Entre Valle e Esgaroth
'Era loucura', Sigel repetia a si mesma. 'Como conseguiu cometer tamanha insanidade?' Resolvera ouvir a voz de seu coração e agora encontrava-se sozinha, seguindo de longe os guardas de Erebor. Mais de uma vez pensou em voltar, mas se o fizesse, sabia o chicote com certeza a aguardava. Sendo assim, faria valer a pena.
Thórin não havia retornado a Valle. A bem da verdade, ele não conseguira se distanciar muito do lugar onde acampara com Legolas. O anão amarrou o pônei em uma árvore próxima à estrada e encontrou abrigo sob uma formação rochosa. Tudo o que ele queria naquele momento era uma sombra onde pudesse ordenar seus pensamentos. Sorveu um gole de água de seu cantil e limpou a boca com as costas das mãos. Sentia-se estranho. Finalmente havia conseguido se libertar da dívida que havia contraído com o elfo e era justamente aquela sensação de não haver mais nada entre eles que o punia. Pela escuridão de Moria! Que buraco no peito era aquele que ele estava carregando? O anão fechou a mão em punho. 'Maldito Thranduil!'
Sentou-se, recordando-se das palavras do pai de Legolas. Mas a culpa não era só dele. Thórin sabia. Se conseguisse agir como Legolas e tentar compreender o que havia por trás da mágoa que Thranduil sentia, talvez houvesse a mínima possibilidade de diálogo. No entanto, ele jamais conseguiria ser como o amigo. Thórin riu de seus pensamentos. 'Amigo'. Sim, aquele estranho amigo iria fazer muita falta. O anão tomou mais um gole de água e fechou o cantil, antes de mirar a estrada. O que faria ou para onde iria era uma incógnita. Retornar a Valle não parecia uma opção muito encorajadora.
Enquanto pensava sobre a incerteza de seus próximos dias o príncipe percebeu guardas de Erebor se aproximando. No entanto, o príncipe não foi visto por eles, que seguiram seu caminho. 'Estranho', Thórin pensou consigo mesmo, 'não estão acompanhando nenhuma caravana...'
Thórin balançou a cabeça a fim de afastar a Montanha Solitária de suas lembranças. Sua família, seus amigos, Sigel, toda sua vida estava lá. Tudo lhe havia sido tirado. Assim como Legolas o fora momentos atrás. Não, ele não poderia retornar a Erebor. E a lembrança de Valle lhe causava náuseas. Ensinar homens a usar uma balista! A que mediocridade sua existência havia sido reduzida!
O anão deitou-se, aproveitando a sombra oferecida pela rocha. Aos poucos um estranho torpor tomou conta de seu corpo e ele adormeceu.
Os guardas de Erebor que haviam sido enviados em busca de Thórin se separaram. Alguns seguiriam para Esgaroth e outros para as Colinas de Ferro.
Sigel seguiu o grupo que havia tomado a estrada de Esgaroth. Se o príncipe não estivesse lá, retornaria a Erebor. Aquelas estradas já não eram mais tão seguras.
As imagens eram desconexas. Em seus sonhos, Thórin via Legolas ser golpeado inúmeras vezes entre quedas e soerguimentos. Até que uma lanças perfurou o peito do elfo.
Thórin despertou aflito, olhando de um lado para o outro. Não havia nada além da rocha sob a qual havia adormecido.
- Para a escuridão eterna com Thranduil e suas flechas!
Thórin levantou-se e tomou sua montaria.
A comitiva era pequena, no entanto mesmo os olhos deformados dos batedores puderam discernir a presença imponente de Thranduil e do príncipe Legolas. Eles poderiam exigir qualquer resgate se conseguissem capturá-los. Não deveriam ser mais que dez lanças e espadas. Elfos temerários. Afastaram-se a da estrada principal. Deveriam estar tentando chegar a Mirkwood sem passar por Esgaroth. Pensaram que passariam despercebidos com um número reduzido de soldados, porém, tudo o que conseguiram foi condenar a si mesmos. Nem todos os membros do bando estavam ali naquele momento. Juntos eram mais de uma centena. Contudo, se conseguissem arquitetar um ataque surpresa, suas trinta espadas e inúmeras flechas seriam suficientes. Eles armaram a emboscada próxima a um ponto onde a estrada estava cercada de formações rochosas e aguardaram. Quando a comitiva élfica se aproximou, fechas voaram pródigas. Os cavalos foram os primeiros atingidos. Os soldados se posicionaram ao redor do rei e de seu filho. Mais fechas.
- Fuja, majestade! - Rúmil gritou. - Daremos cobertura!
