A distância entre ambos era respeitosa, uma oferta silenciosa que poderia ser recusada a qualquer instante por Isis. Tudo o que precisava fazer era mandá-lo se retirar. A ação seguinte, contudo, resumiu-se a sentar-se em frente à penteadeira e remover os grampos dos cabelos, deixando que se derramassem em uma cascata pelas costas. O reflexo de Snape surgiu atrás dela, claramente sondando-a em busca de respostas para atitude repentina, após a breve troca de intimidade. Não fazia ideia de que maneira explicaria o medo de querê-lo, quando não confiava nos próprios desejos.
— Sabe que pode me encarar sem o intermédio de um espelho, não sabe? — Isis sorriu, encarando as próprias mãos antes de se levantar.
— Todo cuidado é pouco. Soube que lidaram com um basilisco em 92.
Ela parou em frente a Snape e levou as mãos ao seu peito. A vontade de tocá-lo era tão grande que roubava seu ar e qualquer resíduo de nexo. Não sabia nem dizer em que momento se deixara atrair pelo professor — duvidava que fosse uma questão de deixar ou não —, porém ali estava, disposta a ignorar todos os alertas que a intimavam a botá-lo para fora e nunca mais dar ouvidos à urgência inconsequente de se doar de novo.
Uma das mãos subiu pelos botões da sobrecasaca e acariciou o pescoço sobre o tecido. Quando os dedos entraram em contato com a pele raiada de cicatrizes, o professor a segurou, afastando-os. Isis suspirou, entendendo bem a vergonha camuflada através do gesto arredio. Era estúpido pensar que aquelas marcas diminuiriam seu anseio por ele. "Muito estúpido", pensou, sentindo as próprias formigarem. Então, sem dizer uma palavra, andou em direção à lareira, levando-o consigo. Ela respirou fundo, percebendo a curiosidade naqueles olhos pretos iluminados pelas chamas, e virou-se de costas.
O vestido deslizou devagar até o chão, formando uma poça de veludo verde, e os cabelos foram colocados sobre o ombro, exibindo o mapa de cicatrizes nas costas nuas da bruxa. Embora tentasse se manter parada, o corpo tremia com um acanhamento que não lhe era comum. O medo do desprezo a imobilizava, mas não podia ser esconder mais, e queria que Snape assimilasse isso. Que soubesse que ela entendia suas marcas.
O toque repentino fê-la arrepiar. Os dedos percorreram aqueles vestígios de sua dor com leveza, como se manejasse algo delicado e temesse quebrá-lo para além da chance de conserto. Isis não ousou se mover, consentindo em seu silêncio que ele explorasse cada centímetro daquelas lembranças palpáveis, certa de que Snape nunca as usaria tal qual um troféu a ser exibido, em troca de tapinhas nos ombros e congratulações de "bom trabalho".
As mãos correram para os seus ombros, segurando-os com delicadeza ao deslocá-la para junto dele, abraçando-a pela cintura e beijando-a na curva do pescoço. O aperto era gentil, enviando uma energia que se elevava sobre o passional e atingia um nível enternecedor de pura compreensão; uma ligação alinhavada por entre as rachaduras abertas nas almas de ambos, criando a fonte tão ansiada de consolo e compaixão que necessitavam.
Isis deitou a cabeça em seu peito, a pele queimando sob a luz da lareira, e o segurou com força pela nuca quando os dedos ágeis deslizaram pelo ventre e adentraram a única peça de roupa a cobrir seu corpo. Os movimentos de Severus eram calculados, sem precipitações. O tempo havia parado para ambos e não existia a mínima necessidade em se apressar.
O braço que ainda a cingia desfez o aperto para ganhar um dos seus seios, massageando-o enquanto os dedos da outra mão acariciavam a extensão úmida entre as pernas de Isis, cuja respiração tornava-se mais ofegante com o passar dos segundos. Ela sentia o peito de Severus subir e descer contra suas costas, comedido, embora o volume crescente da excitação o denunciasse.
— Você é perfeita, Isis — sussurrou ele em seu ouvido, aumentando a velocidade com que a tocava.
