************************ Cap 31 Bandeira branca, amô ************************

- Então saíram juntos para o jantar, o Sol, a Lua e o Vento. Como o céu não podia ficar sem vigilância, a Estrela, a mãe deles, ficou em casa. Estrela estava com muita fome e o tempo todo esperou os filhos voltarem do jantar trazendo para ela algo de comer, mas nenhum deles se lembrou, exceto uma Lua. Lua guardou uma porção de cada prato e quando voltaram para casa serviu o banquete à mãe, que ficou grata, porém magoadíssima pelos outros filhos não terem se lembrado dela. Então, como castigo, Estrela castigou o Sol o tornando tão quente e brilhante que aparência nenhuma suportaria olhar para ele toda vez que aparecesse no céu. Ao Vento, Estrela condenou que aparecesse sempre nas estações quentes e secas para danificar todas as coisas, assim os homens de passar a evita-lo, mas com a Lua ... Ah! Por ter se lembrado dela, Estrela proclamou que a Lua teria uma temperatura suave e amena, que seria calma, gentil e seu brilho encantaria a todos os homens. Nenhum perigo se uniria ao seu resplendor, ela jamais seria nociva, seu brilho seria sempre puro, e os homens a chamariam para todo o sempre de abençoada. *

Na Ala 5 o tempo sempre lhe escapou correr mais depressa. Não sabia dizer se os segundos marcados pelo bip bip bip do aparelho ligado à frequência cardíaca de Kiki era o que lhe causava essa impressão. Talvez fosse.

De todo modo, a passagem do tempo, na atual situação em que vivia, seria muito melhor tolerada sem um aviso sonoro, disso Shaka não tinha dúvida.

Sentado à beira da cama hospitalar, devidamente paramentado como exigia os protocolos da terapia intensiva, ele tinha o queixo apoiado nos braços cruzados sobre o colchão e os olhos azuis celestes, bem menos céticos do que no dia anterior, fixos ao rosto pálido e abatido de Kiki, que mantinha o bracinho estirado confortavelmente sobre um travesseiro enquanto com os dedinhos brincava com as mechas loiras da franja farta de seus cabelos.

- Estrela não fez nada de errado, né Baba? - sussurrou Kiki pensativo.

- Não. Nada de errado. - Shaka esboçou um sorriso por debaixo da máscara cirúrgica.

- Igual a dona Ricotha no capítulo da novela ... Os filhos foram na festa de casamento da Phrancha com o Tonfa Morgus e não levaram nenhum docinho para ela ... Onde já se viu! - balançou a cabecinha em negativa.

- Pois fez ela muito bem em se transformar em uma ema e jogar uma praga repugnante neles. Teriam dor de barriga 20 dias e 20 noites, que era para aprenderem a nunca mais comer nada sem dividir.

As pintinhas lemurianas na testa de Kiki quase se uniram quando ele assumiu uma expressão circunspecta.

- Por que a dona Ricotha teve que se transformar numa ema para isso, baba?

- Porque na forma de ema as pragas são bem mais fortes!

— E na forma de Shakas também! — Kiki brincou dando uma alta gargalhada, e tão bem fazia ao Santo de Virgem vê-lo rindo e alegre daquela forma que pouco se importou com a travessura.

— O que importa é que na forma de ema, a soltura de ventre dos três filhos tratantes dela seria muito mais avassaladora! — ele disse rindo junto do pequeno.

— Ah! Puxa, que terrível! — exclamou Kiki.

Enquanto o pequeno lemuriano processava o fato das emas possuírem um poder de maldição mais forte do que o de um ser humano, Shaka levantou o olhar para o relógio preso à parede e conferiu as horas. Mu e doutor Adônis estavam demorando a voltar do laboratório improvisado ali na Ala 5 onde, com alquimia lemuriana e seguindo alguns dos estudos laboratoriais das pesquisas feitas por Adônis, Áries sintetizava um soro experimental feito da Flor Kristall para testar em Kiki.

— Quer ouvir outra história? — perguntou Shaka voltando a olhar para ele.

O ruivinho fez que sim com a cabeça.

— Baba, conta a história de quando você e o papai se conheceram.

Shaka sorriu e levou a mão até o peito esguio dele, o afagando delicadamente por cima do pijama de estampa de dinossauros andando de skate.

— Ah! Você gosta dessa, né? — Kiki fez que sim com a cabeça — Está bem... — suspirou, e agora de olhos fechados acompanhava com a mão a respiração cadenciada dele. — Varanasi é uma cidade no Norte da Índia que fica às margens do Rio Ganges. É uma das cidades mais antigas do mundo... foi lá que Shaka nasceu.

— E foi lá que o mestre do papai achou o senhor, né Baba? — disse Kiki, que ouvia tudo com atenção e curiosidade, embora já tivesse escutado aquela história diversas vezes. Não sabia dizer por que ela o encantava tanto.

Shaka abriu os olhos e olhou com ternura para ele.

— Foi sim. As estrelas traçaram um mapa no céu e levaram Shion até Shaka. Ele podia falar com as estrelas, podia ler no céu as mensagens que elas lhe mandavam... e no dia que a minha mãe desencarnou, quando eu tinha 6 anos, ele apareceu lá, em Varanasi... Me lembro de ter tomado um susto enorme quando ele surgiu do nada nas margens o Ganges, levitando sobre as águas. Era de noite, então haviam poucas pessoas ali além de mim e do Sadhu que me ajudou a fazer o funeral da minha mãe. Eu ainda chorava aos pés da pira de fogo quando ele me pegou no colo e disse que minha vida dali para frente iria mudar porque eu estava destinado a ser o Cavaleiro de Virgem dessa era... Eu não tinha a menor ideia do que ele estava falando, mas além do conforto e confiança que o Cosmo dele me transmitia, quando eu nem sabia ainda o que era o Cosmo, eu estava tão sozinho, cansado, doente e faminto que eu iria com ele para qualquer lugar do mundo que ele quisesse me levar... Então ele me trouxe para cá, para a Grécia, para o Santuário... Logo a princípio fiquei assustado com o luxo, a grandiosidade e o vazio que era o lugar para onde ele tinha me levado, o Templo do Patriarca no topo do Monte Zodiacal. Estava acostumado com a poluição visual de Varanasi, com todos os espaços preenchidos por pessoas, animais, cheiros ruins e toda a sorte de tralha, e de repente aquele espaço todo e arrumação era ao mesmo tempo satisfatório e perturbador para mim. Então ele me colocou no chão e me pediu para esperar ali enquanto ia chamar o Cavaleiro de Gêmeos, que seria o meu tutor, mas assim que ele deixou o átrio, a porta do salão principal se abriu e ele entrou... Mu, o seu pai — fez outra pausa, e seus olhos de repente ficaram vagos e brilhantes, como se tivesse uma vivencia do passado. — Quando eu olhei para o seu pai, foi como estar diante de uma criatura onírica.

— O que é onírica, Baba?

