Capítulo 46

Amor é estranho.

Esse sentimento esquisito que consegue causar sensações, mudanças de humor e até aquecem ou resfriam a temperatura corporal. Amor não fez com que Draco dissesse a Gina como se sentia ou que lhe indicasse algum projeto futuro para seu relacionamento, mas amor fez com que desse um passo decisivo na direção do basilisco, mesmo sem ter se recordado o nome do feitiço.

O mais curioso é que Draco não pensava no amor ao tomar essas decisões, pelo contrário, era o amor que o induzia, mesmo sem ser parte participativa de suas linhas de raciocínio lógico. Não era como se o Malfoy calculasse o tamanho do sentimento para tomar atitudes equivalentes, pois não tinha ideia de se aquilo que sentia por Gina poderia se enquadrar na caixinha de "amor", uma vez que não havia experimentado aquilo antes com mais ninguém.

Porém, pela intensidade que sentia, imaginou que era o tão falado amor.

Quando deu aquele primeiro passo com a varinha erguida na direção do basilisco, uma série de possibilidades rodou por seus pensamentos. Morte, machucados, gritos, sangue... será que a Granger reconheceria seu corpo ou seria enterrado como indigente?

Draco lembrava-se vagamente de suas aulas de trato com criaturas, e sabia que houvera um dia que fora dedicado às serpentes, logo, o basilisco. Enquanto seguia, tentou se recordar de alguma coisa útil para fazer. Fogo com certeza não daria certo, será que seria demais pedir uma espada? Embora duvidasse que a lâmina pudesse passar pela grossa espessura da pele do animal, ao menos seria alguma coisa, não é?

Não pôde evitar e soltou um suspiro de indignação.

De forma inesperada, o basilisco parou de se mover.

Imediatamente Draco levou uma das mãos à boca, completamente arrependido de ter se permitido suspirar.

Mas já era tarde.

Não soube dizer como foi que o basilisco o notou, se foi pela vibração do suspiro, pelo barulho ou se seu cheiro ficou mais forte, mas tinha certeza de que havia sido identificado.

O corredor apertado fazia com que fosse mais difícil para o basilisco fazer um giro em trezentos e sessenta, de forma que Draco viu uma abertura para tentar alguma coisa. Afinal de contas, já estava condenado mesmo. Se fosse para morrer, que morresse tentando.

O que ele não esperava é que o desespero do basilisco fosse tamanho que o possibilitasse jogar o peso do corpo contra as paredes de tijolinhos, que começaram a quebrar e rachar. Basicamente, a fera estava criando seu próprio caminho, alargando o túnel à força para poder atacar mais rápido. E isso seria bem impressionante, se não fosse Draco o alvo do ataque.

- Confundus!

A pele escamosa e blindada da serpente repeliu o feitiço de uma forma impressionante e Draco se perguntou como não havia ainda por aí alguma organização secreta especializada em armaduras à base de escama de basilisco. Ia vender horrores! Será que ainda dava tempo de patentear?

O barulho dos tijolinhos se quebrando, das paredes rachando e do basilisco se debatendo era arrepiante. Draco começou a repassar mentalmente toda a lista de feitiços que conhecia. Pensou que talvez pudesse ser uma boa estuporar o bicho, mas se a pele dele fizesse com que a magia ricocheteasse, estaria em maus lençóis.

- Everete Statum!

Nada.

- Glacio!

Nada.

- Imperius!

Nada.

Conforme Draco corria, o basilisco o seguia com a boca aberta e os olhos vidrados. Cada vez tornava-se mais difícil lançar os feitiços sem encará-lo, tendo que tomar como base as sombras e sons para atacar.

Por um momento, Draco pensou que talvez fosse melhor mirar para o ambiente e tentar mudar o local, uma vez que nada parecia surtir efeito.

- Bombarda!

O chão atrás de si explodiu, criando uma cratera. Draco imaginou que talvez conseguisse ganhar algum tempo, mas o buraco que o feitiço gerou não fora suficientemente grande para que o basilisco não se aventurasse tentando se lançar sobre ele. Assim que saltou, o chão tremeu e Draco teve se apoiar as mãos na parede para não se desequilibrar.

- Mas que maldição!

Draco voltou a correr e tentou, desta vez, fazer com que as pedras desmoronassem sobre o basilisco, e não abaixo dele. Virou-se de olhos fechados e ergueu a varinha, sem ter nenhuma ideia de para onde estava apontando, apenas esperando que fosse para o teto.

