Because maybe, you're gonna be the one that saves me

And after all, you're my wonderwall

(Wonderwall - Oasis)

.oOo.

Astoria insistiu que Draco tomasse uma poção calmante e fez questão de fazer companhia a ele durante a noite. Scorpius não se importou em ficar com os avós maternos, sem sequer desconfiar do que se passava.

Draco se recusou a sair de perto da lareira, portanto Astoria deu ordem aos elfos para trazerem os travesseiros e cobertores até eles. Eles se acomodaram no sofá maior, Draco sentado com as pernas esticadas e Astoria deitada com a cabeça em seu peito.

"Não quero mais esconder nada de ninguém, Astoria," Draco confessou num sussurro. "Quando isso acabar, vou fazer questão de que todos saibam."

"Você sempre pode contar com Rita Skeeter para isso," Astoria brincou.

"Quer saber? Talvez eu faça exatamente isso." Draco ponderou. "Vou chamar Skeeter para uma entrevista exclusiva. Se Hermione pode fazer com que ela se comporte, aposto como também posso."

"Tenho certeza que sim," Astoria apertou-lhe a mão que mantinha segura na sua. "E quanto a Scorpius? Como você planeja contar a ele? Ele vai ficar tão feliz..."

Draco suspirou.

"Você acha mesmo que ele dá conta de ter um pai gay? Ele tem cinco anos e já enfrentou o divórcio dos pais…"

"Acho que ele vai entender justamente porque ele tem cinco anos. Não se preocupe com ele. Ele adora Harry. E Harry claramente também o adora."

"E se…" Draco engoliu em seco só de pensar naquela possibilidade. "E se eles não o encontrarem? E se for tarde demais?"

"Não diga bobagens, é claro que eles vão encontrá-lo, Draco! Não faria sentido nenhum acontecer algo com ele justo agora, depois de tudo que ele já passou e sobreviveu. Vamos, dê mais crédito a ele."

"Espero que tenha razão," Draco pressionou as têmporas.

"Harry será encontrado e vocês dois terão seu final feliz, enfim."

"Certo," Draco falou, tentando acreditar. Seus sentimentos estavam um tanto entorpecidos pela poção, mas talvez fosse melhor assim. "Chega de falarmos de mim. Agora fale sobre você. Como é que Theodore Nott está se saindo, afinal?"

"Oh, bem, eu acho…" Astoria se remexeu. "Ele é educado, gentil, inteligente… sabe ser engraçado, também… E é muito bom com Scorpius. Ele não é nada mal."

Draco deixou o silêncio se alongar por alguns instantes, cheio de significado.

"Você está apaixonada por ele, não está?"

"Oh, Draco!" Astoria gemeu, cobrindo o rosto com uma mão. "Acho que estou! Meu Deus, o que eu faço? E se ele se der conta de que não gosta tanto de mim, afinal?"

Draco soltou um som de desprezo pelo nariz.

"Agora quem é que está dizendo bobagens? Isso definitivamente não é uma possibilidade. Ele está é ficando cada vez mais apaixonado. Pergunte a Blaise, se não acredita em mim."

"Você acha mesmo?" Dessa vez Astoria nem tentou disfarçar o tom esperançoso.

Draco acariciou a face da ex-esposa com ternura.

"Tenho certeza. Ele não é idiota de pensar de outra forma. Agora me conte mais sobre vocês dois. Vamos, preciso de uma distração."

E assim eles conversaram madrugada adentro. Em algum ponto próximo da alvorada, Astoria adormeceu. Draco fechou os olhos, exausto, mas não conseguiu dormir. Em vez disso, fez algo que já não fazia havia muito tempo: uma prece.

.oOo.

As boas notícias demoraram, mas chegaram àquela manhã.

"Acharam ele!" Hermione Weasley falou sem preâmbulos, da lareira.

"Graças a Deus!" Astoria falou, cobrindo a boca com as mãos.

"Ele está bem?" Draco perguntou, aproximando-se com o coração acelerado num misto de alívio e apreensão diante da expressão séria da bruxa. "Onde ele está?"

