Capítulo 45
Maluca.
Granger era completamente maluca.
Não havia qualquer traço de genialidade ali, muito pelo contrário, somente maluquice e uma fé imensa. Concluiu que a base de todos seus planos era sorte e nada muito engenhoso.
Ficou encarando o pequeno espelho em sua mão e olhar presunçoso no rosto de Hermione, que o encarava como se houvesse acabado de dizer algo incrivelmente inteligente. Então ergueu o pequeno objeto na altura dos olhos da garota, esperando que ela tivesse alguns segundos para reavaliar o que acabara de dizer.
- O basilisco vai se olhar no espelho.
Disse de forma categórica. Hermione assentiu, já dando sinais de pressa. Draco balançou suavemente o espelho, ainda encarando a grifinória com incredibilidade.
- Neste espelho. Neste pequenino e minúsculo espelhinho.
Mais uma vez Hermione assentiu num gesto frenético, puxando o garoto pelo antebraço. Draco, porém, não se moveu um centímetro sequer e continuou com seu olhar incrédulo e cheio de cinismo voltado para a menina.
- Você percebe que o olho do basilisco é maior que essa porcaria, certo?
Hermione grunhiu e o forçou a caminhar com ela.
- Você já ouviu falar em magia? Podemos aumentar esses espelhos quando estivermos de frente para ele!
Ainda em negação, Draco caminhou ao lado de Hermione, sem conseguir evitar o movimento de negação que sua cabeça realizava de forma involuntária.
- Não pode ser com esse tipo de plano que você salvava a vida do Potter. Impossível.
- Cale a boca.
Enquanto desciam as escadas, Hermione não pôde deixar de notar alguns quadros na parede que se mexiam de uma forma muito diferente dos que estava acostumada a ver em Hogwarts. Tudo naquele castelinho parecia ter sido propositalmente posto ali para gerar medo, como se o plano fosse realmente reunir seguidores que temessem. Particularmente, não acreditava nessa estratégia. Porém, questionava-se se essa seria uma questão sonserina, uma vez que não se fosse querido era necessário ser temido.
Foi por pensar nisso que decidiu não compartilhar seus pensamentos com Draco. Embora ele estivesse especialmente tolerante, achou melhor não abusar. O loiro parou no final do corredor e colou suas costas na parede, olhando sorrateiramente para uma sala ampla e cheia de cadeiras. Ao constatar que não havia realmente ninguém ali, eles continuaram.
- Como você acha que estão as coisas lá? Será que estamos ganhando?
O tom na voz de Draco não podia esconder sua ansiedade. O fato de ter utilizado a expressão "estamos" fez com que Hermione notasse que ele realmente se via como um deles, como parte da Ordem, como o lado oposto ao dos comensais naquela luta. Não conseguiu deixar de imaginar que Gina ficaria feliz ao ouvir isso e que Rony provavelmente vomitaria.
- Tenho certeza.
Estavam caminhando pelo corredor, contornado por várias portas e quadros, quando ouviram pela primeira vez. Era um barulho bem especifico, profundo, como se houvesse algo se movendo por trás das paredes ou quem sabe sob seus pés. Os olhos cinzas e castanhos se encontraram por um instante, com o mesmo olhar de espanto e surpresa, como se gritassem "está aqui!", mas sem a necessidade de emitir uma só palavra.
- O que nós fazemos, Granger?
A pergunta de Draco não ajudou a cabeça de Hermione a parar de dançar. Seu nervosismo afetou prontamente seus passos, que se tornaram uma corrida enquanto ela tentava manter-se de pé ao mesmo tempo. "Mas que droga!", ela pensou enquanto seus dedos apertavam com força o pequeno espelho escondido em seu bolso. "Devia mesmo ter trazido aquele galo".
