Dragon Ball não me pertence.
CAPÍTULO 24
O final da odisseia terrestre
"Meu amor, olha só, hoje o sol não apareceu...
É o fim da aventura humana na Terra."
Eva, Rádio Táxi
A destruição reinava por todos os lugares. O ar em quase todo o planeta ainda estava tomado por uma rasa fumaça escura que se dispersava no ambiente. A maior parte dos animais havia sucumbido, muitas plantas também. As cidades eram agora amontoados de concreto e ferro retorcido. As ruas, onde ainda existiam, estavam coalhadas de cadáveres amontoados. O cheiro pútrido da morte estava espalhado no ar. Quase não havia mais ki para ser sentido. Os únicos humanos poupados eram os de melhor forma física e beleza. Muitos foram vendidos como escravos, e os melhores foram levados para fortalezas onde serviriam aos propósitos do imperador do planeta gelado.
Os maiores kis que se sentiam no planeta Terra naquele momento, eram os kis medianos dos soldados de Freeza, os três kis poderosíssimos dos atacantes do planeta e um ki muito fraco, mas ainda forte para um humano, esse pertencia ao único sayajin que permanecia com vida, e ainda debilmente lutando.
Bardock juntava forças para lançar talvez seu último golpe de energia, mesmo sabendo que seria em vão, ele não desistira de lutar. Perto do campo onde o bravo guerreiro se esforçava na tentativa vã de vencer o monstro verde, os outros dois monstros assistiam tudo, um bebia vinho enquanto o outro perseguia os soldados numa infantil brincadeira de gato e rato.
Como era de se esperar, o ataque lançado por Bardock nem chegou a alcançar o corpo ágil de Cell, e mesmo se tivesse alcançado, não faria grande diferença. Cell apenas brincava com o último sayajin sobrevivente do planeta. E contra atacou o mesmo com um golpe de energia que não era de seus mais fortes, mas foi poderoso o suficiente para jogar o guerreiro vários metros à frente, totalmente inconsciente.
— Ah, ainda está vivo... Esse é forte... - Cell disse zombeteiro ao aproximar-se do corpo sujo e ensanguentado de Bardock e ver que seu tórax ainda fazia movimentos de respiração. - Vou acabar logo com isso, essa brincadeira já me cansou. - o monstro disse fazendo uma grande esfera de energia entre as mãos, apontando-a para o peito do guerreiro.
— Espere, Cell. - Freeza disse de onde via a disputa. - Não mate esse daí. Tenho planos pra ele.
— Que tipos de planos? Esse aqui não serve pra mais nada... - Cell retrucou sem desistir da esfera de ki pronta em sua mão.
— Foi uma ideiazinha que tive agora, - Freeza disse degustando sua taça de vinho. - Não vamos matá-lo, vamos mandá-lo de volta a seu planeta de origem.
— Você pirou? - Cell indagou indignado. - Pra quê? Se ele for, será um mártir.
— Um mártir, não, meu caro. Ele será um aviso. - Freeza respondeu com segurança tomando outro gole de sua taça de vinho.
O corpo inconsciente de Bardock, juntamente com os corpos destroçados dos sayajins que não foram pulverizados, foram colocados em uma nave do exército sayajin e essa programada pelos soldados de Freeza para navegar no piloto automático até Vegetasei. Era uma piada cruel e que os soldados de Freeza acharam muito divertida. Só que, o que eles não sabiam, é que quando lacraram a escotilha principal da nave, além de Bardock e dos corpos de seus soldados, havia também dois clandestinos lá dentro. Dois sobreviventes que estavam prontos para contar aos sayajins tudo que estava acontecendo na Terra.
Cell havia ficado desapontado de não poder matar o ex-general, mas acabou gostando da ideia de avisar aos sayajins que a Terra não era mais deles.
E naquela mesma noite, no salão principal da fortaleza que fora de Bardock, os três aspirantes a imperadores do universo davam uma pequena festinha para as tropas de Freeza que chegaram ao planeta naquele mesmo dia.
— Nós deveríamos estar treinando. - Cell disse entediado em seu trono enquanto olhava o espetáculo no salão. - Você não decidiu que ficaríamos nesse planeta idiota pra isso?
— E nós vamos treinar, Cell, tenha um pouco de calma... - Freeza, que estava sentado no trono ao lado, retrucou sem tirar os olhos do salão. - Por enquanto, aproveite esse prazeroso deleite... Já é noite.
— Você é um fodido doente... - Cell disse com desgosto tomando um gole do vinho que um escravo lhe oferecia e cuspindo em seguida.
— Que porra é essa? - Cell indagou furioso após sentir o gosto do vinho alterado.
— É vinho, meu caro. - Freeza explicou sem olhá-lo.
— Isso não é vinho! - o mostro verde retrucou. - Vinho era o que o velhote do Maki Gero nos dava. O que você pôs aqui? Não é veneno, não é? Se for, eu o mato agora mesmo.
— Cell, deixe de ser estressado. Isso faz mal pro fígado, sabia? - Freeza disse ainda sem dar atenção. - Você podia ser como nosso colega Boo que apenas se interessa pela mesa de comidas. - observou ao ver o demônio rosa que devorava tudo que estava sobre uma mesa ali perto.
— Não mude de assunto, o que pôs no vinho? - Cell indagou ainda reticente.
— Sangue. - Freeza respondeu voltando a atenção pro salão. - Sangue sayajin. Matamos muitos hoje, tenho um estoque gigantesco.
Cell olhou enojado para a taça em sua mão.
— Você bebe sangue? - Cell indagou com desagrado. - Realmente você é doente...
— Que seja. - Freeza respondeu inabalável lambendo os lábios ao ver no salão um casal de humanos que eram trazidos enquanto ele autorizava que seus soldados os atacassem. - Vamos aproveitar o espetáculo, caro Cell.
Cell olhou a cena com absoluto asco. Ele podia contar mais de vinte terráqueas e terráqueos sendo torturados pelos soldados de Freeza. Ele não via graça nenhuma naquilo.
— Nós estamos perdendo tempo vendo esses seus soldados infantis brincando com esses seres fracos. Que coisa inútil de se fazer.
