Capítulo 31 – Dualidade.
Rin:
Dia após dia as coisas pareciam voltar gradativamente ao normal. Sesshoumaru, depois de ficar uma semana em nosso convívio, teve que voltar aos seus afazeres. Pegou o primeiro voo na manhã do oitavo dia e desapareceu por entre as nuvens. Voar tornou-se uma rotina do meu companheiro. Vê-lo de malas prontas apertava tão forte o meu coração que tinha vontade de chorar todas as vezes que ele partia. Pensar em nós separados me doía a alma, era como sentir uma dor física, um membro invisível do corpo que se contorcia.
Ah, o amor... Como pode te preencher e ao mesmo tempo doer tanto?
Mas eu entendia que ele precisava partir. E aceitava que eu ainda precisava ficar. E que mesmo em meio a essa contradição nossos caminhos estavam prestes a se encontrarem finalmente. Essas despedidas tão longas e insossas acabariam ao menos por um período.
As coisas começaram a se agitar novamente e me vi perdida na multidão tendo que resolver tantas coisas das quais possivelmente não era assim tão competente. Atarefada que só, juntei as duas que agora tinham a missão de me ajudar: Kagura e Olívia. Submersa pelas novidades do estilo de vida americano, as luzes das cidades pareciam não ter fim ao lado daquelas duas personalidades tão características. Como eram atipicamente parecidas! Seus gostos maduros e tão refinados... Sentia-me confusa vez ou outra em tanto conhecimento peculiar das mais peripécias do consumo.
Veja, sabia diferenciar um vinho do outro quando via suas garrafas. Mas elas não. Elas conseguiam só de levar o primeiro gole a boca. Sabiam de cor qual era a última moda de Paris e assistiam aos desfiles com os olhares mais atentos do que lince em meio a mata selvagem. Costuravam as ruas de São Francisco com maestria. As lojas eram bordadas de acidez feminina. E pouco a pouco eu era engolida por aquele mundo que quase não conhecia. Daquela modernidade explícita cada vez me via mais distante. Sentia-me nostálgica quando pensava no meu "antigo" Novo Mundo. Nos modelos bizantinos e nas casas vitorianas. Da Renascença ao Barroco. Da minha amada praça de São Marco...
E la piazza di San Marco logo me remeteu naquela temporada que eu e Sesshoumaru passamos juntos. Deitados no chão abandonado do meu apartamento, no escuro, no silêncio, repletos de dúvidas e certezas. Arraigados de tensão e vontade. Como a gente gosta de devorar o outro... E como todos os assuntos e pensamentos de repente param nele...
O apartamento de Kohaku passou a ser uma das sedes de nossos encontros. Eu, Kagura e Olívia tagarelávamos com tamanho ardor que o tempo lá fora parecia querer nos parar a qualquer custo. Mas era tanto o que ver, o que planejar! Às vezes era estranho ter Kagura ao meu lado delineando o meu casamento com Sesshoumaru, pra ela também deveria ser. Mas de certa forma sentia que era o certo. Precisava que vivêssemos em paz, queria honestamente me dar bem com ela. E, sobretudo, amava ter os gêmeos por perto! Sempre fui filha única, e a ideia de ter um irmão me fascinava desde os primórdios. Queria que Katsuo convivesse com eles, que se desse bem e que os amasse, afinal eram filhos do mesmo pai.
-É uma pena Rin não ter optado por um casamento tradicional japonês. Eu iria amar! Nunca vi a cerimônia de perto, mas pelo que me consta é belíssima! –Olívia disse com um sorriso sincero no canto dos lábios, com aquela voz tão serena que era capaz de acalentar o coração de qualquer um.
-Ah, não, por favor! –Kagura riu balançando a cabeça em negativa. –Acho que não consigo imaginar Sesshoumaru vestindo um kimono antigo.
Eu ri concordando. A imagem de Sesshoumaru num casamento tradicional me fez ter cólicas.
-Eu realmente não quero nada muito chamativo ou extravagante. –disse enquanto repousava a taça de vinho na mesa da qual sabia que Kohaku teria uma crise se me visse fazendo isso sem qualquer proteção em sua mobília cara.
Estávamos sentadas em círculo no tapete felpudo creme que tanto amava. Sua cor afável contrastava com o rubro líquido do vinho em nossas taças gorduchas de cristal. Vários papéis estavam espalhados pela mesinha de centro. Listas e mais listas! Coisas que precisava providenciar. Modelos de vestidos, opções de Buffet... Era tanta coisa que tinha vontade de sair correndo. Realmente não havia como uma pessoa resolver aquilo tudo sozinha com sanidade mental intacta.
-Eu não consigo entender sua obsessão por ser tão reservada. –Kagura girou os olhos enchendo mais sua taça de vinho que aquela altura já estava vazia. –Por que não da uma super festa logo? A Vogue iria adorar cobrir tudo! E todo mundo falaria do seu casamento durante muito tempo.
-Acho que desmaiaria com tanta atenção. –sorri sem jeito. –E também, eu só fiz uma matéria na Vogue porque Olívia insistiu muito. Não é como se eu fosse famosa...
-Está brincando? –Olívia arregalou os olhos. –Todas as mulheres que conheço ficaram curiosíssimas para conhecê-la.
-Garanto que não é por conta do meu senso estético.
-Notavelmente que não. –Kagura riu, apesar de ter tentado sem muito esforço se conter. –Devem achar que você é uma mulher muito ambiciosa.
-Ambiciosa? –franzi o cenho. Demorei até entender, e quando a ficha caiu, fiquei perplexa e prossegui em gaguejo teatral. –Diz isso pelo patrimônio de Sesshoumaru e eu ser mais jovem?
-Alô! –Kagura agora que rebatia perplexa. –Que mundo você vive, menina?
-Parece que é em um muito sem noção!
Apesar de ficar irritada, esmoreci de repente com aquela fala de Kagura. Olívia não a interceptou e vi de rabo de olho pelo seu semblante que ela concordava com o que minha ex arque inimiga dizia. Aquilo me fez mal. Não queria que as pessoas achassem que estava me casando com Sesshoumaru por conta da sua conta bancária, que eu seria tão fútil e vazia a esse ponto. Na verdade o que mais me incomodava eram as pessoas não entenderem o sentimento que tínhamos um pelo outro. Que aquilo era verdadeiro.
-Bom, vamos voltar ao que realmente importa! –Olívia disse de maneira gentil pegando uma folha mostrando um vestido de noiva no estilo ocidental como opção para mim. Claramente tentando mudar o assunto ao perceber que eu havia me chateado.
-É lindo. –disse pegando a folha a fim de analisar melhor a roupa, tentando voltar ao ânimo de antes.
