'Cause I don't wanna lose you now
I'm looking right at the other half of me
The vacancy that sat in my heart
Is a space that now you hold
(Mirrors - Justin Timberlake)
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Harry não se importava com o frio. Seu corpo estava aquecido pelo movimento e pela satisfação de poder se exercitar ao ar livre novamente depois de mais de um mês. Entre as nevascas e as tempestade do final de dezembro e começo de janeiro, Harry tivera que se contentar com polichinelos e corridas no lugar.
Finalmente, no entanto, aquele dia amanhecera agradável. Ainda estava bastante frio, mas pelo menos não ventava tanto e já não nevava há alguns dias. Era bom respirar ar fresco, pra variar. Além do mais, Harry sempre achava mais fácil espairecer enquanto corria. Sua atual investigação estava se provando mais estressante do que antecipara. Precisava descansar um pouco a cabeça ou enlouqueceria.
Tinha um pressentimento que estavam chegando perto de encerrar o caso. Estavam monitorando alguns possíveis esconderijos dos criminosos e era só uma questão de tempo até capturá-los. E então…
E então Harry finalmente poderia tirar algumas folgas e relaxar. Quem sabe não convenceria Draco a fazer outra viagem? Talvez até o convencesse a levar Scorpius junto. Sentia falta de passar algum tempo com o garoto...
Harry não fez aquele caminho de propósito. Estava tão absorto em pensamento que soltou uma exclamação de surpresa ao ver a velha senhora em pé, do lado de fora do jardim. Madame Manson estava toda agasalhada para aguentar o frio, mas não mexia em seu jardim àquela manhã, apenas se debruçava na amurada próximo à calçada, olhando para a rua. Provavelmente também estava aproveitando aquela manhã de trégua no tempo ruim. Ela avistou-o de longe e acenou.
Harry sorriu e meneou a cabeça para si mesmo, desacelerando conforme se aproximava.
"Bom dia, Madame Manson! Quanto tempo!"
"Sim, sim, já faz um longo tempo!" Ela assentiu, a face enrugada um pouco enrijecida pelo frio. "Achei mesmo que pudesse encontrá-lo esta manhã e já estava preparada para isso," ela falou, já se voltando para o interior da casa, seus passos lentos e pesados.
"Madame Manson…" Harry começou a protestar, mas a mulher cortou-o com um aceno de mão.
"Não é incômodo nenhum. Mas eu não recusaria uma ajuda. Meus músculos não cooperam muito nessa época do ano…"
"É claro, é claro," Harry falou, adiantando-se para ajudá-la a subir os degraus para o interior da casa. "Com licença," ele disse ao entrar.
"Fique a vontade, filho," a mulher disse, fechando a porta por causa do frio. "Espere aqui um instantinho, já vou pegar o que separei para você."
"Sem problemas."
Anos de treinamento fizeram com que Harry mantivesse as costas para a porta, olhando ao redor, a mão ao alcance da varinha. A cozinha estava um tanto escura e era mais bagunçada do que Harry previra. O cheiro também não era dos melhores e Harry quase se arrependeu de ter comido os quitutes da velha senhora das outras vezes. Enquanto olhava ao redor, Harry percebeu um movimento pelo canto do olho e virou-se em tempo de ver Madame Manson levantando uma panela de aparência pesada acima da cabeça num esforço que parecia ser tremendo, a julgar por sua expressão carregada.
"Madame Manson, o quê está tentando…" Harry já ia se oferecer para ajudá-la quando percebeu seu erro ao baixar a varinha. Tarde demais. Com um urro descomunal, a velha baixou a panela com força na lateral da cabeça de Harry, que cambaleou, levando a mão ao ferimento. Sentiu algo quente e úmido e soube que era sangue antes mesmo de ver. Ao encarar a velha senhora, percebeu que ela ainda segurava a panela, pronta para desferir outro golpe. Estupefato, Harry sentiu as pernas cederem conforme seus sentidos se esvaíam.
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Draco sempre se lembraria daquele mês de janeiro como um grande borrão de expectativa. E nem era do tipo bom de expectativa. Draco sentia-se na iminência de uma catástrofe. Havia muitas pessoas sabendo de seu caso (já não tão) secreto com Harry Potter. A qualquer momento o caldeirão explodiria. Alguém invariavelmente deixaria escapar algo, fosse por indiscrição ou acidentalmente, e então a matéria estaria em todos os tablóides, deixando que Draco lidasse com todo o dano colateral.
