Precisamente às 18h, Draco terminou de juntar suas coisas e se dirigiu a saída do hospital. Passando pela recepção avistou uma figura de cabelos pretos sentada de qualquer jeito na cadeira, parecendo entediada.
– Vejo que não se atrasou dessa vez. – disse Draco quando se aproximou.
– Como assi... – começou Harry e então se lembrou: Draco estava se referindo ao encontro que eles haviam tido, no qual ele chegara atrasado. Corando, justificou. – Eu só cheguei atrasado aquele dia pois o caso em que estávamos trabalhando demorou mais do que deveria. Normalmente eu sou pontual.
– Hm. – Draco limitou-se a responder, cético.
– Eu vi que tem um bar ali no final da rua, o que acha de irmos para lá conversarmos? Podemos aproveitar para comer alguns petiscos e tomar alguma coisa. – sugeriu Harry.
– Aquele bar é péssimo. – disse Draco.
Não pretendera ser rude, era apenas uma constatação por experiência própria, mas, vendo a expressão de Harry, percebeu que era exatamente daquela forma que o moreno havia interpretado e, por isso, tomou a iniciativa de sugerir outro local.
– Por que não vamos no OutBar? É bem mais aceitável do que o do final da rua e só alguns passos mais longe.
– Tudo bem. – concordou Harry, não tinha muito o que fazer depois de sua sugestão ter sido negada tão veementemente.
Eles seguiram em silêncio até o bar, ambos sem saber como, e nem se deveriam, iniciar uma conversa. Draco cumprimentou o atendente do bar com um aceno de cabeça e eles se dirigindo para os fundos, sentando em uma mesa escolhida por Harry por estar próxima a janela.
– Senhor Draco, – cumprimentou o atendente animado quando foi anotar os pedidos. – vejo que está com uma companhia diferente hoje! O que vão querer?
– Boa noite John. – disse Draco educadamente – Uma cerveja amanteigada para mim e...
– Para mim também. – completou Harry.
– Ótimo! Lucy irá trazê-las em um instante. Se precisarem de alguma coisa você sabe onde me encontrar.
– Obrigado. – agradeceu Draco.
John se afastou da mesa para pegar o pedido e Draco pode notar o olhar questionador de Potter.
– O que? – perguntou Draco.
– Com que frequência você vem aqui? – perguntou Harry em tom espantado mas que Draco podia jurar ter alguma preocupação.
– Encontro com meus amigos toda quinta-feira. – respondeu Draco, e Harry não pode deixar de notar que ele parecia nunca responder diretamente as perguntas que lhe eram feitas, falava apenas o que queria.
– Ah.
– Por quê?
– O atendente te conhece pelo nome. – disse Harry dando de ombros.
– John é... sociável. Gosta de conversar e sabe o nome de quase todos os clientes.
– Ele parece simpático.
Eles foram interrompidos por Lucy que havia chegado com as bebidas. Draco, que não tinha muita paciência para ficar mantendo conversa fiada, resolveu ir direto ao assunto quando a atendente se afastou.
– Então, o que o eu devo ensinar?
– Oi? – perguntou Harry confuso pela súbita mudança de assunto.
– No curso. Gostaria de saber o que deve ser ensinado.
– O curso é seu, você pode ensinar o que você quiser. – disse Harry com um sorriso que longo desapareceu quando viu Draco fechar a cara.
– Você disse que iria me ajudar. – pontou Draco, irritado.
Harry tomou mais um gole de sua cerveja antes de continuar. Ele realmente pretendia ajudar no que conseguisse, sabia que o tempo era curto, apenas quisera mostrar para Malfoy que ele teria a liberdade de escolha, mas claramente não tinha sido essa a mensagem entendida.
– Eu vou te ajudar em tudo que eu puder, mas você é o curandeiro, você que sabe o que pode ou não ser ensinado. – explicou Harry de forma paciente, estava aprendendo que, ao lidar com Malfoy, era melhor ter calma.
Draco odiava que falassem com ele daquela forma, explicando as coisas como que para uma criança, mas, de alguma forma, quando voltou a falar, a maior parte da irritação anterior havia se dissipado.
– Você tem alguma sugestão de por onde começar?
– Pensei que você poderia reforçar o que é dado no curso de auror, para começar mais tranquilo. – disse Harry, se animando novamente. – Alguns dos caras já estão lá a tanto tempo que já devem até ter esquecido a maioria das coisas.
– E o que exatamente é ensinado? – perguntou Draco, conjurando pergaminho, pena e tinta para fazer anotações.