-Rin, me escuta. –Kagura arranhou a garganta antes de me encarar seriamente com aqueles olhos tão intensos de um mar vermelho. Ao contrário de Olívia, ela não estava muito disposta a mudar o rumo da conversa. –Se quer mesmo se casar com Sesshoumaru é melhor que se acostume com esse tipo de comentário. Porque isso vai acontecer. Então seja forte. Porque se Sesshoumaru lhe pediu em casamento, se ele realmente disse que quer ficar com você, é porque ele está disposto a assumir você, e acima de tudo, a aguentar qualquer percepção errada que os outros tenham. E acredite, para Sesshoumaru ter largado o ego, o seu próprio orgulho, significa que você realmente é tudo que importa para ele. E ele não vai titubear e nem se abalar por nada. Então, faça o mesmo por ele. Sesshoumaru ficará péssimo se você fizer essa cara perto dele. Deve isso a ele, Rin.
A sinceridade de Kagura, e seu jeito tão direto e incisivo fizeram toda a diferença naquele momento. Fiquei grata por ela e me senti um pouco diminuta naquele momento diante daquela mulher. Ela estava certa afinal.
-Obrigada. –assenti deixando um sorriso sincero escapar dos meus lábios.
-Certo! Agora está melhor. Nem parece a mulher atrevida que conheci!
Bebemos duas garrafas de vinho em meio à conversa. Katsuo parecia empenhado a me ajudar, pois ficou quieto a maior parte do tempo com Kohaku no quarto. Os gêmeos teatralmente se espreguiçavam em seus carrinhos, dormindo numa paz celestial que vez ou outra era interrompida para a amamentação. A babá não estava naquele dia, e fiquei um pouco surpresa pela sua ausência. A ideia de Kagura vestir a carapuça de mãe tão intensamente não era algo da qual esperava. Mas o que ela podia fazer afinal? Os gêmeos fora tudo que lhe restou.
Olívia havia se decidido sobre o modelo do meu convite de casamento, quando me mostrou não pensei duas vezes e não quis ver mais nenhum. Era simplesmente perfeito. O envelope em tom pastel era amarrado com delicadeza por uma fita de seda bronze na posição vertical. O convite por dentro seria na cor creme, e logo imaginei as letras em tom negro escritas num modelo antigo, aludindo a uma feita por penas.
-Quantas pessoas você pensa em convidar afinal? –Olívia me questionou repousando o modelo do convite que agora seria o meu.
-Do jeito que ela é não ficaria surpresa se decidisse chamar só nós e a família. –Kagura riu brevemente.
-Na realidade foi isso mesmo que eu pensei. –eu sorri dando de ombros. –Mas sei que soaria mal para Sesshoumaru e meu pai simplesmente me esganaria se assim decidisse. Não sei quem me mataria primeiro nesse embate.
-Rin, você é mesmo uma mulher peculiar. –Olívia sorriu de maneira afável demonstrando estar um pouco impressionada pela minha falta de interesse em socializar.
-Rá! Eu não disse! –Kagura balançou a cabeça negativamente bebendo mais um gole longo do vinho.
-Mas não vou fazer isso. Há investidores, sócios, enfim, pessoas importantes na vida empresarial de Sesshoumaru e na minha também de certa forma... Apesar de não querer transformar meu casamento numa reunião, creio que seja inevitável. –revirei os olhos um pouco entediada só de pensar nas conversas demoradas sobre os negócios da família.
-Seria bastante ousado da sua parte se não convidasse essas pessoas. –Olívia riu baixinho. –E corajoso, claro.
-E estúpido também. –Kagura complementou me fazendo rir.
-Eu sei, será mais um sonho não realizado, fique tranquila. –assenti sorrindo. –Mas há dois convidados que não gostaria que não participassem... Entretanto, receio que causem certo desconforto...
-Desconforto? Em quem? –Kagura não escondeu a curiosidade enquanto que Olivia mantinha-se discreta.
-Bem, um em especial em Sesshoumaru e a outra em Kohaku... Mas não conseguiria não convidar. Eu nem sei se viriam... No entanto, seria muito rude da minha parte fingir que não fizeram parte da minha vida.
-A de Kohaku imagino que seja a tal da médica. Não me recordo do nome dela agora. Mas estava no hospital quando estive internada. –Kagura disse perspicaz. Ela realmente não perdia uma.
-Sim. –acenei em aprovação. –Ela mesma... Maria.
-E a outra pessoa? Quem seria capaz de abalar a estrutura emocional de Sesshoumaru que já não fosse o próprio Kohaku e eu em seu casamento? Nem consigo imaginar... Nossa presença nesse evento já é por si grotesca. Quem roubará nosso papel desastroso? –Kagura sorriu de forma irônica.
-Inuyasha talvez? –disse encolhendo meus ombros já me preparando para o que viria.
Kagura engasgou quando ouviu aquele nome. E Olívia acabou se assustando com a reação da recente amiga. Sabia que ela ficaria surpresa, e pela sua reação soube de imediato que seria mais difícil do que havia imaginado.
-Inuyasha? –Kagura repetiu incrédula com o tom de voz mais alto. –Que ideia absurda é essa?
-Desculpe a indiscrição, mas quem seria essa pessoa? –Olívia indagou igualmente assustada.
-É simplesmente o meio-irmão bastardo de Sesshoumaru que ele odeia! –Kagura respondeu antes mesmo de mim tentando quem sabe absorver aquela minha ideia. Queria ter evitado a pronúncia da palavra bastado, mas já era tarde e Kagura já havia se voltado a mim como uma leoa. –Você só pode ter perdido o juízo! De onde saiu essa ideia tenebrosa? Como sabe de Inuyasha? Não me diga que está querendo competir com Madre Tereza querendo que todo mundo na face da terra faça as pazes?
-Não é isso. –ri daquela provocação, balancei a cabeça negativamente e cocei a nuca ajeitando-me mais no tapete felpudo. –É que conheço Inuyasha há muitos anos... Fomos amigos na época em que morei na Europa. Conheci Inuyasha muito antes de Sesshoumaru. Foi uma coincidência...
-Inacreditável! –Kagura respirou pesadamente. –Se convidar Inuyasha e esse idiota resolver aparecer, vai acabar estragando a noite do seu casamento. Quer dizer, Sesshoumaru não vai querer uma coisa dessas. Isso está completamente fora de cogitação! Eles não se falam há anos, e quando se encontram tem embates terríveis.
-Nossa, eu não fazia ideia de que Sesshoumaru era um homem tão rancoroso. –Olívia abraçou o próprio corpo um pouco impressionada. –Mas por que eles se odeiam tanto assim? Algo grave? Desculpe se estou sendo inconveniente.
-Não se preocupe Olívia... –suspirei cruzando os braços e prossegui encarando Olívia que mantinha os olhos complacentes. –É uma longa história. Mas em resumo, Sesshoumaru nunca conseguiu aceitar a existência de Inuyasha. Porque Inuyasha foi fruto de um relacionamento infiel do pai.
-Hum! Isso é o que Sesshoumaru fala! –Kagura revirou os olhos e continuou a dizer encarando o vazio com a voz mais amena. –A verdade é que Sesshoumaru sempre teve vergonha do caso do pai com uma mulher mais nova, de classe social diferente. E sei que ele tem ressalva com Inuyasha não só por ser um bastardo, mas porque o pai era encantado por esse menino. E prova disso foram as diversas regalias que ele proveu a Inuyasha ao longo dos anos. O que Sesshoumaru odeia em Inuyasha é saber que o pai talvez amasse mais a Inuyasha do que a ele. Do que ao filho legítimo.
