N/A: Aparentemente toda nota minha começa com o porquê de eu ter demorado tanto. A antiga nota desse capítulo (que foi criado no dia 3 de maio de 2017, modificado pela última vez em 24 de dezembro de 2017 e esquecido na minha área de trabalho desde então) falava como tudo continuava mais do mesmo na minha vida – trabalhando pra caralho, tendo semestres irregulares na faculdade e me viciando em BTS e The Neighbourhood.
Bem, muita coisa mudou nesses três anos sem atualização.
Tranquei o meu curso, larguei meus empregos, vim estudar na Hungria e já estou morando aqui há dois anos (e nesses dois anos me mudei oito vezes, uma loucura). A quarentena por aqui foi até tranquila, e eu tinha falado pra mim mesma que aquele seria o momento de sentar a bunda na cadeira e escrever DNESL. O que eu fiz? Assisti a todos os vídeos no meu "assistir mais tarde" no Youtube, li à muitas fanfics, assisti à muitas séries. Mas escrever que é bom, nada.
Acabou que a quarentena na Hungria terminou (e entramos em lockdown novamente, olha que ironia) e minhas aulas voltaram em setembro. Era agora ou nunca pra terminar essa fanfic.
E ela está fazendo dez anos. Dez anos. Eu tinha catorze anos quando comecei a escrever, e até hoje estamos aqui. Se isso não for a definição de procrastinação, eu não sei o que é. Mas uma hora acabaremos, tenho fé. Falta pouco.
(Inclusive a música tema, Silent Lucidity, está comigo desde que a ouvi pela primeira vez em Supernatural anos atrás, e cabe como uma luva nesse capítulo e na história em si. Engraçado que Supernatural - SUPERNATURAL - acabou, mas essa fanfic não. Risos nervosos.)
Eu espero que vocês gostem desse capítulo (que não foi betado), e que ele não seja uma decepção para quem literalmente esperou anos por ele. Obrigada a quem pediu pra eu atualizar – as reviews me deram vergonha e meio que me forçaram a pegar nessa fanfic de novo.
Dito isso, vejo vocês nas notas finais.
014
the walls you built within
you're lying safe in bed
it was all a bad dream spinning in your head
your mind tricked you to feel the pain
of someone close to you leaving the game of life
so here it is, another chance
wide awake you face the day
your dream is over
or has it just begun?
Silent Lucidity, Queensrÿche.
29 DE NOVEMBRO DE 1998
– Hermione, você ouviu o que eu falei? – perguntou McGonagall com um tom preocupado.
Minerva sabia que ela não havia escutado absolutamente nada do que havia dito. Ela tinha o olhar vazio e desatento, como se sua mente estivesse a quilômetros de distância. Estava acostumada a ver esse semblante em muitos rostos em Hogwarts, mas nunca no rosto de Hermione Granger. A mudança era brusca, mas compreensível – forçou-se a lembrar que a garota havia acabado de acordar de um coma de trinta e oito dias.
Ela havia passado o sábado inteiro no St. Mungus realizando testes para checar se havia alguma sequela, e voltou domingo pela manhã. Minerva pediu para que ela viesse encontrá-la assim que possível.
Olhá-la se tornara algo desconcertante.
Ela estava... como poderia colocar em palavras?, se perguntara. Hermione estava diferente. Sabia que a guerra mudava as pessoas – Merlin, como ela gostaria não saber –, mas a garota era conhecida por sua determinação feroz e inabalável. Sua sede de saber e justiça eram duas das suas características mais notáveis. E a pessoa que estava em sua frente não tinha nem mesmo o fantasma disso.
Antes de encontrá-la, recebera o relatório dos seus exames. Nada anormal foi detectado, mas um comentário da medibruxa que o realizou deixou Minerva um pouco receosa.
Os resultados foram ótimos, não foi encontrado nenhuma sequela física em seu corpo, porém... Minerva, ela está muito letárgica. É o único efeito colateral que encontrei quando a analisei. Não há nada que eu possa usar para justificar deixa-la aqui por mais tempo, e acredito que será bom inseri-la em uma rotina novamente, mas fique de olho nela por qualquer mudança.
Esperava que, o que quer que esse comportamento fosse, que desaparecesse logo. Já estava farta de tanta tragédia.
– Sinto muito, diretora. Peço perdão pela desatenção, somente estou muito cansada depois de tantos exames. – disse Hermione. – Os medibruxos foram bastante minuciosos e fizeram diversas checagens em mim. Como pode ver no relatório, eu estou bem e gostaria de voltar às aulas normalmente amanhã.
A voz dela era rasa, sem emoção. Não havia desejo ou ultraje ou raiva – nada. Mais um sinal de alerta soou na mente de Minerva.
