Capítulo 33 – Sim.
RIN:
Já era sábado afinal. O dia do meu casamento com Sesshoumaru.
O céu era de um azul cerúleo das quais nuvens de algodão, com inveja, teimavam em querer manchar. Mas, ao longo do dia, elas tenderam a se dissipar por completo, o vento, por fim, contribuiu para um cenário perfeito.
Nos casaríamos pela tarde. Era Outono, início da minha estação favorita. Eu amava o clima daquela cidade naquela época do ano, e mais ainda, o entardecer generoso. Vendo o sol desmaiando por entre aquelas construções deslumbrantes. Meu casamento, não poderia ser em ocasião diferente.
Havíamos ido bem cedo para a mansão de Olívia e Joshua. Katsuo ainda estava sonolento quando saímos de casa, e creio que se pudesse, teria me dado uma bronca por tê-lo tirado de sua rotina tão pontual. Com meu filho repousando em meus ombros, dei uma espiada na arrumação e sorri contente ao ver o jardim exatamente da maneira que havíamos planejado. A equipe de decoração dava os últimos ajustes na hora em que chegamos, mas para mim, naquele momento, tudo já se encontrava perfeito.
O jardim estava enfeitado com diversas rosas chás, brancas e lilás. Cadeiras brancas enfileiradas em frente ao púlpito de madeira crua, coberto por um pergolado enfeitado com cortinas de seda branca e flores iguais as que enfeitavam o ambiente.
No canto esquerdo, um pouco afastado, estava a mesa repleta de doces com um bolo rústico de três andares ao centro. Nas extremidades arranjos florais enormes, com muita delicadeza e sofisticação. Lanternas campestres pendiam por cima do local, o que daria um efeito incrível quando começasse a escurecer.
-O que achou? –Olívia sorriu aparecendo ao nosso lado, tirando-nos do transe involuntário.
-Está perfeito. –eu lhe sorri de volta saindo de meus pensamentos. –Obrigada por ceder a sua casa para nós.
-Imagina, eu e Joshua amamos um evento. –ela riu comedida. –Adoramos uma festa!
-Mesmo assim, foi muita generosidade. –Sesshoumaru falou assentindo respeitosamente.
-Não foi nada. Foi de coração, verdadeiramente. –ela assentiu de volta.
-Ah! Já chegaram! –a voz alegre de Joshua irrompeu o recinto fazendo com que nos virássemos para trás.
-Acabamos de chegar. –Sesshoumaru respondeu.
-Bom dia, Joshua! –lhe disse curvando-me um pouco em cumprimento.
-Olha, pensem bem, ainda dá tempo de fugir! Eu dou cobertura a qualquer um dos dois. –ele nos disse de forma brincalhona.
Olívia o olhou de rabo de olho, o repreendendo daquela maneira tão sutil, típica de sua personalidade.
-Estou só brincando, querida. –ele sorriu sem graça, coçando a nuca e a abraçando em seguida lateralmente.
-Sesshoumaru não conseguiria escapar dessa nem se ele quisesse. –sorri dando uma piscadela para Joshua. –Agora já é tarde para ele e para mim.
-Receio que esteja certa. –Sesshoumaru sorriu irônico de volta, repousando a mão em meu ombro direito.
...
Fui encaminhada por Olívia até uma suíte na mansão, ficava um pouco afastada do jardim, o que segundo ela me daria paz para poder me arrumar a vontade sem olhares curiosos. Claro que não faria isso sozinha, até porque seria um desastre! Uma equipe de maquiadores e cabeleireiros chegariam em instantes para poder me produzirem de maneira adequada. Céus, como eu estava me sentindo engraçada por estar sendo o centro das atenções.
Alexia chegou cinco minutos depois do que nós na mansão. Pareceu um pouco tímida demais. Deu quatro batidas na porta antes de entrar, e foi fazendo com uma cautela exacerbada que me fez rir.
-O que aconteceu, Alexia? –disse a ela quando finalmente nossos olhos se encontraram.
-Ai que alívio encontrar a senhora. –ela suspirou fechando a porta atrás de si. –Eu já errei umas duas portas, a sorte é que não encontrei ninguém. Que vergonha que iria ser, imagine só! Desculpe a demora.
-Você não demorou, chegamos agora pouco. –sorri para ela a chamando com a mão direita para que se aproximasse.
Alexia foi com passos rápidos até mim. Deu uma olhada de soslaio para Katsuo que estava deitado em um cercadinho improvisado, agarrado ao seu ursinho favorito. Meu filho definitivamente havia puxado a quietude de Sesshoumaru.
-Então ele ainda está dormindo. –ela sorriu de maneira amena e sincera. –Como ele é bonzinho.
-Ele é... Apesar de que hoje acordou um pouco mal humorado, mas já passou. –levantei da cadeira, e fui até o sofá onde peguei uma capa de couro fechada com um zíper. –Mas eu não te chamei agora por causa de Katsuo. Queria te dar uma coisa, e não precisa fingir se não gostar, eu não sou muito sentimental com essas coisas.
-Dar algo para mim? –ela gaguejou apontando para si mesma.
-E tem outra Alexia na sala? –arqueei uma única sobrancelha brincando com ela. –Claro que é para você! Toma.
Alexia pegou o embrulho com o maior cuidado, como se estivesse emaranhando em suas mãos uma bomba nuclear da qual seria fatídico se viesse a cair ao chão. Puxou o zíper com cuidado da sacola e ficou boquiaberta ao retirar um vestido de festa. Havia escolhido para ela um vestido azul acinzentado bem clarinho, um longo, com bordados delicados na parte do colo.
Alexia ficou parada durante alguns longos segundos, olhando do vestido para mim, de mim para o vestido, como quem tenta buscar alguma relação. Logo parou os olhos na roupa, e calou. Passou a mão no tecido e eu tive que despertá-la daquele devaneio.
-O que achou? –indaguei curiosa.
-É... É realmente incrível. É lindo. –ela falou tentando buscar as palavras certas. E voltou a mim com os olhos comovidos. –A senhora tem certeza de que é mesmo para mim? Achei que usaria um uniforme.
-Uniforme? –tive que rir. –Você nunca usou uniforme, não seria agora no meu casamento que iria usar.