O fato de que Harry estava trabalhando demais também não ajudava. Ele dificilmente tirava folgas, chegava tarde e cansado praticamente todas as noites e saía cedo para trabalhar, inclusive nos finais de semana. Isso quando ele não varava a noite no Ministério. Além disso, ele andava bastante calado e pensativo, desde que iniciara a mais recente investigação super ultrassecreta.
Scorpius sentia bastante sua falta, já que eles dificilmente se encontravam, com essa rotina maluca. Draco sempre o consolava dizendo que os três fariam um passeio no parque assim que o tempo melhorasse, mas começava a duvidar se conseguiria cumprir a promessa. Aquilo estava se arrastando mais do que deveria.
Draco tentava não tirar conclusões precipitadas a respeito de tudo aquilo. Certamente Harry teria dito, caso estivesse perdendo o interesse nele, certo? Além do mais, ainda que eles não estivessem fazendo sexo com a mesma frequência de antes, eles continuavam dormindo juntos. Harry não se daria ao trabalho de aparecer nem mandar corujas avisando que se atrasaria, caso não se importasse mais. Caso tivesse se cansado daquele relacionamento às escondidas, cansado de esperar pacientemente até que Draco estivesse pronto para assumir o relacionamento deles publicamente...
A única boa notícia era que a mídia dera uma merecida trégua ao Salvador do Mundo Bruxo depois do sucesso de arrecadação para St. Hedwig e se voltara para outras celebridades e acontecimentos políticos, diante de algumas manifestações populares acerca da liberdade dos elfos domésticos. Isso devia acalmar os nervos de Draco, mas só fazia com que pensasse que se tratava da calmaria antes da tempestade.
Infelizmente, a falta de notícias aparentemente acabara por motivar a mais recente visita de seus pais na tarde daquele domingo.
"Impressionante," exclamou Lucius, examinando outro dos exemplares de Aritmancia que Draco ganhara de presente de Natal. Tratavam-se de livros restritos e muito raros que Draco vinha tentando comprar há anos, sem sucesso. Draco sequer se lembrava de ter mencionado sua dificuldade em conseguir autorização para importação até que Harry o surpreendesse com o presente. Lucius estava longe de ter o mesmo interesse do filho para o assunto, mas se havia algo que ele sabia reconhecer, eram raridades literárias. "Como você conseguiu pôr as mãos nessas preciosidades?"
"Hermione Weasley ajudou com a papelada," Draco respondeu casualmente. Tecnicamente, era verdade, já que a bruxa assumira toda a burocracia para tornar a surpresa possível.
"Muito impressionante, de fato," Lucius concluiu e Draco não sabia dizer se ele estava mais satisfeito pela nova aquisição para a biblioteca da família ou pelo fato de Draco estar colhendo frutos de suas amizades influentes.
Tampouco fazia diferença.
"Então…" Narcissa disse ao pousar sua xícara de chá delicadamente no pires, depois de esgotar as perguntas sobre a saúde e a rotina do filho e do neto. "Ouvi rumores de que sua ex-mulher está noiva do jovem Nott," ela arqueou uma sobrancelha. "É verdade?"
Draco suspirou, resignado, também abandonando sua xícara.
"Eles estão se conhecendo melhor. Até onde sei, não é nada oficial ainda. Até porque Theodore ainda tem alguns assuntos para resolver na Grécia antes de voltar de vez."
Theodore passava somente os finais de semana em Londres, já que estava concluindo algumas pesquisas bastante interessantes. Aquilo rendera várias correspondências entre ele e Draco nas últimas semanas, mas seus pais não precisavam saber dos detalhes.
"E como Scorpius está reagindo a tudo isso?" Narcissa perguntou, num tom que deixava claro o quanto ela desaprovava o envolvimento do neto na movimentada vida amorosa da mãe - na visão dela.
"Bem, eu presumo," Draco fez questão de deixar claro que não estava preocupado. "Theo leva jeito com crianças e sempre foi bastante responsável, pelo que conheço dele. Tenho certeza que ele seria uma ótima influência para Scorpius."