– Não acredita que seja muito cedo, Hermione? Afinal, você ficou em coma por muitas semanas, deve ser melhor você-
– O melhor que eu posso fazer agora é voltar para as aulas. – interrompeu Hermione. – Eu fiquei longe por tempo demais, diretora.
Nisso Minerva tinha que concordar com ela.
Mas o sentimento inquietante permaneceu mesmo após Hermione sair de seu escritório.
Iria ficar de olho nela. Iria descobrir o que havia de errado.
X
10 DE DEZEMBRO DE 1998
Ele abre os olhos para um novo dia – dia esse que se parece tanto com todos os outros.
Há duas semanas atrás, ele faria o percurso que se tornara tão familiar; acordar meia hora antes de todos os outros alunos, tomar o café da manhã muito brevemente, ir para a enfermaria e sair de lá apenas quando Madame Pomfrey o expulsasse.
Há duas semanas atrás, sua rotina fora quebrada por algo que ele desejara com uma fervorosidade quase religiosa.
Hermione acordara.
Mas ela não havia voltado de verdade – e ele parecia ser o único a ter percebido isso.
Não é como se ele pensasse apenas no relacionamento entre os dois. Hermione estava distante, fria, bizarramente calada durante as aulas. Uma das coisas que mais o perturbara fora o fato dela simplesmente parecer ter esquecido tudo o que eles já passaram juntos – do ódio à compreensão, para ele foi reservada apenas a indiferença.
Era como se ele nunca tivesse existido. Do garoto que quebrou o seu espírito aos onze anos ao chama-la de sangue ruim para o homem cuja estabilidade psicológica e emocional fora reconstruída por aquela que agora o ignorava. Draco Malfoy não passava de um pensamento passageiro para ela, e esse descaso doía mais do que qualquer outra ofensa.
"Hermione voltou para nós", seus amigos diziam.
Ela pode ter voltado para todos – mas não para ele.
X
2 DE DEZEMBRO DE 1998
Eles voltaram a conversar, e isso deixara Ron bastante feliz.
Estavam juntos – ele, Harry, e Ginny – quando receberam a notícia de que Hermione havia acordado. Chegaram arfantes à enfermaria com sorrisos nos rostos, e com um quê de apreensão da parte do ruivo. E lá estava ela, deitada na cama enquanto conversava com Madame Pomfrey. Ela havia acordado. Finalmente acordado.
Hermione os recebeu sorrindo, mas a expressão não alcançava os seus olhos; abraçou-os, porém sem o calor amigo tão característico seu. Nada disso importava. Para Ron, isso não passava de desnorteamento – por Merlin, não apenas era compreensível como até mesmo esperado. Foram semanas estando desacordada, demoraria para que seu cérebro reorganizasse todas as novas informações, e Hermione não escaparia disso, mesmo sendo ela a bruxa mais brilhante de sua geração.
Acima de tudo haviam duas coisas que o deixavam ansioso: a primeira era como ela o receberia. A discussão com Malfoy semanas atrás ainda estava fresca em sua mente, e com esforço teve que reconhecer que as palavras do bastardinho doeram somente porque elas eram verdade. Ron buscou ativamente isolar Hermione do restante dos amigos porque ele sentia... raiva? Ciúme? A razão pela qual o fez sempre o deixava corado de vergonha quando refletia sobre o assunto. Seu temperamento era a sua maior fraqueza, e muitas vezes se via a mercê de suas emoções, sendo guiado pela sua inveja para proteger o seu ego, porém não haviam desculpas dessa vez. Mesmo após uma guerra, ele continuava falhando com Hermione. Até mesmo Malfoy foi capaz de vez isso.
Mas ainda assim, lá estava ela, sorrindo um sorriso vazio e estranho – mas ela sorria, para ele, para Harry e para Ginny. Ela havia acordado.
Sua segunda apreensão era o próprio Malfoy. O filho da puta sempre esteve presente em sua vida como um símbolo de tudo o que ele gostaria de ter, mas não tinha: fama, dinheiro, reconhecimento, respeito. Sentia-se vingado ao vê-lo do lado errado da guerra, conhecendo o amargo sabor da derrota pela primeira vez na vida. Ele acreditava que os dias de Malfoy o fazer se sentir inferior haviam acabado – ele era um herói de guerra. No futuro, seu nome estaria estampado nos livros de história sobre a grande guerra bruxa (como o melhor amigo ruivo e pobre de Harry Potter, dissera uma voz na sua mente que tratou de ignorar), enquanto as menções ao nome do sonserino seriam sobre a eterna associação de sua família com as artes das trevas e crenças na supremacia de sangue.