Alexia colocou o vestido na frente do corpo, com uma comovente emoção. E de repente, acabou por sorrir satisfeita por aquele presente tão pequeno que dera a ela. Postou-se a frente do espelho gigante e me olhou através do cristalino plano.
-Muito obrigada, senhora Watanabe. Eu nem tenho como agradecê-la por isso, não tenho nem palavras.
-Só de ter ficado feliz, já me deixa satisfeita. –sorri de forma carinhosa a ela. –Eu realmente devo muito a você. É tão doce e paciente com Katsuo, e está sempre sorrindo, sempre disposta a me ajudar. Temos muita sorte de ter alguém como você em nossas vidas. E, no que depender de mim, estarei sempre disposta a ajudá-la.
Alexia sorriu com os olhos marejados, e finalmente virou-se a mim.
-Faço com muito amor o meu trabalho, e gosto muito da senhora e do pequenino. Sou muito feliz trabalhando na casa da senhora.
-Sabe que nunca precisou me tratar com tanta formalidade, apesar de insistir para fazê-lo. Mas gostaria, mesmo que a seu contragosto, que me chamasse só de Rin. Afinal de contas, você é mais velha do que eu, não é verdade? –dei uma careta a ela. –Seria meu presente de casamento, tudo bem?
-Claro, senh... Rin! –ela riu de si mesma e balançou a cabeça em negativa.
...
De repente, depois de alguns instantes após o momento com Alexia, havia tanta gente dentro do quarto, que a frase "se arrumar em paz" perdeu completamente o sentido. Era tanta gente cuidando de mim, me preparando, que por um momento achei que estivesse mergulhado em um déjà-vu, repetindo aquele dia em que tinha me proposto a posar para a Vogue. Eram tantos detalhes que me fizeram ficar tonta.
Claramente, as outras não ficaram de fora. Olívia, Kagura, Kagome e Maria também foram para lá, e se arrumaram junto comigo e Alexia. Kagome havia levado duas garrafas de champanhe, que entre risadas e brincadeiras bebemos por completo.
Por entre roupões brancos, babyliss, unhas pintadas e maquiagens feitas, coexistiam naquele espaço uma harmonia deliciosa. Era tão grata por aquilo, por poder dividir tantas emoções com mulheres tão ímpares e incríveis. Tiramos tantas fotos que não foram ensaiadas, das nossas próprias câmeras e celulares. Sorrisos sinceros, caretas erradas, nossos filhos rindo outrora chorando por nosso carinho. Não poderia estar mais feliz...
E então, pouco a pouco, à hora do casamento foi se aproximando, e já não restava mais ninguém além de mim no quarto. Imersa ao silêncio, pude contemplar minha própria imagem refletida no enorme espelho no coração da suíte.
O vestido que havia escolhido, apesar de protestos de Kagura, que achava que precisava de uma calda longa e véu, optei por algo na contramão. Elegi um vestido branco rendado num estilo boho que ficava um pouco justo ao corpo, de mangas cumpridas e costa nua. Havia transparências em pontos bastante pontuais, um contraste entre o delicado e o sensual, obviamente na medida certa.
-Ainda da tempo de dar um beijo na noiva?
Aquela voz masculina irrompeu o cômodo me tirando de uma só vez dos meus pensamentos. Virei para trás com urgência e pude ver com clareza a imagem do meu pai.
Meu pai estava montado em seu habitual terno e gravata. Nossos olhos se encontraram numa profusão de sentimentalismos. Não éramos muito de discorrermos sobre tais eventualidades. Nós, apesar de sempre tão silenciosos um com o outro, por um instante estranhamos a falta de palavras que nos assomou. E, como de costume, entendi pelos seus olhos tudo que ele queria me dizer. Aquilo já bastava. Ele sabia.
-Está linda, Rin. –ele disse finalmente se aproximando de mim, pegando em meus braços com os olhos repletos de emoção. Analisando-me da cabeça aos pés.
-Que bom chegou. –sorri o abraçando. –Por que não veio antes conforme o combinado? Ficamos esperando.
Ele afagou minhas costas, e logo se voltou para mim um pouco sem jeito.
-Não queria atrapalhar. E acho que já tinham visitas de mais na casa. Só iria perturbar.
-Besteira! Claro que não iria atrapalhar. –sorri sincera. –Estava sentindo a sua falta.
Ele somente sorriu. Pegou em minhas mãos e as beijou graciosamente.
-Sua mãe teria orgulho, e tenho certeza que estaria chorando emocionada por vê-la nesse dia tão importante.
Fazia tempo que não falávamos sobre ela, porque eu sempre soube o quanto era doloroso para ele proferir tais palavras e se remeter a lembranças tão antigas. Já fazia anos desde que ela se fora, anos duros das quais nos causavam dores coléricas. Mas naquele momento, vê-lo falar dela de maneira tão suave, foi como se fosse óbvio. Não seríamos capazes de coibir sua existência. Não naquele dia.
Meus olhos se rechearam de lágrimas, mas elas não caíram.
-Queria que ela estivesse aqui. –disse por fim. Num longo suspiro.
-Ela está. –meu pai sorriu com os olhos igualmente marejados, que também não vazaram, ficaram ali, uma emoção contida, abafada.
-Estou feliz que esteja aqui, pai. Que esteja conosco.
-Não poderia perder um evento como esse não é verdade? –ele sorriu em deboche. – E não é todo dia que se casa uma filha, e principalmente, não é todo dia que se casa uma Rin Watanabe.
-Não vou lhe contrariar porque realmente nem eu mesma ainda estou acreditando. –ri juntamente a ele. –Sesshoumaru, São Francisco, filho, casamento... Foi tudo tão rápido! Às vezes me pergunto se isso tudo é mesmo real.
-Não me assombra o fato do casamento, ou do meu neto, isso faz parte da vida, e sabia que mais cedo ou mais tarde, isso lhe aconteceria. O que nunca poderia supor era com o escolhido. –meu pai, daquele jeito desconsertado e sincero, não deixaria aquele comentário passar. –Mas o que importa é que está feliz.
-Eu amo Sesshoumaru, pai. –disse de uma vez, com um semblante firme, e com a maior das certezas. –Amo de verdade... Já não consigo mais imaginar a minha vida sem ele.
-Eu sei. –meu pai sorriu assentindo, e tratou de mudar o rumo da conversa. –Os convidados já estão chegando. O jardim já está bem cheio.
