibéria, só poderá sair de lá morto ou consagrado cavaleiro de Cisne. — disse com uma seriedade tão terrível que fez o garoto se encolher na cadeira — E eu te amo, meu filho. Non quero e non vou te perder, por isso o tornarei capaz de provar seu poder adquirido e seu valor clamando pela armadura, e se ela te aceitar, então talvez seja digno de herdar a sagrada armadura de Aquário, mas para conseguir tal poder precisa abrir mão de tudo o que você tem hoje, inclusive da Afrodite.
— Mas... père...
— Camy...
— Quando chegar lá, Hyoga ficará em uma cabana com o mínimo que precisa para sobreviver. Será responsável sozinho por se aquecer, se alimentar e se proteger. Non terá minha ajuda para essas tarefas, já que eventualmente eu voltarei para Grécia e para a Rússia quando preciso. Lá eu non serei mais Camus, mas apenas o Cavaleiro de Aquário, o seu mestre, non mais o seu pai. Levará apenas uma muda de roupa, alguns livros e mais nada.
Hyoga olhava para ele com os olhos arregalados de apreensão enfim se dando conta do quão drástica seria a mudança de vida pela qual passaria.
— Foi assim com o senhor, père? — perguntou assustado.
Camus baixou a cabeça pensativo.
Sim, tinha sido assim com ele, ainda pior. Não gostava de se lembrar da época em que vivera na Sibéria. Apesar do respeito e apreço que tinha por seu mestre, o seu treinamento não fora apenas um mero treinamento de cavaleiro, mas também sua iniciação para a máfia, e essa tinha-lhe exigido uma drástica correção de conduta. Foram anos de dor e de lágrimas. Anos que definitivamente moldaram grande parte de sua personalidade complexa e atormentada. Tempos que marcaram sua alma para sempre e que o transformaram no homem que era hoje. A mudança pela qual passara se deu de maneira tão irreversível ao ponto de sequer ter uma visão completa de quem realmente fora antes de conhecer Yuri.
Na Sibéria Camus fora destruído e reconstruído de um modo que jamais teria coragem de fazer com Hyoga.
— Oui... foi assim comigo. Devo o que sou hoje ao meu mestre. Ele me levou para a Sibéria bem mais novo do que você é hoje, sem preparo ou treinamento algum. Para mim foi muito mais difícil do que será para você, isso eu te garanto — disse firme, encarando os olhos do filho — Por isso, espero que entenda que tudo que farei é para o seu crescimento, para que se torne um cavaleiro digno da armadura de Aquário no futuro, e para que adquira a força e confiança necessárias para comandar a Vory v Zakone quando eu non mais puder fazer isso. Se for forte, se for confiante, todos te respeitarão e o temerão, como a mim.
Com o coração acelerado, temendo por antecipação o treinamento na gelada e erma Sibéria, já que conhecia todas as histórias dos cavaleiros de gelo que se sagraram lá, porém motivado e cheio de vontade de deixar o pai orgulhoso, Hyoga levantou o queixo e fez um sinal afirmativo com a cabeça.
— Eu... eu estou pronto, père... — disse, e quando olhou para Afrodite não conseguiu evitar que seus olhos azuis enchessem de lágrimas. Estava com medo, mas estava muito mais assustado em ficar longe da "mãe" por tanto tempo — Eu só... eu só não queria ficar longe da Maman Di.
E se Hyoga tentava manter-se firme contendo o choro o mais que podia, Afrodite já deixava que esse ecoasse pela cozinha, sonoro e escandaloso como não poderia ser diferente vindo dele.
— Pelo amor de Dadá, Camus, não faz isso comigo!
— Afrodite... — Camus alisou uma das sobrancelhas sentindo as rugas que se formavam em sua testa. Agora vinha a parte barulhenta da conversa, o inevitável chilique.
— Não arranca o meu coração desse jeito! Não tira o meu filho de mim! — Afrodite falava aos soluços e espasmos, debruçando-se na mesa sem se importar em mergulhar as pontas dos cabelos e os babados do vestido no prato de salmão para alcançar Hyoga e o puxar para seus braços.
— Afrodite, s'il-vous-plaît, non piore as coisas. Sabe que non tenho escolha, e também non estou tirando ele de você, mon Dieu! Non faça isso... — clamou tentando manter a calma e racionalizar a situação.
— NÃO FAÇA ISSO VOCÊ! — Peixes gritou histérico e desesperado encarando Camus. Segurava o tronco de Hyoga apertado contra seu peito.
