Capítulo 47

O vento frio foi a primeira coisa que Draco sentiu ao aparatar. Assim que abriu os olhos e se viu naquele maldito cemitério, seus últimos resquícios de força lhe permitiram caminhar até perto do muro, por onde começou a analisar a situação da batalha que ocorreria na casa. Logo em seguida, viu que a Granger se aproximava e parava ao seu lado, apoiando as mãos no murinho. Estava com o cabelo desgrenhado, mas ainda preso, o que a deixava com uma cara de maluca muito mais intensa do que a tradicional.

Contudo, a situação na casa parecia bem controlada. Dava para ver alguns professores de Hogwarts na porta, vigiando uma série de comensais amarrados, ligados por uma corrente que reluzia. Os olhos castanhos de Hermione foram passeando pelos rostos que conseguia ver e, embora muitos estivessem abatidos ou sujos de sangue e fuligem, alegrou-se por não ter tantas perdas. Quis pular quando viu Luna saindo ao lado de Neville e Harry, com um sorriso desbotado entre os lábios.

Draco conseguia identificar com aptidão as cabeças ruivas que via. Primeiro foi Jorge e Rony, mas havia também Arthur, Molly e Percy. Seu punho se apertou e sentiu os dedos arderem enquanto esperava ansioso por qualquer sinal de Gina. Pelo ar de tranquilidade que pairava no ambiente, deduziu que devia estar tudo bem, mas sabia que só se acalmaria quando pusesse os olhos nela.

De repente, lá estava Gina, completamente suja e descabelada, esgueirando-se para fora da casa e girando a cabeça em várias direções, como se procurasse alguma coisa. Provavelmente o ser humano ainda não foi capaz de inventar uma palavra capaz de descrever o sentimento de alívio, alegria e paz que invadiu o peito de Draco aquele momento.

- Draco? Mione?

Até a voz distante dela soou como música enquanto procurava por ele e Hermione. Draco deixou então, finalmente, o corpo sentir o peso de suas ações e caiu sentado, completamente acabado e feliz. Hermione ergueu-se com os olhos marejados e um sorriso débil, acenando o braço para Gina.

- Gina, aqui, preciso de ajuda!

As costas de Draco não o sustentaram por mais tempo e ele sentiu seu corpo indo de encontro ao gramado. Pôde ouvir os passos de Gina e de mais pessoas, que vinham em sua direção e de Hermione, mas estavam cada vez mais distantes. Se esforçou de verdade para manter os olhos abertos e poder desfrutar da visão do rosto preocupado da Weasley, mas simplesmente não conseguiu suportar mais. De repente, tudo ficou escuro e a última coisa que ele ouviu, foi uma voz familiar e irritante gritar.

- Draco Malfoy, se você morrer, eu vou ficar com a sua firebolt!

Maldito Blaise Zabini.

#

Assim que abriu os olhos, teve de fechá-los novamente de forma abrupta.

A claridade que vinha da janela lhe afetou um pouco, forçando-o a erguer uma das mãos para esfregar os olhos. Onde diabos estava? Certamente que não estava em seu quarto, mas onde mais poderia ser?

Ainda com os olhos semicerrados, tentou fazer um panorama do local e percebeu que se tratava de um hospital. Logicamente, o St. Mungus. Mas como diabos fora parar ali? Então foi subitamente acometido pelas lembranças da batalha, do basilisco e de Gina, viva, correndo. Sentou-se num sobressalto, sentindo uma pressão em sua cabeça logo em seguida.

Ficou observando as cortinas brancas balançando suavemente por um momento, até sua visão se acostumar novamente com a luz do dia. Há quanto tempo será que estava ali? Onde estava Gina? Merlin, será que alguém havia avisado sua mãe? Já devia haver por todo o mundo mágico cartazes com seu rosto estampado anunciando o desaparecimento, com certeza.

Foi observando devagar as outras camas que dividiam o espaço do hospital com ele e percebeu que a maioria estava vazia. Havia um ou outro doente, mas Draco não reconheceu ninguém, o que lhe aliviou de certa forma. Ficou meio sem saber o que fazer, pois queria se levantar, mas não fazia a menor ideia de onde estariam suas roupas. Por fim, permaneceu sentado, meio desnorteado, apenas observando a porta na expectativa de que alguma enfermeira fosse entrar por ali a qualquer momento.