— É uma pena que seu gosto não seja tão refinado, caro Cell. - Freeza replicou em tom de falsa pena. - Não consegue ver a beleza disso? Não consegue sentir o quanto é excitante ouvir esses gritos de dor?
— O que vejo é uma cena nauseante. - Cell replicou com desgosto. - Você é louco. E tem razão, pelo menos Boo prefere os doces.
— Não acha essas criaturas belas? São lindas. Imagine então a princesa dessa raça... - o tirano murmurou de forma inaudível em um tom sonhador.
— Não vejo nada de lindo nisso. - Cell falou por fim, levantando-se. - Não vou ficar aqui olhando isso. Lembre-se que nosso objetivo é alcançar a forma perfeita antes de enfrentarmos os sayajins, eles são poderosíssimos e não pretendo morrer antes de ser imperador do universo. Pode ficar aí com seu showzinho de horrores, eu e Boo vamos treinar lá fora.
— Façam o que quiserem. - Freeza disse ainda hipnotizado pela cena do salão. - Quando terminar eu os alcanço, mas apenas quando eu terminar...
Cell olhou novamente com desgosto para o changeling e saiu pisando duro, tirar Boo de perto da mesa de doces ainda seria uma grande batalha.
Freeza só apareceu para treinar na manhã seguinte. Enquanto seus soldados terminavam de purgar o planeta ele treinaria com Cell e Boo.
Isso por que o lagarto havia decidido que seria perda de tempo viajar até seu planeta de gelo, poderiam esperar na Terra mesmo o desenrolar dos acontecimentos, enquanto os passos de seu plano eram completados.
E enquanto isso não acontecia, os três vilões lutavam entre si quase destruindo o planeta. Cell e Boo tinham um prazer mórbido em bater em Freeza, mas assim como os outros, Freeza também estava tornando-se mais forte no treinamento. Como Cell havia mencionado, o objetivo deles era chegar a suas formas perfeitas antes do ataque aos sayajins.
Quem observava tudo o que acontecia era a velha vidente Uranai. A velha senhora observava a destruição da Terra e o treinamento dos vilões pela escotilha de sua cela na fortaleza ocupada por Freeza. Ela já estava quase sem forças. Depois que Freeza descobrira que a herdeira da realeza terráquea e o filho do rei sayajin estavam vivos, o lagarto deixou de confiar na vidente e como castigo passou a degustar o sangue da velha quase diariamente, ele ainda tinha a esperança que pudesse alcançar os dons da mediunidade e vidência se consumisse o líquido vital de Uranai.
Por isso, na noite seguinte à noite fria em que a nave com o corpo semimorto de Bardock partiu para Vegetasei, Uranai estava em sua cama tentando desesperadamente dormir. Dormir, sonhar e tentar algum vínculo com seu irmão Kame. Ela não sabia se era por sua falta de forças pelas constantes sangrias ou se era algo relacionado ao irmão, o certo é que fazia muito tempo que não conseguia se comunicar com ele, por mais que tentasse.
E sentindo que seu fim estava próximo, pois não aguentaria as sangrias por mais muito tempo, ela sentia uma necessidade vital de contatar o irmão e avisar-lhe sobre as pretensões do terrível vilão gelado.
Aquela noite em especial, ela se esforçou o máximo que pôde, e após rolar na cama por horas e de concentrar-se o máximo que podia, a velha finalmente adormeceu.
— Kame? Kame? Está me ouvindo? - Uranai gritava o máximo que podia para três vultos ensombrados que se aproximavam no horizonte. - KAME! - ela gritou com emoção ao ver os vultos ficarem mais nítidos e perceber que realmente entrara em um sonho do irmão. Nele, o velho caminhava na praia ladeado por duas belas moças de biquíni enquanto cada mão do velho estava bem cheia e apertada nas nádegas das moças. - Kame! Kame! - Uranai chamava e gesticulava para Kame. - KAME, SEU VELHO TARADO, ME ESCUTE! - ela gritou com toda força que podia finalmente fazendo o velho olhar em sua direção, ele até tirou os óculos para tentar enxergá-la.
— Uranai? – o Mestre perguntou contente ao mesmo tempo em que as garotas de biquíni que estavam ao seu lado desapareciam no ar.
— Ah, você me viu, irmão! - Uranai disse contente aproximando-se. - Kame, aproxime-se, é urgente. Urgente e importante.
— O que foi Uranai? - Kame indagou preocupado.
— Ele, Freeza, ele conseguiu armas poderosíssimas que poderão destruir os sayajins. – disse apressada. - E ele vai atacá-los, assim que o general e o príncipe se enfrentarem.
— O que? - Mestre Kame indagou confuso. - Eles não vão se enfrentar, são amigos...
— Cale-se e escute o que falo. - ela disse impaciente. - Eu vi os dois se enfrentando em um combate de morte. Você tem que impedir isso. Entendeu?
—Isso não vai acontecer... - Mestre Kame replicou descrente, embora um pouco temeroso.
— Vai, V-ai... - Uranai respondeu sentido a respiração ficar difícil. - Pro... P-prometa, K-kame. - a vidente pediu sentindo o ar faltar cada vez mais.
— Uranai, o que você tem? - Mestre Kame perguntou preocupado vendo a irmã cair com a mão sobre o peito, sua pele ficando arroxeada.
— P-por favor! N-não d-deixe... - ela falou com as últimas forças que conseguiu ao mesmo tempo em que a imagem de seu irmão virou um grande borrão a sua frente.
Um borrão que aos poucos se transformou em uma visão conhecida. Conhecida e horripilante.
Os terríveis olhos roxos de Freeza lhe observavam de um modo assassino.
— Então, me traindo novamente... - o vilão constatou enquanto tinha as mãos em torno do pescoço da vidente quase a sufocando. - É bom saber que haverá mesmo um combate mortal entre os dois macacos. E sabe, acho que não preciso mais de você, vidente... - ele falou maldoso observando o olhar apavorado de Uranai. - Só não posso desperdiçar um sangue como o seu... Quem sabe eu não adquira seus dons tomando-o todo? - o lagarto indagou ao mesmo tempo em que soltava o pescoço de Uranai, e por um segundo a vidente sentiu uma ponta de alívio, o que durou apenas até ver os olhos de Freeza se estreitarem.