Mas ainda assim, lá estava ele, ofegante na porta da enfermaria, o olhar fixo em Hermione como se as pessoas ao redor dela não importassem. E naquele momento Ron sabia o que ele estava pensando. Ela acordou, finalmente acordou.
Foi com um prazer quase obsceno que Ron observou a breve conversa entre os dois. Não percebeu a presenta dele até ver que Hermione o olhava. Sentiu-se mais que satisfeito com sua indiferença perante o loiro – perante tudo, retrucou uma outra voz em sua mente. Vê-lo sair da enfermaria tão rápido quanto chegou foi algo que lhe trouxe muita alegria. Os eixos universais foram realinhados e as coisas enfim voltariam ao normal. O trio de ouro continuaria a ignorar (e no seu caso, odiar) Malfoy, e este se resumiria a sua existência podre e desnecessária.
– Mione, você pode me passar o suco de abóbora? – perguntou com a boca cheia enquanto pescava mais uma coxa de frango para finalizar o jantar com chave de ouro.
Hermione estava sentada em sua frente, mais próxima da jarra do suco à esquerda. Ron já estava preparado para revirar os olhos com o previsível comentário sobre modos à mesa e quão horrível é falar de boca cheia, até perceber que ele não viria. Hermione simplesmente lhe entregou a jarra e voltou a comer, cortando os pedaços de frango lentamente. Encarou-a por alguns segundos, mastigando de forma audível à procura de uma reação.
– Você não vai reclamar sobre a minha falta de educação? – Ron questionou com um sorriso zombeteiro.
– E por que eu deveria? – foi a única resposta de Hermione Granger, a voz sem qualquer alteração.
Ron forçou a comida goela abaixo com um copo do suco de abóbora. Continuou observando Hermione pelo restante do jantar, que eficientemente o ignorou. Considerou se havia feito algo de errado, se ela o estava punindo por ter sido um imbecil antes (e por todas as muitas outras vezes), mas antes de voltar ao dormitório ela sorriu para ele.
Vazia, apática – mas ela sorriu para ele.
Hermione havia voltado, e isso era a única coisa que importava.
X
28 DE NOVEMBRO DE 1998
A força do hábito foi o que o fez abrir os olhos.
Ele havia, novamente, acordado muito mais cedo do que todos os outros alunos da escola. Os dias estavam ficando cada vez mais curtos, lá fora ainda estava escuro e não havia razão alguma para que saísse da cama. Podia ouvir o ronco de Blaise na cama próxima a sua, completamente alheio ao outro sonserino. Já havia se acostumado com a rotina sem sentido de Malfoy.
Após sair do banho, Draco se encarou no espelho. Aos poucos estava recuperando os quilos que perdeu durante o ápice de suas crises, e se atreveu até a considerar saudável o seu físico atual. Continuava magro, porém não de uma maneira em que era possível contar os ossos de sua costela. A palidez natural de sua família o acompanhava, mas as bochechas coradas depois de tomar um banho quente traziam certa vida ao seu rosto. Tentou sorrir para si mesmo – algo que, no final das contas, a ansiedade não permitiu fazê-lo.
Vestiu-se rapidamente e já estava a caminho da enfermaria quando lembrou que talvez ele não devesse ir com tanta pressa.
Não sabia o que iria encontrar. A forma como Hermione o recebeu no dia anterior o havia deixado desnorteado. Tentou forçar compreensão goela abaixo, lembrando que ela havia passado semanas em coma. Sim, ela só precisava de tempo para lembrar o que aconteceu, só isso.
Não demorou muito para alcançar seu destino. Pomfrey estava sentada próxima à entrada, organizando uma bandeja com diversas poções – reconheceu com um arrepio no corpo a poção cor índigo para noites sem sonhos, e lembrou de quando ficou hospitalizado em setembro –, parecendo que estava ali somente para espera-lo.
Não ficaria surpreso se ela de fato estivesse.
– Ela parece estar muito bem, Sr. Malfoy. Às 8h, Srta. Granger será encaminhada ao St. Mungus para fazer alguns exames, e estou deixando-a dormir mais um pouco, então nada de fazer barulho ou demorar tempo demais. – disse Pomfrey sem tirar os olhos de suas poções ou sequer desejá-lo bom dia. Não que isso fosse necessário.
Agradeceu e rapidamente se encaminhou até a maca onde se encontrava Hermione. Estava deitada de lado, de costas para a entrada da ala hospitalar. Seu cabelo caía desgovernado num amontoado de cachos castanhos. Sentiu vontade de passar seus dedos por entre eles, desmanchando-os e provavelmente a irritando no processo.
Guardou esse desejo para si com os muitos outros que ele jamais diria em voz alta.
