Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Abby Green, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books.


Capítulo 7

Na manhã seguinte, Orihime ficou grata por Ichigo parecer preocupado. O trajeto até o aeroporto foi silencioso. Ele lhe levantara o rosto e examinara cuidadosamente o seu lábio, e ela sentira a temperatura subir.

- O inchaço desapareceu. Mais alguns dias, e não se verá nada.

Ela sentiu vontade de dizer que já sabia, e, em parte, apreciava a sua preocupação, ainda que fosse superficial. O jatinho particular era extremamente luxuoso, e ela se sentiu intimidada por mais uma demonstração da fortuna de Ichigo, enquanto, com indiferença, ele ocupava uma poltrona dupla junto à parede oposta. Depois que o avião levantou vôo e ela recusou o champanhe, o silêncio caiu entre os dois. Ela desejou ter trazido um livro pelo qual pudesse se fingir interessada. Estava consciente demais da presença de Ichigo e se sentia tentada a lhe perguntar o que havia de errado.

Ela se arriscou a olhar para ele e o viu com a cabeça apoiada no encosto da cadeira, de olhos fechados. Seu rosto estava tenso. Não deveria estar dormindo. Orihime observou a sombra que as pestanas faziam sobre as marcantes maçãs do seu rosto, o queixo contraído. A camisa aberta no pescoço deixava entrever os pêlos do seu peito contra a pele. Ichigo abriu os olhos e a surpreendeu olhando para ele como uma adolescente excitada. A despeito da sua aparência relaxada, ele estava alerta como um animal preparado para dar o bote.

- Tenho uma proposta a lhe fazer - disse ele.

- Que tipo de proposta ? - extremamente nervosa, ela cruzou as pernas e pigarreou. Ichigo olhou para suas pernas e, instintivamente, ela as fechou.

- Acho que você mostrou o quanto está determinada a salvar a sua propriedade.

Ela corou ao pensar no desespero que sentira no quarto de Sousuke Aizen. O homem poderia tê-la machucado muito mais do que fizera.

- Eu não faria de novo o que fiz ontem à noite. Foi estupidez.

Ele reagiu imediatamente.

- Você estava fora do seu terreno.

Orihime se rebelou, mas ele tinha razão, e ela só queria esquecer o assunto que a fazia reviver tantas emoções dolorosas.

- Você ainda pretende arrumar um investidor ? Não vai vender ?

- Nunca ! - declarou ela, abanando a cabeça.

- E vai continuar a procurar um investidor ?

- É preciso.

- Era isso o que eu temia - Ichigo disse secamente.

- O que quer dizer ? - perguntou Orihime, preocupada.

- Não será fácil. Aizen já deve estar denegrindo o seu nome. Se ontem à noite ele me disse que vocês haviam dormido juntos, deve estar dizendo o mesmo para os outros.

Ela se sentiu nauseada. O seu desejo era gritar que era inocente, mas Ichigo não acreditaria.

- O que isso quer dizer ?

- Quer dizer que, a não ser que vá para a Europa para fazer contatos, você não terá nenhuma chance de encontrar um investidor.

Orihime começou a se sentir mal. Não possuía dinheiro para a viagem e não poderia pedir ajuda ao seu antigo empregador, que tinha um próspero negócio, mas não o suficiente para lhe emprestar o que ela precisava. Além disso, ela o abandonara depois de ele ter financiado o seu curso. Já fora bastante generoso.

- Então, o que está fazendo ? Mostrando o quanto o meu caso é perdido ?

Ele a levara exatamente para onde queria. Bem, não exatamente. Ele queria realmente vê-la deitada, implorando por ele. Mas aquele seria um meio de atingir seu objetivo. A noite anterior lhe mostrara o quanto ele perdia o controle ao chegar perto dela. Precisava possuí-la, mas, ao mesmo tempo, se proteger daquela fraqueza. E a proposta que iria fazer o protegeria.

- Eu vou investir na sua propriedade.

Ela ficou muito pálida, respirou fundo e o sangue voltou a lhe colorir o rosto.

- De jeito nenhum. Você está pretendendo me destruir.

Ichigo sorriu.

- Admito que, no início, eu queria que você fosse embora, mas, desde que voltou para casa, a vida se tornou mais divertida.

Ela cruzou os braços e ele não conseguiu desviar os olhos dos seus seios. Precisava possuir aquela mulher. Se não o fizesse, ficaria louco.