Aquelas palavras deixaram o ambiente pesado. Calamos-nos em uníssono e aquele silêncio que pareceu demorar uma eternidade acabou vindo a calhar. Nunca havia pensado na relação de Sesshoumaru com Inuyasha daquela forma. Seria mesmo possível Sesshoumaru ser tão sentimental com o pai? Pouco falávamos sobre o senhor Taishou. Ele não era muito de falar do passado, da família. Via Sesshoumaru sempre tão duro e empenhado com coisas materiais que nunca passou pela minha cabeça que talvez os problemas familiares fossem um fantasma de sua alma... Senti-me mal por aquilo. Por não ter me permitido imergir naquele universo da qual Kagura pareceu entender bem. Aquilo me incomodou. Não por ciúmes, pois não haveria motivo para tal. Mas por não tê-lo compreendido como ela.
O silêncio foi quebrado por Kohaku, que apareceu de repente na sala, carregando Katsuo no colo que se encontrava agitado em seus braços, choramingando baixinho. O barulho da sua cadeira de rodas já havia denunciado sua aproximação antes de seu semblante por fim aparecer, assim como o pequeno barulho manhoso de meu filho.
-Desculpe interrompê-las, mas acho que Katsuo está com fome. –ele disse um pouco sem jeito.
Sorri ao vê-los, levantei do chão num solavanco e corri para pegar meu filho em meus braços que pouco a pouco pareceu se acalmar só de sentir meu aconchego.
-Não tem que se desculpar. –eu disse agitando Katsuo nos braços. –Eu que acabei perdendo a noção do tempo.
-E também já está na hora de partir! –Kagura levantou-se instantes depois juntamente com Olívia. –Acabou ficando tarde. Não sei como Koji ainda não começou a chorar!
-Interessante que não são gêmeos idênticos. –Olivia disse se aproximando do carrinho, e para sua surpresa Yasuhiko estava com os olhos bem atentos, mas em silêncio. –Eles parecem bem diferentes na verdade. Yasuhiko é o que tem a cor dos seus olhos, não é?
-Sim, e ele é incrivelmente pacífico. Coisa que não sei explicar a quem puxou! –Kagura sorriu olhando juntamente para os carrinhos unidos. –Enquanto que Koji é extremamente passional. Ele me suga por completo. Não sei como seria se os dois tivessem essa personalidade tão intensa.
-Esse é fácil saber a quem puxou. –Kohaku disse irônico e nós não guardamos o nosso sorriso.
-Engraçadinho. –ela lhe deu uma careta entrando na brincadeira.
-Bem, então nós já estamos indo. Preciso ver como meu Sam está e Joshua também, evidentemente. Eles não conseguem fazer nada sem a minha presença. –Olívia disse me fitando com um sorriso sincero no rosto.
-Claro, eu vou acompanhar vocês até a porta. –disse ajeitando mais Katsuo em meus braços que havia parado de choramingar e observava a todos com atenção. –Estou tão grata por estarem me ajudando. Não sei o que seria de mim sem vocês nesse momento.
-Obviamente nada. –Kagura sorriu sarcástica e voltou-se a empurrar o grande carrinho em direção a porta.
...
Depois que Katsuo absorveu todo o leite que podia, e esparramou-se em seu confortável berço, dormiu o sono profundo dos anjos. Como ele havia crescido desde então... E cada dia que passava, mais via Sesshoumaru nele. Desenhado com perfeição em cada detalhe sutil.
Deixei-o repousar ao som de seu ninar favorito. As estrelas e luas do abajur rodopiavam por todo o quarto. Mantive a porta entreaberta e saí a passos lentos, com cuidado para não fazer barulho.
Kohaku estava no sofá da sala. A televisão ligada no mudo fazia com que eu me questionasse todas às vezes do por que ele manter aquele hábito tão sem sentido. Afinal de contas, mexia em seu laptop, totalmente alheio ao que acontecia na TV. Mas, naquela noite não queria falar sobre suas manias. Sentei-me ao seu lado e debrucei a cabeça em seu ombro.
-O que aconteceu? –ele indagou ao reparar meu desânimo. Fechou a tela do notebook deixando o aparelho de lado. Puxou uma revista que pairava ao lado do abajur no criado mudo e prosseguiu zombeteiro. –O que tanto incomoda a musa da Vogue?
Kohaku balançou a revista na minha frente e foi direto para as páginas das quais eu aparecia. Completamente maquiada, com uma produção nada característica a mim. Usava em uma foto uma blusa verde garrafa transparente, onde dava para ver sutilmente o sutiã preto rendado por baixo, uma saia lápis de couro preta bem justa que iam até depois dos joelhos e um Scarpin igualmente negro. Meus lábios estavam tingidos de um vermelho sangue intenso. Os cabelos soltos, modelados.
Na outra foto, aparecia usando um maiô preto bastante cavado nas laterais do peito. Um chapéu de palha largo, óculos escuros grandes que cobriam até mesmo as sobrancelhas e um colar com pedras quadradas grosseiras intercalando entre azuis e pretas pendendo pelo pescoço até embaixo do colo. As luzes do sol perpassavam pelos buracos do chapéu feito artesanalmente, dando uma claridade bonita em minha face e deixando a foto com um efeito interessante.
-Essa foto ficou incrível. Até que você leva jeito. –Kohaku disse com um sorriso no canto dos lábios. –Esse maiô me lembra aquela viagem que fizemos a Portugal. Lembra disso?
-Como poderia me esquecer de Benagil? –sorri encantada, viajando em pensamento novamente para aquele lugar incrível. A gruta que parecia nos engolir sendo beijada por um mar cristalino que reluzia com o banho de sol mais delicioso da face da terra.
-Você estava usando um maiô parecido com ele... Inclusive, fica muito bem, deveria andar assim pela casa, na realidade. Eu agradeceria a visão. –Kohaku sorriu dando uma piscadela.
-Idiota! –eu ri juntamente com ele lhe dando um leve empurrão.
-Agora falando sério... Há algo que a preocupa? Parece aborrecida.
-Há sim... –suspirei melancólica voltando as questões anteriores. – Estou pensando se estou sendo egoísta. Sempre acabo agindo mais com a emoção.
-Se é por conta do convite a Maria e Inuyasha... –Kohaku coçou a nuca um pouco sem jeito. –Eu acabei escutando por trás da porta, confesso...
Fiquei um pouco surpresa, pois não o havia notado chegar antes. Mas logo me ajeitei no sofá de maneira que pudesse ficar de frente a ele.
-É... Era por conta disso sim.
-Não está sendo egoísta. –ele deu de ombros. –Só não pensou que a situação pudesse ser mais complexa do que havia imaginado. Digo a respeito de Inuyasha e Sesshoumaru... Inuyasha fez parte da sua vida por um tempo, assim como Kagome. Entendo que os queira por perto num dia importante. Você não tem nada a ver com os embates dele com Sesshoumaru. E digo o mesmo por mim. Na verdade, ver Maria era tudo o que queria por agora.