-Kohaku e o senhor Fujitaka já chegaram?
-Já. Viemos juntos. Eu fui direto para a casa Kohaku assim que cheguei... Achei que ele estaria deprimido, mas ele parecia bem. Na verdade, estranhamente ansioso...
Sorri. Sabia que era por causa de Maria.
Quando falaria a respeito para meu pai, Olívia adentrou o cômodo com cuidado. Tinha um sorriso delicado no canto dos lábios, e com a voz afável prosseguiu.
-Com licença, eu só vim avisar que o Juiz já chegou.
-Então já está na hora... –meu pai sorriu para mim e um frio estranho percorreu a minha espinha.
...
Minha chegada ao jardim foi anunciada sutilmente pelos músicos, meu pai se postou ao meu lado como de praxe, com o braço direito emaranhado ao meu, e eu me senti em um filme. Estaria vivendo o American Dream?
O crepúsculo arrebatador quase me fez perder o ar, os tons alaranjados e rosados brigando num cerúleo que pouco a pouco ia se despedindo. Uma explosão de cores fantásticas banhando o jardim que parecia maior do que eu me lembrava. O cheiro da grama fresca e das rosas espalhadas fez com que me lembrasse da infância, dos domingos quentes em que me jogava na terra emaranhando até o último fio de cabelo de capim.
E quando pensei que retomaria o ar perdido dos meus pulmões, tudo voltou a ficar rarefeito quando finalmente o vi próximo ao altar, com aquele olhar tão intenso como o sol. Os olhos âmbar de Sesshoumaru queimavam, ardiam. Era como mergulhar no ouro denso. Ele estava parado, com a mão direita enfiada no bolso que logo foi deslizando para fora assim que me avistou. Boquiaberto, por um único segundo, e logo depois contido, naquela compostura que me tirava do sério.
Andava ao seu encontro na certeza de que não haveria qualquer outro caminho possível. Pois todos me levariam até ali, a aquele momento. A ele.
Olhei de soslaio para os convidados, procurando entremeio os meus rostos favoritos que estavam ali com um sorriso largo. Encorajando a algo que já estava mais do que determinado.
Sorri contente.
E só quando cheguei a sua frente, onde parecia que o mundo todo tinha parado que percebi que havia deixado uma lágrima de emoção escorrer de meu olho. E somente me dei conta porque Sesshoumaru, com o seu polegar, a limpou com carinho, e ainda com a mão repousada ao meu rosto, disse num sussurro que só eu e meu pai poderíamos ter distinguido.
-Você é como uma visão.
Sorri mais uma vez junto ao meu pai que finalmente me soltou e deu um firme aperto de mão em Sesshoumaru que correspondeu assentindo.
Embaixo do pergolado, de frente ao púlpito da qual o Juiz jazia em nossa frente não demorou muito a tudo ser concretizado. Sesshoumaru não perderia a sua praticidade e eu a minha falta de sensibilidade com questões sobrenaturais. Como não optamos por um casamento religioso, não houve muito que ser dito pelo homem a nossa frente. Apesar de ter feito um belo discurso sobre união, respeito e amor. Disse ele, antes de assinarmos os papéis.
-A vida pode ser mais simples do que se imagina. A vida a dois pode ser duas vezes mais simples ainda. Isso é, quando se entende o ser simplório. A singularidade é a essência de tudo. Algumas pessoas acreditam que o casamento é o encontro da outra metade, da enfim completude de um ser. Mas o êxtase, o real êxtase, só vem quando se já é completo. Quando não se busca uma metade, quando não se tenta esvair a solidão. A completude é. Ela essencialmente é. Não precisamos de outro para completar e sim complementar o que já está perfeito. Pois somos inteiros, singulares e únicos. Esta Rin é uma, e este Sesshoumaru é outro. Dois seres que não buscavam nada no outro, e que mesmo assim encontraram em suas diferenças e semelhanças um sentimento arrebatador. E que, sem procurar qualquer coisa, e sem esperar absolutamente nada, resolveram firmar não um nó, mas sim um laço da qual une e não aperta. Um laço eterno que o que os prende é tão somente a liberdade. Que essa bela união, sendo realizada num dia esplendoroso como o de hoje, seja tão leve e voraz como o voo de uma gaivota madura. Esse juiz deseja plenitude ao mais novo casal e que o amor sempre prevaleça acima de qualquer coisa.
Aquelas palavras me tocaram, e pareceram realmente ser feitas para nós. Pois, afinal o que nós dois éramos se não um emaranhado de unicidade? Assenti em concordância e agradeci em silêncio juntamente a Sesshoumaru por aquelas palavras delicadas e gentis.
Finalmente colocamos as alianças, e já com os papéis assinados deixava Rin Watanabe para trás e passava a ser Rin Taishou. Podia ter me beliscado para ver se não sonhava, mas Sesshoumaru fez diferente. Colou nossos lábios como manda o figurino ao mesmo tempo em que os aplausos dos convidados ressoaram juntamente com a música e os fogos de artifícios.
...
Passada uma hora de festa, agradeci aos céus por termos convidado poucas pessoas e por estarmos há tantos quilômetros de distância de casa. Sesshoumaru não brincava na hora de escolher as pessoas certas para os eventos, mesmo que este fosse o seu casamento. Meu eterno companheiro não pararia nunca. Sua ambição era definitivamente a sua marca registrada.
Em meio a uma conversa com os principais sócios de Sesshoumaru, Tomio, Hiroshi e Joshua, desvencilhei o olhar por alguns instantes da conversa que agora já havia emergido num mar de tédio. Foi quando avistei Kohaku ao lado do senhor Fujitaka, quando nossos olhares se cruzaram sorri aliviada.
-Com licença. –falei aos da roda. –Há algumas pessoas que preciso cumprimentar.
Sesshoumaru assentiu assim como os demais, e em passos rápidos finalmente consegui me livrar de uma reunião improvisada.
Senhor Fujitaka não economizou no longo abraço apertado assim que fui ao seu encontro. Afagou as minhas costas com carinho antes de finalmente me soltar parcialmente. Ainda segurando meus braços, deu uma olhada em mim da cabeça aos pés, e com os olhos encantados voltou-se a mim, deixando-me finalmente livre de seu toque.