Sentou-se na poltrona próxima da maca de forma desengonçada, sem saber o que fazer. Normalmente trazia um livro para passar o tempo ou conversava com Hermione. Contava as coisas mais mundanas possíveis para trazer a sensação de que ela ainda estava ali, com ele. Agora, no entanto, não podia fazer nada mais do que observá-la em silêncio. Foi tomado por ansiedade – a filha da puta tão familiar – quando Hermione se mexeu em seu sono, soltando um resmungo.
Depois de tanto rezar para que ela acordasse, agora Draco tinha medo justamente de que ela o fizesse.
Um, dois, três. Um, dois, três. Respire. Você consegue fazer isso.
Ele não tinha muito tempo antes dela ter que ir para St. Mungus ou até mesmo que os grifinórios que ela chamava de amigos viessem até a enfermaria, mas o grande problema era que Draco não conseguia se mover. Estava estático sentado na poltrona, encarando-a com um semblante doente e ansioso. Havia sido uma péssima ideia ter ido para a enfermaria, concluiu. Ele devia ter continuado em sua cama, no seu mundo, ignorante a existência de Hermione Granger além da figura de sabe tudo irritante. Era melhor do que essa vontade de vomitar de tanto nervosismo. Era melhor do que a frieza com que ela o tratou no dia anterior.
Mas ele sabia que precisava falar com ela sozinha. Sem Potter nem Weasley. Talvez, só talvez, ela lembrasse dele. Lembrasse dos dois.
Talvez...
Quando voltou seu olhar para o rosto de Hermione, ela o estava encarando.
A respiração travou em sua garganta e ele não sabia o que dizer. Ela não fez menção alguma de se mover ou falar algo. Ela só estava ali, o encarando, como se fosse uma estátua que respirava.
– Você acordou. – foi a única coisa que ele conseguiu dizer, e temeu que aquele encontro não fosse passar de uma reprise do que aconteceu antes.
Hermione não o respondeu. Ao invés disso, sentou-se e apoiou as costas na cabeceira gelada da maca. Ela pareceu não se importar – nem com o frio e nem com dá-lo uma resposta.
– Como você está se sentindo? – Draco tentou uma pergunta dessa vez. As palavras saíam estranhas da sua boca. Sentiu-se ainda mais desconfortável na poltrona.
– Fodida, não deu pra perceber?
Teria rido se não estivesse tão nervoso. Ah, como o jogo virou.
– Disso eu não tenho a mínima dúvida, Granger. – forçou um tom de voz bem-humorado para aliviar os nervos. Merlin, como aquilo era estranho. – Mas foi uma pergunta sincera; como você está? Você... se lembra do que aconteceu contigo? – sua voz vacilou na última pergunta, e Draco se perguntou se algum dia ele faria algo certo em sua vida.
– Eu me lembro de tudo. – foi o que Hermione respondeu por fim. Encarava as próprias mãos, os dedos brincando uns com os outros em uma clara demonstração de desconforto.
Draco não sabia o que fazer. Ela se lembrava. Ok. Bom. Como prosseguir com essa informação era a ideia que passava em sua cabeça como uma constante.
Os dois se encararam por um momento sem falar nada. Draco sentiu vontade de levantar da poltrona e deitar junto dela, tomando-a em seus braços e dispersando todos os seus medos. Mas Hermione o encarava sem nada revelar em seus olhos. A maneira em que ela o olhava era da mesma forma que alguém observava um aquário vazio. Uma lembrança de algo que um dia já foi interessante, mas que agora não é digno de sua atenção.
Sentiu frio, e não poderia culpar o clima de novembro. Outono estava chegando ao seu fim, mas o inverno estava ali, nos olhos dela.
– Eu acho que você deveria ir embora. – Hermione disse por fim, voltando a encarar os próprios dedos. – Eu tenho que ir para St. Mungus em breve e não quero me atrasar.
O tom de voz dela era resoluto, e não dava espaço para mais nada. Draco não precisou de segundas palavras, saindo da enfermaria com a promessa de nunca mais voltar para lá – ao menos não por ela.
X
4 DE DEZEMBRO DE 1998
Havia muito tempo que não se encontravam desse jeito. Tempo demais, na sincera opinião de Hagrid.
O trio de grifinórios sentados à sua frente tinha um lugar especial em seu coração. Sendo um meio-gigante, sempre lhe fora muito difícil conectar com outras pessoas, ser verdadeiramente reconhecido e respeitado. Desde a mais tenra idade, Hagrid era tratado com receio e zombaria, e infelizmente acostumou-se com tal tratamento. As pessoas podem ser muito cruéis, Hagrid pensava, mas temos sempre que dar o nosso melhor. Era o que fazia, sempre gentil independentemente da situação, e foi assim pelo restante de sua vida. Encheu-se de felicidade quando percebeu que aquelas três crianças viram além do exterior grande demais e o acolheram. Seria capaz de dar a vida por eles.