Por isso, quando Gina apareceu na porta, tomou um susto que quase a fez cair para trás. Afinal de contas, acabara de perguntar se Draco havia acordado, tendo como resposta um alto e sonoro NÃO de uma das enfermeiras. Um sorriso bobo dominou seus lábios e ela foi caminhando até ele, emocionada.

- Você acordou!

Draco reparou que ela não estava mais suja de sangue e fuligem e imaginou que já devia ter se passado ao menos um dia. Seus cabelos ruivos estavam penteados para trás e seguros por uma tiara, deixando o rosto sardento mais evidente. Quando ela o alcançou, seus braços contornaram pelo pescoço do garoto, que ficou imóvel, sentindo seu corpo próximo e o calor daqueles lábios quentes contra os dele.

Automaticamente, os olhos de Draco se fecharam com força e ele a envolveu num abraço carinhoso, rompendo o beijo e afundando o rosto na curva do pescoço de Gina, sentindo seu cheiro doce. Estava quente e viva, completamente saudável e estabanada, como tinha que ser. Seus dedos se apertaram na pele dela, segurando-a o mais próximo de si que conseguia, sem intenção nenhuma de se separar.

Gina sentiu a urgência daquele abraço e sorriu, acomodando-se no ombro de Draco e passando seus dedos pelos cabelos loiros de forma gentil, como se tentasse acalmá-lo de qualquer que fosse o mal que habitava a cabeça do Malfoy.

- Me desculpe, Gina... me desculpe por tudo.

Aquilo definitivamente a pegou de surpresa.

Quis poder virar o rosto para ver a expressão de Draco, mas da forma como ele a segurava não teve como se desvencilhar.

- O que está dizendo? Do que tenho que te desculpar?

"De tantas coisas", Draco pensou enquanto mantinha-se junto dela. Sua mente vagava entre suas recordações das histórias da câmara secreta, as discussões, brigas, sua falta de coragem em dar a Gina um bendito rótulo, sua inabilidade que permitira com que, ao menos uma vez, num passado que já não existia mais, ela morresse. Culpado também por todas as coisas que sentia, mas que não sabia dizer. Culpado por ter levado Pansy até a Ordem, por ser ignorante, por ser presunçoso, por não ser o herói que a Weasley merecia que ele fosse.

- Eu falhei com você... falhei tanto, Gina, tanto...

Apertou os dentes quando sentiu seus olhos marejarem e agradeceu por estar com o rosto escondido entre os cabelos de Gina. Não gostava de se sentir daquele jeito, não gostava de se ver vulnerável ou tão aberto, mas seus nervos estavam falhando desde o dia em que a vira morta. Sentia-se tão inteiramente culpado que conseguia, aos poucos, despir-se de sua armadura e permitir-se demonstrar o quanto lamentava por tudo que havia acontecido.

- Pode me perdoar por ter falhado tanto? Por não ser o herói que você merece que eu seja?

Gina permaneceu estática enquanto o ouvia falar em seu pescoço. Seus dedos eram a única parte de seu corpo que se mexia, fazendo movimentos suaves pelos cabelos loiros de Draco, que ainda não demonstrava indícios de que iria lhe soltar em breve.

- Acho que nunca me desculpei com você pelos acontecimentos na câmara, não é? É muito tarde para isso? Eu realmente sinto muito, eu não fazia ideia... eu juro que não fazia ideia.

Diante da ênfase de Draco em se desculpar com ela, Gina apenas conseguiu assentir, ainda sem compreender ao certo o motivo de parecer tão desesperado. Esperava que, quando chegasse ao hospital, o Malfoy fosse estar emburrado, doido para sair, mas na verdade ele parecia muito preocupado para sequer cogitar levantar da cama.

- Não precisa se preocupar com isso, Draco, de verdade, eu sei que não foi culpa sua.

Por mais suave e carinhosa que fosse a voz de Gina, Draco não conseguia simplesmente ignorar tudo que estava rodando em sua cabeça naquele momento. Teve medo, um medo genuíno, de perder novamente a chance de dizer todas as coisas que sabia que a Weasley precisava ouvir.