O lagarto sorriu e em menos de um segundo cravou seus dentes curtos e afiados no pescoço da vidente. Uranai arregalou os olhos quando a dor veio e enquanto suas forças iam embora à medida que seu líquido vital era tomado pelo monstro que a atacava.
Quando Freeza terminou, limpou a boca suja de sangue e jogou o corpo de Uranai no chão como um trapo velho. A vidente estava morta.
— Senhor, senhor, acorde... - Nadesna chamava sem jeito enquanto pegava o braço musculoso de Kakkarotto. A jovem serviçal estava muito envergonhada de entrar no quarto do patrão, que estava completamente nu na cama, apenas parcialmente coberto por alguns lençóis, no entanto, ela precisava avisar ao seu patrão dos últimos acontecimentos e já estava na metade da tarde e ele ainda não acordara. - Senhor, acorde... - ela pediu novamente tocando o ombro do agora ex-general, Kakkarotto mexeu-se um pouco e abriu os olhos vagarosamente.
— Bulma? - ele indagou sonolento levando uma das mãos até a mão de Nadesna fazendo um carinho.
— S-senhor, não é lady Bulma, sou eu, Nadesna. - a serviçal disse estremecida pelo toque do sayajin.
Kakkarotto abriu os olhos completamente ao ouvir a voz da serviçal.
— Onde está Bulma? - Foi a primeira pergunta que ele fez. Havia um tom de preocupação nela.
— Lady Bulma saiu, senhor. - Nadesna respondeu temerosa vendo Kakkarotto sobressaltar-se e sentar-se na cama. Ela evitou olhá-lo, pois o lençol que estava sobre ele não cobria mais quase nada.
— Onde ela foi, Nadesna? - o sayajin perguntou preocupado.
— Senhor, ela foi ao centro do Distrito comigo mais cedo. Lá, ela partiu para o castelo com alguns guardas. - Nadesna explicou nervosa.
— Nadesna, você a levou ao centro do distrito? - Kakkarotto perguntou irritado. - Que coisa estúpida, garota! - ele disse levantando-se sem se importar que seu corpo estivesse agora totalmente descoberto. - Bulma não deveria ter saído dessa casa e se saiu foi por culpa sua! - falou muito grosso. - Pensei que você mais confiável, Nadesna... - disse em tom de repreensão.
— Desculpe-me, senhor... - Nadesna respondeu com o olhar baixo, arrasada. - Ela quis ir por conta própria para o Distrito.
— E se os guardas a pegaram? Se fizeram algum mal a ela? Nunca vou perdoá-la se isso tiver acontecido! - Kakkarotto disse furioso encarando a serviçal e apertando-lhe os dois braços com força, quase a sacudindo.
Nadesna estava apavorada. Porém, começou a sentir raiva pela atitude do patrão. Ela havia feito tudo para ajudá-lo e ele estava cego por conta da obsessão pela mulher de cabelo azul.
— Senhor, eu fiz tudo para ajudá-lo. - falou séria, encarando o ex-general com o tom de voz mais alto do que jamais usara na presença dele. - Ela não quis ficar e eu não ia obrigá-la. Ela foi para o castelo por livre e espontânea vontade... Se quiser confirmar, leia o bilhete sobre a cômoda, mas não me culpe por ela abandoná-lo!
— Saia daqui. - Kakkarotto ordenou muito sério, soltando os braços da serviçal. Nadesna o olhou por um instante, magoada. Ele evitou o olhar dela.
Quando Nadesna saiu batendo a porta, ele foi até a mesa de cabeceira e abriu o bilhete que Bulma havia deixado.
Kakkarotto,
Ontem à noite falei sério, não posso mais viver à sombra de meus sentimentos por você e por Vegeta, por isso vou ao castelo, vou convencer Trunks a me acompanhar e vou embora de Vegetasei. Não posso viver eternamente nessa dependência de vocês.
Saiba que o amo e agradeço infinitamente por tudo que você fez por mim todo esse tempo. Mas você sabe que meu amor jamais será completamente seu. Eu não sou o grande amor da sua vida, você não é o grande amor da minha, vou sentir sua falta, mas é assim que tem que ser.
Eu imploro que não me procure, isso complicaria muito as coisas e também não resultaria em uma volta, pois nosso tempo acabou.
Nunca esquecerei você, mas você deve me esquecer.
Adeus.
Amor,
B.
Kakkarotto releu o bilhete dezenas de vezes e quanto mais lia, mais o papel ficava molhado com as lágrimas que escorriam dos olhos do guerreiro.
Ela estava lhe deixando, lhe deixando para sempre.
E enquanto ele olhava aquelas palavras escritas na caligrafia rebuscada dela, ele não podia deixar de pensar que novamente os deuses estavam lhe castigando por trair sua honra de guerreiro.
Bulma passou o restante da tarde trancada em seu quarto tentando aceitar a ideia de que estava novamente grávida. Aquilo era louco demais pra ela. Era desesperador.
Colocando as mãos sobre o ventre esguio, ela tentava absorver que ali crescia lentamente uma nova vida. A cientista só podia conceber aquilo como uma brincadeira de mau gosto do destino, ou pior, como uma punição aplicada pelos deuses. Sim, ela concluiu que era uma punição. Um castigo por ser uma mãe inconsequente que deixou a luxúria prevalecer nos braços dos dois sayajins.
Por isso, agora ela carregava novamente uma consequência de seus atos. Uma criança que não era culpada das besteiras que ela tinha feito, mais alguém para sofrer como Trunks sofrera a vida toda. Mais uma criança para crescer sem pai, pois apesar de haver duas possibilidades, ela nunca saberia dizer qual era a verdadeira, e essa criança, com certeza, seria rejeitada pelos dois.
E assim como quando engravidara de Trunks, novamente ela se via na necessidade de lutar para proteger sua cria. Precisava fugir novamente se quisesse que seu novo filho pudesse nascer em segurança, longe da fúria de sayajins ciumentos. Isso por que no momento em que descobrira que estava grávida novamente, da mesma forma que fora com Trunks, ela abraçara imediatamente o filho que havia lhe sido concedido, mesmo que naquelas circunstâncias. A criança não tinha culpa de nada e Bulma decidiu que a amaria assim como amou seu primeiro filho.