Lutaram juntos em uma guerra que finalmente teve fim. Voldemort – agora conseguia dizer o nome sem medo – havia morrido, e eles poderiam ter paz. Isso não queria dizer que os pesadelos haviam ido embora. Ainda haviam dias em que sentia o peso de Harry em seus braços enquanto era forçado a voltar ao castelo, sendo o arauto de uma notícia tão horrível. Era injusto, muito injusto, uma piada muito cruel, que Voldemort o fizera ser a pessoa a carregar Harry. Ele foi a primeira pessoa a introduzi-lo no mundo bruxo, e seria o último a carrega-lo. Nesses sonhos, porém, Harry não acordava e permanecia frio e morto enquanto os membros da Ordem da Fênix se rendiam ou recebiam o avada kedavra.
Chacoalhou a cabeça como se o gesto lhe ajudasse a afugentar tais pensamentos. Aquele era um momento feliz, não havia espaço para tristeza. Hagrid já havia passado por tanta, tanta coisa, e agora, pela primeira vez em décadas, sentia que poderia respirar. Eles poderiam respirar e se recuperar das feridas que uma infância perdida causou.
E mais do que tudo, aquele era um momento feliz porque Hermione finalmente havia saído da enfermaria.
Foi com surpresa que os recebeu naquela tarde de sábado. Havia um resquício de sol no céu, algo surpreendente para o clima gradualmente frio de dezembro, e isso fez com que o humor geral estivesse melhor. Seres humanos são plantas com sentimentos complexos, pensava Hagrid. Um pouco de sol era o suficiente para ver alguns sorrisos.
Havia chá e biscoitos, e foi o que ofereceu para eles. Conversaram um pouco sobre o clima, Hagrid comentou sobre com estavam as suas aulas de trato de animais selvagens e amenidades do tipo. Os NIEMs que se aproximavam foi o assunto seguinte.
– Hagrid, você não precisa me lembrar disso. – resmungou Ron com a boca ainda cheia de biscoitos. – Os NOMs já foram um pesadelo, eu não quero ter que passar por isso de novo.
– Ah, mas é necessário, muito necessário! E devem continuar estudando! – nesse momento olhou para Hermione, que comia silenciosamente o seu biscoito. – Hermione, imagino que agora você deva estar estudando ainda mais, não é? Depois de tanto tempo na enfermaria...
Até mesmo o pouco tato social de Hagrid o fez perceber que aquele comentário não foi dos melhores, apesar de não entender o porquê. Harry pigarreou e colocou as mãos nos bolsos, enquanto Ron mastigava a comida bem mais devagar. Hermione apenas arregalou os olhos por um segundo, como se não estivesse prestando atenção na conversa até o momento em que seu nome fora mencionado.
– Ah, os NIEMs, é claro que estou estudando. – ela soltou um riso pelo nariz. – Trinta e oito dias, não é mesmo? É muito tempo.
– De fato... Mas agora você está de volta, e vai compensar o tempo perdido! Só espero que você ainda possa me visitar e não acabe se isolando na biblioteca, precisa deixar sua mente descansar de vez em quando.
Por um segundo Hagrid jurou ter visto um sorriso zombeteiro nos lábios de Hermione antes de sua expressão suavizar. – É claro, Hagrid. Sem mais isolamento, prometo.
Algo na voz dela deixou Hagrid inquieto, mas não sabia o quê. Olhou para os meninos procurando respostas, mas ambos preferiram não encará-lo de volta. Fora Ron que levou a conversa para rumos mais leves, como o quanto os biscoitos estavam sensacionais e que estava rezando para que esse inverno não fosse tão cruel.
Quando o trio fora embora, Hagrid ainda se pegou refletindo sobre o sorriso de Hermione. Não era do feitio da garota zombar dele de nenhuma forma, e aquele sorriso em especial o fez sentir estranhamente inapropriado ao comentar sobre algo tão banal quanto suas longas estadias na biblioteca. Talvez comentar sobre sua estadia na enfermaria fosse delicado e muito recente. É, talvez fosse isso. Trinta e oito dias é tempo demais, Hermione só precisa de tempo para se acostumar.
Hagrid acabou descartando o pensamento e voltando sua atenção para Canino, que latia para sua vasilha vazia.
X
8 DE DEZEMBRO DE 1998
Era muito estranho observá-la através do Salão Principal.
