Pigmentos de Amor
Kaline Bogard
Capítulo 45
A cor do nosso viver
Por um milagre daqueles que ocorre uma vez a cada mil anos, graças ao alinhamento de todos os planetas ou algo assim, Kiba não estava atrasado. Ele estava pronto e perfeitamente arrumado, aliás, ele terminou os preparativos antes do compromisso. Às seis horas já estava de banho tomado, roupa trocada, perfumado e andando de um lado para o outro do quarto, largando uma trilha de ansiedade a cada passo dado.
Não era o padrão naqueles cinco anos.
Conforme descobriu, cuidar de criança era um desafio. Sempre faltava ou esquecia-se de algo, vivia tendo que se atentar a cada detalhe... E os atrasos tornaram-se uma espécie de marca registrada em outras áreas de sua vida. Fosse no congresso mais importante, em um seminário local, ou entrevista para alguma emissora. Às vezes chegava atrasado por motivo de força maior.
Kiba completara vinte e dois anos e desistira de vez da faculdade. Ele acabou criando uma carreira em que a formação superior não era quesito obrigatório. A história da gestação inédita ganhou força no meio científico e despertou interesse não apenas dos pesquisadores em Konoha.
Volta e meia recebia convites para participar de palestras e apresentar-se em Simpósios e outras reuniões profissionais e ganhava altas comissões para isso. Especializou-se na oratória, era convidado por audiências não apenas do ramo da Medicina, mas de outras ciências, como Psicologia, Pedagogia, Psiquiatria, Nutrição, Relações Públicas entre Alphas e Ômegas...
Algumas vezes esbarrava com Haruno-sensei. E o clima entre eles era mais ameno do que quando ela pediu a anotação nos antecedentes de Shino. Por essa época, Kiba que acreditava poder continuar como paciente da médica percebeu o quão impossível aquilo se mostrou.
Era grato a Sakura. Sempre seria. Mas foi doloroso demais acompanhar Shino durante a sabatina que as autoridades fizeram na vida dele, tendo que provar que a relação de ambos era saudável e que o uso da voz de comando foi algo atípico e fora do padrão. O Conselho acatou a desistência de Sakura em prestar queixa, não dando sequência nas investigações penais, assim como aceitou apenas o registro em caráter civil.
Isso foi oficialmente a morte do sonho de Shino. Nenhuma escola contrataria um professor cujos antecedentes levavam uma acusação pesada assim. E Shino precisou escolher outro caminho a seguir. Decisão que não foi nada difícil. Ele recebeu dezenas de convites para trabalhar nas universidades fazendo pesquisas.
Descobriu que ser pesquisador, assim como seu pai, era interessante. E ingressou na equipe de cientistas da Universidade de Konoha. Atualmente estudavam as relações entre Almas Gêmeas, tentando compreender mais sobre o misterioso vínculo entre esses casais. Algo mais profundo do que os laços corriqueiros.
Na verdade, conseguiram dividir claramente os três vínculos entre casais: pessoas que se uniam apenas por afinidade, pessoas que se reconheciam como companheiros destinados e, por fim, entre casais considerados Almas Gêmeas. Trabalhavam com doze casais: cinco do primeiro caso, quatro do segundo caso e três do terceiro.
Os casais não eram apenas entre Alpha e Ômega. Mesmo Betas podiam ter alguém considerado perfeito: Almas Gêmeas e era uma configuração que despertava algum interesse, por ser mais raro de acontecer; todavia era a ligação entre um Alpha e um Ômega que realmente chamava a atenção, pois interferia nas pessoas ao redor.
