O camarote que pertenceu a família Potter durante um curto período — que Serguei comprou usando o que ele tinha de melhor, a sua lábia e a mentira. — E agora estava condenado da mesma maneira como o navio fazia silêncio. O russo estava calmo aparentemente, entrou no camarote a passos delicados, enquanto ajeitava o cabelo de um jeito soberbo e despreocupado. A jovem sorria maliciosamente, mas por dentro ainda temia cometer um ato desnecessário, o canivete estava ali, guardado, de certa forma a convidando para matar aquele homem que tanto lhe fez mal e ainda achava que ela deveria amá-lo daquela maneira.

— Casamento são festas muito expressivas. — Disse enquanto encarava as paredes. — Com a pessoa correta mais ainda. Como já disse, desejo as mais puras felicitações ao seu casamento com um marinheiro literalmente de quinta categoria.

Marina não havia falado por não ser o momento mais adequado para falar algo que causaria ainda mais conflito, ainda mais tendo-se consciência que a reputação da família dentro daquele navio naufragou para mais fundo do que já estava, falar que ela casou-se com um oficialzinho que nem conhecia direito a bordo do glorioso e inafundável Titanic seria o fim da linha. Serguei era um vulcão, nunca se sabia quando ele iria acordar seu lado ruim e muito menos como seria essa explosão que dependia do acontecimento para detectar a gravidade.

— Digo, senhor Serguei. — Marina precisava matá-lo o mais rápido o possivelmente e as palavras bonitas conseguiam persuadir Serguei de maneira impressionante. - Que este casamento fora um ato impulsivo. - Abraçou-o por trás. - Quando jovens vivemos aventuras sem pensar nas consequências e nem usar a razão.

— Não acredito na sua fala. Você me enganou durante dias e acha mesmo que essas palavras bonitas que saem de você soam verdadeiras?

— Pois se não acredita. — Marina caminhou e pegou um casaco quente que estava jogado no sofá. Colocou a vestimenta. — Dou-lhe a permissão para beijar-me como prova das minhas palavras.

Serguei não estava acreditando e achava ser uma emboscada para prender ou matar. Ele próprio acabou esquecendo o que iria falar.

— Ainda não acredito. — Virou o rosto.

— O navio está afundando e eu não gostaria de partir sem antes lhe dizer de... — Tirou a aliança. — De dizer que o senhor foi um amor único e que meus pensamentos atrapalharam o amor tão puro que estávamos vivendo, afinal nos conhecemos a cerca de dois anos.

O russo começava a se dar como vencido. Acreditava de alguma maneira que ela estava sendo sincera, deve ter sentido compaixão dele, era a consequência que as pessoas sentiam ao ouvir sua triste história.

— Quer dizer que a senhorita Potter teve a mente iluminada pelo Eterno e reconheceu o amor que sente por mim? — Serguei ficou de frente para a mulher. —Mas ainda tenho minhas dúvidas, falastes o mesmo e voltou a cometer o mesmo erro.

Marina se aproximou dele, fazendo transparecer um olhar malicioso e ao mesmo tempo gentil.

— Podemos recomeçar. —Pegou na mão do homem. — A bordo de um bote e tudo isto ser apenas um daqueles pesadelos que todos nós temos. Eu quis assim e estou disposta, meu caríssimo Serguei.

Ela conseguiu enganá-lo de tal maneira que todas as dúvidas pareciam ter sumido como ar. Serguei sentiu-se a pessoa mais bonita, exalou uma soberba no sorriso malicioso. Marina não tardou em dar a ele um beijo indiscreto, para que assim apunhalasse em alguma parte do corpo, mas acabou, pelo calor do momento — ele não beijava bem e seus lábios eram de certa maneira secos, dava uma sensação de beijar espinhos. — O apunhalou no braço esquerdo e não nas costas. O russo a encarou com fúria ao perceber o sangue jorrar do braço, se encostou na parede na tentativa frustrante de fazer a dor passar.

— Sua desgraçada!