Talvez estranho não fosse a palavra certa para esse caso. Ele o fazia constantemente, e já se tornara algo tão normal que o fazia sem pensar. Não era estranho. Era a sensação de persistir em um sonho que até mesmo você sabe estar fadado ao fracasso, mas por alguma razão não consegue desistir. Você acaba preso em um círculo vicioso com algo que você desejara tanto, mas que hoje só lhe machuca.
Ele não sabia especificar bem qual era o sentimento, mas no final do dia tudo estava tão confuso que para ele pouco importava definir o que sentia.
No final do dia, ele se sentia um merda.
Desde o seu último encontro na enfermaria, Hermione não o procurou, e ele também não forçou sua presença. Durante as aulas, observava distante a grifinória viver de mentira a sua vida, constantemente se perguntando se haveria um momento em que eles pudessem voltar a se falar ou se olhar ou se odiar. Qualquer coisa. Qualquer coisa além disso.
Se ele se concentrasse o bastante, era capaz de lembrar a última vez que a teve em seus braços. As horas em que passaram juntos naquela maca da enfermaria, dividindo segredos difíceis de serem ditos em voz alta. Se fizesse silêncio o suficiente, ele quase conseguia sentir a respiração dela em seu pescoço, como se quisesse tê-lo mais perto, como se o quisesse tanto quanto ele sabia querê-la.
E doía demais, porque agora ela não passava de uma memória distante – o sonho que ele não conseguia desistir mesmo se quisesse, mesmo se tentasse.
A única coisa que lhe restara agora era observá-la de longe. Observar alguém que não era Hermione Granger.
Ele se perguntava como ele era o único que a percebia tão vazia. Até mesmo antes, quando era perceptível ver a sua sanidade aos poucos se esvaindo, Granger tinha vida. Havia um brilho em seus olhos, aquela eterna curiosidade por todas as coisas existentes. Havia Hermione.
Eu gosto de Hermione. Só Hermione.
Tudo bem, Só Hermione. Considerando que nós dois já dormimos juntos duas vezes, eu poderia até te chamar de meu amor, não é mesmo?
Doía.
Sentia o peito pesado e precisou respirar fundo. Por trinta e oito dias, tudo o que ele mais pediu fora que ela acordasse, e que ele pudesse abraça-la apertado e confessasse tudo aquilo que sentia. Não havia mais medo da vergonha de o fazê-lo, porque ele havia passado trinta e oito malditos dias vendo seu corpo adormecido em uma maca. Trinta e oito dias rezando com uma fé desconhecida para que ela acordasse e voltasse para ele.
Seus dedos quase formigavam ao lembrar como era poder tocá-la. Sentia tanta falta disso. Mesmo sendo poucos os momentos em que de fato pôde fazê-lo, era real a vontade que sentia de abraça-la.
Fechou os olhos e, quando os abriu novamente, lá estava ela em seu campo de visão. E ele não conseguia desviar o olhar. Era a única forma que tinha de ainda se manter perto dela.
Como se sentisse a intensidade do seu olhar, ela o encarou. Às vezes ela fazia isso, mas o que mais doía era notar o vazio em seu olhar, a ausência de qualquer coisa Hermione nos olhos castanhos.
Era a mais completa e absoluta indiferença. Não apenas em relação a ele, mas a tudo. Uma falta de interesse, um descaso quase palpável. Aquilo contrastava intensamente com a menina que jamais se satisfez com meio conhecimento, com meias verdades.
Você precisa acordar, ele pediu novamente para qualquer divindade que pudesse ouvi-lo. Acordar de verdade.
X
12 DE DEZEMBRO DE 1998
– Eu preciso falar com você. – sussurrou Draco enquanto passava perto de Harry, não ficando para ver sua reação.
A ideia de abordar Potter veio no final da aula de história da magia. Não sabia o que fazer e já havia desistido do seu plano de não se importar com Hermione – um plano falho e risível que durou exatos dois dias, até sucumbir e voltar a procurá-la com os olhos onde quer que estivesse. Não havia maneira alguma em que ele pudesse voltar a ignorá-la. Ela se fazia presente demais em sua vida, mesmo quando não estava lá – mesmo quando ficava claro que ela não queria estar lá. E Draco não sabia o porquê.
Fora ela quem o procurou, fora ela quem forçou a amizade entre eles. Não era justo que ele agora pagava o preço por seu arrependimento. Talvez fosse um resquício de anos sendo mimado e paparicado, mas ele precisava de respostas. Ele precisava de algo que pusesse um fim a toda essa incerteza, mas não tinha coragem para confrontá-la novamente. A memória do seu descaso na enfermaria ainda estava fresca em sua mente, e esperava que uma abordagem diferente talvez ajudasse. Hermione desfez todas as suas defesas e era injusto que agora ela o deixara sozinho e exposto ao ponto de falar com Potter.