Por isso, ela concluiu que precisava urgente colocar seu plano em prática. Outra vez, era seu destino tentar fugir daquele castelo que ela tanto amava.
Os pensamentos de Bulma foram cortados quando alguém entrou sem bater. Por um instante de terror, Bulma achara que era Vegeta buscando os direitos que ela prometera. Mas, pouco depois, o pequeno corpo de Trunks pulando sobre a cama a encheu de alívio.
O menino deitou ao lado dela e a olhou sério.
— O que você está pensando, mamãe? - ele indagou deitado ao lado dela encarando-a com um olhar desconfiado.
— Nada demais, meu amor. - Bulma mentiu tentando parecer calma. – Sabem, eu queria mesmo falar uma coisa com você. - ela começou.
— Pode ser depois? - Trunks indagou já se levantando. - Papai está chamando pro jantar e ele parece bem impaciente.
— Trunks, você vai continuar chamando Vegeta de papai? - Bulma perguntou preocupada, o menino estava se apegando rápido demais.
— Claro, mamãe. - Trunks replicou sentando-se na cama. - Ele é meu pai mesmo que você e tio Kakkarotto tenham dito o contrário. - falou com um pouco de mágoa.
— Trunks, eu... - Bulma começou envergonhada sentando-se também.
— Não precisa dizer nada, mamãe. - Trunks a interrompeu. - Ontem, quando procurávamos você nos monitores, papai me disse que você só fez isso para me proteger, que você achava que ele pudesse fazer maldades comigo...
— Vegeta disse isso? - Bulma perguntou realmente impressionada.
— Disse. - Trunks confirmou sem dar muita atenção. - Mas ele disse que nunca mais faria mal nem a mim nem a você.
Bulma engoliu em seco. Ouvir aquelas palavras de Trunks era algo inacreditável. Vegeta assumindo a culpa por algo era quase impensável, por um momento ela ficou estática, só pensando impressionada naquilo.
— Mamãe? - Trunks chamou ao ver a mãe com o olhar perdido. - Mamãe, vamos. Papai vai reclamar...
— Ah, sim, querido... - Bulma disse saindo do transe. - Me deixe apenas me arrumar um pouquinho... - Ela falou indo até o espelho e arrumando os cabelos.
Em poucos minutos ela saía pelos corredores de mãos dadas com o filho.
Bulma nunca imaginou que viveria aquele dia.
Andar pelo castelo naquele começo de noite de mãos dadas com um filho seu e de Vegeta, mostrando cada cômodo, cada corredor, contando histórias do que já tinha passado ali, era algo que ela nunca antes poderia ter concebido.
Trunks ouvia atentamente os relatos da mãe, e por alguns instantes, Bulma esqueceu todos os problemas e mergulhou em um mundo de lembranças de sua infância feliz, contando a Trunks algumas pequenas histórias que vivera naqueles corredores.
— Ah, e ali foi onde eu quase me afoguei uma vez... - Bulma falou do corredor apontando para a fonte no meio dos jardins. - Mas, seu pai me salvou... - ela falou meio sem jeito.
— Então papai não fazia só coisas ruins com você... - Trunks constatou satisfeito.
— Em primeiro lugar, eu nunca teria entrado naquela fonte se seu pai não tivesse jogado meu alicate dentro dela... - Bulma corrigiu com esperteza fazendo o filho murchar um pouco o entusiasmo.
Então, os dois continuaram caminhando mais um tempo e conversando sobre o passado dos pais de Trunks no castelo. Como Bulma conhecia os corredores de olhos fechados, logo estavam em frente às portas do salão de jantar.
Trunks abriu a porta e puxou a mãe pelo braço. Bulma estava relutante.
— Já não era hora... - Vegeta disse impaciente assim que os dois entraram. O rei estava de pé próximo a uma janela com mais quatro pessoas, logo Bulma identificou uma delas como o príncipe mais novo.
— Tarble? – a cientista indagou emocionada ao ver o "irmão" mais novo. Soltou a mão de Trunks, que estranhou um pouco e andou até Tarble abraçando-o efusivamente. O sayajin retribuiu o abraço. - Que saudade! Que bom que está bem! Achei que tivesse sido sequestrado... - Bulma falou enquanto abraçava o "irmão".
— Eu fui, mas me resgataram. - Tarble disse enquanto a abraçava, igualmente emocionado. -É bom saber que você está bem, achei que estivesse morta.
— Chega de abraços. - Vegeta comentou irritado enquanto olhava o abraço apertado dos irmãos.
— Também acho. - Trunks completou olhando atravessado para o tio que não conhecia.
Bulma soltou o abraço do irmão ainda olhando-o emocionado. Tarble olhou Trunks ao lado de Bulma, o menino tinha os braços cruzados e parecia aborrecido.
— Esse baixinho aí deve ser meu sobrinho. - Tarble disse aproximando-se de Trunks e fazendo uma reverência.
— Eu não sou baixinho... - Trunks retrucou mal humorado.
— Com certeza é meu sobrinho, - Tarble concluiu contente. - Vegeta, ele fala igual você.
— Vamos parar com essa palhaçada. - Vegeta replicou irritado. - Trunks, esse é Tarble, meu irmão mais novo, não é grande coisa, mas é seu tio. – disse apresentando o irmão ao filho.
Após a apresentação, Trunks olhou diferente para o tio e baixou a guarda.
— Prazer em conhecê-lo, senhor. - o menino disse educadamente.
— O prazer é todo meu, garoto. - Tarble disse afagando os cabelos de Trunks.
Bulma, que percebeu estar ao lado de Vegeta enquanto olhava a cena, afastou-se e cumprimentou Pirza e Marvin que também estavam ali. Pirza estava quase chorando ao vê-la. Por fim, quando Tarble terminou de apresentar-se à Trunks, ele voltou-se novamente para Bulma para apresentar Ângela, a garota ruiva que estava meio encolhida próximo a eles.