"Disseram que ele está gravemente ferido," Hermione soou aflita. "Está no St. Mungus. Ainda estão tratando seus ferimentos. Proudfoot disse que ele levou uma forte pancada na cabeça e foi torturado por horas." Ela engoliu em seco e Draco praguejou.

"Estou indo para lá," Draco falou, alcançando sua capa e Hermione assentiu.

"Também estou indo. Só achei que você gostaria de saber o quanto antes."

"Obrigado," Draco falou honestamente.

"Nos encontramos lá," Hermione falou e encerrou a chamada.

.oOo.

Ronald Weasley também já estava no hospital quando Draco chegou. Os três mal trocaram alguma palavra, esperando numa sala apertada. O Auror Baddock apareceu na sala em dado momento para falar com Weasley e os dois cochicharam em um canto.

"Eles capturaram os responsáveis," Weasley informou assim que o Auror partiu. "Eram dois assassinos condenados que fugiram antes de serem mandados para Azkaban," ele esclareceu para Draco. "Os nomes ainda estão sob sigilo."

"Que bom que acabou," Hermione falou, segurando a mão do esposo.

Naquele momento, apareceu uma medibruxa procurando pelo Sr. e Sra. Weasley. Draco ficou em pé no mesmo instante, ainda que não tivesse sido endereçado. A mulher lançou-lhe um olhar confuso antes de voltar-se para o casal.

"O procedimento terminou, tudo correu bem."

"Graças a Deus..." Hermione sussurrou, a voz trêmula.

"Estamos movendo o Sr. Potter para um quarto e em breve vocês poderão vê-lo," a medibruxa continuou. "Ele ainda está sedado e receio que terá que ficar em observação por um tempo, por causa do ferimento na cabeça." A expressão da medibruxa se contraiu por um momento. "Devo avisá-los também que ele ficou com um pequeno sinal no rosto. Fizemos o possível para que não houvesse marcas, no entanto ele foi vítima de algumas maldições muito agressivas, algumas nós sequer conseguimos identificar. Felizmente conseguimos reverter o dano, mas…"

"Obrigada," Hermione agradeceu, os olhos marejados. "Tenho certeza que fizeram o possível. E o importante é que ele está bem."

A mulher se despediu garantindo que os avisaria assim que Harry estivesse em condições de receber visitas. Hermione abraçou o esposo, chorando. Draco desviou os olhos dos dois e tornou a se sentar, abaixando a cabeça entre as pernas e tentando engolir o nó em sua garganta. Levantou o rosto ao sentir uma mão no ombro.

"Ele vai ficar bem," Hermione sorriu, os olhos vermelhos.

Draco assentiu, incapaz de responder. Seus olhos encontraram os de Ronald, que também assentiu em solidariedade.

.oOo.

Quando a boa notícia enfim chegou, os três seguiram apressados até o quarto indicado pela medibruxa. Draco estava tão ansioso para ver Harry que quase trombou num dos guardas quando este se pôs à sua frente, barrando sua passagem.

"Sinto muito, senhor, só familiares são permitidos," o homem falou. Ele olhou por cima do ombro para Ron e Hermione, que pararam mais à frente. "Vocês dois podem seguir."

"O quê?" Draco perguntou, estupefato. "Eles não são família também! Potter não tem família!"

"Eles são pessoas autorizadas," o guarda insistiu. "Sinto muito, senhor, esta é uma área restrita. Terei que insistir que o senhor se retire."

"Draco, talvez…" Hermione começou, mas Draco não deixou que ela continuasse.

"Sou o namorado dele!" Draco praticamente gritou. Suas palavras ecoaram no corredor do hospital, fazendo com que as poucas pessoas por perto que ainda não tinham se voltado para a comoção terminassem de ser atraídas. O guarda pareceu surpreso por um momento, então voltou a fechar a cara, alcançando a varinha.

"Senhor, vou pedir pela última vez que se afaste…"

"Quem é que autoriza as visitas então?" Draco interrompeu-o, sem se importar com a cena que estava causando. "Me aponte a porra da pessoa responsável que vou resolver isso agora mesmo!"