Caminhava a passos lentos na direção contrária de todos os outros alunos, que iam em direção ao Salão Principal para o almoço, o que tornava fácil para Harry o segui-lo. Entrou em uma sala em desuso e esperou pelo menino que sobreviveu.
Não demorou muito para que Potter aparecesse. Sem dizer nada, Draco lançou um Muffliato e fechou a porta. Harry o encarou com desconfiança, a varinha em punho.
– Você acredita mesmo que eu vou desfazer o meu acordo com o Ministério só pra atacar você? – perguntou Draco com a voz arrastada, tão parecida com sua voz em uma época mais simples.
Harry não respondeu e também não guardou sua varinha, mas sua postura relaxou um pouco. – O que você quer, Malfoy? Provavelmente não me chamou até uma sala abandonada pra falar sobre acordos e ministérios.
Draco guardou sua varinha, e apoiou o corpo na parede oposta à porta, com um falso relaxamento que em nada refletia o que se passava em sua mente. Estava nervoso pra caralho, mas Potter não precisava saber disso. – Então vamos direto ao ponto, Potter: eu não posso ser o único a notar como Hermione está. Eu só estou falando contigo porque sei que vocês passam muito mais tempo juntos.
Era estranho falar com Potter. Mesmo após tê-lo visto testemunhar ao seu favor em seu julgamento, era difícil se referir ao garoto que sobreviveu com algo além da familiar animosidade. Não mais fazia campanhas para vê-lo falhar ou passava horas dos seus dias imaginando maneiras para atormentá-lo, mas velhos hábitos não são fáceis de quebrar. Sentia-se grato pelo garoto de olhos verdes tê-lo salvo de uma vida em Azkaban, mas procura-lo por ajuda? Procurá-lo porque Hermione Granger não o reconhece mais? É como se estivesse vivendo em uma realidade alternativa.
Harry soltou uma risada baixa, cortando sua linha de raciocínio.
– Hermione não está nada estranha pra mim. Isso só pode ser coisa da sua cabeça, Malfoy.
– Eu nunca falei que ela estava estranha. – Draco não conseguiu controlar o sorriso no canto da boca. – A única pessoa dessa sala a usar o termo estranha aqui foi você.
A expressão de Potter endureceu, como se tivesse sido manipulado, mas francamente, não era necessário ter um intelecto avançado para brincar com grifinórios. Muitas vezes eles eram os próprios a montarem suas armadilhas.
– Foda-se. Eu conheço a minha amiga, e ela está bem. – Harry falava com uma certeza que Draco duvidava que ele realmente sentia.
– Você não pode ser obtuso desse jeito, Potter. Como que você não consegue notar que Hermione não é a mesma desde que ela acordou do coma? – havia algo de raiva e desespero no tom de Draco, e ele esperava que o outro não percebesse.
– Você já parou pra pensar que ela só não quer falar com você? – Harry desviou de sua pergunta e isso não passou despercebido por Draco. – Que talvez você não passou de uma distração?
– Ah, Potter, não tente transformar o assunto em algo somente meu-
– Mas é algo somente seu! Você me chama pra conversar pra que, pra falar que Hermione não está normal por não estar falando contigo?! Anormal é o fato dela falar com você em primeiro lugar! Muito provavelmente esse tempo na enfermaria fez com que ela percebesse que essa amizade entre vocês não valesse a pena. Que você não vale a pena. – o ódio pingava das palavras de Harry como uma torrente antiga que finalmente encontrara o momento perfeito para se romper.
Draco não conseguiu segurar a careta de escárnio que substituiu o seu cuidadoso e falso semblante de calmaria. Ele agora abertamente encarava seu antigo inimigo com raiva brilhando nos olhos. Abriu a boca para retrucar, mas Potter foi mais rápido do que ele.
– Você a viu ser torturada, Malfoy. Você ficou ali, sentado que nem o covarde que é, enquanto Bellatrix a marcava e a torturava. Você não fez absolutamente porra nenhuma pra ajuda-la, e agora espera que ela volte de braços abertos pra você?! Talvez ela tenha se lembrado de tudo. Talvez no início desse ano ela tenha se esquecido que você foi o filho da puta que a chamou de sangue ruim pela primeira vez, que foi você quem sempre tornou a vida dela em Hogwarts um inferno, que foi você quem trouxe os comensais da morte pra cá, de qual lado da guerra você lutou.
– Você sabe muito bem, Potter, o porquê de eu-
– Eu estava no seu julgamento, lembra? Eu sei as razões de muitas das coisas que você fez, mas elas não servem como justificativa. Você é um pedaço de merda preconceituoso e com dinheiro, Malfoy.