Seguida pelos passos de Draco, Hermione acabou abrindo uma porta qualquer e entrando, numa vã tentativa de colocar os pensamentos em ordem. Quer dizer, se seu plano maluco desse errado, o Malfoy e ela estariam em sérios apuros. Não é tarefa fácil escapar de um basilisco, especialmente sem encará-lo nem que por um segundo. Assim que o loiro passou pela porta, a Granger a fechou como se sua vida dependesse disso.
Sua respiração afobada e seu coração pulsante não conseguiam esquecer de sua experiência no segundo ano e Hermione já não conseguia mais ter certeza de que conseguiria fazer aquilo de novo.
- Ei, Granger? O que foi?
A preocupação de Draco pareceu genuína, mas Hermione não conseguiu dar atenção. Tentou focar no ar que entrava e saia de forma desregrada de seus pulmões. Não podia simplesmente hiperventilar e ficar parada como um gatinho assustado. Precisava se recompor e, somente por isso, fechou os olhos.
- Granger! Ei, Granger!
A voz do Malfoy parecia distante agora. Hermione tentou focar em sua respiração, em compassar as batidas aceleradas de seu coração, mas nada pareceu surtir muito efeito. Somente a lembrança dos olhos do basilisco conseguiam lhe aterrorizar imensamente e ela podia jurar que estava sentindo aquele maldito bicho rastejando sob seus pés.
- Malfoy, eu... eu...
Ela tentou falar, formar alguma frase que fizesse sentido, contar que estava nervosa, que precisava se acalmar, mas nada além de uma exclamação saiu por seus lábios. Sentiu que sua boca estava seca e, por um momento, notou que seus braços também formigavam. Suas pernas fraquejaram e a última coisa que Hermione viu antes de desmaiar foi o rosto assombrado de Draco vindo em sua direção.
- Não, não, não, Granger!
Os dedos finos de Draco contornaram os ombros da garota, que já estava inconsciente. Tentou sacudi-la de forma não muito abrupta, mas Hermione não reagiu. Pôde perceber que ela estava respirando, mas esse era o único sinal positivo que apresentava naquele momento. Os olhos cinzas desesperados dançaram pelo rosto da Granger em busca de qualquer sinal de reação, mas mal teve tempo de imaginar o que estava acontecendo. Ouviu então um sutil barulho de respiração, como se alguma coisa estivesse bem atrás da porta que acabara de ser fechada.
Pela fresta da porta constatou que havia mesmo uma sombra ali e o barulho de alguma coisa rastejando confirmou seus temores. Seja lá onde Parkinson mantivesse o basilisco, ele definitivamente não estava lá. Pelo contrário, estava bem solto, dando uma volta pelo castelinho em busca de comida ou invasores e Draco tinha certeza que Hermione e ele se enquadravam nas duas categorias.
- Maldição.
A voz de Draco saiu num sussurro enquanto caminhava para trás devagar, puxando Hermione pelos antebraços. Escorou suas costas na parede e respirou fundo, tentando ver alguma coisa boa naquela situação que o impedisse de surtar completamente. Se antes já achava que tinham pouca chance de sucesso, agora então pareciam nulas.
Não fazia ideia do tamanho do basilisco que estava prestes a enfrentar, mas considerando o tempo que a sombra demorou para sumir completamente do vão da porta, devia ter uns seis ou sete metros. Certamente caberia fácil, fácil no estomago daquela coisa. Contando ainda com sua incrível aptidão para lidar com criaturas mágicas, já tinha quase certeza que acabaria morto.
Ainda por cima agora, justo agora, Granger decidia que era uma ótima hora para ter uma crise e se tornava apenas mais uma preocupação. Presumiu que, talvez, ela devesse ter alguma lembrança do basilisco de Hogwarts, que mandou metade da grifinória para a enfermaria em forma de pedra no segundo ano. Concluiu que aquele não devia ser um bichinho fácil de ser esquecido.
E era justamente com essa aberração que estava prestes a lutar agora. E, ainda por cima, sozinho.
