Capítulo 7 – Destino
Seus pés descalços debilitavam os seus passos que já estavam fracos desde que despertara. Andar viera naturalmente ao seu corpo, porém a pressa que tinha em sair daquele vilarejo fazia com que seu caminhar possuísse a mesma elegância do de uma criança camponesa. Seria mais fácil se eu pudesse voar, lamentou. Quanto mais se afastava daquelas casas, mais o ar ao seu redor voltava a se estabilizar. O vento criado pela energia que emanara ainda a perseguia, brincando gentilmente com suas madeixas soltas, mas agora sua intensidade era menor, provavelmente por sua raiva estar se dissipando e abrindo espaço para um sentimento novo.
Qualquer olhar ou julgamento que tivesse recebido de humanos, não lhe dava o direito de ter deixado Rin daquela forma, sem ao menos despedir-se da menina. Kagura não tinha intenção de voltar e corrigir o seu erro, no entanto não podia evitar o peso que o seu coração carregava.
- O pequeno youkai deve estar satisfeito agora que já não sou mais uma preocupação dele – Permitiu-se rir com o pensamento exteriorizado.
Provavelmente eles a procurassem por um tempo e então voltariam às suas rotinas. Claro que eles teriam que explicar ao Sesshoumaru o que aconteceu com ela quando ele retornasse, porém esse não se importaria com o ocorrido e em pouco tempo ela não passaria de uma lembrança passageira como o vento e estranhamente essa constatação lhe trouxe conforto.
Para Kagura era reconfortante saber que ela era livre em suas escolhas, não possuindo nenhuma responsabilidade que a prendesse a algo ou a alguém.
Eu sou livre, livre como o vento. A frase ecoou em sua mente e seus pés recusaram-se a dar mais um passo adiante. Em uma atitude impulsiva, virou-se sobre os calcanhares para a direção em que estava vindo e observou o vilarejo de onde saíra.
Ela subira na colina, no sentido oposto onde ficava a floresta e podia ter uma visão clara da vida que corria ali. Uma voz dentro de si dizia que aquilo não lhe pertencia. Pessoas dependendo de pessoas para construírem algo deveria ser natural para os humanos, entretanto não para os youkais como ela. O sentimento de pertencimento não lhe cabia, como a roupa que Rin lhe emprestara. Por mais que a estampa fosse bonita ou o tecido bom, lhe faltava caimento e comprimento. O quimono verde que usava podia ser inferior, mas servia melhor ao seu corpo.
- Ridículo, não é? – Uma voz feminina soou ao seu lado.
Estava tão absorta em suas emoções e pensamentos que não notara a presença que lhe fazia companhia.
- Eles cultivam a terra e fingem viver em uma falsa harmonia. Desperdiçam suas vidas efêmeras em um ciclo vicioso de insatisfação e mediocridade – Lamentou-se a figura – Os humanos são patéticos.
A moça que se fizera notável possuía cabelos longos e lisos de tonalidade negra, amarrados em um elaborado penteado, sua pele era pálida e seus olhos púrpura. Sua beleza era acentuada pela maquiagem pesada que trazia nos olhos e nos lábios, os definindo e ressaltando. Como se somente isso não fosse o suficiente para ressaltar seu alto nível, o quimono que vestia era feito de seda branca em degradê arroxeado que começava a baixo de sua cintura, com um rico bordado de pássaro em fios de ouro que cintilavam ao sol. Agora que Kagura tomara consciência da mulher, ela pôde perceber pela energia que a outra emanava que ela não era humana.
- Que indelicado da minha parte – A mulher que trazia as mãos ocultas nas mangas de sua vestimenta, exibiu uma delas ao abrir um leque de seda dourado com folhas brancas pintadas, ocultando metade de seu rosto enquanto flexionava o joelho direito em um cumprimento cordial – Prazer em conhecê-la, me chamo Akemi.
- ...Kagura - Cumprimentou hesitante, porém sem trocar reverência com a mulher.
- Entretenimento Divino... – Akemi sussurrou ao falar o significado do nome de Kagura, permitindo que um sorriso divertido formasse em seus lábios – O destino deve ter unido os nossos caminhos, Kagura-San.
- Destino, você diz, huh? – Kagura retrucou o sorriso de canto de lábios, cruzando os braços em desconfiança.
- Você não acredita em destino? – Ponderou a mulher.
Destino... O significado daquela palavra lhe era abstrato, tornando difícil atribuir credibilidade em algo que estava além de sua compreensão.
- Não – Negou, fazendo Akemi rir.
- Então realmente o destino nos uniu, para mostrar que as coisas que acontecem em nossas vidas não são obras do acaso – Determinada, a mulher virou as costas para Kagura – Gostaria de me acompanhar ou tem algo melhor para fazer?
Kagura mordeu o lábio inferior, questionando suas ações.
De fato não havia nada melhor para fazer, porém seguir uma desconhecida não parecia ser algo sensato. O que tenho a perder? Não possuía nenhum bem além do que trazia no corpo e nenhuma direção a seguir além daquela que o seu coração mandava e, no momento, tomada pela curiosidade, o seu coração desejava saber um pouco mais sobre o que o tal de destino lhe reservava.
- Contanto que não tenha humanos no caminho, aceito a oferta – Comentou, virando-se na direção de Akemi.
- Neste caso, fico feliz em ter sua companhia. No Palácio do Céu Estrelado a presença de humanos não é bem-vinda – Tomando a mão de Kagura na sua, prendeu-a em seu braço e iniciou a caminhada.
- O que é o Palácio do Céu Estrelado? – A pergunta de Kagura fez com que a mulher inflasse o peito de orgulho para respondê-la.
- Um santuário para youkais apreciarem o que realmente importa na vida: a beleza – Percebendo que sua companheira permaneceu confusa, continuou com a explicação – Nós trabalhamos com as artes: música, dança, teatro, bordado, artesanato, pintura, caligrafia, culinária e cerimônia de chá. Uma vez por mês a cada primeiro dia da lua cheia nós abrimos nossas portas para visitantes. A próxima visitação será daqui duas luas, o que significa que teremos tempo o suficiente para encontrarmos uma função para você.
- Você quer dizer um trabalho para mim? – Indagou.
- Sim. Você é bem vinda para se juntar à nós, porém terá que provar o seu valor. Você possui uma beleza única que não está sendo bem aproveitada e também tem as mãos finas, o que indica uma sensibilidade para aquilo que mais apreciamos. Com toda a certeza será uma aquisição muito bem avaliada no Palácio do Céu Estrelado.
A ideia de pertencer à algo não lhe soava agradável, no entanto conhecer um pouco mais sobre os valores dos youkais como aquela mulher lhe chamava a atenção. Independentemente de qualquer coisa, não parecia estar fazendo um mal negócio e estava disposta à arriscar-se nessa transação. Em sua concepção, pelo menos ela não seria menosprezada por não ter origem humana.
