Pigmentos de Amor

Kaline Bogard

Capítulo 44
A cor mais desejada

Festa!

Quando foi que Aburame Shino imaginou aquilo, mesmo em seus sonhos mais otimistas? O apartamento em que vivia, geralmente silencioso e vazio a não ser pela própria presença, naquele instante estava repleto de movimento. De vida! Era a primeira noite após a alta de Masako. E eles receberam as visitas das pessoas que mais ajudaram a passar os meses recentes.

Quando Shino e Kiba chegaram ao apartamento no fim da tarde, encontraram Naruto esperando à entrada do prédio, com sacolas de supermercado para preparar um super lamen, prato que começava a ganhar destaque no restaurante que trabalhava. O Beta passou todas as sacolas para Shino e fez questão de pegar a bebê.

— Parabéns, caras! Essa menina é linda pra caralho!

— Claro que é! — Kiba soou arrogante, estufando o peito. — É a minha filha, né? Botei capricho aí.

E assim subiram para o apartamento. Naruto ainda ficou sentado um tempo no sofá, ninando a criança antes de devolvê-la para Kiba e ir se apossar da cozinha.

Picava os legumes com ajuda de Shino quando as Inuzuka chegaram, vindo de carona com o noivo de Hana. O Beta não podia entrar, ele estava enrolado com um curso de especialização que tomava uma parte de seu tempo, mas ajudaria a melhorar a clínica que abrira com Hana. Ambos eram veterinários. Assim que o curso terminasse, viria jantar com a família da noiva.

— Olá! — Hana sorriu ao deparar-se com o irmão abrindo a porta. Masako descansando em seu braço.

— E essa menina linda aí? — Tsume adiantou-se e tomou a neta para si. — Quero dar uma boa olhada! As marcas do Clã estabilizaram?

— Sim! — Kiba sorriu. — Consegui acertar a técnica. Antes estava ficando meio fraquinho e durando pouco, porque fiquei com medo de usar muito chacra.

— Nossa técnica não machuca, Kiba. — A bronca veio em tom ameno, enquanto Tsume ia sentar-se no sofá junto com Hana. Ambas encantadas em poder, finalmente, pegar a menina a quem já amavam muito.

O garoto cruzou as mãos atrás da nuca. O que podia fazer? Estava se acostumando com a ideia de ser o pai de uma criança. O período que usaria para tal, o decorrer dos nove meses, foi abruptamente interrompido. Isso lhe trazia alguma insegurança. Masako era a chance de fazer tudo certo, da melhor forma. A criança seria a única filha de sangue, já que seu corpo nunca mais teria outra gestação.

Não permitiu que o pensamento o abatesse. Deixou a mãe e a irmã paparicando a filha e foi ver como andavam as coisas na cozinha.

— Valoriza na carne, Naruto! — Exigiu entrando no cômodo.

— Não seja esganado, Kiba! — O Beta riu. — Tenho a quantidade certa de cada ingrediente para manter o sabor perfeito.

— Me chamou de esganado? — Kiba parou ao lado de Shino no balcão de mármore e roubou pedacinhos de cenoura crua para comer. — O sujo falando do mau lavado! Não tem problema, eu pego a parte do Shino, porque ele é vegetariano.

— Opa, alguém vai quebrar a cara! — Naruto riu. — Vou fazer um pouco a parte para ele, para não ter sabor de carne. Vou sugerir pro Teuchi-san, porque tem muita gente aderindo ao vegetarianismo e a gente perde cliente se não tiver opções pra eles.

— Porra, Naruto! — O Ômega pareceu surpreso. — Não sabia que tinha essa veia para negócios.

— Alimentar as pessoas é importante. Quando gostam do meu lamen é a melhor sensação! Mas pra fazer negócios tem toda uma estrutura administrativa, to aprendendo pra caralho. Um dia vou abrir meu próprio restaurante.

Nesse momento o interfone tocou. Shino saiu do local para atender. Era Ino que vinha para jantar e ter a chance de conhecer a sobrinha por afinidade.

— Boa noite! — Exclamou exibindo uma cesta de palha com um belo bolo de chocolate recoberto com morangos. Aquilo estava se tornando marca registrada das visitas da Alpha. — Trouxe a sobremesa.

— Fique a vontade! — Shino cedeu espaço para que a amiga entrasse.

— Eu sempre fico!