— É algo que parece saído de um sonho. Uma coisa tão extraordinária e fora do comum que parece não ser real. Eu achei que ele era uma fada. Mas Mu era real... só que eu só acreditei nisso quando ele parou de me encarar com aqueles olhos verdes enormes dele e começou a andar na minha direção. E se não fosse pelo fato de ele se parecer com uma criança e estar sorrindo eu teria fugido, porque ele era diferente de todas as pessoas... na verdade, ele era diferente de tudo o que eu já tinha visto na vida. Mas eu não fugi, simplesmente porque não conseguia me mexer, nem ao menos piscar, e quando ele chegou bem perto de mim ele disse na minha língua: — "A sua aura, ela é diferente de todas as que já vi na minha vida. Ela tem o brilho do sol, e é quente e forte como ele, mas ela é gentil e abençoada como a luz da lua."... Me surpreendi quando o ouvi falando em hindi, e aquilo me deixou mais confiante. Eu perguntei o nome dele, e quando ele disse que se chamava Mu eu disse que era um nome bastante estúpido para uma menina... — fez uma pausa e juntos, ele e Kiki, riram divertidos. O pequeno adorava aquela parte da história.

— E o papai ficou bravo porque o senhor confundiu ele com uma menina, né Baba?

— Sim! Não apenas por isso, mas porque eu disse que o nome dele, que é cheio de significados importantes para o povo dele, era um nome estúpido... Enfim, ele ficou danado e disse que não era uma menina coisa nenhuma, era um menino, um Cavaleiro de Ouro, e que eu provavelmente o confundi porque meus olhos estavam cobertos de sujeira... Depois disso Shion chegou trazendo Saga e Aiolos consigo, lhes deu algumas instruções, que eu não entendi por estarem falando em grego, e novamente deixou o Templo junto com eles. O seu pai então me tomou pela mão e me levou para o banheiro da suíte do Grande Mestre dizendo que iria tirar a sujeira dos meus olhos e lá me ajudou a tomar banho. Foi o primeiro banho de água quente e limpa que tomei na vida... E todos aqueles produtos de higiene? Todos aqueles cheiros deliciosos de limpeza... Ah! Eu devo ter ficado horas cheirando um por um. Deste dia em diante eu senti que o seu pai e eu estaríamos ligados de alguma forma para sempre, porque eu senti como se o tivesse reencontrado e não apenas o conhecido ali, naquele dia.

— O Baba e o papai já se conheciam de outra vida? Igual a Jhacartha e o Phalermah na novela das seis da tarde?

— Algo me diz que sim — Virgem sorriu.

— E como o senhor lembra de tudo isso se só tinha 6 anos, Baba? O Kiki não lembra de quando era pequeno.

Shaka levou a mão até o rostinho dele, acariciou seu queixo e lhe sorriu com os olhos.

— Pequeno o Kiki ainda é — disse com voz sorridente. — Shaka se lembra porque esse dia marcou todo o resto da vida dele... ele conheceu o seu pai, deixou a terra dele, a Índia, e também perdeu a mãe dele — por um momento ficou introspectivo, depois emendou: — Depois de um tempo eu entendi que minha mãe não me abandonou, ela apenas me libertou para que eu pudesse vir para o lugar onde eu deveria estar e cumprisse o papel para o qual nasci, me tornar o Cavaleiro de Virgem.

— E casar com o papai e ir buscar o Kiki na praia! — completou Kiki.

— Exatamente! — ele suspirou acariciando os cabelinhos ruivos.

Nesse ponto exato a porta do quarto se abriu.

— De novo contando essa história? — a voz grave de Mu chamou a atenção dos dois. Ele entrava no cômodo acompanhado por Adônis e trazia em uma bandeja de metal um frasco de soro contendo uma solução com um forte brilho iridescente — Já chegou na parte que o seu Baba falou que eu era uma menina com nome idiota?

— Estúpido! Nome estúpido. — Shaka corrigiu dirigindo a ele um olhar ansioso.

— Já papai. — Kiki riu sem perceber a tensão dos pais.

— Pois a versão correta da história é que o seu Baba tinha tanta sujeira encarquilhada nele que até os miolos estavam clamando por um banho, por isso ele se confundiu quando me viu. A imundice tinha deixado ele surdo, cego e biruta — disse Mu, que parecia bem animado, ainda que grande parte de todo aquele entusiasmo fosse apenas para manter Kiki distraído enquanto Adônis fazia os preparativos para ministrar-lhe o soro — Nós passamos bem umas duas horas naquele banheiro, e enfim então eu descobri que por debaixo de toda aquela imundície tinha um menino tão lindo quanto a aura brilhante e quente dele.

— Que exagero, Mu! Foram duas horas porque ficamos conversando — disse Shaka em sua defesa.

Mu então se inclinou sobre o leito até que seu rosto ficasse bem próximo ao de Kiki.

— Uma hora inteira foi só para eu conseguir cortar e limpar as unhas dele, das mãos e dos pés. Isso que eu não catei os piolhos! Passei essa missão para o Saga — murmurou, depois junto de Kiki caiu na risada, e vendo que Shaka parecia embaraçado esticou o braço e lhe deu um apertão na bochecha antes de lhe afagar com carinhos a franja loira. — Era o piolhentinho mais lindo que já vi na vida!

Kiki de repente ficou sério e olhou para Mu.

— Por falar no tio Saga, o Baba disse que ele voltou, mas... onde ele tinha ido? — perguntou curioso e parecendo bem sério.

Mu respirou fundo. Por mais que tentasse, e verdadeiramente quisesse, colocar uma pedra sobre seu desentendimento com Saga, sentia-se ainda consumido por aquele assunto.

Percebendo no ato a alteração do lemuriano Shaka logo interveio.

— O tio Saga tinha ido comprar cigarro — falou sem a menor cerimônia ou qualquer traço de vacilo.

Mu e Adônis fitaram, surpresos e incrédulos, o indiano.

— Mas todo esse tempo? — Kiki questionou impressionado e de certa forma, obviamente, colocando em cheque aquela afirmação — Onde ele foi comprar cigarro que demorou tanto pra voltar?

Ao lado deles, ainda lidando com os aparatos do soro experimental, Adônis não conseguiu segurar o riso. Ele conhecia o dilema pelo qual passava o Santo de Gêmeos.

— Olha, filhote, melhor a gente continuar falando dos piolhos do seu Baba, ok? Esse assunto do tio Saga a gente deixa para conversar quando você estiver melhor, quando voltar para casa, combinado? — Mu tratou logo de dar cabo do assunto, que era por demais delicado.

— Ei! Quem disse que Shaka tem piolhos? — falou Virgem repreendendo o ariano. — Ele tinha quando era criança, não tem mais!

— Exato, Luz da minha vida. Tinha! Inclusive, tinha mais piolho do que juízo nessa tua cabeça loira quando era criança.

Kiki riu alto e divertido, totalmente distraído pela conversa dos pais, exatamente como pretendeu Mu, já que assim ele não perceberia os primeiros mililitros do soro experimental entrando em sua veia pelo acesso fixado em seu peito, o que poderia causar qualquer tipo de reação colateral inesperada, como ardência, dor, coceira, sensação de frio...