— Eu não tenho mais medo de você, sua máscara caiu no dia em que tentou ceifar com a minha vida e nem pense que eu tenho dó da sua historinha que pode muito bem ser mais uma das suas mentiras mirabolantes para arrancar a compaixão das pessoas.

— Como fui bobo de acreditar. Mas você apenas piorou as coisas, nem para matar alguém és útil, sua vadia de marinheiro, vamos ver quem vai ter sorte.

Serguei a puxou pelo braço violentamente para o lado de fora do camarote. Esbarrava nas pessoas com grosseria, apesar de ferido ainda tinha força de puxar alguém pelo braço pelos labirintos do Titanic. O que ele mais via era mulheres com casacos quentes e chapéus, homens de terno alinhado e camareiros com coletes na mão. O russo estava furioso, agora estava disposto a cometer toda as atrocidades possíveis apenas por ódio, por vontade de ver as pessoas sofrendo e difamar a família Potter de uma vez por todas. Na segunda classe tudo estava mais vago, mas ainda se tinham pessoas passando com suas crianças, bagagens e coletes, na terceira era o caos estalado pelo desespero. Mas Serguei não queria saber, por sorte encontrou um portão aberto que dava acesso a um corredor vazio na terceira classe, cujo o camareiro havia esquecido a chave no chão. Encarou. Pensou um pouco. Pegou a chave do chão e encarou a jovem.

— Já que não quis me conhecer como anjo, vai me conhecer como o diabo, isto é se sobreviver, a insignificante terceira classe vai afundar toda sem direito a resgate e não seria má ideia trancar você nesta escada, vamos ver se os oficiais encantados da White Star Line vão te resgatar.

— Seu idiota! — Marina tentou apunhalar mais uma vez com o canivete, mas foi jogada contra a escada, caindo no corredor. Serguei foi rápido em começar a trancar, achando a chave logo de primeira.

— Bom naufrágio. — Debochou. — E seu corte idiota não me matou, deixou meu terno ainda mais bonito com esse sangue expelindo.

— Vai para o inferno! — Ela gritou, se segurando nas grades do portão.

— Vá primeiro e guarde meu lugar. — Serguei voltou a debochar, dando um chute no portão. — Espero que sua morte seja agradável. Tudo o que desejas para alguém, volta, não é?

O homem correu, rindo de forma maléfica como um demônio. Marina desceu as escadas rapidamente, encontrando o corredor vazio, com as portas abertas e algumas bagagens espalhadas pelo chão.

— Alguém? — Gritou a jovem, sem saber para onde correr.

Marina fechou os olhos e correu pelo lado esquerdo.

O caos no convés também começava a se tornar notável. Mulheres não queria deixar seus maridos e eram obrigadas a entrar nos botes, o que também era caso de crianças que não queriam deixar os pais, outros casais beijavam-se em público como despedida e mais alguns tentavam entrar nos botes de qualquer maneira, rendendo aos oficiais a triste missão de expulsar os que estavam causando desordem.

Lowe estava exausto, apavorado e terrivelmente preocupado. Moody também compartilhava o mesmo sentimento, colocando em sua face juvenil uma expressão assustada, que só piorava cada vez mais quando ele percebia que era totalmente despreparado para uma emergência naval, não sabia se enchia o bote por completo, se algum homem poderia entrar, se mandava com meia lotação. O barulho das chaminés zumbindo nos ouvidos dos oficiais ainda causava mais estresse, e junto aos gritos e a desordem completava o cenário de caos no convés dos barcos. Uma amostra grátis do estresse era uma discussão entre o quinto oficial e o "dono" do navio, o senhor Ismay, que tinha deixado os nervos à flor da pele mais ainda.

— Afastem-se! — Moody apontou uma arma para cima. — Senhores, por favor, colaborem! Eu não quero atirar em ninguém, não faz parte do meu caráter! — Baixou a arma ao perceber que as pessoas foram intimidadas. — Venha, senhora. — Ajudou uma senhora muito bem vestida a entrar no bote.

— Senhor Moody. - Lightoller ordenou. — Venha comigo, ajude-me a conter a desordem e colocar as pessoas no bote de número 14.