"Malfoy, espere," Ronald Weasley falou, voltando. "Calma. Vou chamar Baddock. Hermione, você pode ir vê-lo. Deixa que eu resolva isso. Malfoy, venha comigo."

Draco lançou um último olhar furioso para o guarda antes de seguir Weasley.

.oOo.

Uma hora e muitos aborrecimentos depois, Draco finalmente foi autorizado a entrar. Todo o estresse que Draco sentia pelo ocorrido se esvaiu assim que colocou os olhos em Harry.

"Ei," Harry falou com a voz rouca, os cantos de sua boca se levantando num sorriso cansado. "Ouvi dizer que você andou causando uma cena no corredor."

Draco atravessou o pequeno quarto em duas grandes passadas e colou os lábios nos do moreno, sem se importar com a enfermeira que examinava os sinais do paciente emitidos por sua varinha.

"Ouch, cuidado com a cabeça," Harry gemeu, levanto a mão à nuca. "Ainda está dolorida desse lado."

"Seu idiota, nunca mais faça isso comigo," Draco falou, segurando as mãos do moreno.

Harry suspirou.

"Não se preocupe, meus colegas já me proibiram de sair de casa sozinho pelos próximos cinquenta anos."

"Alguém tinha que ter juízo naquele quartel." Draco sentou-se na beirada da maca e inclinou-se, levanto a mão para traçar levemente a nova cicatriz na bochecha direita. "Dói?"

"Não dói mais," Harry assegurou, segurando seu pulso e erguendo sua mão para beijá-la. "Mais uma para a coleção. Juro que não vou culpá-lo se tiver uma vontade louca de me chamar de Cicatriz novamente, como nos velhos tempos."

"Não é engraçado, Potter." Draco encostou a testa na de Harry. "Meu Deus, seu hálito está terrível."

"É," Harry riu. "Deve ser por causa das poções horríveis que me fizeram tomar."

Eles olharam para a enfermeira, que fingia não observá-los pelo canto do olho. A mulher limpou a garganta ao ser flagrada.

"Vou deixar vocês conversarem sozinhos," ela falou e saiu apressada.

Draco suspirou.

"Tenho que contar para Scorpius logo, antes que ele descubra pelos jornais. Não me admiraria se houvesse uma edição especial do Profeta ainda esta tarde."

"Que tal contarmos juntos?" Harry ofereceu, esperançoso. "Quero dizer, isso se você não se importar em trazê-lo aqui. Disseram que vão me manter aqui pelo menos até amanhã, nem que fosse amarrado…" Ele encolheu os ombros num pedido de desculpas.

"Verei o que posso fazer." Draco suspirou. "Sinto muito pela Madame Manson."

"É," Harry desviou os olhos. "Também sinto muito… E sinto muito por Stevens. Ouvi dizer que ele foi um idiota com você."

"Não é culpa sua," Draco rolou os olhos. "Baddock foi bastante razoável. E fico feliz de saber que tenha um sonserino no seu time para manter a cabeça fria, com tanta gente esquentadinha."

"É, eu também." Harry deixou a cabeça pender para o travesseiro, seu olhar tão carregado de sentimento que Draco achou que poderia chorar.

"Agora se me dá licença..." Draco tirou a varinha do bolso, lançando um feitiço na boca de Harry que o deixou cheirando a menta. O gosto também ficou ótimo, pelo que Draco comprovou ao beijá-lo novamente. "Assim está melhor."

"Ah, você se importaria em limpar meus óculos também?" Harry pediu, ligeiramente desconcertado. "Minha varinha quebrou, estão tentando consertar. Me sinto um imprestável sem ela…"

"Pode usar a minha, enquanto isso," Draco ofereceu. "Ela funciona melhor com você, de qualquer jeito."

"Como eu sobrevivi até agora sem você?" Harry brincou.

"Deve ser pura sorte," Draco encolheu os ombros.

"Sou um cara de sorte mesmo," Harry concordou, acariciando seu rosto num gesto cheio de afeto.