Felizmente, passados os primeiros minutos, e sem registrar nenhum efeito colateral adverso, Adônis acercou-se deles no leito para lhes inteirar do experimento.

— Bom, vou aproveitar que estão os três aqui para inteira-los das descobertas que fiz sobre o que exatamente está acontecendo com o seu corpo, Kiki. O que na verdade está te deixando doente — disse o médico lançando um olhar doce para o paciente.

— O doutor descobriu o que o Kiki tem? — o lemurianinho perguntou ansioso.

— Finalmente posso dizer com segurança que sim, mas não descobri isso sozinho. O seu papai me ajudou bastante! — sorriu amistoso para Mu ao seu lado.

— Então diga logo o que é! — exigiu Shaka a Adônis. — E imagino que se descobriu a causa também descobriu a cura!

O médico olhou para o cavaleiro e apertou os lábios num gesto apreensivo.

— Bem... apesar dos progressos consideráveis que fizemos com base nas informações que o senhor Mu nos trouxe, foi possível descobrir a causa, porém ainda não a cura — disse, recebendo de Shaka um olhar frio, que não fez o menor esforço para disfarçar sua frustração. — Mas acredito que pela primeira vez estamos bem próximos dela.

Adônis ia prosseguir com os relatos, quando inesperadamente Mu interveio.

— Eu também acredito que estamos no caminho certo — disse ele, que percebendo uma agitação crescente na aura do virginiano aproximou-se e cobriu a mão dele com a sua, entrelaçando os dedos. — Passamos a noite e a madrugada toda estudando o caso, afinal, de que adianta termos a matéria prima e o conhecimento alquímico se não sabemos exatamente o que estamos combatendo? Então enfim chegamos num consenso, mas vou deixar Adônis explicar. Preste atenção, Luz da minha vida.

Shaka respirou fundo e balançou a cabeça ao modo indiano. Um gesto afirmativo.

— Bem... — Adônis ponderou por um momento enquanto ajeitava o óculos no rosto. Buscava as palavras exatas para que de forma bem simples pudesse explicar a complexa doença do menino. — Estamos diante de uma patologia resultante do nascimento prematuro de um bebê muviano. Segundo as informações do senhor Mu, a gestação da espécie dele é mais longa, o que me levou a considerar que da mesma forma que o crescimento de uma criança lemuriana é retardado, porque é nos primeiros anos de vida do indivíduo que há maior desenvolvimento cerebral para o surgimento e aprimoramento dos dons telepáticos e telecinéticos, assim também o feto tem um crescimento diferenciado. Dessa forma, um nascimento prematuro implica diretamente na perda de componentes imprescindíveis ao desenvolvimento adequado do bebê, e dado o histórico do parto de Kiki, somado à falta do aleitamento materno para reposição adequada desses componentes, isso se torna um agravante considerável.

- Mas eu ... nós ... nós não deixamos faltar nada a ele ... - disse Shaka aflito.

- Shaka, deixa ele falar.

— Nós usamos os equipamentos de mapeamento genético doados ao hospital para destrinchar todos os componentes físico-químicos da biologia lemuriana para assim tentar encontrar quais eram os componentes deficientes no organismo de Kiki. Tudo que existe no sangue dele, e também no DNA, foi traçado e comparado ao mapa de humanos comuns e ao do senhor Mu, e então, depois de muito estudar todos esses mapas eu finalmente encontrei a chave do problema, ou melhor, a falta dela. — disse voltando a ajeitar o óculos. — Nas células do senhor Mu, em todas elas, do sangue, dos órgãos e até mesmo dos ossos, na matriz citoplasmática existe uma enzima. Essa enzima é responsável por orquestrar toda a funcionalidade dos dons telecinéticos e telepáticos dele, e é ela também que modifica toda a estrutura fisiológica das células do corpo de um lemuriano para torna-lo apto ao uso desses dons. Mas, embora essa enzina desempenhe um papel de importância primordial e vital, ela não é produzida com abundância pelo organismo, por isso foi tão difícil encontra-la e mapeá-la. É como se ela fosse o grande segredo dos lemurianos. No entanto, ela está ali, silenciosamente presente em todas as células do corpo do senhor Mu, mas curiosamente ausente no corpo do Kiki. Não há sequer rastro dela em nenhuma célula de Kiki... Entende onde quero chegar, senhor Shaka?

Shaka apenas acenou com a cabeça, sério e introspectivo.

— O corpo do Kiki não está mais produzindo essa enzima, Luz da minha vida — disse Mu, que agora segurava com força a mão do indiano. — Nós a batizamos de Metaballeinase, do grego metaballein, metabolismo.

— Que significa mudar ou fazer alterações — emendou Shaka em voz baixa. Então olhou para Kiki e levando a mão que tinha livre até seus cabelos ruivos fez neles uma terna carícia. — Eu estou entendo. Você está, filho?

Kiki fez que sim com a cabeça. Não tinha entendido exatamente as palavras do médico, mas era esperto o suficiente para compreender que seu corpo estava doente por falta da tal enzima lemuriana.

— O Kiki estava com pressa de nascer, e o Baba estava com pressa de dar um nenê para o papai... A gente devia ter esperado mais uns dias, né Baba? — concluiu o ruivinho levando todos ao riso.

— É, a gente deveria ter esperado mais uns dias — Shaka sorriu com os olhos para ele, em seguida olhou para Mu e não conseguiu evitar trocar com ele um olhar melancólico. — Mas, nós vamos dar um jeito nisso, não vamos, Mu?

— Claro que vamos! — Áries respondeu num tom cheio de confiança. — Porque nasceu antes da hora, o corpo do Kiki ainda não estava desenvolvido o suficiente para secretar a metaballeinase, e agora que seus dons telecinéticos e telepáticos começaram a se desenvolver com vigor, sem essa enzima para regular as funções fisiológicas tudo dentro dele começou a entrar em colapso.

— Que quer dizer colapso, papai? — perguntou Kiki.

— Quer dizer que tudo dentro de você está funcionando errado, filhote — explicou Mu. — Através do transplante de medula, por um tempo as minhas células-mãe, que possuem e secretam a metaballeinase normalmente, irão regular algumas funções da fisiologia do Kiki, mas conforme elas forem morrendo o problema voltará, e pode até se agravar. É uma medida de emergência, não é a cura. Os componentes da Flor de Kristall devem ter algum efeito no corpo que faça essa enzima ser secretada, ou até mesmo possa ser o princípio ativo dela. Mas aqui entra o grande dilema: finalmente conhecemos o problema, temos a matéria prima para a cura, mas não fazemos ideia de como usa-la.

— Não serve se o Kiki comer a flor? Ele come! Não deve ser tão ruim — disse o lemurianinho.

Mu riu junto de doutor Adônis, que emendou:

— Infelizmente não adianta comê-la, Kiki. Só conseguimos chegar a esses componentes através de alquimia lemuriana.