Narcissa examinou o filho atentamente.
"Para quem acabou de dizer que não é nada sério, você parece bastante parcial pelo rapaz. Por acaso está torcendo pelo casal?"
"Só estou dizendo que vou apoiar Astoria totalmente se ela quiser se casar com ele. Mas ainda é cedo para dizer."
Narcissa não pareceu muito convencida, mas não insistiu no assunto.
"Bem, pelo menos ela parece ter abandonado aquela perseguição estúpida a Harry Potter." Narcissa soltou um som de desprezo pelo nariz. "Honestamente, já estava ficando patético. É óbvio que Potter só estava sendo educado em retribuir as atenções dela. Ele obviamente é gentil demais para desfazer de alguém em público."
"Mãe…" Draco disse, em tom de aviso.
"Por falar nele," Narcissa desconversou, "como vão as coisas entre vocês? Eu estava mesmo comentando com seu pai um dia desses que faz tempo que não aparece nada no Profeta sobre vocês. Espero que não tenha acontecido nada…"
"Ainda somos amigos, se é o que quer saber," Draco interrompeu-a, esperando que aquilo encerrasse o assunto.
Naturalmente, era esperar demais que Narcissa largasse o osso assim tão facilmente.
"Bem, é um alívio saber disso," ela concedeu, "mas sinceramente não sei dizer quão empenhado você está nessa amizade, querido. Espero que saiba o quanto é importante manter a boa reputação perante a sociedade, afinal seu pai e eu trabalhamos duro para ensiná-lo. E veja só quantos benefícios isso já trouxe a você…" Ela acenou vagamente em direção aos livros que o esposo ainda examinava.
"Ele sabe, Cissy," foi a vez de Lucius interromper a esposa, sem se importar em levantar os olhos. "Ele só está sendo discreto, se ainda não percebeu."
Narcissa lançou-lhe um olhar atravessado, que o homem não chegou a ver. Ela sorriu para o filho.
"É claro que está sendo discreto, querido, e eu aprovo totalmente seu decoro, mas…" Ela hesitou por um momento antes de continuar. "Estive pensando… que talvez Potter possa ter outros interesses além dos publicamente declarados."
"Narcissa…" foi a vez de Lucius falar em tom de aviso, finalmente levantando os olhos o suficiente para lançar um olhar penetrante à esposa.
No entanto, a curiosidade de Draco fora aguçada.
"O que está tentando dizer, mãe?"
"Bem, ele tem se aproximado desde o período em que lecionou em Hogwarts e todos assumiram que ele pudesse estar interessado em Astoria, mas e se esse tempo todo ele estivesse interessado em você?" Ela examinou as unhas inocentemente enquanto Lucius suspirava e meneava a cabeça.
"Lá vamos nós…" o patriarca falou, colocando os livros de lado.
"Ora, não finja que não concorda comigo, Lucius."
"Perdão?" Draco soltou assim que recuperou a fala.
"Querido, ele nunca disfarçou um interesse particular por você, sempre implicando com você no colégio…"
"Ele…? O quê?" Draco tentou não soar tão afetado, mas falhou.
"... e então ele defendeu nós três após a guerra, e sei que ele teria feito isso por qualquer um no nosso lugar puramente por seu senso de justiça, já que nossa ajuda foi crucial para o desfecho final. Mas ele literalmente exigiu que fôssemos absolvidos, todos nós. E depois de todo esse tempo, ele pediu licença do Ministério para trabalhar em Hogwarts só por sua causa…"
"É claro que não foi por minha causa, mãe, ouça o que está dizendo!"
"Não, Draco, você deveria escutar o que estou dizendo!" Narcissa pareceu mais determinada do que nunca. "Draco, será possível que você não percebeu que ele está fazendo de tudo para conquistar você? Ou você só está se fazendo de idiota?"
Draco ficou sem palavras por um momento, estupefato. Virou-se para o pai, então, em desespero.
"Você concorda com… tudo isso?"
Lucius soltou o ar dos pulmões, pressionando a ponte sobre o nariz por um breve momento antes de encarar o filho nos olhos, projetando o corpo para frente.
"Eu não colocaria nessas palavras, exatamente, mas acho possível que sua mãe tenha razão."
Narcissa arqueou uma sobrancelha, empertigando-se em triunfo.