Ela entregou a cesta e foi ajoelhar-se em frente ao sofá onde Tsume e Hana estavam, as mãos abrindo e fechando de vontade de pegar a pequena Alpha de bochechas gordinhas e niná-la um pouco. Mas Tsume fez de conta que não percebeu os olhares pidões que recebia das duas fêmeas e continuou com a neta nos braços.

A cena divertiu Shino um pouco. Ele próprio estava desejando embalar a filha. Fez isso, claro, tanto no hospital quanto no caminho até o apartamento. Mas depois teve que permitir que os outros também sentissem a criança nos próprios braços. Aquela trouxinha quentinha e cheirosa, que ressonava alheia ao mundo era a prova definitiva de que tudo estava bem.

Resignado, voltou para a cozinha levando consigo o presente de Ino.

— Caralho! — Foi a recepção de Kiba para a guloseima que logo atraiu seus olhos.

— Só depois da janta! — Naruto decretou.

— Não fode, cara! — Kiba resmungou. — Claro que eu sei disso, né? Esqueceu que a mamãe tá ali na sala? Se eu abrir a embalagem ela dá um teletransporte pra cá e arranca nossa orelha.

Exagero era uma das marcas registradas daquele Ômega, característica que encantava Shino. Quando seu companheiro fazia algo, era com intensidade. Não havia meio termo.

Isso incluía comer as cenouras cruas cortadas para o lamen. Teria que picar mais um pouco...

Ou a intensidade inesperada que surpreendia em momentos não tão adequados. Às vezes, maravilhosamente oportunos, como na noite anterior, lembrança que veio à mente de Shino naquele instante.

Ambos estavam ansiosos pelo dia seguinte, pela chance de ir buscar a filhotinha e trazê-la para casa. Parte dessa inquietação foi dissipada depois de uma rodada intensa de amor, ato que integrava a rotina do casal conforme os dias passavam. Então, aquele relaxamento natural que vinha em seguida, Kiba descansando saciado sobre o peito de Shino, o rosto captando o calor familiar e as batidas calmas do coração, um contraste ao que captava pelo vínculo, um sentimento pesado que não combinava com o momento que dividiam.

— Se acalme — Kiba sussurrou sonolento — Vai dar tudo certo. Por que está tão nervoso?

Talvez incentivado pela essência tranquila que o envolveu, talvez influenciado por todo o clima de intimidade, Shino se ouviu confessando:

— Eu... a Cegueira Restrita... há a possibilidade de Masako desenvolvê-la e...

— Ah, isso. Sim, a gente sabe que isso costuma aparecer a partir dos dois anos, não tem como prever ou impedir. É raro e genético — Kiba foi enumerando as informações entre bocejos — Não é certeza que nossa filhote tenha. Mas se tiver eu vou amar do mesmo jeito. E fazer que nem Shibi-san fez: criar pra virar um partidão.

— Kiba...

— Todo mundo tem defeito. Se Masako pegar o meu gosto pela traquinagem se prepara pra ficar careca cedo. Fazer o quê? Por isso que as pessoas são lindas, não é? Pelas diferenças. — aproveitou o discurso para se aconchegar contra o corpo do companheiro, que não perdeu tempo em envolvê-lo num abraço — E todo mundo tem qualidades também.

— Tem razão.

— Não fique tão preocupado. Não importa se Masako tiver restrições na visão, se elas crescer inteligente que nem você e bonita que nem eu... — bocejou — Ah, a pirralha vai longe...

— Obrigado — o Alpha agradeceu pelas palavras. Deveria ser algo óbvio, mas às vezes os fantasmas que o assombravam impediam de perceber as verdades mais importantes. Ele viveu solitário e sofrendo preconceito, não queria isso para a filha. Suas preocupações ignoravam o detalhe mais fundamental: ele cresceu sem Kiba, aquele Ômega que era luz em sua vida. E essa luz estaria presente na vida de Masako dia após dia. Não precisava temer pela solidão nunca mais, nem por si, nem por sua pequenina.

— Vou tentar aprender a fazer sobremesas também. — Naruto soou distraído, as palavras animadas despertaram Shino para a realidade.

— Eu provo todas! Se passarem no teste você lança. — Kiba se ofereceu, indo espiar a água que começava a levantar fervura, depois de dar um breve olhar na direção do companheiro. Tinha recebido orientações do amigo para colocar os condimentos já separados em quantidades apropriadas.

Shino observou a cena, os dois jovens cozinhando ali, algo que há cerca de um ano atrás sequer cogitaria. Como tudo mudava num piscar de olhos...