Não sabia exatamente o que fazer com Hermione. Deixava ali mesmo? E se o basilisco viesse atrás dela? E se ela acordasse na hora mais inapropriada do mundo e desse de cara com o bicho? Gina com certeza ia mata-lo se deixasse a amiga dela largada numa sala após uma crise de ansiedade. Oh Merlin, por que essas coisas nunca aconteciam com Blaise?
Foi então que Draco começou a reparar nos objetos da sala. Puxou Hermione para o canto e a cercou com algumas cadeiras de madeira, como se aquilo pudesse impedi-la de se levantar e sair andando sem rumo, feito uma doida. Havia ainda uma estante cheia de livros poeirentos e, sabendo do gosto da Granger por leitura, teve que se controlar para não a cobrir com eles numa espécie de piada de mau gosto.
Então decidiu que a melhor coisa que tinha a fazer era, realmente, tentar lutar contra aquele bicho sozinho. Lembrou-se que Hermione mencionara mais cedo algo sobre aumentar o tamanho do espelho com magia e começou a vasculhar suas memórias, tentando lembrar o nome da porcaria de feitiço que faria isso. Ele tinha certeza que sabia, mas estava escondido em algum lugar distante de seu cérebro. "Bom, na hora eu lembro" E essa foi a primeira péssima decisão que Draco tomou aquela noite.
Encheu seu peito de coragem enquanto erguia a varinha e apontava para Hermione, murmurando um feitiço de proteção para, caso as coisas começassem a desabar, não caíssem bem na cabeça dela. Dava para ver que a respiração da menina estava mais regulada, mas não tinha certeza de quanto tempo poderia levar para que acordasse e nem se seria correto de sua parte força-la a voltar para a ação.
Seus dedos apertaram suavemente o espelho redondinho e os olhos cinzentos se fecharam por um segundo, fazendo com que a imagem do rosto sorridente e sardento de Gina lhe dominasse. A vida que tinha agora, a liberdade de sua mãe e todas as memórias boas que tinha, devia a ela. Não havia motivo para hesitar, pois sabia que tudo que receava perder, na verdade, era mais da Weasley que dele mesmo.
E então abriu a porta.
O silêncio sepulcral parecia perfurar seus ouvidos atentos. Tentou seguir pelo caminho que vira a sombra percorrer por baixo da porta, embora não desse mesmo para ter certeza, devido a quantidade de portas que havia no corredor. Ficou pensando em quão certeira Pansy estava de que ia vencer, para deixar sua maior arma de guerra como única segurança de sua base. Tudo bem que era bem difícil lutar conta um basilisco e sobreviver para contar a história, mas mesmo assim era um movimento arriscado e que Draco com certeza jamais faria.
Porém, tinha muito da assinatura de Pansy nessa ação. Sua presunção sonserina e a arrogância de pensar que jamais ninguém conseguiria lhe superar fazia com que afrouxasse muito a segurança. Mas admitia que era estranho que deixasse o basilisco solto, até por que, só ela sabia se comunicar com ele. Se algum outro sonserino chegasse antes, estaria com problemas seríssimos.
Foi aí que a ficha de Draco caiu.
O basilisco não estava solto lá, dando uma voltinha. Pansy o deixou lá de propósito. Não era só arrogância daquela cabeça de vento, ela estava querendo claramente se livrar de alguns de seus seguidores, mas qual seria o motivo? Draco lembrou-se de ouvir algo sobre alguns pergaminhos antigos que ela havia adquirido, mas será que esse era motivo de discórdia entre os comensais? Sua cabeça estava com tantas dúvidas que mal podia calcular.
Se a Granger estivesse ali, com certeza falaria que deveriam procurar por esses pergaminhos assim que exterminassem o basilisco, pois fora com eles que toda essa confusão se iniciara. Mas agora simplesmente não tinha tempo para pensar nisso, teria que deixar esse problema pendente para o Draco do futuro.