-Eu só não queria chatear ninguém. –fui contando nos dedos involuntariamente enquanto falava. –Não queria que você achasse que quero me meter na sua vida com Maria. Não queria que Sesshoumaru ficasse furioso pela presença de Inuyasha e não queria que Inuyasha e Kagome pensassem que não fazem diferença na minha vida. Que não tenho amor e carinho por eles.
-Está brincando? –Kohaku sorriu de maneira doce. –Claro que eles sabem disso! E claro que sei que não é essa a sua intenção com o convite para Maria.
-Ai céus, por que a vida é assim tão complicada? –suspirei jogando o corpo para trás, caindo de costas no sofá encarando o teto pálido acima de mim. – Por que as pessoas complicam tanto?
-Por que não fala com Sesshoumaru sobre isso? Ele já vai aturar a minha presença e a de Kagura que agora, diga-se de passagem, está querendo concorrer ao cargo de sua melhor amiga. O que é mais uma pessoa da qual ele não queria no casamento?
Acabei rindo daquilo. E Kohaku riu junto.
Era mesmo verdade. Havia tantos embates ainda dentro e fora da nossa relação. Como seria bom se aqueles confrontos não existissem. Que vivêssemos bem uns com os outros. A vida tão demasiadamente curta me deprimia ao pensar que poderíamos estar perdendo tanto tempo com batalhas tão inúteis e incabíveis.
-E como está o apartamento? –Kohaku indagou fazendo com que eu me sentasse novamente de frente a ele.
-Praticamente já não há mais nada o que fazer. –disse entusiasmada ao me lembrar de meu próximo lar. –Só faltavam alguns pequenos detalhes e reparos, mas está exatamente como eu havia planejado. Nem acredito que acabamos. Foi tudo tão intenso e rápido! Sesshoumaru virá já na próxima semana, e então, já poderemos nos mudar!
-Entendi...
Kohaku abaixou os olhos, tentou fixar num ponto que não fosse eu. Calado por alguns instantes fiquei a esperar o que ele diria na fartura de sentimentos que o abarrotavam.
-Não posso dizer que estou totalmente feliz, porque uma parte egoísta de mim gostaria que ficasse para sempre aqui. Que ficasse comigo. Será triste quando partir, eu já havia me acostumado com a sua presença de novo na minha rotina. E agora com a de Katsuo também... –Kohaku falou com a voz um pouco embargada, os olhos marejados, mas não deixou que as lágrimas escorressem. Piscou rápido e virou-se novamente para mim com aquele sorriso de sempre. –Mas eu entendo que precisa seguir a sua vida e espero que seja muito feliz ao lado de Sesshoumaru. Sou muito grato por tudo o que você fez e continua fazendo por mim.
Sorri consternada. E o abracei com carinho.
-Também vou sentir falta do nosso convívio. Eu te amo, e vou te amar pra sempre.
-Eu também te amo, Rin.
Desvencilhei do seu abraço. Agora quem chorava era eu, como sempre. Aquele sentimentalismo me fez declinar. Sentiria tanta falta do nosso convívio. Quantas eras nós teríamos vivido em tão pouco tempo? Mal tinha ido e já sentia uma saudade arrebatadora dos nossos dias. Das fases que passamos. Das tardes tomando chá na varanda, pegando o sol desmaiado. Das pipocas entupidas de manteiga em frente a televisão assistindo aos programas mais inúteis da face da terra. Do vinho nas sextas. Da risada alta dele quando me via completamente atrapalhada. Do nosso silêncio particular...
Ele passou a mão no meu rosto, tirando as poucas lágrimas que caíram com o seu polegar, desbotando o sorriso que tentava dar junto.
-Promete que vai ficar bem aqui? –indaguei me contendo.
-Por que não ficaria? –ele balançou a cabeça em negativa pegando em minhas mãos. –Eu sempre fico. Você sabe.
-Eu vou continuar vindo aqui te ver, te acompanhando no tratamento, e quero que vá nos ver também. Vamos passear de vez em quando. Continuaremos bem próximos um do outro, é só descer ou subir a rua que estaremos juntos novamente! Não quero que pense que as coisas irão mudar.
-As coisas irão mudar, Rin. –ele riu brevemente contrariando o que era óbvio. –Na verdade elas já mudaram! Mas isso não significa que são ruins ou que ficarão ruins. E eu realmente estou feliz, e estou bem com tudo isso. Estou em paz comigo mesmo. Estou em paz com o nosso final.
Assenti. Kohaku estava certo. Nada mais seria como antes. Mesmo que soasse deprimente, significava um novo começo em nossas vidas. Mas seria mesmo possível nessa Terra que um dia não nos remeteríamos mais um ao outro? Que, num dado momento, num ponto fora da curva, ficaríamos novamente juntos? Ali, naquele instante, encarando seus intensos olhos castanhos tive a mais absoluta certeza de que não. De que estávamos livres um do outro. Finalmente.
...
Sesshoumaru chegou no início da tarde de uma quinta-feira que ficaria marcada para sempre em meu coração. O sol quente da Califórnia queimava assim como meu corpo. Como se todas as minhas células estivessem entrando em estado de ebulição ao mesmo tempo. Com o rosto fervendo, e um sorriso incontrolável, eu o vi pela varanda do apartamento que agora era nosso. Não estava de terno, e sim com uma calça cáqui e uma blusa azul marinho de linho dobrada até os cotovelos jogada de maneira despretensiosa por cima da calça, escondendo com certeza o cinto de couro da qual ele não abandonava. Sesshoumaru estava incrivelmente casual para seus moldes, e eu adorava quando ele estava assim. Despreocupado e ao mesmo tempo nada desleixado. Quanto charme era capaz de habitar naquele homem? Era incrível a sua capacidade de exalar tanto mistério e sensualidade.
Ele trazia consigo menos bagagem do que havia imaginado. Os empregados o ajudavam a tirar tudo de dentro do carro cuidadosamente.
E foi quando uma nuvem cobriu o sol forte, dando uma trégua na claridade e na vasta temperatura, que ele finalmente olhou para cima e me viu na varanda. Eu deveria estar com a cara mais boba do universo. No entanto, não me importei com que ele me visse daquela forma, tão entregue. Apaixonada.
Katsuo estava em meu colo com os olhos bem abertos, como se também pressentisse a chegada do pai. Devorava a chupeta em ansiedade, queria olhar tudo ao seu redor. Eu o segurava lateralmente em meu corpo, o encaixando em meu flanco. Meu filho sacudia seu ursinho favorito que fazia um barulho engraçado da qual ele simplesmente adorava.
Acenei para Sesshoumaru que não o fez de volta. Somente sorriu de maneira discreta e balançou a cabeça em positivo. E por mais que aquele baque visual fosse algo da qual havia esperado por tanto tempo, não nos demoramos no trejeito. Tratei logo de sair da varanda e Sesshoumaru voltou aos seus afazeres.
