O novo quarto era espaçoso e, de longe, mais silencioso que o dormitório da Grifinória, de onde Isis fora "despejada" a título de segurança não só dela, mas das demais alunas. Para disfarçar, os outros intercambistas também foram realocados em cômodos separados, sob uma desculpa qualquer, inventada por McGonagall. Não tinha do que reclamar. Recobrar a privacidade fora uma das melhores coisas que lhe acontecera desde que botara os pés em Hogwarts. Isso e o belo relatório sobre a mesa de centro, que iniciara pouco depois do sonho revelador com Underhill. O "relacionamento" com Snape era algo a parte.
A tentativa de terminá-lo vinha se provando tão trabalhoso quanto invadir a mente do antigo tutor, já que a pessoa que possuía o último pedaço do quebra-cabeça, tal qual as freiras costumavam dizer, evitava o Ministério como se evitasse a Praga. Lucius Malfoy não era visto há semanas, desde que comparecera à audiência disciplinar final do seu julgamento. E só quebrava o ciclo de sumiços com uma ou outra aparição ocasional, logo voltando aos retiros "terapêuticos" sabe-se lá onde.
Isis trocou a toalha por um roupão de seda e os cabelos se secaram sozinhos à medida que caminhava até a penteadeira. O reflexo se juntou ao do veludo verde-escuro do vestido, pendurado à porta do armário — um dos poucos que não manchara, simbolicamente, em festejos envolvendo comensais. A festa do Slug estivera às portas de um novo cancelamento. Aos olhos do mundo bruxo, sete comensais haviam cometido suicídio em grupo, sem motivo aparente, e quatros aurores ainda ocupavam as camas do St. Mungus. O caos reencontrara Hogwarts e, se não fosse pelo trunfo recém-descoberto, a bruxa estaria na rua.
A reuniãozinha do Slughorn aconteceria sob o pretexto do divertimento puro e simples; uma maneira de aliviar a tensão, porém só dos poucos escolhidos, é claro. McGonagall já tinha muito com o que se preocupar para dar importância a um jantar. A únicas medidas a serem tomadas seriam as de proteção, para que nenhum convidado de fora se mostrasse uma surpresa desagradável. Para todos os efeitos, Isis era uma dessas visitantes, enquanto uma Hannah enferma, bastante abalada com os acontecimentos em Hogsmeade, ficaria trancada no quarto após transferir seu convite a Cybele. E a menina só aceitara após ser convencida de levar a tal Chelsea, do Três Vassouras, de acompanhante.
Ao terminar de se maquiar, o relógio marcava dez minutos para as 20h, o que não foi visto como um motivo forte para fazê-la se apressar. Considerando o conjunto de fatores que envolviam sua presença "revelada" no Três Vassouras, esperara que o diretor da Sonserina não atentasse para um convite de última hora, mas Slughorn agira tão rápido que fora ela a ficar surpresa. Aceitara por sentir falta de ouvir música, interagir com pessoas acima de dezessete anos e de usar vestidos menos floridos.
Isis se vestiu sem pressa, voltando a se sentar na hora de calçar os sapatos, cujos saltos possuíam o formato de uma serpente, combinando com o torque prata que se destacava ao redor do pescoço, tal qual uma cobra prestes a morder a própria cauda. O decote em v do vestido, terminando entre os seios, favorecia-o ainda mais. Ao terminar de colocar o perfume na base do pescoço, deu uma última olhada no espelho e saiu do quarto. Não havia ninguém no corredor e cruzara com poucos alunos no caminho até a sala de Slughorn.
Os sons eram tão variados, confusos, que Isis parou em frente à porta aberta e repensou sua presença na festa. Afinal, o jogo de Underhill ao se mostrar "paciente" podia ser apenas isso, um jogo. Não havia garantias de que ele não tivesse alguém em Hogwarts a vigiando ou preparado para raptá-la.
Respirando fundo, adentrou a sala apinhada de convidados. Diferente da noite do jantar, onde os estudantes eram a principal decoração, o cômodo ganhara atrações extravagantes, tal qual a cortina verde que claramente ocultava algo alto e largo no canto esquerdo. O quarteto de cordas posicionara-se em frente, com seus violinos, violoncelo e viola, imersos em uma luz dourada saída dos lampiões flutuantes.