- Bombarda!

Foi por pura sorte que Draco conseguiu acertar o teto e, realmente, várias pedras começaram a desabar sobre o basilisco. Quando considerou estar a uma distância razoável, Draco parou de correr. Estava ofegante, com as mãos apoiada nos joelhos e o rosto vermelho e úmido de suor. Um sorriso foi surgindo conforme o tempo passava sem que o basilisco se movesse. Afinal de contas, até que não havia sido assim tão difícil.

Quase imediatamente, as pedras começaram a se mover e o basilisco ergueu-se dentre elas, sacudindo-se e arremessando pedregulhos por toda a parte. Inclusive na direção de Draco, que conseguiu proteger a cabeça, mas não se livrou de ser atingido nos braços.

O Malfoy voltou a correr mas, para sua infelicidade, notou que esteva chegando ao final do corredor. Sem saber ao certo o que fazer e rezando para dar certo, mirou sua varinha para o chão logo a sua frente e gritou.

- Glacio!

Imediatamente o chão começou a ficar congelado. Os pés de Draco deslizaram desajeitadamente e ele pulou para a esquerda, desviando do restante do caminho congelado. O basilisco, porém, não teve tanta sorte e deslizou até o final, batendo com a cabeça diretamente na parede. Foi suficiente para deixa-lo bem irritado, a ponto de laçar seu rabo sobre o Malfoy, jogando-o longe com o impacto.

Draco bateu com as costas em uma parede e sentiu seu corpo cair até o chão. Apertou os olhos com força, tentando se recuperar logo, pois tinha certeza que o basilisco não ia ficar parado, esperando para o próximo round. Forçou-se a levantar e continuar correndo, ainda que não tivesse mais a mesma velocidade.

Lembrou-se do plano de Hermione, de fazê-lo olhar no espelho. Como não se recordava do feitiço para aumentar aquela porcaria, será que valia a pena tentar fazer com que o basilisco visse seu reflexo em alguma outra coisa?

- Aguamenti!

Da ponta de sua varinha um jato de água lançou-se no chão. Draco repetiu o feitiço mais algumas vezes, deixando o corredor todo praticamente alagado, enquanto corria já sem tanta habilidade, lutando para não escorregar. Se conseguisse fazer o basilisco ver seu próprio reflexo, será que funcionaria?

- Lumus Maxima!

Por mais que a luz houvesse chamado a atenção do basilisco para a água, não pareceu ser o suficiente.

- Inferno!

A serpente gigante investiu então contra Draco, que precisou jogar o corpo com tudo no chão para se esquivar. Completamente molhado, ele bufou, levantando o mais rápido que pôde e cambaleando para frente. Se o basilisco continuasse com aqueles ataques, não sabia até quando conseguiria desviar.

Mais uma vez, a cabeça do animal veio em sua direção, mas dessa vez acertando em cheio. Draco conseguiu não ir parar dentro da boca do basilisco, mas foi lançado na direção da parede novamente. Suas costas gritavam de dor e suas pernas fraquejaram enquanto ele se apoiava nos joelhos para se reerguer.

- Stunning!

Mais uma tentativa de feitiço que fracassou. Draco sabia que seu tempo estava se esgotando, mas não conseguia pensar, especialmente com os ataques do basilisco se intensificando. Mais uma vez teve que se esforçar para desviar das abocanhadas do animal e acabou caindo sobre o próprio braço, cortando-o nos pedregulhos. Pôde ver o sangue escorrer por sua pele e pingar na água, formando uma pequena poça vermelha ao seu redor.

Como não conseguia aumentar o espelho, talvez conseguisse reduzir o basilisco?

- Reducio!

Mas as escamas novamente provaram-se eficientes e nada aconteceu. Draco então aceitou que a única solução seria conseguir mesmo aumentar o maldito espelho, mas qual era a droga de feitiço?!

Mais uma vez o basilisco se lançou sobre o garoto, que se jogou no chão para esquivar. Foi andando abaixado, o mais rápido que pôde, sentindo à fundo o corte no braço e a coluna enquanto respirava ofegante. Tinha a ver com aumentar, será que era "Aumentio"? Não com certeza que não era isso. Aumentar. Engrandecer. Maior. Ficar Maior... Engordar? Engordar!

Draco apontou a varinha para o espelho.

- Engorgio!