O rapaz assentiu e Murdoch deu a permissão para que ele saísse. Andou a passos largos junto a Lightoller. Lowe estava embarcando as pessoas e parecia muito cansado, o sexto oficial teve que ajudar de um lado e o irmão estava ajudando no lado contrário.

— Mais mulheres e crianças. —Gritava o quinto oficial. — Venha senhorita. - Puxou uma jovem de cabelos castanhos e colocou no bote.

— Se afastem senhores! — Lightoller separou um casal que se despedia com brutalidade, enquanto Moody se virava para colocar quem podia nos botes.

— Acho que já se esgotou, senhor Lightoller. — Lowe falou, ainda confuso se estava tudo cheio ou não.

— Leve este bote, senhor Lowe. — Ordenou o segundo oficial.

O quinto oficial encarou Moody, ele não queria ir sem pelo menos levar Marina e nem deixar o irmão sozinho.

— Vá, Lowe. — Moody falou, com os olhos marejados. - Eu procuro Marina assim que arrumar uma brecha e prometo fazê-la sobreviver, eu te juro, Lowe, eu te juro.

— Isabellinha, venha comigo, ainda te cabe. — O oficial gritou. Isabella estava esperando a ordem de Lowe para saber o que iria ser dela, ele prometeu coloca-la no mesmo bote que o seu.

— Nós vamos partir sem a Marina? - indagou a menina. — Não! A minha irmã, ela preferiu ficar por mim e eu devo fazer o mesmo.

— Vá com Lowe, Isabella, eu prometo que vou buscar sua irmã. — Moody se ajoelhou. — Olha, não chora, vai ficar tudo bem, daqui a pouco o dia amanhece e tudo estará terminado e estaremos todos juntos realizando nossos planos. Não esquece que eu te amo, certo?

A menina o abraçou, chorando. Via em Moody um irmão mais velho.

— Vem. — Lowe a puxou, a colocando no colo da mesma mulher de cabelos castanhos, chamada Dorothy, em seguida ele se colocou no bote, sobre os olhares de Moody.

O sexto oficial recebeu a orientação de mandar o bote baixar, Lightoller estava contendo o caos que se formava em torno. O rapaz fazia o gesto enquanto encarava o irmão com os olhos cheio de lágrimas, não querendo demonstrar o quanto estava triste por deixar aqueles que chamou de família por alguns dias partirem sem nem ao menos uma resposta concreta de sobrevivência.

— Eu te amo, James Sanders. — Gritou Dorothy.

— Eu te amo, Dorothy Chambers. — Respondeu o rapaz.

Isabella encarou a jovem triste que a segurava no colo com certo pesar.

— Palavras trocadas docemente entre casais são bonitas, mas tem certos garotos estragam tudo. - Falou Isabellinha, fazendo a jovem rir e Lowe a encarar com preocupação.

Moody percebeu que o bote já estava no oceano, e a sensação de que deveria salvar Marina gritou alto em seu peito. Promessa era promessa, e elas deviam ser cumpridas. Saiu desesperadamente de seu posto, chegando à escadaria principal. Olhava para os todos os lados, sabia que tinha que encontra-la, mas não fazia ideia de onde começar a procurar, não até ver o noivo cochichando alguma coisa com o senhor Edward Relish e seu filho. O oficial se escondeu atrás de uma das colunas.

— Eu a deixei na terceira classe, que deve estar começando a se inundar a esta altura. Falando nisso, senhor Relish, qual oficial compraremos para adentramos um bote e salvar nossas vidas?

— Murdoch ou Lightoller, eles me parecessem mais fáceis de lidar.

O sexto oficial segurou a vontade de matar aqueles dois idiotas, a criança colocaria em um bote e os outros iria jogar no mar. Mas agora que sabia onde procurar. Chegou a terceira classe e deparou com a escadaria principal daquela classe fechada, com um barulho insuportável de pessoas tentando lutar por suas vidas, mas se depararam com um empecilho de desumanidade.

— Abram este portão agora! — Ordenou Moody.

— Mas senhor, queremos evitar problemas. — Falou um homem, aparentemente um comissário ou camareiro.