-Está parecendo uma princesa, Rin. Está linda! Como se tivesse saído de um filme.
-Bom, de capa de revista, ela já tem fama, não é? –Kohaku sorriu e deu uma piscadela para mim que retribui. –Está realmente perfeita, Rin.
-Obrigada. –agradeci comovida pelos elogios. –Estou feliz que estejam aqui.
-Não poderia perder esse evento, tenho sentimentos muito fortes por você e por Sesshoumaru. São pessoas muito importantes para mim. –Senhor Fujitaka disse apoiando a mão direita sobre o meu ombro. –Estou feliz de estar aqui, de poder estar compartilhando esse momento com vocês.
Sorri agradecida por aquele carinho.
-A decoração ficou ótima, creio que você acertou todos os detalhes. –ele falou tirando a mão do meu ombro e colocando agora em seu bolso.
-Estaria sendo injusta em dizer que fiz tudo sozinha. –balancei a cabeça em negativa. –Tive muita ajuda de Olívia, a dona da casa e surpreendentemente de Kagura. Depois do episódio com Naraku estamos vivendo em harmonia.
-Aquele canalha... –Kohaku resmungou indignado.
-E que fim deu a história desse homem repugnante? –Senhor Fujitaka indagou enquanto agarrava-se a uma taça de champanhe que passou ao seu lado na bandeja de um garçom.
-O julgamento vai acontecer em breve. Nós estamos no processo, teremos que comparecer. –suspirei ao me lembrar que ainda teria que o encarar novamente depois de tudo. –Nossos advogados estão confiantes na condenação dele.
-Espero que esse maníaco morra atrás das grades. –Kohaku deu de ombros.
-Naraku sempre foi uma pedra no sapato de Sesshoumaru. Sempre se portou como um homem odioso. Tenho pena de Kagura, por ter tido o azar de ter um irmão tão horrendo como aquele, que só lhe deu desgosto e no final quase a matou. Que destino terrível. Nas reuniões, nos eventos, não se falava de outra coisa.
-Também sinto por ela. –assenti. –Kagura sofreu muito pelo que Naraku fez. Ainda sofre, na verdade. Mas o que importa é que nada de pior aconteceu, e os gêmeos agora são tudo para ela.
-Kagura é uma mulher muito forte, de grande personalidade. Tenho certeza que já está dando a volta por cima em tudo o que aconteceu.
Aquelas palavras do senhor Fujitaka eram mesmo verdade. Kagura era uma mulher que poucos conseguiriam derrubar.
-Rin, eu vou dar uma palavrinha com Sesshoumaru, ainda não consegui chegar até ele. Se me der licença.
-Claro! Pode ficar a vontade.
Senhor Fujitaka sorriu mais uma vez para mim, passou a mão sutilmente pelos meus cabelos artificialmente ondulados e partiu na direção de Sesshoumaru que ainda estava compenetrado por alguma longa conversa envolvendo os negócios.
-Então senhora Taishou, como está se sentindo em fazer parte do time dos casados agora? –Kohaku quebrou o silêncio dando um sorriso brincalhão para mim.
-Acho que ainda não caiu a ficha na realidade. –respondi dando uma breve risada. –Mas estou bem, tentando absorver o presente e o futuro.
-Estou feliz por você, Rin. Feliz por ter finalmente encontrado o seu caminho. –Kohaku pegou em minha mão e me olhou de maneira sincera e comovida. –Eu nunca vou conseguir tirá-la do meu coração, por nenhum minuto da minha vida, você sempre vai estar lá.
-Você também. –repousei minha mão por sobre a dele e a apertei gentilmente. –Sabe disso.
-Eu sei.
Quando soltei sua mão, Kagome se aproximou de nós. Montada num vestido longo vinho a minha amiga estava simplesmente deslumbrante. Não era difícil notar os homens torcendo o pescoço por onde ela passava. E ela, tão distraída que só, não parecia notar ou talvez se importar com a quantidade de olhares em sua direção.
-Ele está aqui. –ela falou quase num sussurro, apesar de estar animada.
Demorou um pouco para que eu pudesse entender do que se tratava, mas bastaram alguns poucos segundos para um estalo em minha mente me devolver a sanidade.
-Jura? –disse num solavanco animado.
Kagome riu baixinho assentindo.
-Venham!
Kagome foi nos guiando até a parte de dentro da mansão, mas no meio do caminho resolvi que precisava pegar Katsuo com Alexia que me entregou prontamente. Por sorte ele estava acordado e o mau humor de mais cedo havia se dissipado. Ele estava entretido demais com o seu chocalho favorito para poder resmungar.
Mal pude adentrar a sala para ter a visão daquele homem que parecia agora mais familiar do que nunca.
Inuyasha estava no canto da sala, próximo ao sofá. Usava um blazer bonito da cor azul marinho que não estava abotoado deixando a blusa social branca totalmente exposta e também não usava gravata. Aquilo era tão Inuyasha...
A semelhança com Sesshoumaru era assustadora. Fiquei me perguntando como eu não consegui perceber aquilo depois de conhecer Sesshoumaru e reencontrar Inuyasha. Tinha um detalhe ou outro, mas a composição era praticamente a mesma.
-Inuyasha! –Kohaku sorriu animado o chamando, tirando-o do transe para nós.
-Hei! –Inuyasha abriu juntamente um sorriso. –Que bom te ver, Kohaku!
-Não acredito que você veio mesmo. –disse comovida, me aproximando de Inuyasha e o abraçando forte lateralmente por conta de Katsuo.
-Nem eu acredito que vim! –ele riu dando de ombros se desvencilhando do meu abraço. –Mas Kagome me convenceu de que isso seria o certo.
-Estou realmente muito feliz que tenha concordado em participar desse dia. Vocês são muito importantes para mim. –ajeitei Katsuo no colo que se remexeu agitado com o evento que acontecia. –E você não podia perder a oportunidade de conhecer o seu sobrinho pessoalmente, não é verdade?
-É impressionante como cresceu! Pelas fotos parecia menor.
Inuyasha sorriu passando a mão pelos cabelos de Katsuo que o estranhou por um minuto, agarrando-se a mim com timidez. Mas logo, depois de uma graça e outra, meu filho se rendeu aos encantos do tio. E num solavanco, jogou-se aos seus braços como se fosse óbvio.
