Capítulo 32 – Despedida.
Sesshoumaru:
Na noite seguinte, Rin havia providenciado tudo para o jantar. Receberíamos Kagura com nossos filhos e, fatidicamente... Kohaku.
Era óbvio que a presença dele não era a minha favorita, mas com o tempo, começava a me acostumar e absorver aquela ideia. Porque no final sabia que Rin jamais se livraria dele, e se quisesse viver em paz com ela, teria que o tolerar. Aceitar o fato de que haviam sido namorados, amantes e quase casados...
Se Rin convivia em harmonia com Kagura, e mais do que isso, fazia questão de ser agradável e recebê-la com alegria todas às vezes, acabava por ficar devendo isso a ela também.
Lealdade.
...
Rin ajeitava a mesa, cuidando de todos os detalhes possíveis. Colocou a prataria delicada em seus devidos lugares, copos, guardanapos de tecido, talheres intercalados e taças abauladas. Rosas brancas dentro de um vaso transparente bem moderno disposto no coração da mesa davam o toque final da sua perfeita decoração de última hora.
-Não é a mesa mais bonita da vida, certamente. –ela resmungou olhando sua obra. –Mas ainda não temos muitas coisas...
-Você só pode estar brincando. –balancei a cabeça em negativa.
Ela mordeu os lábios inferiores, cruzou os braços em frente a mesa e não disse mais nada, somente deu de ombros.
-Bom, vai ter que servir!
-Não é como se estivéssemos recebendo a rainha da Inglaterra. Não vão reparar nisso. –menti. Sabia o quanto Kagura chegaria com seus olhos analíticos. E acreditava que era o que Rin temia.
Rin iria rebater meu comentário, mas logo foi interrompida pela porta da entrada que se abriu teatralmente. Tínhamos dado a ordem de que eles não precisariam tocar a campainha e o acesso havia sido liberado sem precisarem ser anunciados.
O barulho da cadeira de rodas denunciava que Kohaku estava adentrando o recinto. Cinco segundos depois, seu semblante surgiu, logo atrás vinha Kagura com um carrinho duplo de bebê, de um lado contendo Yasuhiko e do outro Koji que apesar de acordados encontravam-se calmos em seu silêncio particular.
-Boa noite, estamos entrando! –Kohaku disse com um sorriso no canto dos lábios quando avistou Rin. Em sua mão direita, segurava uma garrafa com um rótulo bem trabalhado.
-Acabou que nos encontramos lá embaixo por um acaso. –Kagura falou depois, fechando a porta atrás de si e ajeitando o carrinho a sua frente. –Até que enfim voltou, Sesshoumaru. Já estava pensando se não estaria desistindo de casar.
Revirei os olhos. Rin tentou abafar a risada, mas não conseguiu.
Kagura sabia ser ácida.
-É bom vê-la também, Kagura. –resmunguei me encaminhando para perto dos meus filhos que estavam extremamente interessados na casa. Olhavam vidrados em direções opostas. Enquanto Yasuhiko estava hipnotizado pelo lustre que pendia teatralmente pelo teto, Koji fitava com atenção o quadro pendurado na parede.
Agachei e carinhosamente passei a mão em seus cabelos tão lisos e finos. Eles ficaram atentos a mim no mesmo instante. Olhos âmbar e rubis encararam-me. Um pouco de mim e de Kagura borrado naqueles dois seres que já imaginava serem completamente distintos.
-Olá, Sesshoumaru. –Kohaku disse solenemente arranhando a garganta. –Espero ter feito boa viagem.
-Uma viagem longa dessas, nem para os mais otimistas. –o olhei de relance, e só depois percebi que meu tom havia saído mais seco do que o pretendido. Então recuei pondo-me de pé novamente, tentando sair da defensiva que involuntariamente eu me colocava quando estava em sua presença. –Mas, não posso reclamar.
-Como é dramático. –Kagura sorriu brevemente dando-me um tapa leve nos ombros. –Pelo que soube você veio num vôo particular.
-Ainda assim, é uma longa viagem.
-Realmente, na sua idade as coisas são mais difíceis mesmo. –ela me deu uma careta e eu cerrei o cenho irritado com aquela provocação.
-Hei! O que você tem aí nas mãos? –Rin se aproximou finalmente tentando acabar com aquele assunto constrangedor.
-Ah, sim! –Kohaku estendeu a garrafa para ela. –Pensei em contribuir com alguma coisa no jantar. Achei esse vinho numa vinícola aqui perto, pensei que você iria gostar.
-Claro que vou gostar. Vamos abrir durante o jantar! –Rin sorriu pegando das mãos de Kohaku e analisou cuidadosamente todos os detalhes da bonita garrafa. –Não acredito que se lembrou desse vinho, Kohaku! Foi aquele que tomamos em Paris que eu amei naquela vez em que... –Logo, como num estalo, parecendo se lembrar de algo da qual não queria compartilhar saiu da frente de todos. –Mas venham, vamos entrando. Vamos beber alguma coisa antes do jantar.
Eu claramente havia entendido do que se tratava pelo rubor da minha amada por ter dito de mais e pelo constrangimento de Kohaku.
Olhando de soslaio para Kagura, ela também compreendeu e deixou um sorriso no canto dos lábios escapar. Dessa vez, sem falar qualquer maldade perturbadora.
...
Depois do jantar, Rin havia aberto mais uma garrafa para compartilhar com Kagura, que havia a sugestionado para fazê-lo. Kohaku não quis mais. Enquanto a mim, afundei-me ao meu Whisky, ficando próximo aos meus filhos, que aquela altura estavam todos reunidos em seus carrinhos. Katsuo naquele momento também estava lá. E eu parecia fitar um mar de nós mesmos refletidos nos rostos daquelas crianças.