— Exato — disse Mu. — A química básica humana não consegue extrair da flor o que é preciso para a sintetização desses componentes, que combinados com as células do sangue lemuriano irão produzir a enzima. Apesar de ter estudado bastante e de saber várias coisas, eu não sou um mestre alquimista, e sim um mestre ferreiro celestial. Além disso, para piorar não tenho a fórmula alquímica para produção do remédio, mas com o conhecimento que Shion me passou consegui traçar algumas fórmulas. Esse soro que está tomando agora é uma delas. Estou tentando criar a nossa própria fórmula com a ajuda da junta de cientistas reunida pelo doutor Adônis. É um soro experimental, mas eu tenho fé que vai funcionar, ou pelo menos vai nos dar mais tempo até descobrirmos a fórmula exata.

Nessa altura, Shaka olhava para Mu com os olhos azuis celeste estatelados, brilhantes de nova esperança. Seu coração batia forte e acelerado, a despeito de seu corpo que parecia anestesiado. Estava ainda angustiado, sim, aflito, perdido, mas após meses de fracassos constantes aquela era a primeira vez que sentia de fato que estavam começando a caminhar para frente.

Num impulso ele se levantou bruscamente da cadeira e abraçou Mu com toda força, gratidão, amor e confiança que agora sentia transbordar de seu coração.

— Eu sabia... sabia que ia conseguir — disse, e por cima dos ombros do ariano olhou para Adônis, direcionando também a ele sua gratidão. Ia lhe dizer que sentia muito por todas as vezes que fora rude, impaciente, importuno, mas de repente três batidas ritmadas na porta o fez demandar os agradecimentos prévios ao médico para mais tarde.

Como num ato ensaiado todos olharam juntos para a porta, e qual não foi a surpresa ao verem apenas uma pequena fresta se abrir e por ela um braço se esticar para o lado de dentro. Na mão encapada por uma luva cirúrgica havia uma bandeirinha branca da paz improvisada, feita com um lencinho bordado amarrado a um canudo colorido de milk-shake.

Mu fixou o olhar na bandeira tremeluzente, surpreso e encucado, e antes que pudesse dizer qualquer coisa Kiki, todo feliz, se adiantou:

— Tia Gê! — exclamou no volume mais alto que conseguiu remexendo-se na cama. A aura da tia amazona lhe era sempre inconfundível.

Ao ouvir a vozinha fraca, Geisty abriu por completo a porta revelando seus olhões violetas sorridentes, a única parte de seu corpo que não trazia coberta pelos trajes de proteção hospitalar.

— Oi gente! — disse ela, então notou de imediato a diferença nas expressões deles, antes constantemente abatidas, tristes, preocupadas, mas que agora lhe pareciam exultantes de euforia. Até mesmo Mu, que esperava encontrar com um olhar magoado, ali lhe parecia sorrir com os olhões verdes esbugalhados — Eu perdi alguma coisa?

— Geisty! — disse Shaka pegando a todos de surpresa. — Você não poderia ter chegado em hora mais auspiciosa!

Sem que ninguém esperasse, o virginiano, sempre tão sério e carrancudo, foi receber a amazona na porta com um abraço tão enérgico que quase a fez deixar cair a bandeirinha da paz.

Quase caíram também os queixos de Mu e de doutor Adônis, que não estavam acostumadas àquelas demonstrações de afeto vindas de Shaka.

— Mu e Adônis finalmente descobriram o que está acontecendo com Kiki — disse o indiano afastando-se para poder olhar nos olhos dela, os quais o encaravam espantados. — Eles sintetizaram um soro alquímico, experimental ainda, mas com grandes chances de dar bons resultados! Venha! Mu vai te explicar melhor.

— Pela deusa, que ótima notícia! — ela abriu um largo sorriso por debaixo da máscara e em seguida olhou para Mu, que exultante, e tomado pela emoção do momento, sorriu de volta para ela com o mesmo entusiasmo.

— Sim! Nesse exato momento estamos fazendo a fluidoterapia da primeira dose — disse ele animado.

Então de forma breve e sucinta Mu explicou à Geisty tudo o que se passou com ele nos últimos três dias. Falou sobre sua jornada pelos Montes Urais, sobre as noites sem dormir ao lado de Shaka enquanto estudavam mapas e livros de medicina, e por fim sobre a corrida contra o tempo junto de Adônis para tentar entender o material que tinham em mãos e como sintetiza-lo.

Foi com alívio e esperança renovada que a amazona acompanhou atenta a toda a narrativa. Com as mãos cruzadas sobre o coração festivo, ela agradeceu em silêncio à Atena por mais aquela graça alcançada. Ela, que tanto tinha rogado à deusa pelo sobrinho, sentiu finalmente que teve suas preces ouvidas, ainda que aquele fosse um frágil avanço; era uma pequena chama de esperança que se acendia no meio de um imenso breu que por meses sufocava a todos.

Outra questão também ajudou Geisty a respirar um pouco mais aliviada. O sumiço de Mu nos últimos dias era totalmente justificável. Ela temia que o afastamento do lemuriano fosse também consequência da briga que tiveram dias atrás. Um sorriso terno se desenhou por debaixo da máscara e a alegria deste também lhe esquentou o coração.

Definitivamente, ao longo de todos esses anos, a vida lhe havia ensinado a fazer limonadas dos limões que lhe entregava, e sua relação com Mu não seria diferente.

Sem mais delongas Geisty correu até o leito, para os bracinhos finos e pálidos que se esticavam no ar pedindo pelo abraço gostoso que só a tia amazona sabia dar.

Este aconteceu com os devidos cuidados, já que haviam inúmeras cânulas ligadas às veias do menino, mas com o mesmo amor de sempre. Nem mesmo a barreira da máscara impediu Kiki de sentir o calor dos beijos que cobriram seu rostinho alegre e seus ralos cabelinhos ruivos.

— Então quer dizer que esse pequerrucho fofo da tia já está bem melhor! Que notícia boa! Daqui a pouco vai poder sair daqui, então nós vamos passear juntos e comer todos os sorvetes gostosos que chegaram na sorveteria da dona Agripina, lá em Rodório — ela disse exultante.

— Ai, ai, tia Gê! — Kiki ria todo animado. — Apertando assim vai fazer suco do Kiki.

— Oh! Pela deusa! Me desculpe! — ela riu de volta. — Não pode fazer suco de lemurianinho, não! Vamos fazer cosquinha então.

Ao lado deles Shaka os assistia contente, enquanto Mu e Adônis riam da animação dos dois. Apesar dos pesares, de toda a dor, privação e sofrimento, Kiki ainda conseguia manter a essência brincalhona e a alegria que sempre foram suas marcas registradas.

Depois de um breve momento, Adônis resolveu deixar a família a sós e despediu-se para voltar aos estudos do caso de Kiki. Agora restava apenas aguardar a evolução da medicação experimental.

— Não! — Ele deu uma gargalhadinha histérica, então fechando os bracinhos com força tentou se proteger do ataque — Espera! Tia Gê! A tia disse que tem sorvetes novos na sorveteria da dona Agripina? — perguntou interessadíssimo.

— Hum! Tem, tem sabores novos... Tem até de banana com caramelo.