— Maman, tô caindo! — alertou o garotinho, com os quadris e as pernas ainda na cadeira tombada para o lado de Afrodite.
— Quem está caindo sou eu... Ah... Atena... está ficando tudo escuro... cadê vocês?... Estou cega!
— Non comece com isso, Afrodite! — Camus advertiu imediatamente dando um tapa na mesa — O assunto é sério! Se você fingir um desmaio agora eu te acordo com essa taça de água na cara. Nada de desmaios! Você sabe muito bem que isso estava nos planos... Dieu! Non é como se você non soubesse. Non torne minha missão ainda mais difícil para nós do que já é, ma belle, s'il-vous-plaît.
Afrodite recuperou a visão na hora, e o mal estar também milagrosamente desapareceu, mas para completo desespero de Camus foi a voz embargada de Hyoga que lhe falou.
— Père, deixa maman ir nos visitar ao menos uma vez por ano, por favor! — agora era ele quem suplicava agarrado ao pisciano — Eu não quero ficar longe dela.
— É, me deixe ir ao menos uma vez por ano! Duas! No aniversário dele ou no seu e... e no dia das mães! — rogou Afrodite que era pura aflição — Tem que me deixar ir até lá ver vocês ou eu vou morrer, Camus! Eu vou morrer, eu juro!
— Afrodite... non... — Camus piscou os olhos e passou a mão nos cabelos, os apertando de leve para apaziguar a dorzinha que brotava em suas têmporas — Ninguém vai morrer. Eu non vou morrer, você non vai morrer, e por Atena, eu non vou deixar nosso filho morrer.
— VOU MORRER SIM! — Afrodite gritou desesperado — Camus eu vou murchar, definhar e morrer seca igual uma rosa arrancada do pé e enfiada num vaso matim de água igual esses que vocês têm aqui, sem vida e sem viço.
— Dieu, Afrodite... — Camus suspirou.
— Não faz isso comigo! Eu prometo que não interfiro em nada. Nada de nada! Não levo ajeum, eu... eu não levo bala, nem chiclete e nem refrigerante... e também não levo casaco. Isso! Eu passo frio junto com vocês para dar apoio moral! Durmo num iglu bem longe se quiser para não atrapalhar, eu juro! Juro! Mas me deixe ir ver vocês! Não pode me largar aqui sozinha e nem ao menos me deixar ir visita-los — implorava aos prantos. A ideia de passar anos sem ver Hyoga era aterrorizante. Sabia muito bem que Camus era um homem difícil de se dobrar quando tomava uma decisão, principalmente quando o assunto era disciplina e treinamento, mas ele precisava amolecer aquele coração duro, ou realmente morreria.
Diante da choradeira, Camus levou a mão ao rosto e apertou forte a ponte entre os olhos, porque a dor agora se alastrava para a testa toda.
Estava acontecendo exatamente o que tinha previsto, e também o que mais temia. O noivo e o filho aos prantos na mesa de jantar e a culpa era sua.
O sofrimento e luta interna do cavaleiro de Aquário eram visíveis em seu Cosmo oscilante, assim como em sua fisionomia abatida e nos gestos que exteriorizavam sua aflição. Mordia os lábios e balançava as pernas debaixo da mesa incessantemente, olhando para os as faces suplicantes de Afrodite e Hyoga a sua frente.
— Entendam... eu non quero, e jamais irei, separar vocês dois, mas precisam encarar a vida com responsabilidade... Afrodite, especialmente você, ma fleur — disse esticando o braço, pedindo a mão ao pisciano, que de pronto atendeu ao pedindo tomando a dele na sua — Já passou por algo parecido.
— Sim, mas antes eu não tinha mãe, não tinha pai, filho, noivo, agora eu tenho. Hyoga e você também têm! — retrucou Afrodite aos prantos. Não queria de jeito nenhum quebrar os protocolos dos treinamentos infringidos aos cavaleiros que dominavam o gelo, mas não pode evitar. Estava aterrorizado demais com a ideia de passar anos sem ver os dois — Vocês vão precisar de força, disciplina, determinação, bravura, mas também vão precisar de amor, e isso eu tenho de sobra para dar. Não é possível que acredite que o meu amor vai atrapalhar o treinamento e a evolução do Hyoga, Camy. O amor só fortalece! Eu, você, e a maioria de nós, não experimentou o amor e o afeto durante os treinamentos, mas eu tenho certeza que essa era a lição que nos faltava! Por favor, Camus! Me deixa ir ver vocês na Sibéria!