Que tipo de homens eles seriam?
Altruístas ou egocêntricos?
Orgulhosos ou condescendentes?
Ficava pensando, todas as vezes em que os olhava, ainda beirando a incredulidade, que havia sido capaz de dar a vida junto com aquelas duas mulheres tão ímpares, outros seres humanos a povoarem aquela terra tão austera.
Em meio as conversas, acabamos nos separando da roda anterior de nós quatro. Rin havia puxado Kohaku para que ele pudesse ver o restante do apartamento. Ele não pensou duas vezes, e em nenhum momento hesitou, claramente foi um alívio ter saído de perto de mim.
Quando saíram das nossas vistas, Kagura se aproximou. Sentou-se na poltrona a minha frente com um rosto são. Sua maquiagem singela destacava a beleza que parecia ser incapaz de sair de sua tez. Os anos lhe caíram bem, devia admitir.
-Como estão os negócios? –ela perguntou levando a taça a boca, dando um gole rápido sem tirar os olhos de mim.
-Bem. –dei de ombros. –Joshua acabou proporcionando muito mais do que esperava.
-Eles são pessoas impressionantes. Sofisticados, com certeza. Olívia parece uma garça, nunca havia conhecido alguém tão elegante como ela. Uma educação para poucos.
-Rin disse que vocês duas estavam a ajudando com as coisas do casamento. –arqueei uma única sobrancelha.
-Eu sei o que vai dizer. –ela sorriu balançando a cabeça em negativa. Repousou a taça já quase vazia na mesa de centro e voltou-se a mim. –Sei que é estranho.
-Não parece do seu feitio. –a fitei seriamente jogando o corpo um pouco mais para frente.
-O que quer que eu diga? –ela riu brevemente. –Eu gosto da garota. Sei que é inacreditável, mas eu realmente passei a gostar dela. Desse jeito abusado, irônico e ao mesmo tempo benevolente. Eu devo isso a ela. Por tudo que fez por mim no hospital. Nenhuma das minhas amigas de Champs-Élysées, por exemplo, pensaram em vir até aqui me ver. Ou nem mesmo minha querida prima Kana que agora parece ter mais vergonha da família do que outra coisa. –ela deu de ombros. –Vacas... Que se dane essa gente. Sempre foi mesmo pela aparência. Se não fosse por essa pirralha, eu estaria nas mãos de uma enfermeira qualquer cuspindo na minha comida que eu certamente mereceria.
-Tem notícias de Naraku? –indaguei sem receio de tocar no assunto.
-Infelizmente sim. –Kagura suspirou de maneira melancólica, e desviou um pouco o seu olhar para um ponto qualquer. –Ele teve a cara de pau de me pedir ajuda. Claro que não preciso dizer que neguei.
-Quando foi isso?
-Foi na semana passada, seu julgamento está próximo de acontecer. Mas, receio que Naraku tenha muitos meios... –ela voltou os olhos para mim, com aquela certeza que tinha quando dizia um fato que apesar de não consumado, se concretizaria. –Não acredito que ele passará o restante dos seus dias na cadeia. Certamente sua influência e seu dinheiro darão um jeito nessa situação. Não sou ingênua de pensar que meu irmão ficará atrás das grades. E tenho certeza que você também sabe disso.
-Eu sei. –assenti tomando um longo gole do whisky. –Foi por isso que insisti que andássemos com seguranças.
-Pode ter sido sim uma saída. –ela deu de ombros recostando mais as costas no sofá. Daquele ângulo pareceu exausta, como se uma tonelada recaísse por sobre os ombros. Não a culpava.
-Sei que não é só pelos nossos filhos que não tem dormido bem. –disse tomando o último gole do whisky e repousando o copo ao lado de sua taça. –Mas deveria tentar esquecer e seguir em frente sem Naraku.
-Falo isso para mim mesma todos os dias, Sesshoumaru. –ela sorriu mesmo sem vontade.
Notei que seus olhos tão febris estavam querendo amontoar as mais cristalinas lágrimas. Algo do qual não fazia o seu feitio. Vê-la tão sentimental e vulnerável me assustou por um instante. Kagura era como uma fortaleza, um forte no meio de um oceano. Mas, naquele dia, algo diferente a assomava. E do Forte que me lembrava, agora parecia um singelo navio seguindo as altas marés, chacoalhando conforme o vento e as ondas fortes que o mandavam.
-Temo tanto pela relação dos nossos filhos. Por Yasuhiko e Koji... Temo que eles se tornem uma sombra de mim e Naraku. Que esses nossos genes tão obscuros se aflorem neles.
-Besteira. –disse-lhe de uma vez, com a voz firme.
-Espero que seja.
Kagura respirou pesadamente, voltou seus olhos para os bebês que aquela altura dormiam sossegados em seus respectivos carrinhos. Ela então sorriu, passou as mãos pelos olhos de maneira disfarçada voltando a postura anterior. E lá estava o Forte novamente.
-Tenho pensado em voltar, Sesshoumaru. Em voltar para casa.
Engoli a seco um pouco desconfortável com aquela notícia, contudo não proferi nada de imediato. Agarrei novamente o meu copo e encaminhei-me ao bar, que Rin havia montado no fundo da sala, a fim de enchê-lo uma última vez aquela noite.
-Quando está querendo fazer isso? –indaguei ainda de costas a ela.
-Pensei em talvez daqui uns cinco, seis meses. Quando as crianças estiverem um pouco maiores. Sinto falta de casa. Do meu jardim, da minha paz. De subir e descer minhas longas escadas.
-Achei que gostasse daqui, de São Francisco.