— Banana com caramelo?! — os olhinhos lilases brilharam.

— Sim, e também muitas outras novidades. Ah! Chegou pirulito de damasco e bala de iogurte com recheio de cassis lá na bomboniere daquela esquina sem saída, lembra onde é?

— Aquela que vende a torta de maçã mais gostosa do mundo?

— Lá mesmo!

— O Baba sempre leva o Kiki lá para ganhar de grátis do dono da loja um punhado de balas de coco, mas quando chega em casa ele dá só umas três para o Kiki e o resto ele come tudo escondido e sozinho.

— KIRIAN! — Shaka quase gritou tamanho o susto em ouvir aquilo. Iludido como era pela gostosura das balas, nem em sonhos imaginava ter sua manobra, tão minuciosamente arquitetada, descoberta tão precocemente por uma criança. — Mas que absurdo é esse? Eu não levo você lá para ganhar balas.

— Ele vai morrer negando, tia Gê, porque é segredo — disse Kiki olhando para a amazona, que segurava o riso. — Mas o Kiki já descobriu.

— E o Mu também, só que a gente finge que não sabe de nada e deixa ele se refestelar com esse prazer terreno e mundano — disse Mu passando o braço pelos ombros de Shaka, dando um meio abraço apertado. O indiano até tentou disfarçar, mas seu embaraço era visível através do rosto corado, mesmo por debaixo da máscara.

— Ah! Tenho mais uma novidade! — disse Geisty. — O Saravá Ebó fez um amiguinho novo.

— Quem? — Kiki perguntou curioso, mas logo sua fisionomia ficou um pouco melancólica. — Por que não trouxe ele, tia Gê? O Kiki está com saudades dele.

— O hospital não permite a entrada de animais, filhote — explicou Mu acariciando o ombro do pequeno.

— Sim — Geisty disse sentida, mas logo corrigiu-se para um tom bem mais animado. — Mas olha só, logo o Super Brasa, você, vai se juntar ao seu amigo Carvão, Ebózinho, e juntos vão aprontar por aí, logo, logo. Agora me deixe falar do amigo do Saravá. Um dia desses a Fúlvia apareceu lá no Templo das Bacantes com uma bolinha peluda, preta, preta, de cara amassada e cheio de sono. Acredita que ele veio dentro da gaveta do criado-mudo que tinha acabado de chegar do conserto na marcenaria do seu Olavinho?

— Olavino! — Shaka a corrigiu. Estava super atento à história. — O nome do dono da marcenaria de Rodório é Olavino.

— Isso, esse mesmo — disse Geisty, e logo emendou: — O gato dele veio junto com o móvel. — Ela caiu na risada.

— E o Ebó viu ele? — Kiki perguntou entusiasmadíssimo.

— Viu! Oh se viu! Eu levo o Saravá para o trabalho comigo, todo dia. Ele passa o dia todo dormindo dentro da pantufa do seu pai lá na Descolândia. — Nessa hora ela trocou um olhar terno com Mu, depois voltou a olhar para Kiki. — No dia que a Fúlvia apareceu com o gatinho, o Saravá estava comigo na cozinha. Era hora do almoço. Você tinha que ver a bagunça que eles fizeram juntos. Começaram a correr em cima da mesa, pularam nos pratos, derrubaram os copos... Eles tocaram o terror naquele Templo!

— Ei! Você não está deixando o meu gato se misturar com gatos pulguentos de rua, não, né Geisty? — Shaka perguntou num tom repreendedor.

Geisty arregalou os olhos num sobressalto.

— Oh, não! Não! Ele não é de rua — disse Geisty. — Depois descobrimos que o gato é do seu Olavinho.

— Olavino! — novamente Shaka a corrigiu.

— Como descobriram? — Kiki quis saber.

— Bom, nesse mesmo dia, enquanto a gente limpava o pós-festa dos gatinhos na cozinha, o seu Olavinho... — Shaka revirou os olhos azuis e suspirou, acompanhando calado o relato da amazona. — ... chamou lá na porta de entrada do Templo. Ele estava atrás do gatinho persa dos filhos dele, que tinha o costume de dormir dentro dos móveis na oficina. Como o móvel da Fúlvia foi o último a ser entregue naquele dia ele deduziu que o gato tinha vindo junto. Bom, nós tivemos que devolver ele para o dono, né, mas Saravá e ele continuarão amigos que eu sei. Eles se deram muito bem!

Já bem sonolento devido ao soro, Kiki sorriu para ela.

— Que legal... o Kiki quer conhecer... o amigo do Saravá Ebó...

— Você vai conhecer sim, meu amor! Logo, logo! — disse Geisty afagando os fiozinhos cor de fogo que caiam sobre a testa dele.

— Qual o nome dele? — Kiki perguntou, já com os olhinhos fechados e a respiração pesada.

— Bem... — Geisty pensou se deveria dizer, então começou a rir. — A Fúlvia o batizou de Mu.

— COMO É QUE É? — Shaka gritou tão alto que quase se engasgou. A máscara ficou toda troncha em seu rosto. — Mas essa messalina degenerada não se emenda mesmo! Quem a sirigaita pensa que é para dar o nome do marido de Shaka pro diabo do gato? Que, por sinal, nem dela é. Nem o gato muito menos o marido!

Ao lado dele Mu tinha os olhos verdes arregalados de surpresa, mas tudo o que fez foi dar um risinho desconcertado. Imaginou que qualquer coisa que dissesse em defesa da bacante fosse, claramente, incitar a fúria do virginiano.

— Sim, não é dela, por isso deve ter outro nome com certeza — disse Geisty acalmando os risos, olhando profundamente nos olhinhos de Kiki que lutavam para ficar abertos. — Ela quase matou todo mundo afogado de tanto que chorou quando o gatinho foi embora. Ela se apegou ao amiguinho do Ebó nos cinco minutinhos que ficou com ele no colo.

— Humpf... aquela lá é perita em se apegar ao que já tem dono — resmungou Shaka cruzando os braços irritado.

— Epa! E eu por acaso sou um bicho para ter dono? — Mu ralhou.

— Você não se faça, Mu de Áries! Mu não é bicho, mas é de Shaka! — ele respondeu sem qualquer cerimônia.

Mu riu dando de ombros e concordando com ele.

— Tadinha da Tia Fúlvia... ela não tem sorte... — sussurrou Kiki. — Mas... seu Olavinho... ele ia ficar triste sem o gato dele.

— Sim, ele ia ficar muito triste — Geisty disse com pesar na voz delicada, olhando para o garotinho que travava uma batalha árdua para permanecer acordado, embora aquela fosse uma disputa injusta. — Imagina se Kikizinho ficasse sem seu Ebó? Não pode, né?

— Não pode... — respondeu ele num fiapo de voz, então assumiu a derrota e caiu em sono profundo.

Geisty ainda segurou a mãozinha dele até percebe-la completamente molinha, então a ajeitou cuidadosamente sobre os lençóis. Não era nada fácil para ela manter-se firme naquele cenário, mas uma força que ela nem sabia que tinha nessas horas brotava de seu coração e a enchia de coragem.