Orihime fervia por dentro. Então, Ichigo considerava-a divertida ? Ela percebeu que ele se sentava ao lado dela e esticava as pernas, prendendo-a no assento.

- O que acha que está fazendo ? - resmungou ela. Ele sorriu.

- Vou lhe mostrar que só lhe resta aceitar a minha proposta, ou as suas terras serão devastadas e os seus empregados ficarão sem nada, depois de longos anos de trabalho.

Ela fechou a boca que abrira. Hisana e Byakuya nada possuíam além do que ela lhes dava. Sequer recebiam o salário. Ichigo pareceu ler seus pensamentos e falou gentilmente:

- Se você aceitar o meu investimento, farei um plano de saúde para Byakuya e Hisana. Byakuya poderá voltar a trabalhar nos vinhedos. Você poderá contratar um novo chefe vinhateiro. Precisa de novos barris, e sabemos que eles custam caro. Da última vez que fiquei sabendo, seu pai ainda usava uma basquet press.

Orihime ficou muito vermelha. Seu pai preferia antigos métodos.

- A basquet press está voltando à moda.

- Eu não nego - disse ele - Eu também a uso em algumas uvas. Mas ela não é suficiente: deve ser um recurso secundário em uma produção mais moderna. E um luxo equivalente a você colher as uvas manualmente.

- Você ainda colhe manualmente - protestou ela.

- Sim, mas só no caso de certas uvas. A maior parte das nossas colheitas é feita por máquinas.

Ela sentiu uma dor no peito. O que Ichigo usava na vinícola era um misto de antigo e de novo, da maneira como ela sempre sonhara fazer.

- Nem todos os seus vinhedos estão arruinados. Existe esperança de você ter uma produção respeitável no próximo ano, se cuidar das vinhas agora e fizer a poda. E quanto aos vinhedos que produziram alguma coisa ? Como irá fazer a colheita sozinha, só com Byakuya ?

Ela se encolheu. Não conseguia desviar o olhar fascinado com que encarava Ichigo. Ele estava batendo nos muros que ela construíra, mostrando os buracos que levariam a derrubá-los.

- Vou redigir um contrato que será um documento legal. Investirei na sua propriedade, fornecerei mão-de-obra e material, novo maquinário. Supervisionarei a produção do primeiro vinhedo a funcionar, seja no ano que vem, ou no próximo. Depois, prometo me retirar e deixar que você assuma o trabalho.

Orihime ficou desconfiada.

- Você vai embora ?

Ele riu cinicamente.

- Não sem todos os anos receber uma parte significativa dos lucros, Orihime, até recuperar o meu investimento. Durante algum tempo, você não receberá muito, mas eu lhe darei a sua propriedade de volta e os seus empregados estarão protegidos.

Uma pequena semente de esperança e animação floresceu dentro do peito dela. Ichigo estava sendo mais que generoso. Ela pensou nele supervisionando tudo, dando ordens, e a esperança morreu.

- Você vai transformar a propriedade dos Inoue em uma das suas subsidiárias.

Ele sacudiu a cabeça.

- Não é nisso que estou interessado. Gosto da idéia de criar alguma competição, e estou interessado em ver como você administraria as coisas.

Orihime não via Ichigo aceitando seus conselhos.

- Você colocaria isso no contrato ? - perguntou ela, desconfiada.

- Claro. Tudo por escrito. Você poderá lê-lo com seus advogados.

Orihime se apavorou. Não tinha dinheiro para advogados. Ela e Byakuya fariam o melhor possível… ela se assustou: já estava pensando como se tivesse concordado ? A facilidade com que ele a manipulava era impressionante, mas ela não iria perder a classe.

- Preciso pensar.

- Não há muito o que pensar - ele sorriu - Ofereço-lhe a escolha entre afundar ou nadar - ele se acomodou na cadeira, apoiou a cabeça e, em alguns minutos, ressonava.

Orihime cruzou os braços e sua cabeça fervilhava. Olhou desconfiada para Ichigo. Ele tinha um objetivo. Não deveria ser tão simples. Ela olhou pela janela e viu os pampas abaixo. Era o que sempre desejara. A chance que lhe fora negada a vida inteira pelo pai, e, quando ele finalmente cedera, fora tarde demais. E agora, Ichigo Kurosaki, a pessoa mais improvável do mundo, lhe oferecia uma segunda oportunidade. Ela tinha responsabilidades para com os empregados. Byakuya e Hisana não poderiam trabalhar indefinidamente: chegaria uma hora em que precisariam se aposentar.