-Sabe que prefiro Nova York. –ela riu comedida. –E sabe também que não posso ficar brincando de boneca e casinha com você o resto dos meus dias, Sesshoumaru. –apesar de suas duras palavras, ela as proferiu com calma e cuidado. Foi o momento de eu finalmente me virar para ela e encarar sua face amena. –Sei que você e Rin têm coisas pendentes nesse lugar, mas não podem querer que eu continue aqui até o momento em que vocês decidirem. Não posso ficar a mercê do tratamento de Kohaku ou das suas transações. Eu realmente não quero mais viver na sombra de mais ninguém. Eu preciso seguir. Preciso organizar essa bagunça que virou a minha vida.
-Eu entendo, Kagura. E não a culpo por pensar dessa forma. –acenei de leve em concordância. Coloquei a mão livre no bolso da calça, hesitante, não sabia como deveria lhe falar.
-Sei que entende. –ela assentiu segura.
-Mas queria que ficasse. –então acabei falando de uma vez só. Já que as palavras com rodeios não iriam parecer tão adequadas. –Fique pelo menos por um ano.
Kagura arregalou os olhos, claramente surpresa com aquelas minhas palavras. Ela ajeitou-se mais no sofá e eu caminhei novamente em sua direção dando um gole curto em meu Whisky.
-Sei que não tenho direito de lhe pedir mais nada nessa vida. Mas, pense nisso com cuidado. Não queria ter de me afastar dos meus filhos nesse momento.
Ela ficou anestesiada por alguns segundos. Então voltou a sua taça, tomou o último gole em silêncio e ainda desconfortável. Mas não demorou a voltar seus olhos novamente a mim.
-Rin disse que Kohaku estava indo bem com o tratamento... Talvez não seja tanto tempo assim que ficará afastado...
-Só pense nisso. No que lhe falei.
-Está certo. –ela assentiu conformada. –Pensarei sobre isso.
Kagura sorriu, e assim que terminou o vinho, levantou-se sutilmente. Caminhou até a porta que dava acesso a varanda e abriu um pouco as cortinas acinzentadas a fim de permitir que um pouco da brisa de fora adentrasse ao recinto. Era uma noite fresca, daquelas suas favoritas. Lembrei da vez em que estivemos em Santorini. Era uma noite como aquela, apesar de circunstâncias tão diferentes. Não borraria seu batom quando chegasse ao fim do jantar e tampouco a deitaria na cama macia de lençóis recém lavados com cheiro de lavanda.
-Rin me contou sobre o convidado ilustre em seu casamento, eu quase caí da cadeira quando soube que concordou em deixar Inuyasha participar! –ela sorriu de maneira divertida, do jeito sarcástico e maldoso de sempre. Já imaginava que ela não iria deixar passar essa...
-Que seja. –resmunguei incomodado.
-Ela consegue mesmo tudo de você, não é Sesshoumaru? –e por mais que parecesse uma fala repleta de provocação, daquela vez não fora. Kagura sorriu com sinceridade ao dizer tais palavras. E talvez, finalmente, conformada. –Ela consegue tudo de todos. Não é irritante? Em tão pouco tempo já disse tantos "sim" a ela... Enfim, de todo modo, fico contente por essa situação com Inuyasha. Talvez seja uma boa oportunidade, afinal.
-Hum! –franzi o cenho. –Está exagerando.
Ela somente riu e virou-se novamente para a varanda.
...
Um mês se passou.
Trinta dias de longa e enlouquecia convivência com aquela mulher dos olhos castanhos terra.
Logo nesse início, em um dia qualquer, em meio à noite, acordando por um mal dormido pela madrugada, me virei para ver se realmente a presença material dela existia. E quando a encontrei, respirei aliviado por saber que não sonhava enfim. Rin estava lá, inerte, enrolada nas cobertas, com os cabelos esvoaçados pelo travesseiro fofo, a boca entreaberta. Encolhida, deitada lateralmente afagando-se em seus próprios braços. Ela dormia de um jeito tão engraçado e calmo. Olhando-a daquele jeito, quem diria ser aquela mulher tão malcriada e sensual? Ali, no escuro, no breu da noite que nunca parecia ter fim, Rin parecia uma criança. E talvez ela fosse mesmo. Talvez eu quem fosse o errado de tê-la atraído para garras tão maldosas arraigadas de volúpia e desejo insano. Talvez ela fosse mesmo só uma garota, encantada por um relacionamento com um homem mais velho. A nossa diferença de idade, aquele abismo imaginário entre nós, aquilo me assombrava. Não temia mais o ridículo, porque eu a amava, e amo como nunca amei nada e nem ninguém na vida. Sua partida, a despedida de seu ser, feriria minha existência mortalmente de um jeito tão brutal que tenho certeza que me quebraria. Melhor enfrentar o grotesco a morte latente. Ela tinha dado sentido aos meus dias antes tão vazios e destemperados. Imaginar um mundo sem minha musa seria como viver num deserto, como comer gelo todos os dias em meio a Antártida. Já não seria mais capaz de viver sem sua presença tão cheia de energia. Ela tinha sempre um assunto para contar. E não calava, não importava minha falta de palavras ou meu cenho sério. Como gostava de falar aquela mulher... E como eu gostava de ouvir...
Passei a mão de leve pelos seus cabelos, tirando alguns fios teimosos de seu rosto. Levantei da cama. Amanheceria em breve. O relógio no criado mudo indicava ser dez para as cinco da manhã.
Saí do quarto, caminhei até a sala. Pela grande janela via a cidade adormecida, imersa a neblina que sempre se assomava naquela época do ano. Estávamos no meio do verão estadunidense. E mesmo que o calor da Califórnia quisesse aquecer aquele solo, demoraria um pouco para acontecer. Fazia frio ainda naquela madrugada tão densa que tentava a todo custo esconder as silhuetas dos prédios vizinhos. Mas, assim que os primeiros raios de sol timidamente começassem a ser lançados por entre aquele canto do mundo, possivelmente um céu azul, tão inesperado, apareceria.