– Bem, como eu disse naquele dia, aprendemos sobre curativos simples, como colocar bandagens ou talas, apenas para não ter uma piora até chegar no hospital. Acredito que essa seria a principal ideia do curso, não deixar com que os ferimentos piorem. Também nos ensinam sobre as poções que estão no kit básico, que em geral é levado para as missões. Se você pudesse até atualizar o kit seria ótimo, ele deve ser o mesmo há uns 20 anos pelo menos, posso conversar com meu chefe sobre isso.
– Uma coisa de cada vez, Potter. – disse Draco.
Lendo rapidamente o que havia anotado, resolveu que já tinham o suficiente para discutirem, um ponto de partida. Conversaram por horas naquela noite, parando apenas para pedir comida e mais algumas cervejas e, depois, para jantar.
O curso teria duração de uma semana e ocorreria de segunda a sexta das 18:15 às 20:15. Era um período curto, 2 horas de aula, por isso eles decidiram que o primeiro dia seria dedicado a curativos, bandagens e talas e deixariam para falar de poções no segundo dia.
Já eram quase onze horas quando, exaustos, eles resolveram que já haviam trabalhado o suficiente por um dia e foram se despedir.
– Realmente acho que esse curso vai ser ótimo! – disse Harry enquanto vestia a capa para saírem.
– Um pouco convencido você dizer isso quando está participando da organização não?
Ao contrário da vergonha e do rubor, quase sempre presente na face do moreno, que Draco esperava, ele encontrou um largo sorriso. Harry estava feliz pelo clima agradável entre eles, mesmo que viesse acompanhado de pequenas provocações como aquela.
– Estou tentando te elogiar Malfoy, aceite. – disse Harry, sem perder o sorriso.
– Sendo elogiado pelo salvador do mundo bruxo, quanta honra! – disse Draco irônico.
Harry limitou-se a revirar os olhos e, quando já estavam saindo do bar, perguntou.
– Quando você quer encontrar novamente?
– Preciso do kit básico de poções dos aurores o quanto antes, para poder avalia-lo. – disse Draco.
– Amanhã? – sugeriu Harry.
– Não posso, tenho compromisso.
– Parkinson e Zabini? – perguntou Harry.
– Vou almoçar com minha mãe. – respondeu Draco. Não gostava de falar da sua vida pessoal mas parecia que Potter iria sempre fazer mais e mais perguntas até ficar satisfeito.
– Estava pensando mais no final do dia, pois também tenho um almoço. Vou almoçar n'A Toca e devo deixar Teddy na casa de Andrômeda umas 17h. Eu tenho um dos kit na minha casa, se você quiser passar lá.
Ao contrário de Malfoy, Potter parecia não ter nenhum problema em ser um livro aberto. Parecia falar o que pensava, quase que sem filtro, mas de uma forma boa, honesta. Mesmo já conhecendo esse traço da personalidade do moreno, Draco não deixou de se surpreender com o convite e respondeu do único jeito que conseguia quando era pego desprevenido: com sarcasmo.
– Acho que ainda não chegamos nesse ponto de intimidade no relacionamento, Potter.
– Esse já foi o nosso segundo encontro, Malfoy. – disse Harry entrando na brincadeira, para a surpresa de Malfoy – Não sabia que você era tão conservador.
Aquele era o jogo de Draco; ser irônico, provocar. Se Potter queria jogar, melhor que estivesse pronto para perder.
Já estavam do lado de fora do bar, em um local onde poderiam aparatar, e Draco ainda não havia falado nada. Queria deixar o moreno pensar que o havia deixado sem graça, pensar que tinha vencido, e o pegar desprevenido.
Potter procurava alguma coisa em seus bolsos e Draco aproveitou a oportunidade para se aproximar. Apoiou suavemente a mão no ombro de Harry, fazendo-o levantar o olhar, surpreso com o toque.
– Mal posso esperar pelo nosso encontro amanhã. – disse Draco com um sorriso sedutor.
Harry continuava paralisado, com os olhos levemente arregalados, sem conseguir disfarçar a surpresa. Draco aproveitou o momento para chegar um passo mais próximo. Esperou um segundo, dois. Não obteve reação.
Já havia conseguido o que queria, Potter estava em choque, mas decidiu que iria mais longe. Uma última jogada. O salvador do mundo bruxo iria aprender a não provocar Draco Malfoy.
Aproximou-se mais e depositou um beijo de despedida na bochecha de Potter, demorando-se mais do que o necessário.
– Boa noite. Harry. – disse Draco em tom baixo enquanto dava dois passos para trás e aparatava.
Sua última visão antes de desaparecer foi de Potter com a boca entreaberta e as sobrancelhas quase desaparecendo nos fios negros, de espanto, o rosto extremamente vermelho e com os dedos tocando a bochecha, no local onde, instantes antes, os lábios de Malfoy estiveram.
Aquela era uma imagem que Draco não iria esquecer.