Ela suspirou e o cansaço finalmente a levou a dormir.


- Orihime…

Ela acordou sobressaltada. Estivera sonhando com Ichigo e o seu rosto formigava, como se tivesse sido acariciado. Ao abrir os olhos, ele estava tão próximo que ela via as rugas nos cantos de seus olhos. Percebeu que estava excitada e que o sonho deveria ter sido erótico, e encolheu-se na poltrona.

- Vamos aterrissar em poucos minutos. Coloque o cinto de segurança.

Ela colocou o cinto e respirou aliviada quando ele se afastou. Logo depois aterrissavam, entravam no jipe dele e saíam de Mendoza, em direção a Villarosa.

Orihime sentia-se exausta, física e emocionalmente. Ele estava muito sério. Teria ela imaginado a conversa no avião ?

Ichigo levou-a até a entrada de casa e parou o carro.

- A recuperação da casa faria parte do contrato - disse ele.

- Por que está fazendo isso ?

Ele hesitou e deu de ombros.

- Eu tenho recursos… não gosto de ver boas vinhas virarem pó.

Orihime tentou entender. Não podia concordar sem saber por quê. Ela se virou no banco e o encarou.

- Mas as nossas famílias… a discórdia… nós brigamos por tanto tempo. Como vou saber se você não vai assumir controle total ?

Ele contraiu a boca e algo de ambíguo brilhou nos seus olhos.

- Uma vez você me disse que a briga não tinha valor para você.

Ela se entristeceu ao pensar no passado.

- Você me disse o mesmo, e de repente tudo explodiu novamente.

- Os nossos pais estão mortos, Orihime - disse ele com severidade - Agora somos apenas nós. Estou disposto a esquecer, se você estiver.

Orihime não acreditou nele nem por um segundo. Podia ver algo mais brilhando nos seus olhos e se encolheu intimamente.

- Há uma condição na minha proposta, e ela não estará no contrato - disse ele.

Ela se arrepiou imediatamente.

- Eu sabia que era bom demais para ser verdade. Qual é a condição ? - ela precisou esperar algum tempo, com os nervos vibrando de tensão, até que ele, por fim, respondesse.

- Uma noite comigo, Orihime. Uma noite em minha cama, para acabarmos o que começou há oito anos.

Orihime olhou para ele, perplexa. Sabia o que acontecia entre os dois: algo que vibrava no ar quando se aproximavam. E, na noite passada, ela quase lhe implorara para possuí-la… mas tinha esperança de poder ignorar a verdade e Ichigo acabara de pô-la em evidência, incluindo-a em sua proposta de negócios. Ela sentiu um nó na garganta e sacudiu a cabeça.

- Você pode não acreditar, mas ontem à noite eu recebi uma proposta semelhante e recusei. Por que acha que seria diferente ?

Ele se inclinou em sua direção e ela não tinha para onde escapar. A maçaneta da porta lhe machucava as costas. Ichigo se aproximara tanto que ela sentia o seu hálito sobre o rosto. Ele passou o dedo pelo seu queixo, por debaixo do decote da camiseta e tocou a veia que pulsava em seu pescoço. Ela sentiu que o braço dele lhe roçava os seios, arrepiando-lhe os mamilos.

Ele sorriu como se soubesse exatamente o que estava acontecendo com o corpo dela e mexeu levemente o braço.

- Isto é diferente porque você não o desejava, Orihime. Você me deseja tanto que eu até posso sentir o cheiro. E é por isso que vai concordar.

Ela entrou em pânico e se sentiu sufocar. Esticou o braço e abriu a porta, quase caindo ao sair do jipe. Ele saiu atrás dela e lhe entregou a mala, sorrindo.

- Você sabe onde me encontrar, Orihime. Espero notícias suas. Quero dizer, se estiver interessada em salvar suas terras e em ser honesta consigo mesma.

Ele entrou no jipe e foi embora, provocando uma nuvem de poeira.


Durante quase uma semana, Orihime passou noites insones, abaladas por demônios e pela voz de Ichigo dizendo que ela fosse honesta consigo mesma. Passou longos dias encarando o fato de que, sem recursos, ela e Byakuya nada fariam com o que conseguissem cultivar em uma pequena parte dos vinhedos.