-Que medo de deixá-lo cair. –Inuyasha o segurou um pouco sem jeito, então por via das dúvidas, sentou-se ao sofá tirando risada de todos nós.
Katsuo jogou longe o chocalho que segurava como costumava a fazer quando ficava vidrado em outra coisa. Iria pegar o brinquedo que meu filho havia atirado com tamanha força, mas Inuyasha me interceptou. Já era tarde. Katsuo já havia se apaixonado pelo chaveiro do meu antigo amigo.
-Acho que ele gostou disso, Kagome! –Inuyasha sorriu deixando com que Katsuo pegasse sua chave do carro, mas o que realmente ele havia se interessado era por uma pedra.
-Que pedra bonita. –Kohaku falou. –Não sabia que gostava dessas coisas Inuyasha.
-Fui eu que dei para ele. –Kagome falou arranhando a garganta. –Consegui num templo... Se chama Shikon no Tama.
-Shikon no Tama... –falei como se aquele nome me fosse familiar.
-É um amuleto. –Kagome coçou a nuca um pouco sem jeito. –Sei que é superstição, mas não custa nada acreditar um pouquinho para ter sorte, não é gente?
-Creio que sim! –Kohaku sorriu para ela de maneira gentil. –Acho que eu estou precisando de uma também. De um pouco de sorte.
-E como está o tratamento, Kohaku? –Inuyasha indagou com um olho em Katsuo e outro em Kohaku. Indo e voltando, tentando prestar atenção nos dois ao mesmo tempo.
-Acho que bem... –ele deu de ombros. –Mas ainda não consigo me levantar dessa cadeira apesar de tudo...
-Tenho certeza que vai dar tudo certo, Kohaku. –Kagome falou de maneira otimista. –Pelo que eu soube você já evoluiu bastante e os médicos estão confiantes.
-Sei lá, acho que estou impaciente, e não querendo também alimentar tantas esperanças.
-De todo modo precisa acreditar. –falei repousando minha mão em seu ombro.
Kohaku diria mais alguma coisa, mas acabou sendo interceptado por uma voz que eu já conhecia de cor e que me fez estremecer por um segundo. Primeiro pelo susto, e segundo porque não tive tempo de prepará-lo para o recém chegado.
-Então você teve mesmo a coragem de aparecer. Devo dizer que pela primeira vez na vida você me surpreendeu, Inuyasha.
Sesshoumaru brotou no recinto deixando o clima extremamente desconfortável. Meu sorriso largo havia se transformado em um amarelo. Ter permitido Inuyasha na festa era uma coisa, agora deixar com que aquela situação passasse em silêncio seria outra. Já imaginava que Sesshoumaru não perderia a oportunidade de alfinetar o meio-irmão. Se não o fizesse, não seria ele.
-Sesshoumaru... –Inuyasha franziu o cenho desfazendo toda a alegria anterior.
-Hum! Patético...
E dito isto, ele virou as costas e simplesmente voltou para o lado de fora, para o jardim. Balancei a cabeça em negativa.
-Que medo! –Kagome suspirou parecendo aliviada.
-Eu já sabia que ele não iria fazer nada. –disse ainda com o sorriso amarelo nos lábios. –Ele pode não gostar de Inuyasha, mas de escândalo com certeza ele gosta bem menos.
-HUM! É por essas e outras que eu ainda não acredito que você perdeu a Rin para o idiota do Sesshoumaru, Kohaku. –Inuyasha girou os olhos incrédulo.
-INUYASHA! –Kagome arregalou os olhos e só não voou em cima dele provavelmente por conta de Katsuo que estava em seu colo.
-Ah, não vai me dizer que você também não acha isso, Kagome? Não se faça de sonsa!
-Argh! Você fala cada coisa idiota, parece que não raciocina! –ela cruzou os braços em completa desaprovação. –Por que tem que falar tudo que te da na telha? Que coisa mais irritante!
-Não vou dizer nunca que preferia Rin com o idiota do Sesshoumaru!
-Quem tem que preferir é ela e não você, seu idiota!
Não pudemos deixar de segurar a risada. Eu e Kohaku adorávamos a relação daqueles dois que pareciam duas crianças. E, ao perceberem que nós ríamos deles, acabaram ficando corados. Eles tinham sorte de terem um ao outro. Amava o jeito deles. A sinceridade e simplicidade que eles tinham. Era como se eles se conhecessem de muitas e muitas outras vidas.
-Rin!
Outra voz masculina cortou o ambiente, levei alguns segundos para reconhecer, mas logo que virei para trás pude vê-lo com exatidão.
Dono dos olhos azuis mais intensos que conhecia, estava ele montado em um terno vinho. Bem a cara dele... Daquele gosto tão estranho. Fiquei imaginando no que meu pai iria pensar quando o visse vestido daquele jeito.
-Kouga! –ri alegre ao vê-lo.
-Está linda, Rin! –ele disse me abraçando. –Desculpe por ter me atrasado.
-Não tem problema, não perdeu muita coisa ainda.
-Kouga! –Kagome acabou falando com a voz esganiçada um pouco incrédula.
-Kagome?
-Ah, não acredito! –Inuyasha deu um salto do sofá e acabou entregando Katsuo para Kohaku. –Esse casamento é o que? Convenção dos idiotas?
-Olha só! Se não é o cara de cachorro! –Kouga sorriu irônico para ele. –Já faz muito tempo, Inuyasha.
-Cara de cachorro? –indaguei sem entender.
-Longa história... –Kagome girou os olhos.
-Vocês se conhecem? –Kohaku indagou também sem entender, e acabou olhando para mim numa tentativa de buscar respostas que eu também não pude dar.
-Claro! –Kouga sorriu de maneira convencida pegando nas mãos de Kagome de maneira galante. –Kagome foi minha namorada quando éramos adolescentes.
-Jura? –falei um tanto quanto surpresa, porque para mim era quase inacreditável pensar em Kagome com mais alguma outra pessoa no mundo que não fosse Inuyasha.
-Namorada é um pouco forte. –Kagome sorriu sem jeito tirando as mãos dos domínios de Kouga e dando um passo para trás.
-Assim você parte o meu coração, pois já se esqueceu de todos os momentos que passamos juntos, Kagome? –Kouga pareceu esmorecer, ficando com a cabeça baixa.