— Eu... non posso... vocês non entendem!
— Por favor papa! Deixa ela ir! — Hyoga implorava agarrado à mãe, em meio a um pranto sofrido. Já havia perdido Natássia e agora sentia como se estivesse perdendo Afrodite também — Eu prometo que vou dar o melhor de mim, vou obedecer todas as suas ordens e instruções, vou cozinhar, lavar, passar, faço tudo que mandar, até como quilos de peixes, mas deixa maman ir nos visitar! Não tira ela de mim, por favor papa...
Camus arregalou os olhos sem saber como agir e o que falar para ele. A dor nos olhos de Hyoga era tão grande que chegava doer sem si mesmo.
Percebendo que o francês estava bastante alterado, respirando ofegante, o rosto corado e a fisionomia de alguém que está travando uma batalha interna ferrenha, Afrodite cochichou no ouvido de Hyoga pedindo a ele que os deixassem a sós para conversar. O garotinho obedeceu de pronto e antes de deixar a cozinha parou do lado de Camus na cadeira e o abraçou apertado. Queria deixar claro para ele que não o estava desafiando, tampouco impondo qualquer coisa que fosse, mas que, como todos ali naquela mesa, estava apenas desesperados.
Um golpe duro no coração de Camus.
Quando Hyoga saiu, Afrodite levantou-se da cadeira, retirou os scarpins dos pés e ajoelhou-se ao lado de Camus, apoiando os braços nas coxas dele.
— Mon amour... olha para mim — pediu com voz suave, porém embargada ainda pelo choro — Eu sei que o que estou te pedindo chega a ser um abuso, e se eu pudesse jamais interferiria nisso mas... eu não consigo evitar, é mais forte do que eu, porque... porque eu tenho plena consciência do que é o treinamento que você vai dar a ele e isso... isso vai me enlouquecer se eu não puder estar lá para apoiá-lo... para segurar a mão dele num momento de fraqueza, medo ou dor. Acredite, Camy, um abraço quentinho de mãe, um cafuné, um carinho antes de dormir não teria nos tornado mais fracos naquela época, só teria nos fortalecido. E assim será com ele.
— Non tem noção do que está me pedindo, Afrodite... — Camus olhou para ele com os olhos brilhantes, úmidos de lágrimas — Você pensa que sabe pelo que ele vai passar, mas non sabe... E quando souber, eu sei que non vai suportar. E mesmo que suporte, que como eu engula o sentimento de pai e assista de longe toda a dor que o nosso filho vai passar, te permitir ir para Sibéria... isso é... é simplesmente ignorar o princípio básico que o tornará um cavaleiro que domina o gelo. Hyoga deve deixar os sentimentos de lado se quiser ser forte e conquistar a armadura de Cisne, e eu devo mostrar o caminho a ele. Só eu posso fazer isso.
— Você não matou os seus sentimentos, Camus... eles estão aí, dentro de você — Afrodite esticou o braço e pousou a mão no peito do aquariano, sobre o coração, que palpitava acelerado — Vivos como nunca! Por mais que todos tenham feito de tudo para arranca-los de você, ainda assim não conseguiram, e mesmo assim você é um dos Santos mais poderosos de Atena!... Por favor... Me deixe ir com vocês... nem que seja por uma semana apenas... um dia... uma hora! Eu amo aquele menino, eu amo você, e não vou aguentar ficar sem vocês, Camus!
Aquário sentia-se à beira de um colapso diante daquela situação.
Seus olhos avelãs encaravam os de Afrodite com aflição, mal piscavam, enquanto a boca seca e a falta de ar já eram resultado das fisgadas doloridas que sentia no peito. Queria acender outro cigarro, ou quem sabe algumas doses de vodca o ajudariam a relaxar, mas abandonou a ideia sabendo que só existia uma solução para aquele dilema.
Afrodite tinha razão. Deveria ter matado todo sentimento dentro de si, e de fato, por um longo período em sua vida, acreditou que tinha conseguido, mas aquele homem ajoelhado a seus pés, e anos depois Hyoga, haviam lhe provado que não, que apenas tinha trancado seus sentimentos numa caixa, jogado a chave fora e esperado ansiosamente que alguém a encontrasse e o ajudasse abri-la de volta.
— Ma belle... — Aquário sussurrou enquanto afastava algumas mechas dos cabelos de Peixes que caiam sobre os olhos encharcados.
— Por favor, Camus...
— Pardon... eu também non quero, mas non é questão de querer... eu non devo... non é certo...