Isis não demorara a pegar uma taça de xerez, respirando com dificuldade no ambiente sufocante graças à quantidade de pessoas e da fumaça dos cachimbos; uma versão mais elegante do salão do Caldeirão Furado. Alguns rostos voltaram-se na sua direção, impregnando-a com uma sensação desconfortável de déjà-vu. O suor frio escorreu pela nuca e ela apressou o passo até a varanda, em busca de ar fresco. Já sentia a brisa fria quando ouviu um chamado.
— Srta. Blakeley — Slughorn a puxou para um abraço e Isis o retribuiu tão calorosamente quanto uma estátua de mármore —, fico feliz em ver que encontrou tempo em sua agenda para visitar minha humilde soirée.
— Sim, sinto-me cercada de humildade aqui. — Ela trocou a taça vazia por uma cheia.
— Venha, venha! Há muitas pessoas aqui querendo conhecer a famosa salvadora de Bourach Park.
— Famosa o quê? — A pergunta foi abafada pelo falatório, enquanto o professor a arrastava através do salão.
Ao se aproximarem de um grupo de rostos conhecidos, Isis virou a taça de uma só vez, afastando a fumaça baforada por uma bruxa que reconheceu como Fabularis Brevil; o cachimbo encaixado entre os lábios vermelhos. O vestido preto a cobria dos pés ao pescoço, quase um hábito de freira ajustado às curvas, contrastando com os cabelos grisalhos. Ao lado dela, Cybele deu-lhe um sorriso encabulado, sem imaginar-se frente a frente com Hannah, e Liam Murphy a encarava boquiaberto. "Essa, definitivamente, não será uma conversa fácil", pensou, à procura de outra bandeja de bebida.
— Terão que me perdoar por interromper a conversa, contudo sinto-me no dever de apresentá-los a Isis Blakeley. — Ela sorriu sem entusiasmo e recebeu olhares admirados de volta. — Os jornais vêm escrevendo artigo atrás de artigo sobre esta jovem notável. Você a conhece, não é, Liam, meu rapaz? Que reencontro emocionante.
O bigode de Slughorn tremeu diante da expectativa, que era tão grande que se esqueceu de apresentar os outros convidados.
— É um prazer conhecê-los. E Srta. Brevil, é uma honra conhecê-la pessoalmente. — Isis se adiantou, animada por mudar de assunto. — Ouvi falar muitas coisas boas sobre o seu instituto.
Ela distribuiu cumprimentos na esperança de retardar a animação do professor, mas não demorou para ele retornar ao assunto em sua ânsia incontrolável por tragédias.
— Não deve ter sido fácil, não? — disse Slughorn, forçando um tom melodramático que só convencia quem não o conhecia. — Os riscos que correu para salvar tantos. O que a motivou a empreender em uma aventura tão arriscada?
Isis detinha a atenção de todos no grupo e não sabia o que fazer com ela, já que, claramente, eles não tinham conhecimento do envolvimento íntimo com Underhill.
— Bem, eu... — a bruxa evitou o olhar de Liam e encontrou o de Snape, em um canto próximo à entrada — eu tive alguém para me ajudar a despertar. Estou muito feliz que esteja bem, Murphy. Com licença.
A incredulidade e os balbucios de Slughorn não a impediram de caminhar até a varanda, onde um casal de alunos aproveitava para se beijar, escondidos pelas cortinas. Uma encarada foi o suficiente para os dois saírem às pressas, deixando-a sozinha. Era uma noite sem estrelas, de vento frio, com neve ainda cobrindo toda a extensão do terreno de Hogwarts; o hálito condensava-se em uma fumaça esbranquiçada.
Como esperado, pouco depois de se apoiar no parapeito, uma sombra cobriu-a, interpondo-se entre ela e a sala lotada.
— Uma pena que esteja nublado — comentou ao sentir a capa resvalar no tecido do seu vestido. — Outro motivo para eu não gostar dessa época. — Ela virou o rosto na direção do professor e os lábios se curvaram em um sorriso discreto. — Me desculpe. — Snape semicerrou o olhar, inclinando a cabeça levemente de lado. — Primeiro pelo pequeno surto no banheiro. Você só queria ajudar, sei disso, mas sabe tão bem quanto eu que se expor tanto assim nos deixa vulnerável. E vivi nesse estado de vulnerabilidade por muito tempo, com a pessoa errada.