Draco sentiu vontade de soca-lo ali mesmo. Que se fodesse o ministério e acordos e Azkaban. Seria capaz de matar Potter com as próprias mãos, porque infelizmente tudo o que ele falou era verdade. E talvez Hermione soubesse disso.
Eu me lembro de tudo.
Sentiu vontade de vomitar e fugir e morrer. E parecia que Potter ainda iria esfregar mais sal nas suas feridas.
– Não vai falar nada? – perguntou em um tom zombeteiro e soltou um riso de escárnio. – Você sabe que é verdade, Malfoy, então não adianta em nada vir falar comigo sobre Hermione. O que quer que estivesse acontecendo entre vocês dois acabou, e já passou da hora de você aceitar isso. Deixe ela em paz, Malfoy.
– Isso é algo que apenas ela tem que decidir, Potter, não você.
– É, e parece que ela já decidiu, não é mesmo?
Potter lançou um último olhar de escárnio em sua direção para então abrir a porta e ir embora para comer seu almoço ao lado de Hermione, que provavelmente não iria ignorá-lo da maneira que ela o ignorava. Ele sabia (sentia) que algo estava estranho com ela, mas as palavras de Potter se infiltravam em sua mente como erva daninha.
Talvez ele estivesse certo. Talvez a atitude mais sensata seria esquecer o que quer que ele e Hermione Granger tiveram.
Sentiu vontade de destruir algo, qualquer coisa, e gritar até sentir a garganta doer. De ir até Hermione e chacoalha-la pelos ombros e perguntar o que havia acontecido com ela, com eles, o que havia dado errado no meio do caminho. Mas Draco estava cansado demais para sentir raiva ou para fazer qualquer coisa.
Optou por ir para a biblioteca ao invés do Salão Principal, tendo perdido a fome depois da discussão com Potter. Mais uma vez se viu prisioneiro dos seus próprios erros, e não havia nada que pudesse fazer para consertá-los.
Na biblioteca, se pegou indo em direção à mesa onde ela o abordou pela primeira vez. Ao se sentar na mesma cadeira daquele dia, se lembrou do momento em que ela perguntou se poderia sentar com ele, da surpresa ao ver que ela, dentre todas as pessoas no castelo, o havia procurado. E ele permitiu que ela se sentasse, que ela invadisse seus pensamentos, que se transformasse no seu porto seguro.
Se soubesse o que viria a sentir, será que ele permitiria que ela se sentasse? Será que deixaria as coisas tomarem o rumo que tomaram? Sabendo do fim, teria ele deixado Hermione Granger entrar em sua vida e bagunça-lo completamente por dentro?
Tamborilou os dedos na mesa enquanto refletia sobre suas perguntas.
Que se fodessem as respostas, concluiu, que se fodessem todos os grifinórios. Ele estava cansado dessa merda toda.
Saiu da biblioteca em direção ao salão comunal da Sonserina. Esperava que Blaise ainda tivesse alguma garrafa de firewhiskey guardada. Ele precisava esquecer que essa conversa havia acontecido.
N/A: Aqui está o resultado de três anos de espera (rindo de nervoso). Eu acho engraçado que no último capítulo comentei que esperava que o próximo não fosse postado no ano que vem, e olha só, só foi postado em 2020! HAHAHAHA Eu terminei de escrever no dia 22, mas queria atualizar no aniversário de uma década. Dez anos de postada e três anos pra atualizar. Acho que nunca passei tanto tempo sem atualizar uma fanfic.
*Checa as notas* Espera, ainda tem Poesia das Ruínas e Ação e Consequência. Esquece o que eu falei HAHAHAHAHA
Eu não sei o que dizer sobre esse capítulo além de que ele foi um parto pra sair, e que eu não desisti dessa fanfic. Demorei pra um senhor caralho pra atualizar, mas não desisti. No meu planejamento, tem somente mais dois capítulos pra escrever, e nem sei mais se farei uma continuação. Assim que terminar DNESL, pretendo traduzi-la para o inglês e postar no meu perfil do AO3 (aliás, qualquer nova fanfic minha muito provavelmente será postada lá). Acabei me apaixonando pelo sistema do AO3, mas ffnet sempre será minha casa. Dez anos como ficwriter estão registrados aqui, não é pouca coisa não.
Enfim, fico aqui com o meu desejo que vocês gostem e revisem. Nem sei mais se ainda tenho leitores, mas espero que sim. E eu espero encontrar forças e inspiração pra postar até o ano que vem (será que dessa vez funciona?!).
Publicado em: 24/11/2020.