— Nada do que a gente faz é certo, Camus. Olha para mim, eu tô de vestido! E tô usando uma prótese de silicone em cada peito... Estamos enganando uma criança e uma organização criminosa babadeira inteira! Tá tudo errado na nossa vida, e mesmo assim está dando tudo certo! — falava bem baixinho, quase inaudível.
Camus baixou a cabeça e fechou os olhos. Afrodite o sentia trêmulo, e a temperatura na cozinha começava a cair vertiginosamente. Camus sofria.
— Dieu... non faça isso comigo Afrodite... um cavaleiro de gelo non deve jamais permitir que sentimentos pessoais interfiram em sua conduta, você sabe disso!
— Pelo amor de Dadá, Camus, os tempos mudaram! Dá para ser cavaleiro de Aquário sem ser um iglu sem sentimentos, ou você acha que vai conseguir convencer Hyoga do contrário? Esse menino é todo amor e carinho, Camus! Ele me ama, ama você, o Kiki... ele ama até o insuportável do Shaka!... Não pode se enfiar com Hyoga nos cafundós da Sibéria e me largar sozinho por anos! Eu não tenho psicológico para isso!
Afrodite beijou as mãos frias de Camus e as apertou com força.
— Um dia você me pediu para vestir um vestido e ser a mãe daquele menino. Eu achei que você estava louco e que eu jamais conseguiria. Cheguei a te dar um soco bem no meio da cara por ter me feito essa proposta e me colocado nessa situação, pois bem... seis anos depois eu estou aqui, em um Valentin Yudashkin vermelho, de joelhos, e como mãe do seu filho eu tô te pedindo. Faça isso por ele, por mim, e por você também. Me deixe ir à Sibéria acompanhar o treinamento dele, por favor, pelo bem dessa família.
Camus abriu os olhos e encarou o rosto trêmulo de Afrodite. Era desesperador aceitar que ele tinha razão, não apenas em relação a Hyoga, mas também a si. A quem queria enganar? Assim como Peixes, sentia-se igualmente incapaz de viver anos longe dele, longe do corpo quente colado ao seu, longe dos lábios doces e dos cabelos perfumados que o inebriavam e o preenchiam de amor e prazer, longe da companhia, que por vezes lhe trazia o caos, mas que também o fazia sentir-se vivo.
Era fraco. Essa era a verdade. Fraco porque amava demais.
Havia passado meses se preparando para aquele momento justamente para não ceder, mas os tempos eram realmente outros. E se ele mesmo sentia que não podia mais separar-se de Afrodite por tanto tempo, como poderia exigir isso de Hyoga?
— Merde, Afrodite... — resmungou.
— Merda? O que quer dizer com merda? — Peixes perguntou apreensivo — Merda sim, ou merda não?
Camus respirou fundo.
— Você é o caos na minha vida... está bem... você pode ir nos visitar e...
— AH, PELA DEUSA, VIADO!
— Cala essa boca, maluco! — Camus sussurrou.
Afrodite mal esperou Camus acabar de falar já se levantou do chão e atirou-se nos braços dele, na cadeira mesmo.
— Obrigado, obrigado, obrigado, eu te amo, eu te amo, eu te amooo! — o enchia de beijos enquanto vibrava entre choro e riso, então tomado por uma alegria eufórica desceu do colo dele e correu para o interior da casa para dar a notícia a Hyoga.
Na cozinha, Camus apoiou os cotovelos na mesa e levou ambas as mãos ao rosto. Esfregou os olhos sentindo um misto de culpa e alívio, mas tinha que aceitar que havia tirado um peso enorme do coração, mas o colocado nas costas, pois ter Afrodite na Sibéria seria um fardo penoso. Sentia um misto de frustração e alívio.
Quando ia acender outro cigarro, eis que viu Hyoga entrar correndo pela porta com o rosto exultante de alegria e os olhos brilhantes. Afrodite vinha logo atrás aos pulinhos.
— Père! — gritou o garotinho antes de saltar nos braços do pai e abraça-lo com força — Obrigado, père! Obrigado!
Camus abraçou o filho com força e beijou os cabelos claros com carinho.
— Oui... eu permiti que Afrodite vá nos visitar, mas vou impor algumas regras — disse Camus ao se levantar com Hyoga no colo e caminhar com ele até o balcão no centro da cozinha. O colocou sentado sobre ele e estendeu o braço para Peixes o chamando — Venha aqui, peixinha, e ouça com atenção.
Afrodite atendeu ao pedido prontamente, pondo-se sério e de mãos dadas com Camus.