— Durma bem, e por favor, fique bom logo. Todos estamos com muitas saudades de você... Tia Karina, e também tia Rebeca, tia Shina, tia Marin, todas mandaram um beijinho para você. — Ela sussurrou, não conseguindo evitar que seus olhos violetas ficassem marejados.

Pelas costas da amazona, Mu assistia à cena sentindo um calorzinho no peito.

Era bom ter Geisty ali com eles. Sempre fora.

O ariano já previa aquele efeito colateral do soro, e antes que Shaka surtasse pegou na mão dele e o tranquilizou dizendo que era normal que Kiki dormisse por algumas horas.

Mu sentia a aura da amazona bem mais leve, por isso mesmo ele e Shaka a deixaram ficar ali a sós com Kiki o tempo que quisesse. Ambos sabiam que ela necessitava da paz que só uma criança dormindo é capaz de transmitir.

E ali Geisty ficou por longos minutos em completo silêncio. Ela sequer conseguia desviar os olhos do rostinho do pequeno lemuriano, que ressonava baixinho tranquilo. Em seu imaginário, ela gostava de pensar que ele agora estava sonhando com todas as histórias que lhe contara a ele, que estava num mundo encantado tomando sorvetes coloridos, degustando pirulitos de damasco e balas de yogurt, rodeados por gatos peludos e prostitutas alegres cheias de amor... Ok. A parte das prostitutas a fez rir baixinho.

Com um suspiro, Geisty agradeceu à Atena pela dádiva da esperança, e depois de alguns minutos beijou com ternura a mãozinha do garotinho e saiu silenciosa do quarto, fechando a porta atrás de si com cuidado.

No corredor da terapia intensiva, ela avistou os dois cavaleiros sentados nas longarinas próximo à sala de espera. Caminhou até eles retirando a máscara, a touca e as luvas no caminho.

— Ele dormiu — disse ela quando parou à frente deles. — Acho que foram muitas novidades para um dia só. Ele acabou ficando cansado.

— Com certeza foram — disse Mu a ela. Ele também já tinha se livrado dos paramentos todos de acesso à UTI — Mas também é efeito colateral do soro. Nós esperávamos por isso já.

Geisty deu um suspiro profundo.

— Que bom que vocês conseguiram encontrar um remédio.

— Não é uma solução definitiva, estamos em fase de testes... Não há ainda uma fórmula alquímica específica para a sintetização da planta que pode curar ele — Mu completou.

— Então você não encontrou o diário do Mestre Shion? — Geisty perguntou curiosa.

— Não — ele respondeu baixando o olhar. Ao lado dele Shaka respirou fundo enquanto dobrava caprichosamente a máscara, o par de luvas e a touca que tinha usado para depois coloca-los num saco de lixo descartável. — E também não temos certeza se essa fórmula está mesmo no tal diário, né.

— Talvez nem precise mesmo dele, não é? Vamos ter fé que esse soro seja já a cura — disse otimista a amazona, e para descontrai-los bateu suavemente as mãos no ar mostrando-se muito animada. — Ei! Eu trouxe uma surpresa para vocês dois. Está no jardim de inverno. Venham! Venham!

Bem-disposta e contente, Geisty tomou a dianteira gesticulando com as mãos para que eles a seguissem. Juntos foram até o jardim de inverno que ficava a poucos metros dali. Assim que abriu a porta de vidro que dava acesso ao espaço ela começou a estalar os dedos das mãos enquanto emitia uns chiadinhos fazendo um charmoso biquinho.

Pisss Pisss Pisss...

Aquele singelo sinal foi o suficiente para fazer brotar de detrás do frondoso ipê amarelo que havia ali, entre o canteiro de margaridas e a grama que formava um tapete vivo, o gatinho preto de atentos e imensos olhos amarelos, o qual parecia travar uma luta sanguinária com um pequeno graveto; este resistia bravamente, com sua última folhinha verde ainda presa à ponta.

Os olhos azuis celeste de Shaka brilharam ao vê-lo ali.

— Siddhartha! — ele exclamou, alto e sorridente, ainda que sua presença a princípio fora totalmente ignorada pelo bichano.

A vinda inesperada do amado mascotinho ali trouxe de volta algum calor ao peito do virginiano, que correu até a árvore para junto dele, e quando em sincronia suas mãos alcançaram o chão o gato não pôde mais resistir; pulou desvairado nelas para ganhar colo.

— Oh, Siddhartha! O pai estava mirrado feito um maço de coentro murcho de saudades de você. — disse enquanto afundava o nariz no pelo do gato, depois virou-se para Mu e Geisty e dirigiu-se à amazona: — Obrigado por trazê-lo.

— De nada — ela respondeu sorridente. — Eu sei que vê-lo te faria bem, por isso trouxe esse espoleta. Só não podia falar para o Kiki que ele estava aqui, né — suspirou aborrecida.

— Ah, sim. Uma pena ele não poder vê-lo ainda — Shaka respondeu frustrado, em seguida virou o gatinho de cabeça para cima e começou a inspeciona-lo. — E você está bem, filho? Está comendo direito? Está tomando banho uma vez por semana? Tem sido difícil para você sem o pai lá, né?

Ouviu-se uma sequência de três miados curtos em meio a um ronronar alto e potente.

— Ah, Shaka sabe...

Próximo a Mu, Geisty cochichou:

— Ele está falando com o gato?

Áries levantou as mãos espalmadas e em paralelo até à altura do peito e deu de ombros, num claro sinal de "Não tenho nada a ver com isso. Não sei de nada!"

De repente o virginiano ergueu os olhos para Geisty.

— Seria pedir muito para que não leve mais o meu gato àquele alcoice mundano? Não quero esse animal tão puro recebendo energia negativa de vício e de pecado.

Geisty chegou a abrir a boca para responder a ele, mas Mu foi mais rápido.

— Luz da minha vida, menos, né? Ela já está fazendo muito cuidando dele para gente.

— Não me custa nada cuidar do Ebó. Faço com o maior prazer, mas o Templo das Bacantes é o meu trabalho, Shaka. Esperava que eu o levasse para onde para não deixa-lo o dia todo sozinho em Virgem? — disse a amazona um tanto indignada, porém já mais do que acostumada às críticas do indiano.

— Hum... que seja — ele respondeu não muito contente, depois voltou a esfregar o rosto no pelo do gato, que seguia ronronando e fazendo-lhe festinhas. — E ele está comendo sardinhas?

— Não.

— Não?! — ele olhou para ela com um semblante duro e reprovador.

— Ah, eu preparei as sardinhas exatamente como você instruiu, mas ele simplesmente cheira, faz cara de nojo e se afasta. Depois sobe no armário e fica miando me pedindo atum enlatado.

— Pobrezinho, está passando por dificuldades.

— Não está, não... Hump!

— Aguenta só mais um pouco, Sid, logo, logo o pai vai voltar para casa junto com o Mu e o Kiki, e então ele vai te alimentar com dignidade. Vai preparar a sardinha do jeito que você gosta.