A porta da frente não demorou a ser aberta. Sesshoumaru veio a frente com os empregados atrás trazendo boa parte de suas coisas. Deixaram o que podia e saíram rapidamente a fim de terminarem o serviço recolhendo o restante. Contive a emoção, sabia o quanto meu futuro marido detestava demonstrações de afetos exageradas em público. Mas quando o último empregado finalmente se foi, não tive outra opção se não me jogar em seus braços quentes.
-Até que enfim você chegou! –eu disse, com uma voz tão estranha que nem parecia mais ser a minha. Quanto tempo fazia que tinha me tornado tão sentimental? Tão dependente?
Sesshoumaru correspondeu ao meu abraço desajeitado por conta de Katsuo. Beijou o topo dos meus cabelos antes de colar nossos lábios com mais brevidade do que eu pretendia. Desvencilhou um pouco de mim para falar com Katsuo que praticamente se atirou em seus braços, pedindo o seu colo. E Sesshoumaru tratou de ampará-lo. O abraçou com cuidado e afagou suas costas. Katsuo foi com tanta boa vontade que até mesmo deixou seu brinquedo favorito cair ao chão. Tratei de me abaixar com destreza para pegar e não perder um único segundo daquele momento. Da imagem que eu queria transformar em porta retrato.
-O vôo atrasou, por isso acabei demorando mais do que o pretendido. –Sesshoumaru finalmente disse ainda hipnotizado com Katsuo que tocava em seu rosto com as mãos diminutas.
-O importante é que está aqui. Que está em nossa casa.
Sesshoumaru pareceu feliz ao me ouvir pronunciar aquela palavra. Sabia o quanto ele queria que eu me estendesse para dentro dele. Para o seu mundo. Que eu aceitasse o fato de que a partir daquele momento não haveria mais dois mundos, e sim somente um. O nosso. O nosso mundo particular.
Katsuo se aconchegou mais um pouco no corpo de Sesshoumaru, e a agitação de outrora pareceu se dissipar por completo, como num passe de mágica. Como se aquele afago era tudo que ele precisava naquele momento. Estranhamente, no embalo do carinho do pai, que quase sempre tivera que partir, simplesmente relaxou, e se entregou aquele complexo ser que era Sesshoumaru.
-Não acredito que ele está quase dormindo. –eu ri balançando a cabeça em negativa. –Precisa me ensinar esse truque.
Sesshoumaru sorriu, o mais límpido sorriso de que me lembrava. Tão terno e carinhoso. Era estranho pensar nele daquela forma. Nunca havia imaginado que Katsuo pudesse o quebrar tão intensamente. O homem que encontrei certa noite, no bar ao fundo do restaurante no canto da cidade, bebendo seu Whisky com um olhar tão intenso. Aquele homem naquele momento ficou tão distante...
-Há muito que tenho que lhe ensinar. –Sesshoumaru olhou-me de forma maliciosa. Com aqueles olhos âmbar tão penetrantes. Tremeluzi involuntariamente e ali estava aquele homem que conheci no bar. Ri novamente. Um sempre viveria dentro do outro. O Sesshoumaru do bar e o que se tornou pai.
-Mal posso esperar por isso. –respondi igualmente maliciosa.
Mas nosso momento acabou sendo interrompido pelos empregados que trouxeram o resto de sua bagagem. Josh, um homem de pelo menos quarenta anos e que possuía uma mistura de coreano com americano, e tinha um sotaque carregado, foi o que nos encarou ao repousar a última bagagem.
-Precisa de mais alguma coisa, Senhor Taishou?
-Não. –Sesshoumaru respondeu o fitando. –Se precisar, eu ligarei.
Eles então assentiram, e num instante saíram de nossas vistas fechando a porta em nossas costas. E a essa altura Katsuo, chupando sua chupeta com mais leveza, já havia desmaiado de sono no colo de Sesshoumaru.
Sesshoumaru passou por mim, e seu perfume, aquele que já parecia entranhado em minha carne, pairou pelo ar com leveza, inundando minhas narinas. Repousou Katsuo no carrinho de bebê que estava próximo a nós, com muito cuidado. Ajeitou-o cuidadosamente e ficou a fitá-lo por segundos com admiração. Passou a mão uma última vez nos cabelos lisos dele e por fim voltou-se para mim.
-Estamos sozinhos? –ele indagou olhando os arredores.
-Sim. –assenti. –Eu dispensei Alexia hoje, e...
Sesshoumaru não me deu tempo de terminar o raciocínio. Voou em minha direção, pegando-me pela cintura firmemente e colando nossos lábios da maneira que eu queria que ele tivesse feito quando havia chegado. Um beijo cheio de intensidade e volúpia. Suas mãos pesadas percorriam o contorno do meu corpo com ardor, e eu só conseguia arfar com tanto desejo que também estava sentindo.
Ele segurava em meu rosto enquanto me beijava, entrelaçando os dedos em meus cabelos, os puxando com força vez ou outra para trás para que pudesse beijar meu pescoço e a ponta de minha orelha. Demos passos descompassados, ele para frente e eu para trás até chegarmos ao enorme tapete cinza escuro que havia escolhido na semana passada para ficar no coração da sala. Sesshoumaru enfiou a mão por debaixo do meu vestido, e o toque da sua pele na minha fez os pelos do meu corpo se eriçar por completo. E quando dei por mim, perdida em tantas carícias íntimas e quentes, senti o zíper do meu vestido sendo aberto por ele, enquanto minhas mãos se moviam sozinhas desabotoando sua blusa. Estava completamente envolvida. Sua respiração tão descompassada como a minha lambia meu rosto nos momentos em que ele desvencilhava de meus lábios para pegar o ar que parecia rarefeito e pesado.
Ele tirou o vestido por cima da minha cabeça, deixando-me de lingerie e eu o apressei desatando o cinto que sabia que ele usava e que ficou evidente quando seu peito foi desnudo por mim mostrando seu porte físico tão perfeito. O puxava cada vez mais para mim, sentindo todo o peso do seu corpo e o seu calor tão intenso como o verão. O verão que devia habitar em nós.
Seminus, caímos ao chão, por cima do tapete macio que nos abraçou em profusão perfeita.
...
Sesshoumaru:
Uma brisa fresca entrava pela varanda naquele final de tarde. O calor que fazia do lado de fora pouco a pouco se amainava. Foi como se nós dois tivéssemos roubado todo o calor daquele lugar.
Rin estava com a cabeça apoiada em meu peito, e pelo seu silêncio e pelo compasso da respiração sabia que cochilava. Deixei-a em paz. Estava tão serena, tranquila, que tive pena até mesmo de me mover.
Decidi reparar finalmente na decoração do lugar, em seu trabalho tão árduo nos últimos tempos. Ela sempre acabava me surpreendendo positivamente. De um bom gosto refinado, não era de se admirar que os móveis, a decoração do ambiente e a disposição dos objetos encontravam-se em sintonia perfeita. Rin havia nascido para aquilo. Apreciava seu bom gosto, e via em cada detalhe o quanto tinha um pouco dela em cada coisa exposta. Em cada canto. E isso era o que justamente me encantava. Vê-la em tudo sutilmente.