— Problemas vão enfrentar vocês se não abrirem este portão! São vidas, importam! Abram! Estou mandando!

O homem colocava a chave na fechadura com temor de uma desordem, mas girou e abriu o portão, saindo dele diversas pessoas diferentes, entre homens, mulheres e crianças - que Moody não hesitou em deixar passar.

— Moody, estou aqui! — Gritou Marina, em meio as pessoas, subindo os degraus rapidamente. — Santo Deus que você apareceu! Onde está Lowe?

— Ele partiu, mas prometi a ele que iria deixar você viva, então venha comigo. — Moody encarou a todos. — Venham comigo vocês também, todos para o convés!

Os passageiros da terceira classe hesitaram antes de acatar a ordem.

Murdoch, dos oficiais, era, com certeza, o mais exausto. Gritava muito, dava ordens e tinha que presenciar determinadas cenas - como a de homens entrando no barco sem necessidade, apenas para escapar. O oficial não sabia o que fazer e ia se baseando em seu próprio achismo, mas isso não retirava seu mérito de herói.

— Senhor Murdoch. — Uma voz de sotaque russo o fez paralisar por um momento. - Eu e o senhor Relish temos uma proposta.

— Sejam breves. — Falou o oficial, como se não se importasse.

— Em troca de um lugar nos botes, daremos ao senhor uma grande quantia em dinheiro. — O senhor Relish entregou o dinheiro.

— O senhor pode entrar por causa da criança, mas entre outro senhor... Não. E guardem este dinheiro para salvar suas vidas pela manhã, tudo de forma honesta vale mais.

Fogos de artificio iluminaram o céu. Serguei estava irritado, mas não demostrou. O senhor Relish entrou em um bote com Steven. Uma multidão de pessoas entrou no convés, dentre elas estava Marina e Moody.

— O que significa isso, senhor Moody?— Indagou Murdoch, irritado. — Deixou-nos na mão por causa de mulherzinha? Tenha decência!

— Para o senhor ver a qualidade dos oficiais. — Zombou Serguei. — Eles traem até mesmo os próprios colegas, o que Lowe diria se visse o senhor de mãos dadas com a vadia dele?

— Ele ficaria feliz pois prometi que iria deixar Marina viva, coisa que com certeza o senhor nunca faria, tendo em vista as tentativas de assassinato com grande frequência. - Moody não teve medo de rebater. - Quem é o senhor para falar de desonestidade e traição?

— Alguém melhor que você, certamente.

— Moody, calma. — Pediu Marina, soltando sua mão. — Deixe esse imbecil falar sozinho.

O oficial se acalmou e voltou ao seu posto. Serguei se aproveitou do momento de conflito para entrar no bote e mesmo com sua presença desagradável, este bote foi abaixado.

O tempo estava se esgotando, mas ainda havia a possibilidade de lançar dois botes — os dois desmontáveis A e B — que estavam no teto do quarto dos oficiais. Tinham que ser rápidos, colocavam remos para fazer o bote deslizar. Marina tomou coragem e resolver ajudar aqueles homens, mas o resultado foi desagradável, o bote caiu de cabeça para abaixo e o tempo se esgotou, a água começava a entrar com fúria no convés dos botes.

— Cada um por si! — Gritou Lightoller.

— Marina, vamos ter que pular. — Moody falou, apavorado ao ver a água entrando cada vez mais. - Não há mais o que fazer, agora é cada um por si.

— Não vamos nos separar, Moody. — Marina falou, firme.

Os dois deram as mãos e pularam por cima do bote, em seguida pulando na água congelante do atlântico norte. A água estava congelada, na hora do pulo houve uma pequena dor que lembrava espinhos perfurando o corpo, atrás de Marina e Moody estava acontecendo o pior desastre da história e agora tinham que buscar uma força de sair daquela água com vida.

— Eu não sei nadar. — Marina exclamou.

— Desgraça! — Ele exclamou. — Não solte minha mão, vamos nadar para longe do navio. quando ele afundar a água vai nos sugar. Depressa.

A moça o encarou antes de mergulhar nas águas profundas.