- Eu só queria que você soubesse que isso importa para mim. Eu queria que as coisas pudessem ter sido diferentes, eu queria que você não tivesse passado por tudo aquilo.

Respirou profundamente o ar para seus pulmões, tentando se restabelecer. Não podia ficar o dia todo escondido no pescoço dela e estava sentindo já uma certa ansiedade nos toques de Gina, o que indicava que, mais cedo ou mais tarde, ela o empurraria para lhe olhar nos olhos. Achou que era melhor fazer isso por si só.

- Eu falhei com você, eu falho muito e estou tentando, Gina, estou realmente tentando ser melhor.

Foi se separando dela aos poucos, mas sem muita coragem para lhe erguer os olhos. Reparou que Gina foi logo se sentando ao seu lado na cama, demonstrando paciência em ouvir o que tinha para dizer. Aquilo devia ser um evento memorável, pois era difícil que ela se calasse a ponto de deixa-lo desenvolver e concluir um raciocínio sem começar a implicar com alguma palavra mal colocada ou por captar um sentido equivocado em seu tom de voz.

- Mas, de verdade, não sei até onde meu jeito de ser e o seu vão conseguir existir sem colidir. Não sei se vai ser mesmo o melhor para você estar comigo, pois sinto que você merecia muito mais...

Só então teve coragem de olhar para o rosto de Gina, que se mantinha calmo e suave, um pouco diferente do que esperava. Puxou o ar novamente para seus pulmões e alcançou as mãos dela com a sua, enroscando os dedos finos na palma quente e rosada da ruiva, que continuava sem pronunciar sequer uma palavra. Ao mesmo tempo que era gratificante poder falar sem interrupções, era difícil não saber o que ela estava pensando.

- Só que, se você pensar nisso e realmente ainda quiser estar comigo, eu... eu gostaria de namorar com você.

Uma expressão divertida passou pelo rosto da menina, que ergueu uma das sobrancelhas e apertou os dedos em volta da mão dele. Seu jeito de olhar indicava que estava aberta a brincadeiras.

- "Ainda quiser"? O que te garante que eu quero agora?

Draco não pôde evitar de revirar os olhos, sacudindo a cabeça negativamente como se reprovasse a atitude brincalhona de Gina. Seu rosto ainda estava meio inclinado, direcionado para baixo, envergonhado e completamente sem jeito, o que, na visão da Weasley, era muito engraçado.

- Estou falando sério.

Umedeceu os lábios ainda sem conseguir fazer o sorriso sumir. Apertou novamente os dedos na mão de Draco, como se quisesse lhe chamar a atenção, mas mesmo assim ele permaneceu com os olhos voltados para baixo, realmente evitando o contato. Não era de surpreender que estivesse incomodado, em todo aquele tempo essa era a primeira vez que tinham uma conversa do tipo e Gina tinha certeza que não era do feitio do Malfoy sair por aí expondo sentimentos e pensamentos para todo mundo.

- Eu não preciso pensar sobre isso. Venho pensando já tem um bom tempo, você que não queria ter um rótulo. O que mudou, Draco? Por que você está agindo assim?

Cometeu o equívoco de encarar os orbes grandes e castanhos de Gina, que cobravam uma resposta. Sua mão ergueu-se para a nuca, coçando devagar, sem ter a menor ideia do que responder. Não queria conversar sobre tudo que acontecera antes ali, no hospital, mas também sabia que não poderia terminar suas explicações se anulasse aquela parte.

- Foi por que eu morri?

Pego de surpresa, seus olhos cinzentos se arregalaram e Gina assentiu suavemente, girando os olhos e sacudindo a cabeça negativamente, como se fosse óbvio que ela já sabia do que havia acontecido. Por um momento, Draco perguntou-se quanto tempo será que havia passado no hospital.

- Hermione me contou o que aconteceu e como vocês usaram o vira tempo para resolver tudo. Você realmente lutou contra um basilisco?

Uma risada curta saiu pelos lábios de Gina, o que fez com que Draco suspirasse e escorasse as costas na cabeceira da cama. Definitivamente sua moral estava muito em baixa com aquela garota. Como não havia muito o que falar, deu-se por vencido e apenas ergueu os ombros, compreendendo a surpresa na fala dela;

- Tudo bem, eu também acho difícil de acreditar.