Rin decidiu que queria se casar no Outono. No início de Novembro. Decidiu que seria melhor se casar próximo ao seu aniversário.
Trinta anos...
Eu precisava rir daquilo. Enquanto desabrochava, eu me afundava mais ainda nos meus terríveis quarenta e um. Ela só podia ser mesmo louca.
Balancei a cabeça a fim de espantar aqueles pensamentos. Decidi ir até a cozinha para preparar um café forte. O sono já havia me escapado. Em meio ao processo, Rin acabou surgindo em meu campo de visão. Estava com os cabelos bagunçados e com os olhos semicerrados. Abraçava o próprio corpo escondendo um pedaço da bela camisola de seda preta que lhe caia perfeitamente bem delineando seu corpo tão primoroso.
-Por que saiu da cama? –ela indagou deixando um longo bocejo escapar. –Katsuo acordou e eu não ouvi?
-Não. –respondi calmamente enquanto voltava a preparar o café. –Perdi o sono. Acordei num súbito.
-Mas está tão cedo, e tão frio. –ela se encolheu mais um pouco se aproximando mais de mim. Deixou mais um bocejo escapar quando finalmente me abraçou. –Hoje é domingo.
-Não queria ter lhe acordado. –falei correspondendo de leve ao seu abraço que mais parecia que se ancorava em mim, dormindo em pé.
-Não foi você. Tive um pesadelo, por isso acordei.
-Pesadelo?
Ela assentiu, ainda agarrada em mim.
-Um pesadelo muito insano na verdade... Sonhei que estávamos em uma floresta. Uma bem densa e escura. Você andava na minha frente. Vestia uma roupa estranha. Parecia que uma pele branca felpuda estava pendurada pelo seu ombro. –ela finalmente se afastou, e olhou para mim com seriedade. –Estava com cabelos longos, brancos. Era diferente, mas por algum motivo eu sabia que era você. Eu também me sentia diferente. Pelas mãos, parecia que era menor. Como se fossem mãos de uma criança.
Franzi o cenho.
-E por que diz que foi um pesadelo?
-Porque de repente você sumia. Desaparecia no escuro e eu ficava sozinha, correndo por aquela floresta que parecia não ter fim. Ouvia sons de lobos. Eles rosnavam, mas eu não os via. Sabia que estavam correndo pela mata, me caçando. Estava desesperada, e quando finalmente via uma luz, um ponto branco, que pensava ser você, na verdade era outra coisa. –ela engoliu a seco. Forçou um pouco a mente como se a imagem não estivesse tão clara. –Era um animal, mas ao mesmo tempo parecia um ser humano. Uma mistura de babuíno com humano. Um babuíno branco... E quando ele finalmente falou, é estranho dizer isso, mas soube que era Naraku.
-Foi só um sonho. –eu lhe disse afagando seus cabelos. –Está preocupada porque Naraku ainda não foi condenado.
-Não sei. –ela deu de ombros. –Parecia tão real. Como se fosse um espelho de outra vida.
-Eu não a teria abandonado na floresta, sozinha, com lobos. –disse-lhe seguramente.
-Eu sei que não. Foi só um sonho... –ela sorriu mesmo sem vontade. –Vamos para a cama, por favor. Preciso de você para dormir novamente. Daqui a pouco Katsuo deve acordar.
Rin me agarrou mais uma vez, um abraço apertado como se quisesse extrair todo o meu calor, e foi me puxando sem permitir que eu fosse contra a sua exigência. Tive que largar tudo para trás, ela não me deixaria. E no fundo, não queria que deixasse.
Cedi.
Emaranhamos-nos novamente em nossa cama. Ela aconchegou-se ao meu peito, repousando a cabeça em meu ombro e jogou sua perna direita por cima da minha.
-Não precisa me fazer seu prisioneiro. –eu sorri, mesmo que soubesse que ela não poderia ver.
-Eu te amo tanto, Senhor Sesshoumaru. –ela disse em suspiro, já com os olhos cerrados.
Daquela vez não havia ironia na sua voz quando proferiu meu nome com aquela tonalidade tão formal. Ao contrário, foi com muito respeito e carinho o que me surpreendeu.
-Eu lhe chamei assim no sonho. –ela sorriu ainda com os olhos fechados. –Não é justo você ser assim tão irresistível até mesmo em um universo paralelo.
-O que não é justo é sempre ter cabelos brancos...
-Não entende? Esse é o seu maior charme!
Balancei a cabeça em negativa.
-E tem que admitir que não sou somente eu que acho isso... –ela então abriu os olhos. E tentou em vão tentar me encarar. –Acha que não vejo os olhares femininos lhe comendo por onde passa? É um terror... E sei que aquela mocinha que trabalha com Joshua vive lhe dando cartãozinho...
Não pude deixar de segurar o sorriso.
-Está vendo! Quem dera que tivesse cabelos pretos...
...
A convivência com Rin acabara sendo mais fácil do que um dia eu poderia imaginar. E ao mesmo tempo surpreendente. Pois, ela tinha manias e vícios verdadeiramente peculiares.
Rin costumava fazer chás de variados sabores. Colocava um sache junto a outro na mesma xícara. Às vezes até três. E quase sempre se esquecia da caneca, tomando por vezes frio. Dava careta, mas logo assentia dando uma golada longa.
Cantarolava quando estava ansiosa, ou para controlar a irritação quando alguns de seus projetos precisavam ser consertados. Odiava ter que repassar todas as linhas e cálculos na busca incessante pelo erro, que às vezes tão discreto, a fazia se debruçar por horas a fio. Enquanto não achasse a solução, ela não conseguiria fazer mais nada da vida.