Talvez por ter custado para se lembrar do nome do feitiço, talvez pela vontade de sair logo daquela situação, o fato é de que foi extremamente eficaz a forma com que o objeto foi aumentando, tornando-se maior e mais pesado a cada segundo. Assim que julgou que já estava num tamanho bom o suficiente, Draco lançou-o no alto com toda a força que tinha, fazendo com que a atenção do basilisco se voltasse imediatamente para o espelho.

No mesmo instante em que seus olhos refletiram sobre o vidro, o basilisco arreganhou a boca e foi petrificando-se, virando em poucos segundos uma enorme e assustadora estatua. Assim que o espelho tocou o chão, se quebrou em mil pedaços, bem ao lado do gigante de pedra.

Draco desabou no chão molhado, ainda ofegante e sentindo o suor escorrer por todo seu rosto. Foi enrolando uma das mãos na barra da camisa e puxou com força, cortando uma tira grossa de tecido. Segurou a varinha com a mão trêmula e apontou para o corte do braço, tentando fazer com que parasse de sangrar.

Murmurou um feitiço, que foi fazendo o corte se fechar aos poucos. Por mais que não houvesse sido proposital, como a marca ainda habitava seu braço, assim que a ferida se fechou, o risco vermelho da cicatriz ficou bem por cima do símbolo de Voldemort, como se fosse uma tentativa de apaga-lo. Ao ver o resultado, Draco soltou uma exclamação, surpreso e achando graça.

Sentiu mais que nunca o peso de suas feridas e o cansaço de estar acordado há tanto tempo enquanto enrolava a tira de tecido sobre o corte e fazia um nó, deixando firme. Fechou os olhos por um segundo e respirou fundo, ciente de que havia feito seu melhor. Mesmo que não fosse um herói, ao menos daquela vez tinha conseguido. Mas era muito cedo para cantar vitória, precisava saber ainda sobre a batalha, sobre Gina...

Conseguiu ouvir ao longe o barulho de uma explosão, mas não teve forças sequer para abrir os olhos. Logo em seguida um grito e passos apressados e barulhentos na água do corredor. Uma mão gelada em seu ombro lhe fez entreabrir os orbes cinzentos a ponto de poder encarar Hermione, que mantinha um semblante preocupado.

- Malfoy! Responde!

Draco assentiu suavemente, tentando não se render ao cansaço que o dominava aos poucos. Hermione apoiou-se no ombro dele e ficou de pé, encarando a estátua enorme do basilisco logo ao lado. Notou também as paredes quebradas, o chão molhado e os ferimentos do garoto, que se mantinha no chão sem demonstrar previsão para se levantar.

- Parece que você passou pelo inferno.

- Ah, Você não faz ideia.

A Granger ergueu-se e estendeu a mão para Draco, que não aceitou de imediato, mas acabou apertando os dedos dela com os seus. Com a força que tinha, Hermione o puxou para cima. Por mais que soubesse que ele estava bem machucado e cansado, não dava para ficarem ali, precisavam ir embora.

- Anda, nós temos que nos apressar para voltar!

Foi a própria Hermione que passou o braço de Draco em volta do pescoço para ajudá-lo a caminhar. Como estava muito cansado e abatido, não foi possível que apresentasse muita resistência, mas mesmo assim sacudiu a cabeça enquanto andavam lentamente pelo corredor.

- Não, Granger, ainda tem algo que precisamos fazer.

Os olhos de Hermione voltaram-se para Draco com atenção. O que será que ela havia perdido enquanto estava desmaiada?

- Nós precisamos procurar...

Antes que Draco pudesse explicar, a estátua do basilisco começou a emitir uma estranha luz azulada, que foi consumindo toda sua estrutura rochosa. Os dois bruxos ficaram observando atônitos, sem saber ao certo o que esperar. O que mais poderia acontecer aquele dia, por Merlin!

Quando a luz ficou mais intensa, os pequenos pedacinhos rochosos da estátua foram se consumindo e transformando-se em pó, que dissipou-se no ar suavemente. Logo, inesperadamente, houve um impacto que imediatamente desapareceu com todo o basilisco, deixando em seu lugar apenas uma chama azulada, que vivia mesmo sobre a água. Não parecia ter a mesma característica do fogo natural, pois não se alastrava ou reduzia, e essa constatação fez com que Hermione criasse coragem para se aproximar.

Deixando Draco escorado à uma das paredes, ela caminhou lentamente sem tirar os olhos da chama que relutava em se apagar. Quando chegou mais perto, murmurou um feitiço e enfiou sua mão no meio do fogo, que não a queimou e sequer se apagou. Pôde retirar de lá dois pergaminhos que, embora absurdamente velhos, estavam intactos. Compreendeu então que o basilisco não era somente o guardião do local, mas também dos segredos de Pansy Parkinson.