Snape a amparou ao notar as pernas trêmulas quase cederam, à medida que a sensação extasiante tomava conta de Isis. De olhos fechados, segurando-se nele para não cair, ela mal conseguia formular um pensamento racional e não soube ao certo quanto tempo levara até voltar a sentir algo além do desejo que teimava em arrefecer.
Ao se virar para encarar o professor, não teve tempo de ver sua expressão antes de ter os lábios tomados com fervor. As chamas da lareira, de alguma forma, adentraram suas veias e avançavam, velozes, impulsionadas pela pulsação acelerada. Isis queria mais, queria Severus, queria o fogo e as cinzas. Ansiava pela dose arrebatadora que só ele poderia proporcioná-la, ainda que isso significasse descer ao submundo de si mesma e provar das sementes de romã que a condenariam a conviver com seu lado mais sombrio em vez de enterrá-lo.
Ela se afastou primeiro, passando a língua pelos lábios inchados e dormentes. A pele sensível implorava por mais, inconformada com o afastamento. Isis beijou o pescoço de Severus, que não a impediu ou recuou dessa vez, e o segurou pela mão, levando-o até a cama. Ajoelhada no colchão, jogando os sapatos para longe, despiu-o devagar até encarar o torso pálido, controlando-se para não se antecipar. Quando ele tentou tocá-la de novo, foi sua vez de refreá-lo.
— Eu disse que iria recompensá-lo. — Isis se afastou e retirou a calcinha, recuperando a confiança agora que o medo de ser rejeitada não existia mais. — Deite-se.
A princípio, pensou que Snape faria algum comentário sardônico e se negaria, mas, após um leve estreitar de olhos, ele fez o que lhe fora ordenado, sem deixar de olhá-la ao fazê-lo. Isis se sentou em seus quadris, contendo o gemido gerado do leve atrito com o tecido das calças. Havia luz o suficiente no cômodo para discernir um quê de fascinação no semblante dele ao fitá-la. Meses antes, aquele sentimento nunca seria cogitado ao se tratar da relação de ambos. Boa parte de sua antipatia pelo mestre de Poções brotara por intermédio de Underhill, que transferira a repugnância por ele à pupila, como se antecipasse a forma que aquilo acabaria.
Severus acariciou seu rosto e ela beijou sua mão em resposta, antes de se inclinar sobre ele, roçando os lábios em seu pescoço. Isis traçou o caminho até a barriga, assegurando que o professor teria a parcela necessária de privação para testar o controle do qual tanto se orgulhava de exaltar. O indicador correu o fecho das calças devagar. Da posição em que estava, via a mistura de luz e sombras no rosto de Snape, resultando das chamas instáveis na lareira.
— Você tem alguma ideia do quanto eu o quero? — perguntou, abrindo o botão e descendo o zíper sob o olhar atento dele. — Eu deixaria que investigasse minha mente — Isis terminou de despojá-los das vestes austeras, jogando-as no chão —, mas que graça teria em pular a antecipação?
Ao envolvê-lo com os lábios, Snape destituiu-se de todo comedimento, expulsando-o em um gemido que cobiçava há muito ser liberto. Ser capaz de provocar aquele nível de prazer só aumentou o de Isis. Sentia-se no comando, porém não via a hora de se submeter a ele. Até esse momento chegar, desfrutaria ao máximo até levá-lo ao limite pelo simples prazer de recuar.
Tratava-se de uma troca, não uma obrigação. Dar-se conta disso era libertador. Estar ali era uma escolha deliberada, guiada apenas pelo próprio desejo isento de qualquer influência.
A língua o percorria ora em um ritmo lento, ora testando quão longe ele aguentaria chegar, guiando-se pelos dedos firmes entranhados em seus cabelos. Quando os músculos se contraíram um pouco mais, vibrantes, trêmulos, Isis sorriu, afastando-se para apreciar o feito de colocar Severus sob aquele estado de pura euforia.
Ele se ergueu o suficiente para puxá-la, prendendo-a na cama. O olhar se perdeu do dela, acompanhando o movimento da mão a tracejar um caminho pelos seios e as demais cicatrizes que marcavam o ventre da bruxa, que subia e descia rápido ante a tortura que era esperar.