"Vocês esperam que eu flerte com ele para mantê-lo interessado? É isso?" Draco perguntou, indignado. "E então o quê?"
"Draco…" Narcissa suspirou, voltando o corpo para ele num sinal de empatia. "Sabe, eu sempre achei que você talvez… favorecesse o sexo masculino?"
Draco não pôde impedir o espanto em seu rosto. Ele relanceou brevemente para o pai, mas este parecia ocupado em desamassar um vinco em sua camisa de algodão egípcio.
"Desde quando?" Draco perguntou, ao que Narcissa encolheu os ombros, seus olhos ligeiramente mais brilhantes.
"Desde sempre. Você nunca falou sobre garotas. Nem mesmo quando você ainda confidenciava comigo, antes… Antes." Ela engoliu ruidosamente. "Você só falava sobre Potter."
"Eu namorei Pansy em Hogwarts," Draco apontou, desviando os olhos. "Vocês sabiam disso."
"E nunca demonstrou entusiasmo nenhum," Narcissa riu, sem humor. "Mesmo quando ficou noivo de Astoria, você não parecia apaixonado, apenas… obstinado. E quanto mais eu me opunha ao casamento, mais determinado você ficava. Nunca foi pela beleza dela ou qualquer outra qualidade dela que pudesse tê-lo atraído, foi? E você provou o quanto desprezada o próprio casamento quando aceitou o emprego em Hogwarts, novamente, contra nossa vontade. Um emprego que você mesmo nunca desejou. Quando vi as notícias sobre sua reaproximação com Potter, achei que você pudesse estar finalmente se encontrando, mas… parece que você faz de tudo para desencorajá-lo!"
"É o que acha?" Draco perguntou depois de engolir o nó que se formava em sua garganta.
"Sei que vocês tiveram suas diferenças no passado, mas acho que ele faria bem a você. E antes que diga algo, não estou dizendo isso só porque ele é influente, mas porque ele parece se importar com você. E com Scorpius, ao que me parece. Sei também que você está aproveitando sua vida de solteiro ao máximo com essas suas escapadas à noite, mas em algum momento você vai ter que sossegar. E, sejamos realistas, que melhor partido você poderia conseguir?"
Draco teve vontade de rir, mas não sabia exatamente de quê. Na verdade, estava totalmente perdido em meio a vários sentimentos conflitantes.
"Pai?" ele perguntou, ainda que evitasse encarar o pai.
Houve um momento de silêncio antes que Lucius se pronunciasse.
"Sua mãe e eu só podemos imaginar o que se passa na sua vida, filho. Houve um tempo em que temi que o passado estivesse cobrando um preço muito alto para você suportar e que você não seria capaz de superá-lo. Mas olhe só para você agora! Você tem se saído muito bem como pessoa e como pai, além de estar fazendo um ótimo trabalho cuidando do legado da nossa família. O que quer que você decida fazer, não acredito que seja capaz de nos desapontar. Você é perfeitamente capaz de encontrar seu próprio caminho sem precisar que eu ou sua mãe nos intrometamos."
"Lucius!" Narcissa exclamou, traída. "Achei que tínhamos entrado num acordo sobre isso!"
"A vida é dele, Narcissa, tenho certeza que ele sabe o que é melhor para ele. Nós só sabemos o que sai nos jornais e só Salazar sabe o quanto disso é real ou fabricado. Você já disse tudo o que queria dizer, agora deixe-o em paz e pare de se preocupar."
Antes que Narcissa pudesse esboçar qualquer reação além do choque pelo discurso do esposo, o ruído da lareira chamou a atenção dos três.
"Draco… Ah, sinto muito," Hermione Weasley falou, parecendo consternada ao notar a presença dos pais do loiro. "Sr. e Sra. Malfoy, sinto muito por interromper…"
"O que foi, Weasley?" Draco perguntou, alarmado ao notar como a garota parecia aflita, olhando de um rosto surpreso para outro, sem saber o que fazer. "Aconteceu alguma coisa?"
"Por acaso você sabe onde Harry está?" a bruxa perguntou de uma só vez.
"Há essa hora?" Draco piscou, confuso. Eram duas horas da tarde, Harry dificilmente saía do Ministério antes das oito, ultimamente. "Ele não está trabalhando?"