Seu lugar favorito era a varanda. E vez ou outra, a pegava desprevenida, tomando um café forte enquanto fumava um cigarro escondido ao apreciar algum livro da qual certamente não faria parte da minha estante. Eclética que só, lia desde os romances piegas, Best Sellers sem sal, a Max Weber.
Ela amava moletom. E quase sempre estava vestido um.
Odiava calça social e tênis de malhar. E apesar disso, tinha alguns estacionados no armário.
Aos domingos, ligava a televisão, jogava-se no sofá comigo e Katsuo para assistir aos mais inacreditáveis e idiotas programas. E claro, com a pipoca que mais tinha manteiga do que qualquer outra coisa.
E logo tentava compensar os sanduíches recheados, as fatias de tortas suculentas e os jantares regados de massa com suas corridas no parque pela noite. Tentou fazer yoga durante toda a vida, mas ela sempre fracassava. O que gostava mesmo era de colocar o fone no ouvido, e ouvir as suas barulhentas músicas enquanto corria fugazmente, fugindo de tudo e de nada.
Rin falava tanto, que até mesmo sozinha não deixava de dialogar. E, tinha certeza, que ela não percebia o hábito. Será que pensava que as palavras estavam recolhidas somente ao inconsciente? Não a recriminava de tal mania. Achava até engraçado. E às vezes, na confusão, não sabia se ela falava comigo ou consigo.
E ao mesmo tempo sabia ser silenciosa.
Rin não se incomodava em não quebrar o silêncio que vez ou outra surgia entre nós. Ela não via a necessidade de preencher o vazio quando ele se fazia necessário.
Dava para saber o seu humor pelas músicas que tocava no piano ao fim do dia.
Era bagunceira, territorialista e extremamente expansiva. Mas se desculpava todas as vezes por perceber que suas roupas não precisavam estar abarrotadas na minha gaveta de meias. E suas roupas íntimas juntos com as minhas gravatas.
Chorava com constância. Uma lágrima aqui e ali, pelo mal do mundo, pelas notícias terríveis. Assistia aos noticiários com pesar.
Toda vez que abria qualquer pote em conserva, cheirava antes de usar. Passava a mão no fundo das panelas para se certificar que estavam mesmo limpas. Lavava o garfo e os copos antes de qualquer coisa, mesmo que estes estivessem brilhando.
Havia tantas coisas...
Tanta beleza naquela sua simplicidade.
Poderia descrever com minúcia os tantos trejeitos que minha amada possui. E mesmo assim, ainda não seria o suficiente, pois a cada dia era uma nova descoberta. E a cada segundo mais minhas células se aprisionavam a ela.
...
Restava somente sete dias, uma única semana para o nosso casamento.
Joshua nos ofereceu sua mansão para que pudéssemos realizar a cerimônia. Em primeiro momento havia negado, mas ele pareceu extremamente ofendido com a minha recusa, e além do mais, Rin, com os olhos brilhando quando Olívia lhe ofereceu, já havia aceitado sem antes mesmo me consultar. Claro... Era desleal querer disputar a vista da ponte Golden Gate. Aquele lugar a tinha ganhado em segundos, desde a primeira vez que ela pisara lá.
Não rebati desde que nos foi oferecido. Primeiro por Rin, e segundo por Joshua. Ele estranhamente tinha se apegado a mim. E vi, em seus olhos, o quanto queria verdadeiramente nos agradar.
Nossos convidados iam chegando aos poucos ao longo da semana. Senhor Fujitaka foi o primeiro a surgir e a se instalar na casa de Kohaku. Maria, assim como a mulher de Inuyasha, Kagome, chegaram ao mesmo dia e se instalaram em nossa residência. O pai de Rin chegaria ao final da semana e logicamente ficaria também conosco... E entre tantos, os outros também foram se assentando em terras americanas.
Nossa casa, de repente, antes tão só nossa, ficou repleta de personalidades dispares.
E abarrotado de mulheres...
...
Na manhã de quinta-feira, Hiroshi me ligou. Estava no escritório com Joshua resolvendo algumas pendências quando o tilintar do meu celular quebrou a nossa conversa que já chegava mesmo ao final.
-Atenda, Sesshoumaru! –Joshua sorriu cordialmente. –Não se preocupe comigo.
-Com licença. –disse-lhe igualmente cordial e atendi ao chamado inusitado de Hiroshi.
Não negava nunca suas chamadas. Hiroshi tinha um faro aguçado e devia grande parte de meus acordos milionários a ele.
-Hiroshi? –chamei-o do outro lado da linha.
-Sesshoumaru, está podendo falar? –ele indagou comedido.
-Sim.
-Ótimo, serei breve. É só para avisar que acabei de chegar a São Francisco. Queria saber se poderíamos nos encontrar hoje pela noite. Se gostaria de jantar comigo. Tenho uns assuntos a discutir da nossa sociedade.
-Hoje a noite? –pensei mentalmente se havia algum compromisso com Rin, mas descartei a possibilidade, ela já estava com muitas companhias. –Qual lugar?
-Pensei em passar mais tarde aí e depois decidimos com calma o local.
-Está certo.
-Fale com Joshua para ir também. Já faz tempo que não o vejo! Até mais tarde.
Desliguei o breve telefonema, e voltei-me para Joshua que parecia estranhamente recheado de expectativa.
-Era Hiroshi. –lhe contei achando que era isso que ele gostaria de saber. –Pediu para que fôssemos jantar com ele hoje a noite. Não precisa ir se tiver algum compromisso.
-Não, eu não tenho! –ele acabou respondendo mais rápido do que o normal, e ao perceber a sua euforia peculiar, arranhou a garganta contendo-se. –Eu posso ir com vocês sim. Será ótimo.