-Momentos também é muito forte.
-Mas é um sem noção mesmo! Você realmente vai ficar dando em cima da Kagome na minha frente?
Inuyasha se levantou e tratou de entregar Katsuo a Kohaku que ainda brincava com Shikon no Tama totalmente alheio ao que estava acontecendo naquele momento. E quando pensei que as coisas não poderiam piorar outra voz alterada irrompeu o recinto.
-Ai, eu não acredito que essa aguada dessa mulher está aqui!
Era Ayame.
Ela estava furiosa, com os braços cruzados. Seus olhos verdes estavam pegando fogo assim como os cabelos ruivos presos em uma longa trança embutida. Ela estava usando um vestido longo igualmente roxo, com certeza para combinar com Kouga... É, eles eram realmente excêntricos, não tinha jeito.
-Aguada... –Kagome repetiu a ofensa ainda espantada apontando para si mesma como se quisesse confirmar que era dela que Ayame falava.
-Vai ficar do lado da sua mulher. –Inuyasha empurrou levemente Kouga que deu dois tropeções um pouco sem jeito ao perceber a irritação de Ayame.
-Ayame, eu só... –ele tentou consertar, coçando a nuca.
-Depois! –ela rangeu os dentes com raiva. E, magicamente, num sorriso angelical veio até mim. –Está linda, Rin! Desculpe pelo atraso.
-Não... Não foi nada! –sorri ainda sem entender o que foi aquilo tudo que aconteceu. Busquei mais uma vez os olhos de Kohaku que simplesmente me deu de ombros também absorto. –Como é bom receber os amigos!
Kohaku riu, e logo depois, todos acabaram rindo também.
...
A festa não poderia ter sido melhor. Do meu casamento, só levaria coisas boas.
Cortamos o bolo já no meio da noite. Beijei Sesshoumaru no segundo seguinte, mesmo sabendo o quanto ele ficava em pânico quando exposto a cenas de afeto. Mas eu sabia que ele não hesitaria em corresponder.
As mulheres se aglomeraram no jardim esperando para a brincadeira de quem iria pegar o buquê. Virei de costas e num solavanco atirei por sob minha cabeça. E sem querer foi parar bem no colo de Kagura que estava sentada, junto ao carrinho de bebê dos gêmeos, e que não havia se proposto a participar da brincadeira.
Ela riu, balançou a cabeça em negativa e acabou indo até mim devolvendo o buquê as minhas mãos.
-Pelo amor de Deus, taque esse buquê de novo antes que eu vire chacota pela segunda vez.
-Desculpe! –encolhi os ombros sem jeito contendo o sorriso.
Então, sem escolhas, tive que jogar novamente. E dessa vez o buquê parou certeiro nas mãos de Maria. Que sem graça virou para mim com um sorriso leve. As meninas bateram palmas e pude ver, de relance, que Kohaku sorria também no outro canto.
...
Sesshoumaru:
Quando Rin entrou no jardim, com seu vestido de noiva, foi como se o mundo todo tivesse parado. E todas as cores daquele dia de repente sumissem para dar lugar a ela. Como poderia alguém emanar tanta luz? Quando Rin sorria tudo parecia ficar mais alegre, iluminado. Tive pena daquele dia tão ensolarado que só serviu para deixá-la mais bela e se tornar completamente irrelevante diante de tanta perfeição.
Seu pai, Senhor Watanabe, a entregou a mim, aos meus braços. Não queria ter estado com uma expressão embasbacada, mas foi simplesmente impossível não fingir incredulidade diante de tanta beleza. Estava mesmo me casando com ela. Com aquela mulher que há tempos, não tão longíquios, brincava de esconde-esconde comigo. Que também escorregava de minhas investidas e fingia desdém pelo meu jogo tão perigoso. Que sorria irônica, arqueando uma única sobrancelha e levando a taça de vinho a boca enquanto puxava-me pela gravata de um jeito tão sedutor que seria incapaz de resistir.
Estava me casando com ela. Com Rin Watanabe, que depois do discurso do juiz e de assinar por fim os papéis tornou-se Taishou. Minha esposa.
Rin Taishou.
-Não esperava menos do que uma cerimônia tão perfeita e sofisticada como a sua, Taishou. –Hiroshi disse sorrindo, de maneira educada como sempre.
-Se não fosse assim, não seria a cara de Sesshoumaru, não é mesmo? –Tomio riu alto, da maneira que costumava a fazer.
-Não posso levar os créditos, isso tudo foi Rin. –disse olhando de soslaio para ela que sorriu sem jeito.
-Não é verdade. –Rin disse trocando o peso dos pés, e colocando a mão direita por sobre o cotovelo esquerdo. Sabia o quanto ela detestava atenção, mas não conseguia deixá-la sem os méritos. –Olívia e Kagura foram fundamentais para que tudo isso se tornasse realidade. Estaria perdida se não fossem por elas. Inclusive, Olívia, o jardim com certeza ficou mais bonito do que um dia eu já imaginei.
-Besteira! –Olívia balançou a cabeça negativamente. Ela estava tão bonita naquele dia, com seus cabelos ondulados negros pendendo pelos ombros. Sua pele da cor da Califórnia, um bronzeado natural contrastando com o vestido longo discreto na cor chumbo. –Rin é muito modesta.
-Soube que também toca piano. –Hiroshi disse com animação. –Creio que irá nos presentear mais tarde com mais um talento, não é senhora Taishou?
-Na realidade não fazia parte dos meus planos. –ela balançou a cabeça negativamente, tentando buscar uma saída, mas já era tarde demais.
-Rin toca maravilhosamente bem. O piano foi posto no jardim especialmente para ela. –Olívia deu uma piscadela para Rin que tinha certeza não querer mais atenção do que já tinha naquele dia.
-Ah, então agora você vai ter que tocar! –Tomio deu dois tapinhas no ombro de Rin.
-Tudo bem, mas Olívia vai ter que me acompanhar! –Rin sorriu irônica para a recente amiga que acabou sendo pega de surpresa.
-A HÁ! Boa, Rin! –Joshua disse alegre ao se aproximar de nós com uma taça de champanhe em mãos.
-É justo. –Olívia sorriu assentindo.