Começou a tentar forçar sua cabeça a se lembrar do nome do maldito feitiço, pois sentia que seu encontro com o basilisco estava cada vez mais próximo. Entretanto, nada além de palavrões se fixava em sua cabeça. Era como se uma névoa cobrisse seus olhos, pois a mente pensava em tanta coisa ao mesmo tempo que o impossibilitava de ver adequadamente. Percebendo isso, ainda mais maldições vieram à tona.
Logo ele, Draco Malfoy, sempre excelente em matérias de precisão e cautela, se via agora sem conseguir raciocinar direito. Se soubesse que Gina terminaria viva aquela noite, talvez conseguisse pensar em alguma coisa útil. Mas não, além de estar longe dela, ainda não podia falhar. E só de voltar sua imaginação para o que estaria acontecendo na batalha seus passos já eram comprometidos pelo nervosismo.
Sua insegurança começou a gritar assim que viu a sombra do basilisco logo à frente, seguindo pelo corredor e se distanciando lentamente. Draco sabia que não era um herói e nem algo parecido. Muito pelo contrário, se tudo houvesse seguido conforme o planejado por sua família durante os últimos milênios, provavelmente estaria lutando ao lado de Pansy aquela noite. O fato de não estar, além de torna-lo um traidor, ainda não o tornava suficientemente digno de honra.
Traiu o sangue, as crenças, a família, os ancestrais e tudo que um homem pode trair somente pelo vislumbre da luz que Gina Weasley trouxe consigo. Seu espírito, embriagado de escuridão, não pôde resistir ao ver tamanha energia e claridade vindo em sua direção. Apegou-se e apoderou-se daquele símbolo que era Ginevra e sabia que jamais se permitiria soltá-la.
Correr para a luz não o torna herói. Afinal de contas, todo mundo sabe que esse cargo pertence à Harry. Para Draco, o que sobra é apenas um papel de coadjuvante nessa trama e jamais que alguém como ele seria capaz de derrotar o basilisco. E sabia que não haveria nenhum herói para lhe salvar na última hora.
Até coragem, que para Gina ou Harry é tão natural quanto respirar, para Draco exige pensamento, convicção e estratégia. Não tem ímpeto de se lançar em uma situação sem calcular antes suas ações e chances de vitória.
E, em vezes como aquela, mesmo calculando, hesita.
Desejava ter ficado na sala mais tempo, até se lembrar do nome do feitiço. Desejava não ter seguido em frente pelo corredor e não estar observando o basilisco agora, com toda sua magnitude, rastejando bem a sua frente. Respirou fundo mais uma vez, ergueu a varinha e apertou os olhos, lembrando-se de que o relógio continuava a correr enquanto ele permanecia parado.
"Vamos, Draco. Pense em alguma coisa".
Sua cabeça trabalhava em uma velocidade alucinante. Seu cérebro parecia lhe cobrar urgentemente de uma solução.
Seus olhos cinzentos tremiam enquanto sua cabeça funcionava.
Uma gota de suor escorreu por sua bochecha enquanto os dentes se apertavam.
"Vamos. Alguma coisa. Qualquer coisa!"
Os nós de seus dedos ficaram brancos enquanto apertava a varinha.
O rosto de Gina. Os lábios se movendo devagar.
"O que você quer fazer, Malfoy?"
A mesma maldita pergunta que lhe assombrava desde que Gina a houvera feito.
O ar entrou nos pulmões.
A mão se ergueu com a varinha.
"Quero ficar com você, Gina"
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N/A: Gente, vamos com fé! Hahahahahaha Se tudo der certo, essa fanfic acaba! Meu pai amado, demorei muito para sair com esse capítulo, mas estou empolgada e acho que a coisa está promissora, gente! Até que demorou menos que os outros, vai hahahahahaha.
Muito obrigada mesmo pelos comentários de todas vocês, podem ter certeza que foram eles que me moveram, gente. Me desculpem pela demora, eu estou me esforçando mesmo.
Vejo vocês no próximo! Vai ser antes do que vocês imaginam =D