Weasley limitou-se a menear a cabeça, sua expressão mais carregada a cada segundo.
"Me avise imediatamente se ele entrar em contato, sim? Sinto muito, tenho que ir."
Ela sumiu sem mais explicações.
"Bom Salazar, que modos!" Narcissa exclamou, então reparou na expressão preocupada do filho. "Draco, o que significa isso?"
Draco levou a mão ao bolso da capa, retirando o galeão encantado que Harry lhe dera. Estava frio e ainda continha a mesma mensagem da noite anterior.
"Vocês têm que ir agora. Preciso fazer algumas ligações."
"Mas, Draco…" Narcissa insistiu, ao que Lucius atalhou.
"Querida, vamos. Depois nos falamos."
Draco não se lembrava de ter sentido tanta gratidão ao pai como naquele momento, enquanto assistia o homem arrastar sua relutante mãe para a lareira.
O restante daquele dia foi um completo pesadelo. A lareira de Potter estava bloqueada por algum motivo. Ele não respondeu à mensagem que Draco enviou pelo galeão. Draco demorou a conseguir chamar Weasley via Flu, pois aparentemente ela estivera tentando falar com todos que poderiam ter tido algum notícias de Harry.
"Ele não apareceu no trabalho hoje," Hermione falou, tendo convidado-o a entrar em sua casa para manter a lareira liberada, caso alguém retornasse suas ligações. Ela esfregava as mãos uma na outra. "Kreacher disse que ele saiu para sua corrida matinal e não voltou. Nossos patronos não encontram ele, por algum motivo. Os aurores estão revirando a casa dele por pistas e procurando nos arredores, Ron está com eles. Quando foi que falou com ele pela última vez?"
"Esta manhã, antes de ele sair para correr," Draco falou, o coração acelerado de medo. "Aquela bruxa que sempre entrega brioches para ele, Madame Manson…"
"Ele contou a você?" Hermione interrompeu-o, parecendo aliviada. "Também pensei nisso. Contei para os aurores tudo o que sabia sobre ela, eles disseram que procurariam por ela para saber se Harry passou por lá. Meu Deus, estou tão nervosa. Proudfoot disse que eles estavam no meio de uma investigação delicada. Os criminosos já tinham tido um encontro cara a cara com o time de aurores, sabiam que ele estava liderando a investigação, Harry não devia ter saído sozinho…"
Draco sentiu o estômago afundar.
"Se eu tivesse impedido ele…"
"Não, não faça isso consigo mesmo." Hermione interrompeu-o. "Você não tinha como saber."
Draco assentiu apenas para tranquilizá-la.
"Sinto muito por ter aparecido na sua lareira bem na frente dos seus pais…" Hermione falou, consternada.
"Não se preocupe com isso. Fico feliz que tenha me procurado."
"Não é só isso," Hermione gemeu, parecendo arrependida. "Os aurores fizeram um monte de perguntas. Não entrei em detalhes, mas falei que vocês são amigos muito próximos. É provável que você seja interrogado."
"Você fez bem em contar. Vou colaborar com a investigação como puder."
"Obrigada," Hermione piscou, afastando as lágrimas.
A bruxa garantiu que o avisaria assim que tivesse notícias e Draco voltou para a mansão com o coração apertado, carregado de remorsos, tanto pelo que fizera quanto pelo que deixara de fazer ou dizer. Ele devia ter sido a primeira pessoa a ser contatada naquela situação, não os Weasley.
Suas razões para ter mantido seu relacionamento em segredo durante todo aquele tempo lhe pareciam tão mesquinhas agora, tão pobres. Se algo acontecesse a Harry, Draco jamais se perdoaria…
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Demorou mais do que Draco previra, mas os aurores finalmente vieram até ele às sete horas daquela noite.
"Obrigado por nos receber, Sr. Malfoy," disse um dos oficiais com seriedade. Draco reconheceu-o como um sonserino mais novo, embora não recordasse seu nome. "E sinto muito por incomodá-lo a essa hora. Sou o Auror Malcolm Baddock e esse é o Auror Derek Stevens. Proudfoot deve se juntar a nós em alguns minutos. Gostaríamos de fazer algumas perguntas sobre Harry Potter."