— Bulma, essa é Ângela, - o príncipe disse ao pegar a mão da garota ruiva com delicadeza. - Eu a escolhi como companheira e vamos nos casar.
Ângela aproximou-se um pouco relutante e cumprimentou Bulma com uma reverência.
— É um prazer Ângela, mas não precisa fazer reverência. - Bulma respondeu quando a garota a cumprimentou.
— Desculpe, mas é que eu nunca conheci uma rainha antes. - Ângela disse um tanto nervosa.
De repente, todos ficaram sem jeito. Foi Bulma quem falou primeiro.
— Ângela, eu não sou a rainha. - Bulma disse um pouco constrangida. - Apesar de ter um filho com Vegeta, nós não somos casados...
— Oh, desculpe-me. - Ângela retrucou rubra de vergonha. - Eu pensei que...
— Qualquer um pensaria! - Pirza interrompeu para quebrar o clima tenso, olhando sorrateiramente para Vegeta. - Sabe de uma coisa, é melhor irmos pra mesa, por que todos esses sayajins devem estar morrendo de fome.
Assim, todos foram à mesa de jantar. Vegeta sentou à cabeceira, tendo Trunks em seu lado direito e Tarble de seu lado esquerdo. Bulma sentou-se ao lado do filho e de Pirza. O primeiro prato foi servido e um silêncio terrível pairou sobre a mesa. Na verdade, como Pirza prevera, os sayajins estavam mesmo famintos e enquanto Vegeta, Trunks, Tarble e Marvin devoravam toneladas de comidas, as mulheres comiam delicadamente. Foi Pirza quem quebrou o silêncio, ela sentiu que Ângela ainda estava muito nervosa, ainda mais depois da gafe que cometera e resolveu que era hora de reinserir a garota na conversa.
— Bulma, sabia que Ângela é terráquea como a gente? - Pirza começou.
— Nossa Ângela, eu não sabia. Isso é ótimo! - Bulma falou simpática, mesmo sentindo o estômago revirar ao olhar o ensopado à sua frente.
— Parece que os sayajins têm um fraco por terráqueas. - Tarble disse divertido olhando provocadoramente para o irmão, recebendo em troca um olhar fuzilante de Vegeta.
— Bulma, você não está tocando na comida. - Pirza observou alguns momentos depois ao ver que Bulma só remexia o prato sem comer nada. Vegeta prestou atenção.
— Eu estou sem fome... - Bulma disse a guisa de explicação.
— Mas, como? Você passou o dia todo sem comer! - Vegeta disse sem se conter.
— Já disse que não estou com fome. - Bulma replicou esperando que todos parassem. - Estou bem, só estou sem fome...
Pirza e Vegeta trocaram olhares desconfiados. O jantar continuou e Bulma comeu ao menos as saladas e as frutas como forma de não chamar tanta atenção. Todos quase não conversaram mais até o fim da refeição.
Quando terminaram, Tarble convidou a todos para irem até uma das salas de estar. Enquanto seguiam, Bulma aproximou-se de Vegeta que estava afastado dela, conversando com Marvin.
— Eu gostaria de conversar com você. - ela disse meio nervosa quando ele deixou de falar com Marvin e a olhou. - Queria conversar a sós.
Vegeta estremeceu um pouco com aquele pedido, não imaginava que ela ia aproximar-se tão cedo. Como era seu plano, ele estava dando espaço a ela.
— Vamos ao escritório ao lado. - ele falou indicando o caminho para uma porta lustrosa.
Trunks, que aprendia a jogar trickster com Tarble e Pirza, observou quando os pais caminharam-se para a sala ao lado. Ele já ia levantar para ir atrás dos dois, mas foi barrado por Marvin que lhe dissera que fora sua mãe quem pedira pra conversar.
O menino continuou então o que estava fazendo, sem, contudo, tirar a atenção da porta da sala ao lado.
Quando entraram na sala, Vegeta sentou-se no braço de uma poltrona e Bulma ficou de pé a sua frente, ela tinha as mãos juntas à frente do corpo. Vegeta a olhou curioso sobre o que ela queria conversar tentando tirar do pensamento a vontade de deitá-la sobre a mesa de escritório que havia ali e...
— Pode falar. - Ele disse meio rouco tentando não transparecer seus pensamentos.
— Eu queria falar sobre minha herança. - Bulma disse uma vez encarando os olhos negros do sayajin a sua frente. - Eu quero ter direito a ela.
— Pra quê? - Vegeta perguntou sem entender. Havia pensado em vários assuntos que ela queria tratar, mas nunca daquilo.
— Bem, eu tenho um filho agora e preciso pensar no futuro dele. - Bulma falou de uma vez mesmo sabendo da fragilidade de seu argumento fajuto.
— Você só pode estar brincando. - Vegeta estreitou os olhos em desconfiança. - Trunks não precisa de sua herança. Por Kame, ele é o herdeiro do trono. É a criança mais rica da galáxia...
— Bem, esse é o seu dinheiro. Não meu. Não o dinheiro que eu posso usar para cuidar do meu filho. - ela replicou.
— Eu não entendo. - Vegeta retorquiu confuso. - Você nunca ligou pra dinheiro, mulher. E além do mais, meus investigadores descobriram sua farsa com aquele moleque sobrinho do Bardock, você se tornou muito rica vendendo tecnologia pra mim através dele nesses sete anos. Você não precisa de dinheiro...
— Eu quero ter o que é meu por direito, Vegeta, só isso. - Bulma retrucou tentando se manter firme. - Quero independência e liberdade financeira, não quero ser dependente de você nisso. Eu não estou pedindo um favor, só estou pedindo o que é meu.
— Você só pode ter controle sobre a herança quando casar. - Vegeta argumentou com satisfação. – Essa é a lei.
— Eu estive estudando a lei e descobri que, visto que não posso casar-me nos termos dessa sociedade por que fui desonrada, - ela disse olhando-o significativamente e Vegeta estremeceu. - Eu adquiri minha emancipação de outra forma, através de meu filho. Então, basta uma rubrica do meu tutor, ou seja, você, e eu poderei administrar tudo. – ela falou citando a lei que tinha pesquisado tempos atrás.