Thranduil recusou-se a fugir. Em lugar de acatar ao pedido de Rúmil, desembainhou suas espadas. Legolas seguiu o pai.
Mais flechas e mais cavalos caídos, além de alguns guardas.
- Apareçam, covardes! - Amras provocou.
Uma última saraivada atingiu o cavalo de Thranduil que foi ao chão. Legolas apeou, preocupado que o pai houvesse sido esmagado pelo peso do animal, mas o rei fora ágil e em um segundo já estava de pé.
O cavalo de Legolas foi atingido e os orcs finalmente se revelaram, saindo em bando e sem dar tempo para uma reação. Metade deles encontrou seu fim nas lâminas dos imortais, contudo os elfos também foram gravemente feridos. Legolas havia sido atingido por uma flecha no ombro.
Rúmil conseguiu manter seu cavalo de pé aproximou-se do rei.
- Fuja, majestade. Não há mais tempo. Leve o príncipe com o senhor.
A expressão de contrariedade no rosto do rei era latente, mas por amor ao filho, Thranduil aceitou a oferta e montou o animal. Porém, em vez de deixar que Legolas montasse com ele, o rei saiu cavalgando e atraindo os orcs em uma perseguição insana.
- Levem o príncipe para o um lugar seguro – foram as últimas ordens que ouviram. Thranduil não arriscaria fugir com Legolas ferido. Se os orcs o alcançassem, não haveria muito que ele pudesse fazer.
- Não… - Legolas tentou impedir o pai.
O plano do rei funcionou. Os orcs aderiram à perseguição. Um cavalo ferido não conseguiria ir muito longe.
O veneno que havia nas flechas começava a fazer efeito e os elfos sentiam suas forças serem tragadas. Eles procuraram abrigo sob uma árvore e cuidaram dos próprios ferimentos tão bem quanto lhes era possível.
- Precisamos conseguir ajuda – Rúmil ponderou. - Esgaroth ainda está a várias horas daqui, mas é nossa melhor opção.
- Não podemos abandonar meu pai!
- Não faremos isso, alteza. Mas não podemos caçar um bando de orcs feridos como estamos.
- Deve haver mais deles – Amras completou. - Não se atreveriam a nos atacar se seu número não fosse muito superior ao nosso.
- Maldita emboscada – Legolas amaldiçoou, pondo a mão no ombro ferido. - Se não fosse essa saraivada de flechas teríamos conseguido fazer frente a eles.
- Não podemos perder mais tempo – Rúmil prosseguiu. - Sou o menos ferido de nós. Seguirei na frente em direção a Esgaroth e conseguirei ajuda.
- Não será tarde demais? - Legolas estava preocupado.
- Quero crer que aqueles orcs sabem o quanto podem lucrar mantendo seu pai vivo, alteza.
- Temo que ele não permanecerá inerte, esperando por um resgate…
- Ainda assim, pedir ajuda é nossa melhor chance.
Legolas assentiu. Eles não tinham muita escolha.
- Vá Rúmil. Que as bênçãos de Lórien o sigam!
O servo de Galadriel não esperou mais e partiu.
- Está se sentindo melhor, alteza?
Legolas deu alguns passos na direção que o cavalo de seu pai havia seguido.
- Sabe o que me faria sentir melhor, Amras.
O Noldor aquiesceu.
Uma flecha voou, atingindo a árvore da qual estavam próximos.
- Eles voltaram! - Amras gritou. - Abaixe-se, alteza.
- Covardes!
Um punhado de orcs havia sido enviado em busca do príncipe com ordens de trazê-lo, caso não houvesse grandes dificuldades. Ao verem apenas os dois elfos sozinhos e feridos sob a árvore, resolveram arriscar. As flechas se concentraram sobre Amras. Legolas deveria ser mantido vivo. De fato, o noldor conseguiu evitar as primeiras flechas, mas em pouco tempo havia sido atingido na perna e no braço e foi ao chão.
Os orcs aproximaram-se. Amras ergueu-se e a dupla conseguiu dar cabo de alguns deles.
Amras ajoelhou-se. O veneno cobrava seu preço e uma espada orc feriu-o no abdomen. A criatura aproximou-se, rindo de sua presa. Amras fitou seu algoz e ergueu o queixo. O orgulho noldor recusando rendição.
- Não! - Legolas gritou, antes dele mesmo ser obrigado a se ajoelhar após ser atingido na perna por outra flecha.
O orc ergueu sua espada, mas soltou-a ao sentir a fisgada mortal em suas costas e ver que uma lâmina havia transpassado seu peito, antes de ser retirada e cortar sua cabeça, sem dar ao orc chance alguma de perceber quem o havia atingido.