Ao lado deles, Mu acompanhava toda a cena mordendo os lábios para não rir.

Como sentia falta daqueles momentos...

Como sentia falta daquele Shaka de olhos brilhantes e com fé no futuro.

Podia ser algo muito simples, como a visita de um gatinho, mas aquele era um escape perfeito para a dureza da realidade que vivia agora.

— Bem, mas não foi só o Sarava Ebó que eu trouxe para animar um pouco vocês...

— Siddhartha. — corrigiu o indiano.

Geisty o ignorou enquanto caminhava até o banco de madeira onde havia deixado a caixa de transporte vermelha do gato. Junto desta havia uma cesta de vime de piquenique. Com cuidado, ela retirou de dentro dela uma travessa de alumínio com uma sobremesa deliciosamente perfumada e visivelmente apetitosa. Em seguida apanhou também uma sacolinha de papelão amarrada com um lacinho de palha.

Virgem conhecia bem aquele embrulho, e foi para ele que ela o entregou.

— Esse é para você, Shaka. Eu sei que são os bombocados preferidos do Kiki, mas como ele não pode comer faça-me o favor de comer você, por ele. — Foi praticamente uma ordem.

O indiano apanhou o embrulho que trazia a guloseima sem demonstrar muita animação.

— Obrigado pela gentileza.

— De nada — ela sorriu para ele, depois voltou-se para Mu já lhe estendendo a travessa com a sobremesa. — E esse eu trouxe para você.

— Que isso?!

— É uma torta de maçã, mas pode ser também um pedido de desculpas — disse em voz mais baixa.

— Geisty... Por acaso você está tentando me subornar com comida? — perguntou ele incrédulo, num tom descontraído.

— Sim, estou — respondeu ela com naturalidade.

Mu deu um longo suspiro.

— Pois saiba que está conseguindo — ele disse com um sorriso.

Vendo naquela uma ótima oportunidade para os dois finalmente se acertarem, com o gato em uma mão e o embrulho com os bombocados na outra, Shaka aproximou-se de Mu e cochichou em seu ouvido:

— Faça as pazes com ela, e do jeito certo. Comporte-se, marido — deu nele um beijo terno no cantinho dos lábios e então afastou-se.

Mu apenas suspirou e balançou a cabeça em afirmação.

Ao passar por Geisty, Shaka lhe deu uma piscadinha e seguiu até o ipê, onde se sentou na grama e passou a brincar com Saravá e os muitos gravetos que havia no chão.

Assim que ficaram a sós ambos se sentaram no banco de madeira lado a lado, e cada um com uma colher na mão começaram a dividir a torta de maçã, a princípio calados, até que Mu enfim tomou coragem para desenrolar o assunto:

— Humm... — fez uma pausa, depois virou o rosto para ela e a olhou diretamente nos olhos violetas ansiosos. — Obrigado e... me desculpa, Geisty... por tudo.

Ela lhe fez um sinal afirmativo com a cabeça, mas ainda permaneceu calada, então ele emendou:

— Sabe eu... eu odeio ficar brigado com você... Eu não queria ter dito aquelas palavras duras, mas depois de tudo o que aconteceu, do que eu descobri, estou tão preocupado com você... — ele respirou fundo. — Eu assumo que perdi a linha.

— Sim, você perdeu a linha — ela disse, enfim. — Na hora você me magoou, mas vamos ser sinceros um com o outro?... A gente não guarda nem dinheiro, quanto mais rancor.

Áries riu com as bochechas cheias. Ela estava certíssima.

— Então, sim, eu perdoo você, Mu, só não faça isso de novo, ou ao invés de uma torta eu te trago um paralelepípedo e te faço comer!

— Acho justo! — ele disse apanhando outra colherada de torta para levar à boca.

— Nós nunca ficamos brigados antes, não vai ser agora que iremos ficar, não é mesmo? — deu uma cutucada nele com o cotovelo e uma piscadinha com um dos olhos.

— Hum... — ele apressou-se em engolir o doce para ter a boca livre. — Sabe o quanto você é importante para mim, né? Mas é que...

— O quê?

— É que... esse sentimento que sinto de cuidar de você, de te proteger, é maior, sabe?

— É esse o problema, Mu.

— Eu querer cuidar de você e te proteger é um problema?

— Não. Você achar que deve cuidar e proteger todos à sua volta que é — ela disse séria. — Você sempre agiu assim, sempre se preocupando com todos desde que éramos crianças. Você foi o primeiro de todos nós a chegar ao Santuário, então praticamente cuidou de todo mundo, e isso inclui a mim. Você é a primeira lembrança que tenho de quando cheguei ao Santuário.

Mu deu um longo suspiro.

— O Shaka me lembrou exatamente disso hoje.

— É mesmo?

— Sim. Ele estava contando ao Kiki como nos conhecemos... Fui eu a recebe-lo também.

— Você percebe? Você deve ser a primeira lembrança de todos nós. E não apenas a minha e a do Shaka, mas do Saga também — ela pronunciou aquele nome com pesar. — Você era a miniatura doce e amável, já consagrada Cavaleiro de Ouro de Áries, do Patriarca. Todos corriam para você ao menor sinal de perigo, ou quando levávamos uma bronca feia do Grande Mestre... Você sempre esteve lá para todos, era nosso intercessor, por isso carrega nos seus ombros até hoje esse senso enorme de dever e proteção, como se tudo fosse de sua inteira responsabilidade. E não é assim, Mu... Nem tudo está sob o seu controle... Eu sei que você quer o meu bem, mas algumas decisões precisam ser minhas, entende?

Mu deu outro suspiro e pousou a colher no canto da travessa.

— Entender eu entendo, mas é mais forte do que eu posso controlar — confessou. — Eu amo tanto vocês, todos vocês... Você disse que eu sempre estive lá para todos, mas o que sinto é que vocês é que sempre estiveram lá para mim... Vocês são a família que eu nunca tive. — Mu virou o rosto para ela e a encarou nos olhos. — E quando alguém fere a mulher que eu amo como a uma irmã, fere diretamente a mim. Saga também faz parte dessa família, mas ele te machucou e isso... isso me ferve o sangue, Geisty.

Ele cerrava os punhos, apertando com extrema força os dedos sem nem perceber.

— Eu entendo, mas...

— Justamente porque apesar de todo o mal que Saga fez a mim e à minha família, eu também o vi chegar no Santuário, e eu o vi crescer! Dei todas as chances a ele e o desgraçado faz o que faz.

O clima ficou tenso de repente e a amazona mordeu os lábios fazendo um careta preocupada, mas ela não se deixou levar pelo receio. Decidida passou um dos braços pelos ombros de Mu lhe dando um meio abraço.

— Não vamos falar do Saga agora, ok? — ela pediu. — Entendo que queria cuidar de todo mundo, mas e quem cuida de você, meu irmão? O que acontece quando a gente tenta segurar toda a areia da praia apenas com as mãos? Quanto mais se tenta apanhar, mais ela vai escapar pelos nossos dedos... Você precisa se focar em outras coisas agora. Precisa deixar os meus problemas para que eu mesma os resolva. Me dê esse voto de confiança, meu irmão. Hein?