Ouviram risadas femininas vindas da sala. Em segundos Tsume entrava na cozinha com Masako nos braços e ia entregá-la para o Alpha. Hana e Ino pararam na porta, com expressões similares de diversão.

— Sua filhinha recebeu um chamado perfumado da natureza. — A mulher riu de pura felicidade. — Já troquei muita fralda na vida. E ainda vou fazer isso várias vezes. Mas imagino que é a primeira vez de vocês... Então... Divirtam-se! A gente assume aqui.

Shino lançou um olhar para Kiba, meio sem saber o que fazer. O garoto aproximou-se e deu um tapinha camarada nas costas do companheiro.

— Vamos lá, tigre. Eu li alguma coisa na internet. E o pessoal do hospital me deu orientações!

— Não deve ser assim tão difícil. — Shino concordou.

O casal saiu da sala ouvindo risadinhas. Trocar e limpar cocô de bebê era só uma das tarefas que fariam parte do cotidiano deles dali para frente.

— Coloca ela na cama. — Kiba orientou. — Vou pegar o lenço umedecido, pomada pra assadura, essas coisas.

Shino obedeceu, indo para o quarto do casal. Acendeu a luz para facilitar a própria visão e a colocou na cama, sentando-se em seguida. A filhotinha estava adormecida ainda! Aquilo seria um bom sinal? Ou a indicação de que uma noite em claro os aguardava em breve?

Tinha dificuldades em ver detalhes, embora alguns pontos fossem perceptíveis. Podia ver as marcas do Clã Inuzuka adornando as faces de Masako. Aquelas faces... Gordinhas! Sua menina era uma bochechuda! Traço físico que Kiba também tinha na tenra infância, conforme viu em uma foto antiga. Fofura que foi desaparecendo conforme o Ômega crescia e que, não era difícil deduzir, aconteceria com Masako também.

O cabelo era ralinho, conquanto de fios espessos e escuros! Herança vinda do sangue Aburame, provavelmente. E os olhos de íris exótica... A pequenina era uma construção genética linda. Um quebra-cabeça cujas peças vinham de ambos os pais e se uniam, se moldavam, se fundiam para criar a imagem mais perfeita que poderia sonhar.

Aburame Masako.

Prova viva de que o mundo é imprevisível. E que a vida pode trazer presentes maravilhosos.

Shino cresceu como um esquisitão, solitário e isolado de todos. Julgado e condenado pela aparência sombria, privado de qualquer chance de mostrar-se como a boa pessoa que era. Passou anos sem alguém a quem chamar de amigo, obrigando-se a aceitar a solidão como a companheira mais fiel. Até que um Ômega chegou atropelando todos os seus planos, do jeito mais inusitado e tenso possível.

Kiba veio na hora errada e do jeito errado. Todavia transformou ambos em algo certo, com sua personalidade exótica e a forte decisão de se provar um "partidão". O Ômega viu cores. E viu além. Ele compreendeu que o destino nunca lhe traria alguém menos do que adequado para ser sua Alma Gêmea. Kiba acreditou e apostou em ambos.

E Shino pagou para ver. Arriscou-se. Aceitou.

Para o Ômega, todo o colorido exuberante que o vínculo lhe trouxe ao descortinar as cores que recobriam a realidade. Para o Alpha, cujos olhos deficientes o colocavam aquém dessa possibilidade, não a chance de ver cores. E sim de senti-las, experimentá-las, vivenciá-las através dos outros sentidos.

Havia cores nos sons que ouvia. Nos aromas que sentia. Nos toques que recebia. Havia cores até mesmo no silêncio, porque não se tratava mais de um fardo a se carregar. Pois tal silêncio já não era sinônimo de solidão.

— Oe! — a voz de Kiba resgatou Shino de suas reflexões. Ele ergueu os olhos e fitou o companheiro parado à porta, segurando tudo o que precisavam para trocar as fraldas da filhotinha. Parecia um ninja prestes a enfrentar a primeira missão perigosa. — Pronto para limpar nossa pequena fábrica de cocô?!

O Alpha ofereceu a única resposta que poderia dar. Afinal, Aburame Shino sempre estaria pronto. Ele sorriu de leve. E o mundo, naquele instante, não poderia ser melhor.


Notas finais do capítulo

Depois de uma longa jornada, chegamos ao fim. Com momentos de drama, momentos pesados, de superação e de felicidade!

Como eu amo epílogos, semana que vem tem mais um pedacinho dessa história, com um salto no tempo. Aí sim, fim!

Muito obrigada