O riso de Gina cessou e ela apenas o olhou com afeição, movimentando o polegar na mão de Draco em forma de carinho. Seus lábios se comprimiram um pouquinho e, de repente, seu olhar pareceu um pouco desapontado.

- Não quero que seja esse o motivo para você querer oficializar alguma coisa comigo. Não é justo.

Subitamente a mão de Draco saiu de seu carinho, indo diretamente para os cabelos loiros num movimento agoniante. Era como se estivesse travando uma luta interna muito grande para poder reagir apropriadamente ao seu comentário, de forma que sua cabeça sacudiu negativamente de forma frenética.

- Que droga, Gina. O motivo não é esse.

Novamente, Gina apenas aguardou enquanto a cabeça de Draco funcionava. Era difícil romper suas próprias travas e deixar sair as palavras que sabia que ela precisava escutar. Por mais que soasse fraco, por mais que houvesse aprendido a não demonstrar nada, tinha de aproveitar a oportunidade e deixar a Weasley ciente.

- Eu... eu amo você.

Merlin sabia como era complicado permitir que as palavras saíssem, assim, como se tivessem vida própria. Mas devia confessar que se sentia um pouco melhor após ter dito, por que em seu íntimo, aquilo parecia certo. Dizer aquelas coisas para Gina o fazia sentir livre, como se finalmente aceitasse e nomeasse seus sentimentos por ela. Por mais que já a houvesse adotado em sua vida e rotina, era de certo alívio concretizar e saber que a Weasley tomava conhecimento de quão importante se tornara para ele.

- Já faz um tempo, mas nunca achei que precisasse te falar... agora acho que foi estupidez da minha parte, querer que você simplesmente soubesse...

Com o olhar voltado para a janela, Draco continuou falando, como se as palavras que passassem por sua mente fossem naturalmente seguindo para sua boca. Gina o observava com atenção e as bochechas coradas, sem se atrever a cortar aquela linha de raciocínio, ainda digerindo as coisas que estava ouvindo.

- De toda forma, eu sei que não sou sua melhor opção, e você também sabe disso. Fora que tem sua família, enfim, um monte de contratempos que acho que você devia avaliar...

- Eu devia avaliar?

Os olhos se encontraram mais uma vez.

- Você sabe do que eu estou falando, para sempre vou ser um Malfoy, para sempre as pessoas vão continuar me ligando à imagem de comensal, de Voldemort, e você não precisa passar por isso.

Ficaram em silêncio por alguns instantes. Gina apertou os olhos, tentando compreender o que estava acontecendo. Ao mesmo tempo em que dizia amá-la, Draco lhe apresentava todos os argumentos do mundo para não ficarem juntos. O que aquilo significava? Será que ele achava que era melhor não ficarem juntos?

- Você está tentando me convencer a não ficar com você?

Sacudiu a cabeça negativamente. Seus dedos passearem pelos cabelos loiros mais uma vez, ainda em um visível desconforto. Sabia que hora ou outra Gina ia acabar interpretando errado o que dizia e por isso, às vezes, preferia nem tentar.

- Não é isso...

- É o que parece. Não houve uma coisa positiva sobre nós em tudo que você disse.

- Por que eu conheço você.

Mais um instante de silêncio. Draco respirou fundo e olhou para Gina novamente, tentando desfazer aquele semblante preocupado que ia tomando conta do rosto da ruiva. Sua mão alcançou a dela, tentando fazê-la prestar atenção no que estava dizendo.

- Eu te conheço, eu sei que você não usa o cérebro para pensar. Sei que você segue sempre pelo coração, mas isso não vai bastar para sustentar alguma coisa entre a gente. Você precisa saber que vai ser difícil...

Engoliu a seco antes de continuar falando. Por mais que fosse difícil ficar pontuando todas as coisas que poderiam impedi-los de ficar juntos, sentia que devia aquilo à Gina. Mesmo que ela ficasse zangada, Draco não podia simplesmente ignorar todos esses obstáculos e se permitir esquecer de tudo que os aguardaria caso resolvessem levar aquele relacionamento adiante.

- Não quero que no meio do caminho você se dê conta de que poderia ter optado por alguma coisa mais fácil e se arrependa, entende? Eu sei que não vou me arrepender, mas e você?