"Sentem-se, por favor," Draco convidou. Baddock aceitou de imediato, porém Stevens permaneceu em pé, olhando ao redor com visível desconfiança e mantendo a mão próxima do bolso da varinha. "Em que posso ajudar?"
"Acredito que já esteja ciente do desaparecimento do Auror Potter esta manhã," Baddock mais declarou do que perguntou.
"Sim," Draco assentiu. "Hermione Weasley me contatou esta tarde."
"Quando foi a última vez que o viu?" Foi Stevens quem perguntou, claramente impaciente.
"Esta manhã, antes que ele saísse para correr. Por volta das seis horas da manhã."
Stevens e Baddock se entreolharam.
"O que vocês conversaram?" Baddock continuou. "Tente lembrar se suas exatas palavras. Qualquer detalhe é importante."
Draco assentiu, vasculhando a memória.
"Eu o convidei para o café da manhã, mas ele recusou. Disse que o tempo finalmente tinha melhorado, que sentia falta de correr. Eu tentei dissuadi-lo…" Draco interrompeu-se, lembrando que devia ser mais preciso. "Eu disse que ele era louco de querer sair num frio desses, mas ele riu e disse que eu não gostava de me exercitar, então não entenderia." Draco desviou os olhos, sentindo um nó na garganta.
Felizmente eles foram interrompidos pela chegada de Proudfoot, o que deu a Draco algum tempo para se recompor. Draco o reconhecia vagamente como um dos aurores presentes no resgate de Scorpius, quase dois anos atrás. Baddock inteirou o recém-chegado sobre o que ocorrera até então.
"O que você sabe sobre essas corridas dele?" Proudfoot assumiu o interrogatório, mantendo a expressão neutra.
"Ele costumava correr quase todos os dias, pelo menos até o tempo piorar. Sempre às seis da manhã. Levava por volta de cinquenta minutos, às vezes um pouco mais…"
"Sabe qual o trajeto que ele fazia?"
"Não faço ideia," Draco meneou a cabeça. "A única coisa que sei é que ele às vezes encontrava uma senhora pelo caminho, Madame Manson. Weasley disse que vocês já tomaram ciência disso."
"Você a conhece?"
"Não. Não faço ideia de quem seja. Harry disse que pesquisou sobre ela, ou algo assim, que era uma pessoa de confiança. Ela sempre insistia que ele aceitasse algo, pães, doces, esse tipo de coisa. Eu disse que era loucura, mas ele não me ouvia…"
"Mais alguma coisa?"
Draco meneou a cabeça.
"É tudo que sei," Draco falou, então lembrou-se. "Ah, ele também comentou que o feitiço de desilusão dele não funcionava com ela."
Stevens e Baddock se entreolharam novamente. Proudfoot assentiu e retirou algo do bolso. Era uma fotografia de uma mulher já bastante idosa. Ela estava imóvel, parecia estar dormindo.
"Você conhece essa mulher?"
Draco examinou a foto atentamente antes de balançar a cabeça.
"Creio que não."
Stevens soltou um som pelo nariz, ao que Proudfoot lançou-lhe um olhar de aviso.
"Sr. Malfoy, esta é Madame Manson. Ela foi encontrada morta em sua casa esta tarde."
Draco sentiu o sangue esvair de seu rosto, encarando a mulher novamente. Seu estômago gelou de pavor.
"Há evidências de que ela estava sob a influência da Maldição Imperius," Stevens falou e suas palavras soaram como uma acusação.
Draco fechou os olhos, a mente invadida por memórias que ele tentava reprimir há anos, de si mesmo lançando a maldição em Madame Rosmerta.
"Stevens," Proudfoot repreendeu, sua voz grave retumbando pelo aposento.
"Você não pode me dizer que comprou toda essa história, Proudfoot! Ele claramente está escondendo algo. Ele foi a última pessoa a vê-lo, conhece sua rotina e sabia da bruxa. Aliás, ele parece ser a única pessoa que sabia da existência dela, além dos Weasley!"
"E quanto à ela?" Draco se defendeu prontamente. "Ela pode muito bem ter comentado com alguém."
Stevens não parecia ter escutado, no entanto, pois continuou.
"Além do mais, todo mundo sabe que Malfoy é perfeitamente capaz de manter alguém sob Imperius." O Auror adiantou-se e tudo nele transparecia hostilidade. "Por que Potter procuraria você às seis horas da manhã?"