Ele cobriu a mão de Isis com a sua, ficando tão perto que a bruxa pôde experimentar a temperatura confortável emanada do seu corpo.
— E a segunda? — A voz aveludada por si só era uma carícia cálida contra a pele arrepiada.
— É menos uma desculpa e mais um "obrigada". Aquela noite, na mansão dos Malfoy — a mandíbula dele se retesou, indicando um cerrar de dentes —, o que me disse ficou na minha cabeça por um longo período. A princípio, pensei que quisesse me humilhar apenas por divertimento ou para desmerecer Erastus. — Um arrepio percorreu a espinha quando o vento penetrou o veludo. — Como era de se esperar, fiquei remoendo as suas palavras até me dar conta de que estava certo. Pode não ter sido o motivo principal para eu largar tudo, mas, de longe, foi um muito importante.
Isis levou a mão ao rosto de Snape, que não recuou apesar do toque frio ao afagá-lo.
— E lamento pelo tapa. Espero que — ela umedeceu os lábios, atenta ao belo contorno dos dele — me permita recompensá-lo, Severus. Se você quiser, é claro.
Ele levou os dedos ao metal gelado do torque, correndo-os do pescoço até o decote; calor irradiando do contato.
— Cuidado com o que oferece, Isis, e para quem oferece. — Os olhos dele brilharam com a insinuação, fazendo-a querê-lo ainda mais.
O professor levou a mão à face ruborizada de Isis, não só do frio, e ela o segurou, tomando o polegar entre seus lábios. Beijou-o devagar antes de acolhê-lo no calor úmido da boca, sugando-o sem desviar a atenção das íris negras que a fitavam com igual desejo. Ao roçar os dentes de leve, Snape fechou os olhos e engoliu em seco.
— Por Merlin... — Ele murmurou, voltando a encará-la ao receber um último beijo.
— Cuidado com o que aceita e de quem aceita. — Uma rajada de vento fê-la tiritar de novo, e Severus suspirou, retirando a capa em um movimento elegante e pousou-a nos ombros de Isis. — Sempre um cavalheiro, Snape.
— Professor Snape — corrigiu-a, dando um sorriso de canto.
Ela riu e, de repente, o momento dos dois foi interrompido. Mal tiveram tempo de se afastarem quando Slughorn ressurgiu, como se brotasse de um maldito círculo invocatório.
— Oho! Que dupla incomum temos aqui. Roubou uma de minhas convidadas de honra, Snape. — A velocidade com que Severus retornou à postura apática foi impressionante. — Deve estar bastante orgulhoso de reencontrar uma ex-aluna que representou tão bem nossa casa. Uma recompensa e tanto para um professor.
— Não sei se é uma recompensa à altura — disse Isis. Severus e ela se entreolharam por um instante. — Na verdade, acredito que minhas aptidões para retribuir tamanha dedicação possam ir muito além — acrescentou, levando a mão ao peito e sorrindo; o cinismo passando despercebido para o diretor da Sonserina. — Não acha, professor Snape?
— Circunstâncias não faltarão para isso. Agora que tomei conhecimento de suas habilidades, não restam dúvidas quanto ao alcance de seu empenho. — Slughorn concordava com a cabeça a cada palavra inflexiva do mestre de Poções. — Com o... estímulo correto, seu potencial pode atingir níveis indizíveis.
— Sábias palavras, Severus, meu rapaz. — Isis conteve o riso a muito custo. — Agora venham. Combinei um pequeno espetáculo para essa noite.
Slughorn a puxou de novo para a sala, antes de acomodá-la em um ponto privilegiado em frente aos musicistas e à cortina; os convidados formavam uma meia-lua, a uma distância considerável do "palco" improvisado.
Enquanto o professor fazia uma breve apresentação, o "perfume" de Snape serpenteou pelas narinas de Isis, que logo voltou a sentir sua presença, tão colada a ela que menos de um passo atrás os faria trombar. O coração batia forte, quase quebrando o esterno e saltando para fora. Queria sair daquele cômodo cheio e levá-lo consigo para o primeiro canto discreto que encontrasse.