— Non poderá levar NADA! Você entendeu? NADA!
— Entendi, nada! Não vou levar nada!
— Oui... e non poderá interferir em nada. Você vai vê-lo ferido e non poderá cuidar dos ferimentos dele, está me entendendo bem, Afrodite?
— Eu tô sim, não vou cuidar dos ferimentos dele.
— Non poderá levar comida, agasalho ou passatempos quaisquer. Mesmo que ele te implore por comida non permitirei que o alimente, porque faz parte do treinamento ele ser capaz de suprir suas próprias necessidades. Precisa estar consciente de que minhas ordens serão absolutas naquela maldita cabana, para os dois — disse sério, e nessa hora tanto Hyoga quanto Afrodite fizeram um gesto positivo com a cabeça — Sei que está acostumada com baixas temperaturas, já que seu treinamento foi na Groelândia, mas a Sibéria é diferente. O frio lá dói nos ossos. Você pode ir agasalhada, mas non poderá aquecê-lo — apontou para o filho — Hyoga precisa sentir o frio, precisa dominá-lo, ou não será capaz de suportar os próprios golpes... Eu me reservo no direito de te mandar embora de lá a qualquer momento, basta você desobedecer qualquer uma dessas regras, você entendeu?
— Sim, entendi, mon amour! — disse dando um selinho nos lábios dele e depois uma piscadinha para Hyoga, que parecia assustado com as palavras do pai.
Percebendo a apreensão do garotinho, Peixes aproximou-se dele e passando o braço por seus ombros o abraçou, o aconchegando em seu peito. Camus olhava para ele mortificado, mas mantendo-se firme. Precisa passar lhe segurança, ainda que estivesse tão apreensivo quanto.
— Você será um grande homem, mon fills, e um poderoso cavaleiro. Você tem potencial para isso, e eu sempre estarei ao seu lado, como mestre... e também como pai — disse Camus pegando na mão de Hyoga.
— Eu sei père, estou preparado!
— E eu também estarei, meu louridinho — disse Afrodite dando um beijo na bochecha rosada do pequeno russo, imprimindo nela uma marca de batom — Maman estará lá com você te ajudando a ser forte. Vou te dar muito amor, beijinhos, e vou levar bolo, pizza, hambúrguer, as balas de bacon com cereja que você adora...
— Afrodite! — Camus quase berrou.
Peixes deu um pulinho com o susto.
— NÃO! NÃO VOU LEVAR NADA! — corrigiu-se imediatamente, assustadíssimo com a própria desatenção — Nem bolo, nem meias quentinhas de lã. Nada de nada, pela deusa!
— Dieu, Afrodite, já estou começando a me arrepender! — protestou o francês.
— Não! Não se arrependa não, mon amour! Eu entendi, vem cá — disse, e puxou Camus até colar sua testa com a dele — Obrigada. Sabe o que isso significa para mim. É a maior prova de amor que você poderia me dar, porque eu sei o quanto está sendo difícil para você burlar regras milenares. Obrigada por me deixar fazer parte dessa fase tão importante da vida do nosso filho. Eu prometo que vou seguir suas regras.
Camus suspirou longamente e com certo pesar. Conhecia muito bem Afrodite. Sabia que ele não iria obedecer porcaria de regra nenhuma, que daria um jeito de burlar cada uma delas. Sentia-se um fracassado.
Porém, olhando Peixes naqueles olhos aquamarines únicos, não conseguia sentir raiva, apenas um amor imenso.
— Ma belle... — murmurou e beijou ternamente a fronte do pisciano, depois abraçou a ele e a Hyoga com força e todo amor que cabia em si, que não era nada pouco.
No fundo Camus também estava assustado.
Treinar Hyoga seria revisitar seus próprios demônios, muitos dos quais ainda lutava dia a dia para esquecer.
Voltar para aquela cabana na Sibéria e encarar o passado doloroso que estava impregnado em cada detalhe dela lhe custaria muito, mas quem sabe agora, com Hyoga e Afrodite junto de si seria mais fácil. Por mais que estivesse com medo do que viria não podia mais adiar aquele momento. Precisava estar preparado para ele.
* Valentin Yudashkin é considerado o maior designer fashion da Rússia. Nasceu em 1963 e ficou conhecido nos anos 1980 por vestir Raisa Gorbachev, esposa do último presidente da antiga União Soviética, Mikhail Gorbachev.
* Arbat – A Rua Arbat é um dos endereços mais antigos de Moscou, famoso por concentrar bares, restaurantes e lojas.