O grupo de cientistas tentava entender os tipos de vínculos e descobrir como usar para melhorar a vida social dos shifters. Agora que sabiam o que aconteceu com Shino, Kiba e Masako e não se atreviam a chamar de "milagre". Quando a ciência desvendasse tal ligação entre dois shifters, o avanço científico seria inimaginável! Como médicos, psicólogos e outros profissionais treinados poderiam tirar proveito disso! Um dos projetos da equipe envolvia estudar as reações cerebrais através de estímulos, comparando as diferenças entre casais que enxergavam em cores e os que viam apenas em cinza, numa tentativa ousada de desenvolver óculos que conseguissem atingir essas mesmas áreas e, quem sabe, ajudar a todos os shifters a descobrir as cores. Algo que estava sendo rascunhado, estudado, avaliado ainda...
Foi então que Kiba ouviu a campainha tocando e Akamaru latindo. Atualmente ele, o marido, a filha e o mascote moravam em uma casa, um sobrado num bairro mais calmo e elegante de Konoha, próximo ao centro. Ele deu uma última olhadinha no espelho e saiu do quarto. Chegou à sala bem a tempo de ver Shino atendendo a porta e Masako sentadinha no sofá, esperando.
A menina era um doce. Não herdara fisicamente de Kiba nada além dos olhos selvagens e das marcas vermelhas do Clã. De resto era todinha Aburame: a tez pálida e marmórea, os cabelos negros de fios espessos sempre presos em uma trança, a constituição esguia, o gênio calmo e ponderado. A presença Alpha cada vez mais forte, ainda que equilibrada. Era impressionante! Ah, de Kiba herdara também a visão saudável, afastando um dos grandes temores de Shino.
Masako usava um vestido vermelho de veludo meio rodado e quentinho graças ao forro duplo, com uma fita branca na cintura que terminava em um grande laço nas costas. Luvas brancas e meias da mesma cor, que apareciam tão logo o vestido rodado acabava antes dos joelhos. Os sapatinhos eram pretos, assim como o gorro com um grande pompom na ponta.
— Está linda, praguinha! — Ele elogiou sentando-se ao lado dela no sofá.
— O senhor já dizeu isso. — Masako falou. Tinha apenas cinco anos, às vezes ainda trocava algumas palavras. E nisso remetia ao pai Ômega!
— Já "disse". — Kiba corrigiu.
— Sim. Já. — A menina respondeu a algo que nem era uma pergunta, fazendo Kiba rir.
— Boa noite! — A voz de Naruto atraiu a atenção de pai e filha. — Como vão?
— Bem! Morrendo de ansiedade, mas bem! — Kiba respondeu.
— Naruto jisan! — Masako ficou de pé e estendeu os braços para o rapaz.
Naruto pegou a menina e lançou um olhar torto para Kiba, que mal continha as risadas. Era uma luta secreta entre ambos: tentava ensinar Masako a chamá-lo de "nii-san", porque tinha apenas vinte e dois anos! E Kiba ensinava a menina a chamá-lo de "oji-san", como se fosse um velho!
Em sequência Aburame Shino e Uchiha Sasuke entraram na sala. Uma virada do destino que não poderiam prever: um dia, ao fazer uma reunião no restaurante em que Naruto trabalhava, aconteceu aquela surpresa. Sasuke e Naruto se reconheceram como companheiros. Logo um homem bem-sucedido como Sasuke. E um desregrado como Naruto.
A bem da verdade o casal ainda se adaptava à diferença de personalidades, empecilho muito maior do que a diferença de idade. Talvez tal adaptação fosse uma eterna constante, embora os benefícios fossem maiores do que o contrário. Era óbvio que, mesmo com brigas e desavenças, um fazia bem ao outro. E se Naruto estava feliz, então Kiba também ficava.
— Olá — Sasuke cumprimentou naquele tom sério de sempre.
— Olá — Kiba devolveu o cumprimento, aproximando-se do melhor amigo. Sorriu para a filha e apertou as bochechas gordinhas. — Comporte-se.
— Sim, senhor.
— Ela é uma princesa. Sempre se comporta. — O elogio partiu de Uchiha Sasuke. E não surpreendeu, pois àquela altura todos se acostumaram com o coração que havia por baixo da aparência fria e pouco acolhedora.