Franzi o cenho. Joshua às vezes era um homem um tanto quanto esquisito. Mas naquele dia ele estava surpreendentemente inquieto.
...
No início da noite Hiroshi apareceu. Tinha contratado um serviço de chofer, desfilava pelas ruas com uma Mercedes-Benz que chegava a brilhar e a refletir nossos rostos de tão polida e bem tratada. Um negrume intenso capaz de engolir.
Ele desceu do carro para nos cumprimentar. Era o mesmo homem esguio e discreto que estava acostumado. Mas dessa vez tinha os cabelos penteados para trás, uma cabeleira vasta, escura. Usava um terno cinza e uma gravata azul marinho.
-Sesshoumaru! Joshua! –ele falou animadamente enquanto saía do carro com um sorriso largo no rosto.
-Quanto tempo, meu caro. –Joshua falou apertando a mão direita de Hiroshi, mas o fez com as suas duas mãos. Franzi o cenho de novo. Joshua parecia fora de órbita.
-Não precisava ter se dado ao trabalho de vir até aqui. –disse dando um passo a frente.
-Não foi trabalho nenhum. –ele sorriu voltando-se para mim. –Era caminho de todo modo.
-Caminho para onde? Já decidiu aonde iremos? –arqueei uma única sobrancelha.
Joshua deu uma cotovelada disfarçada no flanco direito de Hiroshi que se retesou por um segundo.
-Acredito que Hiroshi queira ir até Nob Hill! –Joshua falou tentando corrigir algo da qual não fazia ideia.
-Que seja. –falei passando meus olhos pelos dois de maneira desconfiada. –Então o que estamos esperando?
...
Somente quando adentramos ao local que pude entender do que de fato se tratava.
Foi só ver a cara gorda de Tomio na frente do recinto que girei os olhos.
Era óbvio que eles estavam me levando para um prostíbulo de luxo.
Tomio, meu outro sócio, estava entalado em seu terno azul marinho, estava mais gordo desde a última vez que o havia encontrado. O charuto, de praxe, parecia fazer parte de seu corpo. O cheiro do fumo brigava com o do perfume exageradamente doce que bailava no ar de forma despretensiosa.
O bordel, com luzes roxas e uma música baixa me fizeram sorrir incrédulo. Fui encaminhado para uma sala dentro do local infame, onde ficaríamos só nós quatro. Um ambiente VIP e extremamente extravagante, do jeito que Tomio gostava.
-Não pensou mesmo que eu iria deixar você se casar sem uma diversão antes! –Tomio deu uma risada alta e bateu nas minhas costas.
-Você sabia de tudo. –olhei para Joshua. –Por isso estava se comportando daquele jeito o dia inteiro.
-Desculpe, por omitir, Sesshoumaru. –Joshua sorriu sem jeito, coçando a nuca. –Mas os rapazes queriam fazer uma surpresa.
-Tomio achou que se você soubesse não iria querer vir, e se fosse ele a ligar, você desconfiaria, então acabei sendo encarregado da missão. – Hiroshi sorriu, dando de ombros. –Mas não estou arrependido.
-Ora e nem tem por que! Desde quando companhia de mulheres belas, amigos importantes e um bom whisky pode ser motivo para se desculpar. –Tomio deu uma piscadela para mim enquanto a fumaça de seu charuto envolvia todo o ambiente.
-Está certo. –assenti.
-Cadê as mulheres desse lugar, Tomio? –Hiroshi riu brevemente implicando com o outro.
Mas, Tomio não conseguiu responder a tempo, pois logo apareceram quatro mulheres em nosso ambiente reservado usando lingeries de renda. Uma explosão de corpos perfeitos embutidos em cintas ligas, bodys e corseletes. Mulheres jovens, com belezas potencialmente peculiares.
-Estamos aqui! –disse a loira, dos olhos tão claros como o céu da manhã, vestida de corselete verde musgo, com uma voz animada.
E, soube, a partir do carrinho que chegou logo em seguida, recheada das inúmeras bebidas, que a noite seria mais longa do que eu havia previsto.
...
RIN:
Era estranho pensar em como faltava tão pouco tempo para o meu casamento.
Tinha que rir toda vez que proferia tal palavra: Ca-sa-men-to!
A palavra, por si só, soava embaraçosa aos meus ouvidos tão ávidos.
Quem poderia imaginar que um dia selaria tamanho acordo...
Será que eu pregava uma peça em mim mesma? Pois nem nos mais insanos sonhos podia me imaginar assinalando tamanho contrato de comprometimento com alguém. Eu, tão acostumada com as idas e vindas do meu relacionamento conturbado com Kohaku, tendo tantas pessoas entrando e saindo de nossa relação, não conseguia ainda digerir meus próximos passos.
Eu iria me casar...
E não seria com Kohaku, seria com Sesshoumaru.
Um homem, que de repente, sem mais nem menos adentrou a minha vida. Que chegou como um vendaval, um tornado! Arrebentando tudo que eu havia construído, com tudo que acreditava. Nosso amor era como um tsunami, tão belo e avassalador. Um movimento natural, cíclico embaixo do oceano, que quando trazido a tona arrasava o que quer que tenha pela frente.
Quantos destroços não tivemos que catar da nossa própria relação? Quantos cacos, largados ao relento, não somente de nós, mas também dos outros, não tínhamos que juntar? E mesmo assim, mesmo com tamanha intensidade, voracidade, era impossível deixar de sentir. De querer que aquilo acabasse.
Só em pensar nele, um frio na espinha percorria o meu corpo, e me fazia querer voltar e voltar e voltar. Uma, duas, três, dez, quarenta, quantas vezes fossem possíveis. Quando me dava conta, já estava a discar seu número, a me atirar incessantemente em seus braços, como a adolescente que um dia eu fora.