As sobrancelhas de Gina se arquearam quando ela finalmente percebeu do que se tratava. Sua expressão suavizou e embora quisesse fazer com que Draco parasse, deteve seu instinto e permaneceu calada. A mão dele ainda segurava a sua com carinho e os olhos cinzentos fitavam seus dedos, como se as palavras estivessem escritas ali.

- Se eu ficar aqui te falando de todas as coisas boas e negligenciando as ruins, vou estar só te iludindo. Você sabe de todas as coisas boas. Você é a coisa boa.

Sem conseguir esquecer a sensação de perde-la, Draco apertou um pouco os dedos em volta dos de Gina, que apoiou sua outra mão sobre a dele, formando uma espécie de conchinha, tentando transmitir que estava ali, que não iria a lugar nenhum.

- Eu estou tentando melhorar, mas estou longe de ser o que você merece.

Da maneira mais delicada que soube, Gina baixou a cabeça, fazendo com que seus olhos puxassem os dele num gesto que parecia até mesmo magnético. Draco ergueu o rosto aos poucos e lhe encarou, sem saber ao certo o que esperar. Então ela deu um meio sorriso.

- Isso cabe a mim decidir, não é mesmo?

- Não precisa decidir hoje, pensa a respeito.

Nem em um milhão de anos poderia esperar levar o peteleco que levou no meio da testa. Gina deu um sorriso contrariado, como se achasse graça na falta de percepção do Malfoy a seu respeito.

- O que você acha que tenho feito, Draco? Acha que teria me envolvido com você sem pensar em todos os contratempos que vamos enfrentar? Eu não sou idiota.

Foi subindo mais na cama conforme ia falando. Seu ar divertido voltava aos poucos e Draco relutou em se render a isso. Gina fazia tudo parecer tão tranquilo, tão fácil, como se nada daquilo fosse realmente importante. Suas mãos tocaram suavemente pelas bochechas pálidas do Malfoy, que pôde ver seus olhos mais de perto, sentindo a respiração que batia de encontro à sua.

- Sei que vai ser difícil, mas também sei que você vale a pena. Eu também te amo.

Embora já fosse habitual que se beijassem, para Draco, aquele beijo foi diferente. Foi como se colocasse todas as coisas no lugar de novo, como se pudesse sentir seu coração batendo no ritmo normal, seus pulmões funcionando e até seu cérebro pareceu mais leve. Involuntariamente suas mãos afundaram nos fios vermelhos de Gina e ele se permitiu não pensar em nada que não fosse ela durante alguns instantes.

A forma como suspirava baixinho quando o beijo ficava mais intenso sempre o deixava maravilhado. Os lábios macios e o jeito delicado com que a ponta dos dedos lhe acariciava fazia com que sentisse que, finalmente, encontrara seu lugar no mundo. Gina se encaixava tão bem no meio de seus braços que a manteria ali para sempre, se pudesse. Por fim, foi ela que se separou, dando um selinho antes de se afastar e descer da cama com o mesmo ar divertido de quando chegara.

- Agora vamos, você precisa se vestir por que tem que me comprar um anel de namoro caríssimo.

Não conseguiu segurar um meio sorriso ao ouvir a frase da ruiva, que ia se afastando na direção da porta para localizar alguma enfermeira. A voz de Draco lhe alcançou na soleira da porta.

- Minha fortuna está retida, lembra? O máximo que posso fazer é te levar ao Três Vassouras.

Apoiou-se ao batente para virar o rosto com um sorriso debochado.

- Fazer o que, né? Namorar com pobretão é isso aí.

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- Três dias?!

A voz de Draco se sobressaiu um pouco mais que o esperado. Blaise riu enquanto Gina começava a arrastar a própria cadeira para trás, demonstrando que ia se levantar.

- Isso aí. Tivemos que conter os ânimos do Blaise, por que ele já estava indo na sua casa buscar a firebolt.

Os olhos cinzentos acompanharam Gina enquanto ela se levantava e virava as costas para os dois, que permaneceram sentados na mesa. Assim que a frase dela se encerrou, Draco virou-se para Blaise com um olhar assassino. O moreno riu e ergueu as mãos, num gesto que indicava que o loiro devia se acalmar.