Vegeta refletiu. Ele não entendia o porquê daquilo agora. Não entendia o que Bulma queria com a herança. Havia algo ali que o estava deixando bastante desconfiado. Contudo, em razão de seu plano atual, ele se viu na necessidade de fazer o que ela queria.
— Está bem. Pode ficar com tudo. - ele falou levantando-se e ficando frente a frente com ela, perigosamente perto. - Amanhã mesmo eu assino os papéis de transferência. - disse encarando-a tão de perto que seus narizes quase se encostavam.
— S-sério? - Bulma indagou nervosa após engolir em seco, o calor do corpo dele lhe estremeceu.
— Sério, mas na menor gracinha, eu embargo tudo, até a última moeda, entendeu? - Ele disse encarando os olhos arregalados dela. As bocas extremamente próximas.
— S-sim. - Bulma respondeu num sussurro, nervosa enquanto o rosto dele estava quase colado ao dela. Por um vago instante, ela já se sentia sendo beijada por ele.
— Que seja. - Vegeta respondeu após encará-la por um longo instante, saindo bruscamente antes que a vontade de tomá-la nos braços fosse insuportável.
Quando ele bateu a porta do escritório, Bulma desabou na poltrona que havia ali, tinha a boca seca e o coração acelerado, mas estava contente, a primeira parte de seu plano havia dado certo.
— Marvin, vamos ao salão do trono. - Vegeta ordenou sem olhar para ninguém quando passou pela sala de estar. - Tenho um assunto a tratar com você.
— Sim, majestade. - Marvin, que observava uma partida de trickster entre Tarble, Pirza e Trunks, levantou-se rapidamente e seguiu o rei. Os dois caminharam em silêncio pelos corredores até entrarem no salão do trono. Vegeta sentou-se à mesa de reuniões e apontou uma cadeira para Marvin que fez o mesmo.
— Tenho uma notícia para lhe dar, ainda é sigiloso, mas pretendo anunciar ao povo amanhã através do diário oficial. - Vegeta disse com o semblante fechado.
— E o que seria, majestade? - Marvin indagou preocupado ante o semblante fechado do rei.
— Kakkarotto não é mais meu general. - Vegeta anunciou com grande pesar. - Eu o condenei por alta traição por esconder Bulma de mim.
— Então ele foi... - Marvin começou estarrecido.
— Não, ele não foi executado. - Vegeta interrompeu. - Meu irmão intercedeu por ele, por tê-lo salvado do sequestro. Ele está vivo, mas não é mais ninguém nesse planeta. - completou com desgosto.
— E o que vossa majestade fará agora sem ele? - Marvin indagou perplexo.
— Quero que você seja o novo general. - Vegeta disse de forma direta.
Marvin calou-se por um instante. Não imaginava aquilo, não imagina aquela proposta, mas soube imediatamente qual seria sua resposta.
— Perdão, majestade. Mas terei de declinar desse convite. - Marvin respondeu seriamente.
— COMO? - Vegeta retrucou sem acreditar. - Isso não é um convite, imbecil, é uma nomeação. Você não pode recusar uma nomeação feita por mim! Você era um reles guarda do castelo e está sendo promovido a general! Devia estar aos pulos.
— Eu não posso ficar com a vaga do general Kakkarotto. – Marvin insistiu firmemente. - E temo que terei que desobedecê-lo quanto a isso, majestade. E aceito o castigo que me for aplicado. Mas não sou digno de ocupar o cargo que foi de um guerreiro tão admirável e de quem fui tão amigo. Seria desonroso...
— Não seja tolo! - Vegeta disse enfurecido. - Essa é a maior oportunidade da sua vida e você joga pela janela? Por Kame! Estou cercado de panacas!
— Não, Majestade. Está cercado por sayajins de honra. - Marvin replicou com firmeza. - Como disse, aceito meu castigo, mas não posso aceitar vossa oferta.
— Não haverá castigo! - Vegeta disse impaciente esparramado na cadeira da mesa de reuniões. - Se não quer o cargo, azar o seu, tem muitos sayajins querendo. Saia daqui! - ordenou rudemente.
Marvin levantou-se e fez uma reverência.
— Vossa majestade sabe que nenhum está altura dele. - Marvin comentou antes de sair, ao ver o rei extremamente pensativo.
Quando ficou a sós, Vegeta socou a mesa. Nunca imaginou como Kakkarotto poderia fazer tanta falta em sua vida.
Naquele mesmo instante, no subterrâneo do castelo, o refeitório dos guardas estava em polvorosa. As notícias recentes estavam causando calorosas discussões entre os guardas. A ordem de prisão do general, a volta do príncipe Tarble e a nomeação do príncipe herdeiro bastardo já havia sido exaustivamente comentado entre os guardas, contudo o assunto da noite era o retorno da mulher de cabelo azul que era sabidamente a mãe do filho do rei.
— Por um instante, eu achei que ele iria matá-la. - Spartaco comentava com dois capangas na grande mesa de jantar. - Mas logo vi que não faria, ela é muito gostosa...
— É, ele não vai matá-la sem dar umazinha antes... – o guarda ao lado de Spartaco falou zombeteiro.
— Vocês deviam se calar, imbecis. - um terceiro guarda que ouvia a conversa interrompeu. - Ela é nossa futura rainha e merece respeito. - o guarda falou e a maioria dos que estavam na mesa concordaram.
— Que nada, Asgar, a garota é apenas uma das prostitutas do rei... - Spartaco falou incrédulo. - Logo ele abusa dela, só não a expulsou ainda por causa do moleque.
— Só um idiota novato como você para achar isso, Spartaco. – Asgar replicou sem nenhum respeito por seu superior. - Você tem quanto tempo aqui no castelo? Dois anos?
— Tenho cinco anos. - Spartaco retrucou rudemente. - E já cresci aqui mais rápido que você que está aqui desde que se entende por gente e continua sendo um reles guardinha. - falou com uma risada de deboche.
— Por isso mesmo você não sabe que é Lady Bulma. – Asgar interpelou. - Se soubesse não falaria assim dela.
— E quem a vadia, é? - Spartaco desafiou.