Snape a virou de bruços e voltou a beijar suas costas com tanta delicadeza que a forma impetuosa com que a penetrou em seguida pegou-a de surpresa. O gemido foi engolido pelo colchão, enquanto os dedos torciam o emaranhado de cobertas sob a pele incandescente. Os punhos continuaram presos, mas os quadris moviam-se vigorosos contra ele; o encontro entre os corpos soando junto ao lamento de Isis, chamando por Severus quando o ar em seus pulmões permitia.
O cheiro das ervas misturava-se ao do suor, abrigado na pele e nos lençóis desordenados. Isis se distanciava cada vez mais daquele quarto, do peso envolvente sobre suas costas, dos lábios em seu pescoço e a respiração pesada de Severus arrepiando-a. Agitava-se, contraia-se, extasiada pelo prazer de tê-lo dentro dela, apreciando-a a cada toque repleto de lascívia e esmero em agradá-la.
— Espere — murmurou entre arquejos, tendo que repetir para se fazer ouvir.
— O que houve? — Snape recuou, afastando os cabelos suados do rosto de Isis ao ver a bruxa se virar para mirá-lo.
— Eu... — ela fez o mesmo, afastando a cortina de fios pretos das faces enrubescidas do professor e as segurou — quero olhar para você.
Isis inverteu a posição dos dois, fazendo-o se sentar e posicionando-se sobre ele; o peito arfante colado ao de Severus.
— Você tem um gosto muito duvidoso para aparên... — O resto da palavra se perdeu quando Isis o guiou para dentro dela.
— Abra a boca só para falar meu nome, professor.
Os dedos apertaram seus quadris ao movê-los bem devagar, em movimentos sinuosos, e a cabeça de Snape pendeu para trás. Os lábios se entreabriram, porém o gemido ficou preso na garganta; o pomo de adão movendo-se sôfrego até liberar o ruído entrecortado. O nome de Isis saiu rouco, provocando-a a abraçá-lo pelo pescoço e beijá-lo sem um pingo de meiguice, embriagada demais no próprio deleite para se controlar.
A pressão tornava-se mais forte, fluindo pelas veias até tomá-la por completo e transformar o quarto em um borrão. As unhas cravaram-se em Severus enquanto uma tontura se apossava de todos os sentidos de Isis. Ela fechou os olhos mesmo desejando mantê-los abertos, não notando quando os braços de Snape a rodearam pela cintura enquanto ele também atingia o gozo.
À medida que recuperava a razão, Isis sentiu o rosto dele enterrado em seu pescoço, escondido entre os cabelos bagunçados. As mãos se agarravam a ela como se temesse perdê-la de alguma forma; que fosse se desfazer em fumaça e abandoná-lo em um delírio febril. Então o abraçou de volta, ainda trêmula, beijando seu ombro e acariciando sua nuca com uma brandura que não lhe era comum. O gesto de ternura que dividiam a embevecia. Era uma sensação tão nova, tão fascinante, que permaneceram daquela forma por longos minutos.
Severus foi o primeiro a se afastar e, por um instante, Isis pensou ter vislumbrado uma nesga de vergonha no semblante dele. Isso não a impediu de segurar seu rosto com cuidado, fitando-o confusa. Os olhos negros a engoliam, supermassivos, inescrutáveis. Quis ler sua mente, os sentimentos que o freavam, mas também queria que ele confiasse o suficiente nela para contar.
Isis sorriu, suspirando, e beijou-o no rosto; uma bochecha, depois a outra.
— Não pretende sair correndo para as masmorras agora, pretende? — perguntou, temendo que fosse exatamente isso que estava prestes a acontecer.
Ele desviou o olhar, escondendo melhor os sentimentos dessa vez, e Isis mordiscou o lábio, levantando-se da cama sem receber uma resposta. O corpo esfriara de repente e o estômago se revirava de nervoso diante da hesitação de Snape. Em frente à lareira, serviu-se com um copo d'água e esperou, de costas, até que o professor se vestisse e deixasse o quarto após ouvir o ranger do colchão.