- Sabe como é, Draco, como seu amigo mais próximo preciso prezar pelos seus bens materiais. Seriam a recordação que guardaria de você e tal.

Balançando a cabeça negativamente, Draco apanhou um guardanapo e passou pela boca, ainda meio inconformado com as atitudes de Blaise.

Assim que Gina e ele saíram do St. Mungus deram de cara com Blaise, que estava indo fazer uma visita para Draco. Foi por pura coincidência que se encontraram e acabaram decidindo ir até o Três Vassouras juntos para comemorar o fim de suas preocupações. Não foi lá uma decisão muito acertada, pois parece que metade do mundo bruxo havia tido a mesma ideia, especialmente por que o fim de ano se aproximava e as pessoas começavam a ganhar confiança para andar em Hogsmeade e o Beco Diagonal novamente.

Até mesmo Harry, Rony e Hermione estavam no Três Vassouras aquela noite e por mais que Gina e Hermione tenham tentado, decidiram que era melhor para o clima agradável do dia manter as mesas separadas mesmo. Só foi interessante de ver o aceno cordial que o Potter fez na direção de Blaise e Draco, ao qual retribuíram da mesma forma.

Como sempre, Draco achava aquele lugar extremamente quente e cheio, mas decidiu que não ia ficar se queixando, especialmente por Gina, que parecia tão feliz. Agora mesmo, estava em pé na frente do balcão aguardando pelas cervejas que pediram enquanto conversava animadamente com Hermione, que ria de alguma coisa que a ruiva dizia.

- Bem sei. Você ao menos teve a decência de avisar minha mãe?

Blaise fez um gesto de desdém e riu, abanando a mão.

- Claro que não, o que pensa que eu diria para ela? "Não se preocupe, tia Narcisa, o Draco está inconsciente no St. Mungus". Está doido? Não, eu disse a ela que você estava em Hogwarts.

Uma das sobrancelhas de Draco se ergueu automaticamente em um gesto de reprovação. Seus olhos ficaram cerrados e ele encarou Blaise como se sugerisse que ele havia feito alguma bobagem.

- Hogwarts? Isso foi o melhor que você conseguiu?

- Sim. Disse que você estava ajudando a professora Minerva com algumas poções.

- E ela acreditou?

A expressão agora era de surpresa. Blaise assentiu suavemente, com seu olhar de confirmação cheio de ênfase.

- Sem querer ofender, Draco, mas não é exatamente difícil convencer sua mãe de alguma coisa no estado em que ela se encontra.

"Verdade", Draco completou tamborilando suavemente na mesa e se permitindo ficar um pouco mais despreocupado com Narcisa. No entanto, ergueu os olhos subitamente, como se recordasse de algo importante.

- Mas não saiu nada nos jornais?

A cabeça de Blaise maneou, como se dissesse "mais ou menos", embora começasse novamente a gesticular enquanto explicava. Tinha certeza que Draco não ia ficar exatamente feliz com a solução que dera, mas, bem, era o que tinha, certo?

- Ah, com certeza que saiu, mas não é difícil impedir a informação de chegar até sua casa. Foi só roubar o jornal.

A mão do loiro subiu até as têmporas e começou a massagear de olhos fechados. Blaise riu e abriu os braços, como se estivesse se engrandecendo um pouco pela incrível façanha de furtar a mansão Malfoy.

- Você roubou os jornais da minha mãe.

Draco fez questão de falar pausadamente cada palavra enquanto Blaise continuava a rir. Na mesma hora, Gina retornou com as canecas de cerveja e se sentou, observando os dois garotos e tentando descobrir sobre o que conversavam. Deu um gole em sua bebida enquanto Zabini falava.

- As coisas que temos de fazer pelos amigos. Roubei mesmo e roubaria de novo, se precisasse.

Subitamente lembrou-se de alguma coisa, Gina exclamou ainda com a bebida na boca, sacudindo a mão para chamar a atenção. Os dois a encararam enquanto ela engolia e tomava fôlego para falar.

- Ah, é verdade, Draco! Até n'O Pasquim citaram seu nome.