— Só digo que ela é muito importante, a gente não fala sobre o que acontece no castelo. Respeitamos o código de honra. –Asgar respondeu com segurança. - Por hora, só aconselho a não fazer ou dizer nada contra ela, ou será pulverizado antes que possa descobrir o que aconteceu.
Todos os guardas antigos riram quando Asgar terminou de falar, apenas Spartaco e seus dois companheiros ficaram com cara de tontos. Depois disso, o chefe da guarda não continuou mais o assunto.
— Ei, chefe, quer saber o que aconteceu por aqui? - um guarda chamou Spartaco em um canto depois do jantar. - Eu posso dizer, sei tudo que esses idiotas sabem e ainda sei de algo mais.
— E o que seria, Orloff? - Spartaco indagou interessado.
— Se mudar minha ronda dos jardins para perto dos dormitórios das serviçais, eu conto tudo, senhor. - Orloff disse com um sorriso.
— Então acho que temos um acordo, meu rapaz. - Spartaco concordou acompanhando o guarda.
Orloff realmente sabia de tudo e mais um pouco. Aquela noite ele contou para Spartaco toda a história da garota que perdeu os pais e foi adotada pelo antigo rei. Contou da obsessão de Vegeta e de como o então príncipe tomou a irmã adotiva e como manteve um caso com ela após a morte do pai. E o que Orloff contou que muitos guardas não sabiam, ou se sabiam não comentavam, foi que ele era o companheiro ronda de Marvin em uma certa noite em que o rei entrou embriagado no quarto da torre do quarto andar. Contou o que aconteceu e tudo o que se seguiu a isso.
Spartaco viu uma ótima oportunidade naquilo. Um segredo como aquele precisava ser tratado com cuidado e podia ser sua ponte para alcançar um antigo sonho, bastava mover as peças certas. Por isso, quando Orloff o deixou naquela noite, o chefe da guarda pegou seu comunicador de mão e discou um número conhecido.
— Olá meu docinho, saudades do seu gostosão? Sabe, tenho um presente pra você. - Spartaco disse ao ouvir a voz feminina do outro lado. - É sim, se você for boazinha comigo, eu posso lhe dar a sua maior história...
Vegeta não voltou mais à sala de estar depois da conversa com Marvin. Somente após algumas horas no salão do trono pensando no que faria sem Kakkarotto, Vegeta resolveu que era hora de dormir. Já passava de uma da manhã e seus convidados já deveriam ter ido. Trunks e Bulma já deviam estar dormindo.
Ele teletransportou-se para seu quarto, mas ao chegar a ele e lembrar-se que Bulma dormia um andar abaixo, ele não resistiu à tentação. Afinal, não faria mal algum olhá-la só um pouco, ou quem sabe... Quem sabe ele não teria sorte grande e poderia agonizar de prazer nos braços dela, afinal, ela dissera que faria o que ele pedisse... Então, com esses pensamentos e cedendo à tentação, Vegeta se teletransportou para a varanda do quarto dela. Não queria assustá-la, por isso aproximou-se devagar, a passos lentos, muito nervoso e ansioso, mal contendo o desejo de vê-la e se possível de tocá-la.
Contudo, a excitação de Vegeta murchou, literalmente, assim que ele adentrou ao quarto. Realmente Bulma estava linda de camisola esparramada na cama, as coxas alvas descobertas, o decote mostrando mais do que devia. Estava deliciosa. Contudo, um pequeno empecilho evitava Vegeta de se aproximar, isso por que Trunks estava deitado ao lado da mãe, com um braço firmemente colocado em torno da cintura da cientista.
Vegeta xingou baixinho, mas depois deu um sorriso de lado, era de se esperar que o menino previsse que ele poderia ir ali. Vegeta só sentia-se abalado por perceber que o menino ainda não confiava nele. Então, baixando o ki para evitar que Trunks o visse e acordasse, ele olhou mais um pouco os dois e se afastou teletransportando-se em seguida. Quando ele sumiu, Trunks abriu os olhos e abriu um sorriso de canto, terrivelmente parecido como o de seu próprio pai.
A manhã seguinte amanheceu fria, o inverno aproximava-se de Vegetasei.
Bulma despertou sozinha na cama e quando foi tomar café da manhã um serviçal lhe avisou que Trunks estava na academia e que Vegeta estava treinando, ambos não estariam de volta antes do almoço. Enjoada, ela sentiu-se incapaz de ir ao laboratório aquele dia, até por que precisava ainda que Vegeta a anunciasse como chefe de tecnologia o que ela achava inútil visto que passaria pouco tempo ali, por isso não tinha disposição para iniciar seus trabalhos tão logo.
Enquanto tentava tomar café, embora nada descesse, um dos serviçais aproximou-se e entregou-lhe alguns papéis.
Eram os papeis referentes à sua herança, assim como um termo assinado por Vegeta onde ele lhe dava amplos poderes para administrar tudo: as joias e demais posses da rainha, a renda dos campos de Island, a mansão nas montanhas vermelhas e o que era mais importante para Bulma naquele momento: a nave 0087. Uma das melhores naves do planeta, uma nave que ela mesma ajudara a melhorar, uma nave capaz de navegar por meses no espaço sem necessidade de abastecer. Com aquela nave ela poderia cruzar o universo antes de ser encontrada por alguém.
Bulma sabia que a nave estaria em um dos hangares nas plataformas de lançamento e foi pra lá que ela se dirigiu logo após o café da manhã.
Bulma não apareceu para almoçar e quando Vegeta descobriu onde ela estava, ele teve certeza que a cientista estava armando algo. Trunks permaneceria na academia até a tarde. Portanto, Vegeta voltou a sala do trono para cuidar dos assuntos do governo durante a tarde. Precisava conversar algo muito sério com o filho, mas deixaria para o final do dia. Por enquanto, o problema pela ausência de Kakkarotto o estava deixando muito preocupado, embora a leveza de saber que Bulma e Trunks estavam em casa era uma sensação indescritível que até melhorara razoavelmente o humor do rei aquele dia.