Virou-se na direção de Draco ainda segurando os pergaminhos e ele assentiu suavemente, com receio de se agitar demais e perder o equilíbrio.

- Eu ouvi... alguns boatos de que ela estava metida com magia antiga.

Hermione foi se aproximando devagar, sem ainda decidir ao certo o que fazer com aqueles pergaminhos. Aos poucos, a chama azul foi se apagando e Draco deduziu que aquele era o fim das cartas na manga de Pansy.

- Ela deve ter obtido as magias através destes pergaminhos.

- Isso mesmo.

Draco estendeu a mão direita para Hermione e ela lhe entregou um dos pergaminhos. Dava para sentir até pela textura do papel o quão velhos eram. Ergueu seus olhos na direção da grifinória, que o encarou com um semblante curioso.

- Mas não entendo, por que ela deixaria o basilisco solto...

- Ora, Granger, eu... esperava mais de você.

A voz de Draco falhou no meio da frase e ele suspirou, devolvendo o pergaminho para Hermione. Seus olhos castanhos se apertaram conforme a curvatura das sobrancelhas e o Malfoy tentou esboçar um sorriso de desdém, mas não foi muito bem-sucedido.

- Quando Pansy me chamou aqui, ela não mentiu sobre tudo... ela... realmente devia ter problemas com alguns comensais por estar usando... bem, magia antiga.

Foi num movimento involuntário que os olhos de Hermione se arregalaram. Ela girou o rosto na direção do Malfoy, que parecia ter problemas para continuar explicando. De fato, por mais que Draco estivesse tentando disfarçar, não sabia mais até quando conseguiria seguir ao lado da Granger sem desmaiar.

- Está me dizendo que ela deixou ele aqui, solto, para matar os próprios aliados?! Mas quem diabos faria uma coisa dessas?!

- Você realmente... não conheceu muito bem os seguidores de Voldemort, não é?

Um pouco atônita pela resposta, Hermione sacudiu a cabeça negativamente, meio baqueada de pensar que não havia o menor escrúpulo entre os seguidores de Voldemort. Então Pansy estava simplesmente usando a força dos comensais na batalha para depois dá-los de jantar ao basilisco. "Isso soa doentio até para ela", concluiu ainda um pouco atordoada, enquanto ajudava Draco a subir os degraus da escada quase destruída do castelinho.

Pelos cálculos de Hermione, àquela altura era provável que a batalha em Godric's Hollow já tivesse próxima do fim ou, quem sabe, já até houvesse acabado. Era bem pertinente que ela e Draco estivessem logo por lá, por isso tentou apressá-lo em subir as escadas. Precisavam dar um jeito de aparatar urgentemente e ela não tinha certeza se era apropriado viajar com ele naquele estado, mas não via uma alternativa plausível.

Porém, como nenhum comensal havia retornado ainda e não havia qualquer sinal de alguém na propriedade, presumiu que todos ainda deviam estar ocupados ou impossibilitados de regressar, o que, para Hermione, soava como uma notícia promissora.

Assim que ficaram do lado de fora, Hermione segurou firmemente o antebraço do Malfoy e lhe encarou, aguardando uma confirmação de que pudesse apartar. Ele estabilizou a respiração por alguns instantes antes de assentir suavemente, sem olhar para a garota. Se pudesse palpitar, ela diria que a única coisa que o movia, aquele momento, era a vontade de ver Gina e simplesmente não havia declaração de amor mais bonita.

Então aparataram.

X

N/A: Gente, viram só que linda essa autora? Que posta com responsabilidade e tudo mais hahahahahaha pois é, não se acostumem não. Ou se acostumem sim, sei lá. De toda forma, finalmente nossa saga épica mal escrita chegou ao pré-fim. Foram 03 anos para concluir essa fanfic e eu não poderia ser mais grata por todas vocês que ficaram aqui comigo esse tempo todo. Obrigada mesmo!

Vamo que vamo, agora está chegando ao fim e não dá mais para desistir. É só isso, não tem mais jeito, acabou, boa sorte hahahahaha

Falta o último capítulo e o epílogo, por que eu adoro epílogos. Mas pretendo postar os dois juntos, para não quebrar o clima do ritmo de leitura de ninguém. Com eles, uma surpresinha para vocês =D

Beijos!