Quando viu Draco piscar, completamente desentendido, Blaise teve vontade de rir. Os olhos apertados e confusos viraram-se para Gina sem compreender a relevância da informação. Quer dizer, esse não era o jornal do pai de Luna? Pelo que o Malfoy se lembrava, aquele homem já havia morrido, não?

- Esse jornal ainda existe?

- Claro que existe, Luna o mantém ativo para honrar a memória do pai. E ela fez questão de que soubessem que você não estava mais relacionado aos comensais.

Blaise ergueu o indicador, como se houvesse subitamente se recordado de mais um detalhe importantíssimo. Quando viu a expressão do sonserino, Draco presumiu que lá vinha alguma besteira.

- Não somente isso, mas enfrentou um basilisco ao lado da Granger sabe-tudo!

Gina e Zabini riram enquanto Draco revirava os olhos. Não era muito justo dizer que fora ao lado de Hermione, uma vez que ela havia desmaiado antes mesmo do combate começar, mas preferiu nem corrigir por que já imaginava que mais chacota viria.

- E que fim levou a herdeira de Voldemort?

"Ah, é, ele não sabe", Gina pensou enquanto depositava sua caneca de cerveja sobre a mesa. Deu uma arranhadinha na garganta antes de começar a explicar qual fora o desfecho da batalha. Ou, ao menos, o que Hermione e ela haviam concluído.

- Bom, foi bem difícil combate-la, ainda bem que vocês chamaram toda a ajuda que conseguiram. No final das contas, Hermione e eu chegamos à conclusão de que a Parkinson sentiu quando o basilisco foi morto, pois ela teve uma súbita e dramática pausa em um determinado ponto da batalha.

Enquanto Gina falava, Draco deu um longo gole em sua cerveja e tinha de admitir que pelo menos aquela bebida fazia valer a pena ir até o Três Vassouras. Então coçou o queixo suavemente, sem ter certeza das afirmações que a ruiva fazia.

- Isso é possível?

- Como ela estava guardando a origem da sua magia dentro dele, é possível sim. Foi só quando ela fraquejou que conseguimos dominá-la. O poder dela ficou bem reduzido, além da estabilidade mental que caiu para zero.

Mais um gole na cerveja. Zabini assentiu erguendo as sobrancelhas, como se precisasse dar seu testemunho sobre o que vira na noite da batalha. "Para um sonserino, até que Blaise é bem falante", Gina constatou aproveitando a deixa para dar mais uma provadinha em sua cerveja.

- É bem verdade, Draco, nunca vi a Parkinson daquela forma, estava completamente ensandecida, você tinha que ver!

- Por Merlin, eu não!

E os três riram durante um tempo, tendo sua risada abafada pelo barulho do pub. Logo em seguida Gina voltou a falar, pontuando suavemente na mesa com seu dedo indicador as três primeiras palavras de sua frase.

- Se não fosse a ajuda de Zabini, da Ordem e de Hogwarts eu honestamente não sei se venceríamos. Ter atacado o basilisco simultaneamente também ajudou bastante. De modo que acredito que nossa vitória só tenha sido possível graças a todos esses fatores.

- Muito agradecido pela parte que me toca, Weasley.

Entusiasmada, Gina assentiu e deu um sorriso na direção de Blaise e Draco não conseguiu não a admirar por um breve segundo. Com aqueles olhos castanhos divertidos, talvez mais do que o comum, parecia finalmente tão leve e tão mais menina do que já fora algum dia que tinha certeza que podia vê-la reluzir.

- Foi realmente incrível a forma que sua mãe dominou aqueles comensais. Eu nunca havia a visto antes.

- Ela não é exatamente uma mãe presente, mas as vezes dá para contar com ela.

Tai uma coisa que Draco definitivamente gostaria de ter visto: a mãe de Blaise. Ouvia tanto o amigo se queixar dela, mas não se lembrava de tê-la visto em combate alguma vez. Na verdade, lhe falhava a memória se já havia a conhecido algum dia e ficou curioso em saber se ela era parecida com o Zabini.

- Aquele pessoal que você levou são todos conhecidos dela?

- São sim, mas nem todos foram lutar por causa da minha mãe. Na verdade, muitos deles só queriam tirar a Parkinson do poder e adoraram a oportunidade.