O antigo contrastando com o moderno. Era sua marca. Aquilo parecia soar irônico, tão sarcástico quanto ela. Rin brincava com o tempo em tudo em sua vida. Na decoração, nos seus relacionamentos, e principalmente comigo... O que nós dois éramos se não um emaranhado do tempo? Tão distantes e conectados. Seres tão diferentes e iguais. Vivíamos a dualidade de um amor inconcebível e inimaginável. Nem nos meus sonhos mais loucos me imaginei tão acorrentado e dependente a qualquer mulher como era com ela.
Ela respirou fundo em meu peito, despertava aos poucos ainda que preguiçosamente. Saindo do subconsciente foi se esgueirando pelo meu corpo, até debruçar-se em seu próprio cotovelo para ficar na minha altura. Beijou novamente meus lábios com delicadeza e ficou a me fitar com olhos risonhos, apaixonados... Queria poder guardar aquela imagem para sempre.
-Acabei dormindo sem querer. –ela disse com a voz um pouco rouca, os olhos ainda pesados.
-Eu sei. –sorri irônico. –Acho que a cansei mais do que deveria.
Ela riu baixinho, contida. Deu-me uma careta e balançou a cabeça em negativa.
-Poderia fazer o dia todo que não me cansaria.
Sorri com ela que voltou a deitar em meu peito. E eu pus a aconchegá-la a mim como se fosse óbvio.
-Fez um bom trabalho no apartamento.
-Que bom que você gostou, tentei fazer o meu melhor, deixar o mais confortável possível. Também terminei a planta da mansão. Mas queria que visse junto comigo. Não me sinto muito confortável em fazer tantas mudanças na casa que morou a vida inteira.
-Não me importa as mudanças que queira fazer. Não tenho tanto apego assim por aquela casa quanto você imagina. Os fantasmas já se foram há tempos.
Rin ficou em silêncio, havia algo que a incomodava. Ela não costumava calar tão rápido e permanecer naquela condição. Remoia sem parar algo da qual não compreendia, mas que tinha certeza não haver relação nenhuma com aquele assunto da qual conversávamos.
-O que quer me dizer? –fui direto ao ponto tentando fitá-la, ainda que estivéssemos em perspectivas bem diferentes.
Rin se ajeitou, sentando-se enfim ao tapete e eu fiz o mesmo com o cenho cerrado estranhando aquela reação. Ela começou a colocar o vestido novamente, e eu continuei inerte, com as calças já vestidas, somente com o peito nu.
-Parece que não da para esconder nada de você... –ela resmungou sentindo-se um pouco contrariada, iria fechar o zíper, mas acabou desistindo no meio do caminho.
-Não. –falei sério, não gostava daquele suspense. –Diga o que é.
-Escute, eu não quero que fique aborrecido, eu nem iria tocar nesse assunto agora, e também...
-Rin! –eu a interceptei impaciente.
Rin colocou uma mecha grossa de cabelo para trás da orelha, com as pernas dobradas na posição de bailarina, imitando uma borboleta, tocava os pés em aflição. Fitou os dedos dos pés, tentando distanciar o máximo que podia nosso campo de visão.
-É sobre o casamento...
-E o que tem? –arqueei uma única sobrancelha. –Não me diga que não quer mais se casar.
-Não! –ela falou num espasmo rápido, e eu finalmente tive a atenção dos seus olhos novamente. –Claro que não é isso! Quero muito que nos casemos!
-Então o que é?
-Bem... É sobre os convidados. –ela engoliu a seco. –Há uma pessoa que gostaria de chamar para a nossa festa. Uma pessoa que é importante para mim...
-Você nem precisa continuar. –disse irritado, balançando a cabeça em negativa completamente incrédulo. –Está falando de Inuyasha, não é?
-Jesus, você tem uma perspicácia invejável. –ela arregalou os olhos e levou a mão ao peito como se faz quando está muito surpreso.
-Perdeu o juízo? Absolutamente não!
Levantei do tapete, e encaminhei-me até a porta enorme de vidro que separava a sala da grande varanda rodeada por orquídeas, madressilvas e jasmins. Apalpei o bolso e por sorte achei o maço do meu cigarro que já estava no final. Tirei um cigarro e puxei o isqueiro que também estava junto. Tentei acender duas vezes, mas desisti. Olhei para o teto com frustração e para o carrinho de bebê que se encontrava afastado, mas seria o suficiente? Quando me dei por vencido, e iria guardar a nicotina suave, Rin puxou o maço de minha mão, tirou um cigarro e acendeu ela mesma como costumava a fazer num passado não tão remoto. Encaminhou-se ao parapeito da varanda, na parte externa, e repousou as costas ali sem fincar os olhos em mim. Envolta a fumaça de seu próprio trago ficou a fitar o céu sob nossas cabeças.
-Não devia estar fumando. –eu disse a ela sem utilizar o meu tom desaprovador.
-Nunca devíamos. –ela deu de ombros dando mais um trago longo, jogou a fumaça por cima de sua cabeça e continuou sem me encarar. –Fazia tempo que não o fazia... Sei que prejudica Katsuo. Não faça com que eu me sinta uma péssima mãe, por favor. Não faz ideia de como tem sido difícil...
Fiquei em silêncio. Aquela não era a minha intenção. Sabia o quanto tivera que mudar e se adaptar. O quanto lutava pelo bem-estar de Katsuo. Resolvi então que poderia a acompanhar, como nos velhos tempos. Pus-me ao seu lado depois de acender também o cigarro.
-Sabia que iria ficar com raiva... Por isso não queria dizer. –ela finalmente quebrou o silêncio. Apoiou-se em uma única perna, colocando o pé direito na lateral do joelho esquerdo.
-Você fala cada coisa... –balancei a cabeça negativamente tentando buscar sentido em suas palavras tão vagas. –O que você achou que eu iria dizer?
-Nada de diferente do que está falando agora. –ela revirou os olhos e me encarou finalmente ao mesmo tempo em que prendeu a fumaça do cigarro nos lábios. –Por isso não queria ter tocado nesse assunto agora.
-Em nenhum momento esse assunto seria adequado. Nem agora, e nem depois. –disse com os olhos talvez mais furiosos do que gostaria e com o tom de voz mais ríspido e duro que esperava. –Eu jamais admitiria que Inuyasha estivesse no mesmo ambiente que o meu por vontade própria. Que dirá no meu casamento. Isso é insano. Até mesmo para você.
-Achei que o casamento fosse meu também. –ela falou não gostando do meu tom, cruzou os braços na altura dos seios fartos e deu um passo desafiador para frente.
-Você quer realmente entrar nesse mérito ridículo?
-Não é ridículo! –ela rebateu com o cenho franzido. –Isso não precisava virar um pesadelo. Eu só queria ter conversado sobre com você. Mas parece que não da, que há muito que você precisa superar.