Mu sorriu e colocou a travessa com a torta do lado no banco para poder puxar Geisty para um abraço.

— Eu amo você, sabia? Eu e você somos os únicos que chegaram no Santuário sem saber nada sobre as nossas famílias biológicas. Tudo o que temos é o que conquistamos depois, e conquistamos muito! Por isso, eu fico muito feliz de ter você na colcha de retalhos que é a minha família agregada.

— Eu também amo você. Você foi meu primeiro amigo, e também o primeiro a se importar comigo e a tentar me entender — ela disse, com os olhos marejados enquanto o apertava forte contra seu corpo.

Depois de um momento Geisty desfez o abraço, mas ainda segurando nos ombros dele, e com uma expressão de puro entusiasmo, olhou nos imensos olhos verdes e disse:

— Você se lembra, Mu? Se lembra das jujubas vermelhas?

— Lógico que eu lembro! As vermelhas eram as suas preferidas! — ele disse animado, então Geisty soltou seus ombros e ele aproveitou a deixa para recolher a travessa com a torta para voltarem a come-la.

— Elas são minhas preferidas até hoje — ela disse voltando a pegar a colher.

— Eu me lembro exatamente do momento em que conheci cada um de vocês. Lógico, alguns encontros me marcaram mais que outros, como o Shaka e você, por exemplo — abocanhou um pedaço de torna e então apontou a colher para ela. — Você parecia um bicho selvagem. Brabo, arisco, muito assustado. Eu nunca tinha visto uma garotinha tão confusa como você na minha vida... Você estava super bem cuidada, limpa, bem vestida, mas toda ralada e meio catatônica — fez uma pausa revivendo o momento citado enquanto olhava sério para o rosto da amazona. — Havia uma tristeza enorme nos seus olhos, e também um pavor tão grande que tudo que senti foi vontade de te abraçar e chorar, sem nem saber o porquê. Eu tentei falar com você em todos os idiomas que eu sabia, mas você não me respondia em nenhum deles. No fim, você não conseguia falar nem mesmo a sua própria língua mãe... Nossa salvação foi minha telepatia e o saquinho de jujubas.

— Que eu comi só as vermelhas — Geisty comentou, ao mesmo tempo que era transportada para aquele dia no passado. — É como se eu pudesse sentir o gosto delas agora, aqui, na minha boca.

A diferença é que naquela época o sabor doce das jujubas era sentido misturado ao salgado das lágrimas que ela derramava em desespero. O pequeno coração batia agitado enquanto os olhos violetas apavorados buscavam no vazio por algo perdido. Tinha medo. Muito medo. Disso ela se lembrava bem também, mas até hoje ela era incapaz de saber o que tanto ela temia. Talvez a solidão, quem sabe?

Ela era uma criança sozinha no mundo e sem memória, mas em todas as vezes em que se sentiu só e com medo ele estava lá, com seu rosto gentil, seu olhar doce e sua aura protetora, além de um saquinho cheio de jujubas.

Era incrível como ele estava presente em todas as suas boas lembranças de infância.

Enquanto mastigava um pedaço de torta Geisty chegou a conclusão que sua infância, mesmo sofrida, e com uma boa parte ainda incógnita, agora lhe parecia bem mais agradável que a sua vida adulta.

De repente, a voz de Mu a fez acordar desses pensamentos.

— O que eu senti quando vi você pela primeira vez quando criança foi o mesmo sentimento que me fez correr até Gêmeos naquele dia, quando ouvi o seu chamado de socorro. Foi muito forte, Geisty. Eu percebi em você o mesmo desespero que vi naquela garotinha que parecia uma boneca de franjinha e maiô de babadinho, mas com um medo tão grande que parecia que iria desmontar a qualquer momento na minha frente.

— Eu admito que quis ser forte e quis resolver tudo sozinha, mas as coisas saíram do meu controle. Eu também te devo desculpas... No fim eu fui leviana. Ocultar a verdade de você, o conhecendo como o conheço, foi um tiro dado pela culatra. Acabei jogando tudo em cima da sua cabeça. Me desculpa.

— Eu já te desculpei quando vi a bandeirinha branca lá no quarto — ele sorriu. — Ah, arianos são uns bicho trouxa mesmo.

— Se são! — ela riu.

— Do mesmo jeito fácil que a gente briga a gente também perdoa. Incrível! Mas, falando sério agora. Você é uma das pessoas mais fortes que conheço, Geisty. Eu não sei se conseguiria passar pelas coisas que você passou até agora e ainda assim estar aqui, firme, sorridente, trazendo comida para os amigos. Você só é cabeça dura.

Geisty esboçou um sorriso ainda que tristonho, porém disposta a afastar de vez a tristeza.

— Hum, e só eu que sou cabeça dura, né? Seu cara de pau! — disse arrancando uma risada dele, depois foi pegar mais um bocado de torta e só então viu que ela tinha acabado. — Porca Madonna, Mu! Ma che você comeu a torta toda!

— Epa, epa, epa! A torta era o meu suborno, não era?

— Poxa, mas você comeu tudo, seu esganado! Eu só comi duas colheradinhas! Queria saber para onde é que vai tudo isso!

— Eu sou um lemuriano em fase de desenvolvimento, eu como muito!

— Desenvolvimento é uma ova! Você é um guloso, isso sim! Ainda bem que comprei uma torta inteira e não só uma fatia.

— Uma fatia não serve nem para arrolhar o buraco do meu dente, respeita o meu potencial.

— Por falar em dentes — tomou a bandeja ainda suja das mãos dele e passou a raspar as migalhas com a colher. — Como estão os seus?

— Estão ótimos! — abriu um sorrisão largo para mostra-los. — Seu marido pagou o melhor buco-maxilo de Atenas e eu coloquei o implante mais caro que consegui com ele.

— Hum... — arregalou os olhos lambendo a colher — Fez muito bem em tirar dinheiro dele.

— Ah, mas vou tirar ainda mais, você vai ver!

Eles trocaram um olhar cúmplice e na mesma hora um sorriso maquiavélico se formou em ambos os rostos.

Do pé de ipê amarelo, satisfeito Shaka olhava para eles. Tinha acompanhado de longe o desenrolar da conversa, sempre atento e confiante de que ela acabaria exatamente como deveria acabar, com eles selando as pazes. Ficou feliz por Mu, por enfim tê-lo de volta, o seu gentil, amoroso e justo Mu; ele enfim estava conseguindo sobrepujar a raiva que envenenara seu coração e recuperar a razão. Assim seria mais fácil para ele perdoar Saga.

Surpreendeu-se ao se pegar pensando que também deveria abrandar a raiva que consumia seu coração em relação a Buda e tudo o que abandonara, então mais do que depressa espantou esse pensamento para longe e foi apanhar Saravá Ebó que estava no topo da árvore equilibrando- se entre os galhos.

Ainda não estava preparado para isso.

* Esse conto pertence ao livro Contos de Fadas Indianos, de Joseph Jacobs (1854-1916).