Ela sentia a cabeça girar, repassando a última conversa que tivera com Ichigo e sempre sentindo uma onda de calor ao chegar ao ponto em que ele dissera: "Você me deseja tanto que eu quase posso sentir o cheiro. É por isso que vai concordar." Orihime não podia negar que o desejava e se apavorava à medida que os dias passavam e pela maneira como voltava a pensar nele. Não percebera o quanto se acostumara a vê-lo, a esperar que ele aparecesse. E, quando ele não aparecia, ela não gostava da sua sensação de vazio.

Tentou esquecer a condição da proposta, mas sempre voltava a pensar nela. A ideia de fazer as coisas daquele jeito, com limites claramente definidos, sem falsos sentimentos envolvidos, sem fingida sedução… deveria tornar tudo mais fácil. Quando se tratava de Ichigo Kurosaki, ela era fraca. Ele poderia ter fingido e tentado seduzi-la, e ela teria caído e mostrado os sentimentos ambíguos que tinha por ele. A proposta não deixava espaço para ambigüidades, e ela estaria protegida. Por fim, haveria um desfecho e a porta do passado seria fechada. As lembranças desagradáveis do que acontecera se apagariam e ela poderia seguir em frente.

Orihime bloqueou o fato de que precisaria lidar com Ichigo todos os dias, durante um longo tempo, porque isto tornaria a perspectiva de um final redundante. Enquanto os dias passavam, ela não tinha coragem de pegar o telefone e de mudar irrevogavelmente sua vida.


No fim da semana, tarde da noite, ela estava no escritório e Byakuya entrou, preocupado.

- Estou preocupado com você, com este lugar. Estamos contra a parede, Orihime. Não há nada que você possa fazer. Terá que vender.

- Mas, e quanto a você e Hisana ? - ela o viu empalidecer levemente, mas Byakuya deu de ombros com fingida indiferença.

- Não se preocupe, niña. Podemos nos cuidar. Você não é responsável por nós.

Orihime sentiu a esperança se desmanchar sob um tremendo peso. Sabia o quanto a propriedade devia a Byakuya. Talentoso viticultor, ele fora responsável pela qualidade das uvas, o que permitira que seu pai e seu enólogo obtivessem blends de destaque que os levaram à fortuna. Ela sabia que não poderia dar as costas a Byakuya e a Hisana, e ao seu próprio legado.

- Pode ser que não precisemos vender.

- O que quer dizer ? - perguntou Byakuya, animado. Orihime lhe contou a respeito da proposta de Ichigo, sem mencionar o detalhe que afetava apenas a ela.

- Você vai aceitar, não vai ? - perguntou ele, admirado - É uma chance de salvar o nome dos Inoue… a única.

- É um passo muito grande. Como saberei que posso confiar nele ? - ela sabia que não estava falando do investimento, e sim da possibilidade de dormir com ele, e de Ichigo destruí-la; estava falando a respeito de não poder confiar em si mesma, se desse aquele desastroso passo.

Byakuya se agitou na cadeira e parecia ter envelhecido dez anos.

- O que foi, Byakuya ?

- Na verdade, Hisana está doente, Orihime. Ela precisa de tratamento. Tratamento pelo qual não podemos pagar.

Ela levantou-se e o abraçou. Os olhos dele se encheram de lágrimas.

- Nós não queríamos preocupá-la. Pensamos que a única opção seria vender e nos mudarmos para a casa de nosso filho, em Buenos Aires.

Ela sabia que os dois odiavam a cidade, que suas vidas estavam ali. O filho deles em Buenos Aires não era rico e tinha a própria família para cuidar.

- Vocês não irão a lugar algum. Se eu aceitar o trato com Ichigo Kurosaki, vocês serão cuidados, principalmente Hisana.

- Nós não queremos pressioná-la - disse ele, pegando a mão dela.

- Eu sei, Byakuya - disse ela, inclinando-se para encará-lo - Mas vocês merecem algo por tantos anos de trabalho. No mínimo, merecem cuidados médicos e segurança. E agora eu poderei lhes dar - ela respirou profundamente - Esta noite. eu vou telefonar para Ichigo Kurosaki.

Byakuya apertou a mão dela e Orihime ficou emocionada. Estava feito. Não havia volta. Nem se ela quisesse. Aquelas pessoas eram mais importantes para ela que qualquer preocupação pessoal.