E, naquele momento, a poucos dias do nosso casamento, parecia que ainda andava nas nuvens, completamente fora de órbita, sem acreditar que aquilo realmente iria acontecer.
Tive um pouco de receio de como seria quando começássemos a morar juntos. Mas essa incerteza não tardou a se dissipar. Viver com ele era de certo algo muito simples e uma experiência incrível.
Sesshoumaru acordava sempre muito cedo, não gostava de ficar na cama até tarde, nem mesmo nos finais de semana ou feriados. Mas, mesmo quando se levantava antes do sol nascer, fazia todo o esforço possível para não me acordar.
Vê-lo a toa, seria um evento completamente inédito. Meu companheiro estava sempre preenchendo a mente. Sempre em movimento constante, como se parar fosse um martírio terrível da qual ele não pudesse suportar.
Comia muito pouco para um homem do seu tamanho. E, toda vez que possível, me esperava para que pudéssemos realizar as refeições juntos.
Lia o jornal todo o dia, gostava do café forte e sem qualquer adição de açúcar.
Devorava livros e mais livros sobre economia, mercado, bolsa de valores e novidades do setor financeiro. Contudo, não os comentava comigo. Guardava para si, como quem engole um tesouro. Talvez porque ele soubesse que aquilo não me atraía. Ele não gostava de me aborrecer e tampouco de ser tedioso. Se havia algo no mundo da qual o horrorizava era preencher alguém de tédio.
Exercitava-se sempre que podia. Mas não era adepto ao ar livre. Era vaidoso com o corpo, e prezava por estar sempre em forma. O que realmente ele conseguia com precisão.
Não gostava da maior parte dos programas que assistia, porém os via comigo, mesmo que fosse para resmungar o quanto eu era idiota por dar ibope aquilo.
Tinha uma coleção de gravatas, meias e perfumes.
Extremamente organizado e rígido com as coisas e, no entanto, não se aborrecia pelos meus desleixos e nem me criticava por eu ser quem era. Ao contrário, sorria irônico para mim, e me deixava ainda mais apaixonada por ele...
...
No final da tarde de quinta-feira, todas as mulheres resolveram se reunir em minha casa. Maria e Kagome já estavam lá desde a terça-feira. Chegaram depois Olivia e Kagura, quase que ao mesmo tempo, como se tivessem combinado.
Esparramamo-nos pelo chão da sala, sobre o tapete felpudo que tanto amava. Havia preparado alguns canapés, pastas e torradas. Kagome se ofereceu para fazer alguns drinks o que teve o consentimento de todas extremamente curiosas não somente pelos seus dotes como também pela história de Inuyasha.
-Daiquiri e Mojito! –Kagome trouxe todas as bebidas na bandeja e repousou na minha mesinha de centro.
-Nossa, parece estar ótimo! –Maria sorriu agarrando uma taça de Daiquiri.
-Onde foi que aprendeu a fazer drinks assim? –Olívia sorriu gentilmente para ela, com aquela voz educada e amena de sempre.
-Ah, não é nada de mais! –Kagome sorriu sem jeito. –É um hobbie só...
-Está uma delícia! –falei após provar o Mojito.
-Obrigada! –ela sorriu fazendo uma breve reverência.
-E Inuyasha, quando aparece? –Kagura indagou, tentando esconder o sorriso no canto dos lábios, o que foi completamente em vão.
-Hm. –Kagome ajeitou-se em baixo das próprias pernas enquanto bebia um gole de seu Daiquiri. –Ele não pretendia vir, mas eu o convenci a aparecer ao menos no dia do casamento. Você entende, não é Rin?
-Claro! Você fez muito bem, Kagome. –eu sorri grata por ela. –É muito importante a presença de vocês para mim. E, afinal de contas, Inuyasha precisa conhecer seu sobrinho, não é mesmo? Quer dizer, seus sobrinhos! São três afinal.
-É. –Kagome riu contida. –Uma pena que eles não se dêem bem.
-Talvez isso seja um passo para as coisas irem mudando. –Olívia disse recostando as costas no sofá atrás de si.
-HUM! –Kagura acabou deixando escapar.
-Bom, de todo modo, ele vai aparecer! –Kagome sorriu novamente um pouco sem graça.
-E está animada para o casamento, Rin? –Maria indagou chegando o corpo um pouco para frente, repousando a taça novamente a mesa.
-Estou, estou contente. –assenti. –E surpresa por ter conseguido ajeitar tudo a tempo, se não fosse por Kagura e Olívia certamente eu estaria perdida.
-Estaria mesmo! –Kagura concordou tirando sorrisos em conjunto.
-Rin, estava pensando, nós temos que fazer alguma coisa antes do casamento! –Kagome falou de maneira animada. –Temos que providenciar a sua despedida de solteira! Não se casa todo o dia, quer dizer... Algumas pessoas até se casam, mas não você...
-Ah, é mesmo! –Olívia acabou falando um pouco mais alto do que normalmente faz. Bateu com as duas mãos como se tivesse se lembrado de algo importantíssimo. –Eu tinha me esquecido.
-O que foi, Olívia? –indaguei achando engraçada aquela sua postura peculiar.
-Joshua me contou que eles iriam levar Sesshoumaru para uma despedida de solteiro. Se não me engano dois dos sócios de Sesshoumaru e Joshua estavam planejando isso na semana.
-Sesshoumaru? Numa despedida de solteiro? –eu tive que dar uma gargalhada. –Está falando sério?
-Sim! Eu acabei de lembrar!
-Ah, Olívia, e o que estamos fazendo aqui então feito donas de casa? –Kagura girou os olhos irritada. –Esses homens se divertindo e a gente jogada aqui nessa sala, comendo e fofocando como virgens de dezoito anos.