Decorrido alguns minutos de conversa, das quais tomaram os rumos dos negócios, Rin se afastou como eu sabia que faria quando os diálogos levassem para aquele contorno. Pouco tempo depois, Senhor Fujitaka aproximou-se da roda, e acabei pedindo licença para poder cumprimentá-lo com mais privacidade.
-Que bom que o senhor veio. –disse com respeito.
-Acabei de falar com Rin que seria impossível não aparecer! Sabe o quanto gosto de você, Sesshoumaru.
Assenti agradecido, busquei Rin por entre as pessoas e acabei a vendo, ao lado de Kohaku. Franzi o cenho.
-Kohaku é como uma sombra... –acabei dizendo involuntariamente. Eles riam juntos e se entreolhavam como se soubessem o que pensavam de tamanha sintonia.
-Não seja duro com ele. –Senhor Fujitaka disse um pouco sem jeito. –Foram muitos anos, Sesshoumaru. Quase uma vida. E no final, ambos são sombras deles mesmos.
-Eu sei. E me conformo. –voltei meus olhos para ele. –Desculpe pela indelicadeza. Kohaku é seu filho, afinal.
-Não tem problema! –Senhor Fujitaka me deu alguns tapas nas costas e apoiou a mão direita por sobre meu ombro. –Sabe, pode parecer que estou puxando o seu saco porque estou em seu casamento com Rin. Mas preciso lhe dizer que quando soube que vocês estavam juntos, apesar de ter soado um tanto quanto bizarro no início, depois pareceu verdadeiramente óbvio! Estranho, sem dúvidas, mas cristalino. Vocês realmente foram feitos um para o outro.
-Por que diz isso? –indaguei curioso. O fitando com intensidade.
-Rin sempre foi livre assim como você. Meu filho, tão enraizado, tão preso a terra, nunca seria capaz de amarrá-la ao chão. Quanto mais Kohaku tentava, mais Rin fugia por entre seus dedos, como a água. Assim era o mesmo com Kagura. Pessoas enraizadas, fixas, não conseguem segurar quem nasceu para voar.
Fiquei pensando naquelas palavras. Era mesmo verdade. Rin era a mulher mais livre que já havia conhecido na vida. Ela não pararia nada por mim, não mudaria nenhum centímetro do seu dia para atender a qualquer capricho meu. Não estaria disponível quando eu quisesse, esperando-me a meu bel prazer. Ao contrário, ela fazia o que bem entendia e deixava com que eu fizesse o que eu bem entendia também. Compreendia o meu ser livre, e não o contestava com dramas e lamúrias. Não havia sentimentalismo barato e tampouco chantagens emocionais. Aquilo era tão leve, uma experiência da qual me aprisionou a ela. Ironicamente foi nossa liberdade, nosso voo livre, que nos emaranhou na vida.
Sorri assentindo.
...
Ao desvencilhar-me de Senhor Fujitaka, tive o desprazer de encontrar Inuyasha que segurava Katsuo no colo dentro da mansão. Em outros tempos, teria avançado nele e o feito engolir todos os dentes. Mas não podia. Devia isso a Rin que parecia extremamente contente em tê-lo por perto. Rin tinha o talento de se apegar a quem eu tinha desafeto...
Contentei-me em chamá-lo de patético e dar-lhe as costas.
Sempre que o via, era sufocante, como se uma parte mal resolvida do meu passado gritasse em meus ouvidos. Talvez eu fosse mesmo hipócrita. Mas simplesmente não conseguia o tolerar. Aguentar o fardo daquele passado tão inescrupuloso.
-Então Inuyasha apareceu mesmo! –a voz de Kagura me tirou do transe.
Virei para trás enquanto tomava meu Whisky.
Kagura estava usando um vestido verde com um decote profundo. Fiquei a olhando por um instante, estonteado também por sua beleza. Não a tinha visto desde o início da cerimônia, e quando finalmente a encontrei, fiquei por uns segundos sem palavras.
Não fazia tanto tempo assim, mas num universo paralelo, num mundo onde as coisas são realmente sãs, teria me casado com ela. E, se ela tivesse me dito sim no passado, estaríamos casados até então. Pensar naquilo era tão estranho. Tê-la por perto e ao mesmo tempo não. Será que Rin se sentia assim quando estava na presença de Kohaku?
-O que foi? O gato comeu a sua língua? –ela indagou novamente irônica cruzando os braços.
-Não foi nada. –cerrei os olhos voltando a realidade. –É só que está muito bonita.
Kagura riu.
-Sempre fui muito bonita, Sesshoumaru.
-De fato. –concordei com um sorriso no canto dos lábios.
Kagura pareceu por um instante desconfortável, mas logo se agarrou a um drink colorido da qual não fazia ideia do que se tratava e voltou a mim com os olhos amenos.
-Então estamos aqui, no seu casamento.
-É...
-E não sou eu a noiva. –ela riu baixinho balançando a cabeça em negativa. –Como a vida é estranha, não é Sesshoumaru? Num dia a gente acorda achando que tem a certeza de tudo, que tem o controle e o caminho certo a percorrer. Que nada vai sair do plano, que o rio vai continuar no mesmo lugar, a seguir o mesmo fluxo. Mas de repente, vem uma tempestade, e inunda aquilo tudo. O rio transborda, destrói tudo ao redor. E lá se vão as certezas...
-Sei que não fui justo e leal com você, Kagura. –a fitei seriamente dando um passo a frente. –E, dentre todas as pessoas desse mundo, eu devia isso a você.
-Aconteceu o que tinha que acontecer, Sesshoumaru. Não guardo mágoas pelo que passou. Como eu disse, a vida é estranha. Quem diria que eu estaria em seu casamento, ajudando a sua esposa, um furacão em forma de mulher. –ela riu dando de ombros. –Aconteceram tantas coisas, tantas... –e de repente seu sorriso sumiu, e seu rosto ficou sombrio e ela já não era mais capaz de me encarar. –Naraku foi preso, quase fui morta por ele, assim como meus filhos... E mal sei o que se passa com ele nos últimos dias.
-Sabe que ele não merece a sua piedade.
-Eu sei. Mas não consigo evitar pensar... Teremos que ir a seu julgamento. Não sei se estou preparada para encará-lo.
-Você está sempre pronta, Kagura. É uma mulher muito forte.
Ela sorriu mesmo sem vontade, tomou um longo gole do drink e mudou o rumo da conversa como costumava a fazer.