Na noite seguinte, ela estava a caminho da propriedade de Ichigo levando uma mala de mão. Estava tão tensa que ameaçava se desmanchar. Ela respirou fundo: o dia fora tumultuado e cheio de emoções. Na noite anterior, ela telefonara para Ichigo e aceitara a sua proposta, impondo sua própria condição: de que Hisana recebesse o melhor tratamento possível. Ele não hesitara. Havia concordado imediatamente, o que destruíra mais um preconceito que ela possuía a seu respeito. Naquela manhã, ele aparecera com o seu médico pessoal, Hisana fora levada para a melhor clínica particular de Mendoza, e ela vira o alívio estampado nos olhos do casal. Orihime se sentira extremamente emocionada ao vê-los ir embora. E agora se apavorava com o alívio que sentira ao ver Ichigo chegar, e que se misturara a uma intensa excitação. Fora como se não o visse há meses, não dias. Ele aparentava cansaço e ela precisara se conter para não perguntar se estava tudo bem.

- Obrigada por cuidar de Hisana. Era muito importante para Byakuya e para mim.

- De nada.

- E agora, o que acontece ? - ele olhara para ela com uma intensidade que a fizera corar.

- Você vai à minha casa, esta noite. Às oito horas - ele não falara mais nada e se fora.

Ela se concentrou na estrada e tentou não pensar em como seria a noite.


Ichigo andava de um lado para outro do escritório. Não queria admitir que entrara em pânico quando Orihime telefonara, na noite passada. Estivera se sentindo sufocado e não gostara do desespero que havia sentido para vê-la novamente. Odiara não saber o que ela estaria fazendo. Teria ido procurar outro investidor ? Por um milagre, teria arranjado um, sem que ele soubesse ? Ele concordara imediatamente quando ela falara a respeito de cuidar de Hisana. Concordaria com tudo, a não ser que ela renegasse a parte pessoal do acordo: passar uma noite com ele.

Uma noite. Ele parou e olhou para os vinhedos que se estendiam sob o crepúsculo. Uma noite. Seria suficiente. Geralmente era o bastante para que ele se cansasse de uma mulher. Por que com ela seria diferente ? Ele se arrepiou. A quem estava enganando ?

Orihime fora diferente desde o momento em que seus hormônios haviam percebido que ela crescera.

Ichigo passou a mão na cabeça e se voltou. O maço de papéis sobre a mesa era o contrato: resumia tudo o que ele não conseguia dizer sobre a mulher que voltara à sua vida. A mulher que ele desejara mais que o ar que respirava. Ele não havia percebido o quanto ansiava por ela, até ouvir a sua voz na noite passada. E, embora a voz dela estivesse fria, ele pegara fogo ao ouvi-la.

E, quando ele a encontrara naquela manhã… sentira vontade de estreitá-la contra a parede e de possuí-la ali mesmo. O seu desejo surgira como uma fera que lhe rasgava as entranhas.

O contrato significava que Orihime não poderia voltar atrás depois daquela noite e dizer que estivera entediada e que se arrependia do que acontecera. Ela queria muito a sua propriedade e também o desejava intensamente, embora, sem o contrato, Ichigo soubesse que ela poderia negar. Daquele jeito, ela não poderia negar e ele não iria se expor. Nunca mais.

Então, por que, quando olhava para o contrato, Ichigo sentia como se aquelas folhas zombassem dele ?


Orihime olhou com cautela para a grande caixa cor-de-rosa sobre a cama, como se ela fosse lhe dar um bote. Chegara à casa de Ichigo e fora recebida por Kyouraku, que a abraçara calorosamente e a levara para uma suntuosa suíte - como se os dois não soubessem que ela passaria a noite com Ichigo.

- Um presente do señor Kurosaki - Kyouraku lhe mostrara a caixa - Ele a encontrará na sala de jantar às oito horas. Se precisar de alguma coisa, basta pedir.