Talvez fosse o tratamento finalmente fazendo efeito, ou talvez a descarga de adrenalina fora do comum durante as últimas vinte e quatro horas, mas o fato era que Draco não se lembrava de ter se sentido tão feliz em toda a sua vida como naquele exato momento. Chegava a ser assustador, mas de uma maneira boa. Talvez ele até pudesse se acostumar com o sentimento.

.oOo.

"Harry!" Scorpius exclamou ao vê-lo, correndo para abraçá-lo.

"Vá com cuidado, Scorpius," Draco admoestou, porém foi prontamente ignorado.

"Mamãe e eu fizemos um cartão para você," Scorpius falou, entregando-lhe o cartão junto de um embrulho. "Também trouxemos chocolates."

"Shhh! Não diga isso em voz alta," Harry falou, olhando ao redor de modo conspiratório. "Rápido, esconda debaixo do meu lençol antes que as enfermeiras confisquem." Ele levantou o lençol para que o garoto escondesse os doces furtivamente. "Vou guardar para mais tarde. Agora sente-se aqui e me ajude a ler esse cartão." Ele moveu-se para o lado para dar espaço para o garoto se sentar na cama.

Draco sentou-se na poltrona ao lado da maca e observou em silêncio conforme eles conversavam. Só percebeu que sorria quando Harry surpreendeu seu olhar e sorriu de volta.

"Ouça, Scorpius," Harry falou, mudando de assunto. "Tenho um assunto muito sério para discutir com você."

"O que é?" Scorpius aprumou-se, a curiosidade aguçada. "É sobre como você se machucou? Porque a mamãe disse que eu não devia fazer perguntas, mas se você quiser me contar…"

"Não, é sobre algo muito mais importante do que isso," Harry manteve o tom de voz sério. "Você sabe que eu gosto muito de você, não sabe?"

"Eu sei," Scorpius assentiu, copiando o tom sério do outro.

"E você sabe que eu gosto muito do seu pai também?"

"Vocês são melhores amigos," Scorpius encolheu os ombros como se aquilo encerrasse o assunto.

"Exatamente. É só que… eu gostaria de ser mais do que melhor amigo dele. Mas queria ouvir sua opinião primeiro. Você acha… Você acha que ele aceitaria namorar comigo?"

O coração de Draco falhou uma batida.

"Namorar?" Scorpius soou confuso por um momento e Draco se remexeu, apreensivo. "Como a mamãe e o Theo estão namorando?"

"Isso. Eu o levaria para jantar e para passear, você sabe… essas coisas que os namorados fazem."

"Você seguraria a mão dele também?"

"Sim, eu adoraria segurar a mão dele. E beijar ele também, se ele não se importar."

"Você quer se casar com meu pai?" o garoto perguntou, inocentemente curioso, e Draco suprimiu um arfar de surpresa.

Harry riu e relanceou um olhar cheio de significado para Draco.

"Um dia, quem sabe? Mas vamos dar um passo de cada vez. O que você acha?"

Pensativo, Scorpius olhou para o pai, como se o escrutinasse. Draco segurou a respiração, incapaz de demonstrar qualquer outra reação, tão apreensivo que estava.

"Vou poder passear com vocês também?" Scorpius acabou por perguntar, voltando a encarar Harry.

Draco soltou uma exclamação diante da animação no tom de voz do filho.

"É claro que vai!" Harry garantiu. "Eu faço questão de levar você sempre que possível. Quero dizer, isso se você não se importar com toda essa história de mãos dadas e beijos."

"Eu não vou me importar, eu juro!" Scorpius garantiu solenemente.

"E você acha que ele aceitaria namorar comigo?" Harry fez questão de soar apreensivo.

Scorpius voltou-se para o pai com os olhos arregalados. Ele saltou da maca e correu até Draco.

"Papai, por favor! Diga que sim! Diga que sim!"

"Sim!" Draco respondeu, estupefato.

"Yuhuuu!" Scorpius deu um pulo de alegria. "Ele disse sim, Harry! Ele disse sim!"

Harry riu e, dessa vez, Draco acompanhou-o.

.oOo.