-O que quer dizer com superar? –arquei uma sobrancelha não gostando do rumo.
-Superar o fato de que seu pai traiu a sua mãe, e que teve um filho com uma mulher muito mais jovem que ela! E perceber de uma vez por todas que você fez a mesma coisa com Kagura! Até quando você vai ser hipócrita e fingir que já não sabe disso?
E depois de dizer aquelas palavras, vi no imediato modo que seus olhos se formaram que ela havia se arrependido duramente do que havia proferido. Mas não havia mais o que ser feito. Todas as letras já haviam sido jogadas ao vento com tamanha precisão. Calamos-nos então no silêncio da noite que se iniciava. Ela se retraiu talvez se sentindo mais culpada do que pretendia. Apagou o cigarro com severidade no cinzeiro antes de finalmente se retirar do meu lado.
...
Minutos depois daquela discussão, e de pensamentos me envolverem com uma intensidade em demasia, percebi que estava precisando de um bom banho quente e demorado. Rin havia deixado a sala junto com Katsuo, ela eventualmente tentaria me evitar o quanto pudesse pelo restante da noite, pois deveria estar furiosa e ao mesmo tempo sentindo-se culpada por aquele nosso momento anterior ter se transformado num melodrama, coisa da qual ambos odiávamos. A vida de casado então havia finalmente começado...
Fui até o quarto, ainda não havia visitado o recinto. E fiquei mais uma vez impressionado com o que Rin tinha feito ali. Diferente da sala, não havia traços antigos. Não havia a mescla de elementos com temporalidades diferentes. A decoração exprimia uma modernidade que me agradou sensivelmente. Fez com que eu me lembrasse claramente do meu quarto na mansão. Com certeza aquela sensação de nostalgia foi o que ela buscou contrair de mim. Ela queria que eu me sentisse verdadeiramente em casa... Bufei incomodado. Rin tinha o dom de fazer com que eu me sentisse péssimo.
Havia um rico detalhe de tudo que mais gostava. Os tons escuros no edredom, na base da cama box king size bem rente ao chão. As almofadas fofas brancas. Os tons amadeirados nas cortinas e nos móveis lustrosos. Uma mesinha com um pequeno abajur no canto leste...
De repente toda a raiva havia ido embora. E não fazia mais sentido.
Entrei no banheiro da suíte enquanto me despia por completo. O banheiro todo revestido de mármore negro trouxe uma profundidade intensa e uma agressividade da qual não esperava. Olhei de soslaio para a banheira, entretanto não era aquilo que desejava. Fui direto para o boxe, abri o blindex cristalino e coloquei na água mais quente e forte da qual meu corpo suportaria. A água da enorme ducha caiu por sob meu corpo com violência deliciosa. Eu poderia ficar ali a noite inteira.
Quando meu corpo finalmente relaxou, lembrei-me das palavras de Rin que ecoaram de forma indiscreta em meu coração. Ela tinha razão, indubitavelmente tinha razão. Era uma verdade devastadora. O que eu era afinal? Se não uma cópia esdrúxula de meu pai? Tentei por tantos anos ser diferente, e no final, acabei me remetendo mais e mais a ele. Desde sua aparência até seus trejeitos mais insanos. O destino, insípido e irônico como aquela mulher, não poderia ter perdido a oportunidade de ter me feito engolir o próprio veneno que destilei por tantos anos.
Será que meu pai amou minha mãe em algum momento de sua vida? Que aquela vida mesquinha e tão odiosa fora somente quando ele já havia perdido o encanto pela mulher que era, e se remetido a Izayoi com tamanha devoção? Teria meu pai sentido o mesmo que senti por Kagura, e pelo que passei a sentir por Rin? Teria sido realmente o mesmo sentimento? O amaldiçoei pela última vez. Pois nunca mais teria a oportunidade de calar as incertezas. Desejei que a terra lhe caísse mais pesada naqueles instantes para saber o quanto eu estava ensandecido por não poder lhe socar a face e tirar respostas de uma vez por todas. Respostas aquelas que talvez, naquele momento, naquele dia, fizessem algum sentido para mim. Eu, que tanto não o quis escutar, agora implorava por ter suas palavras...
Respirei pesadamente ainda com os olhos cerrados e a cabeça baixa. E só me dei conta de que não estava sozinho quando senti aquele corpo feminino, tão diminuto, abraçando-me pelas costas. Sua cabeça repousou no meio da minha coluna. Não era necessário me virar. E mesmo com a água quente, caindo por sobre os ombros, fui capaz de saber que ela chorava.
-Desculpa... –ela falou com a voz marejada. –Não queria ter dito aquelas coisas.
-Queria. –eu falei sem corresponder ao seu afeto. –Por isso que você disse. Porque precisava dizer.
Afastei seus braços do meu corpo com delicadeza, ela relutou um pouco, mas deixou-me fazer o que eu queria. Virei então para ela, para aquela mulher tão pequena e esguia. Os seios maiores do que me lembrava. Seios rosados, com seus bicos eretos. Os cabelos já molhados não eram mais capazes de cobri-los como antigamente. Senti falta daquilo. Da sua cabeleira negra que a deixava tão misteriosa. Não prossegui pelo restante do corpo, era inócuo. A cintura fina juntamente com os quadris bem desenhados provavelmente continuavam ali lhe dando o delineado tão perfeito.
Preferi fixar em seus olhos. Em sua floresta castanha tão feroz. O que de fato havia me encantado desde o primeiro momento em que a havia visto.
-Você está certa. –disse como se aquelas palavras pesassem toneladas, mas que no final soaram leves como o voo de um pássaro. –Eu sou um hipócrita.
-Não queria aborrecê-lo. –ela esmoreceu mais uma vez, com os olhos marejados. –Não precisava ter falado daquela forma com você. Foi cruel... Eu sinto muito... Estou arrependida. Não queria que tivéssemos começado dessa forma. Não quero que fique bravo comigo.
Rin baixou os olhos. Sentia uma culpa que não a competia. Impedi-a de tal movimento. Peguei-a pelo queixo com cuidado trazendo seus olhos de volta aos meus. Ela não recuou. Ficou firme segurando as lágrimas que não deviam estar lá. Sem hesitar a beijei com calma. Com a vontade inerente de todas as vezes que sentia quando a via.
Ao final, encostei minha testa na dela. Quanto a ela, dispôs-se a colocar as mãos em meu rosto.
-Eu te amo. –disse de uma vez. Sem pensar. Sem hesitar.
-Eu também te amo. –ela respondeu calmamente, com a voz baixa. E nas pontas dos pés, voltou a colar meus lábios com os dela.
...
Rin fez o jantar para nós naquela noite. Eu lhe disse que era extremamente desnecessário, mas ela insistiu. Não sabia muito sobre suas qualidades na cozinha, mas imaginava que ela soubesse o que estava fazendo. Tendo em vista que se ela havia se comprometido, naturalmente saberia guiar a situação da maneira mais adequada possível.