Bulma terminou de avaliar a nave lá pelo meio da tarde. Comeu alguma coisa em seu quarto e saiu à procura de Trunks. Alguns serviçais lhe informaram que o menino havia chegado da academia, mas que não estava em seu quarto. Bulma o procurou nas salas de treinamento, salão de jogos, jardins e já estava muito cansada. Ninguém lhe dava notícias de Trunks. Então, quase no final da tarde, já tomada de preocupação, ela foi onde menos queria ir: a sala do trono. Contudo, antes de precisar entrar no salão, encontrou Vegeta que já vinha no corredor. Ela correu até alcançá-lo, Vegeta estava de costas e não tinha a visto.
— Vegeta, ei... - ela chamou ao se aproximar, ele virou-se sobressaltado.
— Você estava aí? - perguntou surpreso, não era acostumado a ser pego de surpresa. - Quando vai tirar essa geringonça que esconde o ki, mulher? - perguntou aborrecido pelo susto.
— Você sabe da pulseira? - ela indagou surpresa.
— Eu sei de tudo. - falou com segurança. - o que quer? - perguntou interessado.
— É Trunks, eu o procurei a tarde toda, ninguém o viu. - disse preocupada.
— Ele está bem, não se preocupe. Posso sentir o ki dele. - Vegeta falou sem fazer caso. - E todo mundo deve ter sentido o ki dele, só não quiseram avisar a você, afinal, ele é o príncipe...
— Isso é um absurdo!- Bulma disse revoltada. - Eu sou a mãe dele! Tenho todo direito de saber onde meu filho está!
— Acalme-se, mulher. - Vegeta falou divertindo-se com a raiva dela, adorava ver Bulma irritada. - Vou levá-la até ele, vamos.
Bulma ficou um pouco reticente mais acompanhou Vegeta, subiram até o último andar e por um segundo ela achou que o ex-amante a estava levando para alguma armadilha, por que estavam indo para uma parte deserta do castelo.
— É por aqui mesmo? - ela perguntou insegura quando chegaram próximo a um portão de grades que estava fechado com um grande ferrolho. - Essa é a única parte do castelo que eu nunca conheci. - ela reparou olhando as escadas atrás das grades. Nunca consegui abrir esse portão.
— Não conseguiu por que papai mandou fazê-lo para ser resistente a alicates de corte, - Vegeta explicou divertido enquanto abria facilmente o ferrolho do portão. - Esse portão foi feito pra ser aberto apenas com a força de um sayajin, uma precaução contra meninas bisbilhoteiras que poderiam se machucar lá em cima.
Bulma indignou-se, mais seguiu Vegeta que subiu as escadas. Quando chegaram ao outro piso, a cientista se viu maravilhada, estavam em um cômodo rodeado por máquinas, painéis e luzes. Bulma não sabia pra onde olhar primeiro.
— Fantástico! - ela exclamou olhando em volta. - O que são essas máquinas?
— É o sistema de alarme do castelo. - Vegeta explicou olhando Bulma, parecia uma criança novamente. - Ele gera um alarme que pode ser ouvido em todo o Distrito real, caso o castelo seja atacado, além de acionar todos os nossos sistemas de defesa, é claro.
— Que incrível! Quem criou isso?
— Seu pai. - Vegeta respondeu simplesmente, fazendo Bulma arregalar os olhos. Ele a admirou por um momento depois se lembrou por que estava ali. - Você não estava procurando Trunks? - ele indagou tirando Bulma de seu transe.
— Ah, sim. - Bulma disse sem jeito. - Onde ele está?
— Ali. - Vegeta falou apontando para um portão aberto atrás das máquinas. Bulma foi até lá e ele a seguiu. Quando passou pelo portão, Bulma se viu pela primeira vez no telhado do castelo. E viu Trunks lá na frente, sentado admirando o sol que já se punha no horizonte.
— Trunks... - Bulma chamou fazendo o menino sobressaltar-se e olhar para trás vendo a mãe se aproximar. - Está olhando o pôr-do-sol, querido? - ela indagou impressionada com a explosão de cores no horizonte, era ainda mais bonito que o pôr-do-sol da Ilha Cápsula.
— Não, mamãe. Eu estou olhando a cidade. - Trunks disse apontando para a vista lá embaixo. Dava pra ver o Distrito Real inteiro. - Não é incrível? - o menino indagou encantado.
— Um verdadeiro soberano é fascinado por suas terras, Trunks. - Vegeta disse satisfeito de seu filho ter o mesmo hábito que ele. O rei estava recostado em uma parede com os braços cruzados observando os dois.
Bulma permaneceu mais um pouco sentada no chão ao lado de Trunks até que o sol se pôs quase completamente.
— É melhor irmos. - Vegeta disse ao aproximar-se dos dois. - Está ficando tarde.
— Ah, claro. - Bulma disse levantando-se com a ajuda de Vegeta que lhe ofereceu a mão. Ela esquecera que ele estava ali. - Vamos querido, preciso falar com você. - ela completou para Trunks.
— Converse com Trunks mais tarde. - Vegeta interrompeu. - Eu tenho um assunto importante pra tratar com o menino agora.
— O meu também é importante... - Bulma replicou contrafeita.
— O meu é mais... - Vegeta afirmou com firmeza encarando-a.
— Calma aí, vocês dois. - Trunks disse levantando-se e colocando-se entre os pais. - Eu falo com os dois. Vou logo falar com papai, depois vamos jantar e falo com você, mamãe, antes de dormirmos, ok?
— Está bem. - Bulma respondeu desgostosa enquanto olhava o sorriso de vitória de Vegeta.
— Então vamos! - Vegeta disse colocando a mão sobre os ombros de Trunks e Bulma, teletransportando-se com eles. Deixou Bulma em seu quarto e em segundos, estava na sala do trono com Trunks.
— Então, papai, o que quer? -Trunks perguntou pro pai assim que chegaram.
Vegeta caminhou até o trono e sentou-se. Refletiu por alguns instantes, estava procurando a melhor forma de dizer aquilo, estava também tomando coragem.
— Trunks, eu... - ele vacilou um pouco. - Eu quero pedir permissão para cortejar sua mãe. - falou com decisão fazendo os olhos do filho arregalarem-se.