As sobrancelhas ruivas de Gina se franziram por um momento enquanto Blaise falava. Draco ficou passando os olhos dela para Zabini conforme a conversa seguia e assustou-se ao ficar um pouquinho contente por vê-los se dar bem. Era muito mais do que ele havia conseguido com os amigos dela e podia imaginar agora as motivações da Weasley em tentar torna-lo mais próximo de sua família.

- E por quê isso?

- Bom, Weasley, a Parkinson veio para tomar o lugar de Voldemort. Como ele mesmo costumava fazer, ela tentava unificar as grandes famílias em seu grupo de comensais, mas nem todo mundo estava confortável, ainda mais após a derrota na batalha de Hogwarts.

Com isso, Draco assentiu suavemente, pousando sua caneca na mesa e virando sua atenção para Gina, que lhe encarou curiosa e atenta.

- Eles a viam como um mal investimento, especialmente quando minha família não aderiu à causa. Foi um ponto contra a figura dela, como se não fosse um ícone forte o suficiente.

A Weasley assentiu suavemente, e desta vez foi Blaise quem emendou uma frase. Aparentemente a sonserina devia ter uma aula exclusiva de organizações das trevas, pois tanto Draco quanto Zabini pareciam dominar o assunto como quem fala sobre algo como quadribol. Em outra ocasião, teria achado engraçado, mas agora estava genuinamente interessada.

- Além disso, custa caro manter uma organização deste tipo, envolve conseguir investimento. O próprio Voldemort considerava famílias como a do Draco por causa do dinheiro.

- Ah, aquela herança de procedência duvidosa.

O olhar presunçoso de Gina alcançou o de Draco, que apenas respondeu com um revirar de olhos. Blaise assentiu suavemente, confirmando que ela estava no raciocínio correto.

- Exatamente. Se ela não conseguiu trazer nem mesmo os Malfoy, que estavam desfalcados, isso afetava a credibilidade dela.

- Por isso ela armou um esquema com o basilisco, para se desfazer de alguns de seus seguidores questionares e de quebra implantar medo em todo mundo. A Parkinson só não imaginava que nós estávamos atacando no mesmo momento que ela.

Da maneira mais discreta que pôde, Draco piscou um dos olhos para Gina que lhe deu um sorriso singelo. Blaise assentiu suavemente, finalizando seu gole de cerveja e voltando a falar.

- Ela bem que gostava de carregar o título de Herdeira, mas na verdade não havia muito como sustentar essa posição. Agora que ela perdeu a fonte primária de seus poderes, que eram os pergaminhos, está completamente acabada e acho que, se não tivesse ido para Azkaban, poderia facilmente terminar morta.

Fizeram silêncio por um momento. Era bem provável mesmo que o destino de Azkaban tenha sido o mais gentil que poderia existir para Parkinson, por mais sombrio que fosse. Draco lembrava-se das histórias de Bellatrix sobre a prisão e chegava a ter pena de Pansy, pois como fora criada no mais puro mimo e luxo, aquilo para ela seria um baita castigo. Então, subitamente lembrou-se de perguntar algo que estava em sua cabeça há algum tempo.

- Por falar nisso, o que aconteceu com os pergaminhos?

Os dedos de Gina passearem pela testa, coçando suavemente enquanto girava os olhos na direção de Draco. Tinha ficado tão satisfeita com a solução daquele problema que imaginou que ele também ficaria.

- A professora Minerva levou para Hogwarts. Nós concordamos em manter essa parte em segredo até que ela consiga avaliar as propriedades mágicas e como funcionam.

- Ah, isso não deve demorar muito, se até a Parkinson descobriu como usar...

Blaise riu soltando cerveja pelo nariz, o que fez com que Draco e Gina soltassem uma risada na sequência. Foi logo passando alguns guardanapos no rosto, tentando se enxugar à medida que os outros dois zombavam de seu desastre.

- Bem, parece que finalmente, ao menos por um tempo, teremos paz.

Draco constatou ainda com um meio sorriso enquanto encarava Blaise. Gina assentiu suavemente, erguendo sua caneca que agora já estava pela metade.

- Um brinde a isto!

Os dois garotos retribuíram o gesto.

- Um brinde!

E as três canecas de cerveja se bateram, fazendo o característico som do vidro quando se encontra.

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N/A: Epílogo e Agradecimentos na sequência s2