-Desculpe! –Olívia deu um sorriso amarelo. –Eu já tinha me esquecido disso.
-Francamente... Como se esquece de uma despedida de solteiro?
-Sei lá, eu não tive uma... –Olívia deu de ombros.
-Ah, então eu não posso aceitar que estejamos dentro de casa. Temos que sair imediatamente. –Kagome ergueu-se no mesmo instante.
-E para onde iremos? –Maria indagou rindo da situação.
-Para qualquer boate dessa droga dessa cidade. –Kagura ergueu a taça no ar. –Quem está comigo?
...
O que era para ser uma singela reunião transformou-se numa noite sem fim. Devemos ter ido a pelo menos três boates naquela noite. Acho que, nem em minha fase mais agitada, fiquei tanto tempo em pé, trocando as pernas numa dança maluca, ou correndo atrás de um novo local para me divertir.
Mas, mesmo com aquele som tão alto, com os corpos se balançando ao ritmo daquelas músicas populares, não conseguia me desligar totalmente da realidade. Nem eu, e tampouco Kagura e Olívia, que a todo instante olhavam o celular para se certificarem dos filhos. Ser mãe era realmente uma sina. E, apesar das responsabilidades maternas, fazia tempo que não me divertia tanto como naquela noite ao lado de mulheres tão incríveis que tive o prazer de conhecer ao longo da minha caminhada.
...
Em meio a madrugada, decidi que já estava mais do que na hora de voltar. Apesar de estar bambeando pelo álcool excessivo.
Voltei sozinha. Maria e Kagome resolveram continuar. Não as culpava. Em outras circunstâncias faria o mesmo.
Quando cheguei em casa, tirei o salto e joguei de qualquer jeito no canto da sala. Estava completamente exausta e levemente bêbada. Só não me joguei no sofá e emaranhei-me as fofas almofadas porque Sesshoumaru chegou logo em seguida.
Nossos olhos trôpegos e surpresos se encontraram num baque único.
O olhei de cima a baixo, o terno amarrotado, a gravata torta. Não combinava com ele, sempre tão cuidadoso. Mas claramente, eu também não deveria estar impressionante.
-Então finalmente chegou da sua despedida. –sorri irônica para ele, bambeie por um segundo e ele somente balançou a cabeça em negativa e me apartou, segurando meu braço.
-Parece que você também.
Dei um passo à frente. Colei meu corpo com o dele desastradamente, o empurrando sem intenção contra a porta que fez um barulho alto com o nosso impacto. Então, na ponta dos pés, cheirei seu colarinho. Ele se retesou involuntariamente com o meu toque.
-Está com um cheiro forte, doce. –disse separando-me um pouco de seu corpo. A mão dele já estava emaranhada em minha cintura, impedindo-me um afastamento maior.
-Estava num prostíbulo. –ele falou sem delongas, seco, de uma vez só. Sesshoumaru era mestre em fazer aquilo, em não se intimidar. –Tomio reservou um. E os outros me levaram até lá.
-Previsível. –girei os olhos.
-Eu não sabia de nada, eles não haviam me contado.
-Espero que não tenha feito bom proveito. –arqueei a sobrancelha em desaprovação.
-Sabe que não pago por sexo. –ele falou seriamente, puxando o cós da minha saia alta me impedindo de sair de perto do seu corpo.
-Nem mesmo na sua despedida de solteiro? –rebati com um sorriso irônico no canto dos lábios. –Nem mesmo que tivesse sido um presente?
-Sabe que não.
Sesshoumaru colocou novamente a mão em minhas costas. Dessa vez, por dentro da blusa, passou a ponta dos dedos com cuidado, causando-me um arrepio involuntário. Logo, abaixou a cabeça e fez a mesma coisa que eu anteriormente. Cheirou a ponta das minhas duas orelhas antes de enrolar com a mão uma parte do meu cabelo.
-O que está fazendo? –eu disse, perdendo um pouco a força e o controle sobre o meu corpo.
-Sentindo o seu cheiro. –ele falou baixo, na ponta da minha orelha. –Eu também quero confirmar.
Eu ri.
-Não vai encontrar nada do que já não saiba.
E foi então que ele beijou meus lábios com aquela voracidade que só ele conseguia fazer. Um beijo longo, no escuro silencioso daquela sala, com as luzes baixas do abajur. Num movimento rápido, inverteu nossas posições, trocou de lugar comigo, e agora quem sentia a porta fria sobre as costas era eu.
Passeava com suas mãos sobre os meus contornos com precisão em meus pontos mais sensíveis. Era impressionante como Sesshoumaru sabia de cor todos os meus toques favoritos.
-Temos que parar... –sorri entre seus beijos com a respiração pesada tentando, sem sucesso, o afastar de mim. –A Alexia está aqui, e as meninas podem chegar a qualquer minuto.
-Você ainda vai me enlouquecer. –ele disse com a voz ofegante encostando sua testa na minha sem tirar as mãos por dentro da minha blusa que estava quase completamente aberta.
Sem que eu pudesse protestar, Sesshoumaru pegou minha mão e foi me puxando até o nosso quarto.
...
CONTINUA...
NOTA:
Olá, pessoas mais lindas desse mundo!
Chegamos ao fim de mais um capítulo e mais perto do que nunca do final dessa fic. Era para nesse capítulo eles se casarem, mas pensei, poxa eles tinham que ter uma festinha antes de selar seus votos, não é mesmo? Kkkk
Espero que tenham gostado do capítulo. E que continuem a me acompanhar. É muito importante a presença de vocês nessa trajetória.
Obrigada pelo imenso carinho que sempre recebo pelo site como pelo inbox.
Um grande beijo e até o próximo.