— Seja obediente. — Shino também aconselhou ganhando um erguer de sobrancelhas por parte de Sasuke.
— Boa noite, caras! E feliz natal! — O tom de Naruto era divertido e expectante. Então abraçou a menina com carinho. — Parabéns! Vamos aproveitar o seu aniversário.
— Boa noite! — Kiba sorriu comovido. — Divirtam-se!
Nem perguntou se estava tudo certo, já sabia que o casal de Betas tinha um "Kit Masako", com tudo o que a garotinha de cinco anos pudesse precisar. Assim como ambos adoravam quando podiam ficar com a sobrinha por afinidade.
Naquele feriado tinham um motivo ainda mais forte para cuidar dela. Naruto e Sasuke estavam no meio dos tramites legais para adotar um casal de irmãos. Passariam a noite de natal no orfanato, aprofundando os laços e dando a chance de Masako se aproximar dos futuros priminhos.
A empolgação de Naruto era infinita, ele cresceu em um Orfanato e foi "adotado" por Tsume. Aprendeu na própria pele a diferença que uma família fazia, como sentir-se amado e fazendo parte de algo mudou seu futuro. Desejava oferecer o mesmo a outras crianças, mostrar-lhes tudo o que o amor podia transformar. E que laços fortes não nascem apenas de ligações sanguíneas.
O casal de vez em quando disputava passar um final de semana cuidando de Masako com Tsume e Hana. A vovó era muito coruja! Nem parecia aquela mulher linha dura que criou os filhos com punhos de ferro! A pequena Alpha fazia Tsume se derreter com os olhares e sorrisos banguelas. Era tão engraçado!
Já Hana não demonstrava muito interesse em ter seus próprios filhos. Mantinha foco na clínica, principalmente em resgatar cães abandonados e cuidar deles, encontrando novos donos. Fundou, inclusive, uma ONG em parceria com o marido que dividia o sonho e a falta de vontade em ter filhotes. Graças a isso o casal dedicava todo o afeto que podia a Masako, amando-a como a criança que teriam na vida.
Outra que disputava os finais de semana com Masako era Yamanaka Ino. Ela e o Alpha ruivo com quem namorava no momento. Algo não muito sério, pois como Ino dizia brincando (com um fundo de dor): algumas pessoas nasceram sem sorte no amor. Ela perdeu o companheiro destinado na adolescência.
Chegou a reconhecer uma segunda pessoa, a psicóloga que cuidou de Kiba enquanto ele esteve internado. E que já era comprometida com um Alpha, conforme Ino descobriu tristemente ao tentar convidá-la para uma bebida, o reconhecimento foi unilateral. Ino entendeu como uma mensagem do destino e aceitou que jamais teria algo encantador tal qual Shino e Kiba ou Naruto e Sasuke. Decidiu que seria feliz assim mesmo, dançando a melodia que a vida lhe tocava.
O único que usufruía de benefícios era Aburame Shibi, que viajava o mundo e vinha para Konoha duas ou três vezes por ano. Nessas ocasiões, fosse o dia que fosse, podia cuidar e brincar com a neta o tempo todo.
Naquele natal, comemoraram o aniversário durante o dia, foram almoçar na casa de Tsume e em seguida passear num parquinho infantil. Para que a filhotinha se divertisse bastante! À noite tinham outros planos: Masako iria para o Orfanato com o tio Naruto e o tio Sasuke.
E os pais dela...
— Você está lindo! — Shino aproximou-se de Kiba, tão logo fechou a porta com a saída do trio. Primeiro ajeitou o cachecol xadrez que combinava com a jaqueta de couro preto. Queria proteger o companheiro do frio e proteger a Marca também. A essa altura Kiba já tinha sido marcado e o sinal sempre causava algum tipo de ciúmes em Shino, que não gostava muito de ter outros Alphas olhando-o.