"Ele não procurou por mim há essa hora, ele passou a noite comigo," Draco esclareceu, segurando o olhar do homem, cujos olhos se estreitaram.
"O quê você está tentando...?"
"Sr. Malfoy," Proudfoot levantou a voz, fazendo um gesto para que Stevens recuasse. "Sinto muito em insistir, mas preciso saber com certeza se o Auror Potter tentou contactá-lo de alguma maneira."
Draco levou a mão ao bolso.
"Ele me deu esta moeda faz alguns meses," Draco ofereceu a moeda para Proudfoot. "Nós usamos para mensagens curtas. Eu mandei uma mensagem assim que soube que ele tinha desaparecido, mas ele não respondeu. Funciona como as moedas da Armada de Dumbledore."
Stevens e Baddock se aproximaram para observar a moeda por cima do ombro do Auror mais velho, estreitando os olhos para ler as letras minúsculas que diziam 'Onde está você?'
"Você se importa se levarmos?" Baddock perguntou, já retirando um envelope do bolso para guardá-la.
Obviamente, Draco se importava. Odiava ter que abrir mão da moeda, mas sabia que não tinha muita escolha. Além do mais, recusar-se a cooperar só faria alimentar as desconfianças de Stevens.
"Podem levar, claro."
"Sabe de mais alguém com quem Harry se relacionava ultimamente?" Proudfoot continuou, mantendo a compostura de sempre.
"Sua ex-esposa, talvez?" Stevens perguntou, sem se abalar pela cooperação do ex-Comensal.
"Eles não são próximos. Quero dizer, não costumam se falar ou trocar correspondência regularmente. Harry às vezes escreve para meu filho, mas duvido que isso seja de alguma relevância…" Draco achou por bem acrescentar, odiando a possibilidade de envolverem Scorpius naquilo.
Proudfoot parecia concordar, pois não fez mais perguntas sobre o assunto.
"Consegue se lembrar de mais alguma coisa que possa nos ajudar?" O auror pressionou. "Qualquer coisa? Tente se lembrar se ele mencionou algo estranho ultimamente, algo fora do comum..."
"O que você sabe sobre a atual investigação que Potter estava conduzindo?" Stevens interrompeu o colega com seu tom acusador.
"Absolutamente nada," Draco meneou a cabeça. "Nunca perguntei e ele só voluntariava informações quando encerrava os casos, então imaginei que ainda estivesse em andamento. Tenho certeza que vocês sabem o quão profissional ele era."
"Ninguém aqui está questionando o profissionalismo de Potter," Stevens atalhou novamente.
"Já basta, Stevens!" Proudfoot ralhou, porém Stevens não parecia nem um pouco intimidado.
"Ora vamos! Você realmente acredita nessa fachada de cooperação? Essa história está muito mal contada. Por que Harry nunca mencionou que estava se relacionando com esse…"
"Porque não é do nosso interesse?" Baddock atalhou.
"Você também acredita nessa merda, Malcolm?" Stevens soou traído. "Ele claramente está escondendo algo!"
"Eu pedi que Harry mantivesse nosso relacionamento em segredo, mas garanto que não estou omitindo nada agora," Draco falou, elevando o tom da própria voz. "Nós conversamos esta manhã e ele se despediu com um beijo. Quer que eu descreva o que fizemos na cama ontem à noite também? Não entendo como isso possa ser relevante, mas posso oferecer minha memória, caso vocês estejam duvidando da minha palavra…"
"Não será necessário," Proudfoot atalhou, se levantando e se colocando como uma barreira entre Stevens e seu anfitrião. "Sinto muito pelo meu colega. Tenho certeza que todos queremos a mesma coisa aqui: que Potter seja encontrado o mais rápido possível e que esteja bem." Ele olhou por cima do ombro ao dizer aquilo, então baixou o tom de voz novamente. "Por favor nos procure imediatamente caso alguém tente contatá-lo. Como pede o protocolo, peço também que não saia de Londres e procure permanecer em segurança, para que possamos encontrá-lo facilmente, se necessário."
Draco assentiu, levantando-se para acompanhá-los até a lareira. Assim que eles saíram, Draco se deixou desabar na poltrona, tremendo dos pés à cabeça.
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