As cortinas caíram, revelando um tanque d'água, e duas mulheres se aproximaram, a pedido de Slughorn. O fato de que uma delas era descendente de uma veela era inegável; a beleza beirava o surreal, atraindo suspiros da plateia. A outra também era bonita, porém chamava atenção por conta da quantidade de roupas que vestia, tapando o corpo. À medida que se livrava das camadas de tecido, sob olhares surpresos, ficou claro o motivo.
Slughorn pediu uma salva de palmas para o casal e se retirou, dando espaço para que a veela se posicionasse entre o tanque e a plateia. Assim que o quarteto de músicos se retirou, a outra mulher, cujo vestido de seda não escondia mais as guelras, galgou as paredes de vidro sem dificuldade; membranas finas ligando os dedos das mãos e dos pés. As luzes amareladas deram lugar a um tom frio de azul, focado nas duas enquanto o resto da sala imergia em escuridão. Isis fora obrigada a concordar com Slughorn quando uma voz sublime ganhou os ouvidos dos presentes: era um espetáculo.
Mesmo saído de dentro do tanque, o som emitido era tão límpido quanto a água a cercá-la — digno do canto dos sereianos —, servindo de base para os movimentos da veela; estes tão graciosos que ambas pareciam submersas. Isis mal piscava, acompanhando cada detalhe daquele show memorável, porém a carícia em suas costas roubou o foco. Ela respirou fundo, concentrada em conservar um semblante imperturbado. A pele guerreava entre o frio e o quente, palco de uma exibição interna que clamava pela devoção total de ambos artistas envolvidos naquela troca restrita.
Imagens da noite na Casa dos Gritos e no Três Vassouras povoaram sua mente; a ânsia de se entregar maior que o medo de se sentir desprotegida. Snape fora exposto as suas transgressões e não recuara. Por outro lado, a bruxa não recebera a mesma oportunidade da qual ele usufruíra. Podia dizer que o conhecia um pouco mais desde que voltara a Hogwarts, mas ainda era pouco, limitado pela pouca disposição do professor.
Quando se afastou, de súbito, do toque e do ajuntamento, encontrava-se rodeada de incerteza; a ofegância ganhando contornos de ansiedade em vez de prazer. Não conseguia pensar, cercada por tantas informações que a impediam de enfatizar o que importava de verdade. Cogitou retornar à festa e ignorar o receio, cogitou sair correndo e se abrigar na Sala Precisa, mas acabou permitindo que os pés a levassem de volta ao quarto.
A capa esvoaçava ao redor, envolvendo-a em uma nuvem formada pelo cheiro de Severus. Os pensamentos eram tão turbulentos — a pele brilhando de suor apesar do frio — que não ouviu os passos vindos de um ponto poucos metros atrás, seguindo-a ao longo dos corredores.
Isis entrou no quarto e caminhou até a lareira, acendendo-a. Em frente às chamas, ela abraçou o próprio corpo, levando o tecido preto até o nariz e inspirando fundo. Apesar de embriagada pelo cheiro, retirou-a com cuidado e a colocou sobre o sofá.
E se tivesse cometido um erro ao se envolver com Severus? Ele não era Underhill, tampouco considerava-o um santo. Aurora podia estar certa quanto à tendência a escolher aquilo que lhe fazia mal, e não queria transferir a dependência de um para outro. Por outro lado, Snape a escutava de verdade e, apesar do jeito ranzinza, considerava em cima de suas opiniões sem ofender sua inteligência ou fingimento. O professor não queria consertá-la ou sequer questionava negativamente as atitudes pregressas que tanto a envergonhavam.
Isis quis berrar o tumulto para fora do peito, porém de nada adiantaria; de nada alteraria a mixórdia de sentimentos conflituosos. Não havia maneira natural de suprimir o fascínio que, de tão intenso, tornara-se doloroso ao ponto de exigir consumação imediata e entrega incondicional, sem promessa de se extinguir.
A inspiração funda retornou ruidosa ao ambiente, deixando os lábios trêmulos, até que a movimentação próxima à porta captou sua atenção, seguida do som áspero do trinco se fechando. Ao erguer o rosto, avistou a silhueta parcialmente ocultada pela escuridão. A bruxa não soube o que dizer, acompanhando-o se aproximar enquanto as sombras dançavam no rosto sério de Snape.