— Preciso que me arranje uma poção para... — ela pigarreou ao vê-lo entrar no seu campo de visão, trajando apenas as calças e o blusão branco que costumava usar embaixo da sobrecasaca.
— Isis — disse ele, com seriedade.
— Bom, ser mãe não está nos meus planos — continuou, ignorando-o. O copo foi para o console da lareira, deixando-a livre para cruzar os braços sobre o peito e virar-se de lado.
— Isis? — Ela não conseguia encará-lo, embaraçada pela própria estupidez.
"O que esperava, idiota?", pensou, impressionada com a capacidade de sempre escolher se enganar. Não podia esperar nada de Snape e, mesmo assim, deixara-se levar, esquecendo-se do verdadeiro motivo que a fizera se refugiar em Hogwarts. Aquele devia ser o único foco, não dormir com o antigo professor e agente duplo de Dumbledore, com tantos traumas quanto ela.
— Não precisa ser agora, é claro. — A garganta apertava a cada palavra dita. — Pomfrey deve ter alguma coisa preparada no armário, para as alunas, então também posso conseguir com ela caso seja um problema para você.
Imaginar-se grávida só elevou o nível de ansiedade; os pensamentos pulando de um problema ao outro em segundos, sem conseguir contê-los. Do jeito que vinha se considerando "sortuda" nos últimos meses, não descartava que algo do tipo ocorresse com ela.
— Você pretende me olhar em algum instante do seu discurso ou terei que usar pó de flu e me transportar para essa lareira para ter sua atenção? — Isis crispou os lábios e se virou, agarrando-se à raiva para não se mostrar fraca. — Não voltarei às masmorras.
— Não tem de ficar se não quiser — disse com firmeza. — Não preciso de ninguém ao meu lado que não queira verdadeiramente estar.
Severus arqueou a sobrancelha, surpreso, e se aproximou, sustentando o olhar consternado de Isis.
— Se eu não quisesse estar aqui, não teria me dado ao trabalho de segui-la após vê-la abandonar o jantar de Slughorn.
— Mas você tem dúvidas, não tem? Sobre... — Ela elevou as mãos, sem saber de que maneira definir o que tinham.
— Você não? — Ele segurou as mãos às costas, já sabendo a resposta.
— Não é a mesma coisa. Você sabe quase tudo sobre mim e eu — Isis deu de ombros —, eu não sei nada da sua vida.
A bruxa esperou que Snape aproveitasse a deixa para contar a verdade, sendo ela qual fosse, contudo houve apenas o crepitar da madeira. Isis assentiu, magoada, afastando-se em direção à cama. Os lençóis foram empurrados para o lado antes de se deitar e virar-se de costas para a lareira. Com uma mão sob o travesseiro, esperou pelo som da porta abrindo e fechando. Em vez disso, a sombra dele se projetou na parede em frente enquanto dava a volta e se sentava do lado vazio, segurando-se à borda do colchão.
— Eu preciso de... tempo — murmurou Severus; o corpo, uma silhueta rígida como uma estátua.
A vontade de mandá-lo se ferrar e sair do quarto retornou, pendurada na ponta da língua. E outra vez mudou de ideia. Isis foi até ele e o abraçou, pousando o queixo em seu ombro. Não tinha noção de quanto tempo tinha para oferecê-lo, com Underhill a perseguindo incessantemente, mas estava disposta a presenteá-lo com essa oportunidade e, de quebra, permitir-se ter um pouco de esperança.
Isis o puxou, fazendo-o se deitar ao seu lado, e o observou em silêncio, esgueirando-se até deitar a cabeça em seu peito, não demorando a sentir o braço dele envolver sua cintura.
— Eu pensei que você dormisse de cabeça para baixo. Ai! — O beliscão em uma das nádegas a pegou de surpresa, fazendo-a rir. — A gente pode tentar isso depois? Porque estou exausta agora. E não pense que me esqueci das correntes e algemas.
— Durma, Isis — ouviu o dizer com uma nota de humor.
A bruxa se aninhou a ele, passando uma das pernas sobre seu quadril, e fechou os olhos, ninada pela respiração branda e o cheiro de ervas.