Os orcs que restaram tiveram um fim semelhante ao primeiro.
O portador da espada aproximou-se de Legolas e ajoelhou-se.
- Consegue ficar de pé?
Legolas ergueu os olhos.
- Você voltou.
O anão assentiu.
O elfo mirou a espada na mão dele.
- Disse que essa espada já não serviria para defender sua honra.
O anão estendeu a mão a ele. Legolas aceitou a oferta e se levantou.
Thórin embainhou a espada.
- Mas ainda serve para ajudar a… alguém com quem eu me importe.
Legolas sorriu.
Um gemido chamou a atenção da dupla.
Legolas andou em direção a Amras, que tapava com a mão o ferimento que a espada orc havia feito em seu abdomen.
- Não é tão grave quanto parece, alteza.
O noldor tentou contemporizar ao ver a expressão de preocupação de Legolas.
- Precisa de cuidados, Amras.
Legolas ajoelhou-se e rasgou um pedaço da capa a fim de pressionar o ferimento do amigo. Thórin olhou ao redor.
- Estamos muito expostos aqui. Vocês se afastaram muito da estrada principal. Sorte que seus rastros ainda estavam frescos. Só assim consegui encontrá-los. Precisamos chegar a Esgaroth.
- Não – Legolas recusou-se. - Não vou abandonar meu pai.
Thórin franziu o cenho.
- O que aconteceu?
Legolas suspirou.
- Fomos emboscados. Meu pai atraiu a atenção dos orcs para que pudéssemos escapar, mas deve ter sido capturado.
- Rúmil disse que pedirão um resgate. Sabem o valor de sua presa.
Legolas baixou a cabeça.
- Se for essa a intenção deles, quando meu pai perceber será o fim dele.
- Por quê?
- Ele não negocia com orcs.
- Não será ele a negociar, alteza – Amras não compreendia o argumento do príncipe. - Seremos nós.
Legolas levou as mãos à cintura.
- Ele preferirá tirar a própria vida, Amras. Conheço Thranduil. Ou nós o resgatamos, ou ele morrerá. E não creio que haja tempo para esperar por Rúmil. Eles devem estar por perto e já devem estar planejando o resgate. Quando meu pai perceber…
Amras tentou se levantar, mas não conseguiu.
- Não posso ajudá-lo, alteza.
Legolas olhou novamente na direção onde seu pai havia cavalgado.
- Deve haver muitos deles, Legolas – Thórin finalmente se pronunciou. - Seu amigo está certo. Ainda que não estivesse ferido…
Ele se calou ao sentir os olhos azuis de Legolas sobre si.
- Não posso abandoná-lo, Thórin.
- Tampouco pode ir sozinho.
- Preciso ir.
O anão coçou a barba.
- Não vai desistir dessa ideia, não é?
O olhar firme do elfo respondeu a pergunta do anão.
- Então não tenho escolha. Por causa desse laço infeliz que nos une terei que segui-lo nessa loucura.
Legolas franziu o cenho.
- Do que está falando? Você não é mais meu devedor.
- Nunca imaginei que veria um anão afirmar estar disposto a arriscar sua vida para salvar o rei Thranduil - Amras comentou.
Thórin revirou os olhos.
- Não sejam tolos, elfos. Não se trata do rei Thranduil ou de dívidas a serem pagas.
- De que se trata, então?
- Trata-se de salvar o pai de Legolas.
Thórin voltou o rosto em direção ao príncipe.
- Trata-se do pai… de um amigo.
Legolas o encarou, absorvendo toda profundidade que palavras como aqueles possuíam quando eram ditas por um anão.
- Não posso pedir que se exponha a esse perigo, Thórin.
- Você não está me pedindo nada, elfo. Vou porque quero.
Amras riu baixo, atraindo a atenção dos outros dois.
- 'Tão firmes na amizade quanto na inimizade' – o noldor citou o antigo escrito. - Leve-o consigo, meu príncipe. Jamais o convencerá do contrário.
Legolas fitou Thórin, sem conseguir disfarçar o quanto havia ficado contente com a oferta dele.
- Então vamos… mellon – o elfo tentou sorrir.
- Do que você me chamou?
Legolas não respondeu com palavras, mas fixou o olhar em Thórin, que pareceu compreender.
- A runa…
O elfo assentiu.
O anão passou por ele, começando a seguir o rastro dos orcs.
- Essa palava me parece muito açucarada… - ele disse quase sorrindo, enquanto sentia um estranho orgulho de ser chamado assim por alguém como Legolas.
Legolas deu uma última olhada em Amras. Este assentiu, tentando tranquilizar o príncipe.
- Que Yavana e Aule os acompanhem...