Preparou para nós, e dispôs na longa mesa de jantar espelhada, um fettuccine banhado em um molho de queijos, com manjericão e tomate seco. Ela abriu um vinho tinto seco, dispôs em nossas taças gordas de cristal. Apesar de não ser a minha bebida favorita, não faria essa desfeita a ela. Imaginava o quanto ela queria que eu apreciasse toda a experiência.
Quando terminou de servir o vinho, sentou-se na outra extremidade da mesa, ficando de frente a mim. Esperando como uma criança o momento em que eu levaria a comida à boca. Não fiz suspense. Com uma garfada já havia tirado minhas conclusões.
-Está ótimo. –disse a ela que pareceu contente.
-Fico feliz que tenha gostado. Tentei fazer o meu melhor. –ela deu um pequeno gole no vinho e sorriu para mim com satisfação.
Voltei a passar os olhos pela casa enquanto comia. E um detalhe acabou passando despercebido por todo aquele tempo.
-Não quis trazer nenhum piano? –eu a indaguei me sentindo confuso.
-Ele ainda vai chegar! Eu resolvi deixar por último. Ainda não havia decidido onde colocar...
-Achei que gostaria de tocar em nosso casamento. –disse-lhe irônico levando a taça de vinho a boca.
-Por que é que todo mundo quer me ver tocar nos eventos? –ela girou os olhos de maneira divertida.
-Deveria.
-Podemos resolver isso depois. Há tanto ainda o que pensar, o que fazer... Não imagina o quanto incrivelmente e espantosamente Kagura tem me ajudado. E Olívia também. –antes de dar mais uma garfada na comida, deu um leve salto na cadeira. –Ah, sim! Antes que eu me esqueça. Eu convidei Kagura e Kohaku para vir jantar conosco amanhã. Eu pensei em dizer para que viessem hoje mesmo, mas... Confesso que queria ter exclusividade na sua presença.
Sorri brevemente assentindo. Havia tanta coisa estranha naquela sua fala. Era impossível não achar graça.
-O que foi? Por que está sorrindo? –ela indagou sorrindo junto a mim mesmo sem entender a motivação do meu sorriso quase sempre difícil de acontecer.
-Só que é algo muito estranho estarmos recebendo nossos "ex" num jantar em nossa casa. Em estarmos convivendo dessa maneira caricata.
-Às vezes sinto isso também. –ela riu comedida. –Mas prefiro que vivamos de maneira esquisita a guerra. Estou feliz por estarmos vivendo em paz. Quero que Katsuo construa laços com os irmãos. Quero que vivam bem, que se amem. E quero que Koji e Yasuhiko gostem de mim também, afinal fazem parte de você. Não quero criar meu filho em um ambiente hostil, de disputas e raiva... –Rin pareceu divagar naqueles instantes, com a voz um pouco mais baixa, voltou-se ao prato, ajustando o alimento em seu garfo, fazendo mais voltas do que o necessário. –Família para mim é tudo. Vivi tantos anos sem minha mãe, só tive o meu pai como referência familiar. Não tive irmãos, primos, nada... Kohaku também foi o mais próximo que tive de uma família, e agora eu finalmente posso ter uma, uma bem grande, diga-se de passagem. Acho que ao invés de ver os defeitos, prefiro ficar com as coisas boas. E ter momentos únicos com todos.
Emudeci diante de suas palavras. Rin era de fato a pessoa mais impressionante que eu já havia conhecido naquela vida. Tão plural e bondosa. Era estranho ponderar que por um momento na vida pensei em afastá-la de mim. De perder aquele conjunto tão incrível.
Inclinei-me para frente para poder dizer-lhe. Mas acabei sendo interceptado pelo choro de meu filho que soou através da babá eletrônica disposta em cima da mesa.
Rin levantou num solavanco, sem me dar qualquer oportunidade. Levantei junto, mas ela fez com a mão para que eu sentasse. Deu uma garfada no prato já estando de pé e voltou-se novamente a mim sutilmente.
-Ele deve estar com fome. Eu já volto.
Em passos rápidos, ela saiu em disparada, desaparecendo totalmente do meu campo de visão. Fiquei sozinho por alguns instantes, até que finalmente ela veio trazendo-o em seus braços. Katsuo já estava tão grande. Era impressionante como uma criança desenvolvia-se tão rápido. Como o tempo passava em disparada alucinante.
Ela sentou-se novamente em seu lugar, com ele agarrado em seu seio direito, consumindo-a o quanto podia. Ela voltava a dar uma garfada e outra quando tinha oportunidade. Sem tirar os olhos dele, o observando com ardor e devoção. E eu não deveria estar com os olhos tão diferentes dos dela.
Comovido pelo momento, pelas suas palavras anteriores, por ter aquela visão tão privilegiada que um homem pode imaginar um dia ter, deixei um suspiro longo escapar de meus lábios. Ela sempre vencia afinal.
-Pode chamá-lo. –disse sem crer em minhas próprias palavras. –Que seja...
Rin ergueu os olhos para mim, ainda um pouco confusa sobre o que me referia. Mas não tardou para que ela entendesse que falava sobre Inuyasha.
-Tem certeza? –seu semblante se iluminou e ficou tão surpresa que acabou deixando o garfo cair do prato.
Dei de ombros.
-Só não peça para que eu seja gentil caso ele tenha a audácia de aparecer.
Ela sorriu um pouco sem jeito, mas assentiu carinhosamente.
-Está bem.
Logo voltou a Katsuo, passou a mão pelo rosto de meu filho que continuava a mamar em seu peito, totalmente alheio as situações mais adversas da vida.
-Viu filho, você vai conhecer o seu tio!
-Você já está forçando. –revirei os olhos já arrependido.
Rin somente riu. Logo se voltou a mim com os olhos amainados, com ternura explícita.
-Obrigada por isso. De verdade.
Dei de ombros dando um longo gole no vinho.
...
CONTINUA...
NOTA:
Olá pessoas! Como estão vocês nesse mundo pós-apocalíptico? Rs! Espero que estejam bem, se cuidando devidamente. Para variar minha vida virou de cabeça para baixo, logicamente como a de todos, mas estou cansada de ter história para contar de perrengue kkkk! Senhoooooorrr! Essa vida realmente não é para amadores. Não posso nem dizer que preferia estar sofrendo em Paris porque a situação lá ta pior que aqui!
Enfim, tragédias a parte... Estamos finalmente nos aproximando do final! Pensei em encerrar no próximo capítulo, mas não sei se ficará corrido, então acredito que no máximo mais dois capítulos e essa fic que já dura há anos será FINALMENTE encerrada. O capítulo foi um pouco mais longo, pois queria as versões de Sesshoumaru e Rin, em como suas vidas estão se ajeitando. Espero que tenham gostado da experiência até aqui e das relações que estão sendo construídas. Vide Kagura e Rin.
Como sempre não posso deixar de agradecer a vocês, ao carinho, as mensagens de apoio tanto aqui na página como no inbox. Sou muito grata e vocês são muito mais do que eu mereço!
Um grande beijo. Nos vemos em breve!
Sesshoumaru falar q Rin pode chamar Inuyasha se for assim tão importante.