Às vezes Kiba desfilava por aí de regata (mesmo quando nem estava tão calor assim) só para provocar. Shino não reclamava nem tentava impedir, mas o que fluía pelo vínculo enchia Kiba de autossatisfação. Alguém com ciúmes dele! Claro, um partidão desses, bicho... Essa pequena maldade era um bônus que cobrava por ter ficado uns dias sem tomar banho depois de receber a Marca (Alphas eram tão territorialistas!). Embora nenhum preço fosse alto demais para o presente que Kiba recebeu ao ser marcado: com esse laço profundo e eterno, ele passou a enxergar as cores mesmo quando Shino não estava por perto. A benção de Almas Gêmeas que se encontram e aceitam o compromisso de amor.
Depois, ajeitou o gorro de lã sobre os cabelos castanhos bagunçados, ofereceu um gesto que terminou com a mão de dedos grandes acariciando o rosto amorenado e o prendendo pela nuca, para trazer junto a si, requisitando um beijo que nada tinha de inocente. Um beijo profundo, cujo contato das línguas arrepiou a ambos e esquentou mais do que as grossas roupas que vestiam.
— Você também está, marido! — Kiba foi sincero, as mãos passando por sobre o casaco escuro que seu parceiro usava, uma das marcas registradas junto com os óculos de sol. — Podemos continuar isso depois. Comprei morangos e chantilly... — Insinuou num tom de voz rouco, sentindo o corpo ser puxado contra o outro com mais ímpeto. A ereção do Alpha tornou-se perceptível e Kiba quase se ofereceu para dar um jeito nela.
— Tem razão. Estamos atrasados! — Shino desistiu por hora. Precisavam chegar logo ao cinema!
Afinal, dia vinte e cinco de dezembro era a estreia de "Pigmentos de Amor", um filme baseado no livro homônimo lançado pela editora Uchiha, adaptação que ajudou não apenas a bancar a casa em que moravam, mas que garantiria a faculdade de Masako e algum luxo ao casal por muito tempo.
Pigmentos de Amor, um dos filmes mais esperados do ano (Kiba se gabou do ator que faria o Ômega protagonista, um cara muito bonitão) e contava a história de um casal de Almas Gêmeas, a gestação precoce e atípica, que desafiou o conhecimento científico da época, um drama comovente que já se especulava ser indicado para vários prêmios na Academia de Cinema. E que trouxe fama inesperada: algumas pessoas o paravam na rua para pedir autografo e tirar fotos! Imaginem!
Kiba sorriu de empolgação, apesar de tudo. Sabia como aquela história terminava! Sim, ele leu o livro e leu o roteiro do filme.
Conquanto soubesse o final porque aquele filme trazia a sua história. A sua luta ao lado de Shino, o Alpha que naquele instante segurava na sua mão e o puxava na direção da porta. Alpha que também seria interpretado por um ator bonitão, diga-se de passagem. Uma narrativa de sonhos desfeitos e refeitos, mudanças de planos e adaptação.
"Pigmentos de Amor" trazia drama, dor, suspense e até uma pegada sobrenatural. E o elemento mais importante de todos, uma lição para toda audiência. Era uma história de superação e amor. De esperança e laços fortes, tanto de sangue quanto de afinidade.
Um conto cujo final era feliz.
Notas finais:
Notas finais do capítuloEspero que tenham gostado de ler tanto quanto eu gostei de escrever. Obrigada a Sam, que betou a história e me ajudou com os erros
Obrigada a todos que chegaram até aqui, quem favoritou, adicionou nos acompanhamentos, quem recomendou e, principalmente, quem deixou um comentário muito obrigada!
Raison já está nas mãos da Beta para revisão, então em breve estarei postando nessa plataforma. Me acompanhem para não perder as novidades, provavelmente irei postar toda sexta-feira de novo!
A premissa da história: e se Naruto e Kiba conseguissem invadir o banho para Alphas? E se...? Pois é... preparem-se para as emoções!
Vejo vocês em uma próxima ShinoKiba