Ela abriu a caixa, removeu camadas de fino papel vermelho e encontrou o que pareciam ser quilômetros de cetim cinza. Ela levantou o vestido e perdeu o fôlego. Era maravilhoso. Nenhuma mulher ficaria indiferente ao ver algo lindo como aquilo. O tecido era encorpado, mas leve como uma pluma. Sem alças, com um corpete franzido, cintura alta, o vestido caía em camadas até o chão. Dentro da caixa ainda havia mais: sapatos prateados, enfeitados com strass, delicadas roupas de baixo em renda cinza e uma caixa de veludo - onde ela encontrou um par de brincos e um bracelete de diamantes. Algo de frágil se abalou dentro de Orihime ao reconhecer o luxo dos objetos sobre a cama, mas, ao mesmo tempo, Ichigo lhe fazia um favor ao tratá-la como uma amante. Ela só precisaria desempenhar um papel, e talvez se mantivesse intacta e imune à emoção.


Exatamente às oito horas, ela parou junto à porta que uma moça lhe indicara. O vestido se colava às suas pernas. Ela vestira a roupa de baixo porque qualquer outra coisa iria aparecer sob o vestido. As jóias pareciam pesadas e frias sobre a sua pele. Ela colocara o mínimo de maquiagem e deixara os cabelos soltos - principalmente porque as mãos trêmulas não lhe permitiriam fazer nada mais elaborado.

Ela tomou fôlego, bateu na porta e a abriu. O cenário com que se deparou era extremamente sedutor, com uma mesa para dois, à luz de velas. Ichigo estava parado perto da janela, com as mãos nos bolsos, vestindo calça preta e camisa branca, com os cabelos úmidos do banho.

- Você colocou o vestido.

Orihime tentou manter o equilíbrio e engoliu a vontade de lhe dizer que apenas desempenhava o papel que ele queria.

- Sim, obrigada.

- Pode entrar - ele falou sorrindo - Eu não mordo. Prometo.

Orihime sentiu o sangue esquentar ao imaginá-lo mordendo a sua pele sensível. Ichigo falou com um empregado que entrara, esperou que o homem saísse, serviu duas taças de champanhe, ofereceu uma a ela e fez um brinde.

Ela bebeu um gole de champanhe e olhou ao redor da sala.

- O seu lábio cicatrizou bem - observou ele. Orihime olhou para ele e tocou o lábio - Esta noite, você está linda.

Ela sentia uma sensação desconfortável. Não estava acostumada com a gentileza e os elogios de Ichigo, não sabia como se comportar e só podia pensar no quanto ele estava bonito.

- Você também - ela corou - Quero dizer, não lindo, mas bonito - Santo Deus ! Orihime tomou mais um gole de champanhe, pensando que fazia papel de idiota, que ela não era sofisticada. Ichigo não sabia disso ? Para disfarçar, ela perguntou se tinha notícias de Hisana. Ele informou que ainda faziam exames, mas que talvez Hisana tivesse um problema cardíaco - Obrigada novamente. Byakuya não sabia o que fazer, e eles não podiam pagar pelo tipo de tratamento que estão recebendo.

- Eu mantenho um plano de saúde para todos os empregados. Hisana e Byakuya também serão incluídos - disse ele severamente.

Ela desconfiava que Ichigo iria ajudá-los de qualquer maneira, e isso a constrangia. Ela falou amargamente:

- Como eu também serei sua empregada ?

- Sócios, Orihime - ele bebeu o resto do champanhe e fez um gesto para que ela se sentasse à mesa elegantemente posta com talheres de prata e pratos de porcelana. O champanhe começava a borbulhar no sangue dela, deixando sua cabeça leve. A cena a intimidava, principalmente por ele parecer tão sofisticado e à vontade.

Os empregados entraram discretamente e lhes serviram uma sopa leve, mas ela sentia uma sensação claustrofóbica e mal conseguia engoli-la. Os dois estavam fingindo ignorar o elefante na sala: o fato de que Ichigo esperava que jantassem e que depois fizessem sexo. Ela não conseguia imaginá-lo sem aquela expressão séria, e o seu desejo de permanecer distante se dissolvia rapidamente. Enquanto os empregados entravam e tiravam os pratos, ela sentia calor e se agitava.

- Você está bem ? Parece febril.

A maneira como ele perguntou, sem emoção, fez com que ela sentisse vontade de gritar que não estava bem. Orihime se levantou abruptamente, sacudindo a mesa e causando um ruído de copos que batiam. Ela se apoiou na mão trêmula e percebeu como estava agitada. O brilho dos diamantes no seu braço parecia queimá-la.

- Eu não posso fazer isso desse jeito, fingindo que é normal, quando não é.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 8.