-Então, Los Angeles! A lua de mel de vocês.
-Rin não quis sair do país. Então acabamos decidindo ficar pelos Estados Unidos.
-Los Angeles é uma bela cidade. Apesar de que eu escolheria o Havaí. –ela deu uma careta para mim.
-Claro que escolheria. –assenti.
-Estou feliz por você, Sesshoumaru. –Kagura pegou em meu braço com gentileza, e pude ver em seus olhos que estava sendo verdadeira.
E quando lhe diria que desejava a sua felicidade, minha amada foi anunciada juntamente a Olívia. Elas iriam mesmo tocar para os convidados.
Sorri. Sabia o quanto Rin deveria estar indo contrariada. Mas, não haveria nada no mundo que a faria se tornar alguém indelicada. Ela não conseguia deixar de ser gentil e tampouco de dizer não para aquelas pessoas presentes.
Rin sentou-se a frente do piano, enquanto Olívia se ajeitava com o belíssimo violino lustroso o apoiando em seu ombro delicado. Elas se entreolharam, sussurraram algo ininteligível a nós que as assistíamos em expectativa. Finalmente concordaram balançando a cabeça em positiva.
Antes de dedilhar a primeira tecla, das muitas que viriam, ela encontrou meus olhos na multidão, sorriu e acenou brevemente, de maneira discreta e completamente sem jeito. Correspondi assentindo a ela que só depois, numa concentração que eu bem conhecia, voltou-se ao seu instrumento favorito.
Divenire - Ludovico Einaudi. Foi a música que elas escolheram. Um emaranhado emocionante de suavidade e voracidade. Elas faziam uma dupla e tanto. De tirar o fôlego. Com tanta precisão e devoção em cada nota tocada. Havia tanto sentimento... Um filme passou pela minha mente enquanto as observava. Em todo o caminho que trilhamos que nos levaram finalmente aquele lugar. A uma mansão em São Francisco, numa tarde de um sábado qualquer.
Eu era mesmo um homem de sorte. Por poder compartilhar tanto com aquela mulher, que sorrateira, veio se emaranhando pouco a pouco em cada centímetro do meu corpo, até por fim, dominá-lo completamente. Teria ela levado minha alma também? Não duvidava. Ela conseguia tudo de mim, afinal.
...
Quando a música acabou, os aplausos seguiram, em uníssono. Aplausos apaixonados e surpresos que pegaram minha Rin desprevenida. Que parecia renascer a mesma moleca que eu conhecia anteriormente, abandonando por vez o piano e agradecendo corada aos elogios dos convidados.
Cortamos o bolo afinal. Rin me beijou teatralmente, mas não me importei com seu afeto. Ao contrário, retribui como se fosse do meu feitio.
-Está na hora. –eu lhe disse na ponta da orelha. Já era metade da noite.
Ela assentiu desvencilhando-se das amigas que haviam entendido o recado.
Rin entregou Katsuo a Alexia, que aquela altura já dormia em seus braços. Naturalmente cansado de tanta agitação ao longo do dia. Minha companheira beijou nosso filho, passou a mão por seus cabelos algumas vezes e finalmente deixou com que Alexia o levasse de nossas vistas.
Num passe de mágicas, quando se virou para mim, revelou o que eu mais amava. Seus olhos sensuais, intensos e tão irônicos que era capaz de mergulhar por horas. Ela estendeu a mão a mim, que a peguei no mesmo instante.
-Nessa noite, invertendo os papéis da nossa primeira, pode me levar para casa?
Assenti satisfeito.
-Mas dessa vez, não prometo só dormir.
-Não iria pedir mesmo o contrário!
Partimos, como um vulto na madrugada. Sorrateiros e sem alardear. Dando as costas a mansão dos Carter e aos inúmeros convidados.
Voltamos para casa, dessa vez, completamente vazia. Fazia tempo que não ficávamos assim, a sós, sem perigo de sermos interrompidos por alguém. Aquela sensação me remetia aos velhos tempos, quando éramos só nós dois. A nostalgia me excitava.
Mal a deixei tirar os sapatos. Já havia lhe agarrado pela cintura e a virado para mim, para que pudéssemos nos beijar com intensidade. Rin, completamente entregue aos meus toques, também foi desabotoando os botões de minha blusa e soltando minha gravata de seda.
Caímos no sofá da sala, e percorremos tantos cômodos aquela noite que era como se nossa fome não tivesse fim. Devorando-nos como leões famintos em meio a selva inóspita. Como era delicioso vê-la ir do sibilo ao gemido descompassado. De sentir sua pele molhada pelo suor, seus cabelos empapados por conta dos nossos movimentos intensos e do calor dos nossos corpos. O tremeluzir dos seus lábios, os apertos que dava em meus braços e costas...
-Não consigo te deixar... –disse a ela, por cima do seu corpo tão pequeno e delicado. Beijando seu pescoço com suavidade.
-E quem disse que eu quero que você me deixe? –ela respondeu, num sussurro quase inaudível. Puxou meu rosto para cima, para que pudéssemos nos encarar. Encostei minha testa na dela, e no silêncio, na intensidade daquele olhar, soube que não precisava dizer, pois tudo já havia sido dito no encontro fatal de nossas íris.
...
CONTINUA...
Nota:
Olá! Gostaria de dizer que me senti muito feliz em escrever esse capítulo e espero que tenham chegado até aqui com a mesma alegria que senti em compartilhar.
Devo confessar que casar a tarde, num dia ensolarado, em um jardim, seria um sonho realizado para mim kkkk! Num céu azul, com uma decoração campestre. Espero que um dia eu seja tão feliz quanto Rin e Sesshoumaru de poder desfrutar de um momento desses com meu companheiro.
Enfim, esse é o nosso penúltimo capítulo, o próximo realmente será o encerramento dessa fic. E já estou me sentindo nostálgica em finalmente, depois de longos anos, dar um final e me despedir de mais uma Rin e um Sesshoumaru que criei. Estou empolgada e ao mesmo tempo triste por encerrar mais um ciclo. Conheci tanta gente especial nesse site, só tenho a agradecer, como sempre digo.
Espero de coração que tenham gostado desse projeto e que o final, que está por vir, não os decepcione.
Um grande beijo e até o capítulo final!
